sábado, 23 de janeiro de 2021

UMA EXPLICAÇÃO DAS ESCRITURAS

Cora Richmond, 13 de Dezembro de 1863

O comité eleito para seleccionar o tema do discurso da noite, submeteu os seguintes versos do décimo primeiro capítulo de São João:

23. Disse-lhe Jesus: "O teu irmão vai ressuscitar."
24. Marta respondeu: "Eu sei que ele há de ressuscitar na ressurreição do último dia."
25. Disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá;

26. E quem viver e acreditar em mim, jamais morrerá. Crês tu nisso?"

Discurso

A porção significativa da passagem que acabaram de citar é, sem dúvida, a resposta dada por Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que acreditar em mim, ainda que morra, viverá; e aquele que viver e acreditar em mim jamais morrerá.” Sob as circunstâncias em que foi proferido, quando era do conhecimento de Jesus que Lazaro não estava morto mas dormia; e sob as circunstâncias ligadas a toda a passagem, pode parecer um tanto singular. Mas não o é quando levamos em consideração Cristo e a sua missão particular -- aquilo que ele dizia ser e aquilo que ele realmente era. Não basta que nos seja dito que Jesus Cristo foi o Salvador; não é suficiente que compreendamos o que significa a salvação, e que tenhamos intérpretes e comentadores em abundância que nos digam aquilo que ele não disse, e exponham acerca da sua missão de acordo com as próprias ideias que têm.

Se chegarmos a aceitar a passagem, precisaremos aceitar as próprias palavras registadas nela. Cristo alega ser aquele que revela a verdade. O próprio nome dele significa o homem de Deus, o que revela a verdade. Não Jesus enquanto pessoa, nem enquanto o homem que conheceu Marte; nem Jesus que ressuscitou o irmão dela dos mortos; não a forma do homem que lhe falou a ela, nem a forma que foi crucificada no Calvário, mas Jesus o revelador da verdade. E quem duvidará que aqueles que acreditem na verdade, embora possam estar mortos, no corpo ou fora do corpo morto, viverão, e que aqueles que creem jamais morrerão?

A verdade é imortal, e aquilo que se aplica à imortalidade, nem a morte nem o tempo podem tocar, e aquele que crê nessa verdade, e a segue, acreditando expressamente nela, e não professe meramente fazê-lo, não poderá morrer nunca; pois sobre ele a morte não exerce o menor terror. Não pode porventura querer dizer que aqueles que acreditassem em Jesus jamais viessem a largar o corpo mortal, porque todos os seus seguidores, até ao presente, devem passar pelo que é chamado morte. Não pode querer dizer que aqueles que acreditam em Jesus não devam experimentar a mudança física. As palavras dele querem dizer algo mais profundo do que isso, que só pode ser compreendido pelo significado espiritual da missão de Cristo na terra. Não será de supor que todas as leis naturais pudessem ser postas de lado, que todas as formas físicas devessem simplesmente existir para todo o sempre por as pessoas acreditarem em Jesus. Acreditar na verdade é superar o medo da morte, consequentemente, superar a própria morte. Para aqueles que compreendem a verdade, não existe morte. Não há nada porque a morte exerça qualquer terror, excepto para aqueles que têm receio e não conseguem perceber a luz.~

A missão de Cristo foi a de pregar a doutrina do amor e dar o exemplo desse amor pela humanidade em todos os actos e obras; realçar que não existia morte; suscitar o amor, e mostrar que para além da sepultura existia imortalidade; ensinar pela sua vida e exemplo o caminho para essa imortalidade, ou um conhecimento dela, e desse modo furtar a morte aos eus terrores, tal como furtou a natureza humana aos seus pecados; apontar o caminho da salvação do homem dos seus pecados, e conduzi-los e uma vida mais elevada e nobre; e ser a ressurreição e a vida.

Assim, não os guiamos ao cristo, não os guiamos ao Getsémani, não os conduzimos sequer à humilde manjedoura em que Jesus nasceu -- guiámo-los ao que revela a verdade, e dizemos, “Ai reside a vossa salvação. Vocês têm adorado ídolos. Prestam culto à luz sagrada que foi vista no ocidente; aos milagres singulares que Cristo realizou; me última análise e em conclusão prestam culto ao Calvário. Aí levam todas as vossas lágrimas e mágoas, todo o vosso arrependimento e pecado, supondo que na cruz somente realizou Jesus o objectivo da sua visita terrena. Que estranho, quando toda esta vida não passou de um sinal de inspiração, e em que toda a palavra e expressão registadas como tendo sido proferidas por ele foi uma exemplificação do objectivo e propósito da sua missão na terra.

Ele diz: “Eu sou a ressurreição e a vida;” porém, não “Eu” conforme vocês dizem, nem “Eu” no sentido físico, mas “Eu” no sentido do que revela a verdade. “Acreditando nessa verdade, embora possam ter morrido, viverão.” Não os verão a todos ao vosso redor mortos, os que receiam a sepultura, os que evidenciam horror à mera menção da morte, os que concebem que é uma cabeça de górgona (...) repleta de terrores? Encontram-se mortos os que não têm concepção alguma da vida imortal; os que não encaram a beleza nem a luz da ressurreição, e tampouco compreendem a verdade; os que não aspiram à vida imortal, nem anseiam pelo grande além; os que numa fria incerteza seguem na vida. Os mortos andam no vosso seio a cada dia que passa. Nós encontramos e passamos os cumprimentos da época àqueles que não encaram a vida.

Hão de viver os que estão mortos em espírito e alma no que concerne à vida, e os que não possuem conhecimento, inspiração, ideia de aspiração àquela imortalidade que os aguarda. Não viverão aqueles que conhecem a verdade, que sentem o ditoso despertar dos impulsos imortais, que entendem a consciência da vida eterna, que sentem que nem toda a forma material não compõe a vida, e que sabem que a verdade é eterna e vive para sempre? E aqueles que acreditam alguma vez hão de morrer? Certamente que não, porque para eles não existe morte. É um mero despir de uma veste usada. Não morrerão aqueles que acreditarem nele -- ou seja, na sua verdade, verdade essa que é a consciência da imortalidade, a ditosa evasão da sujeição da morte terrena, a libertação de todo pecado.

A morte, no significado usual, é quando o corpo é colocado no repouso, ou para se decompor na sepultura, e quando a forma amada jaz imóvel e fria; quando não há nenhuma voz que responda que lhes devolva os vossos próprios timbres, e quando a face e o olho e a boca deixam de responder à vossa voz do amor. Aí trata-se da morte -- quando o lar e a cadeira ficam de vago, quando o lar fica desolado, quando nada há o que senta e conceba e experimente o vosso amor. Porém, se essa hora for de trevas para vós, se eles tiverem acreditado n’Ele, não estarão mortos, mas viverão em maior verdade do que antes. Para eles a morte não terá tido terror. Eles descartaram a velha forma como vós despis uma veste velha, e como a borboleta irrompe da sua crisálida e se lança no ar. Isso não é morte.

Há aqueles de vós que estão mortos. Vocês veem-nos todos os dias. Falam com eles. Não são os que concebem estar mortos -- que se encontram de bom grado e livremente despertos na sua nova consciência -- mas são o que vocês chamam de seres viventes que raciocinam, falam, comem, etc., e que vocês dizem que estão vivos. Mas toquem-lhes, e procurem encontrar-lhes a alma, o espírito, a consciência mental, e vê-los-ão mortos -- sem pulsação e sem reacção. Perguntem-lhes sobre a imortalidade, e dir-lhes-ão que a não compreendem Falem com eles acerca da verdade, e não passará de uma visão, de um sonho. Falem-lhes sobre impulsos religiosos e eles nada mostrarão saber sobre isso. Eles não têm existência nem conhecimento de Deus na alma, nem de nada excepto do mundo e do todo-poderoso dólar, e essa gente encontra-se morta e na sepultura, no que toca a qualquer consciência da vida. Elas caminham, é verdade, mas é o caminhar do morto vivo.

Depois há outros géneros de morte -- daqueles que se encontram no desespero, que foram conduzidos à beira da loucura, cujas almas afundaram com a injustiça, que não acreditam em nada que se relacione com Deus nem no homem, e para quem todo o raio de luz não entra. Há outros que estão mortos de uma forma diferente -- que foram tão longe nos caminhos do pecado que parecem não ter consciência nenhuma do correcto nem nada que se pareça, e esses encontram-se mortos no que diz respeito à consciência disso. Mas por essa verdade, esse poder do amor de Jesus, a docilidade persuasiva do espírito de Cristo, também esses poderão viver.

Depois há aqueles mortos que pensam estar vivos, mas que se encontram absolutamente em sepulcros, que escutam o som dos ossos dos mortos, que andam por aí com eles presos à mente, que revêm a toda a hora nas suas mentes os esqueletos da verdade em vez da própria verdade, que aproveitam tudo após a vida ter perecido, e que literalmente acreditam naquilo que se esfarelou em pó. Olham para o passado como se ainda estivesse vivo, ao passo que o presente não tem qualquer existência; e esses estão mortos. Eles veneram a forma da morte, e curvam-se diante desses esqueletos, e levam-nos consigo para onde quer que vão, e jogam-nos na vossa cara e dizem: “Aqui está a verdade,” quando na realidade eles estão mortos.

E habitualmente os homens falam de bondade e de verdade e amor, e do espírito de Cristo, quando nada sabem do que falam. Depois há outros que se encontram parcialmente mortos, não completamente, cujos poderes mentais e morais mal parecem ter vida, e que possuem uma fraca cintilação de vida. Sobre esses a verdade poderá recair, e porventura despertá-los para uma consciência superior, para que essa morte signifique que não se encontram cientes da vida, da verdadeira vida, e da vida real, acima e superior às formas circundantes que devem desvanecer-se. Se vocês estiverem vivos somente por possuírem corpos materiais, então bem que poderão considerar que estão todos mortos. O corpo deve morrer -- não há como escapar a isso, evadir-se. E aí devem ter alguma outra vida, alguma outra esperança, alguma outra confiança.

É uma questão da maior importância se chegarem a pensar nisso -- estar vivo, não morrer nunca, jamais sentir o temor da morte a rastejar por vós acima, jamais recear passar para o vale da sombra da morte, jamais recear saudar a luz que precede a manhã do dia eterno, jamais sentir a mais leve, sombria, persistente dúvida na vossa mente quanto à verdade da existência imortal; mas sentir-se forte, claro e firme na verdade, e confiar nela, crer na ressurreição e na vida, acreditar n’Ele, o que diz a verdade e o exemplo disso. É algo maior do que inicialmente imaginavam. É muito fácil dizer, “Eu acredito, eu venero, eu adoro;” mas quando a morte chega, quando Jesus coloca a mão sobre o corpo, quando a sombra começa a rastejar sobre a visão -- sentir-se então forte na vida e na consciência da existência eterna, saber que a verdade está convosco e que viverão eternamente -- é uma fé maior do que a que a maioria dos Cristãos possui.

Lamentamos que assim seja, mas quando vocês dizem que acreditam no Salvador, em quem é que acreditam? Acreditarão simplesmente que a história que é dada seja verdadeira? Isso não os há de salvar. Acreditarão que ele foi crucificado e que derramou o seu sangue pelos pecados do mundo? Isso não os há de salvar. Acreditarão simplesmente que existe um Deus, e que Cristo deu um exemplo da sua doutrina, para que o mundo fosse salvo? Isso não os há de salvar. Mas se acreditam na verdade, e sabem que são imortais, então isso há de salvá-los do medo da morte, da consciência controladora de que porventura irão ser aniquilados para sempre, para os poupar às labaredas do fogo -- ou seja, ao tormento interminável; salvá-los dessas sensações que os acometem quando estão na dúvida -- então estão a salvo, então jamais morrerão.

Pensem nisto -- não pode existir morte para a alma. Ela vive, e há de viver para todo o sempre; mas esta morte em vida, esta inconsciência da vida, esta existência sombria e irreal em que vocês estão viventes, essa é a morte de que Cristo falou. “Embora possam estar mortos,” -- ele não disse que estavam mortos. Ele disse: “Aquele que acreditar em mim, ainda que possa estar morto.” Bom, o que poderá parecer estranho é, como poderia alguém acreditar se toda a consciência estivesse morta. Ninguém poderia acreditar se a alma estivesse morta. Não deveria haver nada em que acreditar, nada de que tomar conhecimento; não deveria haver pensamento nem razão. A vida espiritual condena essa morte viva a que vocês chamam experiência. Aqui estão todos, sepulcros vivos, por viverem em meio ao que não tem vida e se encontrarem mortos para aquilo que é vida, estarem adormecidos para a vossa existência real, e pensarem que um sonho seja a realidade.

Pela manhã vão para os vossos empregos, e chamam a isso vida. Cruzam-se com o vosso semelhante e procedem aos negócios habituais desta vida, e dizem: “Quão bela não é a vida!” e “Que enfadonha!,” “Quão cansado estou da vida.” Quando saciam o prazer, quando a mente se cansa com toda esta existência externa fugaz que se some; porque não poderão dizer, “Estou cansado da morte, e quero viver;” porque não dão expressão àquilo que é verdade? -- porque este prazer que experimentam hoje amanhã desvanece-se. O prazer traz dor. A sedução do prazer, da riqueza, da reputação, encontra tudo um fim na sepultura, e o corpo que adornam e embelezam, que sonham ser a porção mais importante da existência, que na vossa estranha opinião constitui toda a vossa vida -- isso deverá desfazer-se de volta em pó.

E quando têm consciência de todas essas alegrias e prazeres passageiros, quando fama e fortuna e até mesmo os prazeres se desvanecem, quando as flores da Primavera murcham, quando a folhagem das árvores se vai, quando todas as esperanças e aspirações humanas e expectativas se desvanecem, quando a fama não passa de uma bugiganga, e a ambição orgulhosa os influencia para a destruição; quando as folhas dos louros lhes ardem na testa, e não têm mais coisas terrenas a conquistar, e fracos, cansados e a esvair-se dizem: “Ah, que venha a morte,” porque não dizer: “Que venha a vida”? Não terá sido a alma que foi sepultada? Não terá sido o espírito que espera romper a barreira? Não será a verdadeira existência que tem vontade de viver? E na realidade essa vida exterior decadente não será uma morte?

Vocês sonham com coisas muito elevadas, têm vislumbres da vida superior, e dizem que isso não passa de sonhos. É uma realidade. Vocês vivem num sonho todos os dias. Caminham no vosso sono, absolutamente mortos no vosso pensar e agir aqui, quanto o espírito está vivo, mas mais tarde ou mais cedo emplumará as suas asas e partirá destes interesses enfadonhos, monótonos, frios, da vida. Lembrem-se então que, embora mortos, ainda assim viverão; porque, quando a supremacia da verdade atinge a alma, ela desdobra-se por si só qual flor, e por fim brota na vida refulgente. Lembrem-se que para a alma não existe morte; não há morte para o espírito. Ele vive para sempre, e na exacta proporção em que acreditar na verdade, assim continuará a viver.

Por conseguinte, ao expressar esse sentimento, Cristo não pretendia que a humanidade lhe colocasse todos os seus pecados em cima, e que associassem a ele individualmente toda a importância da existência; mas que dessem simplesmente a importância devida a toda a verdade à sua verdade e à elocução das linhas referidas. Morto! Eu cá creio que posso contar entre o meu auditório muitos que podem estar mortos, que tenham estado mortos, ou que hoje estejam mortos para com todos estes sentimentos refinados, santos da vida espiritual -- que, se interrogados se estão vivos, responderão: “Sim, o meu corpo encontra-se com vida; quer dizer, eu estou vivo, pois caminho e penso e como e bebo e movo-me.” Mas, será a isso que chamam vida? Ora, isso é morte. Amanhã, poderá ser que tenham vida, quando o vosso corpo estiver na sepultura, ou quando despertarem para a consciência da verdade; poderá ser que tenham vivido antes de a vossa forma ter falecido. Talvez um raio de verdade, uma consciência da vida imortal, algum sonho de uma existência superior da alma possa ter penetrado na vossa consciência, e vocês possam viver.

Talvez conhecem gente que tenha vivido através das grandes mentes da era. Elas têm génios, e isso fica-lhes nas mentes e na consciência até que vivam, e levem a era a viver a impetuosa grandeza das suas ideias. Alçam-se às alturas dos montes, e deixam os que estão abaixo a interrogar-se se deveriam aventurar-se me tais vertiginosas alturas; mas eles atraem o mundo a segui-los; e esses são os homens que vivem.

O génio, qual pássaro orgulhoso, mergulha as suas asas nas águas da terra somente para poder pairar no alto na luz do sol e brilhar com mais beleza. Mas existe vida em todos os corações; vida que se acenderá numa chama, e com o seu poder e perfeição, liderar todo espírito em frente. Vocês não sabem como o mundo se encontra morto. Não têm noção da quantidade de sepulcros vivos se encontram no vosso meio. Não têm consciência da vida que possuem. Aceitam o seu símbolo e chamam-lhe vida. Quando choram ante o afastamento dos amigos amados, eles nascem para a vida; mas eles deviam chorar por vós, e não vós por eles. Se devesse haver luto, devia ser entre os anjos, por vocês estarem mortos; não entre vós, por eles estarem vivos. Tal é o facto. Quando a morte desperta a alma da morte do corpo, geralmente desperta-a me toda a inteira consciência clara e calma da vida.

Mas há algo para expiar e compensar por isso; porque através da estagnante atmosfera e das trevas da vida terrena vocês têm vislumbres desse ser, e as vossas almas emitem ocasionalmente uma radiação dos pensamentos da verdade e justiça e amor que cintila e vocês realmente vivem. Nós dizemos-lhes quando é que vocês vivem. Quando a dor e o sofrimento humano despertam a compaixão; quando vocês se sentem solidários com as alegrias dos outros; quando vocês riem por os outros estarem contentes e alegres, e misturam as vossas vozes com as suas perdas; quando vertem lágrimas de compaixão por aqueles que estão de luto -- porque aí ostra que a alma não está inteiramente morta.

Vocês estão vivos quando levam o vosso irmão pela mão, e o conduzem ao caminho da virtude, se ele se tiver desviado. Vocês estão vivos quando têm grandes, boas e salutares ideias e as partilham com a humanidade. Vocês estão vivos quando empreendem os vossos deveres diários, não como se eles fossem vida, mas auxiliares da vida. Há alguns que mourejam na mesma existência terrena, e que pensam sempre na mesma esteira, sem passarem nunca além. Enquanto outros há que acatam a luta e a carregam até ao topo da montanha -- e esses vivem.

(A desenvolver)

AS FONTES DO CONHECIMENTO HUMANO - CORA RICHMOND

 PROFERIDO EM NOVA IORQUE, 17 DE MARÇO DE 1857

 “Será o conhecimento do ser absoluto, da lei moral, e da natureza e destino da alma, adquirido pelo aperfeiçoamento natural da mente, ou derivará ele da intuição e revelação de Deus?”

O tema apresentado à nossa consideração nesta ocasião é, em substancia, como se segue: “Procederá o conhecimento que o Homem possui da lei moral do cultivo externo ou educação, ou procede da intuição e da revelação de Deus, ou vem de Deus?”

Vamos esforçar-nos primeiro por explicar, tão resumidamente quanto possível, as relações que o homem tem com a Divindade, externamente, por meio das leis da Natureza e internamente, por meio das leis da revelação. No mundo físico, todas as diversas formas de estrutura, as combinações e desenvolvimentos da matéria, nunca produziram nada na forma de uma existência viva superior ao homem. Jamais, desde o primeiro alvorecer da inteligência na mente humana, encerrada num corpo humano, uma forma de existência superior ao homem surgiu na terra.

Antes desse período, a ciência dir-lhes-á que foram produzidas diversas formações, detentoras de funções cada vez mais elevadas; que no início havia apenas minerais, mas que a vida vegetal e animal foram sucessivamente criadas; e que a vida mineral, vegetal e animal, concentradas na forma humana, produziram no homem o âmago da criação física, o divino e glorioso máximo da matéria.

De onde procederá esse máximo? De onde virá essa divina beleza e glória? Onde estarão as causas da eliminação? De onde emanam a matéria, a vida e o ser? Ninguém é capaz de responder. O homem de ciência pode investigar as leis físicas das forças e da atracção -- pode estudar a estrutura anatómica do Universo -- pode analisar a composição da matéria; mas a primeira, maior e mais poderosa causa, aquela que forma e governa o princípio vivo e movente, está além da sua capacidade de descoberta. Foi deixada a quê?

Não à ciência externa; esta pode analisar para sempre, em vão. Não à educação exterior; que bem pode eternamente construir teorias sobre factos, e nunca chegar aos primeiros princípios desses próprios factos. A inteligência é conferida apenas ao homem. O homem, apenas, possui oportunidades e poderes para adquirir conhecimento. Os animais inferiores não raciocinam; eles não analisam a vida seja inferior a eles, não aspiram à vida superior a eles; eles buscam apenas aquilo que lhes promove a própria existência. Além disso, eles não manifestam aspirações a beleza nem glória.

Depois, na criação externa, não há manifestação de vida, excepto as forças instintivas da vida animal; nenhuma manifestação de aspiração, excepto as forças instintivas -- o desejo que brota de leis naturais pela promoção da existência; nenhuma manifestação de atracção, excepto as forças positivas e negativas da Natureza, que, sempre agindo e reagindo, produzem a existência animal, mas não o pensamento.

A questão seguinte a ilustrar é: poderá a matéria, na sua forma primitiva -- naquela que se supõe ser a fonte primordial dos planetas e dos mundos -- poderá essa matéria produzir pensamento? Analisem tão cuidadosamente quanto quiserem todos os elementos da Natureza, resolvam sóis, sistemas, estrelas e universos nos seus gases primários e interroguem-se se esses gases são pensamento ou contêm pensamento. Nós respondemos, que não. Respondemos que o pensamento é divino; a matéria é externa. São princípios distintos e positivos, coevos porventura uns com os outros nas formas de existência, porém não coevos nem co-iguais nos poderes da existência: um é o poder criativo, o outro a coisa criada; um é activo, o outro é o impacto dessa acção; um é a vida resplandecente e viva, o outro a externa, ou a morte. Portanto, a matéria, seguida até aos seus princípios fundamentais, remetida aos seus primazes, ainda não pode ser pensamento, ainda não pode ser vida, nas suas características distintas e positivas. Então que coisa deverá ser a vida e o pensamento? Que coisa deverá ser esse poder que cria e vivifica? Deve ser Deus.

Então Deus, nas suas operações -- essa Divindade, essa causa primeira, essa fonte primordial, como um grande e poderoso sol que gira sobre si próprio, lança grandes e poderosas fontes de vida e de beleza, que são sóis e sistemas e universos de pensamento -- mas obedece, mas exerce a sua própria lei de existências criativas. É a grande lei das fontes primitivas decompostas na Divindade -- o início das fontes, não analisadas, não classificadas, mas concebidas e a que aspiram.

Depois, se no mundo físico o princípio fundamental reside no homem, no espiritual ou divino, qual deve ser esse princípio fundamental? O homem. Porquê? Por o homem possuir a única inteligência, a única capacidade de raciocínio, o único poder de julgamento que existe no universo externo. Então, o poder do pensamento, concentrado no homem, deve ser o princípio fundamental do espiritual, como o princípio físico no homem é o princípio fundamental do físico.

Em que posição fica, pois, o homem em relação à Divindade? Permanece ele simplesmente como uma forma externa de matéria? Um mineral, vegetal ou animal que progrediu, simplesmente?

Não. Ele assume a relação de um ser divino, uma função externa do Criador, uma cintilação brilhante que gira em torno dele, um satélite divino brilhante, que, ao se encontrar e mesclar com a matéria terrestre, se decompõe numa Estrela distinta e aparte.

Na proposição que temos diante de nós, concebe-se que existem duas fontes de conhecimento. Pelo menos a questão fica nos seguintes termos: "O homem obterá o seu conhecimento da lei moral por meio da educação ou de fontes intuitivas -- por meio da revelação directa da Divindade?" Existem duas fontes de conhecimento disponíveis à mente humana. Porquê? Por a mente humana, na sua acção distinta e positiva, olhar em duas direcções -- uma a natural, a outra a espiritual. Porquê? Por o corpo físico proceder do natural; e por o espiritual emanar da Divindade.

Por conseguinte, há dois elementos em guerra constante um com o outro, sempre a dirigir o espírito para um canal ou outro, dependendo do elemento que prevalecer no momento, e os homens estão constantemente a esforçar-se por penetrar o espiritual ou o físico -- seja a estrutura do universo e as coisas externas, ou as leis das composições e acção da mente. Mas sendo o próprio universo a emanação ou criação da Divindade, qualquer conhecimento que o homem obtenha nesse sentido deve ser indirectamente da Divindade; e sendo a alma uma emanação directa da Divindade, qualquer conhecimento que o homem obtenha nessa direção deve ser conhecimento directo, conhecimento positivo, conhecimento absoluto. Portanto, no absolutismo do homem, como o seu espírito ou divino é gerado pelo Divino, ele possui os elementos de todo conhecimento, os elementos de todo o poder, os elementos de toda a sabedoria, numa medida finita, como Divindade, Deus, Jeová, o possui numa medida infinita.

(A desenvolver)

O SIGNIFICADO ESPIRITUAL DO ANTIGO SÍMBOLO DA CRUZ

Palestra proferida por Cora Richmond em 1876

Lá ao longe, no Egipto, ao longo do místico Nilo, era costume na antiguidade criar indícios que apontassem a subida da maré, pela qual os reis do Egipto pudessem contabilizar a provável colheita do ano seguinte. Como o rio sagrado supostamente continha os elementos da vida e da morte, e como as divindades eram propiciadas com relação à época da colheita, gradualmente esse símbolo chegou a ser reverenciado entre os Egípcios porque, na exacta proporção da subida da maré também haveria de ser a fertilidade da ceifa. Esse indicador tinha a forma de uma cruz, na qual era marcada, de um ano para o outro, a gradual subida ou o declínio das águas do rio.

Subsequentemente esse símbolo foi introduzido entre as tábuas sagradas e nos diversos locais de veneração; porém, não na forma da cruz Romana, mas da letra X, a qual por fim, também se descobriu ser símbolo do ângulo de incidência dos raios do sol, cujas pontas representavam duas pirâmides, uma invertida, e as diversas outras pontas os quatro cantos da terra.

Entre os antigos Brâmanes a exacta cruz, igual nos seus diferentes ângulos, foi venerada como representando os quatro cantos da terra, ou as diversas direcções de onde provinham as diferentes divindades que Brama enviava para governar as estações. O norte e o sul, o leste e o oeste, são pontos cardeais, e por conseguinte, quando descritos, representam a exacta cruz rectangular. Há, entre os Brâmanes, objectos de devoção não só em diversos pontos, mas nos diversos ângulos de coincidência, que representam as ciências no seu sentido subtil e oculto. Se vocês visitarem o extremo Oriente actualmente, porém, verão que esse antigo símbolo foi usurpado por outro, e que em diversas regiões da Índia o símbolo do Crescente se eleva acima não só da Cruz Brâmane, mas também da Cruz Egípcia e Romana.

O sinal do Crescente da religião de Maomé, a usurpar as religiões mais antigas do Oriente ergueu a cabeça e hoje indica o fogo e a chama com que o Profeta Maomé de Meca impôs a sua religião nas nações do Leste. Até mesmo na cidade sagrada de Jerusalém vocês verão símbolos das religiões Pagãs, e a veneração do Crescente é actualmente mais significativa do que a Cruz. Quer o Profeta que fugiu para Medina realmente representa uma religião ou não, certo é que os seus seguidores são inúmeros, que a influência da sua religião tem sido vasta, e que o fogo e a espada numa mão e o Corão na outra, todo o Oriente foi devastado pela pilhagem e pelo assassinato às mãos dos seus seguidores.

Quer vocês creiam que o antigo símbolo da Cruz tenha sido consagrado no Egipto ou não, vocês verão que as indicadores são que o deus Osíris, a sorrir para o deus-rio Nilo abaixo, representava o símbolo místico que foi descrito na Cruz, e que a forma velada de Ísis encerrava o secreto e subtil poder pelo qual os raios de luz excitavam a terra e a tornavam fértil. Quer acreditem que a caverna Mitraica e por entre o oráculo de Delfos e por outras partes existissem símbolos cabalísticos e singulares, que não só retratavam o ângulo do contacto do sol na superfície da terra mas igualmente os diferentes signos do zodíaco e o seu significado, é ainda verdade que nessas antigas tabletes se encontram os símbolos da ciência e muitos dos da religião actuais, e que a própria Cruz é tão velha quanto as linhas geométricas e diagramas na ciência da terra. Quer acreditem que os pontos cardinais da bússola eram indicados pelo símbolo sagrado que referimos ou não, certo é que em todo templo Brâmane se acha gravada a representação dos quatro cantos da terra e as diversas influências que tem sobre a humanidade; e que os seguidores de Confúcio, ao passarem da antiga fé de Brama para a mais moderna, assim como os seguidores do Buda, retrataram esses diversos símbolos por linhas, paralelas e ângulos, entre os quais a Cruz é representada.

Mas foi deixado aos Romanos inventar a Cruz como forma particular de punição, já que entre os Judeus a crucificação não figurava entre as formas de castigo, mas diversas outras formas de tortura, como por exemplo a Gaena fora das portas da cidade de Jerusalém em que eram lançados os malfeitores, e os fogos que eram mantidos sempre acesos; como por exemplo, o desterro para o deserto distante, onde se supunha que os poderes da morte permaneciam. A crucificação foi introduzida como sistema de punição mais degradante por ser mais público, e a exposição dos malfeitores aos olhos da população, que, é claro, desejariam evitar e esquivar-se.

Na medida do que o estudante consegue determinar, a cruz Romana não tinha nenhum significado especial. Parece não ter havido qualquer intenção de um símbolo religioso de perseguição na adopção da Cruz como forma de punição, sob o domínio Romano em Jerusalém; nem parece ter existido em Roma, pelo menos até após a era Cristã, qualquer significado especial que tenha sido aplicado à Cruz; tampouco parece que nos primeiros dois ou três séculos da Era Cristã, a própria Cruz tenha sido transformada num símbolo especial do que Cristo representara, quer do Calvário, da sua doutrina, ou da especial missão que cumpriu no mundo. Contudo, chegou a tornar-se típico de toda a religião Cristã.

Chegou a expressar no grande mundo dos símbolos uma ideia absoluta; e quem quer que veja ou contemple a Cruz sobre o templo ou local de culto, ou como um ornamento num nicho ou na parede, entenderá que ela representa alguma ideia especial de que “Cristianismo” é o símbolo e designação sagrada. Onde quer que esta Cruz apareça, na basílica de São Pedro em Roma, nas paredes da donzela no seu claustro, nos recintos encantados da igreja Protestante em Inglaterra, ou sobre os templos da  moderna veneração aqui, indica uma ideia; e essa ideia deve ser verdadeira ou falsa; deve ser ou emprestada da revelação absoluta pretendida, ou deve ter-se tornado o símbolo de uma idolatria.

Vocês chamam aos Maometanos Pagãos. Eles prestam culto no santuário de Maomé; o seu símbolo é o Crescente. Eles têm as suas ordens de devoção; eles curvam-se diante dos objectos sagrados para eles. Isso é Paganismo. No extremo Oriente, o culto Oriental representa o fogo de Zoroastro ou a sagrada imago de Brama, e os homens ajoelham-se diante das imagens esculpidas como objectos de devoção, e vocês dizem que eles são Pagãos. Nenhuma voz jamais lhes concedeu a interpretação ou o significado dos seus símbolos. Nunca ninguém lhes disse que o Boi Sagrado representava o princípio do poder criativo, ou que Osíris foi retratado no sol como a imagem da divindade, ou que o Brâmane realmente não adora a imagem que designam como Brahma, Vishnu e Siva, mas apenas o pensamento que eles representam. No entanto, esses são adoradores Pagãos. Os seus símbolos não são sagrados, enquanto lá em Roma o símbolo da Cruz ergue-se acima da cúpula de São Pedro, e isso é chamado de religião.

Dentro dessa cúpula, que a arte da mão que a talhou a tornou porventura perfeita como uma obra de arquitectura, estão os símbolos da Igreja Matriz da Cristandade. Neste e noutros templos sagrados estão reflectidas as imagens que os Cristãos adoram hoje. Mas os Protestantes declaram que a Igreja Romana agora é idólatra, e que os símbolos de santo e mártir e as imagens gloriosas da arte antiga são pagãs em comparação com a simplicidade e austeridade da fé Protestante. Em Londres, nas torres de São Paulo ergue-se acima da cidade, e envia o seu repicar de sinos aos ouvidos de todos os habitantes. O mesmo símbolo encontra-se lá, e lá dentro encontram-se quase os mesmos arranjos de culto, manto sacerdotal e santuário sacerdotal. No entanto, isto é Cristianismo e o outro é Idolatria. Os Ritualistas realizavam quase exactamente as mesmas cerimónias, com altar e santuário, templo e manto, que os devotos da Basílica de São Pedro em Roma. Uns são chamados de idólatras; os outros, a verdadeira igreja.

Alguns Quacres, ansiosos por escapar dos símbolos que pareciam não ter significado, arrancaram da Igreja Matriz de Roma e da Igreja Protestante, adoptaram a austeridade dos agudos, ângulos e cores mais suaves, não quiseram símbolos nem sons, cruz sobre templo, ornamento de paredes nem de habitações, e, perseguidos e condenados ao ostracismo em casa, buscaram refúgio num novo mundo. Hoje eles consideram as igrejas Protestantes e Romanas idólatras, enquanto dentro das suas formas de silêncio e das suas paredes de devoção incolor eles esperam receber a bênção do verdadeiro Cristo que é representada no Espírito; cerram as janelas à luz do sol para que o espírito da verdade possa entrar, e banem as cores das flores para que a alma do céu possa descer sobre elas. Sem qualquer música, altar e santuário, mas uma cruz despida e parda erguida sobre o Calvário, num apelo piedoso ao céu, e o silêncio do coração partido que não pode nem mesmo louvar a Deus numa palavra e cântico.

Há alguns anos atrás, o Dr. Priestley e outros introduziram um sistema de veneração mais liberal, em que a Cruz podia representar uma forma mais branda de devoção do que a de Lutero e Calvino, e em que um pouco do amor de Deus podia brilhar através das feridas sangrentas e da forma crucificada do Salvador. Ele foi apedrejado na Inglaterra; ele foi insultado na América. Hoje, a igreja Unitária cria a sua forma lado a lado com as igrejas evangélicas da Cristandade, e tem sobre nas suas alturas o símbolo da Cruz. Que significa isso? Idolatria em Roma, e não na igreja Unitarista? Idolatria em São Paulo, e não no coração do Quacre que serve linhas e ângulos rígidos, e é livre até de um ramo de louro? O que significa que um símbolo rebaixado por um seja exaltado pelo outro, e que a cruz venerada aqui neste solo seja mais ou menos um símbolo do Cristianismo do que possa ser em Roma ou em Londres? Entre os mosteiros havia um em que se afirmava que uma cruz brotara da parede coberta de musgo, moldando-se em linhas de beleza infinita por os monges costumarem orar, e que sobre essa cruz foram vistas gotas de orvalho que tipificavam o sangue de Cristo, e que delas saltaram as flores que eram as suas lágrimas que os padres estavam acostumados a venerar. 

Os Rosas-cruzes consideravam que tinham descoberto o sentido mágico do orvalho sobre a cruz, através do qual eles podiam resolver todos os mistérios da vida e da morte. Seriam os seus genuínos e o os monges na cela idólatras? Seria deles a verdade por ter sido acoplada à ciência, enquanto no mosteiro deve ter sido considerada como superstição? Santa Catarina de Siena cruzou as montanhas no meio do inverno pata poder com as suas súplicas e orações trazer de volta o Papa ao seu povo. Terá isso sido idolatria, e uma covardia da parte dos Cristãos modernos, que não atravessam a rua num Domingo chuvoso, para ir prestar o seu culto? Será a religião que inspira os homens a actos de covardia, e será a idolatria que os leva a actos de bravura? Será, pois, um verdadeiro culto o que permanece no meio de um século Cristão, a empunhar as armas da avareza e do orgulho e chama a isso religião; e não seria uma era de idolatria aquela em que os santos e mártires eram remetidos para o céu através das chamas e da tortura?

O que é que inspira as almas dos homens? O que é que os eleva da escuridão e da escória? O que é que mistura e funde as suas vidas com o sublime? Será o nome do símbolo que carregam, ou será aquilo que está traçada nos seus corações como o impulso de sacrifício pessoal, e quer seja sob o nome de Brahma, Osíris, Maomé, Zoroastro, Moisés ou Cristo, os unge como heróis, mártires, santos, por morrerem por aquilo em que acreditam ser verdadeiro - melhor ainda, por eles viverem para isso e empregarem as suas vidas em obras santas e símbolos sagrados de devoção? Basta! Basta! Sabemos o que foi feito sob o nome da Cruz. Nós seguimos as letras de fogo até mares de sangue, e sabemos que não há crime sob o sol nem terror que não tenha sido ratificado por esse símbolo.

Vocês sabem que a Inglaterra Protestante funcionou como uma ruína tão terrível quanto a Inglaterra Católica Romana. Vocês sabem que a França, foi palco de horrores alternados sob o símbolo que por diversas vezes representou quer uma influência quer outra. Vocês sabem que os Puritanos fugiram do símbolo da cruz para erguer as forcas na colina de Salem, onde poderiam enforcar bruxas que não acreditassem naquilo em que eles acreditavam. Vocês sabem que não se passaram duzentos anos desde que não era seguro com respeito à liberdade de expressão e de culto em que agora vocês se deleitam sequer pensar. Vocês sabem que não se passaram sequer cem anos desde que estas reuniões teriam sido impossíveis, e sob o nome da cruz que vocês teriam sido perseguidos, senão com a morte de pelo menos com ostracismo social  e pessoal. 

Para os feitos sublimes que não foram todos registados na história, pelos quais algumas almas pálidas, macilentas, ou almas secretas e silenciosas abriram caminho por meio de provações de fogo para a conquista gloriosa de si próprios, nenhuma cruz flamejante está lá para lhes brasonar o triunfo; nenhum emblema se acha pendurado na parede da catedral nem antiga abadia - nenhuns mármores monumentais se ergue por si sós acima das suas sepulturas; mas indeléveis nas paredes os seus registos manchados de lágrimas da vida foram gravados, e deles é a coroa que o espírito mártir deve usar.

Interpretemos as coisas de acordo com o seu verdadeiro significado. Se temos um símbolo, que ele signifique alguma coisa; e se significar o Cristo morto do Calvário, vejamos que interpretação tem hoje. Significará o derramamento de sangue e a matança de vítimas inocentes? Significará que em nome do Príncipe da Paz países foram devastados e horrores perpetrados sobre mulheres e crianças? ignificará que sob o nome desse símbolo o homem deva empreender a guerra ao seu irmão em benefício da liberdade, do seu tesouro público? Quererá dizer que, por causa das diferenças de opinião deva haver carnificina e ruína, fogo e espada, e que todas as palavras ditas pelo Mestre seja esquecidas?

Cristo no Calvário significa o triunfo da alma sobre uma era brutal e egoísta; significa o espírito a conquistar a carne; significa o triunfo de Deus sobre s maquinações da vida abaixo. O carregar do fardo da Cruz é símbolo literal ou espiritual. Se for um símbolo literal, quem o seguirá? Andarão vocês pelas ruas a carregar fardos aos ombros? Não; vocês têm bestas de carga, motores a vapor, fios eléctricos e dedos que morrem de fadiga para que levem os vossos fardos por vós. Será um símbolo literal? Quem se deixará conduzir a qualquer Calvário actualmente por uma verdade qualquer, ainda que seja a mais comum? Evasão e falsidade, brigas e contendas, e cedência à eterna pressão daquela política que restringe o mundo, são os métodos mais usuais.

Um símbolo literal? Mártires morreram pela questão da sua interpretação para pelas suas almas; mas não teriam sido mártires se tivessem ambicionado as chamas, a guilhotina ou a cruz apenas pelo bem do martírio. Aquele que aspira a ser mártir não deve simplesmente cortar a garganta, ou enforcar-se na árvore mais próxima, nem pendurar-se estendido numa cruz material. Se ele tiver alguma coisa por que morra o melhor será que viva. A alma compreende que o significado no Calvário é que, que quem quer que tome a sua cruz e siga o Mestre deve fazê-lo em espírito; que a cruz da vida a carregar não é necessariamente do sofrimento físico, nem da morte física nem do martírio, mas que é, se preciso for, aquilo que lançou John Brown no mundo das almas por causa do amor que teve pelos escravos, ou aquilo que deu à nação um presidente que foi martirizado.

Essas são as formas por que a Cruz é o símbolo do que o Mestre ensinou. Se ele morreu no Calvário meramente para que a própria Cruz pudesse salvar o mundo através do derramamento do seu sangue, então esqueceremos aquela mensagem sem paralelo do Sermão da Montanha que brotou dos seus ensinamentos, e só deveremos seguir essa imagem, a Cruz. Mas se essa foi tão só a gloriosa consumação de uma vida cujo propósito foi o de ensinar, inspirar e elevar, então o Irmão mais velho da humanidade que veio para representar a possibilidade do homem, então a Cruz significa a Regra de Ouro, o Sermão do Monte, os ensinamentos, as curas, as profecias e o magnífico amor que expulsou todo o medo e abençoou os pequeninos e a Madalena num só folgo.

Se a cruz significa alguma coisa, significa aquele tipo de vitória e conquista sobre as actividades egoístas e objectivos que levam a vida humana para mais perto do o padrão que ela tipifica. Se ela significa alguma coisa, significa a carga diária dos fardos que são necessárias e indispensáveis que sejam suportados, sem queixas e sem amargura, de bom grado e de boa vontade, por causa da finalidade da vida a ser atingida. Se significa alguma coisa, significa que a rotina diária da existência que pode tornar-se num encargo e num terror e na maior e mais árdua carga, será gradual e constantemente elevada pela presença penetrante daquela doçura da vida, daquela perfeição da existência, que fará com que cada fardo pareça leve e todas as preocupações afundem na insignificância.

A verdade é que não há cruz para a alma que tenha obtido a conquista sobre si própria. A própria vida não tem fardos; as preocupações caem por terra, e a morte torna-se na porta de entrada para uma vida incomparável. Qual terá sido a cruz para o Filho do Homem, cujo olho interior podia ver o Paraíso? O que terá sido a morte para o santo e mártir que acima das chamas e da pilha sacrificial podia ver anjos e ouvi-los cantar? Não, não! É uma cruz apenas o que o espírito sente é penoso de suportar, e que é intenção da economia divina que vocês devam vencer nesse mesmo sentimento. 

Vão para o vosso trabalho a sentir que é um fardo terrível; vejam como ele se arrasta pesadamente sobre vós, como pesa nas vossas mãos e os leva a sentir-se impotentes. Vão com o impulso de um amor Divino e um desejo fervoroso de fazer o bem a algum semelhante, mãe, irmã, esposa ou amiga, e o trabalho passará a não ser nada, o trabalho torna-se doce, as mãos fortalecidas e os pés tornam-se leves. Ah, vencer os fardos da vida é a maior cruz de todas.

Se este símbolo significa alguma coisa para a vossa compreensão, significa que é aplicável à vossa vida diária, à vossa existência individual, e a própria coisa que é mais difícil de superarem, o que quer que possa ser -- o orgulho, o egoísmo, a vaidade, o apetite externo -- qualquer coisa que se interponha entre vós e a clareza de visão que o Mestre tinha, é a cruz que vocês têm que carregar e superar. A significar alguma coisa, significa o controlo supremo do egoísmo e da loucura no mundo, por meio do qual o homem individual (pessoa) é obscurecido, e apenas o seu aspecto aparece na vida diária. 

Nem todos  podem ser heróis. Os martírios não estão à venda por um preço. Vocês não podem incorrer em nenhuma nova inquisição voluntariamente. Existem poucas oportunidades para um sacrifício pessoal heróico. Mas a vida diária e a vocação do momento, e as coisas que estão a todo o  redor do caminho -- isso multiplica-se e torna-se a grande cruz e o fardo que vocês têm que carregar, e que, se a carregarem de modo triunfante, levará á própria coroa da conquista e vitória sobre vós próprios. 

Para o verdadeiro Cristão, esse é o significado da cruz. Todos os outros significados são idólatras e Pagãos. Aquele que cultua nesse santuário ou diante do símbolo sem esse significado no seu coração é um idólatra. Aquele que se curva diante dele como tendo qualquer imagem velada da divindade, Deus ou homem, e não conhece a doce mensagem de que transmite ao mundo, é um idólatra. Aquele em São Pedro que, diante da Cruz faz o mesmo sinal sobre a sua pessoa, mas não sabe que isso significa sacrifício e conquista pessoal, é um idólatra. E aquele que  amontoou credos tão grandes quanto o edifício em que presta o seu culto, e se curva diante artigos e ordenanças, esquecido da doce mensagem que torna a vida gloriosa, também é idólatra, quer venere na igreja Protestante, no santuário de São Pedro, ou na Índia Pagã.

Não determinamos esta questão por vós. Para nós, há apenas uma interpretação. Não devemos abrigar imagens que superem a ideia. Nós devemos ter há templos que sejam maiores do que as almas que os habitam. Não devemos ter nenhuma forma de culto que substitua o espírito de adoração. Não devemos ter nenhum Cristo que se situe demasiado longe para que a humanidade o siga. Devemos ter aquela divindade que entra no coração, molda a vida, se desdobra na compreensão, ergue o edifício da existência -- faz do glorioso homem ou mulher, tudo pela sua vitória e conquista. 

A matéria é a cruz; a vida material é o fardo. Todas as tentações que se situam no seu caminho, as diversas dificuldades e obstáculos da existência, o espírito precisa enfrentar e triunfar. É gloriosa a vitória como aquela que enviou todo santo ou mártir para o céu; é igualmente triunfante quando alcançada. Traz a conquista; é a ressurreição; é a vida, a doçura subjacente e amor graduais e imortais perfeitos que conduzem o espírito humano por todos os caminhos de dificuldades até o triunfo da morte. 

Tirar-lhes o fardo? Não, ainda que gozássemos desse poder neste instante. Diminuir as vossas tristezas? Não ainda que o nosso fosse um feitiço potente suficiente para os afastar. Um grande devoto homem disse: “Eu jamais tive um pesar a que pudesse furtar-me.” Doloroso de carregar? Nisso está a questão. Árduo e difícil de compreender? Esse é o caminho para a compreensão. Não pensem que um Deus infinito de amor pudesse suscitar essas dificuldades. 

A mãe carinhosa jamais poderia fazer com que a pedra furasse o pé do filho; mas ele nunca será um homem a menos que isso suceda. Não me venham falar do amor que fecha no armário a imagem para que nenhum sopro a atinja. Não me venham falar do afecto que protege a planta tenra até que ela definhe e morra. Não me venham falar daquele tipo de amor que não dá nada para fortalecer a árvore da floresta, mas que a deixa um rebento todos os seus dias. Vento e chuva fortalecem o carvalho, e até mesmo a violeta humildemente inclina a sua cabeça ante a tempestade que trás o ar frio ao olho da flor.

Lágrimas nos olhos fortalecem o coração, e a mão que traça a sua história sobre as paredes da vitória e da conquista é tornada gloriosa. Um mar de rosas é o lendário céu e paraíso Oriental. O Cristão aprendeu que o caminho da coragem e firmeza que leva ao alto da montanha é aquele onde a melhor vista pode ser obtida. O turista haveria de desprezar do amabilidade que o mantivesse sempre no vale por ele poder magoar os pés na subida até onde possa ver o nascer do sol sobre os Alpes.

Trepem, escalem, subam se quiserem ver o sol sobre as colinas eternas. Deixem que as pedras lhes perfurem os pés se quiserem saber o que é ter conquistado a vitória da vida. Não ponham de lado os espinhos se quiserem saber o que é tê-los vencido. Os marinheiros atravessam os mares; os filósofos sondam a terra e permanecem por toda a vida sobre um segredo para poderem descobrir o seu mistério. Cabelos ficam acinzentados, os rostos enrugados, as formas atingem a decrepitude por causa da verdade de que a alma anda em busca.

O ouro, que não durará um único dia quando vocês se estiverem mortos, toma-lhes o vosso tempo, a vossa atenção, as vossas vidas -- vocês arrastam-se exaustivamente a cada hora do dia e não consideram isso uma cruz. A verdade, porém, Deus deve-lhes revelar. Qualquer coisa que seja para benefício das vossas almas deve cair aos vossos pés para que vocês possam colhê-la. A inspiração e a profecia e todo o conhecimento espiritual deve vir sem que a peçam! 

Continuem a cavar à procura de ouro. Continuem a arrastar-se pelo vosso caminho fatigante para erguer monumentos por que os filhos dos vossos filhos haverão de os desprezar; mas nunca mais digam que é uma cruz, quando mesmo diante de vós estão as verdades douradas e as palavras inspiradoras que você não estenderiam a vossa mão para agarrar, mas culpam a Deus por não lhas impor à vossa consciência. 

Saibam que o esforço está nisso, o espírito está nisso, a luz está nisso. O caminho para ela é através de todas as tentações que vocês evitam, através da conquista de todo inimigo que vocês temem, da superação das próprias cadeias que escravizam e da rutura dos próprios laços que os amarram. Saibam que a vitória está nisso, e não no evitar de toda a dificuldade; apenas na sua superação.

O menino no muro do castelo, o explorador no Mar do Norte, o Dr. Livingstone na África -- isso é o que os homens farão por uma ideia. A verdade que se encontra dentro da alma não valerá tanto? Dizemos que vocês nunca hão de ter um tesouro  espiritual, uma verdade sublime, uma esperança divina, uma realização santa e consagrada da profecia, a menos que a conquistem ao longo do abismo que vocês procuram evitar. Dizemos que o espírito não pode triunfar sobre o barro; ele não pode vencer o seu destino, não pode obter a sua herança, não pode entender a si próprio, a menos que o glorioso reino do espírito seja forjado no vosso sacrifício e sofrimento.

Quem estimará a nobreza titular da Grã-Bretanha ou do Velho Mundo? Quem se preocupará com riqueza ou fama que seja transmitida de pai para filho? Richard Cobden, John Bright, todos os grandes espíritos que se destacam e pleiteiam a causa dos homens são aqueles que conquistaram a vitória da vida por si próprios.

Quem se importará com a fama escrita nas tábuas antigas de qualquer parede ancestral? Vocês não travaram essas batalhas. Vosso não é o crédito pelos feitos da ousadia deles. O que foi que vocês fizeram? O teste encontra-se aqui. A força está na vossa própria cidadela. Vocês ergueram o castelo em que habitam. O vosso espírito é nele um mandrião caquético, ou encontra-se vivo, alerta, activo, e conquista todos os dias louros que reis e príncipes podem invejar. Não é necessário que o mundo os veja. A alma é o seu melhor e mais completo pacificador. A alma consegue entender se vós que habitais o templo da vossa vida sois um ocupante digno. As vitórias que vocês conquistaram são identificadas lá e o vosso espírito compreende-as. Elas refulgem-lhes dos olhos e iluminam-lhes o rosto, e quando um homem se cruza convosco na rua, se vocês não se afastarem do seu olhar, mas o encararem com uma expressão de olhar clara e sincera, ele saberá que vocês venceram a tentação e não terão vergonha de encarar outra alma olhos nos olhos. 

Voltem o vosso olhar para o lado, ou para baixo, e ele saberá que a vitória não está ganha, que o tentador ainda está presente, que a serpente ainda está no Jardim do Éden, e que o Cristo  homem não lhes ensinou a lição, que Deus não veio habitar no vosso coração. 

Ah, tomem a cruz da vida, carreguem-na com nobreza e bem, sem recuar, sem terror, sem medo. Nem os sinos da catedral de São Pedro em Roma, nem da Abadia de Westminster, nem da de São Paulo na Inglaterra, nem de todas as igrejas que se alinham nas ruas das vossas cidades apinhadas, podem emitir acordes de alegria e louvor tais como os que são difundidos do alto imponente do santuário daquela alma em que a vitória tenha sido conquistada sobre o egoísmo e o orgulho e a preocupação, pelo verdadeiro significado da cruz.

Tradução: Amadeu António


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

CORA RICHMOND FALA SOBRE A ORIGEM DO HOMEM

 Uma Oração inspirada, proferida pela Sra. Cora L.V. Tappan, no Grand Concert Hall, de Brighton, no Domingo, 4 de Outubro de 1874. O tema foi escolhido pelo público.

 

Provavelmente no final irá dar no mesmo, uma vez que a origem e o destino do homem devem provir da mesma fonte. No entanto, se o público decidiu sobre “A Origem do Homem,” devemos recapitular o terreno que foi percorrido repetidamente por muitas centenas de mentes, sendo o assunto não apenas novo, mas um em que as diversas fases foram elaboradas com frequência e agora são discutidas continuamente.

 

Há duas opiniões distintas no mundo sobre a origem do homem. Uma é a opinião religiosa ou teológica que é apresentada na Cristandade a respeito da criação do homem, e é encontrada no livro de Génesis, no Antigo Testamento das vossas Escrituras. Mas, como a Cristandade não incorpora toda a família humana, e como aqueles que professam a crença no Cristianismo e no Antigo Testamento totalizam quase um quarto - talvez um quinto - de toda a população do globo, cabe-nos considerar bem antes de unirmos a nossa fé à ideia distinta da natureza teológica que refere.

 

Todos vocês estão familiarizados com o relato do livro de Gênesis e, todos sabem que isso forma a base da crença teológica e religiosa do mundo actual - do mundo Cristão. No entanto, vocês estão igualmente cientes de que, entre as nações do Oriente, e especialmente nas Índias, a antiguidade da sua religião situa o advento do homem na Terra muitos milhares, sim, muitas centenas de milhares de anos antes do começo da criação mencionada no livro de Génesis. Vocês estão ciente de que os Shastras dos Indianos e Hindus, o Zend-Avesta dos Medos e dos Persas, o Alcorão dos Maometanos, todos continham outros relatos distintos do modo da criação. Vocês têm consciência de que entre os Brâmanes existe uma crença na imensa antiguidade da raça humana, e que ela teve a sua origem no próprio Brahma, que veio na forma e na personificação de homem, e que os Brâmanes reformados acreditam mesmo agora que Buda é o representante de Brahma na terra. Também têm noção de que o livro de Génesis, embora seja o relato autoritário dos Hebreus, e tenha sido adoptado pelos Cristãos como evidência da criação do homem, não é de forma alguma uma autoridade indiscutível. Ao fazer esta afirmação, não a fazemos sem cuidadosa consideração. Também têm consciência de que dentro da própria Igreja existem divergências de opinião sobre se esse relato deve ser considerado literal ou se deve ser tomado no sentido simbólico ou espiritual.

 

Têm consciência de que o Bispo Colenso considera que o próprio livro do Génesis é a compilação de dois autores diferentes e que o relato da criação não está completo, porque o livro do Gênesis não é de uma única autoridade. Também têm consciência de que, fora dos limites da Igreja, as fortes tendências científicas da época são e têm sido há meio século, contra o relato literal contido no Livro de Génesis sobre a origem do homem. E também têm consciência de que, há mais de dois séculos, esse relato distinto foi contestado e que, mesmo nas eras mais antigas da religião Cristã, foi sujeito ao mais rigoroso escrutínio.

 

O relato teológico faz do homem a última criação após um período de seis dias, faz da função distinta e específica do homem o “acto culminante da criação material, faz dele o resultado especial e distinto da mente da Deidade, faz de um homem e de uma mulher, os pais distintos de toda a família humana, e reduz a criação da terra, dos céus, de todas as estrelas, planetas e do sol, a esse período de seis dias e noites e, conforme vocês também sabem, a criação do homem (homo) e da mulher, o acto distinto, absoluto, legítimo e directo da própria Deidade.

 

Por outro lado, o mundo da ciência disputa a literalidade desse relato, faz com que a criação se estenda não apenas a seis dias e noites mas a eras, fazem com que períodos geológicos de porventura de um milhão de anos intervenham entre uma criação e outra, faz do homem a expressão e o epítome de uma sucessão de seres criados, cada um dos quais é um elo da grande cadeia da existência.

A ciência declara que os seres humanos devem ter existido numa era da terra que deve ter precedido o período Mosaico ou Adâmico; e, por fim, que o mundo da ciência e o mundo da teologia se distanciaram com referência a essa questão até que no pensamento moderno a narrativa literal da criação do homem e as revelações da ciência geológica tenham passado a ser consideradas coisas impossíveis de conciliar. Por essa controvérsia, não somos de forma alguma responsáveis; somos obrigados a declará-lo e a apresentá-lo da maneira mais justa, concisa e distinta possível. No mundo da ciência, existem duas formas distintas e separadas de pensamento sobre essa matéria; e sem a premissa de que o relato teológico possa ser considerado nesse sentido, declararemos quais são essas duas teorias científicas.

 

A mais recente expressão de pensamento sobre essa matéria é o que geralmente é conhecido como teoria Darwiniana, que atribui ao processo da criação, por meio da seleção natural, todas as formas de desenvolvimento como tendo tido origem na superfície da terra, o que torna o homem o resultado de uma longa série de desenvolvimentos e evoluções dos reinos inferiores, que levam a natureza a expressar, nos tipos mais elevados da sua existência, aquelas formas que ela deseja perpetuar, e que deixa todas as especialidades pertencentes a esses tipos ao que é conhecido na filosofia de Herbert Spencer como diferenciação, ou o desenvolvimento gradual de uma forma superior a partir de uma forma inferior de existência.

 

Por outras palavras, a teoria Darwiniana da criação torna o homem, não num acto especial e distinto da Divindade, mas no resultado de uma longa série de leis, de uma sucessão de desenvolvimentos no âmbito dessas leis, das quais o homem é a conclusão e a realização. Essa teoria, embora encerre em si muitas coisas que são distintamente plausíveis, e embora forneça ao mundo da ciência, talvez, aquele elo perdido na cadeia da existência, é falacioso em muitos aspectos e detalhes.

 

Mas antes de apontarmos essas falácias, devemos referir a outra opinião do mundo científico, que é no sentido de que, embora o relato contido no Livro de Génesis não seja literalmente verdadeiro, ele tenha alguma relação com a verdade, e que enquanto o homem representa o mais elevado desenvolvimento da natureza, é por um acto especial da mente Divina, através de impulsos criativos, que o homem existe; que ele não é como a teoria Darwiniana afirma, um tipo avançado do qual o bosquímano é o mais baixo, nem se tenha desenvolvido a partir do gorila, do macaco ou de ordens inferiores do ser, mas um resultado distinto da própria criação; e que esse resultado é tão natural e espontâneo, de acordo com as leis da natureza, quanto qualquer outra forma de existência na superfície da Terra. Que conquanto o desenvolvimento avance dos graus mais baixos para os mais altos, esse partido afirma que nunca se verificou uma mistura dos tipos de existência, e que cada tipo distinto é um resultado distinto das leis da natureza; de modo que duas fases do pensamento científico apresentam duas opiniões opostas a respeito da criação do homem, ambas com, na nossa opinião, alguma falácia. De facto, os pontos fracos da teoria Darwiniana são facilmente descobertos pelo estudante de ciência ou filosofia natural.

 

Uma é que ele faz com que a doutrina da teoria da seleção e da evolução explique a existência de tipos distintos. Na nossa opinião, isso é inteiramente errado; não existe tal processo na natureza; nunca constou que existisse um processo na natureza como o único tipo de existência que se fundisse ou se tornasse noutro tipo. Não existe nenhuma mudança que decorra nas ordens inferiores que se diga que se assemelha ao homem, pela qual seja possível que eles se tornem homens futuros. O gorila e o macaco, embora se assemelhem na aparência ao homem, não se assemelham a ele em nenhuma das qualidades distintas da inteligência expressa, e jamais se teve conhecimento na história do mundo de uma mudança específica do grau de existência mais baixo para o mais alto.

 

Além disso, aquilo que se diz ser propriedade orgânica e contínua da evolução não se aplica à mudança e transição de um tipo para outro da existência, mas à perfeição e desenvolvimento do tipo já formado; de modo que, se a natureza seleciona os seus tipos, não é e nunca foi demonstrado que ela os tenha alguma vez confundido, misturado ou de alguma forma os tenha perdido, mas persistente e religiosamente preservado os germes de todos os tipos específicos existentes até o momento presente.

 

A outra teoria, que é a nossa, e que talvez tenha sido entretida pela maioria das mentes instruídas e científicas da época, é mais correcta, embora falha, talvez, na amplitude e compreensão da teoria Darwiniana. É que cada tipo especial é o resultado de um impulso especial do poder criativo na natureza e que, quando esses tipos cumprem o seu uso, dão lugar a outros tipos que, por sua vez, são o impulso desse poder criativo. Agora, lembrem-se de que ambos esses partidos se recusam a fornecer qualquer fonte a esse poder; ambos se contentam em declarar as leis da natureza sem afirmar a causa dessas leis; ambas as partes consideram que, num sentido científico, lhes cabe lidar com resultados, e não com causas, e, a esse respeito, sem dúvida, elas são bastante certas. Não é da competência da ciência, dizem eles, lidar com o absoluto, o supremo, o infinito e o omnipotente; “mas com o que a ciência lida é o panorama da natureza espalhado diante da visão humana. E a ciência declara que o processo de criação não se prolongou por 6.000, mas por 600.000.000.000 de anos, e que esse processo de criação ocorreu em eras ou ciclos da existência geológica, cada ciclo dos quais representa uma expressão de avanço sobre o que o precedera.


Mas, como afirmamos, se quisermos delinear a origem do homem, devemos considerá-lo na sua natureza completa, e não meramente na sua natureza física. É bastante fácil -- um processo da maior facilidade -- rastrear, com os dados científicos existentes no mundo, os resultados da lei natural até o desenvolvimento do homem -- a mónada, ou partícula distinta que existe por si só; a díade, que significa duas mónadas reunidas, resulta num outro estágio, etc, etc. Esses átomos, na sua natureza sêxtupla, me mudança e em desenvolvendo constante, são inteira e absolutamente capacitados pela lei da existência para desenvolver todas as fases da vida física que são conhecidas. Mas os átomos não são inteligentes; as mónadas, díades, as tríades, não são inteligentes; as moléculas não são inteligentes. Nenhum átomo ou estrutura atómica encerra em si aquilo que é a fonte final e a causa da organização; e quando o cientista físico declara ter descoberto o processo de criação, ele omite o único poder de criação que é capaz de resolver o mistério.

 

O mundo científico flutua em torno de um mar de factos, e é fácil traçar a semelhança entre o homem, o macaco e o gorila; mas quando vocês consideram os atributos mentais e aquilo que compõe o homem, a semelhança cessa. A vespa é mais inteligente que o gorila, e a abelha é mais inteligente que o bosquímano, e elas não possuem a forma de homem. Não existe forma de existência animal que tenha um governo tão parecido com o governo humano quanto um formigueiro, e, no entanto, esses insectos infinitesimais não têm nenhuma semelhança possível com a humanidade.

 

Aqueles que dizem que a estrutura orgânica e o processo de evolução compõem o poder criativo e a inteligência do homem fariam bem em considerar as outras ordens do ser que não possuem nervos humanos, gânglios, tecidos mentais ou cerebrais, que apresentam uma forma distinta manifesta, e específica de vontade; e se o homem fosse um tipo avançado de macaco ou gorila, e tudo isso fosse pretendido e expressasse as possibilidades do homem, por que será que esses tipos, que possuem faculdades muito mais próximas do aspecto da inteligência humana, também não se parecem muito com o homem?

 

A vespa não possui fontes secretas de inteligência, em depósitos como os conhecidos como aura dos nervos ou do cérebro. Toda fibra da sua existência é composta de substâncias pouco conhecidas na estrutura humana; todavia, elas têm ordem, forma, inteligência mental, constroem as suas habitações, produzidas em proporção geométrica directa e são gigantes do pensamento entre as formas de vida em que ele é verificado.

 

Referimo-nos, pois, à inteligência como constituindo a característica distinta e o tipo de existência humana. No entanto, precisamos lembrar-nos que o elefante possui sagacidade, que o cavalo possui uma boa sensibilidade e poder de penetração, que o cão possui fidelidade e confiança, que o gato possui fidelidade à mistura com a maior arte e astúcia, que a raposa é conhecida pela sua astúcia, que todos os tipos de vida animal possuem inteligência específica proporcional às suas necessidades. No entanto, nenhum tipo se perde noutro tipo; e é tão cuidadosa e ciumenta é a natureza em preservar esses tipos, que ela torna impossível, apesar de viverem lado a lado, que eles jamais se cruzem ou fundam sem distinção.

O homem deve, por conseguinte, ser - e toda a estrutura da criação - um sistema gigantesco, o desenvolvimento do nada que nada que possa ser conhecido como acaso; ou então o grande segredo e fonte da criação do homem deve ter existência na mente que governa o universo no espírito que impregna cada átomo de vida, no poder que governa, dirige e guia os átomos.

 

Consideramos que a ciência declara uma meia-verdade, mas que essa meia-verdade é tão pervertida que quase equivale a uma falsidade; uma vez que a ciência faz do homem físico a causa assim como o efeito, em vez de tornar o homem espiritual primordial e a fonte do ser. Precisamos, consequentemente, referir, na nossa afirmação quanto à origem do homem, uma vez mais a teoria religiosa ou teológica. Acreditamos que nessa meia-verdade que a ciência declarou, ela esqueceu de afirmar que há outra meia-verdade sobre a qual nada sabe.

 

Acreditamos que Darwin, o Professor Huxley, o Dr. Tyndall e o Sr. Herbert Spencer, todos esqueceram, ao declarar as suas ideias distintas e especiais, que existe ou pode existir outra metade, metade essa que, enquanto a alma do corpo, eles estão tão ansiosos por apresentar na forma de ciência. Acreditamos que essa metade constitui a vitalidade da ciência e que a expressão de um sistema sem alma é como um sepulcro caiado ou como um corpo sem espírito -- sem valor.

 

A ciência faria bem em recordar que, se toda expressão e organização que ela descobriu são precisamente como ela afirma, ainda existe a outra porção vasta que não foi pensada nem considerada pela ciência. Não cabe à ciência dizer que tem lugar na região do incognoscível, que não é possível saber o que pertence ao espírito, que é impossível adivinhar qualquer coisa relativa à vida futura ou à alma do homem, excepto através do seu organismo e das funções externas do seu corpo. Mas a Academia Francesa declarou que, para se dar conta das diversas faculdades que a humanidade possui, se deve admitir um outro sentido, além dos cinco sentidos físicos, que controlam a humanidade, ou seja, o sentido da intuição.

 

Esse outro sentido significa a outra metade da existência do homem, significa aquela natureza espiritual que, agindo sobre os átomos e as moléculas, e outras formas diversificadas de existência entre o homem e o átomo, produz o resultado final da humanidade. Precisamos remeter à opinião teológica ou religiosa para ver que é praticamente impossível que na transmissão dessa ideia de eras remotas o germe e o significado espirituais se tenham perdido, por os teólogos conhecerem apenas a forma exterior da sua expressão, quando na realidade existia uma verdade distinta por trás.

 

Queremos dizer que, em vez da evolução da ciência, ou da seleção natural de Darwin, ou do desenvolvimento manifesto e gradual de uma teoria científica, é possível que cada um desses dias de criação possa significar as grandes eras geológicas do desenvolvimento da Terra, e que, na exacta ordem em que são determinadas, corresponderiam aos desenvolvimentos e interpretações exactos da ciência; e que a humanidade, ou o homem Adão (homo), pode se referir, e sem dúvida se refere, não apenas ao homem individual e à mulher individual, mas a uma era em que se tornou possível, por um impulso do poder divino e criativo, ao homem existir na terra.

 

Vocês precisam lembrar-se de que a argila, da qual o corpo do homem foi composto, possui em si todos os átomos da vida possíveis; vocês precisam recordar que o sopro da vida insuflado pelo Infinito significa espírito, ou fogo, ou fervor, e que, onde quer que a argila e o espírito se encontrem, há vida, e onde eles se encontrarem no seu sentido mais alto e grandioso, existe o homem.

 

Precisam lembrar-se de que o Adão e a Eva do Paraíso se referiam de forma distinta à era na história da Terra, quando se tornou possível a existência de uma raça primitiva do homem, e que todas as eras distintas e todo tipo de existência separado que o mundo já conheceu são resultado do impulso distinto, do poder divino, consciente e criativo. A não ser assim, o mundo é um erro, a terra não passa de um acaso, a criação do homem de um acidente e todo o sistema filosófico de um sublime fracasso.

 

Deverá ser, se tal não for verdade, que a inteligência planeou, executou e desenvolveu em diversas e distintas eras do tempo, apenas a vida na Terra necessária de acordo com a era, e que cada período conhecido pela geologia - o Carbonífero, o arenito Superior e Inferior e o Silúrio - todos representam épocas distintas do poder criativo, em que o impulso da Mente Divina agindo através da matéria e sobre todos os átomos da Terra fez com que os tipos de existência fossem formados e que cada tipo tenha sido preservado de forma sagrada, distinta e absoluta para seu próprio uso e para a sua própria era, e que todas as eras subsequentes tenham tornado possível o surgimento de uma ordem superior de existência; e que essas ordens de existência, assim como a diversidade e a quantidade, são criações específicas, assim como os tipos existentes.

 

Para evitar essa dificuldade de nenhum tipo se ter fundido com outro, aqueles que adoptam a teoria Darwiniana dizem: “Oh, será possível que na criação tenham sido criados alguns tipos distintos.” Mas acaso alguns, por que não muitos? Se meia dúzia, por que não um milhão? Uma vez que nenhum dessa meia dúzia jamais se transformou num milhão, e uma vez que cada milionésimo tipo é tão sagradamente preservado quanto qualquer outra meia dúzia.

 

Asseveramos, conforme afirmamos, que o corpo físico do homem foi uma criação direta - e por “directa” queremos dizer directa - foi a criação directa da Inteligência Divina a partir das leis que Ela criou, e que onde quer que a criação ocorra, não há apenas um propósito consciente, mas distinto da Mente Divina nessa criação, e que desde o início da fundação da Terra, desde o estado atómico em que o mundo foi encontrado inicialmente até o presente e do presente até o futuro, quando os seres humanos virão a ser cada vez mais perfeitos, existe um desígnio final e palpável que percorre todas as formas de vida criativa que produz as diversas linhas geométricas do diamante -- que compõem as propriedades do cristal -- que modelou a folha de relva e as folhas da rosa -- o que torna possível que toda a diversidade da existência na natureza expresse a variedade e a unidade do pensamento na Mente Infinita; e que o homem físico não foi o acidente nem a evolução das ordens anteriores abaixo dele, mas um impulso directo e palpável da Mente Divina insuflado sobre a matéria na última era do desenvolvimento geológico; e que todo tipo de pássaro, peixe e animal existentes pertencentes às ordens de vida encontradas na Terra hoje são o resultado do mesmo impulso de poder criativo.

 

Asseveramos que anterior e essencial a eles, alma de toda a vida é o espírito; que nenhum átomo se combina com um átomo afim sem um impulso e poder espirituais; que nenhuma vida se desdobra, e nenhuma folha de grama é formada sem uma ideia distinto nessa formação; que o mundo que irá recebê-los amanhã de manhã, quando o sol irromper e raiar sobre vós, será uma criação nova tão fresca das mãos do Divino quanto “quando as estrelas da manhã cantaram pela primeira vez”; que Deus não só fez as leis, mas as mantém em movimento; realiza a grande obra com a sua presença omnipotente e poder de espírito; e que nenhuma partícula da matéria pode mudar de forma fundindo-se com outra nem alterar a conformação da sua existência sem um esforço mental específico nesse sentido; que o espírito do homem emana dessa Divindade e que, entrando em contacto com a matéria no exacto momento em que a terra estava preparada, a alma humana se tornou uma forma viva.

 

Mas nos tipos de raças primordiais do homem, e sempre que a terra estivesse pronta, foi o Adão criado; de modo que toda a possibilidade de inserir essas pessoas em qualquer ordem distinta, intermediária ou inferior da existência é uma perversão do plano e economia divinos do universo, que insufla o espírito sobre todas as substâncias e faz da lei, da inteligência, da harmonia e da ordem, as causas primárias e motrizes por as raças primárias dos homens representarem as possibilidades da humanidade; tudo o que a humanidade hoje expressa achava-se encerrado nessas raças primitivas. Nenhuma inteligência, arte, ciência, cultura, religião é encontrada hoje, cujos germes não se encontrassem no tipo original de humanidade; nenhuma função foi acrescentada, nem nenhum novo poder ou qualidade à alma humana, mas o tipo de humanidade é distinguível do facto da inteligência e da existência da sua alma. Do Infinito, a alma do homem, um glóbulo puro e distinto de vida, surgiu; firmou-se na substância material pelo processo directo da lei; e quando a terra, que foi preparada durante eras de desenvolvimento, estava pronta, o pó brotou ao encontro do espírito vivo, e os céus e a terra foram feitos um na humanidade.

 

Consideramos que este tipo de homem, a expressão da inteligência de Deus, o resultado perfeito e legítimo da alma, é, talvez, a forma daquela existência que se tornará cada vez mais aperfeiçoada até que todas as possibilidades do pensamento humano sejam realizadas, mesmo na terra, até que este ser humano que agora sonha com perfeição, que agora retrata para si atributos que tem dentro de si, expresse através da forma externa todos esses atributos, e a matéria se torne plena e absolutamente subserviente ao espírito.

 

Vocês leram sobre a idade de ouro; vocês imaginam o jardim do Éden e o Adão e a Eva do Paraíso. São justamente o Adão e a Eva de todas as nações e de todos os lares. Cada raça tem o seu Adão e a sua Eva; toda a ordem primordial da humanidade tem o seu Adão e a sua Eva; toda a sociedade tem o seu Adão e Eva, na expressão das primeiras boas qualidades distintas de Deus no homem. Depois, aquilo a que os homens chamam de “queda do homem” desse estado primordial é apenas matéria a obter temporariamente a vitória sobre o espírito, com a qual o espírito luta continuamente e sobre a qual por fim obterá uma vitória completa.

 

Mas a criação do homem ainda não se encontra concluída; ainda está a acontecer, assim como a criação da própria terra. Tudo o que torna o homem mais perfeito e desenvolve na íntegra na forma externa aquilo que o espírito primordialmente expressa -- tudo o que permite à alma governar e controlar as substâncias materiais -- é um processo de criação.

 

Considerem, se fazem favor, as nações que vocês denominam de bárbaras e selvagens. Dizem que são os tipos mais baixos de existência. Tal não é o caso. Toda nação constitui um tipo distinto de humanidade; nenhuma é mais baixa e nenhuma é mais alta. Mas aqueles que estão em processo do mais elevado estágio de desenvolvimento e cultura representam de modo mais perfeito a intenção original da Divindade, e nós não olhamos para o passado mas para o futuro, para o cumprimento perfeito da lei do destino.


Dizem, ou é do conhecimento da ciência, que houve um tempo na superfície da Terra em que não só teria sido impossível a existência dos seres humanos, mas também em que os trilobitas (NT: Crustáceos fósseis) e todas as ordens inferiores de existência não podiam ver sequer a seis polegadas de distância da sua posição, e não poderiam, de maneira alguma, distinguir qualquer forma de vida ou de inteligência além dessas seis polegadas. Agora, é praticamente impossível que, com respeito ao futuro Adão, os seres humanos de hoje se encontrem na posição espiritual e moral desses animais antigos. É quase impossível que, avaliando essa matéria da criação, os seres humanos sejam capazes de enxergar apenas seis polegadas para trás ou para frente seis polegadas, quando a grande perspectiva da criação e o seu panorama divino passam despercebidos. 

 

À medida que a raça humana se desenvolver cada vez mais a partir de dentro, à medida que a natureza espiritual se afirmar cada vez mais, e o Adão externo se sujeitar ao espírito, eis que vocês perceberão, não só a Terra e as suas produções e leis, mas o espírito e o pensamento que a criou -- o propósito divino, todas as possibilidades da alma se espraiem diante de vós. Aquilo que faz do homem o epítome da vida não é o seu corpo físico, mas a alma que se expressa através desse corpo. Ele não é tão veloz quanto o cervo, não é tão forte quanto o leão, não é tão sagaz quanto o elefante, não é tão poderoso quanto o cavalo, ele está despido e desprovido de instintos, conforme são chamados, mas o a alma que o torna supremo conquistou, pela força da mente e do espírito, os ventos e as ondas, a terra e o ar, fazendo dele o rei de todas as coisas que parecem ser seus pares. Será isso a organização? Será isso a função externa? Será isso a expressão apenas da força física? Então o homem deve ser um gigante e o elefante um anão; o homem deve fisicamente exceder em peso e medida todas as formas de vida que se situam abaixo dele. Mas esse não é o caso.

 

A alma apenas procura uma habitação. Todo-compreensão e todo-poderoso, o espírito do homem é um germe supremo, uma alma, e entra em contacto com a matéria, e produz o organismo que se chama homem e molda os destinos das nações e da própria terra ao ritmo do elevado propósito do espírito.

 

Aquela ciência, ou filosofia cósmica, que inclui a natureza espiritual do homem na sua natureza física, há de descobrir, se quisermos, os átomos da sua existência em todas as etapas da vida que a precederam, mas também há de descobrir o átomo da sua natureza espiritual, aquela fonte divina de onde somente o espírito pode emanar -- a Alma Eterna que preenche o universo, a alma suprema e absoluta; e esse Ser, indivisível, indestrutível, imutável na sua essência, pode mudar a forma da natureza no átomo da vida desse corpo. Vocês não são a mesma pessoa que eram há sete anos atrás; nenhuma parte da vossa estrutura física é a mesma; não há nem um átomo ou partícula de nervo sequer, tecido ou fibra ou qualquer parte do vosso corpo que existia então; todavia, a vossa alma e mente ao permanecer e reter essas partículas juntas, agem como a força central e vocês mantêm a aparência do vosso ser anterior. Aquilo que virão a ser daqui a sete anos não será o mesmo corpo físico, se vocês se cingirem à vossa organização (corporal) e somente a ela; vocês esquecerão tudo -- vocês serão uma pessoa diferente; mas, à semelhança do rouxinol nas ilhas do sul, você precisarão aprender uma música nova a cada ano.

 

Mas a alma permanece enquanto o corpo muda. Vocês são recriados a cada sete anos; o vosso corpo morre, mas a alma vive e mantém juntas a estrutura vital e orgânica. Quando a morte sucede, vocês dizem que deixam de existir. É apenas o corpo externo que, desintegrado por não estar mais permanecer unido, retoma o seu lugar habitual; as partículas voltam à terra, enquanto a alma, vivendo naquela outra criação divina, retém o traje celestial do homem num estado mais glorioso e divino. Sim, o homem teve origem na terra; mas é o corpo que ele usa que é barro, enquanto a alma é de Deus, imperecível, transmitida por hostes de anjos, querubins, serafins, arcanjos, até que por fim, imerso no barro humano, ele volta à alma divina e perfeita com as novas asas do pensamento. Esta é a perspectiva que temos da “origem do homem.”

 

Tradução: Amadeu António