terça-feira, 11 de julho de 2017

WILLIAM JAMES - DIÁRIO PÓS-MORTE



Diário Pós-Morte de um Filósofo Americano
Por Jane Roberts
Tradução de Amadeu António
Freud, Jung e o Protestantismo
Diverti-me a mim próprio após a morte a imaginar que diferente tipo de visão Jung poderia ter apresentado caso Freud não tivesse sido seu professor, ou caso ele, em vez de Freud, tivesse sido o mais velho. O emocionalismo de Freud causou-me preocupação por eu o considerar um religioso um tanto fanático, a operar fora do contexto convencional da religião. Em muitos aspectos ele era um xamane que nascera na nação “errada,” duplamente mais ciumento das próprias “características masculinas” por sentir no íntimo inclinações psíquicas e surtos intuitivos que temia e que cria podiam minar a autoridade pessoal do ego e a autoridade colectiva do estado.
Em muitos aspectos as teorias de Freud também representavam os aspectos obscuros do Protestantismo retirados da crença convencional num Deus omnipotente, livre das ascensões optimistas ao céu – um inferno que vinha substituir o teológico anterior, em que os demónios ocupavam o lugar de impulsos primitivos que são estampados na psique durante a infância. Desse modo os elementos mais pessimistas do Protestantismo receberam um novo rosto científico e uma justificação sofisticada – numa altura em que o Protestantismo organizado embarcava numa nova aventura na América, e realçava os aspectos activos, agressivos e promissores da personalidade que haveriam de testar as capacidades do indivíduo no governo da sua própria sociedade com um governo baseado não no medo mas em restrições livremente aceites adaptadas ao serviço das mais elevadas aspirações do homem.
Assim, o Protestantismo tornou-se esquizofrénico; a sua vertente mais erma foi expressada de uma forma mascarada através das teorias de Freud, o trajecto rumo à salvação aliou-se das igrejas convencionais da democracia. Esse trajecto rumo à salvação, expressado ao nível da nação, foi traduzido por salvação pelo triunfo sobre a pobreza, sobre o sistema de classes da Europa, e sobre a própria terra, com a ajuda da crescente tecnologia. Nada deveria intrometer-se nesse caminho. Os profundos medos e hesitações da democracia mais as implícitas suspeitas de que os seus ideais pudessem ser demasiado elevados, foram expressados nos avisos hipnóticos de que o lado natural do ser não merecia confiança.
O inconsciente de Freud representava o passado do indivíduo; e para os Americanos também representava as novas raízes da democracia enquanto herança Europeia complicada. Freud na verdade concedeu ao Puritanismo uma nova base, já que lhe forneceu um novo enquadramento em que a natureza do homem era vista basicamente como indigna de confiança, carente de constante escrutínio em que até mesmo os actos aparentemente mais elevados do homem podiam ter motivos obscuros por trás. A Psicanálise substituiu a confissão Católica. O psicanalista tornou-se no novo sacerdote, numa manobra de um profundo significado por meio da qual Freud retribuía ao Protestantismo os elementos descartados por Lutero, e reintegrou um recurso intermediário que separava o homem de Deus – só que desta vez tal intermediário era o psicólogo, que tomava o lugar entre os elementos consciente e subconsciente do homem.
O indivíduo não mais necessitava que um padre interpretasse as palavras de Deus ou a Bíblia, mas em vez disso requeria um intérprete na compreensão do inconsciente e dos aspectos repugnantes da própria identidade psicológica – por ter perdido a sua autoridade. Tivesse tal manobra sido conseguido através da política de um movimento religioso claramente definido, e teria surgido um novo Lutero, a aclamar uma vez mais o direito do indivíduo de interpretar a própria realidade religiosa. Ou se Freud tivesse estado menos convencido da natureza malevolente do subconsciente, as suas próprias qualidades xamânicas teriam irrompido numa grandiosa visão da salvação, que fornecesse uma versão verdadeiramente significativa da redenção psicológica em vez das técnicas restritivas da psicanálise que na verdade resultaram.
Tentativas desse género surgiram no comportamento que Freud teve com Jung; por essa altura, porém, a vida de Freud tinha sido amplamente gasta na concepção de teorias que reflectiam as suas próprias organizações e estruturas psíquicas. Alterar tais teorias teria envolvido muito mais do que proceder a maiores ou menores ajustamentos ao trabalho de uma vida, mas necessitaria o nascer de um novo homem interior. Para Freud, Jung representava literalmente esse homem, em termos psicológicos, um messias que brotava da experiência do pai (Freud) e foi a essa luz que Freud se viu a si mesmo com relação a Jung.
Com admiração, ciúme e o mais forte fascínio, Freud viu-o a superá-lo; e independentemente do que Freud dissesse ou fizesse, ele sabia que as interacções entre ele e Jung proporcionavam exactamente o tipo de tensão que contribuíam para o crescimento de Jung. Quando as teorias de Jung amadureceram, encontravam-se num novo campo da psicologia; ele era o Lutero da psicologia. De certo modo, claro está, o Lutero da psicologia representava a perda da religião, por o Protestantismo ter permanecido esquizofrénico, e mesmo no vosso tempo ainda não chegou a um acordo com os aspectos do bem e do mal do homem em relação a Deus ou à natureza. Tal fracasso conduziu directamente ao nascimento da parapsicologia, que procurou abordar os elementos da alma que a religião recusou examinar.
Deram-se, naturalmente, sobreposições nesses processos. Anteriormente, por exemplo, Myers constituiu um exemplo muito mais benéfico do homem imerso em questões da alma e da personalidade, com inclinações religiosas e científicas fundidas de forma vantajosa; contudo ele não deu voz ou expressão àqueles elementos obscuros que tinham submergido (que se tornaram evidentes depois das cortinas Vitorianas fechadas e terem aberto) aquelas tendências que a democracia necessitava para compreender e usar, mas que em vez disso negava de forma convencional.
Em resultado de tais questões, as sessões Americanas ilustravam maravilhosamente e por vezes de forma hilariante as idiossincrasias da religião e da ciência tanto na adaptação princípios Freudianos à experiência religiosa ou conduta mística. Enquanto a democracia fez brotar slogans patriotas acerca da capacidade que o indivíduo tinha de se agrupar numa sociedade de governo autônomo, por sua vez, o Freudianismo deixou que a alma resvalar para o desaparecimento, despida dos seus poderes, que eram delegados a uma reacção mecânica de impulsos instintivos que podia ser enumerada e esquematizada numa abreviação emocional turva. A alma desaparecera, tornando-se ao invés numa câmara de horrores psicológica que requeria o mais dotado do guia, por exteriormente haver espelhos distorcidos que podiam mostrar aos incautos num clarão as bases grotescas para as maiores conquistas e as mais tristes falhas.
Parecia pura idiotice buscar aí qualquer característica redentora que o homem pudesse ter, por o altruísmo do mesmo modo que a ganância eram encaradas como o resultado de processos psicológicos repetitivos e mecânicos que levavam o homem a agir ed uma dada forma. A predestinação recebeu novas vestes biológicas e científicas. Num tal quadro, o homem não podia obter crédito pelas suas realizações nem ser responsabilizado pelos seus erros, e a autodeterminação foi severamente minada. Tais ideias colidiam com todos os ideais declarados pela democracia, no entanto eram equiparados a eles.
Muitos dessas questões escaparam-me amplamente em vida, no entanto eu devia ter percebido a sua forma com mais clareza. Tivesse eu sido mais aventuroso e poderia ter ajudado a fazer pender a balança, ou pelo menos poderia ter apontado as contradições patentes entre essas duas áreas opostas do pensamento e da filosofia. Para o efeito dou agora voz à parte que me cabe, por as atitudes que emergiram finalmente na corrente principal da vida Americana influenciaram fortemente a maneira como os indivíduos se viam a si mesmos e à sua criatividade.
Não só o homem se viu furtado da verdadeira satisfação com o trabalho criativo, como foi levado a preservar as próprias dúvidas e tormentos, já que eles eram vistos como responsáveis pela realização da arte: a produção artística achava-se atada a um nascimento neurótico, e o artista em qualquer campo que fosse, começava por aprovisionar conflitos, imaginando que fossem a fonte da sua criatividade.
A morte tem os seus próprios prazeres, e permite-lhes comentar no lazer o nosso próprio tempo, e ver o que veio antes e depois, e julgar quantos desses futuros desenvolvimentos teremos visto ou compreendido na sua forma embrionária.
Se no passado, o génio e a loucura foram considerados aliados, ambos foram vistos à luz de um heroísmo, pelas ligações que tinham um com o outro. E se o génio por vezes fora tingido de loucura, também a insanidade era tingida pelo génio. Porém, se os cúmulos e as profundezas da alma do homem foram cada um vistos por Freud, como o resultado de padrões de comportamentos infantis que rigidamente controlavam o homem para toda a sua vida – as mais grandiosas dimensões da experiência eram reduzidas a um determinismo psicológico do qual apenas a mais profunda autoanálise poderia trazer redenção; uma jornada psicológica que ninguém poderia seguramente encetar sozinho, e uma jornada em que o indivíduo provavelmente interpretaria mal a direcção das próprias inclinações, ao ser educado no escrutínio preciso daquelas aprendizagens espontâneas destinadas a servir como sinais direccionais psicológicos.
A criatividade tornou-se nada mais do que uma insanidade iluminada; e a insanidade tornou-se numa criatividade distorcida. Ambas eram vistas como os resultados inevitáveis do condicionamento e de ânsias neuróticas, sobre as quais o indivíduo tinha pouco controlo.
O Protestantismo baseava-se no direito que o homem tinha de interpretar a verdade para si mesmo numa base pessoal, desse modo desafiando directamente a autoridade da Igreja Católica Romana enquanto único agente capaz de tal discriminação; e com base na tentativa, colocar o indivíduo numa relação personalizada com Deus e o universo. De certa forma, isso significava uma aventura “pagã,” o reviver de antigas características da religião que tinham sido enterradas mas não perdidas quando, por exemplo, o génio xamânico foi utilizado em prole do bem da comunidade ou da tribo. Freud, contudo, roubou esse direito do Protestantismo: O indivíduo era visto como incapaz de conhecer os próprios motivos, e muito menos capaz de interpretar o próprio relacionamento que tinha com a natureza ou a alma. O Freudianismo estava, pois, baseado nos conceitos menos afortunados do Protestantismo, ao descascá-lo das suas qualidades heroicas.
Em parte nenhuma a busca da verdade era considerada componente natural da personalidade. O pénis substituiu a cruz; desse modo, metade da espécie – a mais intuitivamente inclinada - via-lhe negada a redenção. E enquanto em muitos aspectos a cruz fosse em si mesmo encarada como um símbolo religioso caluniado, ele propunha salvação tanto ao homem como à mulher; por detrás dela o pecador ainda retinha a sua dignidade enquanto indivíduo capaz de uma acção livre, por ter apenas escolhido mal. Mas o Freudianismo substituiu o santo do mesmo modo que o pecador por um homem mecânico e psicológico, programado desde a infância para fracassar ou ser bem-sucedido; e atou os grandiosos símbolos do homem à sua menos benéfica manifestação.
Se a religião conforme corporificada no Protestantismo tinha em larga medida fracassado, as suas múltiplas denominações deram lugar a diversas interpretações: a salvação por intermédio dos bons pensamentos, da oração ou das boas obras, através da contemplação privada ou da conquista pública, da revelação pessoal ou da estrita referência Bíblica. O educado e o analfabeto ambos podiam encontrar um lugar; assim como a mãe, a prostituta, o erudito, o trabalhador, a criança e o adulto. O ajuste do indivíduo no enquadramento seria porventura pobre em certas alturas, mas existia mobilidade psíquica, e o pecador podia tornar-se no santo.
Presumivelmente, a superficialidade dominava. A pessoa decente usava roupas decentes e modelava um semblante alegre, mas a democracia esperava prover aquelas oportunidades por meio das quais os indigentes pudessem arranjar emprego. No Freudianismo, porém, o pobre não podia evitar ser pobre, devido ao condicionamento neurótico originado na infância, ver os seus impulsos cristalizados para todo o sempre, imobilizados de modo a ver-se furtado, em teoria pelo menos, da autodeterminação permitida aos outros – conforme as mulheres eram; por todos os seus impulsos serem atribuídos a uma inveja sexual do masculino de que não podia escapar.
O efeito de tudo isso estava na redução da importância da criatividade individual, mas também em colocá-la sob uma luz mais suspeita do que antes; e pior, em encorajar o artista a manter o desconforto de que padecesse, qualquer que fosse, abandonar a compreensão – para que, junto com os seus tormentos, ele não perdesse a sua criatividade. Já que os poderes da criatividade sempre buscam a consecução, e têm uma curiosidade inata com relação à pessoa e a todos os aspectos da sua realidade, o artista era colocado numa posição em que procurava usar a criatividade que tinha e não a usar ao mesmo tempo, para que os clarões da intuição não o conduzissem à fonte da sua criatividade por uma dependência infantil e depois se desintegrassem à luz da compreensão.
Como ninguém merecia confiança para conhecer os motivos das suas próprias acções, e dado que a democracia estava a libertar o indivíduo da forte autoridade governamental a um novo nível, a psicologia definida os seus próprios padrões, e fornecia a “norma”, nivelava os picos da experiência enquanto oferecia à sociedade a segurança de um comportamento mais ou menos previsível. Num quadro desses, a exuberância, a energia e a criatividade eram aceitáveis quando canalizadas para a arena da competição dos interesses nacionais. Aos ricos, por exemplo, absolvia-se com respeito ao “comportamento normal” e era concedida uma actividade artística excêntrica por os seus interesses financeiros serem considerados um investimento prático na vida nacional.
Contudo, as próprias áreas social e dos negócios eram imprevisíveis. Um pobre imigrante poderia ser um milionário do futuro; e em tal ambiente psicológico, não se podia contar com as velhas regras do protocolo social baseadas no sistema de classes Europeu, enquanto pontes regulares de comunicação. A teoria do indivíduo independente governava; e justamente por causa da liberdade da nação e da imprevisibilidade do clima social e económico, as teorias contrárias das normas psicológicas adoptaram um cunho pragmático.
Os pais deviam ser culpados pelas deficiências de carácter da prole, do mesmo modo que qualquer dos problemas da América eram encarados como resultantes da herança negra parental da Europa; contudo, a democracia ainda invejava o rico passado do Velho Mundo, pelo que acorria às teorias de Freud que ligavam a criatividade à neurose, e projectava todos os seus presentes tumultos numa fonte em decadência Europeia.
O Americano via-se a si próprio como “ardente precursor.” Os seus antepassados imediatos tinham aberto o continente. Agora a nova fronteira era a tecnologia u o negócio, a gestão dos recursos da nação e a conquista da riqueza – e com tanto menos controlo por parte do governo quanto possível. Barões salteadores surgiram sob o disfarce do bom burguês Protestante. Não mais a religião temia que a retribuição de Deus tivesse influência nas mentes do homem – pelo menos não de forma tão forte que recomendasse cautela; e a psicologia afastava a culpa ou justificava o seu ferrão. A culpa tinha pouco que ver com os valores básicos, pelo que justificava crimes cometidos em nome da competição, já que o homem era considerado uma mistura confusa de instintos e necessidades primitivas; contudo tais instintos precisavam ser controlados e dirigidos para os objectivos da sociedade.
Em tudo isso, a contemplação da alma tinha pouco lugar. As teorias relativas ao eu subliminal de Myers, após terem feito umas incursões, desvaneceram-se da corrente principal da vida académica e filosófica. Tal conceito, que realçava a independência das mentes individuais e a disponibilidade do conhecimento íntimo superior poderia ter sido usado para incrementar os princípios básicos da democracia como uma muito maior vantagem; salientando a individualidade enquanto reforçava a sua responsabilidade e poder de realização, e enfatizando a relação que tinha com o entrelaçado das arenas naturais e sociais da actividade.
Parte do pensamento de Myers foi incorporado nas escolas e cultos do pensamento positivo. Essas e as do Freudianismo - teorias que se contradiziam mutuamente – mostravam os polos opostos do sentimento Americano; e ambas tinham raízes que se estendiam até ao passado da Europa. Myers começou com a hipótese de que o homem fosse possuidor de um eu interno dotado de uma elevada criatividade e organização – o corolário psicológico que mais se aproximava da alma. As suas orientações podiam ser mal interpretadas; a sua linguagem era simbólica; mas era dotado de boas intenções.
O conceito Freudiano do eu carecia de qualquer boa intenção; quer dizer, via-se despido do altruísmo sob qualquer forma fiável ou propositada que fosse. Era o único tipo de eu que poderia logicamente sobreviver às teorias de Darwin conforme popularmente entendidas, o resultado final de um organismo que sobrevivia ao triunfar sobre as pequenas formas numa batalha interminável pela vida. A “virtude” do eu estava em sobreviver, e se perdeu a intuição que tinha em relação à natureza no processo – bom, isso deveria ser culpa da natureza.
Altruísmo, exibições de valor, a própria filosofia, ou a criatividade em termos de artes – isso só era possível por causa das qualidades do serviço que rendem ao próprio, mas por baixo do seu delicado disfarce encontra-se a determinação infantil selvagem para existirem e o instinto masculino para destruir o pai para o suplantar na batalha da vida. As suas teorias despiram a personalidade do homem de toda grandiosidade e negaram a possibilidade da acção heroica que não se achava ligada aos mais malvados motivos interiores.
Por em todos os distintos periódicos preciosos da academia, cada um especializado, os campos de conhecimento se sobreporem. Tais conceitos esparrinharam-se sobre a arqueologia, a história, a biologia, e foram tingir as artes e as ciências do mesmo modo. Tão pouco o passado escapou: grandiosos artistas de séculos passados tornaram-se excentricidades isoladas, o seu génio produzido por disfunções hormonais ou deficiência sexual, e a história foi reescrita para servir. Os dogmas da Evolução tornaram-se na justificação Freudiana. Se a luta animal pelo domínio resultou na “sobrevivência dos mais aptos,” então de certeza que o homem enquanto o mais poderoso vencedor dessa saga deveria emergir portador dos instintos básicos mais adequados para assegurar a continuidade da espécie. A jovem democracia podia assim justificar as infelizes circunstâncias de uma competição por vezes implacável – era cada um por si.
Contudo num mundo desses não deveria existir ordem, uma questão que até o mais competitivo rapidamente inferia; por isso o raciocínio de Freud, muito resumidamente, dizia o seguinte: Somos basicamente amorais, primitivos, e interesseiros. Tais qualidades asseguram-nos a sobrevivência, porém, precisam ser artificialmente forçadas numa moralidade que nos protegerá contra nós próprios, e consequentemente promover a nossa sobrevivência num contexto social e governamental.
Os resultados de tudo isso eram mistos. Freud pintou um quadro do subconsciente do homem tão medonho, e limitou a “salvação” a tão reduzido número de pessoas, que a espontaneidade não foi promovida mas ao invés reduzida e restrita a campos de competição, onde era tolerada. O eu espontâneo, a porção impulsiva da natureza do homem tornou-se suspeita, por em tais actos espontâneos o homem poder involuntariamente revelar não uma bondade básica mas a falsidade oculta dos seus motivos.
A própria busca da virtude tornou-se na mais grosseira forma de pose moral – uma hipocrisia emocional. O barão salteador pelo menos era mais sincero na sua desonestidade, ou assim não parecesse. A compaixão e a simpatia não só saíram de moda como a sua expressão foi considerada evidência de duplicidade como uma negação optimista da natureza do homem. Uma espécie não podia subir sobre a outra enquanto sentisse simpatia pelo seu predecessor, nem os membros de qualquer espécie permitir a pena pelos seus companheiros menos vigorosos.
Contudo, a alma Americana era cautelosamente idealista mesmo por baixo de tais teorias conflituantes, e era a seu modo inocente. Caso, conforme os psicólogos alegavam, o homem fosse quando muito amoral – o resultado final uma evolução biológica mortal: um misturador grosseiro rumo ao topo da pilha – aí por fim, na nova democracia, se ele empurrasse e atropelasse com força suficiente um homem podia conseguir o bastante para comer. Podia mesmo chegar a conseguir o seu próprio negócio. Os seus filhos poderiam obter uma educação. Aqui a escada social ainda estava em formação. Um homem podia saltar de um ramo de negócios para outro, mais elevado, em copas de árvores onde cérebros e trabalho duro podiam tomar o lugar da família das árvores Europeias que tiveram, no passado, dado protecção e sombra a gerações de eleitos.
Aqui o homem comum podia ser igual soba lei, mesmo que a tirania da sua natureza ditasse uma amoralidade básica que lamentava cada homem em comparação com o seu vizinho. Ele podia, apenas por meio da força de vontade, chegar mesmo a alcançar um tipo de vitória moral através do uso de alguma repressão. Daí que a sugestão: “Estou a melhorar todos os dias, em todos os sentidos” fosse, com alguma sorte, estabelecida contra o determinismo Freudiano. Alguns dos mais ambiciosos, evidentemente, usavam essa sugestão para implementarem a sua luta no domínio da competição (a batalha evolutiva transferida para a área da economia). Cada vez melhor significava: “Estou a ficar mais esperto e mais astuto que os meus competidores.”
Os negócios tornaram-se então no elemento mais criativo na sociedade Americana, com as ciências tecnológicas a aproximar-se rapidamente. Por fim ambas tornaram-se de tal modo aliadas que as fronteiras desbotaram, até no vosso tempo se tornar bastante óbvio à medida que os negócios e a tecnologia progrediam juntos, que chegaram a intumescer uma vertigem de uma confiança excessiva num estímulo excessivo que culminou nas experiências de guerra Americanas do século vinte.
Encorajada pelas crenças e Freud, e ainda a operar sob os equívocos da evolução, a civilização ocidental viu-se confrontada com uma situação temática em que nenhum indivíduo era considerado fiável mas biologicamente orientado para empreender qualquer curso que assegurasse a sobrevivência. O mesmo se aplicava a todas as nações. Na Segunda Grande guerra, os Japoneses foram retractados como caricaturas de seres humanos, obviamente lá no “fundo da escala evolutiva” e como tal, não aptos para sobreviver. As guerras eram justificadas diferentemente por muitos homens inteligentes como a versão humana dos processos evolutivos inconscientes da natureza, e a velha máxima “Manda quem pode,” alcançou um novo poder.
A psicologia e a ciência estavam simplesmente a ocupar o que as velhas religiões convencionais tinham deixado de fora – ao fornecerem uma justificativa mais moderna para políticas de governo há muito mantidas na Europa. Eu vislumbrei algumas dessas formas do futuro com alguma repugnância e fascínio, poderia acrescentar – por ter antevisto a possibilidade de juntas, todas as ciências – psicologia, biologia, arqueologia, paleontologia – poderem formar uma força que passou irreconhecível enquanto uma religião e no entanto fornecia uma unidade e uma estrutura filosófica global tão forte como aquela da Igreja Católica Romana na Idade Média.
Eu não pensei que essa fosse uma forte possibilidade dado que subestimei amplamente a aliança que se formou entre os negócios, e a tecnologia e a ciência; parecia-me a mim no meu tempo que a ciência carecia do grude económico que tinha mantido a Igreja Católica junta. As ciências, contudo, formaram mesmo essa estrutura, e a filosofia que sustentaram unificou as artes e os negócios e as organizações sociais. As perspectivas gerais do Freudianismo e da evolução fundiram-se e correram qual regato escuro e ameaçador ao longo de todas as ciências e artes, negócios e estruturas sociais; de modo que todos os demais aspectos da vida, passados, presentes e futuros, passaram a ser vistos pelo que se constituiu como a lúgubre mas hipnotizadora luz de um novo dogma.
As universidades, fundações, e a própria família - todos esses elementos da vida Americana alteraram os pontos de vista que defendiam de forma drástica. Embora as mudanças se começassem a efectivar no meu período e venham a terminar no vosso, não por muitos anos a partir daí será visto que o século vinte do mundo Ocidental estava tão unido na filosofia científica quanto a Europa da Idade Média estava na rigidez religiosa.
O Freudianismo, o evolucionismo e a tecnologia tornaram-se na nova inspiração para as artes, e o governo Americano patrocinou aquelas fundações que promoviam essas crenças. A ficção científica também representou muitas vezes a projecção das teorias evolucionárias para o espaço - o animal humano a dispersar os seus genes superiores com o uso da tecnologia.
Outras teorias filosóficas foram sustentadas, mas não floresceram ou não alcançaram a corrente principal da vida Americana. As pessoas não eram geralmente presas por sustentarem crenças opostas, embora algumas fossem. A liberdade de expressão Americana foi pelo menos respeitada em grande parte, mas as definições da normalidade impostas ao cidadão comum foram aquelas que suportavam as teorias que acabamos de descrever.
Essas eram quando muito limitativas. No mínimo, prestavam-se à alienação do homem da sua fonte privada de energia e vigor, e para o furtar da própria autoconfiança que a democracia idealisticamente fomentava. Por a nação não ter abandonado dos ideais que tinha. O homem comum agarrou-se a eles com uma determinação desesperada e uma esperança lustrada; com um optimismo e aplicação ao trabalho árduo que viu milhões de crianças em andrajos tornar-se cidadãos extenuados, aturdidos mas bem vestidos - que passaram a buscar as religiões, as artes e as chamadas coisas finas da vida em busca de uma resposta para a questão não mencionada: Do que teremos aberto mão para chegarmos onde estamos?
Ao longo do percurso, as religiões juntaram-se em larga escala aos interesses dos negócios e decidiram-se pelas boas obras ignorando questões tais como a da existência da alma; pois onde poderia esse fenómeno não científico e improvável enquadrar-se no quadro dos aparentes factos da evolução, em particular com a versão popularmente entendida da origem do homem assente no macaco? De que dispunha a religião para contrariar as demonstrações científicas de laboratório?
A religião defrontava-se com um bom caso de constrangimento social e obstipação espiritual. Muitas das suas antigas doutrinas não mais obtinham a crença da parte de quem tivesse senso comum - e com uma boa razão. A religião não tinha arrumado a própria casa e a ciência esperneava e quase rebentava com a estrutura de palha.
Toda religião constitui uma protecção de crenças, de atitudes e de hábitos, reunidos a partir de diversas fontes que juntos formam uma estrutura temática e de protecção. Alguns dos vários elementos que a compõem não pareciam, sozinhos ou em separado, ter cabimento no domínio da religião em absoluto. Geralmente as religiões colectavam pedaços de história, ciência, psicologia, retirando-os do contexto e usando-os para fortalecer outras crenças antigas que já tinham atingido o seu auge - crenças que deixaram buracos temáticos que odiam enfraquecer a estrutura o suficiente para permitir um dilúvio de chuva de crenças contrárias.
Uma dada religião pode ter como pilar central apoio na história, na Bíblia, num dado profeta, ou numa filosofia básica não religiosa na sua origem, em termos convencionais. O seu pilar central pode ser o da ciência ou da pseudociência, a da predestinação, a da salvação, ou qualquer das inúmeras hipóteses que outras. A partir desse centro, sairão raios giratórios, cada um dos quais estará ligado ao pilar central e de algum modo dependente dele.
Enquanto a nova democracia professava não abraçar qualquer religião oficial, o seu pilar principal assentava no Cristianismo, com o Protestantismo como alça. Tanto a democracia como o Protestantismo expressavam crença nos direitos e capacidades do indivíduo. A autoconfiança, a melhoria espiritual e social, a importância das boas obras - tudo isso constituíam nervuras de suporte num quadro temático robusto que era amplo o suficiente para incluir muitas variantes.
Os Americanos, não obstante as persuasões religiosas formais que tenham agarraram-se firmemente ao pilar central, ao esposarem os direitos e capacidades do cidadão individual. O Freudianismo enfraqueceu tal pilar central ao minar a integridade básica da pessoa privada em que toda a estrutura se encontrava pendurada. A religião poderia ter-se reforçado rapidamente pelo reviver da importância da alma; pela enfatização da sua base subjectiva; e pela tentativa de reexaminar e redefinir da alma à luz do novo conhecimento. Podia ter descartado a sua antiga insistência na fé cega não suportada por nenhuma espécie de razão; podia ter aguentado a sua base contra o Freudianismo enquanto aceitava da psicologia o convite para explorar a natureza do homem com uma mente aberta.
Em vez disso, a protecção foi cindida. Os intelectuais decidiram arriscar a tempestade sem a protecção da religião. A ciência e a religião tornaram-se dois cidadãos encharcados, na rua em plena tempestade de chuva, cada um com meio guarda-chuva, e cada qual fingindo estar inteiramente seco. As religiões fundamentalistas foram deixadas com uma metade hirsuta - os raios da alma, enfiados no tecido dogmático enfraquecido - a cambalear na base da fé cega que tinha perdido o seu pilar central. Por ambas as facções dispensarem a crença básica na bondade inata do homem ou no potencial da acção heroica caracterizada por uma acção moral. Cada uma acreditava que deviam aplicar o controlo, e nem a natureza pecadora dos fundamentalistas nem a natureza selvagem e instintiva do Freudianismo eram objecto de liberdade. Contudo, alcançar tal liberdade era objectivo nacional, cruzada idealista com que a nação se comprometia antes do mundo.
O dilema era básico, e a solução passava pela transferência da salvação de uma arena religiosa para uma arena social e económica - onde pelo menos os resultados da graça podiam ser julgados - e depender da tecnologia para instilar medo nos corações dos homens, dado que o temor a Deus não mais oferecia qualquer protecção. De certo modo, a vossa corrida armamentista e engenhos nucleares destrutivos tornaram-se necessários uma vez que o homem acreditou pertencer a uma espécie que matava para sobreviver; nesse contexto, nenhuma pessoa ou nação podiam ser objecto da confiança de cumprir com as minúcias da civilização sem a iniciativa do medo.
Deve ser imputada à religião a vergonha por ter anteriormente permitido que o conceito da natureza pecadora superasse o da natureza heroica da alma, por no passado a religião pelo menos ter providenciado dispositivos psicológicos pelos quais o homem comum podia aliar-se das boas intenções que tivesse, mas o Freudianismo mais o seu selvagem inconsciente, jamais forneceram uma esperança adequada de salvação pessoal. Não havia esperança; Deus fora abandonado. O homem tinha-o superado. Quando muito Ele não passava de um símbolo do somente demasiado falível pai humano. E como poderia o homem comum fiar-se num ser cujos instintos careciam agora da graça natural dos animais, enquanto mantinha uma bestialidade manifestamente exagerada, projectada como a sua?
O mundo natural era igualmente visto a essa nova luz. A religião tinha insistido na superioridade do homem sobre os animais, mas mesmo então professava colocar o homem na posição de seu guardião meigo. Contudo, quando os conceitos evolucionistas e Freudianos o encurralaram no mundo natural, então o ambiente e todos os seus detalhes vivos se tornaram jogo limpo; e numa época em que a tecnologia estava a afastar o homem do relacionamento natural e pratico que tinha com os animais e a terra.
O naturalismo inicial (e o romanticismo) do meu século rapidamente começou a desvanecer-se. Contudo a própria alma da terra permaneceu e não morreu. A sua natureza virgem reflectia-se taciturnamente nos quadros dos artistas, tanto Americanos como visitantes Europeus, e a beleza resplandecente reprovou letrados e analfabetos à mesma; como se a sua presença obstinada para contradizer essa mistura negra, curiosa e astuta de psicologia Europeia e Protestantismo que tinha brotado tão ameaçadoramente no solo Americano.
Contudo, aqueles que aqui vieram por causa de uma determinação e uma esperança – uma fé, caso não em Deus ou no homem, pelo menos nas circunstâncias – uma crença numa terra dotada de uma inocência histórica, em que uma cidade não era construída com base numa correspondente cujo passado chegasse aos tempos de Roma; uma terra ainda não povoada com fantasmas. Aqueles que aqui vieram, independentemente dos seus erros e independentemente dos fantasmas que trouxeram consigo, trabalharam de forma heroica com aquilo de que dispunham e formaram uma sociedade que nunca chegou a satisfazer os seus ideais por os sonhos que tinha serem tão ousados em face das crenças e das teorias que minavam a própria autoconfiança que assim esperavam promover.
Em qualquer sociedade relativamente aberta em que a desenvoltura ou o desembaraço e o vigor sejam pré-requisitos, as mulheres emergem como parceiros iguais dos homens, porém, os conceitos de Freud enfraqueceram a independência ganha pela pioneira Americana ao reforçar a posição privilegiada do homem, uma posição justificada igualmente pelo Protestantismo. As qualidades que ajudaram a conquistar o Oeste – a autoconfiança, o expediente, a coragem – foram em retrospectiva vistas como masculinas. A sua própria presença numa mulher agora aspergiam calúnia na sua feminilidade.
Para tornar as coisas piores, as qualidades que há muito eram admiradas nas mulheres, eram agora encaradas com desdém. Essas características, que geralmente se prendiam com as áreas intuitivas da simpatia e do sentimento no qual as mulheres se destacavam por mais nenhuma via de expressão se lhes achar aberta - essas eram agora encaradas como tendências histéricas inferiores.
O Freudianismo não conseguia tolerar as capacidades intuitivas por elas não merecerem confiança encrostada nos seus olhos como se fossem desejos libidinosos. E na América, tais qualidades não tinham lugar nas fábricas onde só provariam ser desordenadas e perturbadoras.
Considerei-me um homem de ciência - uma cientista Americano - no entanto queria sondar a mente do homem, a experiência e o comportamento do indivíduo, a fim de descobrir evidência da alma esquiva; não só para atenuar o receio que o homem tem da morte, mas para descobrir na pessoa comum aquelas qualidades heroicas que poderiam fazer com que a democracia funcionasse. Lutei por desenterrar no homem comum aquelas características incomuns, aquele dinamismo da alma, que demonstrasse a capacidade do indivíduo de se governar por um direito divino concedido a todo o cidadão, ao invés da coroa de um príncipe ou ditador. De certo modo, suponho que tentei substituir a realeza do indivíduo pela realeza dos governos Europeus. Nessa medida, claro está, eu fui excessivamente romântico.
Daí as dificuldades com que me deparei, que a seu modo espelharam as situações psíquicas de outros homens com pretensões de inteligência para além de mim. Continuamos a ter inclinação para os pensadores Americanos de peculiar inocência, Emerson e Whitman, por exemplo, por os seus trabalhos conterem  aspirações Americanas e mais nenhuma. Contudo também fomos conduzidos de volta às "realidades da época" - o abuso da indústria, a economia galopante e a desilusão para com a natureza do próprio homem. Cada vez mais nos deparávamos com teorias pessimistas ou fatalistas que começavam, e cada vez mais forte, a emergir.
Foi referido que Freud pelo menos abrira o assunto do eu interno à pesquisa científica, banira a insistência excessivamente severa que a religião atribuíra à culpa ao situá-la no subconsciente pessoal (na compreensão distorcida que a criança tem doa acontecimentos libidinosos) e que apontara os efeitos desastrosos do condicionamento inicial. De facto não alimento qualquer conflito com o homem. O seu triunfo esteve no facto dele perceber a própria natureza, e em certa medida, a dos seus contemporâneos Germânicos - e isso requeria uma extrema ousadia.
Mas teoricamente pelo menos, se ele tivesse ido mais longe Freud teria começado a perceber aqueles mananciais da criatividade que a sua própria obsessão lhe ocultou tão bem; e ele poderia ter percebido que as suas próprias teorias constituíam idealizações intuitivas e não deduções intelectuais, e que elas o levariam a outro lugar não tivesse ele reprimido o processo, ao formalizar o que era unicamente o começo de uma longa busca. Jung, é verdade, seguiu-o em certa medida, no entanto também foi contaminado pelos conceitos Freudianos  - e assim, foi dominado pelo homem, Freud, e a relação que se seguiu - para por último não conseguir libertar-se o suficiente para dar os saltos que se requeria.
Numa altura em que o homem tentava de verdade livrar-se dos grilhões das crenças mais mesquinhas da religião, Freud em nome da ciência deu-lhes uma nova e perigosa fundação. Muitos intelectuais jogaram fora a ideia da alma junto com o insípido céu cristão e o inferno de Dante. Na volta deram consigo circunscritos a um eu capaz da mais cruel selvageria, mas incapaz dos menores actos de comportamento heroico; viu-se negado no acesso à alma por meio de cujos ditames o homem pode chegar a endireitar-se - e equipado ao invés com paixões instintivas e com o autoengano que nenhum homem por si só poderia chegar a compreender.
Como poderia tal criatura governar-se a si mesmas, ou atrever-se a experimentar uma sociedade em que nenhuma classe autocrática governasse e mantivesse a ordem, com base num interesse próprio que pelo menos mantivesse a estabilidade? A resposta engenhosa estava em tentar tornar cada homem num proprietário de terra, ou pelo menos num proprietário de uma casa, de modo que a sua própria ganância pudesse ser controlada, as suas necessidades satisfeitas, a selvageria animalesca dentro dele acalmada. Esse era o ideal apregoado. Tornou-se óbvio que, mesmo com igualdade de oportunidades, os homens permaneceriam desiguais em determinados aspectos práticos. Alguns lutariam para abrir caminho até ao topo, e seriam verdadeiros para com o seu "destino evolutivo," enquanto outros cairiam pelo caminho. Portanto, de que modo seria o homem igual? Igual a quê? E como seriam os direitos do indivíduo protegidos na luta pela sobrevivência em que apenas os "superiores" sairiam vitoriosos?
As respostas não estavam acessíveis. Foram feitos e refeitos ajustamentos sem que se encontrasse qualquer solução para o problema básico, embora elas efectivamente existissem, ao se acharem implícitas no trabalho de Myers - e porventura mesmo no meu trabalho, embora nos meus próprios trabalhos as respostas fossem tão obscuras que até mesmo eu as vislumbrei quando li nas entrelinhas do que eu próprio escrevera.
por cada um ser igual aos demais unicamente quando reconhece em cada um a presença de uma força não devassada e eminentemente preciosa de identidade e de sentido que possui a própria dignidade inata. Tal dignidade existe para além das nossas ideias de superioridade e inferioridade em qualquer época da história, e o espírito dentro do indivíduo é igual a todos os graus ao espírito que se acha dentro de toda as pessoas. Uma sociedade sã e benevolente é aquela que dará a esse potencial interior igual oportunidade de se realizar de acordo com as próprias orientações e intenções. O espírito interior precisa ser compreendido, pois, para que haja boas intenções. O indivíduo pode não agir sempre de modo benéfico mas a intenção do eu básico deve ser percebida como boa, em vez de má ou neutra. E o Freudianismo, de uma forma mais drástica ainda do que muitas religiões, furtou o homem das suas boas intenções do ser.
Alguns de nós, envergonhados mas preocupados, prosseguimos com o nosso trabalho em face da crescente desilusão: buscar a boa intenção no homem, procurar as qualidades da alma, trazer a alma à respeitabilidade científica buscando a prova da sua existência através dos próprios instrumentos da ciência como o objectivismo, e isolar de forma previsível tais características que possa mostrar até mesmo ao mais céptico a exatidão das nossas hipóteses.
Somos cuidadosos no apontar que consideramos tal alma como uma hipótese, e não a rotulamos de crença, e em particular procuramos provas da percepção extrassensorial que situasse a consciência num contexto que a elevasse acima dos impulsos instintivos apenas. Se o eu interno pudesse transcender as regras da realidade aclamadas com tanto orgulho pela comunidade científica, então seguramente, raciocinamos nós, os cientistas devem ficar impressionados com os poderes do ser e teriam que conceder ao mecanismo do homem algum mecanismo maior, alguma maquinaria espiritual que os atraísse para fora do seu isolacionismo.
Nessa busca recebemos muito pouca ajuda da parte das igrejas estabelecidas ou das ciências e assim, com bastante desconforto, demos por nós a procurar manter o nosso profissionalismo, as nossas credenciais científicas, enquanto ao mesmo tempo explorávamos as vias do pensamento do pensamento não convencional que receávamos pudesse desviar-nos ainda mais da corrente principal da vida Americana. Eu, pelo menos, perseverei a esse respeito, ao forçar sobre os meus colegas dissertações quer as quisessem ouvir ou não, fortalecendo a minha atitude para com os seus limites senatoriais e tornando-me quase tão asfixiante na minha conduta quanto esperava ser livre e aberto nos meus pensamentos. Mas por tal forma garanti que as minhas ideias fossem escutadas.
Contudo a nação suportou. O optimismo Americano conseguiu dar passos de gigante mesmo sobre a mais tenebrosa das teorias. A nova nação triunfaria sobre a própria natureza repugnante do homem, prevaleceria sobre as raízes retorcidas das espécies, e caso o domínio sobre as áreas suspeitas do ser fosse impossível, o domínio sobre a terra não o era. A nação era materialmente rica e podia ser minada. Podia suportar uma população. Cada um podia ter o suficiente para as suas necessidades, e por conseguinte ter muito pouca razão para roubar o vizinho.
Os ideais sempre precisam ser considerados à luz da sua praticabilidade. O Freudianismo e os aspectos desabrigados do Puritanismo fundiram-se para dar aos Americanos um verdadeiro complexo de inferioridade por um lado, e por outro, uma determinação compensadora para ser bem-sucedida enquanto nação.

Agora, o vosso mundo, a mim, parece-se quase com o negativo de uma fotografia, descarnado e revelando contornos e definições só que de uma natureza transparente. Preciso de interpretar as perspectivas que lhes parecem tão realistas e coloridas, por os meus sentidos não se encontrarem tão em sintonia com essas soluções neurológicas que fazem com que o mundo brote com vida.

Vez por outra a lembrança e a imaginação provocam uma súbita conexão e eu percebo uma cena particular, sabendo porém, que de certa forma constitui uma réplica de um dado retracto do espaço-tempo, só que não o retracto em si mesmo, e não consigo entrar nele. Quer dizer, muito embora alucine criativamente um ambiente terreno numa certa extensão limitada, ele não satisfaz directamente o do vosso mundo em absoluto, não obstante a realidade que tenha para mim. A percepção do vosso mundo é possível, mas sob uma fraca visão geral, por agora essa realidade constituir uma realidade fantasma para mim, as suas margens serem incertas, os seus movimentos se encontrarem desfocados, e as suas massas mais sólidas se acharem dotadas de um matiz transparente.

Percebo-o como perceberão um filme obscuro em que as sequências do tempo se misturam, a velocidade se revela incerta, em que ocorrem trespasses de certas imagens para outras e os sons são duplicados, e decorrem por vezes antes e por vezes depois das falas dos actores.

Tenho mais consciência dos desenvolvimentos generalizados que se deram desde a minha época do que dos específicos. Contudo, o mundo físico em que certa vez desempenhei a minha parte ainda me interessa, por as minhas ideias ainda se encontrarem vivas nele; e embora a sua vitalidade se tenha esbatido desde a minha morte, ainda satisfazem respostas nos vivos e estimulam as minhas próprias reacções. As ideias que expressei em vida continuam em movimento, sem mim, e despertam-me o interesse. Formam um padrão de energia, de interesse, e de investigação ainda ligado à parte de mim que as deu à luz. Nessa medida, mesmo agora o interesse que sinto por esse mundo é vívido.

Um mundo estranho para os mortos utilizarem, porventura, no entanto as ideias que tenho a esse respeito gozam de uma maior liberdade do que gozaram em vida, e não mais são restringidas pelas experiências da vida diária. Se a agudeza dos detalhes se perdeu, estou bastante habilitado a seguir amplos padrões de pensamento e de emoção com facilidade, percebendo-os um tanto acima da dureza da realidade do mundo, e que se elevam dele como cores multicoloridas de várias formas, cores, e variedades. Apesar de tudo, pois, não consigo seguir as ideias do mundo nem o clima emocional muito bem. Realidades ligadas à vossa própria experiência, mas invisíveis para vós, tornam-se então bastante nítidas do meu ponto de vista, ao passo que os acontecimentos vulgares de natureza física se tornam incertos e sombrios.

Consigo seguir os pensamentos das massas à medida que se formam acima do mundo, ao se misturarem com outros, e flutuarem em padrões por vezes luminosos, por vezes escuros ou obscurecidos, e consigo perceber a intensidade das emoções que os impelem. Como uma nuvem de chuva seguramente trará um aguaceiro, do meu ponto de vista torna-se óbvio que certos padrões de pensamento produzirão acontecimentos físicos adequados à sua natureza, de modo que é com um interesse considerável que assisto a esses padrões emocionais e mentais que cercam o mundo.

O amanhecer tem um brilho que não mais percebo, por não acordar todas as manhãs em cama nenhuma e não assistir ao despertar do sol por entre cortinas de janela nenhuma; contudo percebo o despertar de novas ideias, o brilho da paz ou da fé ou do contentamento à medida que cercam o mundo, e se elevam por entre as formas escuras da dúvida e do medo. E enquanto descanso, não mais durmo nos velhos moldes, embora possa fazê-lo, em função da experiência. Imediatamente a seguir à minha morte eu dormia por uma questão de hábito, mas gradualmente fi-lo cada vez menos à medida que as sensações que tinha do tempo se alteravam.

Essa alteração também deve ter surgido gradualmente, mas com toda a sinceridade, não me consigo lembrar exactamente como ocorreu. Passei por alguns períodos fantasmagóricos muito agradáveis em que poderão ter ocorrido ajustamentos. Tão pouco para mim se torna fácil descrever exactamente a forma como a minha experiência do tempo difere da vossa. Se lhes perguntasse como conseguem manter separadas as lembranças que têm, por exemplo, enquanto vivem cada uma em separado hoje, não saberiam como responder, porventura dizendo simplesmente que isso era conseguido por algum modo, e sem muito esforço consciente, baseando-se em determinados processos de aprendizagem que deverão ter tido lugar na primeira e segunda infância. Distinguem muito facilmente o passado do presente, e, com muito pouco conhecimento do futuro, precisam proceder a muitas computações deliberadas nessa área excepto na formação de planos de acção futura.
Da mesma forma, torna-se-me difícil dizer de que modo a minha experiência do tempo foi alterada. Consigo “ver” os padrões do pensamento do mundo conforme os descrevi, e as formas emocionais “a um só tempo” conforme poderiam ver as nuvens se estivessem acima da terra. Posso igualmente “ver” a minha própria vida da mesma forma, na sua inteireza conforme a conheci, mas também por formas com que não estava familiarizado na altura. 

Os acontecimentos da minha vida parecem-me a mim estar em aberto; vejo aquilo que fiz, mas também o que poderia ter feito, e posso perceber a energia que emiti em direcções que não assumi de uma forma consciente. Consigo, pois, perseguir a influência que causei, ver os milhares – não, milhões – de pessoas que influenciei, tal como cada um de vocês influencia a terra e a sua população em termos muito mais vastos do que percebem.

Cada contacto, directo ou não, conta e propaga-se ao exterior de forma que a vida de cada pessoa emite linhas de contacto que vão intersectar outras a um nível psíquico, mas de forma muito prática em termos psicológicos. De modo que, após a morte, seguir as pistas da influência que exercemos será talvez o mais fascinante dos empreendimentos.

Os olhos dos mortos acham-se efectivamente abertos por meio de experiências dessas, e isso provavelmente representa as contas prestadas nos julgamentos privados que Deus empreende, “o saldo final de contas,” etc. Porém, isso não comporta qualquer juízo implícito nesses termos, embora cada pessoa venha, obviamente, a interpretar a sua experiência de acordo com as crenças e características que possua. Talvez os acontecimentos em si mesmos sejam mesmo percebidos de modos completamente diferentes.

É impossível dizer quanto tempo isso leva em termos de tempo terreno, mas as dimensões interiores da experiência situam-se igualmente para além da descrição, por não existir nada na vida que se compare com a profundeza, amplitude, complexidade, ou intensidade de um evento psicológico caracterizado por diversos eventos como esse. Poderia compará-lo ao rastreio de um milhão de luzes a entrecruzar-se simultaneamente num céu nocturno enquanto um observador espantado na terra assiste hipnotizado, deslumbrado, a seguir cada tremular distante da luz pelos confins do universo, enquanto ao mesmo tempo sabe que cada tremeluzir – e que o tremeluzir uns dos outros – terá tido origem nos seus próprios pensamentos e terá existido nele e no céu ao mesmo tempo.

Assim são as trilhas da vida projectadas para o exterior e assim se intersectam com as dos outros, formando padrões de energia, produzindo novos relacionamentos, e desencadeando acções que jamais terão surgido à percepção terrena. Agora, por exemplo, parece impossível que eu estivesse tão minuciosamente ciente da energia e da extensão, das vastas consequências da minha própria vida. Não creio que pudesse ter compreendido, e muito menos percebido, que as vidas de todas as outras pessoas tivessem a mesma assombrosa dimensão de grandiosidade.

O mais interessante de tudo, porventura, é que essas linhas de vida começam antes do nascimento e continuam além da morte. Os cursos da minha própria vida ainda intersectam e influenciam os daqueles que se encontram vivos; e por meio do próprio conhecimento que tenho dos meus contemporâneos, os seus cursos de vida misturam-se igualmente com os meus e com as dos vivos igualmente, por as suas ideias ainda estarem relacionadas com as minhas ou são usadas por qualquer forma pelos vossos contemporâneos. Por regra, do vosso ponto de vista, os percursos de vida dos vivos são mais brilhantes e de uma maior intensidade do que os dos mortos, mas isso aplica-se unicamente no geral. Os percursos de vida dos mortos podiam ser comparados, digamos, a galáxias distantes, enquanto os dos vivos representariam o mundo que experimentam. Mas na realidade muitas vezes a intensidade de certos pensamentos e emoções é tão forte que permanecem altamente voláteis.
Nos vossos termos, a divisão entre vivos e mortos após a morte física tem pouco significado. Existem gradações de consciência, sim; divisões, umas a misturar-se com as outras. E combinações psicológicas tanto de identidade como de percepção que se tornam possíveis fora do sistema físico, mas não nele. Algumas pessoas voltam à vida física muitas vezes. Outras vivem uma vida ou duas de uma enorme intensidade e de seguida dão seguimento a ideias deste lado, e assistem à distância ao brotar das sementes físicas dessa criatividade.
No meu caso, cutuco, por meio deste manuscrito, com os meus dedos na “torta” de alguém, embora a meu convite, e acrescento certos ingredientes exóticos que de outro modo estariam em falta numa preparação que deve, não obstante, ter assento no peitoril da janela do vosso tempo (não meu) e ser apresentada e comida à mesa de um mundo em que posso somente passar por um convidado irreal num banquete que terei preparado em parte.

As comunicações entre os vivos e os mortos deverão ser sempre, quando muito, traduções. Nós não podemos intrometer-nos directamente. O conhecimento, a experiência, e o discernimento dos mortos acham-se disponíveis por toda a parte, por fazerem parte de uma linha de consciência que se acha em constante mudança e que entrecruzam o universo. Existem, claro está, divisões, e aqui preciso de novo recorrer ao uso de analogias com que estejam familiarizados, por as minhas linhas de comunicação principais se encontrarem “acima” da vossa atmosfera mental – sem querer que isso implique superioridade da minha parte, mas sugerindo a necessária separação. Assim existe uma “distância” a ser atravessada em tais comunicações; uma que torna as aparições directas muito improváveis.

Tais aparições assemelham-se mais a imagens projectadas de uma natureza transitória que não conseguem “ocupar” tempo nem espaço por muito tempo – traços mentais que não foram preenchidas pela consciência nem carne – mas que esboçam padrões espaciais em resposta a um comunicador que naturalmente existe num tipo de meio psicologicamente diferente.

Esse tipo de encontro torna-se difícil para o comunicador, por ele precisar adoptar um personagem ou uma identidade mais reduzida do que a mais completa que adopta após a morte, e em que se tem que comprimir num contexto pessoal agora demasiado reduzido, e relacionar-se com os vivos por formas que lhes sejam familiares, mas que terá superado. Não que o amor tenha sido superado, apenas o contexto mais reduzido em que foi experimentado, e muitas vezes após os detalhes procurados pelos parentes enlutados terem perdido a sua agudeza para os mortos, enquanto os padrões dos relacionamentos foram experimentados de maneiras mais profundas do que aqueles que os vivos conseguirão compreender.

Os mortos podem sentir-se impacientes em tais casos, e desse modo podem preferir encontros oníricos informais em que os vivos não atravanquem o ambiente mental com exigências de provas e detalhes que, para os mortos, sejam irrelevantes e um desperdício de oportunidades. Por certas condições precisarem fazer-se presentes antes mesmo de encontros oníricos poderem ocorrer, e geralmente os mortos satisfazem-se com uma comunicação menos directa, mas também menos perturbadora. Isso é frequentemente conseguido por meio da manutenção de um interesse geral, distante, e vivo e por mensagens reais de conforto, apoio, ou de inspiração, endereçados de uma forma anónima, geralmente transmitidas quando o beneficiário menos as espera, durante o sono, ou quando a mente se acha ocupada de outro modo. De outro modo, o efeito alarmante de tais encontros muitas vezes apaga a mensagem, exagera-a, ou distorce-a de uma forma ou de outra.

Os mortos ainda amam aqueles que amaram em vida, só que compreendem a emoção muito melhor do que o faziam antes, e de certa forma ainda difícil de expressar, não sentem saudades dos vivos, não se sentem ausentes dos vivos, somente presentes de uma forma completamente diferente que os vivos não conseguem sondar. Nesse sentido, claro está que têm vantagem, e é em prole do alívio da solidão dos vivos que os mortos comunicam, mesmo sabendo que tais comunicações podem deixar os vivos ainda mais ansiosos.

Os mortos a seu modo têm ciúmes da liberdade de que gozam, e por vezes as suas comunicações adoptam a forma de uma apressada mensagem do tipo: “Sim, eu estou bem,” bradadas por cima de um ombro mental. Certas pessoas esquecem de enviar cartas quando viajam, ocupadas como se encontram nas suas novas experiências. De modo similar, encontram-se de tal modo envoltos nas suas próprias aventuras que ignoram a persistência dos vivos, cujos pensamentos se elevam como papagaios mentais com lembranças, a dizer: “Porque não escreveste?”

Mas as aventuras dos “mortos” podem ser muito concentradas. Após a morte, por exemplo, aprendi truques de percepção que agora tomo como dado adquirido. Posso experimentar todas as fases da minha vida de uma forma expandida, usar uma memória intensificada que é capaz de recriar activamente acontecimentos e de me conceder a percepção de um acontecimento conforme certa vez o tenha experimentado – só que expandida de modo a incluir todos os detalhes pessoais que na altura me terão escapado, e os acontecimentos percebidos a nível subconsciente que davam expressão aos eventos físicos. Assim como posso ampliar as mesmas fases e experimentar, digamos, um certo Outono que de súbito se torna num ponto de intervenção em que as acções de todos os outonos da minha vida se achem contidas. Tais “truques” de percepção ampliam-se somente aos acontecimentos de ordem privada e não à história terrena.

A minha posição, se é que tal termo se presta à descrição da presente posição psicológica que ocupo, resulta dos meus próprios interesses, idiossincrasias e tendências. Nos vossos termos, sou ainda erudito e dado aos meus estudos, ao passo que outros se interessam pelas relações de carácter emocional e se envolvem em diferentes tipos de encontros tanto com o próprio ambiente como com o vosso.

A morte não torna o covarde num herói, nem o idiota num sábio, é verdade; contudo, tais juízos são, desde logo, altamente limitativos, e a morte não conduz um homem ao seu próprio domínio. Quer dizer, ele percebe as próprias características e capacidades com uma maior clareza, e após um choque de surpresa inicial, geralmente ele passa a ver-se por meio de uma compaixão mais generosa e viva, do que a que terá conseguido antes.

Na Terra poucos são os que se acham imbuídos de um propósito maldoso. A maioria dos crimes é cometida por aqueles que pretendem “fazer justiça,” e constitui o resultado de ideias e de emoções confusas que sufocam o conhecimento que o homem tem de si mesmo e dos outros, de modo que age com base na ignorância ou se deixa conduzir por uma paixão que é a única que se permite sentir. Essa paixão comporta igualmente todo o poder inibido das demais emoções que clamam no seu íntimo por expressão, e que à semelhança de um rio represado em época de cheias, irrompem na sua energia de uma forma desenfreada. Poucos são aqueles que cometem um acto maldoso com a intenção do mal; todavia, a menos que confundam o mal com o bem, ou o justifiquem como um meio para atingirem um fim “bom.” Assim, também na morte não existem homens “maus,” e como o entendimento que têm passa por um esclarecimento, não há necessidade de actos ignóbeis.

Tão pouco os mortos possuem os vivos, seja de que modo for. Os mortos acham-se plenamente cientes dos seus benefícios – da consciência que têm num corpo mental que não envelhece nem sofre decadência – e os equívocos que os vivos abraçam com respeito à possessão assentam principalmente na crença paroquial que têm nas vantagens superiores do seu estado sobre o dos mortos. Contudo, morta ou viva, a existência tem lugar inicialmente nos domínios mentais mais do que nos físicos, o que implica antes de mais estados de espírito. Tais estados de espírito assemelham-se a habitações mentais construídas por cada um, que formam uma atmosfera real em que toda realidade é experimentada.

Conforme as habitações de um dado bairro podem assemelhar-se na construção, no estilo, e na idade; e conforme as pessoas numa dada localidade podem sentir-se atraídas para elas devido o facto das características se enquadrarem nas suas, também as pessoas formam “bairros” ou atmosferas mentais e fazem alianças a níveis psicológicos e psíquicos, encontram amigos e companheiros mentais, por exemplo, que poderão nunca ter conhecido fisicamente. Em vida, as relações pessoais que temos são mais vastas do que supomos. Para além dos familiares, amigos, camaradas de trabalho e outros com os quais lidamos mais ou menos directamente, fazemos amizades com escritores que nunca teremos conhecido – contemporâneos ou aqueles da história passada - e a nossa vida interior torna-se povoada por todos quantos nos tenham influenciado fortemente de um ou de outro modo, por meio da leitura que fazemos ou outras experiências por que passamos. Um verso furtuito escrito por um autor favorito pode exercer um efeito maior em nós e provocar transformações que nos alteram a vida, tão mais vastas em intensidade que quaisquer afirmações feitas por familiares ou amigos. Ainda assim, em vida, ignoramos em grande medida esse tipo de intercâmbio mental.

Essa atmosfera interior da mente possui as suas próprias características e atrai a si outras afins. Uma vez esses ambientes interiores se achem abertos tanto para vivos como para mortos, e não comportem qualquer tempo ou limites de espaço, então sob certas condições os vivos podem dar por si a perambular pelas cercanias mentais que se lhes enquadram na perfeição, o que lhes realça as crenças e os sentimentos que tenham a um grau superlativo, assim como, tal como parece, a uma força sobrenatural.

Em quase todos os casos a obsessão e uma forte repressão terão provocado tais condições. Por a possessão, de uma forma ou de outra ter sido questão relevante nas teorias da sobrevivência e devido ao interesse que nutria por tais matérias, pretendo discutir isso com alguma profundidade. Mas antes de mais, gostaria de fazer certas distinções.

Conforme mencionado anteriormente, não concordo com certas escolas de psicologia “normativa” nem tampouco subscrevo teorias que advogam a personalidade sã como objectivo final da realização individual ou social. Dado que as pessoas são comprovadamente distintas por múltiplas formas de ser – nos moldes mentais que adoptam, na reacção intelectual e emocional que tendem a ter, nos hábitos corporais e na constituição física que adoptam – assim pois, agora conforme em vida, mantenho a importância que dava às variantes do comportamento humano. O cultivo das diferenças individuais contribui por inúmeras formas para a resiliência da espécie, conforme será discutido mais à frente. Contribui para o bem-estar espiritual e físico.

Muita gente é unilateral e no meu tempo assim como no vosso, tanto a literatura quanto a conversa corrente falava quer pelo desportista quer pelo professor, pela costureira, pelo playboy, pela meretriz, etc. Cada um relacionado com ideias acerca de si próprio de uma forma individual. Um pai de cinquenta anos de idade pode ver-se essencialmente com um filho, por exemplo, enquanto um outro poderá achar ser O Pai de tudo quanto empreende com os demais, ainda que não possua descendência própria. Uma mulher pode relacionar-se primordialmente na base da imagem de mãe ou de filha, assim como, e em particular no vosso tempo, realçar a afiliação que tenha com uma profissão acima das demais considerações. Mas é uma idiotice exigir que o introvertido seja extrovertido ou vice-versa; ou exigir que o desportista tenha o amor pelos livros que o estudioso tem; ou que o erudito renuncie aos seus estudos em proveito do campo de desportos.

Cada pessoa é dotado de tendências e inclinações próprias de natureza idiossincrática e excêntrica a prosseguir e a desenvolver. Tais tendências muitas vezes conduzem aos maiores desenvolvimentos a que se assiste no campo das artes, das ciências e das religiões, tornando possíveis contribuições que não seriam conseguidas por pessoas mais sãs. Em tais casos, o senso-comum, a lógica e as emoções são todas usadas com devoção e carinho e postas ao serviço de um interesse ou propósito primordial, mesmo que tal propósito não seja claramente percebido mas somente pressentido. É seguido sem desvios mesmo que os seus trajectos possam parecer confusos ou intrincados.

No quadro do comportamento obsessivo, por outro lado, o senso-comum, a lógica e as emoções são todas em certa medida reprimidas, excluídas, sufocadas pelo interesse primordial, de modo que esse interesse se torna num beco sem saída e não admite quaisquer cruzamentos bilaterais. É evidente que ambos os casos comportam graus, mas no geral o excêntrico dotado é expansivo, expressivo e utiliza as habilidades que tem com vista ao fim em que acredita.

A pessoa obsessiva, contudo, segue uma ilusão que precisa proteger contra a razão, a lógica e a compreensão emocional, de modo que as nega, e segue um objectivo que é fechado em vez de ilimitado. Qualquer fanático perseguirá este último padrão, e tais pessoas possuem uma atitude de tal modo rígida que as deixa aterradas diante de toda a mudança. Além disso, as pessoas poderão ser fanáticas nas pequenas coisas, no que respeita a certas questões, e ser bastante imparciais e compreensivas noutras. Há quem se deixe orientar pelo desejo de um ou de outro tipo – pelo conhecimento, pela fama, pela conquista ou pela proficiência - os atributos mais requintados da razão, da discriminação e da emotividade, a fim de defender ou ocultar a finalidade que tenham. Tais pessoas usam, por conseguinte, as capacidades que têm em função dos objectivos próprios, enquanto seguem a tendência original das suas naturezas.

Há igualmente aqueles que se recusam a usar da discriminação, da razão, ou das emoções sinceras, e que reprimem a percepção e as intuições do mesmo modo na prossecução de um objectivo que não lhes pertence por natureza mas que lhes é impingido por outros. E depois, claro está, que há aqueles em quem um propósito natural se acha atravancado com outras obsessões subsidiárias. Nos casos de obsessão irracional, a pessoa acha-se já “possuída,” por assim dizer, por padrões adquiridos que outros, que não lhe são naturais, por aqueles adoptados por meio do medo. A vizinhança mental acha-se mentalmente carregada, volátil, pronta a explodir, e a pessoa forçada a percorrer uma linha estreita, uma corda fina, receosa de olhar para a esquerda ou para a direita, ou de se desviar da conduta padronizada minimamente que seja. Toda a vida que decorra “abaixo” precisará ser firmemente evitada, todas as demais inclinações naturais da personalidade e intentos precisam ser esquecidos, e devem manter os olhos da razão fortemente cerrados.

Assim, a pessoa obsessiva é muitas vezes espiritualmente cega, mas mesmo quando tem os olhos abertos, não reage aos demais com um olhar vivo mas brilha com a sua própria luz imóvel. Move-se até à periferia do intercâmbio humano, e não me refiro aqui à criança nem ao adulto que se delicia com a solidão, nem àqueles cujos modos naturais tendem para a contemplação, mas às personalidades obsessivas fortemente reprimidas que apagam as inclinações naturais que têm, e que seguem objectivos artificiais que não lhe pertencem. O seu mundo estreitece tanto interior como exteriormente, por lerem unicamente jornais e revistas que concorrem para os pontos de vista que têm, negam todas as contradições emocionais que sintam e censuram toda a evidência conflituosa do senso-comum.

Tais pessoas podem ser dotadas e brilhantes, assim como poderão ser uns patetas intelectuais esteticamente ignorantes. As características e métodos comportamentais que tenham são as questões de importância, em resultado do que o eu interior consegue somente uma triste solidão. A corda retesada é elevada ainda mais a fim de evitar a contaminação da vida diária: e mesmo que uma pessoa assim se veja rodeada por admiradores, não é capaz de permitir nenhuma conversa real.

A natureza opera contra o isolamento e a solidão, e até mesmo a mais inferior das criaturas sente curiosidade pelos assuntos dos outros. Os animais não são reclusos mas participantes animados na comunidade natural em que o isolamento e a relação desempenham cada um a sua parte. Assim, tais pessoas são levadas a buscar aqueles que esperam que venham a compreendê-los, ao se verem impedidas de o fazer, ao mesmo tempo com receio que a transparência possa arruinar-lhes as fachadas psicológicas elaboradas tão dolorosamente forjadas.
Por conseguinte, tais personalidades possuem caracteristicamente dois comportamentos padrão principais e seguem por vezes um em exclusivo durante prolongados períodos de tempo, que alternam outras vezes com o outro. São inclinadas a tais acções repetitivas de cunho compulsivo, mentais ou físicas; assim como a surtos explosivos de actividade violenta. O comportamento repetitivo é reconfortante e pode seguir-se a uma atenção servil pelo detalhe ou ser alvo da expressão da repetição compulsiva de certos pensamentos ou palavras. A compulsividade poderá parecer tão grave quanto uma actividade explosiva de natureza interior ou exterior que assuma os contornos de uma ruptura de apêndice, úlceras, ataques cardíacos e outros que tais, assim como, digamos, mau humor ou uma conduta belicosa.

A natureza repetitiva de certos actos, como o estalar dos nós dos dedos, a conversa incessante dotada de ritmos de pontuação, ou mesmo o ruidoso tamborilar dos dedos nos tampos das mesas, pode igualmente mascarar quaisquer características violentas. Tais actividades levadas a cabo de um modo habitual e irreflectido podem combinar tanto a violência como a repetição. Esses serão os que mais necessitam “sair de si mesmos.” Acham-se perdidos e em grande medida “possuídos” por objectivos e impulsos geralmente adoptados por temor numa idade jovem.

Muitas vezes um pai ou outra figura de autoridade é responsável em termos convencionais. Na verdade, uma pessoa dessas muitas vezes receia que a sua própria energia ultrapasse a do pai, e por outro lado, também teme o facto de o pai não ser suplantado. Em qualquer dos casos, os seus padrões de pensamento e linhas de consciência são particularmente intencionados, são relativamente insensíveis aos outros, de uma maneira peculiar e incompatível ao mesmo tempo; ergue-se sem uma fundação adequada nas características naturais da pessoa. Ao se isolarem a elas próprias por meio da censura das suas experiências, essas pessoas gravitam na direcção de certos ambientes mentais; demoram-se em estados mentais semelhantes aos seus, voláteis e carregados, presas entre a repetição do tédio e a libertação da violência.

Com respeito a isso, nada conseguem desses ambientes. Além disso captam e ampliam todas as outras correntes de consciência, quer da parte dos falecidos, quer dos vivos – daí que aparições assustadoras, fantasmas, actividades poltergeist muitas vezes se deem na sua presença – onde os mesmos elementos repetitivos mas ainda assim explosivos podem surgir separadamente ou combinados, e de uma maneira isolada (altiva) com relação à vida comum.

O comportamento incessantemente repetitivo de natureza mental ocasiona certas tensões, como se uma série de explosões de menor grau estivessem constantemente a decorrer numa dada área da consciência que leve a que por fim se dê uma ruptura, tal como um deslizamento de terra acompanhado de rochas, poeira, ramos de árvore quebrados e detritos. Só que neste caso nas barreiras profundas da consciência cindida recaem todos esses sentimentos, ideias e considerações que a personalidade tinha até então conseguido suportar. Em auto defesa a personalidade convoca todos os seus recursos – os seus modos característicos de conduta e a sua obsessão – para estar à altura, já que pensa encontrar-se, relativamente falando, no fundo da escada, em vez de em cima da corda retesada.

Essa intensificação de propósito produz uma sobrecarga de actividade psíquica que, por sua vez, busca outro reforço, e se a personalidade se encontrar próxima a uma atmosfera de um estado mental de características correspondentes, passa a atrair esse reservatório. O resultado pode passar pela activação de uma aparição, de um “fantasma” de conduta ameaçadora, que surge sempre que as condições se repetirem. Na maioria desses casos, o fantasma não constitui uma pessoa nem uma identidade nos termos usuais, mas a versão de uma reprodução – as linhas de consciência que conduzem a uma identidade tal como o fumo pode conduzir a um fogo – e a personalidade obsessiva amplia e foca-os por intermédio da intensidade momentânea que alcança para de seguida as projectar no espaço/tempo onde, todavia, elas pegam somente sob determinadas condições.

A personalidade terá atraído essas linhas de consciência que se acham em sintonia com as suas, num esforço por reforçar as suas defesas. O comportamento que a aparição adopta irá muitas vezes simbolicamente determinar a posição da pessoa obsessiva que inconscientemente se sente possuída ou morta por dentro. Por vezes uma aparição dessas poderá igualmente ser percebida pelos outros, e certas atmosferas há onde a natureza repetitiva constante dessas actividades pode ser activada em idênticas situações.

Da parte da personalidade obsessiva, esse é um procedimento terapêutico. Ver a própria situação difícil assim projectada (a sensação de se achar posta de parte e morta para si mesma) pode produzir um reconhecimento de choque do dilema, muito embora isso possa não ser reconhecido conscientemente como tal. O problema foca-se no fantasma aparentemente exteriorizado, em que a pessoa projecta agora a situação. Antes disso, comummente nenhum problema era sequer reconhecido - daí as medidas drásticas tomadas. A ajuda psicológica ou religiosa é geralmente buscada, por essa altura. A identificação produzida e a atenção prestada levam a personalidade a um contacto necessário com os seus contemporâneos, permite que o indivíduo clame por auxílio – não para si próprio, evidentemente, tanto quanto para o fantasma – e todo o assunto serve de catarse.

Isso não significa que apenas as pessoas obsessivas vejam um fantasma, mas os casos clássicos geralmente envolvem contradições que tais - e em particular quando a aparição não representa alguém conhecido para aquele que a percebe. A aparência de fantasmas amistosos e de aparições de membros da família ou de entes queridos podem ter uma base bem distinta, mas em todos os casos precisa haver uma coincidência entre estados de espírito.

A actividade poltergeist que geralmente envolve crianças, segue o mesmo padrão que o adulto obsessivo, à excepção de que a criança não se acha tão conformada na sua maneira de ser. Geralmente a raiva que a criança sente é dirigida a um adulto, que procura levar a criança a seguir outra que não a sua inclinação natural. Nesse caso impera a raiva ao invés do medo, e por vezes a criança pode chegar a ser quase consciente do seu comportamento; ao praticar a deslocação de objectos em segredo, ou ao fazer truques de manha com a própria energia. O padrão repetitivo também se aplica e em muitos desses casos a criança mostra-se excessivamente obediente, mas o comportamento uniforme irrompe espasmodicamente em actos violentos ou em mau-humor em relação aos quais a criança terá sido repreendida.

Mencionei antes presságios ou estados de ansiedade associados aos processos criativos, as fantasias oriundas da própria melancolia de que fui vítima e sonhos precognitivos de desastres. Quando mergulhava em depressões dessas, podiam desencadear-se associações desagradáveis do passado com base nos mais inocentes dos estímulos. Não só imagens de eventos pesarosos que também tivesse experimentado de modo efectivo, mas cenas lúgubres das novelas ou peças que recordasse vir-me-iam à mente, assim como as passagens mais melancólicas de filósofos ou poetas. Tais fantasias acumular-se-iam, povoadas de personagens da vida real e da ficção e aprofundar-se-iam em melancolia, até frequentemente irromperem em presságios desastrosos com respeito ao futuro – à minha própria morte ou à dos outros, à ruína eventual do mundo, ao fim de tudo.

Conforme mencionei, um artista pode pintar uma série de paisagens sombrias ou tristes ou livrar-se, de outra forma, dos receios emotivos que tenha, por intermédio das suas telas. Um poeta pode compor uma ode sombria à morte. Outros ainda, num passo de maior criatividade, poderão inconscientemente buscar a forma desconhecida do futuro, a ansiedade que sentem buscar uma causa, e consequentemente descobri-la através de um sonho que lhe permita prever um desastre futuro. Outros ainda, dotados de tendência mental diferente, irão procurar por meio dos omnipresentes campos da consciência aquelas linhas que se assemelhem à sua, e conectar-se a medos que antes se encontrariam inactivos, mas que se encontram latentes enquanto padrões, e aparentemente trazer à vida de novo eventos ou pessoas que na verdade terão terminado tais actividades.

O HOMEM E OS SEUS TEMPOS, REINCARNAÇÃO, A PRESENÇA ATMOSFÉRICA E A LUZ OMNISCIENTE

A minha própria morte constituiu um alívio, e encontro-me agora convencido que uma pessoa se enquadra de certo modo no seu tempo. Quer dizer, quer uma pessoa se sinta confortável ou com desconfortável com o seu tempo, ela enquadra-se, encontra-se automaticamente em sintonia com os desafios e condições gerais, e até mesmo os seus talentos e capacidades são peculiarmente adequados ao seu período histórico.

Passado um tempo, o ajuste deixa de ser tão confortável quanto antes. O tecido do tempo começa a ficar coçado. As costuras invisíveis que ligam a pessoa com o seu tempo começam a desgastar-se.

Durante uma boa porção da sua vida um homem identifica-se de tal modo com os próprios propósitos e as condições gerais do seu período histórico que os dois se assemelham a um só. Em vez disso, os objectivos de um homem deslizam qual fecho de correr para cima e para baixo, ligadas ao seu tempo qual fecho de correr ao casaco, com a mesma mobilidade mas não mais.

O entalhe em que o fecho desliza permite somente uma certa margem e os "dentes" dos propósitos e dos tempos devem enquadrar-se na perfeição para que o fecho corra bem. Mas a tensão existente entre os propósitos do homem e os seus tempos históricos levam os pequenos dentes a separar-se até finalmente o homem ver que os seus propósitos devam ser soltos do casaco elegante dos seus tempos. Torna-se evidente que não mais  se enquadram no seu tempo conforme outrora  acontecia. Ele terá feito tudo quanto podia nas suas aptidões de costura.

Os seus pensamentos e objectivos não mais engrenam com o seu período histórico com a mesma facilidade do passado. Os seus próprios desejos, crenças e pensamentos assemelham-se a novos botões costurados numa velha blusa; mas eles realmente não casam com as casas.

Tudo isso acontece de forma gradual e por várias formas. Durante o período de uma vida, contudo, as pessoas veem-se  em relação às grandes matérias do dia e experimentam a sua realidade através dos detalhes da vida - as formas e os meios da subsistência os quais, conquanto aparentemente permanentes, mudam constantemente até que as rotinas íntimas da vida, que certa vez faziam de tal modo parte disso cedem lugar a outras. Os pensamentos e impulsos ligados às anteriores meios habituais, precisam alongar-se cada vez mais a fim de acomodar as novas condições. A pessoa vê repetidamente que os seus propósitos, à semelhança do fecho de correr, ainda percorrem a mesma linha para cima e para baixo; mas pior, as novas gerações usam trajes de épocas completamente novas, com relação às quais as suas ideias agora servem de pobres acessórios. Por fim, destaca-se ao não mais usar vestuário que esteja em moda. Ele vê que as suas ideias se desgastaram.

Mesmo os papéis que as pessoas envergam sofrem desgaste. A criança, o adolescente rebelde, o jovem adulto radical, o estudante graduado, o debutante, o jovem pai ou mãe, o estimado director de negócios ou da fundação, a avó e o avô - tais papéis desvanecem-se, rompem-se pelas costuras, e a pessoa observa com desânimo - até que a indumentária estimada dos tempos adopte todo o desgaste que possa. Na maioria dos casos, as pessoas ter-se-ão de tal modo identificado com os seus papéis que na velhice, quando os papéis desaparecem, ficam espantados com a descoberta do tanto que de si tenha sobrado. Em certas sociedades os idosos são honrados. Têm o papel do velho sábio ou da sábia velha. Mas na sociedade Americana, o papel social detém-se antes da vida terminar.

Optei, pois, por terminar a minha vida antes que o meu papel terminasse, enquanto ainda me encontrava adornado mentalmente para os meus tempos, por mesmo os meus desacordos terem sido adaptados ao meu período histórico. A democracia que eu tanto tinha promovido começou a desanimar-me. As esperanças que tinha na ciência falharam, e tão pouco conseguia encontrar qualquer evidência real para a existência da alma. Ademais, o quadro do tempo que tanto me tinham sustentado e desafiado mudaram. Eclodiu um novo cenário Novos adereços deslizaram silenciosamente diante dos muros mentais do drama psicológico da vida, pessoas com costumes psíquicos diferentes e novas posturas mentais enquanto eu fiquei com o meu gorro e toga psicológicos esfarrapados, que certa vez estiveram em moda, ligeiramente chocado.

Tinha pensado em conduzir a ciência e a religião para mais perto ao mostrar a realidade objectiva dos estados religiosos e o efeito que tinham na vida e experiência. Tinha pensado que a telepatia e a clarividência poderiam ser cientificamente provadas e retirados do domínio da superstição de forma a poderem ser admitidas nos conceitos dos homens de forma respeitável e a serem levados em conta no campo das hipóteses científicas. Regozijara-me com o facto de um estudo rigoroso das experiências paranormais do homem poderem produzir uma comprovação da existência da alma, de modo a que a psicologia pudesse levar a natureza heroica do homem e os planos que ele tem para a humanidade em consideração.

Mas os tempos tornaram-se mais ásperos. A religião e a ciência, tendo-me brevemente sido introduzidas enquanto intermediários, separaram-se com sentimentos ruins de ambas as partes. Os cientistas tornaram-se mais reservados e indiferentes, mais teóricos; os religiosos, mais emocionais e menos sensatos. Os espiritualistas e os pseudo espiritualistas tomaram posse da alma, manchando frequentemente a questão toda com sessões obscuras e ectoplasma feito de algodão, enquanto os evolucionistas triunfavam do outro lado, e lavavam as mãos horrorizados com uma alma tão embusteira, enquanto atribuíam ao homem, em vez dela, a inclinação natural de um assassino.

Fala-se a língua dos nossos tempos independentemente do significado que as palavras tenham e do quão à frente no tempo a sua filosofia pareça estar. Contudo, gradualmente os acentos ocultos, as insinuações invisíveis, os ritmos, as pontuações e as inflexões alteram-se até uma pessoa perceber que o seu próprio idioma está fora de moda e não mais falam pelos seus tempos. Não obstante poderem ser futuristas os seus significados, as suas palavras são tingidas pelo mofo e só gerações mais tardias poderão erguer tais palavras de novo das vogais e sílabas empoeiradas que certa vez soaram tão brilhantes.

Por isso, embora tenha falado com clareza - para mim próprio - em anos subsequentes pude constatar que tenha sido como se a minha própria língua tenha sido tingida com pó. Outros escutaram, mas com uma vaga perplexidade, como se as minhas próprias palavras não mais fossem ao encontro directo dos ouvidos dos meus ouvintes, mas tivessem que passar primeiro por um vão de um breve mal-entendido - de modo que, se pronunciasse uma palavra, ela devesse ser traduzida nas suas mentes por outra, por uma nova, ou mudar de inflexão por completo. Mesmo as minhas frases mais espontâneas pareciam corteses ou artificiais. As próprias palavras tinham mudado de forma tão insidiosa que o significado que eu lhes tinha dado se esvaíra e outros lhes tinham sido atribuídos. Assim, embora falasse a mesma língua Inglesa, eu falava uma língua estrangeira; os jovens escutavam com respeito, mas os seus rostos ficavam desorientados, uma vez mais, como se a minha língua estivesse coberta de poeira.

Isso era mais perceptível nos trabalhos do meu irmão (Henry) por ele lidar com o vernáculo Americano, e mostrar a vivacidade existente na natureza Americana em oposição aos estudos dos clássicos da Europa: contudo, o seu Americanismo, tão fresco e por vezes tão vulgar tornou-se em breve numa ânsia de agradar arcaica. Os seus personagens não mais pareciam ter vida, por as ideias e enquadramentos em que tinham vivido terem mudado, conforme o mais alegre dos cenários dever mudar e cada nova peça se tornar datada. Puxe-se e empurre-se o quanto se quiser, na vida as nossas ideias e objectivos acham-se ligados aos fios do nosso tempo, entrelaçados nele, e progredir após um certo ponto nada resta a fazer senão soltar esses fios, separar-se dos tempos, e tirar a veste apertada que se tornou mais numa camisa de forças.
E assim morremos.

Entretanto, porém, têm-se vindo a mexer por muitos anos no vosso brasão dos tempos e por fim descobrimos que existem dentro dele. Percebem que vós e a indumentária estão efectivamente a separar-se pelas costuras, onde antes tanto se identificavam com o capote a ponto de tal ideia parecer demasiado aterradora. Tornam-se cada vez mais cientes de um segredo, cientes de sempre terem existido aparte dos tempos, um que agora se torna fonte de imensa ânsia no abandono; assim como cientes de uma voz interior que os cutuca dizendo: "Tiveste o teu lugar ao sol. Não permaneças onde não mais és desejado ou preciso. Admite que te encontras bastante aborrecido e necessitado de um novo começo. Superaste os teus tempos e não há nada que possas fazer com relação a isso."

Decerto que tomei consciência dessa voz, embora tenha sido sempre um tanto consciente dela mesmo durante o meu auge e antes, na minha infância: uma parte independente de mim bastante indignada por ter que se acomodar de todo à história; mas curiosa, a colocar um pé na vida como que a título experimental e sempre muito indiferente e ligeiramente superior a toda a questão.

Nessa medida, eu nunca me entreguei à vida tão completamente quanto talvez devesse ter feito embora me tenha tardado o suficiente, e muito mais do que muitos. A curiosidade e o assombro bastante seco eram as minhas características principais, de modo que não experimentava as minhas emoções por completo, por exemplo, mas estudava-as com o mais leve pressentimento mental; e usava a minha melancolia, conforme agora constato, como um clérigo usa o incenso para deslumbrar os sentidos dos outros enquanto criam uma nuvem de fumaça para se apartar da multidão.

Digo isto de bom humor com relação a mim próprio – e ao hipotético clérigo – mas sem a minha melancolia temia poder cair ao longo da vida conforme parecia que outros tinham feito, e esqueci de o examinar conforme inicialmente estabelecera fazer.

Na vida sentimos curiosidade com relação ao que acontece depois. Após a morte, a vida terrena constitui um tão pequena área de actividade que nos surpreendemos como pode conter tal profundidade e dimensões de acção e significado. Eu costumava maravilhar-me com a vida microscópica oculta que fervilhava num charco, ou imaginar o espaço infinito que um lago não deve conter para um girino, ou esforçar-me por compreender quanta relação activa não deve dar-se entre os menores dos insectos; tudo isso me estava vetado. Assim, agora a vida terrena parece-me incrivelmente diminuta a esse respeito, contudo imensamente activa, tão lotada de acontecimentos quanto o charco de pingos de água, cada um dos quais parece separado não obstante estar ligado. Quisera saber se alguma vez me terei situado em tal contexto. Ao mesmo tempo, tal experiência contribuía de uma forma incomensurável para a minha existência, só que não a desejo repetir.

Lembranças de outras vidas permanecem empilhadas na minha mente como livros por ler embora já obtidos, e conquanto me sinto curioso, acho-me ainda demasiado absorto nos estudos que ainda identifico como meus. Identifico-me comigo próprio ainda enquanto William James, pois, ciente de que isso se assemelhe um tanto a uma convenção psicológica que simplesmente torna a experiência mais ordenada, e como me sinto intrigado com as tensões e relações existentes entre a ordem e a criatividade, agrada-me preservar essa peculiar convenção ao ver o quanto posso criativamente forçar as suas barreiras.

Por conseguinte, posso dizer que outras vidas minhas estejam à espera de ser revistas, estudadas, e exploradas como se fossem jornadas que fizesse por outras terras em que mudasse de nome, de ocupação, e adotasse outras obrigações familiares e relacionamentos que não aqueles que considero meus. Percebo, não obstante, que alguns desses outros “eus” poderão muito bem considerar a minha vida como pertencente a eles, e que bem que podem explorar a vida de William James desde o seu próprio ponto de vista, como periférica aos seus próprios objectivos, e persegui-la conforme poderão estudar, talvez, a vida e os tempos de um parente favorito. Só que neste caso o estudo deveria ser muito mais intensivo, de modo que os tempos chegariam a adoptar vida no invisível pergaminho da mente, e não aparecer simplesmente como ilustrações num livro.

Por isso, há muito com respeito às organizações, às afiliações e aos agrupamentos no âmbito da consciência que eu desconheço. Contudo, os mortos em breve ficam a saber que a mente em si mesma constitui um vasto umbral que se estende às infinitas profundezas da experiência. O eu experimentado é tão pequeno quanto um trêmulo mosquito por contraste, pairando à entrada, dourado na sua luz, livre mas incerto, atraído mas atormentado pela fonte iluminada da mente maior.

Tão pouco é possível do meu presente ponto de vista compreender a constante manufatura dos tempos, por cada vida que sinto ter vivido também aguarda para ser explorada, e nos seus limites o tempo constantemente se abre – e com novas combinações. Suspeito, pois, que outros eus meus (do meu ponto de vista) estejam a explorar a minha vida e período histórico, contudo não tenho consciência de quaisquer invasões de consciência que não sejam minhas, além de também suspeitar que a minha vida conforme a conheço tenha contribuído para essas outras vidas por formas que nenhum de nós ainda poderá compreender, embora na vida não tenhamos estado de todo familiarizados com quaisquer interferências na nossa própria consciência por parte dos outros.

Sei que alguns indivíduos na minha posição acorrem de volta à existência física e outros não. Eu próprio sou mais dado à acção por detrás das linhas, a um estudo dos trabalhos de bastidores do que a um lugar central no palco da vida. Por isso permaneci até agora nesta tão favorável situação. Alguns pouco se importam com qualquer estudo sobre o tema da vida mas entretêm-se nos seus enredos, saltando de vida em vida com a maior das agilidades, e tomando parte em todos os eventos dramáticos da história; deixam-se cativar pela acção em função da própria acção. Outros, como eu, cansam-se com a participação directa na parada da vida e preferem as margens, a partir das quais bradamos incentivos e sugestões, perseguimos os nossos estudos, e procuramos ajudar por detrás dos bastidores ao apontarmos situações que os próprios desfilantes podem ignorar, presos como se encontram no incessante brilho da vida.

Assim, mesmo na minha vida eu tinha esse tipo de temperamento. Digo isto, uma vez mais, ao perceber que outras vidas me poderão ter encontrado com um carácter emocional muito mais volátil. Apraz-me pensar que tenha sido um palhaço na Idade Média, por vez por outra as minhas mãos efectuarem um acto invisível de malabarismo com bolas e pratos na minha mente. Olhando para baixo vejo sapatos com meias cor de laranja e vermelhos, e um saco de carvões variados. Pareço possuído de um humor amargo, completamente desprovido de graça, mas repleto do fogo irado do ressentimento, de tal modo que os sorrisos exagerados da minha representação zombam daqueles que me sorriem de volta.

Isso, creio bem, terá sido num pequeno reino onde, primeiro nas ruas e mais tarde na corte, eu era um bobo cujas graças eram de uma inocência dotada de afecto ou compaixão. Contudo, o vigor que sinto nisso, as emoções explosivas que constantemente disparava em frente, de modo sombrio, despertavam uma excitação remota. De modo que, quando sinto a “hora certa,” que uma vida tão diferente da minha possa ser o meu projecto seguinte, para ver onde tenha dado errado – se de facto é que deu – e descobrir que habilidades da mente ou do temperamento mostravam com que pudesse aprender. Esse palhaço explorará a minha própria vida passada agora? Quisera sabê-lo. Consigo imaginá-lo por vezes no meu velho estúdio, ou a passear com a minha bengala até ao porto para ver os navios. Vejo-o no meu mundo faz de conta, cercado por uma vasta terra de abundância, sem um rei ou corte, e penso que o humor que tinha seria menos mortal, temperado, e que talvez ele pudesse sorrir de modo sincero com um rosto descoberto.

Portanto, se tal for possível, eu poderei situar-me no seu mundo, e vê-lo com os meus olhos de intelectual. Desenvolveria eu o mesmo humor negro? Não creio que não, e ainda assim a melancolia e nostalgia de que padecia achavam-se tingidas de uma estranha ponta de ironia que nunca na minha vida me tinha deixado. Uma vez mais imagino: terá essa melancolia sido o legado da amargura do palhaço?

As respostas encontram-se por trás da porta acortinada que mencionei anteriormente, simbolicamente falando, que levam do meu camarote a outro lugar. Contudo, até agora a minha atenção acha-se cravada no palco em que os actores, os desfilantes, ainda marcham, enquanto componho estes comentários no meu lazer; ainda assim poderão dizer, o cavalheiro de classe, que sustenta as minhas acalentadas características conforme os cavalheiros fazem com o seu colete favorito, luvas e bengala; ainda envergando o traje da minha alma conforme o conheci. Assim, sinto relutância em deixá-lo de lado, contudo, certo ao mesmo tempo de que o venha a fazer. Contudo, aprecio este interlúdio, este intervalo, e este diário, quais notas escritas entre os actos de um programa de teatro que mais tarde jogarei fora.

Não obstante, de certo modo sinto afastar-me de mim. As características que adoptei estão a tornar-se demasiado pequenas para conterem o meu novo crescimento e desenvolvimento, mas certamente que irei seguir em frente para alojamentos psicológicos mais vastos. Não é só ao corpo físico que sobrevivemos, mas ao alojamento psicológico que escolhemos. Primeiro, após a morte, abrimos novas dependências e suites que acomodem a nossa experiência maior, mas em breve se tornará óbvio que toda a estrutura já terá conhecido melhores dias. Precisamos abandoná-la por completo. Este “diário” será deixado para trás, encontrado na mente de uma outra pessoa como coisa de segunda mão, muito à semelhança de um livro de antiquário descoberto no sótão, por entre as teias de aranha, mas preso por entre os raios do sol do entardecer que são filtrados por entre o sótão, que fazem com que o título do livro brilhe. Por estes pensamentos serem filtrados pela mente de outro, ao tremeluzirem “para baixo” do meu camarote para o sótão da mente, enquanto o escritor terrestre precisa apressar-se pela escada escura acima, aguardar no vazio à procura destas páginas com mãos mentais plenamente abertas.

Eu não sei quando terminarei esta composição, mas terei súbita noção de lhe ter acrescentado os meus últimos comentários, de ter “redigido” as minhas últimas palavras, qual inquilino da presente mansão psicológica em que me encontro, e passarei então para o quadro mais vasto de mim próprio que sinto estar a ser construído; por isso talvez o actor tenha que esperar que o conjunto mais recente se prepare antes de poder fazer a sua entrada.

Dois elementos no meu presente estado são particularmente significativos para mim, quando os comparo com a vida física. Por um lado, a mobilidade psicológica e “física” que tenho é surpreendente, e o sentido de liberdade de que gozo parece, no mínimo, ilimitado. No começo achei isso desconcertante, por a minha realidade em qualquer momento acompanhar organizações da experiência da minha própria autoria e atenção. Os limites da condição de criatura – a manhã e o entardecer, o tempo, mesmo a dor, o nascimento, e a morte - impõem uma certa ordem de que os vivos não se podem desviar. Por um tempo o meu estado de espírito foi de confusão. Imaginem se quiserem um cão vira-lata, bastante habituado a vagabundar, de repente com asas, digamos, com o uso de uma mente conceptual, vocabulário, e junto com esses aditivos gratificantes mas surpreendentes, um milhão de novas escolhas onde, antes, o instinto e as exigências da qualidade prática de criatura tinham circunscrito a sua curiosidade num alcance restrito.

Por outras palavras, novos recursos continuaram a brotar da minha mente, cada um mais estranho que o anterior. Um vívido desejo dotado da mais passageira das naturezas aparentemente transportou-me de um sítio para outro, sem qualquer transição ou preparo – emocionante e inquietante. A contrariar tudo isso, contudo, estava o mais delicioso sentido de segurança, de modo que após as orientações iniciais, deixa de existir medo; e por toda a parte o ser parece estar concebido na mais perfeita protecção. Simplesmente uso a minha mente para “ir” onde quero e o resto de mim acompanha-me. Contudo, o meu corpo, suficientemente real para mim, pode surgir ou desaparecer de um dado lugar, e todo ambiente é formado pela convicção que as pessoas têm nele. Digo convicção que as “pessoas” têm nele, por todos nós parecermos bastante reais para nós próprios, enquanto pessoas reais, na verdade apenas num contexto diferente.

Esta liberdade de que falo não foi inteiramente nova. Ela pode ser facilmente deduzida, em vida, pela extensão imaginativa das capacidades mostradas pela consciência nos sonhos, só que aqui tais extensões constituem os “novos factos da vida,” se é que me perdoam o termo, e que precisam ser dominadas. As condições do pós-morte, conquanto tratadas conscientemente, assemelham-se pois a estados oníricos, enquanto as manipulações autoconscientes adicionais contribuem com a mais vívida clareza e precisão. O truque está em focar a consciência apropriadamente nas áreas desejadas. Isso geralmente apresenta pouca dificuldade após um breve estágio preliminar.

Poderá parecer que esta minha existência seja mais solitária do que é, devido às minhas próprias predisposições. Existem escolas, colegas, ou o que quer que o morto prefira, mas isso brota em resposta aos desejos e crenças daqueles que se acharem envolvidos. Eles têm uma existência bastante válida em determinadas áreas de concentração e de consciência, mas noutras áreas são bastante “invisíveis.” São construídas pelos focos e propósitos combinados daqueles que nisso estiverem envolvidos, e obtêm uma permanência ao longo de longos períodos por tantos serem os que pendem nessas direcções. Eu podia “visitar” tais instituições por acção do desejo, alterando o meu estado de espírito, e assim transferindo-me para um “local” que já exista somente para aqueles que se encontrem no mesmo estado psicológico.

Isso poderá parecer complicado, contudo, até certo ponto vocês dispõem de padrões similares. Uma pessoa viva que sinta um completo desinteresse por instituições de aprendizagem e que de facto as ignore – um nativo do mato mais profundo, digamos – não terá qualquer conhecimento prático da universidade. Mesmo que mais tarde ela viajasse para uma área próxima desse local, ele não teria qualquer realidade para ele. O provável seria que jamais viesse a visitar tal instituição a menos que o seu estado de espírito mudasse e o desejo desse tipo particular de conhecimento o viesse a inspirar. Aqui, os estados de espírito criam a realidade de forma directa.

“Aqui tem início algumas das mais fascinantes descrições da realidade do pós-morte com que já me deparei; não só consegue James conduzir um material difícil com uma graça extraordinária, como à medida que o material prossegue, dá pistas preciosas sobre a forma como poderemos vislumbrar essa “presença atmosférica” na vida. A partir daqui, James plana, a sua curiosidade e intuições buscam as eternas fundações de que todas as realidades brotam.
Fui tocada por todo este material e ele levou-me a tentar sentir a magia e o esplendor das percepções de James na vida do dia-a-dia, na esperança de que, afora este manuscrito, eu pudesse perceber as experiências de que James falava.”

Jane Roberts
Em parte alguma encontrei as guarnições de um céu convencional, ou cheguei a vislumbrar a face de Deus. Por outro lado, é certo que habito um céu psicológico pelos padrões terrenos, por em toda a parte sentir uma presença, ou atmosfera, ou presença atmosférica bem-intencionada, bondosa mas poderosa, e onisciente. Contudo, esta parece ser uma presença psicológica de partes tão deslumbrantes que consigo apontar um local e identificá-lo como existente ao contrário de numa outra parte qualquer. Correndo o risco e minimizar, essas presença assemelha-se mais a uma condição amorosa que permeia a existência, e de que toda a existência brota.
A sensação de segurança anteriormente mencionada acha-se em definitivo ligada a isto, por eu saber que nenhum mal ou dano me poderá suceder, que cada uma das minhas escolhas me trará benefícios, e que esta condição amorosa me sustenta em todos os meus caminhos. Como em vida eu sempre tinha consciência de uma melancolia subjacente, aqui encontro-me sempre deliciosamente consciente de um extraordinário sentido de segurança que conduz, digamos, a actos de heroísmo e de coragem – naturalmente. Há este constante sentimento do universo existir comigo, para mim, e com e para todos os outros ao mesmo tempo. Não só não conspira ele contra mim, como sempre dá um apoio activo.
Esta disposição para ajudar torna-se por toda a parte evidente e claro que promove um sentido de conforto que, ao mesmo tempo, estimula as capacidades da personalidade por formas difíceis de descrever. Enquanto menciono esta presença como ela própria, de tal modo ela preenche tudo por completo que qualquer tentativa de a isolar se torna inútil. Todas as teorias teológicas e intelectuais são irrelevantes quanto à realidade deste fenómeno. Eu sei que esta presença ou condição amável se forma a ela própria em mim e em todas as outras personalidades; que se presta continuamente de uma forma activa na busca do meu bem pelas formas mais particulares e individuais; contudo, que o meu bem não é por forma nenhuma contrário ao bem de quem quer que seja, mas benéfico.
Toda a pessoa vivente ou morta constitui de algum modo uma materialização ou actualização única, psicologicamente “perfeita,” dessa condição amorosa básica ou presença psicológica, atmosférica. Cada um é ele ou ela própria, e um agente do universo ao mesmo tempo. O universo pende para cada direcção individual, dá, e é complacente, por cada pessoa fazer parte desse tecido psicológico, que ganha vida. É como se o universo fosse um pano multidimensional que tenha um infinito número de padrões, e figuras que não ficaram planas mas que brotaram com vida, viveram, mexeram-se, e morreram e voltaram a surgir com vida de novo. Enquanto o tecido de que eram feitos nunca chegou a desagastar-se mas miraculosamente se revitalizou e voltou a tecer as suas partes.
Os padrões e as figuras estão em constante mudança, e os próprios pontos de costura de que são feitas são igualmente compostos do mesmo tecido básico, de modo que a esse nível, há uma comunicação entre todas as partes. Contudo, cada figura muda a qualidade do tecido, contribuindo de uma forma incomensurável para ele através da experiência, por cada vida multiplicar as acções possíveis a todas as outras, nesse nível comum.
Contudo, sem evidência, isso não se me torna conhecido. Tal evidência constitui uma espécie de conhecimento embutido – evidente por si mesmo – e eu percebo que o possuía em criança e que o deixei fugir, de propósito, para o poder descobrir uma vez mais a partir de um ângulo diferente. Isso de algum modo, coloca-me numa nova posição, com respeito ao universo, diferente daquela em que me encontrava antes, acrescentando ao que só poderei chamar “densidade” psicológica.
Toda a pessoa viva passa por esse processo em certo grau, e o que é descoberto não é a mesma verdade que foi momentaneamente descartada, mas envolve uma nova compreensão do próprio de um ângulo de realidade diferente. De cada vez que assumimos uma nova identidade, este processo é um em que o universo se realiza de novo - como nós e como ele próprio - e em que a identidade vai de encontro à sua invulnerabilidade a partir de um ponto de vista diferente. Evidentemente que há aqui muito que não aprendi, mas cada nova vida começa com o conhecimento da segurança básica, a partir de um limite de segurança suficientemente vasto para sustentar a existência física.
Existem, uma vez mais, agrupamentos de consciência, alianças em que identidades se agrupam psicologicamente, conforme as pessoas fazem na Terra, em termos físicos, com as nações. Essas consciências retêm individualidade enquanto se unem com propósitos comuns, centralizam pontos de vista distintos em compósitos psíquicos que eu não tenho a pretensão de compreender.
Os vivos muitas vezes equiparam a morte à escuridão, pois como poderão os mortos ver? Mesmo que o espírito paire ao lado do corpo, os olhos do cadáver encontram-se cerrados. Como poderá o espírito ter vista se está desligado dos órgãos da visão? No entanto aqui encontro-me rodeado por uma iluminação que emana de toda a parte - cores mais reluzentes do que as que conheci na Terra, uma luz dotada de variedades encantadoras, não uniformes nem monótonas mas aparentemente vivas ao seu próprio jeito. Emana do que vejo, mas também parece ser inerente a tudo quanto me rodeia, quer exista ou não alguma coisa a ser percebida de contrário.
Em vida vi luzes brilhantes por vezes com os meus olhos fechados, e de vez em quando pequenos objectos ou formas. Esta luz é similar, excepto que é mais móvel e possui qualidades não normalmente associadas à luz. Eu diria que era uma luz omnisciente que existe por toda a parte ao mesmo tempo, de uma só vez; de qualidade transparente  quando existe só ou de forma independente de um objecto ou forma visível. Conquanto me sinta tentado a dizer que se move por ondas devido à natureza móbil que tem, isso não é verdade. Em vez disso, ela surge a partir de si mesma, em todos os pontos concebíveis do universo. A percepção física "vê" somente uma pequena insinuação dessa luz, mas dela brotam todas as luzes e cores fisicamente visíveis.
Suspeito que existam outras formas desta luz, ou feitas dela, que eu próprio não percebo, e por vezes tenho consciência de formas ou de sons para fora do alcance, como um mundo mesmo além do alcance. Mas tudo isso, do meu ponto de vista, poderá ser confuso para vós. Eu ouço, mas como nos vossos termos eu não disponho de mecanismos de audição, os sons devem ser diferentes na natureza ou alcance daqueles com que estava familiarizado na Terra.
Recordo-me de uma experiência similar que tive, quando estava vivo, de escutar uma voz mental, de a ouvir de forma bem definida, mesmo quanto sabia que os meus ouvidos físicos não estavam envolvidos. Por isso, parece-me a mim que, independentemente das propriedades físicas atribuídas ao som, o som em si mesmo nada tem que ver com a sua versão física. Os sons aqui são distintos, claros como sinos, separados, e se cada timbre fosse visível assemelhar-se-ia a um cristal. Todavia, nos vossos termos, isso seria chamado de audição mental, mas estou certo de que o corpo que possuo constitui um tipo de convenção mental destinada ao meu próprio benefício.
Eu esqueço-o, e logo volto a recordá-lo de novo. Quando esqueço o meu corpo opero sem ele; a minha consciência não se vê de forma nenhuma embaraçada mas segue os meus objectivos. Então subitamente, qual professor distraído, percebo que não a minha mente mas o meu corpo tem estado ausente, e sem qualquer transição tenho-o de volta. Assim, o mais provável é que seja criado inconscientemente, devido ao hábito. Não que isso me assuste, apenas momentaneamente desconcertado, quando dou pela sua ausência; eu obtenho-o de novo automaticamente, como na Terra poderia fazer uma pausa à porta, preparado para sair, e lembrar-me do meu chapéu, e colocá-lo sem reflectir. Não mais me identifico com o meu corpo, mas claro que não é de carne e osso, embora pareça sê-lo quando quero.
É meu entendimento que alguns dos mortos se identificam com o corpo por períodos mais prolongados do que eu, e que diferentes personalidades variam na comodidade com que aprendem as condições do pós vida. Essas condições em si mesmas variam, e contam sem dúvida nenhuma para as muitos equívocos criados em torno da morte e do morrer com que frequentemente se deparam na vida por intermédio daquelas comunicações que têm lugar.
Eu associo a luz omnisciente à presença atmosférica bem intencionada mencionada anteriormente, dado que ambas têm sido uma constante na minha experiência da vida pós morte até agora, e por vezes estudo este fenómeno de uma forma constante, o que me faz lembrar um homem da caverna ou um outro homem pré-histórico a olhar para o sal e a tentar entender as suas propriedades. Não chamei especificamente a esta luz omnisciente uma entidade, em termos de pessoa. No entanto, estou certo de que possui uma psicologia muito mais divorciada de qualquer uma com que tenha estado familiarizado; mas ela tem consciência da curiosidade que me move e do exame que faço; e não se aborrece, mas convida-me.
Esta presença precisa ser designada por atmosférica. Uma vez mais, não me ocorre termo melhor mas essa presença não pode ser localizada com precisão como existindo em algum "aqui" afastado de ali, mas coexiste em todo o lugar. Nenhuma busca de uma analogia é de utilidade tão pouco. A ideia mais aproximada que tenho é a de comparar essa presença atmosférica à qualidade que já existe no mais ideal dos dias de verão; o delicioso e agradável aroma e toque existente no ar que em si mesmo parece ser comunicada por toda a parte, de modo que flores, árvores, relva, gente, montanhas, vales - tudo parece repousar no seu encanto e contribuir para ele. Assim, essa presença atmosférica mais a sua luz omnisciente tem o mesmo efeito, tanto psicologicamente como na experiência que faço de tudo o mais que tem existência fora de mim.
Decerto que um dia assim de verão parecerá benevolente, vivo, e possui uma animação que é acrescentada às outras estações. Quer dizer, uma aura extra atraente adicional parece ser transmitida à Terra num dia assim. Sem dúvida que essa será a razão porque muitos espiritualistas se terão referido ao pós vida como Terra de Verão, só que enquanto psicólogo é outra a coisa que me fascina: eu sei que essa presença atmosférica não possui o que refiro como características humanas, contudo possui características de uma natureza emocional, e é essa exuberância, esta qualidade bem-intencionada, que psicologicamente me supre a sensação de completa segurança que sinto. É como se me aquecesse à luz de uma atmosfera psicológica que corresponde à atmosfera física de uma dia ideal de verão.
O dia de verão no entanto, precisa terminar, e o crepúsculo abater-se com uma certa tristeza sobre o homem do mesmo modo que sobre as bestas; a beleza de verão repousa na própria impermanência da sua existência. Eu sempre desfrutei da mudança das estações, imaginando que outros em climas mais amenos não se aborrecessem com a uniformidade do tempo. No entanto, esta presença atmosférica está em constante mudança enquanto de um modo estranho permanece a mesma. Por vezes teorizo que seja a consciência combinada de todo o universo, seja por que descrição for, que existe em toda a consciência, contudo apartada. Ao mesmo tempo tenho a certeza de que mais se acha envolvido. Mesmo assim, nesta luz as condições da existência são as mais solidárias e encorajadoras imagináveis.
O DIVINO ÂNIMO
Lembro-me dos sentimentos que pareciam permear alguns dos dias da minha infância. Mesmo sem suscitar os detalhes particulares de um qualquer dia que possa ter dado origem a tais sentimentos, eles surgem de volta e eu consigo ver que em toda a exuberância que encerravam, ficavam aquém, em comparação com o presente estado psicológico que vivencio. É como se o universo agora possua o seu próprio ânimo invisivelmente transmitido por toda a parte, no qual me movo e raciocino. Uma vez mais, a analogia que mais se aplica aqui é a dos humores da infância, em que sentia que todas as coisas eram possíveis e eu me achava cheio de uma energia, entusiasmo, e sentido de competência que se desvaneceram cedo demais. Mas esta presença atmosférica, mais a luz omnisciente que a caracteriza, parece estar na posse desse humor a um grau superlativo, ao irradiá-lo sem esforço a partir das boas intenções ou desejo de agradar que tem.
Bom, se um tal ânimo, aqui demonstrado por toda a parte, constitui apenas uma porção de outras caraterísticas superlativas; se eu estou a saborear uma vasta boa vontade de algum tipo de carácter – nesse caso posso unicamente dizer que o poder final de um tal ser é tal que o seu ânimo sustenta mundos. Isto é uma mera conjectura, contudo nenhuma outra explicação satisfatória me ocorre.
Contudo tal hipótese apresenta as suas próprias dificuldades, que sugerem a presença de um deus de tal modo poderoso que a sua natureza bondosa cria e sustenta realidades imensas. Mas e se o semblante de um tal deus mudar? E se o seu ânimo se tornar apenas um pouco sombrio? Que acontecerá se ele se sentir desagradado? Porque o inferno do entendimento convencional nada seria se comparado com os desastrosos efeitos de tal gigantesca bondade voltada do avesso. Esse tipo de furor e esse tipo de poder aniquilaria mundos para além de toda a esperança. Tal ideia recorda-me, claro está, o velho Jeová, com o homem à mercê de um deus caprichoso que num acesso de raiva enviava tempestades sobre o mundo.
Mas de uma forma impossível de explicar, as boas intenções desta presença atmosférica é tal que qualquer má intenção nela se dissolveria, não pela aniquilação mas pela transformação, e seria automaticamente transformada na sua melhor expressão; e ao mesmo tempo percebo que tal destrutividade não passa da simples expressão inadequada ou mal percebida de uma boa intenção.
A psicologia, se é que se pode usar o termo com respeito a isso, de uma tal presença atmosférica é tal que sempre procura a expressão mais criativa, mais expansiva e amável em termos tão gigantescos que as nossas ideias habituais da motivação nos traem por completo. Basicamente não faz sentido atribuir a tal presença características humanas, e a interpretação que faço do que agora só posso chamar de ânimo divino é provavelmente a tradução de realidades psicológicas tão além da minha compreensão quanto a psicologia do homem está para uma formiga.
Existe uma imensa, conforme posso somente chamar-lhe, permissividade amável que transmite exuberância e entusiasmo tais como nunca conheci, e sinto no meu íntimo a chegada de um começo de um novo tipo de criatividade que envolve todas as minhas características próprias, capacidades e idiossincrasias como se cada canto e recanto do meu ser conhecido estivesse a preparar a sua própria deliciosa surpresa, expansão, e expressão ulterior; Um desafio do tipo mais extraordinário, como se na vida pressentissem a aproximação de um tempo em que todas as áreas do vosso viver estivessem para sofrer uma expansão incomensurável, em que o talento mais insignificante fosse ampliado e atingisse um uso prático. Eu achava, por exemplo, que possuía uma certa habilidade musical que nunca usei, e sinto que de algum modo desperta em mim e sinto-me conduzido a expressões que na Terra se encontravam além dos meus meios.
Além disso, esta presença atmosférica parece possuir qualidades que actuam como potentes estimulantes psicológicos da mais profunda natureza. Os termos “meio de crescimento psicológico,” vêm-me à mente, como se esta atmosfera promovesse o crescimento psíquico ao grau mais vantajoso, ou suprisse um meio espiritual e psicológico que despertasse o desenvolvimento criativo até mesmo das mais insipientes sementes da personalidade. Qualidades e características que jamais suspeitei possuir agora afloram em mim de tal modo que me sinto como um jardim em constante crescimento, que contém muito mais flora e fauna do que alguma vez percebera; como se anteriormente tivesse somente identificado uma safra de capacidades que chamasse minha.
Sustenta-me também uma firme confiança e um forte sentido de equilíbrio como nunca conheci, de modo que estas sensações de euforia não chegam a ser instáveis ou opressivas, mas que aceito bastante como uma herança natural que contribui com vivacidade para os meus passos subjectivos. Devo, pois, ter-me transformado num grau extraordinário em contraste com o que ou quem eu era; e seguramente a minha própria conduta reflecte pelo menos alguma porção da resiliência espiritual e da boa vontade que constitui o meu quinhão.
De vez em quando dou por mim igualmente possuído por uma nova emoção, ou uma tão diferente das outras em qualidade quase como sentir uma sensação emocional completamente original. Trata-se de uma versão concentrada de amor, compaixão, compreensão e de criatividade dirigida da minha parte para cada um dos meus próprios pensamentos como se fossem a mais preciosa das sementes, psicologicamente embalada por mim, e enviada pelo universo para formar as suas próprias espécies - adorados bebés psicológicos que brotam da minha mente criativa - que liberto e envio adiante para que cresçam e se desenvolvam de acordo com a sua natureza, para que cada uma encontre expressão se implante e com sorte prospere. Por conseguinte, ocasionalmente dou por mim de novo a despedir-me dos meus pensamentos quanto eles deixam a minha mente, muito à semelhança de um pai que envia os filhos para o mundo pela primeira vez.
De certa forma parece-me a mim que cada um de nós foi de algum modo expedido do mesmo modo, e que repetimos o processo de novo quer tenhamos ou não consciência disso. Quisera saber, claro está, se será frutífero comparar esta sensação relativa aos meus pensamentos e à boa intenção que tenho para com eles – independentemente da sua natureza - com a presença atmosférica mais persuasiva e a sua atitude dirigida ao universo; e dirigida a mim especificamente.
Por essa magnífica boa intenção se achar estranhamente combinada com elementos pessoais e impessoais, coisa de que estou seguro. Intelectualmente isso implica uma contradição, embora ao nível emocional, nenhuma exista. Essa boa intenção é aparentemente dirigida a mim por eu ser eu próprio; e eu sentir, no mínimo, uma profunda compreensão da sua parte na minha realidade subjectiva, uma compreensão que de longe excede a minha própria compreensão de mim próprio. Por outro lado, caso eu fosse outra pessoa, essa intenção seria justamente tão poderosa quanto pessoalmente dirigida. De facto todos aqueles com quem entrei em contacto sentem o mesmo relacionamento para com essa presença atmosférica que eu sinto.
Não sei se outros mais, noutros estados da mente, percebem mais ou menos esse ânimo divino ou o experimentam de outro modo. Mas as variedades da percepção são de tal modo ilimitadas que decerto tal deverá ser o caso. Não estou certo dessa mesma presença atmosférica e luz de conhecimento também sustentará a Terra, e agora consigo entender determinadas experiências que durante a vida não conseguia explicar.
Antes de as mencionar, contudo, quero teorizar mais a natureza dessa presença atmosférica, e decerto que não consigo lembrar-me de actividade mais desafiante que a exploração do que posso somente chamar de psicologia divina. As minhas presentes circunstâncias colocam-me nessa posição tão criativa quanto ambígua de observar a presença por forma nenhuma como alguma que tenha conhecido, em que pressinto características originais soberbas – e por isso mesmo misteriosas; essa presença é mais do que um pouco disposta em meu nome, no entanto a posição que assumo é uma em que os meus velhos métodos de exploração e de comunicação são obviamente demasiadamente fracos e insignificantes para a tarefa em mãos.
A natureza impessoal e ainda assim pessoal dessa presença leva-me a fazer certas suposições experimentais sobre a minha natureza intelectual e emocional, por agora pelo menos poder misturar intuições e intelecto por formas impossíveis para mim antes - de usar uma ou a outra separadamente caso o deseje, ou de as misturar por qualquer forma, de modo que, na sua luz combinada uma visão mais expansiva seja possível do que uma só permite. Ao fazer isso, procedo a ajustamentos automáticos, cada um das quais apresenta um enfoque ou perspectiva diferente do assunto em questão, seja ele qual for, em que cada alteração dessas promove um maior entendimento e me faculta o prazer mais intenso, por com cada nova surpresa ver como mente e intuição juntos sempre abrem novas perspectivas e combinações.
Os meus pensamentos falham-me, contudo quando procuro verbalizar até mesmo para mim próprio as assombrosas implicações da criatividade que capto pelas minhas intuições, muito embora as minhas percepções emocionais também afrouxem e não consigam ir além de um certo ponto. É como se essa presença atmosférica fosse um repositório psicológico para todos os seres subjectivos possíveis de tal importância que ninguém conseguisse compreendê-los de uma só vez ou por qualquer combinação de “tempos”; e que cada um de nós saca desse repositório o que quer que reclamemos, de acordo com os entendimentos e as circunstâncias, quaisquer que possam ser – enquanto simultaneamente as nossas próprias experiências contribuem igualmente para essa estrutura psicológica de apoio. Nela, pessoal e impessoal misturam-se e formam novas combinações e versões criativas.
Muito de quanto sei e sinto entra em conflito drástico com as ideias de bem e de mal conforme mantidas pela maioria das religiões, e com crenças semelhantes mantidas por muitos dos místicos religiosos. Por eu ver que a repressão constitui uma negação da criatividade; que actos de maldade são os bem-intencionados que entram em curto-circuito, ou actos de boa índole executados de forma deficitária, ou praticados de modo tão distorcido que parecem duplamente grotescos à luz da sua aparente boa intenção contrária. Porém, afirmar que os actos de maldade sejam o resultado de um bem distorcido ou defeituoso deveria ter-me soado a um positivismo exacerbado a mim, durante o meu tempo de vida. Um filósofo que evite lidar com o bem e o mal não é filósofo nenhum. Contudo, a profunda verdade está em que não existe mal com que lidar, e tal profundidade requer a compreensão mais compassiva da humanidade e o exame da natureza do homem à luz da sua melhor em vez da sua pior interpretação.
Somente uma tal explicação satisfaz a busca inata do homem de ordem e de significado, de modo a que o mal não seja encarado enquanto força negativa em si mesmo, ou como ausência de bem, mas como a tentativa mal orientada ou distorcida de alcançar o bem. Somente nas superiores dimensões das actualidades e expressões do bem têm as qualidades inferiores do mal e da falta qualquer significado. Foi dito, por exemplo, e nos meus livros acentuei-o igualmente, que a religião muitas vezes serviu de bandeira da má vontade. É certamente óbvio que mais actos de assassínio foram cometidos na religião em nome de deus do que em nome da vingança ou do ódio. Mesmo guerras conduzidas pelas nações, umas contra as outras, são disputadas sob o equívoco de que o bem venha a resultar. O homem agoniza sob os seus maus actos. Ele não gosta de se sentir culpado, e na verdade a culpa não faria qualquer sentido psicológico caso não fosse pela existência da existência da boa intenção inata do homem, não obstante poder tornar-se mal dirigida ou distorcida.
O sentido de liberdade emitido por esta presença atmosférica é de tal modo revigorante e refrescante, tão condutiva á criatividade que se torna impossível não perceber que também na vida, a repressão constitui uma negação da criatividade seja por que razão for. Enquanto os conceitos evolucionistas e Freudianos baseados na duplicidade psicológica inata regerem, então o homem acreditará que o contrário da repressão esteja na licenciosidade e na libertação de impulsos selvagens e primitivos que, por si só, arruinariam a civilização.
O eu-próprio de Darwin não sentiria razão para sentir culpa com relação a nenhum desses actos, por mais assassinos que fossem, se servissem o fim da sobrevivência dos mais aptos; contudo, nenhuma pessoa viva é isenta de culpa. Nem nenhuma explicação freudiana servirá de nada mas a mais frívola das fantasias para explicar a culpa, embora a crença nessas fantasias as reforce e programe a experiência, distorce mais as revelações pessoais sob a psicanálise, e, curiosamente, não produza nenhuma cura verdadeira. Tais teorias foram de tal modo projectadas na experiência humana que termos como “raivas assassinas” são mal empregues em comportamento violento de crianças, e as teorias de Darwin da sobrevivência são acrescentadas ao Freudianismo pressupõem o desejo dos filhos matarem os pais e de possuírem sexualmente as mães.
As crianças desejam possuir as capacidades e poderes dos adultos, imitar os mais velhos em todas as suas áreas de expressão, inclusive as sexuais, mas a energia desse desejo não é por forma alguma assassina, embora isso seja estabelecido enquanto padrão normal de desejo e de comportamento inconsciente.
Os dramaturgos Gregos trataram de tais matérias, por se terem glorificado nos contrastes – no bem e no mal, nos cumes da glória e na tragédia do carácter falho – mas isso era tudo visto a uma luz maior, em que a realidade fervilhava de deuses, seres humanos, demónios e inumeráveis espécies pelo meio, com uma enorme tensão e dilemas e interacções criativas; enquanto o eu de Freud se encontra desprovido de todas as acções heroicas ou possibilidades de grandeza, e provido unicamente de uma natureza libidinosa indigna de confiança que precisa ser reprimido para que não se destrua nem ao mundo civilizado que ele de certa forma explicou, conseguiu alcançar.
Ao comparar actualmente a minha realidade psíquica e a de outros com o estado generalizado que me foi dado conhecer na Terra, sou capaz de ver os erros de interpretação que cometi. Na esperança de que as seguintes sugestões feitas em retrospectiva possam servir para outros, e realçar a necessidade que o homem tem de uma teoria psicológica que encoraje e não limite o seu crescimento psíquico.
Na vida, não são os incidentes ou sentimentos particulares que reprimimos que provocam dificuldade mas o conjunto mental ou hábito da própria repressão, assim como a crença que temos na necessidade de repressão, desde logo. A repressão numa base diária contém-nos e restringe-nos em todos os aspectos, tanto no pensamento como na acção, limita-nos a exuberância e as expressões de amor.
A crença num ser defeituoso, a identificação com uma espécie destrutiva, condenada e que sucumbiu conduz a uma desconfiança básica do eu, a uma sensibilidade exagerada para com a “consciência,” e são precisamente tais sentimentos que me causaram o quase constante sentido que tinha de melancolia na vida. Permeou todos os meus dias e permaneceu qual peso pesado sobre o meu coração independentemente dos momentos de alegria. Toda alegria, cada instante de animação, todo feito era logo pesado de encontro ao que eu sentia ser a maior realidade pragmática – da estupidez do homem e das tendências para o mal – e contra tal montanha negra de escória psicológica falha nenhum acto, por mais heroico, nem feito, por mais brilhante que fosse, poderia parecer mais do que uma esguia flor numa gigantesca pilha de lixo que em breve feneceria e se desvaneceria, que de nenhuma utilidade seria fosse por que modo fosse; e nenhum acto, conquanto bem-intencionado, poderia começar a influenciar o derradeiro peso da situação do homem.
Como poderão criaturas falhas confiar em si mesmas em privado; e em termos de um governo democrático, como poderia o homem esperar governar-se? Assim, parecia que precisava ver-me constantemente, verificar redobradamente as minhas teorias e deduções, ser triplamente cauteloso quanto às minhas esperanças que tinha quanto ao homem ou à existência da alma. Quanto mais a minha alma ansiava pela descoberta de uma prova da existência da alma, mais a minha mente zombava, por em parte nenhuma conseguir encontrar nos actos generalizados do homem justificação para a sua sobrevivência. Mais, eu temia que uma fé só levasse a um mais profundo desapontamento, que a fé na boa intenção do homem não duraria um momento na realidade do seu mundo prático. Parecia mais seguro não acreditar por assim o coração sitiado poder ficar ferido e não deixar de comparar o homem a um ideal irrealista. Contudo, contra isso, busquei por toda a parte por um ideal.
Mas julgar todos os actos do homem contra o ideal e perceber o pouco escassos esses feitos foram executados, perdi a intenção do homem de vista. Como poderia, pois, eu encontrar superação na ideia de um universo bem-intencionado? Porquanto na altura tudo ia bem com a Terra e com o céu, com as criaturas e as estrelas, e somente o homem se destacava numa insuficiência flagrante e falha. Só ele desfigurava o que de outra forma seria um universo ordenado. Contudo, se não existisse ordem no universo, então de onde teria vindo a ideia dela, que a minha mente e coração tanto procuravam e contra cuja existência implícita julgava toda a discordância?
Pois eu não conseguia crer mais na criação acidental do universo do que podia aceitar a manufactura acidental de uma cadeira que calhava ajustar-se aos contornos do meu corpo de modo tão perfeito que bem que poderia ter sido feita para tal fim. Quão adorável e conveniente que calhasse acontecer que átomos e moléculas se ajustassem de forma tão precisa quanto acidental, e acontecesse que eu tivesse quartos traseiros que pudessem tirar partido de tal configuração cósmica.
Mas para tudo isso, eu não conseguia obter a sensação de um universo bem-intencionado que me apoiasse que se me aconchegasse como a cadeira o fazia, de modo que psicologicamente me sentia sem apoio enquanto a minha melancolia me lembrava constantemente o dilema.
Cresci desencantado e o desapontamento que sentia para com a vida e as suas condições cresceu na proporção das esperanças que antes tivera para com ela. Até mesmo a natureza perdera a sua magia, por a contemplação das suas belezas me levar unicamente a um desejo nostálgico de que o homem e os seus trabalhos pudessem de alguma forma comparar-se a essa ordem e graça. A atmosfera interior da minha existência era na altura quase o oposto daquele estado de que agora desfruto. Contudo, em vida gozei de algum sentido desta liberdade e de insinuações inteiramente ignoradas, por a facilidade e o movimento com que eu pensei e a acção dos meus próprios pensamentos possuíam a mesma mobilidade veloz, segurança e à-vontade. Ou seja, os meus pensamentos esvoaçavam de mim com tal profusão que jamais conseguia acompanhá-los. A sua vitalidade não possuía limites, e mesmo os mais pessimistas esvoaçavam da minha mente com a mesmo liberdade optimista - claro que isto é uma força de expressão - e possuíam tanta agilidade quanto os mais animados.
Agora, contudo, encontro-me rodeado de um sentido de ostentação psicológica (para não dizer luxo) e vejo-me suportado por uma presença atmosférica cujas qualidades achei certa vez como curiosas e familiares. A presença mostra receptividade, atenção para comigo. Estou certo de que reage a mim, no entanto, conquanto esteja por toda a parte não é intrusa mas uma vez mais, como um dia de verão, assemelha-se mais a um meio encantador em que todo o ser vivente é banhado de modo que se torna bastante possível quase esquecer, ou tomo-a como normal. Digo "quase" por as suas qualidades emergirem em nós lentamente, ou fizeram-no em mim, de modo que passou um tempo antes que eu percebesse a receptividade que apresentava, por exemplo. Por isso, suspeito que as dimensões da sua existência revelam-se ou são reveladas de acordo com a atenção que lhe concedemos.
Uma vez mais, até onde posso dizer esta luz do conhecimento e presença atmosférica são a mesma coisa, o que equivale a dizer que em todos os sentidos hipotéticos esta presença se encontra totalmente aqui e é atenciosa, enquanto retém a sua atmosfera em vez de natureza específica. Sei que posso cortar do mesmo tecido um ser formado em torno de mim como o mais requintado traje concordantes com um padrão eterno, costurado com missangas multicoloridas de tempo, carne figurada sem costuras. E cada personalidade é envergada, retirada e usada de novo como um amado artigo de vestuário, nunca descartada nem pendurada limpa num armário escuro mas renovada, mais nova com cada utilização; um traje vivo, amorosamente executado.
Só posso comparar, pois, tal presença atmosférica a um meio psicológico criativo qualquer que possua em si mesmo todas as qualidades necessárias à existência, um repositório de individuação e de capacidades perceptivas. Como todos os elementos requeridos para a vida brotam do solo da Terra, que também os nutre, este meio parece desempenhar os mesmos serviços, dando somente origem a entidades psicológicas e ao universo inteiro que as sustenta.
Estou, pois, convencido de que esta presença atmosférica constitui o meio criativo de que toda a consciência brota. Esta mesma luz omnipresente parece atrair a mais diminuta das minhas sementes psicológicas, enterradas ou a debater-se pela liberdade, encharcadas pelo excesso de água da minha melancolia, de modo que cada esperança emerge uma vez mais. O meu coração torna-se cada vez mais leve. Mais, esta luz é seguramente a mesma que de outro modo iluminava os céus de Boston, que amanhecia sobre o oceano e se esparrinhava na porta do meu escritório. Mas a qualidade desta luz do conhecimento difere, por estar dotada de vida e de um desígnio amoroso que é instantaneamente sentido e experimentado de uma forma directa. Não resta dúvida quanto à sua intenção, mas uma vez mais sinto-me impressionado com a ambiguidade dos seus aspectos pessoais e impessoais. As suas qualidades atmosféricas, por exemplo, o seu comedimento, podem existir somente em determinados níveis da compreensão, por de um modo estranho me ter conformado com o facto desta presença não me procurar, ou examinar, ou tentar sobrecarregar-me por qualquer modo. Em vez disso tranquilamente estende - o quê? Consolo, apoio, uma leveza em que a minha existência se vê por toda a parte fortalecida, revigorada, e ainda assim levada a perceber a sedução de novos desenvolvimentos, ou melhor sentir-se capaz de se expandir, mesmo de se transformar, em perfeita segurança.
Esta oferta de oportunidade, contudo, invoca igualmente as minhas tendências individuais peculiares, como se essas e não outras fossem de vital importância, a ser nutridas; como se essas fossem as sementes de futuros frutos, de alguma planta exótica ou espécie especial, a ser carinhosamente nutrida; ou como se eu pudesse produzir sementes psicológicas de inestimável valor para o universo, e esta luz do conhecimento nutre-as com uma maior certeza do que na Terra o sol nutre as mudas da primavera.
No entanto estou igualmente seguro de que uma ou outra pessoa aqui sente da mesma forma e é nutrida da mesma forma; mas sem meio de provar o que quer que seja disso, eu sei que na terra, é igualmente suportada da mesma forma. Não existe qualidade exigente para com a presença atmosférica ou a sua luz, no entanto parece possuída do que poderei somente chamar de uma divina activa passividade. Ela atrai mas não pressiona, ainda assim a sua força é passiva por parecer existir num estágio de activa espera ou de convite, sempre acolhedora, com a ternura gigante de poder tido sob controlo, como se fosse tão ciente da sua própria energia que saber que o mais desprendido dos seus afagos poderia levar a sua força a esmagar o objecto do seu amor.
Esta última declaração uma vez mais chega quase a sugerir uma personificação superlativa do género que procurei evitar, o que também acarreta complicações, dificílimas de compreender. As palavras e até mesmo as minhas próprias impressões e percepções limitadas podem ser enganadoras com respeito a isso, por crer que a compreensão desta presença atmosférica é automaticamente atingida de acordo com as necessidades e condições e natureza daquele que percebe. Uma vez mais, estou reduzido a analogias, mas usando o símile da planta exótica, é como se eu fosse “regado,” nutrido, e recebesse luz na exacta proporção das minhas próprias necessidades; não – por exemplo - recebo luz em demasia nem sou sobrecarregado de fertilizante (compreensões mais ricas do que os meus pensamentos enraizados conseguem aceitar) mas recebo espontaneamente exactamente aquilo de que preciso.
Isto sugere um aparelho cósmico de plantio qualquer, automático, dotado de natureza impessoal, que conduz às complicações que mencionei anteriormente. Por eu mal sentir que este relacionamento aparentemente automático assente nalgum contacto íntimo de natureza a mais pessoal imaginável, uma mais profunda do que alguma possível no que na Terra é considerado contacto íntimo. Quer dizer, este alimento aparentemente automático, este alcance da compreensão e da luz parece baseado num conhecimento íntimo e carinhoso do meu próprio estado e ser de tal modo completo que espontaneamente proporciona o que é necessário antes que eu perceba as necessidades que tenha de uma forma mais a característica de uma mãe, digamos, do que de um pai. E tal como a pressão do amamentar na teta de uma vaca faz com que o leite brote, também em algum insondável nutrir psicológico, a pressão das necessidades do homem automaticamente incline esta presença a produzir qualquer força, compreensão ou apoio que for requerido. E tal coo uma mãe se satisfaz por nutrir o filho, também esta presença atmosférica sente ser parte de toda a criatura como a mãe da criatura no acto de amamentar, de modo que o aparente cultivo automático é muito mais íntimo, baseado numa relação incrivelmente complicada.
Estas analogias, que balançam de um extremo ao outro do espectro, de pouco me servem; contudo, não me ocorre nenhum outro meio de dar a entender a natureza desta presença atmosférica. Na criação de homens e mulheres a analogia da amamentação poderá parecer de mau gosto, ao reduzir o adulto a um infante lactente e ao retractar o estado do homem a um de uma dependência passiva; e tal não o meu propósito, pois que voltando às complicações que acabei de mencionar, numa ou noutra medida esta presença atmosférica também deseja activamente nutrir e trazer à existência tal como, digamos, uma mulher que há anos se viu incapaz de conceber até que por fim um filho e se vê sobrecarregada de amor, e o deseja dispensar a todas as coisas. Ao mesmo tempo que procuro estas analogias, torna-se igualmente difícil atribuir características tanto masculinas quanto femininas a esta presença atmosférica, e percebo que tal apalpação implica projecções da minha parte.
Dando isso como certo, continuemos. À luz desta presença não sinto ser um infante subjectivo tal como o descrito, mas estou ciente de potenciais ou de contornos psicológicos que me cabe satisfazer, conforme uma pessoa poderá estar ciente num amado a estatura completa da personalidade que na Terra, pelo menos, jamais se torna possível actualizar.
O artista não pensa num esboço como num “quadro de um bebé,” mas sente respeito por ele tal como é, embora possa muito bem desenvolver-se uma pintura e ele possa ter executado o esboço como passo inicial para um quadro. Com respeito a isso, o quadro acha-se implícito no esboço, e o artista bem que poderá ver sempre a promessa da pintura sempre que olhar para o esboço. Isto será o que porventura mais se aproximará da relação existente entre a presença atmosférica (o artista) e eu próprio (o esboço). Só que neste caso, o esboço acha-se dotado dessas possibilidades do próprio desenvolvimento, e na presença da luz do conhecimento ele sente a sua própria existência retirada de um estado para outro mais gratificante.
A anterior analogia do infante vem-nos facilmente, contudo, desde que na infância eu agora ver que aceitamos tal ajuda automaticamente, e a tomamos como nosso direito; e na vida torna-se por toda a parte evidente excepto que o homem tenha cerrado a sua mente seja por que razões for para o que sempre se encontra ao dispor. A própria Terra é dada, assim como todos os requisitos da vida. Homens e animais veem a um mundo que já se encontra equipado com campos, plantas, água, ar – elementos que se ajustam com tal perfeição uns aos outros e que contribuem para a existência uns dos outros – e essa miraculosa construção é de tal modo viável que o homem toma a sua existência por certa.
Mas a Terra é dada. Imaginar que todo esse ambiente constitua um acidente constitui, percebo-o agora, um ultraje intelectual assim como emocionalmente estéril. Também percebo actualmente que as religiões parcialmente entenderam e ignorantemente distorceram as qualidades deste ânimo divino em que a vida material teve a sua existência.
Por o homem se ter apartado da natureza parece-lhe que deva manipulá-la em proveito próprio. Ele não deixa que ela opera seu favor como ela pretende fazê-lo, por a natureza possuir igualmente uma boa intenção, ao emanar como o faz, desta presença atmosférica. Contudo, com respeito às atitudes do homem, resulta que outras pessoas e instituições também parecem operar contra o indivíduo, que então se sente alienado de Deus e do homem, perdido num universo caótico, uma criatura acidentalmente jogada na existência como um carvão vivo de alguma fornalha gigantesca, crepitante por um instante com os estalos e os sussurros do desejo, mas logo reduzidos a cinzas.
Com tais teorias torna-se impossível teorizar acerca da criatividade, do valor do indivíduo ou do valor das suas acções, já que todos os efeitos são em última análise destruídos e mesmo a sua existência não possui significado. A inegável criatividade do homem e os empreendimentos cooperativos da natureza não possuem literalmente qualquer lugar num universo acidental, já que estas são igualmente encaradas enquanto construções casuais de um sistema cujas criaturas possuem um propósito somente - o objectivo selvagem da competição para sobreviver, cada um confrontado com o semelhante da sua própria espécie, cada espécie confrontada com outra, cada nação confrontada com outra – provendo um quadro em que de facto somente o mal parece evidenciar-se.
Em tal concepção, não só é o universo acidentalmente formado, como o seu propósito determina cada elemento nele contra o outro e a cooperação tem lugar apenas a partir de um propósito pessoal da natureza mais egocêntrica. Se um tal universo existisse de facto, as criaturas nele ter-se-iam aniquilado umas às outras desde a alvorada dos tempos. Na abordagem mecanicista que o homem usa em relação a tais questões o homem ignora o pleno significado sentido até mesmo pela mais pequena das criaturas e evidente em todas as actividades humanas – a divertida alegria, exuberância da natureza que existe lado a lado com os seus atributos mais “mortais.”
Sem tal exuberância, essa mesma alegria do ser, não há razão para que qualquer espécie prologue a sua existência. Contudo, o homem rapidamente cria a ideia de um mundo destituído de alegria, e ao fazê-lo, reestrutura a sua vida emocional para a ajustar aos “factos” conforme ele os concebe, factos esses que em parte alguma se enquadram no esquema da natureza e que parecem ajustar-se somente por o homem firmemente ignorar outras evidências em contrário.
Tal evidência existe na sua própria experiência privada, em todos aqueles domínios que a ciência deliberadamente considera que se situam fora do seu âmbito, por actualmente considerar pouco científico qualquer informação que tenha decidido à priori por poder perturbar o seu enquadramento oficial (NT: Alusão aos experimentos ditos “duplamente às cegas”). Tais atitudes, capacidades, características e experiências que podiam e que seriam reveladas quanto à plenitude do sentido da boa intenção da natureza permanecem como informação inaceitável.
Aqui eu incluo o estado do sonhar, as vastas áreas inexploradas dos estados alterados de consciência, a telepatia, a clarividência, e acima de tudo, as próprias capacidades criativas. Por no uso que o homem faz da criatividade, ele se aliar em definitivo do universo significativo e dotado de boa intenção, exuberância de intenção de que brota.
DEPRESSÃO, PRECOGNIÇÃO E AS DINÂMICAS DA CRIATIVIDADE
Na vida as dinâmicas da criatividade acham-se ocultas de nós de uma forma que os processos do pensamento lógico não estão. Uma esplêndida cena natural, a melodia de uma simples música, ou a contemplação de um grande quadro habitualmente agitam-nos as emoções de uma forma aparentemente miraculosa, de modo que de repente, toda a personalidade global do indivíduo se vê alterada: a fé substitui a dúvida, a saúde vibrante ressoa pelo corpo, faculdades intelectuais anteriormente constrangidas pela ansiedade são estimuladas, aguçadas - mas ainda assim repletas de um novo poder, ao alcançar uma substância adicional ou densidade de conteúdo.
Tais experiências surgem de maneira insignificante ou grandiosa em cada vida; por vezes tão aparentemente insignificante que quase passam despercebidas, talvez sem nos alterarem porventura os planos que temos para o dia, embora alterem o projecto daqueles acontecimentos da mais dócil e afável das formas; ou ocorrem como revelações que reescrevem por completo o roteiro de todas as acções futuras de uma vida.
Não podemos explicar tais experiências intelectualmente, por a mesma cena que inexplicavelmente nos incendeia as emoções e nos desperta o espanto podem ser uma que tenhamos passado incontáveis vezes, sem sermos afectado: o quadro poderá ter-nos impressionado anteriormente como muito mundano; podemos ter ouvido essa particular música tantas vezes no passado que automaticamente tenhamos deixado de a escutar com fins práticos.
O contrário pode evidentemente ocorrer, onde uma cena inócua nos impressiona com uma súbita desolação acentuada; a visão de uma obra de arte mergulha-nos numa profunda depressão; ou as melodias de uma peça de música familiar inexplicavelmente dão início a uma melancolia tanto mais desesperada por se afeiçoar tão desproporcionada em relação ao evento que a tenha desencadeado.
Eu costumava pensar que a paisagem melancólica de New England era, até certo ponto, responsável pela minha própria melancolia, por a sensação da consciência que por vezes tinha espelhar na perfeição a tristeza fria e grisalha do mundo exterior ao meu estúdio acolhedor. Os navios que aportavam, soavam como uma nota triste em particular ao crepúsculo, como se os mortos dolorosos fizessem um anel, de braços entrelaçados, a olhar para terra num desespero nostálgico, a encher o ar de o soar do seu hino fúnebre - um som que se fundia com o bramido do oceano, os apitos a vapor dos navios, e os assobios e ruídos estridentes das ondas frias.
Fantasias desajeitadas, românticas e sentimentais! O meu intelecto sustentou-me no desprezo delas, mas eu não o confessaria a ninguém. Recordando-me com firmeza a enérgica azáfama que se travava no porto, eu imaginava as luzes, tumultos e os brados dos marinheiros. Eu tentava cheirar o odor da apanha do dia, ouvir o troar dos pés que retornavam na madeira escorregadia das docas, e ver os barris de água fria atiradas às redes a brilhar de peixe - por tudo isto eu ter experimentado com habitualidade em longas passeios, e eu sempre achei todo o assunto muito refrescante. No entanto, quando essa fantasia particular me subjugava, eu era mentalmente atingido em vez disso pela visão dos olhos cegos do peixe e olhar para cima, das rochas viscosas, da calorosa, contudo, agora desagradável indiferença que os pescadores evidenciavam em relação à captura em contorção por baixo dos seus pés calçados com botas.
Seria pela desolação desordenada dos sentidos, essa negação glutona da vida das outras criaturas por que os mortos suspiravam? Eu interrogava-me com tais ânimos sobre o que na vida poderia atrair os mortos, que se encontravam depurados de tais violências triviais, que eram absolvidos de um clamor de desejos contraditórios em que a vitória de um representava o desespero para outro. Pois que, enquanto eu ansiava pela camaradagem e achava a conversa social a mais viva das actividades civilizadas, noutras ocasiões sentia-me mal em relação ao mesmo tipo de discurso e aos mesmos companheiros que, noutras alturas, me traziam a mais profunda das satisfações.
Assim, porquê a minha fantasia acerca do lamento dos mortos? Durante tais ataques de desolação, eu sentia enfado para com a vida, e mesmo ultraje pelas condições que apresenta, e a tendência para uma vida de contemplação - no entanto tal contemplação, arrazoava eu, só aprofundaria a minha angústia. E bastante em linha com os meus sentimentos (em vez da atitude que tinha para com eles) do nada emergiria uma barragem de imagens medonhas, reunidas com rapidez de relâmpago de toda a minha experiência - eventos trágicos da minha vida ou de novelas que tenha lido ou de dramas que tenha visto, imagens instantaneamente trazidas à vida sombria, porém, brilhante, que só instantes antes tinham sido enterradas na minha memória.
As minhas sensações tinham literalmente conjurado essas imagens numa fresca existência pesquisada através de toda a informação importante e trivial com que sempre me preocupara desde a nascença, e que me apresentava isso com uma organização inestimável que conscientemente deveria situar-se bem para lá dos meus meios, caso me fosse pedido para elaborar uma tal lista de associações. A extensão dessas imagens parecia interminável, e proporcionava uma estável procissão de mini dramas trágicos, cada um dos quais me aprofundavam o atoleiro até por fim simplesmente recusar entretê-los mais e voltar à força a minha atenção para outra parte.
Que convidados indesejados do inconsciente, que companhia demoníaca não solicitada! Assim, disse a mim próprio, não admitindo qualquer responsabilidade pela sua vinda e insistindo em vez disso que eu tinha sido explorado pelos ditames de um temperamento melancólico que me pertencia, mas não eu.
Fui igualmente indevidamente fascinado com o progresso das gerações no seu duplo estilo; por cada geração seguir a anterior na vida assim como na morte, como alguma estranha sereia a erguer-se acima da superfície das ondas mas sem nunca perder as barbatanas da sua verdadeira espécie; e caindo para trás nas profundezas do oceano após um breve vislumbre da terra. Porque certamente, argumentei para comigo, nós estaríamos mortos por mais tempo do que o que teríamos vivido, e como poderia a breve luz iridescente da vida derramar qualquer verdadeira iluminação nessas vastas trevas que rodeavam a vida por todos os lados?
Quão estranho, pensara eu, que o foco concentrado da vida fosse tão repleto de conflitos, tumultos, divisões e de questões que pareciam pela sua própria natureza possuir, na vida, nenhuma possibilidade de resolução. Teria uma vida suficiente estímulo para satisfazer os mortos por incontável número de séculos? Reflectiriam os mortos na sua experiência de vida, remoeriam mentalmente os ossos da própria contenda (argumentação)? Assemelhar-se-ia a vida a um qualquer problema indescritivelmente complicado da matemática emocional, para que cada alma recebesse uma, para depois ser enviada de volta para os reinos do não ser onde a concentração se expandiria num qualquer igualmente inexplicável modo? Mas para que fim? Assim, todos estes pensamentos me assaltavam à medida que eu escutava os barcos a chegar ao porto – numa directa contradição com a experiência consciente que tivera nas docas, e a despeito do meu animado apreço da dilatada diligência dos pescadores quando com efeito lá fui em visita. E se os mortos possuíssem alguns segredos, se a ponderação mental nos acontecimentos da sua vida que faziam lhes trouxesse alguma solução, nenhuma decerto terá surgido nas sessões que eu frequentava, nem tão pouco alguma das investigações que eu fizera sobre tais assuntos me trouxera conforto.
A existência de sonhos de natureza telepática e clarividente era uma outra matéria, e embora nenhuma evidência real pudesse ser determinada, na minha opinião não restava dúvida de que a mente do homem podia e que com efeito rivalizava com a mente de outro; e podia por vezes perceber o objectivo do futuro. Impressionava-me, além disso, dos relatórios de sonhos que colectávamos, que os eventos dos sonhos surgiam juntos ou eram conjurados da mesma forma que as minhas fantasias negras do estado de vigília.
Onde as minhas imagens se confinavam a eventos do passado ou do presente da minha própria experiência, contudo, tais imagens oníricas alcançavam acontecimentos futuros e muitas vezes envolviam experiências que não tinham cariz pessoal. A esse respeito a mente do sonhador procurava no campo interpessoal dos relacionamentos aquelas imagens que moldavam o sonho, mas organizava-as de acordo com algum propósito interior oculto. Os acontecimentos oníricos pareciam encaixar juntos, assim como as minhas fantasias, organizadas com uma facilidade interior muito além dos meios normais conscientes e utilizando um campo muito mais vasto de informação do que aquele normalmente disponível.
Ocorreu-me que os sonhos fossem factores de mudança de humor notórios, quer os eventos oníricos se provassem ou não “verdadeiros.” Quer dizer, os efeitos dos sonhos eram frequentemente inegáveis, e levavam a mudanças de comportamento definitivas, ainda que os eventos oníricos não fossem de cariz precognitiva. Eu raciocinava, pois, que aqueles que fossem dotados, como eu, de temperamento melancólico – mas também mais dotados – poderiam sonhar as suas fantasias desesperadas mas somente com uma muito mais reviravolta criativa extra, de modo que os detalhes inconscientemente eleitos viessem não do passado privado nem da experiência presente, mas fossem o resultado de uma muito maior detecção em que o futuro servisse igualmente. O sentido privado de desastre, acreditava eu, podia obter tal intensidade, a antecipação do perigo ser tão aguda, que algumas pessoas num estado acelerado de criatividade onírica procuravam essa informação no futuro, envolvendo outros que não elas próprias; elementos proféticos coligidos; e eventos sonhados que estavam para suceder no mundo objectivo.
Porém, com que propósito? Porque seguramente que sonhos precognitivos de desastres devem conduzir a sentimentos de desamparo e de confusão. Como prevenir os passageiros desconhecidos de um comboio que nos carris mais à frente os espera uma certa colisão? Em que profundidade de incerteza e de ansiedade deverá o sonhador de tal tragédia mergulhar; apanhado a imaginar e a ver se o desastre irá ou não ocorrer? Imaginem tal homem ou mulher cheios de preocupação a sondar os jornais em busca de tais reportagens, e a questionar se o sonho poderia de algum modo ser responsável pelos eventos resultantes caso ocorram… Que valor psicológico poderiam tais sonhos proporcionar?
Encontrei algumas respostas, mais tarde na vida, por meio do exame das minhas próprias fantasias lúgubres, embora elas fossem despertas e não precognitivas. Alguns de nós mais do que outros, parece, somos assaltados por um sentido da vulnerabilidade da vida, e embora possamos aprender a maneira calorosa de todos os dias dos nossos mais vociferantes vizinhos, nós encolhemo-nos e vacilamos e protestamos contra as características da vida que outros tomam como certas. Um pássaro com uma asa quebrada; um peixe apanhado, mudo de boca aberta; o gatinho de casa a arrastar o rato morto, espirrado de sangue, contudo protegido do crime pela própria inocência; e os ataques da doença com que as crianças muitas vezes se veem afligidas – essas injustiças para sempre nos captam a observação. Quanto não invejamos a mãe atarefada que reage de um modo prático, certa de que amanhã a criança estará ao ar livre a brincar – enquanto vemos o funeral na nossa mente e imaginamos os familiares chorosos. Em qualquer caso há aqueles de nós que na vida esperam o pior das reviravoltas dos acontecimentos; cujo próprio sangue parece ter um matiz cinza fosco; cujos pensamentos mais frescos são tingidos por remorsos e excesso de consciência.
Tal é a certeza do desastre que num dado dia, se nenhum for descoberto, a pressão aumenta, pois que, de que via oculta poderá vir a retribuição da vida? Qualquer desculpa para vincular tal sensação será melhor que nenhuma. Fantasias servirão. Se a pessoa melancólica esconder tal ansiedade de si própria, e prontamente com rectidão moral repudiar tais sentimentos como indignos, então talvez durante o sono essa necessidade desencadeia uma criatividade a tal ponto que o sonhador chegue ao futuro em busca de um acontecimento em que possa fixar a ansiedade que sente, e consequentemente, expressá-la.
Se o acontecimento previsto envolver outros, que não ele próprio, que sensação de alívio – desastre, sim, também: o sonhador tinha razão e os seus sentimentos foram justificados, enquanto em si mesmo ele fora salvo. A catástrofe prevista também fornece um drama contínuo à medida que os acontecimentos antecipados são nervosamente aguardados, de modo que a sensação melancólica de que o indivíduo se envergonha podem encontrar um portador que retenha o seu conteúdo.
O artisticamente dotado poderá em vez disso pintar uma paisagem escura de nuvens de tempestade em rodopio, ou de desastre no mar, ou de um outro quadro cujas profundas sombras de aspecto sério sugiram paixões de desespero. O poeta poderá redigir um verso sombrio, um hino fúnebre, ou uma ode à morte. Mas os poderes criativos ocultos encontram-se por baixo dessas realizações, a despeito do seu conteúdo, método ou forma final. E por detrás dos poderes criativos estão as majestosas energias das emoções: aquelas mesmas emoções que eu envejara noutros durante a minha vida, enquanto eu as tratava como enteados psicológicos em mim próprio, a menos que desfilassem nas suas melhores vestes de Domingo.
Foi somente após a morte que compreendi o pleno alcance da vida; apreciei e encantador objectivo da consciência ajustado de modo tão preciso e triunfante com um lugar e tempo, e senti o poder da vida dimensional terrena como em vida jamais a tinha conhecido. Em resultado, cheguei a um acordo com o meu próprio espírito e concedi-lhe a sua liberdade enquanto em vida o sobrecarreguei, acreditando que era mal servido pela experiência da mortalidade
É a fim de comentar a vida terrena que eu agora dou forma mais uma vez aos componentes da minha consciência no seu elenco geral que eles certa vez possuíram, e adopto em certa medida a tendência característica do pensamento por que os meus trabalhos foram conhecidos. Para tal fim irei pelo menos sugerir aqueles aspectos criativos da personalidade que jazem por baixo de cada vida e permitir que se estenda a dimensões para além das suas, a partir da força e do poder do próprio desígnio.
Em via tive, evidentemente, consciência daqueles que eram dotados de temperamento animado, cujos sentimentos naturais, por si só, eram optimistas; aqueles que pareciam genuinamente contentes; e invejava-os mesmo quando suspeitava que fossem mente rasa, dados a emoções frívolas enquanto cegos para as paixões – ou então romantizava com respeito a eles noutras ocasiões como o Homem Natural, humano, mas tão inocente do desafio moral quanto o gatinho ou o tigre.
A ideia da força da vida intrigava-me e eu conseguia imaginá-la no Homem ou na Mulher ou na Criança ou no Indivíduo, mas tinha a maior das dificuldades em perceber a sua existência em qualquer pessoa; e conquanto teorizasse com relação à sua força eu sentia em mim próprio somente a necessidade de sondagem de sentir esse poder que imaginava que qualquer simples animal possuía.
Procurava por isso pela evidência dela nos outros e na experiência de experiências de eventos paranormais conforme eles me eram reportados e amplamente ignorava o impulso da minha própria vida emocional, que me assaltava então como um impedimento do sentimento contra o qual precisava exercer toda a minha energia, vontade e intelecto.
Eu queria examinar as emoções sem as sentir; estudar a natureza da criatividade enquanto me mantinha distante do seu pleno domínio; explorar a força da vida mantendo-me aparte num isolamento altivo; promover a fraternidade do homem democrático enquanto confinava as minhas relações pessoais ao acadêmico; e acima de tudo, descobrir evidência científica para a crença em Deus ao manter assídua posição objectiva contra a crença emocional que tinha que podia prejudicar o quadro da descrença que tornava a própria busca respeitável.
Parte desse postulado intelectual surgia em resposta aos tempos, contudo, por mais fraco que fosse, eu moldava por sua vez os tempos, marcando-os com um carimbo do temperamento e crença, tal como cada um dos meus contemporâneos fazia. Além disso, até certo ponto essas características dificilmente reflectiam a geração que viera antes, que crera na fé, nas boas obras, na mão do destino de Deus – no entanto, em face dos tumultuosos eventos industriais crescentes, não me atrevia a criticar a experiência diária nacional que a sua fé tinha forjado.
Se Deus estivesse no céu e tudo estivesse bem no mundo, e se a democracia fosse a forma de governo favorecida que divinamente protegesse os direitos e liberdades dos homens; se o livre empreendedorismo e a competição fossem a resposta à pobreza e ao sistema de classes da herança Europeia, então que dizer do trabalho infantil e das condições de má fama das fábricas e lojas clandestinas? Assim, víamo-nos muitas vezes dilacerados entre a fé e a dúvida, entre o fascínio pela tecnologia e a romantização alternativa da natureza, apreensivos entre a excessiva posição sentimental e a excessiva posição crítica.
No meu estúdio, isolado, com livros coo companheiros de confiança, eu teorizava facilmente e com prontidão acerca da fraternidade do homem; enquanto encontros pessoais muitas vezes me deixavam irritado e desesperado, e me levavam a questionar esses princípios morais a que eu obedecia na minha mente mas que achava tão difícil experimentar quando me deparava cara a cara com os meus semelhantes.
De facto tentei provar do doce produto das minhas intuições conforme me surgiam na minha imaginação criativa, por tais “intimações da imortalidade” na verdade me transportar acima do solo seco do meu intelecto, ao me proporcionarem conceitos altaneiros e emoções que me libertavam momentaneamente dos meus padrões habituais do sentimento e do pensamento. Mas assim que procurasse provar as intimações interiores pela comprovação e dedução, assim que tentava trazê-las até ao domínio da ciência, eu dava início a uma tarefa ingrata, por nem as intuições nem o intelecto alguma vez chegarem a satisfazer-se.
Tornei-me crítico do alcance emocional da compreensão ou dos do despertar dos voos da fantasia que eu sabia que não podiam ser objectivamente provados, quando antes tinha dado à minha imaginação plena liberdade sem pensar que tais exortações imortais pudessem ter uma base factual, mas mantinha tais sentimentos religiosos acima de tais tipos de escrutínio que dera a outros assuntos mais mundanos. Por conseguinte, o meu conhecimento interior poético mantinha a sua validade quando o julgava no seu próprio âmbito, mas assim que o lançava à luz da ciência, os conflitos tinham início. Não mais conseguia, pois, aceitar o conforto das minhas intuições, por uma crença religiosa ou espiritual se tornar somente numa premissa na sua tradução intelectual, e o rico drama da alma desmoronava quando recomposto na geometria da mente. Por essa geometria requerer uma definida série de passos e de métodos antes de dar o seu QED (NT: Frase do latim, Quod erat demonstrantum, que quer dizer “como se queira demonstrar”) a hipóteses para as quais a intuição não carecia de tal síntese classificada.
Na verdade, a estrutura interna de tais títulos (valores) intuitivos, embora fortemente sentidos, pareciam dissolver-se na totalidade quando fossem adulterados pelo intelecto, como se fossem compostos pelos mais requintados ainda que mais frágeis dos materiais –senão por ingredientes suficientemente sólidos nos seus domínios nativos, que no entanto não conseguiam ser transferidos para o mundo físico.
Uma parte de mim pensava: “Claro que a fé não pode suportar a luz da razão. O cientista precisa manter as suas crenças separadas do seu mundo dos factos e não procurar provar, quer no laboratório ou noutra parte qualquer, essas improváveis intimações da alma. Que elas sejam relegadas à arte ou à religião ou à filosofia – disciplinas que não precisam definir as suas teorias com tal rigor.”
Por outro lado, sentia-me compelido a verificar as compreensões da fé e a trazer todos os aspectos ocultos da consciência à luz democrática do dia, ao novo mundo de progresso e de tecnologia, onde eu esperava que o conhecimento comprovado do espírito poderia então ser usado enquanto ímpeto extra na busca objectiva que o homem empreendia por respostas para a realidade – e também servia para temperar o inescrupuloso uso do próprio conhecimento, para um ganho egoísta.
Pois que, se podíamos minar os recursos da Terra, cavar fundo no núcleo do planeta e trazer à superfície minérios e minerais, porque não haveríamos igualmente de minar os recursos da alma do mesmo modo, e trazer à superfície da mente do homem aquelas gemas preciosas da fé e da esperança que jazem, pensava eu, abaixo da superfície da mente?
Comecei a procurar tais conhecimentos intuitivos e intimações espirituais por onde quer que pudessem achar-se – nas Igrejas e nas salas de sessão, nos relatos de sonhadores – em busca das histórias tanto de gente respeitável como de excêntrica. No entanto, a integridade das minhas próprias compreensões intelectuais sofreu, e não mais consegui auferir de conforto com base nelas. Além disso, as minhas intuições mostravam-se escandalizadas com a descoberta o seu conhecimento criticado pelas frequentes actividades espalhafatosas de muitas salas de sessão – a fé reduzida a truques de mágicos e roucas persuasões sussurradas sob a forma de aparições que desfilavam em vestes diáfanas.
Como poderia o túmulo de um homem e as mais elevadas propostas espirituais chegar a tal destino a ponto da sua validade ser considerada dependente de tal sentimentalismo choraminga e balbucios? Como poderiam aqueles cintilantes prismas da fé transformar-se naquelas bolinhas baratas sob a investigação da lógica e da disciplina do controlo?
O poeta podia regozijar-se com as suas revelações intuitivas e dar-lhes vestes duradouras (e protectoras) nos seus versos; intuição e intelecto neste caso unidos num sacramente simbólico; intimações sem palavras corporificadas na cadência do verso – de modo que o poeta, qual banqueteiro espiritual podia ter o seu bolo poético e comê-lo também. Ninguém lhe pergunta pela receita nem pelos ingredientes. Mas lancem os mesmos dados nos termos do raciocínio usual e o bolo derrete, o glacé fica uma confusão pegajosa, e tudo quanto os convidados impacientes conseguem será uma mão cheia de desilusão.
Que fé, pois, constituirá uma tal mistura tênue que se desmorona ao mais ligeiro toque? Abre a porta para o inconsciente onde os deliciosos pães do sustento interior cozem – e eis que se consegue apenas o mais barato dos alimentos, encharcado e pouco apetitoso. Muitas vezes achei ser esse o caso, e assim a melancolia que sentia crescia, ao examinar os produtos que se dizia procederem do fogo criativo.
Não até depois da minha morte percebi eu tais doses inconscientes tomavam a forma da psique em que eram cozidas; que não obstante os ingredientes se apresentarem mexidos ou terem sido frescos originalmente, eles afluíram aos contornos de cada psique individual – e tal como o pão pudessem crescer, também deviam voltar decrescer para se encaixarem na mente do recipiente.
Mas esse recipiente estava longe de ser puro ou descontaminado mas apresentava igualmente o resíduo invisível de todas as refeições mais prosaicas da mente; confusas misturas em que mesmo a mais refinada das especiarias se perderiam e se subjugariam. A analogia não está muito longe da verdade com as suas conotações de gosto e de falta de gosto, porquanto mesmo uma excelente pintura enquadrada de forma chamativa é a pior de todas. Será, porventura miraculoso em si mesmo que os produtos das intuições se continuem a manifestar a despeito dos recipientes de má qualidade que os homens provisionam para o seu armazenamento e exibição.
Eu disse a mim próprio que a busca de mérito extraordinário ou da revelação ou prova da validade superior do homem, era, a seu jeito, antidemocrática, e que difamava o “homem comum,” dado que em lugar algum por entre os meus companheiros conseguia eu perceber um vislumbre sequer de tal qualidade duradoura; nem quando eu me encontrava de tal humor, servia a condição objectiva do mundo para me tranquilizar. Estaria, pois, eu cego para uma espiritualidade e um calibre superior que era tão constante fluentemente falada por outros, a qual eu mesmo só adulara? Por mais inconcebível que isso parecesse, dei ao assunto uma considerável importância.
No mundo em geral, em condições sociais como na experiência privada, eu reconhecera uma grande energia e procurei ter prazer de que eu era demasiado discriminativo e reprovador; acreditando porventura que a inocência de outros se acharia distorcida à luz da minha própria melancolia, e sentindo conforto na ideia de que a excelência da mente e do espírito existiam embora o meu próprio temperamento a ocultasse dos meus olhos.
Assim, pensei perceber, mesmo no mais inferior dos desempenhos aquele vislumbre de espírito elevado e de virtude criativa que deviam achar-se contidas dentro. Contudo, durante o tempo todo sentia-me insatisfeito, sem perceber que somente a mistura adequada de intuições e de intelecto poderiam proporcionar uma verdadeira visão ou compreensão, ou esperança para agir como uma lente por meio da qual o homem pudesse reflectir os fogos interiores que proporcionavam a vida contínua do mundo.
As faculdades criativas, conforme me é dado saber agora, forneciam a evidência mais viável dessas qualidades que absolvem o homem das suas deficiências e que intrinsecamente o elevam acima mesmo da sua própria experiência de si mesmo numa validade espiritual que sobrevive à sua vida e morte do mesmo jeito.
Tais faculdades representam o equivalente mental da inocência primordial do animal, e ao mesmo tempo são projectadas à luz das características de maior conta de Deus – a Sua criatividade – de que todos os undos emergem. O termo “Deus” é o mais simples que se pode aqui usar, embora seja permutável por muitos outros, todos quantos referem um ponto no nosso pensar em que a compreensão de detém: não podemos nem mentalmente verbalizar mais aquilo que sentimos. O termo, pois, sugere aquela fonte de que as intuições e o intelecto brotam; e em que se acham de tal modo invisíveis, segura e intimamente escondidos que eles e a sua fonte se acham separadas e unidas a um só tempo. Tais faculdades criativas, no seu melhor desempenho, erguem o homem do seu contexto limitado de intelecto ou emoção somente, e forjam ambos numa faculdade superior em que a experiência é mais comprovativa do que qualquer facto demonstrável; e em que os próprios factos são encarados como ervas daninhas presas unicamente nas areias em constante movimento das enseadas da eternidade.
Também consideraria certos actos de valentia e de ousadia como criativos no mais elevado dos sentidos, por durante tais momentos o homem transcender – antes de mais imaginativamente – ideias de limitações básicas e ir além da sua habitual experiência de realidade. Ao fazê-lo, na verdade por esse instante ele cria esse mundo superior com as suas condições observáveis. Refiro-me a eventos em que em situações de crise o corpo desempenha por formas que, pelo menos por momentos, contradizem as crenças pessoais ou de massas sobre os seus limites e possíveis realizações; quando ele se supera e consequentemente através do seu desempenho ele bate velhos recordes que tinham anteriormente sido obtidos enquanto representação do máximo possível em termos de realização corporal.
Tais actos têm lugar antes de mais na imaginação, em surtos de percepção corpórea que podem atacar com a mesma força que qualquer revelação; e sob o súbito ímpeto da mente, o corpo reage miraculosamente – e trás à arena física uma nova ideia do que seja prático ou possível. É a tensão provocada entre a busca de realização ou perfeição e o actual desempenho possível no mundo físico que promove actos de cariz criativa conforme são entendidos. Porque a verdadeira criatividade sempre destrói limitações e aumenta áreas da expressão mentais, espirituais, psíquicas ou físicas abertas ao homem.
A expressão Grega da mente sã em corpo são tem importância neste contexto; contudo, o ideal finalmente desintegrado numa fútil busca de uma perfeição sombria, mental e física estereotipada cujas bordas modeladas ofusquem a vitalidade de quaisquer variantes individuais. Contudo, vejo como estes princípios podem de uma forma alterada ser aplicados a uma sociedade democrática moderna, enquanto retêm a sua persistência original numa elevada aspiração e realização individual.
Em certos sonhos, inspirações e revelações, no desempenho das actividades artísticas assim como de certas conquistas atléticas, o homem exibe, pois, capacidades que batem recordes; o que define novos padrões e destrói limitações passadas quer do corpo ou da mente, e consequentemente trazem à atenção consciente novas áreas de acção, contemplação e criatividade. Sonhos ou percepções telepáticas podem igualmente destruir por momentos as barreiras usuais que separam uma mente de outra e zombar dos conceitos da ciência que digam respeito ao espaço, ao tempo, assim como à natureza da espécie.
Tais incidentes sugerem a existência imortal de pelo menos alguma porção da consciência do homem ao exibir tais características e habilidades que revelam que o seu conhecimento não devem ser sujeitas às leis que antes pareceram restringi-lo. Prefiro alistar todas essas actividades, paranormais ou não, sob o cabeçalho de artes altamente criativas; por cada uma ser criativa pelo facto de abrir novas áreas de acção ou de pensamento, e expande a capacidade que o homem tem de pensar ou de se comportar de novas maneiras.
Tendo tido início no meu tempo e prosseguindo no vosso, contudo, certos equívocos da parte da psicologia reduziram grandemente as oportunidades de expressão das pessoas e de criatividade ao passarem padrões médios que supostamente regem o comportamento do indivíduo, além dos quais a pessoa normal não se deve aventurar. Por isso, no meu tempo, o surgimento da psicologia surgiu como uma divisão artificial a fim de incluir actividades que não de natureza normal; um recipiente para todas aquelas experiências que não se tenham enquadrado nos pressupostos estreitos como o montante da realidade psicológica do homem.
O conhecimento Europeu que Freud tinha e o experimento que a Americano fez com a democracia foram cada um parcialmente responsável por tais equívocos e pelos seus infelizes resultados. Numa democracia, sem um governo autoritário rígido; numa estrutura política em que ao indivíduo seja dada uma maior liberdade de actuação, medidas autoritárias internas são definidas a fim de proteger a sociedade contra aquilo que considera os próprios perigos da acção individual que a sua Constituição diz querer promover.
A psicologia foi promovida quando a nova sociedade experimentava as suas asas; e o seu pai, Freud, com a sua herança autoritária, simbolizou para a América a sua própria posição: precisa manter claras linhas de acção conscientes, enquanto tenta dar vazão a todos os impulsos inconscientes “primitivos” de tal modo que sejam libertados – mas não tem permissão para prejudicar a vida normal. Ao indivíduo devia ser ensinado que os seus mais profundos impulsos são suspeitos, de forma que a autodisciplina pudesse substituir o governo autoritário. Certos sentimentos, acções e atitudes eram consideradas normais e outros não. Ao indivíduo era dado um livro de regras a seguir desde o berço até à sepultura, em que o inconsciente substituía tanto o diabo como o governo severo, forçando a obediência por meio do medo do eu natural.
Tal padronização foi depois prontamente aplicada aos cidadãos não homogéneos da democracia ao contrário. Esperava-se que Italianos, Irlandeses, Ingleses Espanhóis, Holandeses – homens e mulheres de todas as heranças raciais – seguissem as normas individuais que facultariam à pessoa uma liberdade política e social que ele seria psicologicamente incapaz de usar indevidamente. Numa mistura dessas, constrangimentos internos serviriam para substituir um governo paternal. O aventureirismo, a criatividade e a energia, seria tudo dirigido para os objectivos colectivos da sociedade – para o triunfo físico sobre a terra, e o empreendimento industrial. Tudo constituía uma tentativa para usar e ainda assim refrear a fantástica energia de uma população que procedia de todo o fundo concebível e herança nacional.
A vida interior do indivíduo Americano tornou-se normalizada, contudo, despojada dos velhos simbolismos ricos da religião, ainda que tenha recebido novos, para o referir em termos construtivos. Freud traduziu os demónios da religião por impulsos instintivos, retendo-os enquanto jogava de lado os maiores símbolos de um Deus heróico (e autoritário). Precisamente por causa da sua própria experiência, Freud por vezes sentiu insuportáveis expansões de intuições e de informação telepática; surtos de criatividade e as mais profundas condições emocionais não disciplinadas, que só lhe intensificaram a incerteza de que a vida interna do homem era fonte de perigo, e que ele estava condenado pela própria herança inicial que recebera.
Freud percebeu e experimentou a força criativa como de natureza principalmente sexual – de uma forma mais ampla do que o geralmente suposto – mas também no sentido Germânico do termo: uma sexualidade que era profunda e obscuramente apaixonada, com implicações de rendição e de triunfo, e com implicações avançadas de conflito e de guerra. A sua psicologia estandardizou e explicou os sentimentos de homens e de mulheres de uma forma tal que não lhes deixou qualquer interpretação pessoal que importasse. A psicanálise podia surgir com episódios individuais de cariz pessoal da mais íntima das naturezas, só que isso surgia em resposta a uma explicação já dada, em que os sentimentos individuais existiam numa base normalizada.
Uma vez mais, as artes criativas não são padronizadas. Elas quebram recordes. Não são previsíveis. A criatividade, pois, tornou-se suspeita. Freud tentou liga-la aos mais temíveis dos temores: acorrentá-la às repressões em vez de a acorrentarem às aspirações ou à realização. Aquelas características que promoviam a criatividade eram suspeitas, fora do padrão, as mesmas que se devia exorcizar. Percepções de cariz intuitivo eram, pois, atribuídas a comportamentos histéricos – mas histeria segundo que critérios? A devoção pela contemplação ou pelo pensamento solitário ou pelas artes, em particular no caso do masculino, tornou-se no maior factor de suspeição de todos; e aqueles que não canalizassem os seus impulsos criativos para os objectivos seguros e materialistas da sociedade democrática sentiram a ira da sociedade.
Contra tal contexto, sessões tipo faça-você-mesmo brotaram por toda a nação, juntamente com sociedades religiosas e diversas pseudo religiões. A Ciência Cristã em particular tentou equilibrar os pratos da balança, ao plicar um pensamento positivo com mão pesada tal como Freud tinha aplicado a repressão. As pessoas sentiram que seria mais seguro não explorar o subconsciente descrito por Freud, e na realidade, o homem comum não se podia dar ao luxo de o fazer. Ele ficou efectivamente com um inferno psicológico em vez de um teológico, menos um compensador céu, e deixado atemorizado das próprias faculdades criativas que teriam sido capazes de o libertar – e à sociedade. Também apareceram algumas contra tendências, como com o transcendentalismo, mas essas não eram parte do homem comum, mas dos intelectuais.
As capacidades criativas são comuns no género humano, mas incomuns na sua expressão individual e trazem distinções e padrões que estendem as capacidades e padrões da acção e da realização individual. Quando um indivíduo age mais como ele próprio, mais individualmente e menos como os outros, ele exibe um comportamento criativo e aponta aos outros possibilidades de conquista anteriormente despercebidas – rejeitando-as como novas aspirações para o indivíduo e a sociedade. Espero mostrar que tais habilidades devem ser encorajadas por qualquer nação democrata que deseje sobreviver como tal.
Primeiro, um exame das faculdades criativas coloca-se na ordem; uma vez mais, refiro-me a um acto criativo que inclua um desempenho telepático e clarividente, que eu encaro como extensão da criatividade normal – considerada paranormal unicamente por causa da padronização aplicada na própria psicologia. Que características ou condições promovem a criatividade? E de que modo a acção criativa contribuirá para a vitalidade da ordem social?
MENTE E MEDICINA
Ninguém poderá duvidar de que os mecanismos corporais são práticos; eles funcionam, contudo, o próprio tratamento do corpo como se fosse uma máquina com efeito separa o indivíduo do seu próprio corpo, o seu bem-estar físico dos seus próprios juízos de valor, e os trabalhos do corpo dos seus próprios desejos e intenções. O homem parece, pois ser vítima de doenças que o arrebatam por nenhuma razão. Mas nenhuma pastilha cura a melancolia da alma e em qualquer medida a profissão médica aparta o homem da identificação com a identificação e responsabilidade que tem para com o seu corpo, mas aprofunda essa melancolia, e o paciente afunda em abismos filosóficos em que toda a esperança parece perdida.
No meu tempo, pelo menos, a medicina tinha uma relação individual com o paciente que vinha, porventura abalado e certamente ansioso ao consultório médico. Esse consultório era muita vez era separado apenas por umas quantas portas fechadas dos aposentos do médico. Fora das janelas de cortinas de renda, a roupa lavada da família brilhava no varal. Os filhos do médico, o mais das vezes podia ser ouvida por entre risos ou a correr pelo salão airoso entre o consultório e os aposentos, para onde tinham sido banidos da cozinha, pela mãe. O paciente podia relacionar-se com o médico como outro membro da família, cuja ceia se encontrava já sobre o fogão, ao lume, os odores misturavam-se com poções medicinais e por vezes substituindo-se a elas com poder. O escritório do médico, com os seus volumes encadernados a couro, sólida escrivaninha, tapeçarias e banquinhos para os pés forrados a veludo afinal não faziam muita diferença do escritório do burguês ou do professor, excepto nas características técnicas.
E no meu tempo tais características eram relativamente escassas; um estetoscópio, um termómetro, um aparelho de medir a pressão arterial, algum feno barbital em líquido ou sob a forma de pastilhas, ataduras, iodo, luvas para problemas dentais, clorofórmio – mas principalmente, um ouvido atento e modos atenciosos, com os instrumentos mais sofisticados a pertencer ao cirurgião, que na realidade era o único especialista. A difteria e a tuberculose eram as maiores queixas, uma causada pela reacção da criança às “indisposições dos pais” e a outra pela melancolia que afectava os próprios mecanismos da respiração. Diagnósticos simplistas porventura, no entanto o médico dava poções calmantes a um, junto com palestras severas aos pais; e prescreviam descanso ou uma visita às montanhas no caso do outro; e esses “remédios” funcionavam bem, se não melhor, do que as técnicas mais sofisticadas que mais tarde foram adaptadas.
Os males mudam com os temperamentos e crenças dos tempos. As teorias darwinianas e Freudianas altearam as filosofias anteriores da medicina e mudaram as crenças dos pacientes com respeito a eles próprios relativamente à doença; e no meu tempo, as contraditórias escolas do optimismo e do pessimismo revelavam-se no comportamento do médico assim como no do paciente. O homem enquanto o animal da sobrevivência tinha que ser tratado de uma forma sensata: era melhor ser corpulento do que magro e esguio, o que significava ser excessivamente sensível ao mundo – tubercular – e possuir características atribuídas às mulheres, aos artistas e a outra “gente temperamental” que não poderia lidar bem no mundo conforme os outros. Em resultado disso, pais recheavam os filhos com comida, aqueles que eram suficientemente afortunados para dispor de meios adequados ou emprego. Crianças gorduchas eram prova da própria sobrevivência económica e os pobres tornavam-se uma reprovação para os processos democráticos, exemplos de quantos caiam pelo caminho na batalha da competição, os membros fracos da espécie que não conseguiam bem manter-se.
Infelizmente, a escola que designei como optimista não teve tempo para amadurecer antes de ser suplantada, contudo haviam sinais de maturidade e de desenvolvimento que não foram seguidos, pelos quais eu próprio tive o maior dos interesses. A pesquisa psíquica era sem dúvida ingénua em muitos aspectos, e talvez demasiado diligente e exultante, no entanto tivessem-na usado num ponto de encontro e a ciência e a psicologia teriam prosperado e impedido a rigidez filosófica que se desenvolveu em ambos os campos subsequentemente.
Porque enquanto a ciência e a psicologia cada uma parecesse estar a mover-se à frente após o meu tempo, e enquanto a ciência em particular produzisse feitos tecnológicos espectaculares, o movimento filosófico era muito limitado. Nem esses campos usaram de qualquer lógica na escolha daquelas crenças que decidiam aceitar ou rejeitar. A ciência, claro está, foi forçada a admitir os princípios de Einstein, mas a psicologia agiu com se os conceitos de Einstein não tivessem qualquer relação com o ambiente maior em que cada pessoa tinha o seu ser.
O “eu subliminal” de Myers, por exemplo, enquadra-se na perfeição na física Newtoniana, enquanto o eu de Freud constitui um fenómeno muito local, mas a existência da precognição podia igualmente dar-se bem com a relatividade do tempo de Einstein. A psicologia, contudo, ignorou essas mesmas teorias científicas que poderiam ter dado uma base teórica à exploração da alma, e ter-se, ao invés, estabelecido no dever bastante prosaico e entorpecente de erguer o ego de Freud com um subconsciente de Darwin numa sociedade industrial. No meu tempo, pelo menos, alguns homens de orientação científica estavam dispostos a investigar a existência da alma, uma tarefa que, mesmo então, exigia considerável atrevimento. Mas depois tais tentativas foram interrompidas, pois quem precisa investigar a realidade de uma ficção?
Excepto no caso das igrejas, pois, a alma não foi oficialmente reconhecida, e as próprias religiões, embora falassem bastante do assunto, firmemente se recusaram investigar a sua realidade e rotularam de heréticos todos quantos se mostrassem determinados a fazê-lo. Pelo menos no meu tempo, o telepata e o clarividente e o sonhador eram encorajados a falar aos cientistas; agora eles encontram-se silenciados, as suas faculdades encaradas como exemplos do pior tipo de indulgência emocional; o resultado da histeria. Os termos “fraude subconsciente” tornaram-se rótulos da mais triste das duplicidades, porque o indivíduo a quem se aplicavam foram estigmatizados como mentirosos por disposição subconsciente, incapazes de ver através das suas fantasias.
Mais pertinente, contudo, a natureza deixou de ser vista como a trabalhar para o homem ou com ele e o seu corpo, mas como activamente trabalhando contra ele. O indivíduo foi contraposto a uma interminável batalha pela sobrevivência no mundo exterior – contra a terra e os seus próprios companheiros – e contraposto numa batalha mais horrenda ainda contra um subconsciente instintivo que aparentemente o condenava a agir por certas formas contrárias, por causa de um condicionamento psicológico instalado na infância.
As doenças, agora rotuladas ainda mais meticulosamente do que alguma vez antes, assumiram o seu próprio aspecto de minúsculo demónio: os vírus e outros elementos que tais presentes na natureza parecem não existir por nenhuma outra razão do que a de atacarem o corpo humano; e as predisposições para a doença elas próprias resultantes de eventos há muito enterrados pela mente, cada um dos quais despoleta uma resposta inconsciente para a qual o indivíduo se achava instantaneamente vulnerável.
Mas os efeitos de um comportamento de previsão pessoal fizeram-se eles próprios conhecidos, por os hábitos das doenças mudaram para se encaixar nas teorias. Com o desenvolvimento da tecnologia médica e com o tratamento do corpo como se se tratasse de uma máquina, o homem perdeu o seu sentido de identificação com a sua natureza e o seu sentido de ter qualquer controlo sobre a sua própria saúde.
As ciências médicas podiam orgulhar-se pelo abandono da superstição, por a doença não mais ser vista como uma punição de um Deus irado para o pecador. Contudo, o pecador pelo menos tinha a opção do arrependimento e da salvação final, ao passo que o cidadão iluminado se via rodeado por um meio natural hostil e um interior estranho, igualmente físico – um corpo que nadava por entre vírus malignos que a qualquer altura podiam, sem razão alguma, erguer-se para atacar todo o seu sistema, e uma consciência que seguia os ditames caprichosos desconhecidos de um subconsciente reprimido enlouquecido.
Em face de tais factos novos da vida, de tais conceitos iluminados e modernos, como parecia ingénua a ideia de um eu subliminar bem-intencionado, ou mesmo a ideia de um corpo naturalmente equipado para promover a saúde e possuir os seus próprios processos de cura. Porquanto embora a crença posterior persistisse filosoficamente, ela foi efectivamente neutralizada, e decerto ninguém iria apoiar-se nela – não o médico, que se relacionava com os seus instrumentos mais do que com os seus pacientes, nem os pacientes, que aprenderam a ficar mais apavorados com os seus próprios corpos do que com os médicos.
A medicina profilática muitas vezes tem as suas raízes na crença pessimista de que o corpo sem dúvida contrairá qualquer doença se não for inoculado contra ela, enganado pela aceitação de um pequeno ataque, em vez de um de dimensões críticas, da doença. A pesquisa medicinal também é feita sobre a doença. Ninguém questiona aqueles que permanecem saudáveis, que não visitam os hospitais. Ninguém busca os segredos dos saudáveis ou procura promover formas de os tornar globalmente conhecidos.
Ninguém mais do que o médico é directamente confrontado com as incongruências da vida. O seu treino envolve-o em estudos da anatomia, em que cadáveres precisam necessariamente ser usados. A sua experiência torna-o íntimo tanto da vida como da morte. Quem mais verá de perto os contrastes da vida: os processos de trazer à vida do nascimento por entre as dores e a agonia; o corpo em todos os seus aspectos, com as suas requintadas capacidades tanto de dor como de prazer; o arquejo final do último suspiro à medida que o paciente escapa a todos os auxílios terrenos.
Quem se encontrará mais familiarizado com o estado, poderes e vulnerabilidades do homem? Ou com a falta de conhecimento do homem? Por ser cliché falar daqueles pacientes que morrem a despeito de um tratamento excelente e de um prognóstico favorável, enquanto outros muito mais desesperados vivem contra todas as regras do conhecimento médico. No entanto o médico é um homem de aspecto prático acima de tudo, um que se vê confrontado com os exemplos alarmantes do fracasso do homem em compreender-se e ao seu corpo. O homem saudável não tem qualquer necessidade dos serviços do médico, pelo que será bastante natural que o médico seja muita vez dotado de temperamento pessimista. Ele vê o homem no seu pior, e assim parecer-lhe-á que a doença seja e deva ser uma constante na vida do homem.
De facto, parecerá temerário e perigoso sugerir o contrário, porquanto quem saberá que doença poderá estar a incubar-se agora na mais salutar das pessoas? A ideia da saúde torna-se uma qualidade quase tão ficcional quanto a existência da alma; dificilmente existirá alguma coincidência, por eu acreditar que as mesmas habilidades criativas que comprovariam a alma fossem aquelas que promoveriam pelo menos uma saúde razoável ao longo da vida do homem.
Para que isto não seja encarado como a mais positivista das afirmações, permitam-me que acrescente alguns enfeites. Primeiro, nenhuma estatística foi conseguida no vosso tempo ou no meu quanto aos números das pessoas saudáveis, nem qualquer estudo foi conduzido que correlacionasse os hábitos e crenças dos saudáveis. Registos médicos e hospitalares, conforme mencionado anteriormente, tratam necessariamente de pessoas enfermas. Estudos psiquiátricos são do mesmo modo formulados e realizados da mesma forma preconceituosa. As próprias sugestões referidas pela medicina profilática para incentivar a saúde promovem temores, nervosismo e angústia – condições que em si mesmas conduzem à doença. Ensinando-se o indivíduo a procurar sintomas utiliza-se a sugestão de uma forma que conduz á antecipação da doença. Contudo, a antecipação da doença parece irrealista, perigosamente optimista e enganosa.
Contudo, mesmo no meu tempo, o estudo da hipnose mostrou claramente a importância da sugestão, e realçou as ligações íntimas que existem entre a sugestão, o comportamento e a saúde. A medicina, que nunca utilizou oficialmente a hipnose, usa-a bem – e frequentemente da forma mais negativa. Frases tais como “a importância e mistério do magnetismo” eram pronunciadas com frequência na minha geração, afastando muitos homens que se não fosse isso seriam dotados de uma mente aberta da sólida pesquisa nesse campo. É certo que os proponentes e anteriores praticantes da hipnose muitas vezes dramatizavam em excesso os seus casos, alegando não só curas com milagres, contudo o trabalho substancial feito por respeitáveis homens provou sem sombra de dúvida dois aspectos principais: Primeiro, a existência de um poder no homem, latente mas apreciável, para melhorar a sua própria condição, corrigir o seu rumo, curar o seu corpo, acelerar a aprendizagem e o insight, e segundo, a susceptibilidade do seu poder de sugestão.
Este poder ou energia, pois, pode ser despertado e aproveitado por intermédio da sugestão, quer por intermédio da hipnose estruturada ou por vezes pela própria pessoa, por meio de uma autossugestão espontânea. A hipnose pode ser induzida por meio de técnicas de relaxamento ou pelo uso de um estímulo súbito surpreendente. Daí, sem dúvida, a confusão dos primeiros praticantes, a dependência dos gestos teatrais, das técnicas bizarras, e a comédia resultante dos erros por que se supunha que este poder natural residisse apenas no hipnotista, em vez de igualmente no seu sujeito.
É tão dificilmente surpreendente que tais precursores no campo fossem eles próprios dramaticamente propensos, cheios de energia e de vitalidade e dados a excentricidades de conduta. Contudo, talvez acima de tudo numa democracia sejam as excentricidades que muitas vezes apontam de forma teatral o caminho para as invenções criativas e as molduras de pensamento que outros, menos ousados usarão cuidadosamente pelos anos mais próximos. Os maiores homens e mulheres não são necessariamente os mais equilibrados. Eles não se enquadram nas normas psicológicas, e em vida seriamente questionei as vantagens das escolas de pensamento equilibradas. Por nenhuma pessoa se assemelhar a nenhuma outra, e ser precisamente nessas peculiaridades da expressão ou tendências mentais originais que a nossa individualidade se evidencia mais. A democracia deveria ser suficientemente ampla para conter e promover tais diferenças, em que a nação pode beneficiar de um reservatório de diferentes talentos e capacidades individuais de cunho excêntrico que no seu conjunto acrescentam variedade e vigor a todos os campos da vida nacional.
a psicologia de Freud lançou tais diferenças à mais desfavorável das luzes, ensinou o indivíduo a desconfiar dos seus próprios impulsos e a afastar-se da voz interior da intuição Os conceitos de Freud situaram-se basicamente em oposição directa ao eu subliminal de Myers. Myers não negou as confusões, distorções, temores e culpas que podiam surgir na experiência humana - os terrores subjectivos - mas não os considerou como a mais básica divisa da humanidade. Encarou-as, ao invés, como lamentáveis exemplos da ignorância humana que serviam para ocultar do homem a existência do seu poder subliminal, a fonte do ser de que toda vida individual brota.
À medida que a profissão médica se orientou mais no sentido da técnica e passou a tratar os pacientes de forma cada vez mais impessoal, os pacientes começaram a desertar. Os chamados charlatães* surgiram aos milhares no meu tempo e continuam a prosperar no vosso. Quão fácil não será repudiá-los, por muita vez serem meio-letrados e não terem credenciais académicas; impostores repletos de dramático improviso e de balbuciações místicas. Contudo, frequentemente cobram muito menos do que os médicos, enquanto proporcionam ao paciente atenção pessoal, esperança, e muitas vezes um tratamento que funciona pela utilização da sugestão no afastamento dos sintomas para dar ao paciente algum tempo para respirar. Em muitos casos, os próprios médicos não podem fazer mais. Não estou a desculpar os mais perniciosos desses profissionais, mas decerto que alguns concorrerão num tratamento com os registos de um tratamento bem-sucedido dos médicos mais convencionais.
Tão pouco está um bom número desses médicos isentos de fundarem a sua própria autoridade às custas do paciente, ao aumentarem a sugestionabilidade do paciente para com a mais inócua das afirmações do médico. A profissão médica revela uma notável falta de percepção acerca da natureza da sua própria combinação de "misticismo" e de drama, por os seus ambientes confundirem o paciente com instrumentos estranhos ao seu conhecimento, com o vasto misticismo da ciência, e evocar a autoridade do médico e enfatizar o desespero do paciente.
Curiosamente, a descoberto do equipamento de raios X muito contribuiu para estabelecer tal aura. Anteriormente, os médicos tinham que se fiar nos sentimentos do paciente sobre o interior do seu corpo. Aí, pelo menos, médico e paciente encontravam-se unidos na sua ignorância, por nenhum deles conseguir ver através da pele do paciente. Com os raios X, contudo, o médico pode perscrutar as partes mais íntimas das entranhas, e permitir-lhe um conhecimento de um tipo que o paciente não possuía. O paciente dependia do médico para interpretar tais imagens e traduzi-las em termos compreensíveis. As sensações tornaram-se menos importantes. Alguns médicos chegaram a mesmo a repeli-las como irrelevantes, mas os médicos esquecem que os seus próprios instrumentos são igualmente importantes enquanto ferramentas de sugestão e de confirmação simbólica. Decerto que em muitas ocasiões o emprego físico de tais instrumentos pode ser minado pela sugestão negativa que seja feita.
Mais para a frente, neste livro, explicarei de forma considerável acerca da relação que a mente tem com o corpo e a sua saúde a partir do âmbito alargado do conhecimento que tenho agora ao meu dispor. Até agora, eu contive-me propositadamente de fazer certas declarações acerca da minha própria situação e condições da minha própria existência para não suscitar ideias de primazia. De facto estou deliberadamente a falar em tempos contemporâneos a fim de estreitecer o fosso existente entre nós e, vez de o ampliar, nesta altura em qualquer caso, ao realçar elementos da minha própria experiência com que não deverão estar familiarizados.
No entanto, essas peculiaridades da minha existência trazem-me vantagens definitivas assim como uma afirmação adicional, que me sentiria negligente se não revelasse. Isso inclui "factos," certos para mim, que permanecerão no domínio do hipotético para os vivos. Esses serão claramente indicados mais à frente. Contudo, não tirarei partido deles, para engordar os meus próprios argumentos às vossas custas. Caso contrário estarei a confinar as minhas observações a áreas que se denotam bastante na vida quando são apontadas, e comentários respeitantes a capacidades e tendências da alma que se evidenciam por meio do agente da personalidade viva.
A NATUREZA DA PERCEPÇÃO, A CONSCIÊNCIA E O AMADOR DOTADO
O homem pode conjuntar a sua consciência por incontáveis métodos e consequentemente perceber-se e ao seu mundo por diferentes formas. O mais provável é que a natureza subjectiva da realidade tenha sido percebida muito diferentemente em civilizações anteriores. Mas não há necessidade de designar uma como superior à outra, porque cada uma representa um enfoque particular e mistura psicológica, e expressa um relacionamento único entre o homem e a natureza, mente e matéria. A consciência pode assumir incontáveis matrizes. cada civilização, na verdade cada geração, agarra-se a uma e mantém-na enquanto postura psicológica oficial.
Não é apenas que o homem percebe uma realidade objectiva por intermédio dos matizes de tais moldes de consciência, tanto quanto esses matizes mancham a realidade de determinado modo; de tal forma que certos efeitos espirram da mente e caem sobre a paisagem objectiva, como se imagens sombra da mente mal formadas atingissem uma certa "janela" que exista invisível entre a mente e a matéria. E à medida que o sol é reflectido a partir do exterior sobre uma sala de inverno, também na direcção oposta as imagens da mente, ao esbarrarem com essa janela invisível, subitamente ganham vida e brilho, e lançam os seus reflexos de modo vivo sobre o mundo objectivo.
Ou seja, esses "moldes" de consciência operam sobre o mundo no seu próprio jeito peculiar, de modo que a experiência objectiva constitui uma mistura de imagens na mente e de material objectivo no exterior. Grande parte da nossa perspectiva perceptiva do mundo é cultivada, mas num instante podemos mudar as alianças, e ver folhas de relva num caso - os olhos divertem-se com as encantadoras pontas soltas - ou ver, em vez disso, um relvado regular lustroso que apenas incidentalmente é composto por relva. As lâminas individuais da relva tornam-se quase invisíveis no amplo quadro da percepção. O leitor poderá pensar em diversos exemplos desses.
Os mundos do músico e do artista são sem sombra de dúvida amplamente diferentes, por cada um projectar no exterior essas nuanças particulares do desejo e do interesse que programam a percepção; e embora ambas partilhem do mesmo universo físico, as diferenças representam aquelas características únicas que tornam a consciência particular, específica, e pessoalmente significativa. Cada pessoa possui, pois, a sua própria consciência, que serve de plano interior que existe na mente, que depois, a determinada altura, se reveste por intermédio da experiência objectiva.
Decerto que deve existir "alguma coisa por aí" a ser tratada, moldada e experimentada, mas esse "algo" é muito mais plástico e passível de ser manipulado e cedido, do que a psicologia prática os levará a crer. É como se a consciência privada operasse sobre a paisagem do mundo objectivo dando-lhe a sua forma final, privada, e definida; como se antes que o indivíduo perceba os objectos, exista ao invés um campo de pseudo formas flexíveis e maleáveis. As próprias percepções põem isso em foco e forma, acrescentando-lhe todas as dimensões da actualidade, profundidade, cor, etc. - que são projectadas externamente na paisagem de acordo com a consciência particular de cada indivíduo.
As plantas (modelos) interiores estão elas próprias em sintonia com essa “substância” maleável, ligadas a ela pelo cérebro de modo que todas as mudanças na planta parecem “exteriores” e vice-versa. Assim operam a imaginação e o pensamento no mundo. O processo é de tal modo regular e automático, tão lindamente executado que raramente o homem dá por si no acto desta múltipla criatividade, à medida que a mente molda o padrão do mundo dos objectos e dos eventos. Contudo, o acto criativo pode dar pistas do processo envolvido, por aqui o homem propositadamente formar um objectivo – um acto na imaginação – o focar por meio da vontade, e aguarda na fé de que resulte numa obra de arte. Ele encontra-se equipado com os métodos da produção, objectivamente falando, por ele ter aprendido o seu ofício, quer se trate da escrita, da pintura, da escultura ou seja o que for. Mas frequentemente ele não sabe de onde veem as ideias, nem compreende como uma inspiração inicial que dure porventura apensa uns instantes venha a explodir numa obra de arte sustentável. Mais do que outros homens, o artista vive e trabalha com base na fé. A contínua percepção que o homem tem do mundo também representa faculdades criativas que ele usa, neste caso sem o saber.
Eu aludi aos moldes da consciência porque, enquanto cada um é como uma tela, é uma tela dotada de dupla função. No lado mental ou psicológico ela projecta ideias e crenças no exterior onde, no ponto de contacto, estas operam ou deslizam sobre o flexível mas incompleto campo da objectividade, dando-lhes a sua forma final. O exterior da tela, o cérebro, percebe o produto acabado. Aqui temos imagens interiores e exteriores transpostas uma sobre a outra de tal modo inteligente que se torna impossível distinguir entre as duas. Muitos são os ajustamentos automáticos que têm lugar antes da fusão final ou consolidação dos acontecimentos, por os requisitos necessitarem de uma certas correlações; e assim enquanto cada consciência forma o seu próprio quadro, esse quadro é composto pelas mesmas propensões físicas ou campo físico de que as outras formam igualmente as suas realidades.
Deste ponto de vista, o universo objectivo seria um banco de potenciais físicos; não um campo objectivo já rígido mas mais uma propensão gelatinosa com tendências para uma série de prováveis formas – que são formadas à sua precisão, através dos seus moldes, à medida que a consciência opera nele. O cérebro, ao constituir o “exterior” dessa tela, é física, uma parte desse campo objectivo, e precisa conformar-se às suas características enquanto a mente ou a alma seria o lado mental interior. Esse lado projecta as suas imagens no exterior – incluindo o cérebro, que talvez seja a primeira projecção – mas não é dependente das características do campo objectivo basicamente. Contudo, precisa usar tal campo para experimentar a existência física. A consciência jamais está estacionária. A natureza mercurial dos vossos próprios pensamentos deviam tornar isso imediatamente evidente. A própria mente é inquieta e curiosa. Concentrar-se num assunto só por apenas alguns instantes mostra a tensão que resulta ao tentarem atar ou confinar os vossos pensamentos. Considerando esta propensão para o movimento, pode parecer bastante surpreendente que a consciência se foque por tanto tempo quanto o faz no campo físico, por meio do corpo.
Na vida certamente que a intensidade dessa atenção flutua. Nos sonhos, por exemplo, a consciência concede a si própria uma enorme liberdade, não tendo que confinar a sua experiência às regras estritas da percepção desperta. Aqui, a mente ou alma é vista como existindo basicamente aparte do campo objectivo da realidade. Contudo, dado que o campo físico é pelo menos localmente contínuo, parece lógico que o campo da mente o seja igualmente, mesmo enquanto se acha focado ou é experimentado pelas mentes individuais.
Para mim, pelo menos, é evidente que todos os pontos hipotéticos do universo são conscientes ao nível da mente. Contudo, não creio que a alma seja um simples ponto de consciência individual no vasto campo da mente, mas um potente activador com a sua inviolada casta de peculiaridades por meio da qual eu experimentarei qualquer realidade. Sei por experiência própria que nos movemos pelo campo da mente como nos movemos pelo físico e que, num dado momento saímos da realidade normalmente aceite.
A minha presença no vosso mundo deveria ser uma condição alucinatória, nos vossos termos, por os mortos não se acharem em “sintonia” com a “paragem” mostrada na vossa tela de realidade. Ainda temos imagens mentais, embora estas não mais coincidam com as vossas coordenadas de tempo e espaço, e formem ângulos de experiência em certos aspectos adjacentes às vossas mas não mais se encontrem. Podemos experimentar eventos que são bastante físicos para nós, mas eles não aparecem no vosso contínuo nem são impressas aqui. Por outro lado, torna-se-me impossível dizer onde o mau “aqui” se situa, recorrendo à utilização das referências do mundo. Antes de mais, a orientação estrita da consciência física, uma vez mais, é em larga medida obtida – a consciência é infinitamente adaptável – de modo que o bebé aprende a focar a consciência por meio do sistema nervoso, e é capaz de localizar eventos no tempo e no espaço. Porém, esses são inicialmente eventos interiores, que de certo modo afectam o campo objectivo, e formam referências espácio-temporais. Tais locais e tempos requerem o sistema nervoso para a fixação objectiva através da projecção no exterior nesse meio externo. Os mortos não podem voltar a intrometer-se de novo sem um outro nascimento nesse sistema.
Os sonhos dos vivos estabelecem uma igualmente conexão imperfeita com o espaço-tempo, por exemplo, disparando igualmente num ângulo vertical, só que numa inclinação mais suave, de modo que os eventos mentais apenas causam ondulações no espaço-tempo que indicam ou sugerem formas nesse meio enquanto os impressionam de forma demasiado leve para chegarem a afectar a realidade prática do dia. O “ângulo” das ocorrências oníricas acha-se “deslocado,” não é tão preciso, de modo que as ocorrências oníricas atingem o contínuo espaço-tempo de uma forma inclinada.
Contudo este meio – o campo objectivo - pode ser considerado passivo, por estar disposto a deixar-se impressionar pelo estímulo mental, susceptível a elas, enquanto em si mesmo careça do estímulo da acção. Estou a estabelecer esta distinção por conveniência vossa, já que pensam que o campo objectivo exista em separado, e como matéria independente da mente, quando a matéria na verdade constitui uma manifestação da mente. Nesses termos, porém, cada estímulo forma um hábito separado, ou induz o facto de o espaço-tempo ser mais susceptível a outros estímulos similares.
Portanto, as imagens oníricas impressionam o espaço-tempo de forma demasiado, leve para a vossa percepção neurológica do estado de vigília, e o campo objectivo é preenchido de formas impressas nele pelo pensamento; porém, não forte o suficiente para serem actualizadas. No entanto, tais impressões oníricas servem de cunhos iniciais, que predispõem o meio objectivo a tomar determinados padrões e não outros, e servem para “preparar o terreno” para uma manifestação física posterior. Imagens oníricas e actos da imaginação, pois, preparam o caminho para os físicos, ao impressionarem vastas áreas em formas pré-moldadas que são mais tarde “preenchidas.”
É como se a mente procedesse a testes padrão preliminares que são projecções no espaço-tempo, só que de uma forma fantasmagórica. Contudo, essas imagens oníricas, são sulcadas em campos iniciais de probabilidades que são características do próprio meio físico. Dessa forma, certas imagens “pegarão” melhor que outras ao se enquadrarem mais facilmente nos limites da probabilidade, e ao possuírem mais das muitas condições de pré-requisito necessárias para uma plena materialização de um objecto ou experiência de um acontecimento. Outras imagens que tais escassamente farão qualquer impressão.
Uma ocorrência enquadra-se mais precisamente no tempo e um objecto no espaço; ou seja, uma ocorrência clica primeiro na sua ranhura de tempo, e um objecto primeiro na sua ranhura de espaço. Contudo, dá-se um considerável dar e receber, e os blocos de construção da matéria são todos “intensidades mentais” – intensidades não físicas - cuja impressão finalmente se tornam agudas e poderosas o bastante para formar “nós de energia” que são interpretados como objectos e eventos. Os mosaicos dos eventos necessita da mais requintada sintonia e da tecelagem interior de intensidades, uma com a outra, de modo que elas até certa medida correlações interiores da estrutura de células e da matéria animada.
O campo objectivo é, pois, um meio propenso a tender para a objectividade; ele aceita o estímulo mental que o impressiona – o cunha – e que o molda nos habituais sulcos das formas da natureza. É manobrável, como gelatina, e composto de inclinações para os padrões prováveis em que as especificidades dominam. Tudo isto soa bastante árido, contudo a intensidade das emoções, dos desejos e das intenções governem em tudo, e constitui a consideração primária na consolidação das probabilidades em ocorrências perceptíveis. Estados emocionais são característica de toda a consciência. “Estados de sensação,” porventura, explicarão melhor o que quero dizer, por não presumir que uma rocha ame ou odeie, mas que todo objecto físico se encontra “vivo,” cheio de consciência, e tenha estados de sensação. Tais estados atraem certas impressões ou cunhos e repelem outros.
Eu posso, por exemplo, projectar as minhas próprias imagens mentais no vosso campo objectivo, só que elas não “pegam.” Em vez disso farão o mesmo tipo de impressão que as imagens dos vossos sonhos fazem; ficam registadas mas não impressionam o meio o suficiente para chegar a formar uma actualidade física de plena expressão. Por um lado, na minha morte o meu “cunho” ou marca (deixada pelo meu sistema nervoso) tornou-se inoperante, e eu deixei de poder imprimir a realidade física da mesma forma. Por outro lado, a minha própria experiência disparou pela tangente, por assim dizer, de forma que em relação ao vosso mundo o meu enfoque se encontra num ângulo diferente que não permite uma intersecção directa com o vosso campo de objectividade. Esse campo situa-se na periferia do meu enfoque. A minha experiência permanece aí como, digamos, memória de fundo, importante para mim como a vossa infância é para vós, mas não minha preocupação actual.
Eu sou o William James que fui, mas não mais sou o William James do mesmo modo que o adulto não mais é a criança. Além disso, aprendi muito mais sobre a consciência no geral, e sobre a minha em particular. Talvez mais importante, reconheço os limites das definições com respeito à identidade e à natureza da pessoa, por estarem destinadas a basear-se em equívocos confusos impossíveis e interpretações erróneas que surgem em resultado da própria experiência terrena. A existência no contínuo espaço-tempo programa a memória e, claro está, a própria experiência. Quando vivos só temos consciência dos seres que somos no tempo. Vemo-nos com vida e envelhecemos com o tempo. Experimentamos os momentos e identificamos a nossa realidade objectiva com a continuidade no tempo. Mas mesmo em vida, por vezes quase temos consciência de pensamentos e de imagens que passam por nós a uma velocidade demasiado rápida para as seguirmos, e noutras ocasiões, temos consciência de eventos tão poderosos e lentos que parecemos unicamente despertar para elas uma ou duas vezes na vida.
Tais experiências sugerem a verdadeira natureza da identidade, ao indicar aquela parte de nós próprios que não pode ser comprimida nas coordenadas reconhecidas do espaço-tempo. Na vida temos consciência apenas de determinados pulsões da nossa própria consciência, e formamos a nossa identidade pela organização da memória e da experiência de acordo com tais pulsões. Somos bastante inconscientes de tudo quanto ocorra entre eles, ou de tudo quanto ocorra na “outra” extremidade do “polo” da nossa identidade maior. Existem experiências de tal modo distanciadas no tempo que não as conseguimos acompanhar. Assim, na vida, o sentido que temos de nós próprios deve ser bastante limitado.
“Intimações de imortalidade” veem chegam até nós, mas através de sonhos, da inspiração e da criatividade – por meio do campo da mente anteriormente mencionado e através de imagens que nos impressionam mas que não intersectam directamente a experiência física prática. Dessa forma, de novo o meu aparecimento no vosso mundo (certa vez meu!) não passaria de um estado alucinatório; mas deixem que explique o que quero qui dizer com clareza. Teria que impressionar uma mente e um sistema nervoso com o retracto da minha imagem, e confiar na intenção e desejo da pessoa viva para projectar com suficiente clareza a imagem no exterior sobre a qual a pessoa a perceberia como uma aparição.
Tivesse eu conhecido em vida aquilo que conheço actualmente e teria buscado outros elementos nas minhas investigações, e comprovação da sobrevivência da alma seguindo outras direcções mais promissoras. Teria pesquisado de forma mais ambiciosa a prova da existência da alma em vida em vez de procurar evidência da sua existência depois na morte por meio de comunicações com os mortos.
As faculdades que a alma tem em vida, claramente definidas, deveriam em vida revelar-se independentes das limitações físicas do corpo. Consequentemente, eu teria pesquisado com um vigor ainda maior acelerações e extensões das faculdades criativas tal como se evidenciam na telepatia, na clarividência, nas curas e na viagem fora do corpo, e teria examinado aquelas características da mente (ou alma) que expõem o controlo da mente sobre a matéria, mas tal controlo assemelha-se ao controlo inconsciente que o artista tem da sua técnica. No entanto, embora o artista deva aprender o seu ofício, nós nascemos com o conhecimento instintivo de como criar a matéria, como instintivamente sabemos como respirar.
Agora, admitindo a confusão decorrente das definições, eu usaria o "aspecto subliminal" de Myers como análogo à alma, na representação daquela parte do homem que forma e amortece o seu viver, simultaneamente regula a complexidade dos sistemas involuntários  do organismo e lhe trás informação de origem extraordinária. terei mais a dizer acerca dessa informação mais tarde, mas ela inclui, creio bem,  o conhecimento inconsciente da formação de ocorrências no ambiente de probabilidades assim como informação respeitante a acontecimentos que se dão à distância do local em que o corpo se encontra. Esse aspecto subliminal é o aspecto do ser que forma a dupla tela da mente e do cérebro e, personificada, provavelmente constitui a origem dos anjos da guarda das religiões. As suas faculdades, assim que as buscarem, tornam-se perceptíveis em toda a vida, juntamente com as características extra naturais.
Tal aspecto subliminal do ser constitui o eu interno benigno, bem-intencionado e criativo que busca as melhores realizações da espécie, não por intermédio da sobrevivência dos mais aptos mas pelo desenvolvimento cooperativo das faculdades individuais que sempre contribuem para a versatilidade do homem. Não reage aos eventos cegos do acaso e do ambiente mas em resposta aos padrões internos do desenvolvimento projectado para o campo provável da objectividade - padrões que actuam como simuladores da natureza mais ideal.
A espécie humana e todas as espécies reagem "no tempo" aos padrões das probabilidades difundidos em tudo que as aliciam rumo ao seu melhor e mais vantajoso desenvolvimento - contudo, desenvolvimento esse que não é definido, rico em alternativas. Isso apresenta um mundo em que todas as espécies se acham relacionadas entre si, em que nenhuma prospera às custas da outra mas em que cada uma contribui para a representação do mundo em qualquer altura num empreendimento cooperativo em relação ao qual o homem se tornou relativamente cego.
Por um lado, a ciência objetivou de tal modo os animais que chegou a fechar os olhos para a realidade que eles têm do sentir, assim como a do sentimento. Enfatizando as teorias da evolução convencional e as suas considerações objectivas, a ciência negligenciou por completo o maior factor da vida da criatura: as próprias sensações da condição de criatura e as vastas comunicações que existem por entre todas as espécies. Não é minha intenção romancear em excesso, contudo isso constituiria um erro bem menor do que a objectivação excessiva que repudia a qualidade do sentimento da vida como despropositado e justifica a crueldade para com os animais ao citar conceitos evolutivos distorcidos. Enquanto por um lado nega a realidade emocional aos animais a ciência despreocupadamente atribui as piores tendências ao mundo animal quando isso se enquadra na preferência da ciência e sem pestanejar. Ela zomba da "humanização" dos animais ou da atribuição de qualidades de afecto ou de compaixão que lhes é feita, enquanto projecta neles e no seu mundo adjectivos como egoísta, agressivo, competitivo, etc.
Por a ciência se ter comprometido desde o meu tempo, e enquanto outrora fora o ancoradouro do verdadeiro buscador que escapava aos ditames e aos dogmas da religião, agora o verdadeiro buscador necessita manter-se firmemente aparte da ciência e da religião ao mesmo tempo. Será, pois, mais provável que ele seja um proscrito no vosso tempo do que no meu, e ele encontra-se igualmente em resultado dessa razão menos informado, para falar em termos gerais, dado que dispõe de menor acesso às revistas científicas e menos voto nos princípios reconhecidos.
Contudo, o amador dotado muitas vezes inicia desenvolvimentos em muitos campos, uma vez que não tem um conhecimento demasiado estruturado. Não se acha sufocado por uma profusão excessiva de factos que agora brotam nas ciências como ervas daninhas, para amanhã serem espezinhadas aos pés, e poucas sobreviverão até à maturidade - muitas vezes culturas espinhosas que mal se aguentam numa estação antes de caírem sob um novo grupo de factos igualmente válidos, que por sua vez ficam pela berma antes da última safra. Desconhecendo tal rica colheita de factos, meios factos e verdades temporárias, o nosso amador dotado não necessita de tratar de um caminho tão cauteloso quanto o especialista académico, que precisa respeitosamente tratar cada colheita seguinte de factos como os únicos aceitáveis, de forma que até a mais imaginativa das suas teorias deve servir como uma cesta mental que também encerra um leito respeitável de velhos factos.
O amador dotado aparentemente guia-se pela ignorância de tais considerações, determinado que está em pesquisar algo que não pode definir ou categorizar, mas algo que ele intuitivamente reconhecerá assim que o encontrar. Um indivíduo ímpar, decerto, muitas vezes desprovido de quaisquer credenciais científicas, instável e excêntrico. No entanto possui determinados ativos que passam despercebidos: não necessita fingir preservar um conjunto de velhos factos que já se encontram parcialmente suplantados por outro; Não precisa preocupar-se com a humilhação por parte dos colegas, por o mais das vezes o pobre diabo não tem nenhuns; e por ele precisar apoiar-se nas intuições que lhe chegam e objectivos que tem, mais do que a maioria das pessoas, ele refina-os e desenvolve-os de modo a compensar em parte o conhecimento oficial que ele não possui.
O faro que possui para a verdade, permite-lhe muita vez seguir fragrâncias teóricas não percebidas por outros, e ele é muitas vezes capaz de descobrir uma nova espécie de verdade dado que se encontra em sintonia com o incomum. O bom académico, contudo, ainda busca por intermédio das categorias conhecidas e não é tão apto a extraviar-se além desses marcos. Não tenho a intenção de ridicularizar o profissional em qualquer campo mas assinalar em vez disso as muitas dificuldades que se apresentam no seu campo; psicológicas, sociológicas e económicas. Muitos desses impedimentos são causados pelas características de toda organização devotada a um campo específico da investigação. Mais cedo ou mais tarde tal campo acumula o seu próprio corpo de factos ao qual se pode tornar servilmente devotado. Tais factos são normalmente isolados; quer dizer, retirado em certa medida do contexto, considerado unicamente na medida em que se relaciona com uma dada disciplina e não por se achar ligado com outros campos. Tais organizações mantêm desse modo a sua identidade, de modo que a biologia, a psicologia, a física e outras disciplinas, cada uma possuem os seus próprios factos, muito embora os factos de um dado campo possam contradizer os factos de outro em exemplos importantes.
Quando o nosso jovem buscador da verdade terminar a sua escola na área da sua especialidade, ele já se encontrará um tanto comprometido e preconceituoso a favor do corpo de factos acumulados de uma disciplina. A sua educação ter-lhe-á custado bastante tempo e dinheiro. A própria autoridade do seu grau académico e as implicações económicas e sociais dependem das verdades daqueles factos que ele tenha dominado. Qualquer evidência do contrário, qualquer suspeita da integridade vacilante dos factos evoca sentimentos profissionais da mais profunda consternação – e naturalmente, já que por esta altura o seu estado financeiro e porventura o bem-estar de uma família crescente sejam postos em causa, para não dizer nada do seu respeito próprio e da posição que assume na comunidade.
Se o nosso buscador da verdade for verdadeiro para com ele próprio, ele prosseguirá com a sua busca sob a mais difícil das circunstâncias; ele esperará descobrir uma nova invenção qualquer, ou teoria, ou quadro unificador enquanto espera contra toda a esperança que tal descoberta não venha a contradizer os seus pares ou o respeitável corpo de factos que forma a base da sua disciplina. Ele precisa olhar em frente e para trás ao mesmo tempo, verificar os seus resultados, e acima de tudo, treinar as suas intuições para seguir factos conhecidos de modo que eles não o desviem e rompam a bolha rosada.
O amador não possui bolha rosada que possa ser rompida e é muita vez encarado como um tolo desde logo: não se pode permitir a tais galanteios. O seu sustento não depende do seu sucesso ou fracasso e, como carece de credenciais, ele não receia perder aquilo que não possui. Ele pode lançar um olhar curioso sobre os diversos campos o conhecimento, mordiscar aquilo que lhe agradar, e seguir até onde as suas intuições o conduzirem, e desfazer-se do que ofenda a sua natureza. Essa natureza, com as suas idiossincrasias e objectivos individuais, possuem a sua própria orientação e objectivo inatos – a sua própria casta original que têm os seus próprios métodos de organização. Assim, involuntariamente, o amador dotado é muitas vezes levado a seguir uma direcção precisa. Como um animal ferido busca a sua própria erva para a sua própria cura, de modo que o amador dotado pode ser levado a curar a própria insatisfação que sente com um conhecimento conhecido. A sua própria natureza persuade-o a viajar através de novos territórios do pensamento a fim de descobrir a exacta teoria ou ideia que lhe traga desprendimento, e poderá resolver um problema cultural ou filosófico ao mesmo tempo.
Frequentemente o profissional num campo também constitui o amador dotado noutro, contribuindo precisamente para o que o mundo menos espera, e surpreendendo-se ao fazer descobertas num campo que brinca por prazer. Em tais casos, as capacidades criativas recebem permissão de liberdade e não são abafadas. Nos seus estágios de infância, a moderna ciência, claro está, teve razão em voltar-se directamente para a natureza e em desviar-se dos dogmas da igreja respeitantes ao mundo natural. Porém, a ciência começou com o seu calcanhar de Aquiles, o que determinou a limitação da investigação da natureza a questão de carácter objectivo e a hipóteses prováveis, apoiando-se nos sentidos físicos e, mais tarde, nas suas extensões por intermédios dos seus instrumentos.
Que coisa será uma flor? Não mais a ciência depende de velhos catálogos e classificações, mas activamente conta os géneros, examinará as próprias flores, desmembrá-las-á, rasgará pétala a pétala de modo que nada escape ao exame e ao escrutínio. Mas como o verdadeiro significado da natureza não pode ser provado, dado que a estética não pode ser esquematizada, dado que a identificação sentimental que o poeta tem para com a natureza não pode produzir factos prováveis, a ciência decidiu-se pelo estudo dos detalhes, das características, e acabou com uma investigação muito limitada da natureza.
A ciência perdeu de vista o “facto” de que um ceto conhecimento sempre escapam as categorias dos factos, existindo por completo numa ordem diferente, uma tão válida quanto demonstrável, mas num tipo de equação emocional ou psicológica que a própria validade dos factos deve em última análise percorrer. Os factos são necessários e úteis, pertinentes, mas existem formas de se organizar a realidade que não passa exclusivamente pela dependência nos factos; que unem em vez de especificarem, e que respeitam variantes enquanto também os percebem enquanto parte de um campo mais amplo de que tais variantes emergem.
Na medida em que a organização psíquica está em causa, os factos são “fabricados.” São classificações da informação com respeito ao conhecimento directo, muito úteis mas de segunda mão. É óbvio, claro está, que todos os factos acumulados com relação às rosas não podem contribuir para o sentido do encontro directo de uma pessoa com uma rosa, ou abordar a intersecção da pessoa com a rosa que ocorre quando vemos, cheiramos, tocamos e sentimos a rosa. Essa experiência em si não pode ser traduzida directamente na informação que “conhecemos” com relação à rosa factual. Não estou aqui a negar os factos acerca da rosa mas apenas a dizer que o conhecimento directo deve vir primeiro e depois os factos terão muito pouco significado sem esse encontro.
O encontro directo sucede quando a personalidade intersecta qualquer coisa que não ela própria através dos dados dos sentidos que a personalidade e esse algo mais produzem criativamente em conjunto. Por algo sobre a própria rosa, algo nativo a ela e não a nós, a separar – uma variante num campo generalizado – e devemos aceitar parcialmente esse encontro e fundir-nos psiquicamente com essa variante detectada. Daí que o conhecimento possa utilizar os factos mas não ser delimitados por eles, já que os factos podem estabelecer barreiras entre nós e a nossa experiência ao nos programar para percebermos à luz dos factos conhecidos, de modo que, olhando, vejamos a rosa generalizada e não a flor única individual diante dos nossos olhos.
QUE QUERERÁ A VERDADE DIZER?
CIÊNCIA E RELIGIÃO
Os animais não têm formas de governo, possivelmente por não terem posses como os homens, ou instrumentos para se defenderem. Na natureza o animal constitui a sua própria posse, e o seu corpo é à uma a sua vida e o seu instrumento de protecção dela. Os homens consideram as posses como extensões deles próprios, de modo que nenhuma posse é neutra mas um símbolo do seu dono, e tal princípio foi adoptado com tal vigor que a propriedade é muita vez tratada de acordo com a lei como sendo igual em valor à própria vida.
Os governos baseiam-se nas actitudes que os homens têm para com três coisas principais: o conceito que faz do indivíduo, o valor da sua vida e o valor da sua propriedade. Embora a religião oficial possa ser separada da sede do governo, as ideias e as crenças que o homem tem sobre a sua mente e a sua alma não. Fisicamente, uma nação representa uma “propriedade conjunta” da sua população, pelo menos em termos políticos ou legais.
Máximas do tipo: “a sobrevivência dos mais fortes” ou “o direito do mais forte,” enfatizam os exemplos mais óbvios da aparente desigualdade existente entre os homens, justificam a mais feroz competição em todas as áreas da vida privada e pública e entre as nações, e visualizam o governo como a extensão humana natural da “cruel” erradicação dos processos da sua própria natureza conforme percebidos através do dogma da evolução. Sinais da cooperação animal e de graciosidade biológica são ignorados ou minimizados; no entanto, quando o homem rebaixa os animais ou os deuses, ele minimiza as dimensões da sua própria consciência, já que a sua existência assenta obviamente entre a estrutura temática desses aparentes opostos.
Em séculos passados, o relacionamento que o homem tinha com os animais envolviam-no numa prática de um intercâmbio com as outras espécies. O homem e os animais trabalharam a terra juntos, e a vida diária do homem achava-se intimamente ligada à das outras criaturas. Agora, no vosso tempo desenvolveu-se tal fosso que com respeito às populações urbanas nas zonas industriais pelo mundo fora os animais tornaram-se ausentes, quase como espécies teóricas; tão afastadas da terra e da vida diária quanto a hipotética existência dos deuses. Assim, outras espécies perdem a iminência prática que têm e foram sujeitas a discussões hipotéticas e teoréticas. Tornam-se “menos reais” para o homem. A sua existência pode ser cientificamente investigada, os seus hábitos explorados e os seus antros expostos, mas esse tipo de investigação objectiva ele próprio destrói o sentido da inter-relação objectiva existente entre as espécies.
Uma tal abordagem resulta na obtenção de informação mas numa perda de conhecimento, no acúmulo de detalhes particulares e na diminuição do retracto geral vivo em que as condições específicas existem. Se o homem não tiver uma relação com o mundo natural e as suas criaturas, então a informação que tem que lhe diz respeito torna-se numa desinformação pelo facto de embora apresente factos, também envolve uma estrutura em que tais factos se tornam em última análise destituídos de valor. Não é coincidência nenhuma que as teorias da evolução tenham emergido numa floração plena justamente quando o homem estava a perder a harmonia emocional que tinha com as outras espécies e começou a substituí-la pelo acúmulo objectivo de factos; por outras palavras, ele começou a examinar os animais como se eles fossem objectos primordiais.
Representou um enorme proponente da investigação científica e advogou a libertação da imaginação e da curiosidade do homem dos velhos ditamos da superstição religiosa do passado. Eu pensei que a ciência pudesse explorar a mente e a matéria, a alma e o corpo, as emoções e o intelecto, mas em vez disso ela optou por negar aquilo que não conseguia explicar, repudiando mente, alma, assim como as emoções não só como matérias de investigação mas como realidades em si mesmas. Elas foram consideradas como produtos inexplicáveis na luta pela sobrevivência, ou como posturas imaginativas ou pretensões mentais; contudo, esse mesmo fenómeno subjectivo é o que distingue o homem enquanto espécie, e por conseguinte deveria ter sido do interesse e da preocupação da ciência.
A esse respeito, a psicologia de Freud e as teorias da evolução não foram ciência enquanto tais, que oferecessem a possibilidade de resultados prováveis decorrentes de uma série de experimentos, mas um grupo de hipóteses que basicamente não podiam ser provadas. Tão pouco a psicanálise de Freud produziu um corpo histórico de casos em que as curas pudessem ser definitivamente mostradas em resultado das técnicas de Freud. Tão pouco conseguiu o homem negar a existência da alma, embora a ciência tenha tratado a alma como se se tivesse provado como não existente.
Eu espero provar o contrário, ao buscar na experiência do homem insinuações ou sugestões de uma capacidade dominante que não dependa unicamente dos sentidos ou de outros mecanismos físicos; ou de uma percepção excessiva que tenha operado a despeito do aparente confinamento dos sentidos ao ambiente imediato. Eu estava pessoalmente convencido que uma tal hipótese se aproximaria da verdade com respeito à verdade relativa à posição do homem. Contudo, uma vez mais, enquanto cientista, eu tive o cuidado de distinguir entre crença e hipótese, embora muitos dos meus colegas da facção contrária não fossem tão escrupulosos. Mesmo agora, tendo sido um cientista no melhor das minhas capacidades, eu hesito em propor a minha contínua realidade subjectiva do estado pós-morte como algum tipo de prova objectiva da sobrevivência, segundo os termos que empregam. Não o farei, mas basear-me-ei em vez disso naqueles argumentos, persuasões e métodos com que vocês se acham familiarizados, só que aprimorados a um tal grau que só o seu vigor, espero bem, expressará o valor da alma e dará comprovação da natureza heroica que possui.
Quer dizer, espero mostrar as características extradimensionais e heroicas da criatividade humana; demonstrar que a evidência delas se encontra disponível na vida física; e sugerir que seja pelo menos possível projectá-las como existentes aparte  do organismo físico. Mais, porventura num excesso de entusiasmo da minha parte e numa sobrevalorização do interesse do meu leitor, espero pelo menos declarar o caso para uma hipótese alterna para a ciência seguir. Não é novo e tem sido mantido num sentido ou noutro ao longo das eras, embora envolto na superstição e no mal-entendido e mantido estático por vínculos de dissensão. Trata-se de uma hipótese baseada na existência de uma alma não física ou entidade que provê orientação interior e que emerge no tempo e no espaço e tem existência; e na projecção dessa alma ou entidade como existente em todas as espécies seja em que medida for, a dirigir a vida suprema do planeta; e com cooperação em vez de competição conforme o ditado básico.
A mim parece-me agora óbvio que a novidade que constantemente entra entrado no mundo é prova de uma fonte interior que tem existência para além de todos os mecanismos biológicos conhecidos ou organizações orgânicas, e que a ordem das complexas formas dos organismos torna a sua criação acidental uma contradição lógica. Contudo, na vida, a partir do sentido mal orientado do dever da ciência, eu seriamente considerei a possibilidade de uma criação fruto do acaso, assim desperdiçando uma boa quantidade de esforço num absurdo.
Contudo esse mesmo absurdo fala por capacidades criativas dos homens que o conceberam, e é por meio dessas habilidades que eu creio que um tipo de evidência pode ser apresentado para a sobrevivência da consciência do homem depois da morte. Contudo, essas capacidades criativas necessitam ser exercitadas, mas as teorias de Freud e da evolução até certo ponto cegaram o homem quanto às suas próprias capacidades e limitaram a medida em que a própria consciência viva pode perceber a realidade maior em que tem a existência. Essa realidade mais vasta não implica simplesmente nascer por altura da morte, mas é o meio em que a vida ocorre: o viver substitui-a por momentos, mesmo enquanto subsiste na sua fonte.
O mundo do dia-a-dia é aquele em que homens vivos têm a sua experiência, mas claro que é do domínio da ciência explorar esse mundo, torná-lo mais inteligível e previsível. No entanto, as ideias que os cientistas têm acerca da realidade física são elas próprias não físicas e não podem ser empilhadas quais pedras numa mesa de laboratório, e mesmo para o cientista as ideias que tem devem parecer transparentes e carentes daquelas qualidades de solidez que caso contrário existem no mundo fenomenológico. O mesmo, evidentemente, se aplica aos sonhos dos cientistas. Não importa o quão vividamente ele perceba no sonho as imagens de amigo, cão, amante, oceano ou montanha, essas imagens não existem em parte alguma tão sólidas, tanto na sua cabeça como no quarto em que ele repousa ou em qualquer dos domínios classificados abrangidos pelas investigações do estado de vigília que empreende. Contudo, o cientista, à semelhança de qualquer outro indivíduo, reage, e se for sincero consigo próprio reconhecerá o quanto subtilmente contudo essas imagens oníricas afectam a sua vida desperta.
Criatura física ou não, é por toda a extensão da sua experiência subjectiva recordada ao homem uma realidade não física. Os objectos da sua percepção deviam ser categorizados, arranjados por padrões previsíveis sempre que possível - um empreendimento de busca digno da parte da ciência - contudo tais objectos não podem ser honestamente considerados sem uma idêntica investigação sobre as propriedades não físicas da mente que dão aos objectos a aparência que têm de solidez. Porque enquanto o mundo físico seja operacionalmente previsível (mas somente de um modo geral) essa previsibilidade só é operativa quando componentes interiores da mente actuam sobre as propriedades físicas de um modo bem preciso. O mundo físico precisa estar “em acção.” Somente então surgirá com os seus elementos previsíveis. Somente então os objectos têm realidade, as flores crescem, os mares mudam com as suas marés e o esplêndido calor o sol aquece a terra.
Até agora, a ciência apenas examinou os resultados. Pela sua insistência na prioridade e superioridade do domínio da matéria, fica de mãos atadas. O próprio enfoque das suas crenças condu-la a uma interminável categorização pela qual segue diminutas partículas até uma invisibilidade cada vez mais profunda. A hipotética descoberta de cada partícula diminuta exerce um efeito hipnótico cada vez maior que leva o cientista por um caminho autodestrutivo caso ele pense mergulhar naqueles fenómenos que existem por baixo da realidade operacional do mundo
A mente, de tal modo encantada pelo efeito dessas questões, tão desviada, possui ela própria as capacidades de perceber a estrutura interna da vida, só que de um modo diferente. Os velhos métodos de medição não se aplicam a uma realidade não física; contudo, a mente possui os seus próprios valores, os seus próprios métodos e mensurações, e a própria existência da alma constitui a sua própria comprovação. Em relação a tal evidência permanece a ciência cega.
Muitas vezes o cientista diz, impacientemente: “Eu lido com o mundo verdadeiro ou falso. Ou um fenómeno existe ou não existe de todo. Eu trato de factos prováveis.” Essa atitude por si só exclui do domínio da ciência a própria imprevisibilidade, a própria criatividade de que o mundo previsível emerge. A ciência com razão se rebelou contra os excessos, os exageros e as superstições da religião e contra um rígido sistema de crenças que encorajaram o homem a interpretar o mundo natural somente à luz dos seus próprios dogmas. Contudo, a ciência passou dos limites para se provar e ao adoptar muitas daquelas características e ao negar a existência de qualquer fenómeno que não seja observável de acordo com o seu próprio conjunto de medições limitadas, ou que não concordem com as suas teorias básicas.
Contudo, por qualquer que tenha sido a forma errónea, a religião tentou categorizar as realidades internas, por ter enumerado as suas “variedades” com tanto vigor e presunção e determinação quanto qualquer cientista que apontasse o número e o tipo de rochas e de aves, gases ou partículas. Os demónios, deuses menores, criaturas mitológicas, infernos e céus, tudo era no seu modo resultados desse mesmo tipo de especificação mal aplicada; por na realidade interior tais métodos serem ridículos.
Tanto a religião como a ciência buscam a “verdade,” porém, a interpretação literal da realidade física é tão limitativa quanto a interpretação literal da Bíblia. Há cientistas fundamentalistas que discutem a possibilidade do universo sofrer uma expansão sem fim, ou a possibilidade de estar infinitamente a expandir-se e a contrair-se – o que constitui tanto um exercício de futilidade quanto os da era medieval que debatiam o número de anjos que caberiam numa cabeça de alfinete. As atitudes mentais, as infantis interpretações literais são as mesmas, igualmente absurdas caso a questão mais significativa da verdade se ache envolvida. As próprias definições da verdade acham-se em falta.
A ciência e a psicologia devem o seu surgimento ao fracasso que a religião teve em conduzir essa pesquisa da verdade. São cisões da religião, cada uma das quais dotada dos seus próprios métodos, embora em larga medida tenham convergido. Para todo o interesse declarado pela psicologia quanto à natureza subjectiva do homem - que apresentou enquanto mantinha a sua posição objectiva – a psicologia depende cada vez mais da tecnologia e dos instrumentos científicos para aferir os produtos e os comportamentos mentais – uma nova futilidade igualmente perpetuada devido aos conflitos limitativos e mal entendidos respeitantes à busca da própria verdade.
Que quererá, pois, dizer a verdade? Em termos científicos representa um facto provável, tal como: “Amanhã é quarta-feira,” ou “Uma maçã é um fruto.” Tais factos são operacionais; um categoriza o tempo enquanto o outro, um objecto. Nenhum deles, porém, nos diz nada acerca do tempo ou objectos. De facto, a crença de que hoje, quarta-feira, seja seguida de quinta-feira conquanto operacionalmente verídico, conduz igualmente equívocos drásticos com respeito à própria natureza do tempo, ocultando-o nos termos consecutivos da experiência de todos os dias. Tal discrepância passa bastante despercebida quando recebem um amigo num encontro de quarta-feira, e o uso conveniente do tempo precisa ser mantido ordenado em qualquer dos mundos físicos. No entanto, os cientistas sabem que o tempo é relativo, e se a máxima “O tempo é relativo” é facto ou verdade, nesse caso será o facto do tempo consecutivo igualmente verídico, ou será falso? Se for falso, nesse caso nenhum dia será quarta-feira, quer a afirmação se mostre operacionalmente verídica ou não. Quanto a isso, a quarta-feira não existe do mesmo modo que a nossa maçã. Com respeito a isso, a assertiva de que a maçã seja um fruto é a “mais verdadeira” das duas. Mas até a qualidade de fruto da maçã nada nos diz da origem dos frutos, nem explica de que modo uma maçã possui características de fruto em vez de características animais; não importa o quão longe vão com tal tipo de busca da verdade, porque por fim serão conduzidos a um ponto em que um facto contradirá o outro, ou uma outra estrutura de factos, ou simplesmente esbarram com a ignorância - com que não obtêm qualquer resposta.
A razão é surpreendentemente simples. A ênfase excessiva dada à categorização conduz um número de factos infinitamente mais amplo e crescente, cada um dos quais considerado verdadeiro; e com tal multiplicação, as discrepâncias reunidas ao longo do caminho também se multiplicam. Acabam com diversas disciplinas, cada qual possuidora das suas verdades de facto, mas analisados, os factos de uma disciplina muitas das vezes não se aplicam aos de outro campo – um “facto” que os membros de todas as disciplinas muitas vezes negligenciam convenientemente.
Em todas as escolas do conhecimento tais discrepâncias são invisíveis, e não obstante no geral as pessoas operarem num ambiente razoavelmente previsível e comem maçãs deliciosas, seguros de que todas as quartas-feiras são seguidas de quintas-feiras. Tão pouco de nada serviria dizer que as maçãs não sejam frutas; uma afirmação que seria falsa caso aceitem a qualidade de fruta da maçã. Porém, a verdade ou falsidade de tais declarações é irrelevante com relação à verdade básica., que deveria tratar da natureza inata do tempo ou da natureza inata dos objectos, em vez das especificidades destes. Em que condições será uma maçã um fruto ou uma cadeira será um assento? Em que condições experimentaremos o tempo enquanto quarta-feira ou como uma série de momentos consecutivos? E em que condições poderá o tempo comportar-se de outro modo? Existirá algum desses fenómenos independentemente da percepção que deles temos? Como será que os objectos do sonho menosprezam tanto dos objectos físicos, chegando mesmo a satisfazer os nossos sentidos durante a experiência, enquanto não têm lugar em parte alguma do tempo e do espaço?
Podemos ver-nos envolvidos na experiência onírica mais extática e horripilante, e os nossos corpos debater-se com os cobertores ou estar imersos na mais doce descontração; podemos estar a reagir às serpentes ou aos anjos que percebermos, ou mesmo a tomar parte numa batalha. Ainda assim, na vida atribuímos maior realidade ao estado desperto do que atribuímos às experiências dos sonhos que nos deixem emocionalmente apreensivos, nos deixem num frenesi de excitação, ou nos encham de paz profunda ou desalento. O mesmo se aplica à vida do estado de vigília. Os cientistas atribuem realidade aos objectos dos seus experimentos e aos instrumentos técnicos que utilizam, porém, não atribuem qualquer realidade à mente e às suas ideias – a mesma mente que montou os instrumentos a partir de domínios da imaginação que em lado nenhum terão surgido em termos determinados de facto. É por essa razão que as dimensões interiores dos eventos parece tão sombrias. A densidade psicológica investida por parte da mente sobre os fenómenos é completamente ignorada, por nos domínios da ciência apenas ao cérebro ser concedida realidade.
Por fim, a religião falhou enquanto sistema da crença organizada, por intermédio do qual podia ajuizar a estrutura e a experiência prática. Que a ciência se cuide de não cair na mesma cilada. O cientista é duplamente vulnerável, por alguns dos seus resultados bem-sucedidos ameaçarem o homem com uma destruição física muito mais imediata do que a ameaça religiosa de um inferno depois da vida. Além do mais, um possível holocausto em que toda a humanidade seja destruída pela mão de Deus representa uma coisa para o homem comum; a mesma destruição produzida desnecessariamente sobre a cabeça do homem pelo mau emprego da ciência é outra coisa. O homem comum minará a ciência por formas as mais insidiosas, antes de permitir que ela destrua o mundo que é suposto explorar.
A ciência sente-se insegura em relação à personalidade humana e ignorante quanto às motivações básicas. Enquanto a ciência produzir, o homem comum alinhará com o dispêndio de fundos quase sem limites destinados a objectivos científicos. Mas ele que decida que a ciência serve unicamente a ciência e se dispõe a sacrificar até mesmo a vida planetária a fim de satisfazer apetites inflacionados, fundações e subvenções com incrível celeridade, e a ciência sobreviverá conforme a religião sobreviveu – estilhaçada, despojada da sua fúria, ribombar e eficácia. A flexibilidade da ciência, conforme praticada torna-se incrivelmente evidente e contribui com um incalculável mal para a ciência, que deveria investigar todas as expressões da vida por igual medida, com imparcialidade e compreensão, incluindo os valores dos homens, determinando quais deles contribuem para a qualidade da vida e quais não contribuem. A ciência não se pode ar ao luxo de inventar armas de incalculável alcance ao se divorciar do estudo dos valores morais ou dos direitos da consciência.
A fé não repousa no domínio da ciência. No entanto, a fé em deus ou no homem, ou na natureza constitui um imperativo ou todos os factos da ciência serão insignificantes e não passará de parafernália; uma categorização da palha caótica do acaso sem dignidade; uma contabilidade que mais não é que um tipo obsessivo de eventos num universo em que os próprios eventos – homem e animais da mesma forma – não passam de joguetes de um processo mecânico, desprovido de desígnio.
O homem é mais bem capaz de sofrer até mesmo a tragédia, acreditando no malevolente objectivo de um destino caprichoso, do que consegue suportar a felicidade num universo sem sentido, despojado de todos os elementos heróicos que fazem parte da sua herança psicológica. Pode pelo menos ranger os dentes e mostrar desprezo pelo destino caso acredite que controla a sua vida; porém, um universo sem sentido deixa-o sem qualquer paga Os sistemas de crença que nutrem tal contrassenso dão por si num dilema insolúvel e no final derrotam o seu propósito, por aqueles que seguem tais hipóteses não encontrarem razão para não continuar a viver, e se verem dominados pela inércia. As teorias não são estimulantes e carecem de vigor, pelo que fenecem.
Contudo, é mais que possível que o “sentido do universo” não possa evidenciar-se unicamente pelas mensurações da lógica e que as próprias técnicas mentais empregues no pensamento lógico – a categorização, a precisão, a separação, a procura da causa e do efeito – possam romper uma unidade suprajacente em que esse significado possa, de outra forma, tornar-se conhecido. Vocês podem estudar as técnicas empregues em qualquer pintura, composição musical, poesia, ou qualquer outro trabalho criativo; compreender na perfeição de que modo certas pinceladas ou vogais ou notas contribuem para efeitos específicos, e ainda assim permanecer ignorantes quanto a todo “sentido” subjacente à própria arte. Em qualquer campo que seja, o artista emprega as técnicas artísticas, todavia reúne-as de um modo completamente diferente do técnico, combinando, digamos, os componentes de uma válvula de vácuo.
A precisão e a previsibilidade que operam a favor da tecnologia e as produções de uma indústria prática resultam de uma especialização notável: os poderes analíticos da mente apurados e em afinados em direcção a “resultados que funcionem.” Não pretendo por forma nenhuma diminuir a importância de tais atitudes ou métodos. Contudo, esses mesmos métodos não produzem resultados, digamos, em termos de arte, mas tão só as interpretações lúgubres dos robôs ou das pinturas digitais.
Porque na arte, os elementos da surpresa e da imprevisibilidade reinarem, embora num certo âmbito. São usadas técnicas, meios e suprimentos, mas são usadas num contexto mental e emocional diferentes, em que o sentido da arte muitas vezes em lado nenhum se evidencia mas é sentido e emocionalmente percebido. Na realidade os sentidos são atraídos de uma forma diferente. Esta é uma questão da mais alta importância, pelo que aqui gostaria de comparar brevemente o universo ao modelo de um trabalho de arte multidimensional, ao invés, digamos, de um mecanismo cujos componentes, examinados, produzirão inevitavelmente uma compreensão as suas partes e do objectivo geral.
Se usarmos esta analogia, contudo – se comprarmos o universo a uma obra de arte – devemos igualmente referir que seja uma obra de arte em progresso, por nele se verificarem constantemente mudanças. Devemos ainda atribuir a essa arte um recurso multissensorial e outorgar-lhe um plano estético para além de qualquer utilizado por um artista humano. A composição inclui todos os elementos da realidade conforme os conhecemos. Os relvados não só são descritos por palavras como o podem ser pela literatura; ou pintados, ou evocados por notas musicais; mas combinam as técnicas de todas as artes e vão além. Os relvados apelam a todos os nossos sentidos; a sua cor não só é pintada tingem-nos não só pela pintura mas concorrer para ternos conselhos; sempre a mudar no matiz e no valor, enquanto permanecem numa certa ordem no âmbito da cor.
Enquanto vivos, nós próprios situamo-nos nessa produção criativa, evidentemente, e toda a categorização do mundo falhará na revelação do seu sentido. Um âmbito diferente de pensamento é requerido, um que seja similar aos processos criativos. Por existirem diferentes tipos de “lógica.” Se tiverem o objectivo de mostrar um componente de rádio, então o pensamento objectivo será científico e produzirá resultados; se tiverem a intenção de criar um poema ou uma sonata, então esse outro tipo de pensamento intuitivo será igualmente válido, e igualmente científico, e conduzirá a resultados igualmente certos. Aqui, a imprevisibilidade quase pode ser considerada um método de trabalho previsível.
O “sentido do universo” poderá existir nesse outro âmbito e permanecer invisível ao género habitual de escrutínio e na realidade tornar-se menos evidente quanto mais for examinado de um modo convencional e científico. O mesmo se aplica à pessoa individual nesse universo. Nenhuma informação, conquanto extensiva, inerente ao corpo ou ao cérebro resultará numa resposta à questão: “Que significado terá a pessoa?” Não só isso, como os métodos de investigação – a designação e aferição dos distintos componentes e o traçado de circuitos – podem tornar a própria informação tão enganosa que a transforme em desinformação, conforme foi definido anteriormente: dados que produzem resultados que reduzem o conhecimento.
Não estou a querer dizer que tal compreensão esteja para além do entendimento do homem, mas tão só que se encontra para lá dos métodos erroneamente usados para a alcançar; estou a sugerir que existem pelo menos dois contextos em que a percepção e o conhecimento ocorrem.
Pensar no homem ou no universo como um mecanismo e usar isso como modelo pressupõe certas hipóteses, independentemente do quão longe estendermos as capacidades da máquina. Mas acima de tudo, não inculcamos os poderes da verdadeira espontaneidade, da criatividade básica ou da imprevisibilidade num modelo desses. Usando o pensamento objectivo directo não vemos, o quanto a intuição criativa pode surgir do nada; de modo que dificilmente compreendemos um universo que brote do nada, a “cada instante,” em cada aspecto da sua realidade. Em vez disso, limitamos o nosso modelo a um familiarizado ao pensamento objectivo e limitamos igualmente as nossas esperanças de compreensão, por um tal modelo constituir a seu modo o resultado de comportamento esquizofrénico: é um modelo produzido unicamente por metade do cérebro, um modelo unilateral, tão limitada quanto a visão quando apenas usamos um olho. Perdemos a percepção da profundidade que faz toda a diferença. De certo modo, a religião usa o outro olho ou lado do cérebro mais do que a ciência. Contudo, na determinação que tem por se relacionar com o mundo do dia-a-dia, a religião comete o mesmo erro fatal no seu domínio que a ciência comete; Procura tornar a verdade criativa num facto literal.
Uma vez mais, os seus intermináveis catálogos de demónios, anjos caídos, níveis dos mundos espirituais, deuses e senhores do universo constituem comummente ridículas tentativas de fazer valer um tipo particular de ordem sobre as realidades interiores a fim de as fazer corresponder com o mundo dos factos. Daí a insistência que a religião fundamentalista faz sobre a interpretação literal da criação Bíblica do mundo – e assim a batalha que se verifica entre a ciência e a religião com base numa matéria em que ambas eventualmente sairão perdedoras.
A interpretação literal que a versão da Bíblia faz dos eventos, e a insistência que a ciência faz acerca dos factos Darwinianos encontram-se do mesmo modo fora de questão. A considerável conquista que Darwin fez com o percebimento do inter-relacionamento existente entre criatura, a espécie e o meio ambiente foi completamente mal interpretada. A catalogação que elaborou, dos efeitos, levaram-no a perceber unicamente competitividade, e cegou-o para os empreendimentos cooperativos que se verificam entre as espécies, e entre as criaturas e o seu meio ambiente. O mesmo conjunto de “factos” poderiam ter sido lidos de modo bastante diferente.
O próprio Darwin sentiu os conflitos emergentes: ele acreditou neles, projectou-os no seu próprio trabalho, e sentiu-se torturado por um equívoco com relação à sua própria contribuição. Ele personificou as diversas espécies com a mais lamentável das características humanas, vendo o assassínio e o conflito em vez dos equilíbrios internos elaborados pelas próprias diversas espécies. Por outros tipos de consciências também poderem achar-se individualmente tão ajustadas quanto a nossa, mas serem igualmente capazes de saltar a própria morte aparente por uma série de cômputos biológicos que nos passam despercebidos por completo, em particular quando contemplamos a natureza por uma das partes da nossa mente que é a menos intuitiva, a menos disposta a abandonar a origem ideológica da objectividade.
O trabalho de Darwin assumiu como certa uma certa hipótese com respeito à consciência que, cientificamente, não temos o direito de tomar como certa. Embora negasse aos animais de toda e qualquer variedade uma consciência digna, ele ainda projectava neles as piores tendências do homem. Foi a noção da sobrevivência dos mais aptos (fortes) que foi projectada no mundo natural, e não o contrário. Não há razão porque a existência da alma não possa constituir uma hipótese científica., mas a ciência em si mesma precisa aprender o quão ridículo é um cientista ignorar a sua própria natureza – a sua realidade emocional e subjectiva – através de cujo enquadramento ele percebe o mundo natural. O ideal seria que todo cientista se envolvesse com uma arte; e todo artista, com uma ciência. Desse modo, as qualidades intuitivas e objectivas fundir-se-iam, as suas capacidades distintas aprofundar-se-iam, cada qual desenvolver-se-ia por meio da aliança que estabelecesse com o outro.
Se a ciência não ampliar os seus enquadramentos temático e teorético, os jovens cientistas abandoná-las-ão, como no vosso tempo, os padres estão a fazer, e pela mesma razão justamente: por sentirem que o treino que recebem é perigosamente assimétrico. Contudo, tendo inculcado nesses estudantes uma objectivação exacerbada, esses cientistas muitas vezes compensam em excesso e passam a adoptar atitudes de rejeição da ciência e da tecnologia, e a defender em vez disso uma ênfase igualmente exagerada na “fé destituída e razão.”
Estão cansados da competição académica e exaustos por defenderem o ego contra os assaltos dos impulsos instintivos subconscientes de Freud. Nada desejam mais do que a paz de espírito, e assim, muita vez caem presa de teologias ou de sistemas que descartam o individualismo e o desejo, e propõem, ao invés, um conceito distorcido de consciência cósmica. Tudo quanto uma pessoa assim “deve” fazer é abrir mão dos emblemas da sua espécie – as emoções, o intelecto e a ilusão da individualidade.
Mas obviamente que tais políticas psicológicas contradizem os conceitos básicos da democracia política. Para muitos desses, não só a competição é errada, como o próprio trabalho perde o seu valor. Desse modo, uma hipótese exagerada conduz ao seu oposto. Existem, porém, duas formas principais de se relacionarem com o mundo fenomenal; cada uma bastante natural ao homem, tanto espiritual como biologicamente. Uma tem geralmente dominado desde o berço da história: nós reagimos a eventos e ao ambiente pelo uso do pensamento lógico a fim de interpretar uma realidade que se entende existir no “exterior” independentemente da percepção que temos dela. Assim, uma maçã é uma maçã quer a vejamos ou não, a comamos ou não. Uma estrada é uma estrada quer a percorramos ou não.
A outra abordagem, que não tenho conhecimento de alguma vez ter sido seguida por completo, envolve a identificação com a natureza e os acontecimentos. Aqui temos a crença de que pensamentos e emoções não só têm um efeito directo na matéria, como os acontecimentos directos, por algum modo invisível ou automático – um modo que no entanto pode ser deduzido pela tentativa e erro. Usando desse metido o homem espia e explora os funcionamentos internos da natureza ao projectar a sua consciência nela, e não examinando-a a partir o exterior. Este segundo método, creio eu, acha-se intimamente aliado com o funcionamento criativo natural conforme é exibido pela constante criação de células no organismo; e evidencia-se mentalmente nos próprios processos do pensamento e na formação das artes. Este método encontra-se igualmente activo e envolve a formação criativa de ocorrências pela concentração das forças naturais com uma intenção ou objectivo em mente. Os seguidores de tais crenças tomam como certo que tais forças agem espontaneamente por formas que lhes escapam ao conhecimento, tal como o escritor toma como certo que a intenção consciente que tem evocará os processos criativos que operam sob o seu conhecimento consciente, e desse modo resultam num produto criativo.
Dado que certas ocorrências são mais prováveis do que outras no mundo fenomenal, é possível que tal identificação e concentração mental seja responsável pela experiência de uma ocorrência específica em vez de uma outra provável. Esta força mental e emocional no homem e na natureza, reunida, pode representar a “profundidade de percepção” oculta de que a ciência carece nas suas próprias investigações. No meu tempo, porém, as teorias de Darwin e de Freud começam a predominar, no entanto a nação manteve quase idêntico vigor aqueles conceitos estimulantes da liberdade individual, das esperanças na boa-fé do homem, da fé em Deus, no homem, e na nação que estavam a ser expressados, por meios simplistas muitas vezes, por cada canto da terra. O que resultou num optimismo quase atlético, pelo menos por um tempo e na crença da vontade humana prevalecer contra todas as probabilidades. Quanto mais os conceitos de Darwin prevaleceram, mais se insinuaram no pensamento nacional: e mais insistente o simples optimismo da nação se tornou, ao tentar contrariar a tendência pessimista.
Quando a psicologia de Freud se fundiu com a ideologia de Darwin, mas mais importante, quando a psicologia se aliou de Freud em vez de Myers, então o equilíbrio do optimismo decaiu abruptamente. Nenhuma das escolas do “a cada dia estou a ficar melhor e melhor de toda a maneira,” conseguiram efectivamente contrariar as teorias sombrias que rapidamente se apoderaram de todas as academias, tanto de medicina coo de ciência.
Anteriormente, o Protestantismo e o optimismo fundiram-se com uma certa inquietação, porém, afirmações como “Deus está no céu e tudo vai bem com o munto” não se enquadravam na teoria da sobrevivência de Darwin. Sucintamente o cidadão podia combinar as duas. Caso fosse razoavelmente próspero e saudável, então poderia ver-se enquanto o orgulho da espécie de Darwin e o homem das boas obras do Protestantismo – prova de que Deus ajuda aqueles que se ajudam a si mesmos. Mas essa aliança não se podia manter, por o homem de Darwin não poder ter uma alma; os seus instintos assassinos não deixavam espaço para as boas obras da honestidade; e o homem de Freud não dispunha de vontade efectiva mas tão só de um subconsciente instintivo que se estendia ao longo do tempo de Darwin até à natureza “selvagem” do animal. Infelizmente, o homem seguiu psicologicamente esse caminho, levando a ciência e a medicina consigo.
UMA LINGUAGEM SUPERIOR E UMA "ESCOLA" PARA FILÓSOFOS
Existe um contacto telepático constante entre os vivos e os falecidos embora não nos termos em que por vezes o imaginam. Quero dizer, os pensamentos e os sentimentos dos falecidos acham-se activos e têm tanta vitalidade quanto aqueles dos vivos, e contribuem para a atmosfera mental, embora a um nível diferente, por esses pensamentos "circularem" da mesma forma que as altas correntes de ar podem circular, fornecendo uma atmosfera geralmente mais estabilizadora.
As ideias e métodos da comunicação natural das espécies depende não só das inclinações e das habilidades que são incorporadas, mas também do conhecimento contínuo de cada indivíduo que ao falecer contribui com a sua experiência para a espécie no seu todo, ou antes, torna-a acessível de uma forma nova.
A aprendizagem em vida tem lugar durante o estado do sono do mesmo modo que no estado de vigília, mas nos sonhos as pessoas aventuram-se mais por aquela atmosfera generalizada, e levam consigo os problemas e a informação do dia, ponderando neles e pesando-os contra uma herança de experiência que pertence a toda a espécie, para a qual os mortos terão contribuído. A aprendizagem ao longo das eras é passada de tal modo, que implementa os métodos mais pragmáticos da tentativa e do erro, do estado de vigília. Nessa medida, a ênfase atribuída à adoração dos ancestrais em certas culturas possui uma base de validade. Tão pouco a aprendizagem se detém por altura da morte mas tem lugar num contexto diferente.
É sabido, evidentemente, que certas culturas passam o seu conhecimento por via oral às gerações mais novas, por meio do canto e do mito. A informação é igualmente transmitida por intermédio deste ambiente interior para que tanto vivos como mortos contribuem, e que pode ser comparado a um campo de informação viável invisível em toda a parte que rodeia a vida. As ideias de vivos e mortos misturam-se como, digamos, o ar dos desertos e das enseadas eventualmente fundem-se umas com as outras contribuindo assim para o clima do mundo, muito embora localmente cada uma apresente as suas características próprias e tenham a sejam aparentemente opostas. Bom, não me estou a referir à invasão psíquica mas a dizer que os pensamentos e sentimentos dos homens, tanto dos vivos como dos mortos, formam um campo mental de informação e de interacção.
Esta espécie não depende inteiramente apenas dos métodos físicos da aprendizagem, mas é igualmente e sempre impelida pelos incentivos internos e abastecida de uma informação adicional, de modo que o conhecimento é transmitido de geração para geração através de sonhos e comunicações interiores. Isso familiariza os povos com a sua herança cultural e realça enormemente o mérito da linguagem, que em si mesma actua como uma estrutura destinada à comunicação de certos símbolos e ao bloqueio de outros.
Diferentes linguagens representam evidentemente diversas características do sentimento, do pensamento e da crença; e dignificam algumas delas por intermédio da expressão e da ênfase, enquanto ignora outras enquanto molduras verbais. As línguas representam tanto molduras verbais quanto, digamos, quadros verbais, e dão expressão a certas imagens e sensações e enfatizam-nas por meio do âmbito da armação verbal, que expressa e restringe ao mesmo tempo.
Basicamente, os pensamentos dos mortos não precisam seguir tais padrões, e a informação recebida desse campo mental generalizado de informação é dada num tipo de "linguagem superior" que cada indivíduo traduz no seu próprio idioma. Tais traduções são automáticas, do mesmo modo que a fotossíntese das plantas constitui um processo automático; de modo que qualquer comunicação que se faça em qualquer língua já constitui uma tradução automática de informação interior, tal como a água vertida numa taça assume a forma do recipiente que a passa a conter. Elas não são distorções mas diversas expressões de realidades interiores, e as línguas representam os recipientes psíquicos que servem para expor informação de modo que possa ser "vertida" de um recipiente para outro de modo mais eficiente.
Em termos básicos, porém, as línguas nascem a cada instante, e essa presença atmosférica de que falava parece ser caracterizada por um conhecimento em que todas as línguas são compreendidas. Ou seja, independentemente da linguagem em que costumarem apresentar uma questão, a resposta é dada no mesmo idioma. E com as conversas mentais que tenho com outros aqui, o mesmo se aplica. Aqui, pois, a atmosfera em si mesma parece traduzir as minhas palavras da minha para a língua do ouvinte. Isso sucede automaticamente, tanto quanto me é dado apurá-lo. A tradução é menta, instantânea e perfeita, e não dá azo a equívocos de interpretação a esse respeito. As barreiras habituais da linguagem não se apresentam, enquanto me sinto igualmente seguro de que uma língua superior que permanece "invisível" é utilizada, uma vez que as traduções são feitas de modo tão instantâneo.
A informação é específica e faz sentido somente em meio a um sistema de factos em que se enquadre. A sabedoria das emoções não se enquadram no sistema da matemática, por exemplo, e conforme anteriormente mencionado, a informação pode fornecer conhecimento, assim como também pode, sob determinadas condições, na realidade diminuí-lo. Todo o conhecimento intuitivo do homem, as suas bíblias e demais livros sagrados, consistem num conhecimento automaticamente traduzido na especificidade de uma língua, que é por sua vez traduzida pelo homem noutras. O conhecimento corre para esse recipiente verbal ou escrito, e é exibido de acordo com as imagens, as tradições e os formatos culturais e mentais característicos de um dado idioma. O conhecimento torna-se, pois, específico, porém especifico de uma forma necessariamente preconceituosa. Os símbolos de uma linguagem flutuam por cima quais peixes multicoloridos de múltiplas formas, de modo que se torna igualmente necessário procurar por entre as vogais e as sílabas as águas transparentes abaixo, em que os peixes se movem.
A versão que o homem tem de Deus ou dos deuses, ou da vida futura, do começo e do fim do mundo, constituem, pois, traduções - tal como evidentemente os manuscritos o são - traduções que encaixam na realidade experimentada até certo ponto enquanto também conduz além dela. Qualquer um saberá que o discurso privado só aproxima do sentimento ou da sensação, e somente um tolo toma, equivocadamente, a expressão que dá a um sentimento pelo próprio sentimento.
Dá-se, pois, o mesmo lapso - que não adquire expressão - entre a experiência que tenho "fora do âmbito do tempo" e as tentativas que empreendo para as explicar. Os mitos são mais verosímeis do que os factos com respeito a isso, mas apenas se não os tomarmos à letra. A minha natureza não é uma de criar mitos, contudo, pelo que busco correspondências que sejam imaginativas e ainda assim estejam em sintonia com os factos da vossa experiência. Nesses termos, é verdade afirmar aqui que eu me dirija a outros que se encontrem mais ou menos num mesmo nível de realidade ou de compreensão que eu. Esses níveis de compreensão formam os seus próprios ambientes e fornecem certas dinâmicas que estruturam a experiência. Em vez de continentes e outras formações terrestres que estruturam a vida na terra, aqui estados mentais fornecem o critério para os diversos tipos de percepção que enquadram a experiência da mesma forma que a linguagem estrutura o pensamento em termos concretos.
Estou agora habituado a comunicar com pessoas que podem não se tornar visíveis em parte alguma para mim, por exemplo, por o critério da comunicação depender mais das relações complementares dos estados mentais do que da "viabilidade" física. Outros ambientes e circunstâncias estão em relação comigo em tais casos, por intermédio de imagens mentais transmitidas automaticamente. Essas acham-se ao dispor, somente, apenas para aqueles que como eu tenham uma existência "numa mesma frequência" ou que estejam em harmonia com certas frequências deste vasto campo de informação viável. A minha experiência está da mesma forma relacionada com a do que estão "no meu nível," e nós juntamos o nosso conhecimento, e decompomo-lo numa informação de uma natureza pessoal mais específica para nós próprios, enquanto a nossa experiência pessoal forma parte do campo generalizado que é perceptualmente acessível. Alguns de nós tornam-se visíveis, nesses termos, para os outros, mas as nossas comunicações mais vastas não são restringidas a esse grau. Há aquelas que são caracterizadas mais pela expressão visual, ou pelo som, que em vez da linguagem verbal ou mental comunicam por meio de uma linguagem de sentido cruzado dotado de uma rica complexidade.
De certo modo, toda a vossa inteira ordem constitui um tipo de linguagem por meio da qual a realidade física é pronunciada, uma linguagem adquirida tão cedo na vida e tão sem esforço que se torna automática. Contudo, é conquistada com todas as nuanças, inflexões e pretensões de qualquer língua, só que esta possui verbos biológicos e pronomes mentais e organiza toda a ordem perceptiva.
Já que também eu outrora falei essa língua, embora nesses termos actualmente seja bilingue, posso comparar a experiência que faço agora com a de então. Obviamente consigo ainda organizar as ideias à velha maneira a que estava habituado (conforme estou agora a fazer), mas em última análise acho isso tão limitativo quanto pouco prático excepto para a produção deste tipo de manuscritos.
Um viajante inteligente procurará aprender a língua nativa do país que pretenda visitar para poder compreender os outros e fazer-se entender por eles, e a fim de dar-lhes a conhecer as suas necessidades e desejos em termos práticos. Se, e quando viajarem para outros planetas para além do vosso sistema solar, perceberão instantaneamente que aquilo que acabei de referir é verdade: o vosso corpo físico e toda a sua gama de percepções constitui em si mesmo uma língua, que é pronunciada de forma automática. Não só uma diferença na língua convencional os separará dos hipotéticos nativos de outros planetas, como também a linguagem da vossa biologia - os enunciados das moléculas em células, passagens genéticas, ou frases construídas por padrões biológicos completamente diferentes.
Alguns dos que visitam a Terra aprenderam a mudar a sua "língua" nessa forma mais compreensível, ao aparecerem mais como homens quanto possível, de modo a examinarem e entenderem o mundo físico. A estrutura e a forma corporal constituem igualmente uma linguagem, e muitos no ambiente em que existo conseguem alterar essa estrutura, ao criarem formas diferentes que expressem o seu estado de humor ou experiência, conforme vocês poderão fazer, digamos, cantar uma canção, escrever uma sinfonia, enfim. Eu não sou assim tão proficiente, e a partir de agora a experiência directa que faço é com aqueles cujas existências se parecem bastante com a minha, quer por meio de interesses complementares ou da conotação histórica.
Ainda me encontro propenso à filosofia, pelo que me encontro em contacto directo com muitos filósofos tanto famosos quanto desconhecidos, a maior parte de outros períodos históricos que não o meu, e muitos nativos de outras culturas e civilizações que foram desconhecidos em relação à posição que tive no mundo Ocidental. Nos nossos "diálogos," fico assombrado com as histórias de outras civilizações que existiram no planeta Terra, mundos outrora práticos e reais, agora perdidos para a história do mundo, contudo muito vivos - por, semelhantes a fósseis, as suas crenças contribuírem com um novo combustível a sucessivos sistemas de pensamento e escolas de conhecimento. Os seus idiomas esquecidos têm existência nas pausas que existem entre as palavras, e ajudam a compor os ritmos das línguas vivas, do mesmo modo que as suas filosofias fornecem ritmos internos em que teorias mais correntes vigoram com tanta segurança.
Agora sorrio, ao pensar com que frequência durante a vida eu falava dos antigos Gregos ou habitantes da Mesopotâmia, porque actualmente e do ponto de vista que tenho as suas culturas existirem quase em simultâneo com a vossa. A era Vitoriana assemelha-se a um sussurro que ecoa por corredores de "som" em que a mais sublime das civilizações representam apenas uma nota; porém, uma nota dotada de infinitas variações, que ecoa e volta a ecoar, só que de cada vez com uma mais significativa mudança de ritmo ou cadência. Assim, esses filósofos já me ensinaram mais do que eu poderia possivelmente chegar a conhecer numa ou numa série de vidas. Por aqui existir um tipo concentrado de experiência de aprendizagem que não consigo explicar, embora tente.
Existiram muito mais civilizações na Terra do que supõem os cientistas, e a Terra é muito mais velha do que os registos que vocês encontram o revelam, ou do que as evidências venham a apoiar. Algumas dessas culturas diferenciaram-se muito daquela com que me familiarizei que as próprias perguntas que eu formulava em si mesmas faziam muito pouco sentido, apesar de concederem a compreensão interior telepática que nos une.
Eu perguntei, por exemplo, a um filósofo: "Poderá explicar a estrutura social que tenha existido na sua civilização," e deparei-me com um silêncio mental intrigado. O filósofo, porém, sorri e tem vontade de me agradar com uma resposta, ainda assim mostra-se divertido com a forma como o bloqueio definitivo que a pergunta que lhe fiz lhe entrava o entendimento. Volto a tentar. O termo "social" e "sua" são a causa disso. Mentalmente, ele envia-me imagens de um mundo em que não existia palavra para "sua," mas apenas para "nossa," e em que o conceito de "social" tem um milhar de conotações diferentes; um mundo em que homens e animais do mesmo modo são considerados criaturas sociais que se misturam a muitos níveis; como se, digamos, nas civilizações Ocidentais fosse dada igual consideração aos castores que aos humanos construtores de pontes e ambos trabalhassem em conjunto, os seus fossem aposentos respeitados e as suas necessidades satisfeitas. Mentalmente, transmito imagens do mundo que conheci, em que "sociedade" referia as actividades humanas somente, mas o filósofo abana com a cabeça em descrença, pronto a dispensar aquilo que estou a "dizer" como piada filosófica, sem que, não obstante, revele ser do melhor bom gosto. Eu persisto: "Quando foi que a sua civilização teve início e terminou?" Ele olha para os outros filósofos interrogativamente: estarei eu a falar sério? No meio deles vejo um filósofo do mundo Ocidental do, creio eu, século dezasseis; mas também ele se limita a sorrir-me, como se tivesse passado pela mesma experiência que este pelo que preciso ficar na minha. A resposta que creio receber é: "A civilização existiu do mesmo modo antes e depois."
Eu digo: "Mas, quando foi que floresceu? Quando foi que as suas artes e ciências atingiram o auge do desenvolvimento?" "Agora," é a resposta engraçada que me dá. Persisto uma vez mais: "Mas, em termos históricos? A civilização desvaneceu-se há milhões de anos, se bem entendo o que me diz." E diante dos meus olhos é lançado de súbito um mundo vivo dotado de óbvia indústria e realização: prédios, cidades, pessoas a passear pelas ruas, um profusão de animais a misturar-se. Eu habituei-me a partilhar as avenidas com cavalos, e ao pensar nisso, o filósofo acena com a cabeça: "Uma aceleração e uma continuidade desse tipo de confluência de homem e animais, só que numa maior igualdade de condições." Em qualquer aspecto do que diz tem intenção fazer um comentário jocoso mas afeiçoado que não chega a compreender bem, ao empregar o termo latino de cavalo (Equus) e uma piada com a palavra do vocabulário Inglês que refere igual, mas não chego bem a acompanhar a graça. Ele mostra-me imagens resplandecentes de enxames de abelhas ao redor das flores, de insectos a esvoaçar de planta em planta. E então, imediatamente a seguir, brotando dessa imagem, vejo uma nave espacial a mergulhar no espaço profundo de planeta em planeta. "Um e o mesmo princípio. Aprendemos com os animais, com as plantas e com os insectos."
Começo a protestar.
Ele diz: "Tal como as abelhas andam de flor em flor, nós andamos de planeta em planeta."
"Mas eu estou a falar da história passada da Terra," digo. Mesmo da compreensão que tenho da ciência terrena desde a minha morte, a evidência do passado do planeta não inclui a quantidade de tempo que parece implicar. A terra não é assim tão velha."
Mas ao mesmo tempo que lhe comunico isso eu sei que a despeito de todas as evidências do contrário, a terra não é assim tão velha. "Mas, é impossível," digo eu, e os filósofos riem em conjunto e concordam comigo! E enquanto os encaro directamente, eles respondem quase em uníssono: "É bem verdade." Um estalo na cara da lógica, creio bem, uma lógica que presentemente leva o meu rosto estampado. Eu torno-me mais teimoso e por um instante sinto uma estranha inversão de papéis, ao recordar os estudantes rebeldes que vez por outra protestavam em audiências enquanto eu procurava explicar uma dada matéria. Agora sinto-me como um desses estudantes, e o desconforto do processo.
Diante dos meus olhos voltam a relampejar imagens de mais civilizações do que eu podia contar, cada qual próspera, a usar o que parecia o mesmo planeta de modos diferentes, cada qual com relações diferentes entre o homem e as outras espécies, cada qual refletindo essas características por meio dos seus próprios idiomas e - o mais esquisito de tudo - a interpretar o estado de existência do homem em termos completamente diferentes. Quase vislumbro milhões de pontos reluzentes que parecem ligar esses mundos e mantêm cada um intacto enquanto fornecem uma tensão invisível porém que se pressente com que cada mundo se relaciona com o outro, porventura como uma teia de aranha multidimensional. Mas, uma vez mais, não consigo perceber.
"Como poderá qualquer ciência ou civilização compreender tudo isso?" pergunta o filósofo que também fala pelos outros. Ele responde a si próprio: "Na vida material, você só pode examinar a informação fornecidos - as regras do seu próprio mundo - e proceder a deduções com base nessa informação."
Este diálogo é imaginativo e ao mesmo tempo não deixa de não ser; quero dizer, é uma reconstrução de um vento real, um processo de aprendizagem com que frequentemente me deparo, só que traduzido para mim por meio do meu conhecimento dos costumes ocidentais num edifício da imaginação tão fiel quanto possível dos eventos reais. Nesta condição em cada diálogo, quando de uma forma ou de outra me é mostrada a vastidão da realidade, geralmente sucede o seguinte. Fico bastante irritado, e sinto-me como um membro juvenil da assembleia, acostumado como estava a não conceder a mim mesmo poderes irrefletidos de intelecto e perspicácia. Não consigo identificar exactamente o dilema psicológico, emocional e intelectual; ou a faculdade da minha mente que subitamente se abre assim que a própria frustração que sinto me inunda com uma quase agonizante sensação de incompetência e ignorância. Mas de repente a minha mente estremece com o abalo e torna-se em essência transparente, como se um milhar de véus que previamente a cobriam se tivessem dissolvido.
O que tem lugar não consigo descrever, por dificilmente eu próprio o entender. Talvez a lagarta que se transforma em borboleta os leve a sentir de certo modo o mesmo: tem início um processo de transformação, e por meio da nova abertura reduzida mas limpa da minha mente uma imensamente cálida mas não ofuscante luz brilha. Quer essa luz tenha ou não algo que ver com a luz conforme a entendi na terra não o sei dizer, mas experimento-a como uma luz viva e dotada de inteligência que faz parte da presença atmosférica que mencionei antes; e ela transmite conhecimento, ou melhor, compreensão, por métodos desconhecidos para mim. Recebo compreensão como, digamos, como uma flor recebe luz do sol. Sou imensamente fortalecido, auxiliado, e as sensações anteriores de frustração e de tatear que sentira desvanecem-se.
Esses diálogos e encontros instrutivos sempre terminam dessa maneira, e não obstante o inconcebível número de visões de outros mundos - com ocasionais reduções do sentido que tenho da importância resultantes, em contraste com a vastidão cósmica que se desdobra diante dos meus olhos mentais - a despeito de tudo isso, essa luz viva do conhecimento parece despertar as mais pequenas porções do meu ser e brilhar de forma cálida através da janelas transparente cada vez maior que se abre na mente.
Após cada experiência dessas, sinto-me tipo uma jovem planta psicológica que está a ser tratada com cuidados à sombra enquanto se expões gradualmente à luz do dia real, quando anteriormente supunha que a sombra representava toda a luz do mundo. É como se uma cortina tivesse sido posta ligeiramente de lado , de modo que depois não me sinta diminuído pelas visões que me tinham sido dadas, digamos, pelos filósofos. Irracional quanto possa parecer, por vezes interrogo-me se essas visões de certo modo não representam modelos psíquicos de uma realidade tão distante da minha quanto uma semente está para todas as gerações da sua progenitura. Será possível, por exemplo, que me estejam a ser mostradas imagens dos meus estágios completos?
Claro que eu hesito chegar a tais conclusões mesmo por tentativas. Contudo, estou igualmente bem certo de que existe uma ligação entre mim próprio, conforme eu sou, e as imagens que me estão a ser mostradas. Ocorreu-me que porventura os meus pensamentos moldem tais formas e padrões noutros níveis que não no meu; que todos os nossos pensamentos na realidade se encaixam quais quebra-cabeças eternos massivos, que atingem um outro tipo de existência que não a nossa, um outro tipo de percepção; que existem civilizações de "gente-pensamento" cuja realidade parece bem normal e natural para ela, conforme a vida terrena me terá parecido a mim, e ainda parece a vós.
Nesse caso veria universos-pensamento em que os meus próprios pensamentos tomam parte, por de facto não ter qualquer ideia para onde se dirigem os pensamentos quando deixo de os formular. Percebo isso como visões de sociedades povoadas e culturas de uma variedade infinita, objectivos, ciências e artes; nos meus termos, tanto da cultura como do passado, e de épocas paralelas que parecem brotar como estrelas cadentes de um dado momento. Na posição em que me encontro, sei que melhor será que não me interrogue se essas serão realidades físicas, correntemente operacionais. A questão parece-me ser - em que contexto estarão esses mundos operativos, e estarão eles ligados a mim? Eles poderão, uma vez mais, representar configurações mentais, aparentes em termos representacionais para minha própria edificação. Por vezes acho que sinto da forma como imagino que uma simples célula sinta, caso subitamente lhe revelassem uma visão do corpo inteiro na sua forma inteira; como se um óvulo pudesse vislumbrar a forma humana agigantada que brotasse do seu próprio desenvolvimento natural.
Estar-me-ão, pois, por alguma forma ainda desconhecida a mostrar um padrão que represente a própria forma de adulto futura que virei a ter, só que numa escala inteiramente diferente; um equivalente mental do que na terra sejam processos normais de crescimento, mas que ocorram num meio mental, psíquico e espiritual?
Eu pensava que a vida na terra representava enigmas, mas os conceitos problemáticos (estimulantes) que vislumbro afeiçoam-se-me estonteantes. Por exemplo, vez por outra vagamente quando tais visões me são mostradas, sinto uma identificação de mim próprio ou de partes de mim próprio com as imagens espiraladas que vejo. Contudo, quando procuro localizar com exactidão a identificação, ainda o sinto, só que sem que seja capaz de o localizar em mim próprio. Quero dizer, a associação não parece estar envolvida, no entanto, subsiste um sentido irresistível familiar de natureza a mais íntima, a par de uma igualmente reverência estranha, por as configurações representarem uma grandiosidade e uma complexidade que é impossível compreender por completo.
Para tornar as coisas ainda mais complicadas, também sinto que essas visões (reveladas durante os encontros de instrução ou aprendizagem) também representam civilizações válidas do conhecimento dos vários filósofos, de modo que as imagens parecem representar alguma expansão ou desenvolvimento dos pensamentos em realidades discretas. Reflito nessas experiências depois das sessões terminarem, e por fim fico com as minhas ideias confusas quais nuvens a afastar-se de mim e a mudar de forma à medida que as perco de vida.
As nuvens mudam de forma, é claro, ao se misturarem com a atmosfera terrestre, e transformam-se em produtoras de chuva ou de neve, e embora a sua aparência exterior possa ser calma, ventos de enorme intensidade podem começar a rodopiar por dentro; e embora pareçam suficientemente sólidas quando vistas do chão, as suas formas desvanecem-se mais ou menos numa névoa e a sua solidez aparente cede, pelo que também me ocorre que, como as nuvens se combinam em diferentes padrões, em diferentes formas, e provocam condições diferentes, talvez os pensamentos operem da mesma forma.
Devem ter-me passado inúmeras ideias pela mente, contudo recordo apenas a pequena percentagem e identifico-me, evidentemente, com aquelas que mantenho como penhores relativos a mim, por providenciarem um sentido de continuidade. Mas depois dos meus encontros instrutivos, pressinto igualmente outras ideias, igualmente minhas a zumbir ao meu redor, agrupadas sob determinadas formas se bem que não num contexto de tempo: acham-se igualmente presentes ou igualmente não presentes. Parecem formar configurações, pelo que me interrogo se serei, de forma completamente inadvertida, o centro psicológico de muitos mundos.
A assembleia de filósofos poderá passar por uma experiência similar, mas eu suspeito que não. Creio que eles sejam os professores, por assim dizer. Eles são atenciosos, contudo, cabe-me a mim responder a estas questões, e os outros filósofos simplesmente fornecem o meio através do qual a compreensão poderá ocorrer. Embora eu pareça o único estudante presente, senti frequentemente a existência de outros, tão invisíveis para mim quanto eu para eles. É como se estivéssemos cada um provido de um cubículo de aprendizagem separado - talvez para concentrarmos a nossa atenção. Tenho a ideia de que há gestos mentais comparativamente simples que me habilitem a ver os meus camaradas de aprendizagem - maneiras de espreitar por cima ou por baixo das paredes psicológicas que nos separam - mas até agora tenho estado demasiado absorvido nas minhas próprias experiência para o tentar.
Também deveria ser compreendido que estou unicamente a descrever as minhas próprias experiências. Num ambiente terrestre, suponho que isto representasse uma escola para filósofos. Outros poderão pouco se importar com este tipo de desafio com que me estou a deparar e ficar rapidamente maçados com a contemplação das complicações que surgem de tais combates filosóficos. Há outros que mergulham em vez disso em relacionamentos de carácter mútuo, e que realçam as inumeráveis interacções emocionais possíveis, e as tecem em diversos tipos de existência e formam ligações psicológicas multidimensionais com outros. Tais diligências têm o seu próprio sabor porém encontrariam em mim um estudante impaciente.
Também poderá ser que a diferente matéria e escolas de investigação sejam apenas várias inclinações ou enfoques em que o mesmo material seja apresentado, concebidos nos termos do interesse principal dos estudantes e assim adaptado de forma a captar-lhe a atenção. Consigo imaginar um psicólogo qualquer amável, astucioso a afagar uma barba vivaz e a dizer aos seus associados: "Aqui o James imagina-se um filósofo pelo que lhe vamos dar o gosto a conhecer, não é?" Se assim for, terei abocanhado mais do que consigo mastigar.
(continua)

Sem comentários:

Enviar um comentário