quinta-feira, 13 de julho de 2017

TESTEMUNHO DE LUZ

TESTEMUNHO DE LUZ

uma mensagem de triunfo da esperança, uma mensagem do sentido do homem, da vida e da verdade. um humilde testemunho da progressão do espírito pelas esferas da eternidade, que na Terra precisa ser "preparado."

O RETORNO

Frances Banks morreu da mesma maneira que viveu, plenamente consciente do que estava a fazer, e do lugar para onde esperava ir. Recusou-se a tomar drogas até ao último instante, suportando a dor com coragem. No final, disse que estava a ver entidades encarnadas e desencarnadas no seu quarto. Colocou os seus assuntos materiais em ordem e disse adeus aos amigos que se encontravam suficientemente próximo para a visitar. Deixou atônito o doutor escocês que a tratou no final, dizendo-lhe alegremente, um dia ou dois antes e entrar em coma:

“Até logo, doutor. Eu o verei no outro mundo!”

As corajosas palavras que me dirigiu: “Vocês sabe, eu estou com cancro. Não me vou refazer disto,” indicavam que tinha aceite e que se encontrava pronta para a fase seguinte. Ansiava mesmo por isso, porquanto aqueles que cuidavam dela me contaram que ela despertava pela manhã e suspirava:

“Ainda aqui estou? Tinha esperanças de já ter partido.”

No final a sua respiração tornou-se difícil e ela mergulhou na inconsciência. Contudo, pelo breve espaço de um segundo ela se arrastava de volta e então falava normalmente e de forma controlada. Isto foi ilustrado por um doloroso incidente ocorrido na véspera da sua morte, que demonstrou claramente a consciência que tinha de si mesmo como uma alma e também como uma mente e um corpo; mas uma alma e uma mente que continuariam a viver numa outra dimensão, depois que tivessem abandonado um corpo doente.

Creio que esta história tem aplicação na segunda parte do livro, na qual a mente de Frances é capaz de impressionar a minha e, desse modo, dar prosseguimento à mensagem que ela tão ansiosamente desejava transmitir, a mensagem da certeza da continuidade da vida e do progresso da alma.

Frances entrara e saíra do estado de coma por quase dois dias quando recebi, pelo correio da manhã, uma pequenina garrafa com água. A acompanhá-la vinha uma carta a revelar que esse pequeno frasco de água tinha sido trazido da Fonte de Lourdes. Seria eu capaz de ungir a Frances com ela? Poderia dar-se um milagre. Em todo o caso, isso ajudaria.

Pedi permissão para dar seguimento a tal desejo e ela me foi concedida. Apanhei a garrafinha e, tendo sido avisada de que a nossa paciente se encontrava em coma ou adormecida, entrei no quarto em bicos de pés. Frances estava apoiada sobre travesseiros, enferma e mirrada. Tinha os olhos fechados. Salvo pelo esforço que fazia para respirar ela estava absolutamente imóvel. Fiquei parada aos pés da cama durante alguns instantes, a observá-la. Lentamente, os seus olhos abriram-se e neles surgiu um clarão de reconhecimento. Depois as suas pálpebras voltaram a fechar-se.

Inclinando-me sobre ela, sussurrei:

“Frances, isto é água benta, vinda de Lourdes.” Com a água fiz o sinal da cruz na sua testa, nas almas e nas costas das suas mãos. Frances deixou apenas escapar um queixume. Fiquei a seu lado e silenciosamente orei para que ela pudesse partir em paz para aquela nova vida que esperava tão ansiosamente. Depois de um minuto, sem abrir os olhos, ela murmurou em voz indistinta:

“Está tudo bem, minha amiga. A mudança já começou.”

Depois, mergulhou de imediato na inconsciência. No dia seguinte, à hora do almoço, ela simplesmente parou de respirar. A sua alma se fora nessa sua nova peregrinação.

Durante o serviço de cremação, que foi oficiado pelo Reverendo Richard Hall, muitos dos que a pranteavam tiveram percepção da presença dela.
No serviço em sua memória, realizado em Londres, que foi conduzido pelo Reverendo Cônego J.D. Pierce-Higgins, M.A.: Hon. C.F., vice presidente da Associação das Igrejas para os Estudos Psíquicos e Espirituais, eu a “vi” o seu hábito de freira e acompanhada por sua querida Madre Florence, uma antiga Madre Superiora da Ordem. Isso foi posteriormente confirmado por outras pessoas presentes, que a tinham igualmente “visto” e que mencionaram o hábito da Ordem, na qual ela parecera estar vestida.

Depois da morte dela senti-me isolada de todo o contacto espiritual. Durante várias semanas achei muito difícil meditar, ou até mesmo refugiar-me na quietude da alma, por qualquer espaço de tempo. Então, certa noite, um domingo, cerca de três semanas depois da morte de Frances, enquanto me encontrava sentada sozinha junto à lareira, a ouvir música pelo rádio, pouco a pouco tomei consciência de uma presença. A atmosfera parecia estar impregnada de uma enorme quietude e reinava um silêncio de expectativa. Desliguei o rádio e relaxei, entregando-me a essa paz. Não me ocorreu qualquer pensamento de um possível comunicador vindo de um outro mundo. Nenhuma palavra foi pronunciada na minha mente. Eu estava muito calma e em repouso. Lentamente, tive a impressão de que todo o meu ser fora atraído para uma paz e uma beleza que não posso descrever. Essa beleza encontrava-se tanto ao meu redor quanto dentro de mim. Quase imperceptivelmente passei para um estado de meditação profunda na qual tive consciência de estar mergulhada na luz. Eu fazia parte da luz; contudo, a luz fluía de algum ponto além de mim. Senti unidade com tudo o que era mais elevado e perfeito e com o ser eterno que existia dentro de mim. Senti a proximidade de presenças espirituais. Fui velozmente arrastada para uma meditação na qual Frances e eu tínhamos participado alguns anos antes. Ouvi até mesmo a minha mente a repetir as invocações que tinham sido empregues nessa meditação.

Suavemente e com uma enorme reverência veio-me a compreensão de que não estava somente em contacto com a minha própria alma imortal, mas, também com a alma de Frances Banks.

Aquilo foi comunhão silenciosa, calma, inspiradora; uma comunhão desprovida de todos os desafios da personalidade, de todas as limitadoras concepções humanas. Aquilo foi comunhão ao nível da alma. Senti que era arrebatada para fora de mim mesma, elevada para o milagre, o amor e a luz.

Esta experiência durou cerca de meia hora. Depois, lentamente, desapareceu. Fiquei sentada numa paz absoluta, sem quaisquer pensamentos a atravessar-me o silêncio da minha mente. Nem sequer tentei analisar o que tinha acontecido neste momento imortal; sentia-me feliz por “existir.”

Foi somente mais tarde, quando já tinha ido para a cozinha e estava fazer café, que uma alegria tal como jamais sentira me inundou a mente. Dei por mim a dizer em voz alta, maio atônita, porém, mergulhada em contentamento:

“Aquilo foi a alma e Frances e não só a mente dela. Nós nos comunicamos ao nível da alma...”

Foi alguns dias mais tarde que senti a mente de Frances a invadir-me a minha, coo o fizera com frequência nos tempos em que estivéramos juntas. Escorreram palavras para dentro dos meus pensamentos, palavras que não vinham da minha consciência. Eu soube que a sua mente desencarnada e a minha mente encarnada tinham-se novamente unido, em comunicação telepática.

Frances tinha algo a dizer! Ela desejava transmitir a sua mensagem. Eu fora o seu “Telefone Celestial,” conforme ela dizia. Poderia haver algo mais natural do que ela agora querer falar, em vez de apenas ouvir? Ela agora encontrava-se numa posição em que poderia “ver um pouco mais além” – eu sabia por experiência pessoal adquirida no convívio com ela, que Frances nunca desperdiçava um minuto quando podia estar a tratar dos assuntos do seu Pai. Agora que ela evidentemente recuperara a consciência e a percepção, depois da mudança para a sua nova vida, o seu primeiro desejo ardente seria o de fazer com que todos soubessem do que estava a acontecer: mandar de volta, em primeira mão. Agora ela teria possibilidade de demonstrar a vida futura, sobre a qual tinha escrito e falado; podia fazer, com autoridade, comentários sobre o assunto que lhe fora tão caro; a realidade da Vida Eterna; o progresso contínuo do espírito...

Sentei-me, apanhei a minha caneta e comecei a escrever. Palavras, pensamentos, sentenças, precipitaram-se sobre o papel. Foi quase como se eu estivesse a escrever um ditado. Aquilo, porém, não era escrita automática, Eu tinha perfeito controlo de mim mesma e conseguia sentir que a mente dela estava a usar a minha. Aquele foi um esforço composto. A sua mente “inspirou” o assunto, as experiências e, mais tarde, as histórias dos seus companheiros de viagem na Vida do Além.

Ela explorou as potencialidades da minha mente e capacitou-me a empregar a arte de escrever, que eu tinha aprendido no meu trabalho jornalístico. A impressão que tenho é que essa parece ter sido a associação perfeita, de mente com mente, que jamais tínhamos alcançado verdadeiramente, quando ela se encontrava no corpo terreno. As reaccões do Reverendo Bertram E. Woods, Secretário Honorário da Associação das Igrejas para Estudos Psíquicos e Espirituais, que leu o manuscrito, tornaram esse facto ainda mais claro para mim.

Num período mais avançado da elaboração dos textos, Frances explicou que ela própria estava a trabalhar com um grupo, ou associação, e que estava a receber inspiração, desse grupo, para que esta transmissão das suas impressões acerca da Vida no Além fossem transportadas para um livro.

Posteriormente, quando me acostumei mais com o método, fui capaz de fazer uma pergunta e de receber uma resposta imediata. Escrevia durante uma hora, mal erguendo a caneta da página. Quando li o que escrevera, do início até ao fim, o espanto que sentia aumentou ainda mais diante dos assuntos sobre os quais tinha escrito. Sem esforço e sem pesquisar decididamente a minha imaginação limitada, eu não poderia ter inventado histórias tais como as que eram vertidas por meu intermédio

Uma e outra vez a minha caneta escreveu. Mal foi feita qualquer correcção em todas as centenas de palavras escritas, embora eu não tivesse nunca noção daquilo que ia escrever. Contudo, a minha vida prosseguiu com bastante normalidade. Continuei a visitar os meus amigos, diverti-me a assistir à televisão, li, fiz compras, passeei de automóvel pelo campo e não tive consciência de quaisquer comunicações pessoais vindas de Frances, entre as sessões. Em determinadas ocasiões foi apenas como se eu tivesse apenas registado e traduzido os seus pensamentos.

Contudo, quando li alguns dos textos, em voz alta, para uma amiga que morava nas proximidades, fiquei tão espantada quanto ela diante do facto das histórias perecerem tão novas e curiosas; como se eu nunca me tivesse ocupado em escrevê-las.

Durante esse período, porém, eu tinha perfeita consciência de que estava a “ser coagida” a prosseguir com o trabalho, até que ela tivesse comunicado tudo o que queria. A persistente dedicação de Frances ainda estava em evidência – e eu era a pessoa mais habilitada para fazer o que ela desejava e para realizar aquilo que, segundo eu podia perceber, ela sentia ser a coroação da sua missão terrena. Por conseguinte, a sua atenção tinha-se concentrado em mim. Devo admitir que me acovardei ao visualizar a publicidade que viria, pois sabia que a intenção dela era a publicação. Muitas vezes fiquei a imaginar de que modo iria encarar as críticas e o possível ridículo que um tal livro despertaria...

Mas a poderosa vontade de Frances persistiu; como sempre, a vontade ao serviço de Deus. Estas revelações poderiam ser publicadas no mesmo espírito de serviço com que tinham sido manifestadas. O seu dedicado Ser arredou para o lado todos os obstáculos que eu poderia colocar no meu caminho.

“Muitos poderão ridicularizar,” insistiu ela, “mas se ao menos uns quantos conseguirem fortalecer a mente e forem ajudados a viver próximos da Realidade, então a nossa parceria não terá sido em vão.” Com isto devia dar-me por satisfeita.

A experiência daquele domingo de comunhão de alma para alma não se repetiu; na verdade, esta deve ser uma ocorrência rara e eu fui deveras abençoada por tê-la conhecido ao menos uma vez. Mas as comunicações prosseguiram e agora encontram-se aqui, sobre a minha escrivaninha, dactilografadas para publicação.

Frances, porém, provou muito mais do que a comunicação. Mostrou a possibilidade daquilo que sempre advogara com tanto fervor, que a comunicação psíquica e a comunicação espiritual são apenas níveis diferentes de uma espiral; que a comunhão do espírito se situa, por conseguinte, num nível mais elevado do que o nível de interpenetração psíquica ou da percepção extrassensorial; que ambos os métodos serão demonstrados na Nova Era que agora se aproxima; e que a comunhão mais elevada será aberta por intermédio da meditação e do contacto com o centro profundo do homem.

Frances sempre acreditou nisso. Ela achava-se convencida do facto da comunhão com os mundos espirituais e da realidade do ser superior existente em cada um de nós. Confiava implicitamente na sobrevivência da mente e da personalidade após a morte, e tinha reverente percepção do espírito interior que a impelia a prosseguir – o “Cristo em nós,” da Cristandade.

Ela sempre lutara por uma brecha por onde pudesse chegar ao espírito, e com isto não me refiro unicamente à comunicação psíquica. Ela acreditava que através da meditação, do retiro no nosso centro profundo e do descobrimento do lugar de silêncio da alma, podíamos entrar em comunhão com almas avançadas; seres elevados, grandes seres a quem chamamos Santos. Esta é a verdadeira comunhão dos Santos; a União com a Divina Companhia dos Céus, resultando numa nova e intuitiva percepção da Unidade e em inspiração para uma vida radiante. Essa, segundo ela sentiu, era a mensagem para a Nova Era, dentro da qual estamos todos a emergir; uma extensão bem maior da consciência do homem de modo que até mesmo durante a limitação da vida terrena ele pode penetrar na beleza dos mundos espirituais e deles receber inspiração. Frances também realçou que o homem deveria compreender e aceitar o seu lugar no esquema divino. Acreditou fervorosamente, juntamente com o pensamento avançado de Pierre Teilhard de Chardin que, conforme ele expressou, “Coexistente com o exterior das coisas, existe um lado interior para elas.” Também acreditou que o último inimigo a ser destruído é a Morte.”

No depoimento que se segue, Frances continua a sua missão. Nele ela mostra a sua experiência da morte e a mudança para uma nova concepção de vida, ilustrando isso com pungente histórias sobre os efeitos da mudança da morte em outras pessoas com quem entrou em contacto. Ela nos concede, generosamente, os conhecimentos que tem do progresso da alma, para fora, para cima e para diante, rumo à Divindade.

OS TEXTOS

5 de Dezembro de 1965, 8:30

...Foi-me possível vir até você; o seu marido, que se encontra aqui, foi quem me trouxe. Sim, eu o conheço bem agora. Sempre senti que possuía uma semelhança com ele, mesmo quando eu ainda me encontrava na Terra. Vocês lembra-se? Gosto dele. Ele possui um enorme sentido de humor, uma espécie de graça irreprimível. Vocês dois devem ter apreciado a companhia uns do outro...

Agora encontro-me numa espécie de casa de repouso que é dirigida pelas irmãs da Comunidade a que pertenci quando encarnada. As irmãs são bondosas e gentis comigo. Agora estou deitada numa cama, num terraço bem alto que dá para uma vasta planície ensolarada. É um cenário tão lindo e repousante... Estou a recuperar-me da doença que provocou a desintegração do meu corpo físico. Sinto-me tranquila e em paz. Ficarei aqui... Na verdade já disse a Madre Florence que quando estiver preparada quero trabalhar aqui, com ela...

As almas são trazidas para cá, da terra e de outros lugares (Mas eu não sei muita coisa sobre esses lugares) – quando elas se encontra preparadas. Aqui elas são “nutridas” e tratadas, tal como eu estou a ser... depois que me tiver ajustado a esta vida creio que ficarei aqui e que ensinarei como as irmãs, se elas me quiserem! E se eu puder ser realmente útil... Veja bem, quando eu própria tiver aprendido mais, a minha “psicologia terrena,” juntamente com as explicações acerca dos estágios de progresso mais avançados, ela será muito proveitosa. Como irei gostar de relacionar as duas “psicologias” em quaisquer aulas particulares que tiver ou palestras individuais! Vai ser quase o mesmo que retornar para o trabalho que fiz entre os prisioneiros na Prisão de Maidstone, só que, naturalmente, num nível diferente... Aqui não existe confinamento compulsório nem castigo, excepto aquele que nós impusermos a nós mesmos! É claro que podemos entrar e sair... mas começo já a compreender que só podemos sair para um outro lugar quando estivermos prontos...

Estou tão contente por poder continuar a trabalhar. Gostamos de ser úteis, e como você muito bem sabe, sempre amei o meu trabalho. Sinto que aqui, mais tarde, poderei dar um bom uso a muito daquilo que experimentei. Isso será igualmente bom para mim...Sempre fui uma professora, por natureza e por inclinação, e torna-se numa enorme alegria saber que podemos exercitar as habilidades nesta nova vida. Também me fará bem fazer um trabalho, como tarefa, num lugar onde ninguém me notará. Cuide-se de não ser demasiado notada... Aí se oculta a tentação...

Encontrei o Padre Joseph, o nosso “Dominicano.” Ele é uma pessoa maravilhosa. Parece irradiar tanta bondade, amor e força. Logo que o vi lembrei-me imediatamente da descrição que você fez quando o viu pela primeira vez, por meio da clarividência... “pernilongo.” É verdade, o seu corpo é alto e descuidadamente estruturado. Estava a usar o mesmo hábito marrom com um cinto vermelho, exactamente como costumava usar quando entrei em contacto com ele pela primeira vez, na qualidade de Sacerdote do nosso retiro, na Comunidade.

Tentarei contar-lhe o que sucedeu.
Depois que a mudança tinha terminado e eu me encontrava livre do meu “envoltório” terreno, “Acordei” aqui, neste hospital da Casa de Repouso. O meu quarto não tinha paredes e a luz do sol parecia jorrar sobre nós durante o tempo todo. Abri os olhos... ou voltei à consciência... e ali estava Madre Florence, exactamente como fora e como eu a relembrara durante tantos anos.
Ela segurou-me a mão, e disse: Então você chegou bem?”
Mas eu devia estar muito, muito cansada, pois não consigo lembrar-me de quase mais nada. Creio que tornei a adormecer.

Muito tempo depois... a mim me pareceu que tenha sido muito tempo depois, encontrei-me aqui deitada, a olhar para este cenário calmo e lindo que me rodeia.
De repente “tive conhecimento” de que alguém se encontrava a meu lado. Olhei em torno e ei atenção a esta nova ideia. Ali estava o Padre Joseph, exactamente com eu sempre o recordara. Sentou-se junto a mim e pegou na minha mão entre as suas.
“Bom, irmã?”

Isso foi tudo. Apenas “Bom irmã?”, como se ambos estivéssemos de volta ao meu escritório no colégio, na África do Sul. Senti que irradiava um enorme poder e força. Creio que devo ter chorado... tudo era maravilhoso demais... Ele não falou muito, ou eu encontrava-me demasiado cansada para despertar atenção. Creio que tornei a mergulhar no sono. Quando reuni de novo os meus pensamentos para falar com ele – ele se fora...
Mas tornará a voltar. Agora, Madre Florence me diz que ele vem visitar os seus pacientes com muita frequência. Ah! Mas eu não serei uma paciente aqui por demasiado tempo, você sabe!

Tão logo me consiga reorientar o suficiente, estarei a leccionar ou a tutelar de novo. Esse é o serviço que posso prestar. Já estou a aprender tantas coisas. Descobri que posso usar telepatia nos dois sentidos, para receber e para transmitir. Aqui não existem as dificuldades que experimentamos da Terra, mas todo o tipo de possibilidades excitantes. De facto ou já capaz de entrar em contacto com a sua mente, e o que é mais importante, manter esse contacto de modo a derramar ideias sobre você! Isto apresenta possibilidades infinitas...

Tentarei vir ao seu grupo. Sei que vocês se estão a reunir... Parece que aqui se sabe de tudo... agora devo interromper... falarei consigo de novo... Começo a conhecê-la de uma forma absolutamente diferente... vejo a sua luz.

Mais tarde

Lembra-se do que eu disse certa vez, quando estava no corpo, para um preso, em Maidstone (a seguir a uma discussão sobre a possibilidade de vida após a morte)? “Um minuto após a sua morte você será exactamente o mesmo!” Lembra-se também, de que essa mesma afirmação foi a primeira mensagem psíquica que você me deu? Você disse o nome do prisioneiro – que morrera logo após a minha palestra, sem que tornássemos a encontrar-nos – e disse: “Ele quer que eu lhe diga que as últimas palavras que lhe dirigiu são absolutamente verdadeiras...”

Bom, torno a repetir essa declaração (agora que também completei a transição), concordando plenamente com tudo o que ela implicava. Porquanto o que sucede é isso mesmo. Tão logo pude recobrar um estado mental consciente, após ter deixado o meu corpo estropiado, reconheci que era a mesma em essência. De facto senti-me leve, e sentia uma nova sensação de liberdade que me deixou atordoada...

Eu era a mesma... contudo, não era a mesma! Num clarão de percepção decidi que devia estar surda que nem uma pedra, pois já não podia ouvir nenhum dos ruídos habituais da vida quotidiana, a conversa e o movimento dos seres humanos em torno de mim;o apito dos trens, o chilrear dos pássaros... nesta nova consciência não havia ruídos. Uma das minhas primeiras reminiscências foi: “Ainda estou consciente. A mudança aconteceu... mas eu não consigo ouvir, e também não posso ver!”

Durante um certo tempo pareceu que eu perdera a minha identidade... Lembro-me de ter empreendido esforços ansiosos para perfurar através deste novo estado a fim de fazer voltar as lembranças.

“Quem sou eu? Que foi que eu fiz?”

Foi uma experiência estranha, quase assustadora, pois o nome que eu tinha usado por mais de setenta anos agora me escapava... Finalmente, recordo ter dito a mim mesma para “desistir e dormir” e, de certo modo, devo ter feito isso mesmo. Por fim a consciência abandonou-me e não me lembrei de mais nada. Não tenho qualquer meio de saber quanto tempo terá isso durado... talvez um período bem curto, em termos de tempo terreno.

Quando, porém, recobrei a consciência, foi como se me estivesse a arrastar para fora de um tênue mar de prata... Estes são os únicos termos que posso usar na descrição da experiência. E o primeiro rosto que vi foi a face sorridente da minha Mãe na religião – Madre Florence. Fiquei tão emocionada que não consegui falar... Daí em diante recordo a impressão de ter alternado entre o estado consciente e o inconsciente... Mas agora descobrira que me encontrava deitada num pórtico aberto, com uma paisagem de azul e prata a espraiar-se diante de mim... Tal beleza, que estava para além das palavras, acalmou-me o espírito. A preocupação, a ansiedade e toda a sensação de perda desapareceram e fui envolvida por um enorme sentimento de paz.

“É isso,” afirmei a mim própria cheia de assombro: “Eu fiz A Mudança!” Logo percebi que conseguia ouvir e enxergar como antes, só que agora de uma forma mais intensa. No mesmo instante pensei: “Gostaria de saber se posso chegar ao outro lado.” Preciso contar à Helen sobre isto...”

Mais tarde, quando me acostumei mais a esta nova consciência, pude comungar (não posso explicar isto por meio de nenhum dos nossos antigos termos) com Madre Florence e com o Padre Joseph. Quão encantada fiquei ao me encontrar com eles, e por ver que o Padre Joseph ainda era a mesma alma esplêndida e sábia que eu conhecera nos meus dias na Comunidade... Ele estava, de certo modo, em condições de me ajudar muito... Ele me transmitiu confiança.

Senti-me como se estivesse a convalescer dos efeitos da dolorosa doença terminal que me vitimara. Nos meus pensamentos surgiu a percepção de uma “aura” de tristeza ao meu redor. “Eles estão a queimar o meu corpo,” disse para mim mesma. De imediato fui assaltada pelo intenso desejo de estar nessa cerimónia solene, com todos aqueles amigos que eu tinha amado e com todos os que me tinham amado.

De um modo inexplicável, e sem dúvida em consequência do desejo ardente que sentia, pude estar presente com todos vocês em mente e em consciência, ao mesmo tempo que permanecia aqui deitada, nesta luz prateada. Fiquei a imaginar se as viagens astrais se assemelhariam a isto... Foi uma experiência maravilhosa.

Eu vi-os a todos... Senti-me grata para com todos os que tinham viajado até Maidstone para estarem presentes nestas últimas cerimónias. Regozijei-me com a beleza das flores. Tive vontade de chorar diante da interpretação mística de Richards, da mudança que me separou (embora apenas temporariamente) de todos vocês. Senti uma imensa vontade de dizer “obrigado” a todos aqueles que tornaram confortáveis os meus últimos dias na Terra. “Li” os pensamentos de Bertram Woods, de que a Associação estava a perder uma incansável trabalhadora. Senti-me exaltada na mente e na alma, por estarem a sentir saudade de mim, por constatar tanta afeição, e por Richard, de uma forma sábia estar a fazer disso u adeus cheio de esperança, desprovido do peso sombrio da amargura e sem a mágoa que me teria entristecido e perturbado.

Então, do mesmo modo inexplicável com que eu me tornara parte destas duas cenas, tudo desapareceu. Eu encontrava-me aqui deitada em paz.
“Então, isto é a morte?” Lembro-me de ter dito para uma das irmãs que se encontrava a meu lado: “Vida separada por densidade – apenas isso!”

Senti-me cheia de entusiasmo. Agora sabia que podia “sintonizar-me” com o plano terreno e até mesmo vê-lo, caso o desejo fosse suficientemente forte para desagregar a barreira existente entre o vosso mundo e o meu novo mundo. A possibilidade dependia de mim... Compreendi que esta tinha sido a minha primeira lição... Agora eu habitava num reino de pensamento; e tal poder de pensamento, quando correctamente utilizado, pode penetrar o plano denso que é o mundo da habitação humana. Não tinha a impressão de que partira realmente para um país longínquo... Ainda conseguia manter contacto. Com essa abençoada sensação de consolo, devo ter flutuado novamente, ou mergulhado num estado de passividade.

A experiência seguinte veio com um forte pensamento – Exeter! Mais uma vez estava consigo em espírito, na imensa Catedral onde o pequeno grupo de pessoas reunidas para me relembrar quase fora engolido pelo enorme edifício vazio. Desta vez fui menos emocional. Fui capaz de participar de uma forma mais objectiva. A minha mente pôde apresentar a sequência do serviço religioso... Senti-me humilde como nunca diante da bondade das almas agrupadas naquela capela, da oração, excelentemente concebida, do Coronel Lester, da “aura” construtiva das formas de prece e também da fé que foi expressa naquele culto em minha memória.

Esta é uma mudança que vocês todos farão (alguns muito em breve) e então a Verdade se fará visível! lembro-me de ter pensado. Quanto desejei materializar-me diante de vós, para mostrar que não existe morte; mas isso estava além dos meus poderes...
Na ocasião em que o serviço religioso em Memória foi celebrado, em Londres, eu já havia progredido o bastante, neste método da extensão da consciência, para fazer com que a minha presença fosse conhecida por aqueles que podiam abrir as suas mentes para esta nova dimensão de pensamento. Senti que certos dos presentes me “viram” ou tiveram “percepção” da minha presença com as Irmãs. Para mim, isso foi enaltecedor e reconfortante...
Relaxei nesta paz. A minha existência agora prossegue, numa escala de vida mais plena e abundante...

12 de Dezembro

...Ainda permaneço na Casa de Repouso, embora agora esteja a ocupar um “chalé” que é só meu. É um lugarzinho adorável e tranquilo que tem um jardim muito bonito (dentro em breve falarei mais nele). Naturalmente, ainda pertenço à Casa e volto para lá com frequência. Tenho mantido longas conversas com a Madre Florence e com a irmã Hilda e a Irmã Mary. Elas dão-me explicações acerca desta nova aventura; porquanto isto é uma aventura; é o que sinto com respeito a esta nova vida que agora estou a viver. Ela é uma aventura... provavelmente, não permanente... pois nada é permanente, nem mesmo aqui! Mas é verdadeiramente estimulante e muito satisfatória. Posso descrever esta fase como um período de “prolongamento da mente.”

Você lembra-se de como, nos últimos anos, costumávamos conversar e conversar, debulhar aspectos da experiência, discutir e planear o trabalho futuro? Isso geralmente aconteceu, lembro-me, numa manhã de domingo com respeito ao “cozinhado” da nossa velha caldeira. Bom, naquela época encontrávamo-nos as duas na parte externa da experiência... a olhar para dentro. Agora o problema acha-se invertido. Eu encontro-me do lado de dentro, a olhar para fora.

Ainda tenho as mesmas experiências, os mesmos problemas, as mesmas esperanças, e tenho aspirações de trabalho muito maiores e mais amplas; só que agora posso vê-las de uma ângulo completamente diferente, e com uma compreensão muito mais esclarecida. Agora estou a começar a perceber o significado de muito daquilo que me aconteceu. Vejo tudo como um Desenho em segundo plano. De algum modo, estou a começar a compreender os efeitos dos meus pensamentos e a observar os acontecimentos que foram motivados por estes mesmos pensamentos e ideias.
Este, de facto, é um exercício que nos deixa sóbrios.

Quando nos encontramos no corpo somos tão limitados pelo ambiente, pelas emoções e pelas dificuldades, que se torna difícil julgar de forma acurada tais resultados como sendo uma possível consequência do planeamento, e quando tentamos estimar o seu valor, com muita frequência erramos porque nós mesmos (nossos pequeninos “eus” egoístas) nos interpomos no caminho e desviamos o Propósito. Aqui vivemos muito mais nos domínios da Mente. Conforme reflectimos sobre uma experiência ou um Objectivo, a mente alonga-se para ver todos os lados do problema. Esta é uma experiência nova e nem sempre agradável ou excitante. Parece-se mais com uma reacção e cadeia; muito mais poderosa e autêntica do que a velha associação de ideias da psicologia terrena. Aqui, conforme pensamos... assim somos. Tentarei tornar isto mais claro.

Naturalmente, não somos coagidos a fazer uma revisão da nossa vida terrena, tão logo aqui chegamos e a nova vida tem início. Alguns levam imenso tempo a atacar o problema, por receio de se confrontarem com os efeitos os seus erros e fracassos...
Alguns dos nossos pacientes, aqui, ficaram “emperrados.” É neste ponto que eu, que também estou a passar por esse tipo de “psiquiatria” mental e espiritual, posso ajudá-los. Em parte foi por isso que me escolheram para ficar aqui durante um certo período. Ficarei aqui até que a minha própria trajetória tenha ficado clara (tanto a do passado como a de um possível futuro) e até que eu tenha podido rectificar os aspectos, na cadeia, onde falhei. As minhas experiências como professora e como religiosa, como psicóloga e coo pesquisadora esforçada da vida espiritual, são agora de enorme valia. Disponho de alguns conhecimentos que poderão (e às vezes conseguem) ajudar aqueles que sorem de uma timidez exagerada, que estão assustados ou que são perseguidos por um sentimento de culpa a tentar empreender esse trabalho por si mesmos. Além do mais você conhece o velho provérbio (você é professora) que diz que aprendemos ensinando. Agora estou justamente a fazer isso.
O método usado aqui é interessante e estimulante.

De algum lugar nas profundezas da nossa mente, duas “fotocópias” são trazidas à minha consciência. São tão nítidas que posso literalmente retirá-las, materializá-las e estudá-las. Uma é a Ideia Perfeita com a qual o meu espírito penetrou com bravura na encarnação. A outra é o resultado de um plano apenas parcialmente compreendido... na verdade, a minha vida conforme ela foi vivida realmente.

Para mim foi um choque, e uma experiência muito salutar, descobrir como esses dois planos foram extraordinariamente diferentes. Contudo, aprendemos tanto encarando os resultados... De certo modo, as fotocópias assemelham-se a mapas, com lugares coloridos, manchas claras e escuras e uma espécie de “sol” brilhante, a criar os relevos. Primeiro que tudo fazemos as comparações todas e colocamos as fotocópias lado a lado. Este é o primeiro choque; é uma verdadeira humilhação para si que descobre que fez tão pouco onde poderia ter feito tanto; que errou com tanta frequência quando se sentiu segura de que estava certa.

No decorrer desta experiência, o ciclo inteiro do seu período de vida desenrola-se diante de si, numa caleidoscópica série de imagens. Durante esta crise parecemos estar completamente sozinhos. O julgamento é seu; você encontra-se diante da barra do seu próprio tribunal. Você toma as suas próprias decisões. Você assume a sua própria culpa... Você é o acusado, o juiz e o júri.

É neste ponto que um boa quantidade de almas, que se encontram nesta Casa de Repouso, ficaram imobilizadas. As suas imagens eram por demais causticantes nas suas exposições. Portanto, tentamos ajudá-los nessa tarefa, mas somente quando já tenham formulado o “desejo interior” de corrigir os seus erros. Não sei o que lhes acontece enquanto tal decisão não é tomada, mas devo crer que sejam “prisioneiros do eu.” Tão logo se encontram preparados para se encararem a si mesmos de novo, são conduzidos para estas Casas lindas e tranquilas. Aqui as Irmãs devotam o seu amor e o seu pensamento, a sua perícia e a sua experiência ao auxílio dos “hesitantes.”

O segundo estágio desta recapitulação começa quando a alma se sente bastante forte e suficientemente calma para reformar a sua vida terrena round a round (por assim dizer). Então, as fotocópias tornam a ser trazidas para a mente; ó que desta vez tudo começa a partir do momento em que nos separamos do corpo. A mente trabalha lentamente, oh tão lentamente, recuando através das nossas experiências. (Não estou a confessar até onde cheguei neste exercício!) O que lhe digo é que agora você já não parece estar sozinha. “Alguém” se encontra a seu lado. Se é o próprio Espírito Superior ou algum Auxiliador, isso ainda não descobri. Só que agora, enquanto reflecte, soluciona, repassa, classifica e julga aquilo que fez e os resultados mais a razão deles (bons ou maus) você está gloriosamente “consciente” desse grande Ser a seu lado, a dar força, paz e tranquilidade, e a auxiliar com crítica construtiva. Embora às vezes angustiante, esta é uma experiência maravilhosa. Muito purificante e portadora de novas esperanças.

Muitos daqueles que se encontram aqui ficaram “especados” com as suas imagens iniciais. Por isso nós (as Irmãs daqui da Casa), tentamos estabelecer uma ligação com estes grandes seres e trazer ajuda para o nível dos que tropeçaram. A Madre Florence é maravilhosa nisso. Ela possui uma verdadeira técnica e é essa técnica que eu estou a tentar, não exactamente copiar, mas adaptar aos meus métodos particulares de trabalho.

Preciso contar-lhe a respeito do meu jardim. Sim, ele é muito lindo. E ainda pratico jardinagem! Não do mesmo modo que costumava ver-me ajoelhada a esgravatar no chão, enquanto pensava para si própria: “Lá está ela de novo; ela não devia fazer isso!” Não. Ainda fico ajoelhada, mas de uma forma diferente, e não para esgravatar o chão! (Isto tem um duplo significado!...)

Há um canteiro pequenino, no meu jardim, que resplandece com flores cor de ouro. Lembra-se as papoulas amarelas que flamejavam por toda a borda do eu jardim em Addington?... Bom, tenho um canteiro de flores (não são papoulas) do mesmo tipo, douradas e resplandecentes. Quer dizer, elas nem sempre resplandecem. Tenho que as manter a brilhar por meio da “jardinagem.” Isto é, derramar Luz e Amor dentro delas e sobre elas, quase do mesmo modo como se as regasse e nutrisse; e elas reagem (ou respondem) crescendo profusamente e cobrindo-se de uma gloriosa cor de ouro.

Você lembra-se do “Lugar Secreto” onde costumávamos fazer as nossas meditações? Chamo este canteiro dourado de meu “jardim secreto,” e alguns dos pacientes (aqueles que estão a tentar descolar no seu primeiro exercício de recapitulação) vêm para me visitar. Conversamos e depois eu os conduzo até o meu jardim dourado, e ali deitamos, relaxamos e entramos em “sintonia” com s pensamentos mais elevados dos Grandes Seres... Fico emocionada quando vejo alguns dos resultados.

Havia um homem numa das enfermarias. Ele tinha sido brutal e rancoroso com a sua esposa e com a sua família. E agora encontra-se encalhado. Passou um longo período, do tempo terrestre que você conhece (embora por aqui não exista tempo como tal) desde a mudança que fez para esta vida, amarrado aos lugares e às pessoas onde e sobre as quais a sua crueldade e rancor tinham sido exercidos. E agora ele está aqui, e está a tentar prosseguir. Mas o “rolo” do filme da sua vida o deixa apavorado; e ele ficou completamente imobilizado. Visita-me e conversamos e conversamos (tal como eu fazia com alguns presos na Prisão de Maidstone). Na última visita que me fez eu o conduzi até ao meu jardim secreto. Ele começou a relaxar. Pude “ver” isso. Um pouco da aura de medo e de remorso, que o aprisionava, começou a dissolver-se. Ele ficou lá deitado durante muito tempo, no meio daquela luz dourada, e quando saí para o ver, ele sorriu. Era o primeiro sinal de iluminação que eu tinha visto nele. Ele disse: “Oh, Irmã, sinto-me muito melhor. Posso voltar ao seu jardim de novo?”

Veja como este trabalho é feito!

Isso ajuda-me e ajuda outros, Pelo facto de este plano ser apenas alguns poucos degraus mais elevado do que o plano terreno, aqui temos condições, hospitais e prisões iguais às que existem nas vossas civilizações, só que aqui elas são construídas por nós próprios.
Tornarei a voltar. Deus a abençoe.

18 de Dezembro

Não, eu não queria deixar a vida terrena. Achava que o meu trabalho não tinha sido terminado. Tentei, o mais possível, ignorar a deterioração do corpo e orei para que me permitissem ficar mais alguns anos a fim de realizar os planos de espalhar, entre outras pessoas, um conhecimento tal como aquele que obtivera. Mas agora estou contente.

Uma vez mais, estive a estudar a “Fotocópia” destes últimos anos, à luz desta nova compreensão com a qual estou a aprender a revisar o passado. Este novo ângulo de abordagem, que representa uma forma de compreensão mais profunda, foi criado na minha mente (ainda disponho de uma mente – graças a Deus!) em parte por eta nova libertação das exigências do corpo, das emoções e da pressão, dos outros, sobre a minha vontade; mas, em parte pelos sábios conselhos de Madre Florence, das minhas Irmãs e do Padre Joseph. Às vezes temos uma “mesa redonda,” aqui (igual a uma reunião do conselho) e aí eu coloco todas as perguntas que me preocupam, diante de mentes mais sábias do que a minha. Sempre recebo respostas que explicam plenamente, embora às vezes eu precise racionalizar os seus significados para minha própria concepção particular.

Este processo é lento. Eu progrido lentamente. Mas o caso é que você sabe que eu tive essa espécie de mente, que sempre precisou ler e ler, procurar e procurar, absorver e absorver; e, mesmo depois disso, racionalizar o conhecimento obtido, para minha própria satisfação. Creia-me, eu não “pulei fora” da comunidade, na qual tomei os votos, antes de joeirar e de digerir a evidência de estratos mais profundos das necessidades psíquicas e espirituais. Foram necessários meses de estudos, de leituras e de meditação, para que eu me decidisse a dar um passo tão drástico. Agora, olhando para trás, vejo o desenho com clareza. Não me arrependo disso. Aqui todas as coisas são compreendidas e julgadas numa base mais ampla. Esta já não é a comunidade acanhada e tiranizante. Este é um trabalho amplo e solícito... e tudo é compreendido e encarado com compaixão.

Agora sou exactamente a mesma pessoa. Ainda tenho que repassar e tornar a repassar, na minha mente e à luz desta nova maneira de abordar os problemas, as possibilidades que tive quando na Terra e as falhas e os enganos que cometi. Ainda me esquivo a admitir muito daquilo que foi, talvez, repreensível e que poderia ter sido resolvido sem a minha confusão humana...

Mas aqui nós não desperdiçamos esforços num arrependimento cego. Há muito que aprender, de uma forma positiva, e muito a pôr em prática para o nosso progresso futuro. E sempre há almas em transes muito piores, que se constituem em lições que podem ser aprendidas.

Falo dos pacientes que aqui se encontram.
Eu já disse que nós temos os graus e classes aqui, na Casa – analfabetos e ignorantes, educados e cultos, assim como aqueles que tive que ensinar quando trabalhei como orientadora-organizadora no experimento que foi feito na Prisão de Maidstone. Só que aqueles eram prisioneiros do estado; segregados por seus semelhantes, pelas leis e pela força. Aqui ninguém é conservado contra a sua vontade ou o seu desejo. Quase todos os pacientes são bastante felizes e desejam permanecer nesta segurança temporária. Não podem mudar-se até que tenham visto (literalmente) a Luz ou, pelo menos, o tanto de Luz que possam assimilar nos seus estágios actuais.

Há um médico aqui. Já faz um certo tempo que ele está com as Irmãs: um homem brilhante; infelizmente ele foi viciado em entorpecentes. (Mas voltaremos a falar dele mais tarde). Falando de um modo geral, os habitantes daqui são de todos os tipos; alguns avançados em muitos campos e que estão literalmente a “atravessar” as Esferas.

Talvez você se interesse pelo meu último contacto. (Mal posso chamá-lo de aluno porque na terra ele foi um cientista de renome!) Não faz muito tempo que este homem aqui chegou, vindo de uma outra esfera, e a Madre Florence sugeriu que nós dois conversássemos. Ele possui uma mente de elevada qualidade, exacta e lógica, como convém a um cientista, naturalmente. Para mim, conversar com ele constitui uma emoção mental. Na Terra, porém, ele foi um agnóstico consumado... até mesmo um ateu, embora ele me diga que as pesquisas que fazia sempre terminavam voltando ao ponto de que deveria haver um certo factor X que estava além da concepção do homem, o Factor Criativo Perfeito, uma Mente Suprema. Não obstante, em todo o seu trabalho ele se recusou a admitir que isto poderia ser um sinal de que a Vida era uma matéria que estava relacionada com a progressão da consciência. De facto, embora me tenha explicado a configuração maravilhosa e a energia intrínseca existente em todo o átomo de matéria, não obstante ele nunca aplicou isto ao próprio homem na questão da possibilidade de sobrevivência. A sua tese era a de que tal consciência era inerente às partículas de matéria e permanecia como tal, de conformidade com os vários tipos de trabalho para os quais estes átomos se agrupavam. A sua teoria era (e ainda é) a de que o agrupamento de átomos e de células determinava o seu efeito. A sua rotação em determinadas velocidades vibratórias determinava a densidade. Por conseguinte, mudando as configurações e variando as vibrações, o homem podia produzir resultados diferentes. E era isso que ele estava a fazer; estava a explorar as possibilidades de mudar as configurações e produzir tipos mais finos (ou menos densos) de matéria.

Isto, já se vê, é exactamente o que o progresso significa para a vida na Terra, iluminando as partículas de matéria e levando-as para uma densidade menor. Só que agora nós dois temos conversado e concordamos em que o factor X é, real e imutavelmente, a Luz da Força Criativa; e chegamos à emocionante conclusão de que a tentativa dos cientistas, de mudar a velocidade vibratória da matéria atómica, é um equivalente de toda a antiga doutrina da Luz a permear a densidade da imersão do homem na matéria. Se o homem puder ter em mente a Luz Divina (que podemos compreender como Vida Permanente quando estamos fora da prisão do corpo) ele terá o poder de transformar estas partículas, conduzindo-as a uma vibração mais elevada. A dificuldade está em que, quando somos bombardeados pela consciência das vibrações mais densas que configuram o nosso corpo, e por toda a chamada matéria do mundo material, a Luz Eterna fica imersa e obscurecida, sendo às vezes totalmente extinta.

Debater com este homem tem sido uma experiência magnífica. Ele agora vê que a consciência é o factor X em expansão, que vai se tornando cada vez mais forte e mais capaz de iluminar a matéria; e que à sua frente se estende uma gloriosa concepção e, por conseguinte, matéria cada vez mais iluminada com a qual experimentar. Agora ele acha-se mergulhado em surpresa, não apenas pelo facto de ele próprio ser uma unidade de consciência, mas também porque, em virtude da transição para fora do corpo, o padrão do seu próprio índice de energia ter mudado, se ter tornado menos denso, de modo que ele agora é capaz de trabalhar com uma intensidade ampliada, usando um campo de força magnética muito mais amplo.
Quanta coisa aprendi com ele!

Aqui estamos nós os dois a conferenciar; ele com o enorme acervo de conhecimento de que dispõe das reacções atómicas na matéria, e eu com a convicção intrínseca que tenho de que o Espírito é a Luz (o factor X) que é o foco, o poder e o motivo de tudo e para tudo. Você pode entender o quanto isso é emocionante e excitante. O meu amigo (eu o chamarei de Sr. M) não ficará muito tempo aqui, nesta Casa de Repouso... (eu poderia dizer “infelizmente,” pois vou sentir falta das nossas reuniões). Ele irá juntar-se a um grupo de cientistas que estão a trabalhar nos Planos mais elevados. Contudo, ele diz que continuará a manter contacto comigo, mesmo que eu resolva ficar aqui durante algum tempo. Mas, naturalmente, existe a telepatia mental, para irradiarmos ideias um para o outro.

Enquanto passa pela purificação da sua mente concreta, ele tem saboreado muito a paz do meu jardim e nós temos feito emocionantes experiências com meditação e também com transmissão de luz para as minhas plantas e as minhas flores, cujos resultados pudemos observar de imediato.

“Eis aqui o seu Factor X,” disse-lhe eu certa vez, com o meu velho entusiasmo. “Veja como a luz do Amor e da Beleza transformaram estas flores, dando-lhes o fulgor que elas possuem agora. “Sim,” concordou ele com o leve aceno característico de cabeça que sempre fazia quando tinha tabulado um resultado.
“Sim. Se ao menos pudéssemos compreender essa Causa e Efeito durante a nossa permanência na Terra.”
“Mas poderemos.” De repente, senti-me iluminada. “As suas pesquisas, no Plano para onde irá a seguir, poderão ajudar os habitantes da Terra a adquirir esse conhecimento.
“Você quer dizer, por telepatia?”
“Por telepatia,” concordei.

E aqui estou eu, já alcançando você na Terra, por meio dela! Mas isto é apenas uma amostra daquilo que ele e os cientistas com quem está prestes a se reunir poderão transmitir por intermédio de mentes avançadas, que agora estão encarnando no plano terreno, para a Era que se aproxima.

O trabalho aqui é emocionante e satisfaz a alma. Compreendo o quanto sou abençoada por poder entrar em contacto com tais mentes avançadas, e por estar autorizada a transmitir as minhas experiências e aventuras para serem lidas por aqueles que se encontram na Terra, a fim de que possam antecipar, com alegria espiritual, a plenitude da vida futura.

Uma hora mais tarde, mais ou menos

Percebi que você andou a analisar tudo isto em sua mente e eis aqui a resposta parcial para as perguntas que tem formulado. Depois de um fascinante discurso sobre protons, electrons, pontos de bombardeamento, padrões raciais, etc., eu disse para o Sr. M: “Então agora você vê que a consciência está sobre uma espiral que se dirige para cima e progride para a frente… até mesmo a sua. Como se sente a respeito disso, agora?”

Ele esboçou um sorriso aberto: “Sempre aceitei os factos,” respondeu, “e isto é um facto, não é? Eu penso. Eu raciocino. Eu aprendo… na verdade, ainda existo. Não podemos contestar factos…”
“Algumas pessoas disseram que a vida terrena é uma grande ilusão,” insisti. “Esta também poderia ser uma ilusão!”
Ele acenou a cabeça.

“Não posso aceitar que a vida na Terra tenha sido uma ilusão. Eu estava lá, suficientemente sólido para os nossos sentidos. Certamente que ela resultou de um valor vibratório específico. Portanto, se você quer dizer que esse valor vibratório foi apenas a percepção da substância pelo estado de consciência as nossas mentes-cérebro, eu concordo com isso. Talvez uma projecção das nossas mentes limitadas, mas não uma lusão. Nós criamos o ambiente que nos rodeia…”
“O que é que cria?” perguntei.
“O pensamento.”
“E o seu Factor X?”
“Ainda pensamento, Irmã. Porém, de vibração e densidade variadas.”
“De modo que usando mais Factor X você obterá uma velocidade vibratória muito mais acelerada?”
“E um tipo de criação do pensamento muito mais elevada.”
Ele abanou a cabeça no seu gesto habitual.
“É claro! Agora eu entendi isso a partir do seu ponto de vista. Mais Luz. Uma concepção muito mais vasta. Todos tivemos essa Luz durante todo o tempo… e tão poucos de nós soubemos disso!”
Eu protestei: “As Igrejas e todas as religiões do mundo souberam disso.”
“Talvez. Mas eu fui um cientista. Eles estavam a construir uma teoria que ninguém tinha provado.”
“E agora?”
“Agora provei uma coisa… eu sobrevivo como mente e com um corpo menos denso.”
“Todavia, você tinha provado, parcialmente, a característica do Factor X.”
De novo, ele hesitou.
“Eu não a provei… ainda, Irmã. Pareceu-me vê-la funcionar nos nossos experimentos. Mas sinto que estou no começo de uma investigação muito emocionante, em vez de estar no fim de todas as pesquisas que esperei fazer. E no momento esto é suficiente…”
Você vê como esta experiência purificadora funciona? Nós não passamos por qualquer alteração fundamental. Contudo, pouco a pouco nos afastamos das ideias e limitações terrenas e avançamos para mais perto da luz e da sabedoria.

1º Janeiro de 1966

Disse-lhe que lhe narraria as experiências por que passei com este brilhante cirurgião que aqui se encontra connosco e que, durante o seu tempo de vida se entregou ao uso de drogas até que isso se tornou num vício -  e disse que contaria a sua história. Este homem possui uma mente talentosa. Na Terra ele foi famoso pela habilidade das suas mãos e pelo conhecimento demonstrado em certas operações físicas. Não lhe direi qual foi a parte do corpo humano em que ele se especializou por isso poder revelar a sua identidade. E aqui nós preservamos, tanto quanto possível, o anonimato da nossa vida física. A perícia que alcançou tornou-se uma lenda em certos grupos médicos. Contudo, ele tornou-se num viciado em drogas, inseguro e falível. A sua saúde não resistiu e aqui se encontra connosco, na nova Vida.

É um homem de aparência impressionante, pois agora está a recuperar o entusiasmo e a dedicação da sua juventude e, consequentemente, o seu corpo modelou-se com toda a força e vigor de um jovem. Tem os olhos profundamente assentados, uma bela cabeça leonina (diria você, nos seus termos astrológicos) e dedos longos e sensíveis. Ter assistido a esses dedos e mãos a operar o bisturi deve ter sido uma experiência emocionante e maravilhosa.

Mas quanto à sua história - conforme ele a contou para mim:

"Tudo começou com um lamentável caso amoroso que se deu num certo período da minha vida... nos meus quarenta e poucos anos. Os meus assuntos domésticos tinham sofrido perturbações e eu me apaixonara por uma mulher muito linda, mas sem coração, que pretendia destruir-me a vida doméstica - e conseguiu!

"Durante esse período de agitação e de perturbação emocional  tive a terrível infelicidade de perder um paciente no decorrer de uma operação. Para ser absolutamente franco (e aqui não podemos ser outra coisa) o bisturi escorregou e cortou uma veia. A operação teve que ser suspensa enquanto tratávamos disso e  o coração do paciente falhou. Nos círculos leigos isso foi considerado um acidente infeliz; nos círculos médicos, os meus colegas me asseveraram que,  de qualquer modo  o coração do homem morto não teria suportado a extensão e a severidade da operação.

"Eu, porém, sabia mais. Eu não tinha operado no meu estado verdadeiro... naquele estado no qual realizara todas as minhas operações...

"Desde rapazinho que sempre soubera que o cirurgião se encontrava dentro de mim...
 não eu, mas este alguém que tudo sabe, que é todo-poderoso e que, quando eu ficava de lado e deixava que Ele assumisse, realizava milagres de cirurgia por intermédio das minhas mãos e do meu cérebro. No decurso do meu trabalho, eu tinha adquirido o hábito de ficar em silêncio e sozinho durante algum tempo, nos dias em que tal perícia era requisitada, a fim de entrar em contacto com Ele. Nunca fui um homem religioso. Não creio que O tenha encarado como Cristo ou Deus. Ele, porém, era a força e a destreza das minhas mãos. A inspiração que me guiava e governava o cérebro era Sua. Eu estava perfeitamente certo e seguro disso, embora nunca falasse nisso a outras pessoas. Sem Ele e o Seu discernimento, perícia e serenidade eu era igual a nada. E cada vez que uma operação terminava e eu me dirigia para a torneira para me lavar, costumava sentir-me fisicamente doente ante a possibilidade de perder contacto com Ele, um dia... Lembro-me de sempre ter dito obrigado após cada sessão prolongada, no anfiteatro de operações.

"Contudo, neste dia em particular, quando ocorreu o acidente, eu tinha seguido apressadamente para o hospital, depois de um tumulto emocional com a mulher que julgava amar. Não tinha tido tempo para permanecer tranquilo ou para relembrar o meu Cirurgião Celestial, se é que o posso chamar assim. Atravessava um turbilhão emocional.

"Depois do paciente morrer e ter sido levado, fui para o escritório das Irmãs e fiquei prostrado. Não importava o que dissessem, eu sabia. Tinha perdido o contacto com o Ser interior. Fiquei desolado. Lembro-me que os dirigentes do hospital insistiram para que eu tirasse umas férias. Fui para a Sicília onde fiquei três semanas, e regressei com a mente calma e com uma esperança renovada.

"Contudo, de volta à correria e à tensão da vida de um cirurgião, surgia-me uma coisa nova na mente. Passei a ter medo. Torturei-me a pensar que talvez o Cirurgião Interior não estivesse mais lá, para me guiar e ajudar. Transformei-me numa alma despedaçada, torturada, aterrorizada e quase impotente por causa do medo e do temor de que aquilo que tinha ocorrido uma vez pudesse ocorrer de novo...

"A senhora vê, Irmã, eu não tinha conhecimento ou experiência de como me sintonizar para alcançar esse grande Espírito Interior, como me estão agora a ensinar. Se então eu tivesse compreendido que Ele está (conforme Cristo nos instruiu) sempre pronto para ser alcançado, poderia ter tido forças para continuar sem armar a confusão que armei, da minha vida...

"Contudo, para resumir: Eu podia ver (e outros me preveniram) que estava a rumar para o colapso nervoso. Comecei a tomar drogas para dormir, a fim de anular aquelas longas e terríveis horas da noite em que o medo se apossa do cérebro. E então foi-me apresentada uma operação semelhante. Aprendi que a vida é sempre assim, que a corda do nosso carácter precisa ser testada no seu ponto mais fraco.

"Quando examinei o homem que ia ser meu paciente, o reconhecimento foi como um choque eléctrico a percorrer-me de ponta a ponta. Esta era uma réplica exacta da operação que realizara apenas seis meses antes e que tinha sido tão desastrosa, o trabalho muito especializado e muito delicado de extirpar o tecido doente de uma das partes mais vitais do corpo humano

"Perdi completamente o controlo dos meus nervos. Para evitar algumas explicações dolorosas, tomei uma droga que eu sabia me iria clarear o cérebro e paralisar os terrores insistentes que me perturbavam, aos quais eu me permitia sucumbir. A droga funcionou. Fiquei calmo e eficiente. Pensei que tivesse entrado em contacto com o Cirurgião. A operação foi um sucesso absoluto. Mas este iria ser o meu Calcanhar de Aquiles. Comecei a confiar no efeito da droga, que parecia isolar o meu eu pessoal, com todos os seus temores de fracasso e de insuficiência, a fim de que o Ser interior se tornasse no cirurgião de antes. Fui caindo mais e mais neste pântano de tranquilidade. Mergulhei mais e mais fundo até que não pude operar sem a droga.

"Essa era a debilidade de que eu padecia. Só que agora tinha o tormento adicional de perceber essa debilidade, de saber que a força me abandonara. Eu estava cada vez mais habituado a esse estímulo exterior para acalmar o eu pessoal e, Deus me ajude, não me atrevia a desistir por causa do medo de ficar completamente sozinho. Continuei com isso durante quase dez anos. Oh, sim, realizei algumas operações notáveis, é verdade. Mas elas foram triunfos do Cirurgião Interior, não meus. Eu estava a transformar-me apenas numa pobre casca de ser humano, e sem os remédios, nem o meu cérebro nem o meu corpo me obedeceriam.Se existe um inferno na Terra terá sido esse. Progressivamente, tornei-me escravo das drogas (agora mais que uma) que estava a tomar. A minha mente viva em agonia; o meu corpo encontrava-se atacado pela doença e a minha alma estava perdida, sozinha e assustada.

“A senhora sabe o resto, Irmã. A minha mente desintegrou-se. Fui considerado insano, isolado num sanatório e lá. Finalmente, fui aliviado do corpo doente e das ilusões do cérebro terreno.
“E agora…?”

(Frances fala)
Fiquei muito comovida com a história dele, como todos ficariam. Ele tem tido longas conversas com Madre Florence e com o Padre Joseph, e tem-se sentado aqui comigo, em silenciosa meditação, no meu jardim dourado.
Agora, porém, preciso contar-lhe acerca da maravilhosa experiência que o “libertou” do seu julgamento errado, da culpa e do seu remorso. Tive permissão para participar desta experiência…

Com a Madre Florence e a Irmã Hilda, fui ao anfiteatro de operações, como nós aqui o chamamos. (Naturalmente não tem a mesma conotação que na Terra). O doutor X já lá se encontrava, entregue aos cuidados do Padre Joseph. A “sala,” se é que se lhe pode chamar tal coisa, era composta por um longo rectângulo com uma espécie de teto abobadado que dá a impressão de espaço ilimitado. Sentamo-nos a olhar para uma vista de um azul que parecia cintilar. Não havia paredes, somente um espaço de um profundo azul cerúleo. Parecia-me ouvir cânticos, embora lá não houvesse órgão nem coro; mas reinava uma música indistinta, das esferas, absolutamente indescritível; tão calmante que o nosso espírito se erguia para flutuar e participar dos sons.

Subitamente, sem aviso prévio, aquela vista azul dispersou-se e transformou-se numa tela de cinema ou de televisão, sobre a qual começaram a surgir imagens. Não eram sobrepostas, como num cinema, mas pareciam brotar da própria tela, vindas do próprio éter. Essas imagens pareciam formar-se sozinhas. Elas mostravam momentos de tensão, momentos de triunfo e momentos de fracasso na vida terrena do Dr. X. Vimos pacientes, e observámo-lo nos seus diagnósticos; nós o seguimos até o anfiteatro e testemunhamos as operações feitas por ele, e enquanto observávamos, tivemos consciência (da mesma forma que ele) da grandiosa luz que o envolvia enquanto trabalhava.

Luz! Quanto estou a aprender acerca do significado desta palavra, aqui! Quão intensamente estou a começar a perceber a profundidade daquelas palavras: “Luz que ilumina todo o homem que vem para o mundo!” Quão mesquinha é a concepção e compreensão que temos dessa luz!... Mas tornaremos a conversar sobre isto quando eu tiver aprendido e experimentado mais.

As imagens na “tela” continuaram e continuaram. Fomos levados para dentro de lares, de vidas, de famílias daqueles em quem o doutor tinha realizado as suas operações bem-sucedidas. Constatamos o benefício para a humanidade, as curas, o reinício de vidas úteis e felizes, que resultaram da perícia deste homem. Tivemos permissão para apreciar os resultados daquilo que ele realizara até mesmo quando estava a trabalhar sob a influência de drogas (conforme ele disse).

Fiquei mais do que comovida; fiquei cheia de compaixão e de uma nova compreensão. Aqui estava um homem de pé diante do tribunal do seu próprio julgamento, e os pratos da balança mostravam a pesagem das suas acções e os efeitos resultantes dos seus serviços prestados. E quando nos mostraram a habilidade e o êxito com que ele devolveu a saúde e o vigor a um grane músico, os pratos pareceram quase equilibrar-se. Aquele músico (agora nos Salões de Música, nas Esferas) teve a possibilidade de continuar e de deixar o mundo mais rico e mais engrandecido com as suas execuções, de somar a sua parte à beleza que penetra o materialismo do pensamento terreno; teve a possibilidade de iluminar, com sons gloriosos, a escuridão em que os homens se encontram mergulhados e de elevar os seus espíritos em agradecimento ao Criador.

Conforme o filme da sua vida se desenrolava diante de nós, o Doutor viu (embora mal pudesse acreditar) que tinha realmente feito a sua parte. Tinha seguido o seu Modelo, tinha tornado realidade o seu Diagrama, mesmo que o tivesse manchado gravemente, ao executá-lo.

No final ele viu e compreendeu!

A sua falha tinha sido uma debilidade no contacto da alma com a personalidade, debilidade que ele permitiria que se ampliasse até que ela ameaçasse romper completamente esse contacto. Todavia, tinha sido libertado antes que isso acontecesse. O seu erro tinha sido a sua recusa de pesquisar dentro daquele Alguém interior que conhecia; de entrar em contacto com Ele deliberadamente e com reverência, em outras ocasiões que não aquelas em que a perícia do “Cirurgião Celestial” se fazia necessária. A Luz tinha estado com ele e ao redor dele, e ele não a compreendera…

Se eu dissesse que havia lágrimas nos olhos dele, quando a revelação terminou, estaria parcialmente correcta. Havia lágrimas na sua alma; lágrimas pelas oportunidades perdidas. Mas, também, lágrimas de alívio.

Estou a aprender, deveras, que não devemos julgar com base na nossa compreensão parcial. Este homem, o fracasso que parecera ser, tinha realizado muito. Tinha sido um “Canal de Luz,” mesmo ao tentar ignorar as implicações disso e até mesmo a despeito do facto de que a sua personalidade tinha mergulhado num lamaçal de ilusões.

O Dr. X é uma alma detentora de uma qualidade dedicada. Ele continuará seguindo rumo à Luz maior, para, talvez ali ter uma percepção mais completa, mais potente e mais íntima do seu “Cirurgião Celestial” e para se unir a Ele para trabalhos futuros. Não condena… mas avalia com um critério apropriado.

De que modo, porém, podemos aprender a ter uma compreensão maior, não só das pessoas, mas do grande Plano e do Modelo existentes para cada um de nós e para a humanidade? Como tenho permissão para observar e prestar assistência a estas almas que se reúnem aqui por um certo espaço de tempo, obtenho conhecimentos e uma compreensão muito parcial deste Plano, e isso me traz uma profunda humildade., juntamento com um sentimento de reverência pelo milagre e pela maravilha do Pensamento Criativo Divino.

Em silêncio, voltamos para as nossas tarefas, deixando o Dr. X entregue aos competentes cuidados do Padre Joseph. Aqui quase que poderia ter sido um serviço religioso de Natal, como na Terra, porque, verdadeiramente, tinha nascido uma nova criança junto àqueles que tomaram parte na cerimónia. Uma nova compreensão e compaixão brotou em mim… e uma nova força no Dr. X. Conforme a nossa consciência se expande, também deixamos entrar mais luz. Portanto, agora posso realmente dizer, com uma compreensão muito mais profunda: “Que a Luz desça sobre a Terra!”

3 de Janeiro – O Sonho

Helen Greaves

Duas noites após ter escrito esta última passagem, sonhei com Frances. O sonho foi estranhamente perturbador, porém, vago e indefinido, de modo que, quando despertei para a consciência, sabia o que tinha acontecido mas os detalhes me escapavam. Eu tinha num jardim que parecia estar situado bem no alto, na encosta de uma colina. O que achei estranho a respeito desse jardim é que ele dava a impressão de estar-me “gravado” na mente, qual pintura chinesa, com um comedimento de linhas bem característico da arte oriental. Recordo que havia uma macieira com galhos bifurcados, sozinha a um dos cantos do jardim, mas isso era tudo… excepto uma impressão de espaço e de perspectiva. Todavia, o facto de tudo se achar banhado por uma suave luz dourada permaneceu comigo, de maneira obsessiva. Eu sabia que Frances se encontrava a meu lado, e apesar de ela me dar a impressão de ter uma aparência leve e insubstancial, nós conversamos. Contudo, quando despertei não consegui recordar nada da conversa que tivéramos, excepto o que estava relacionado com as palavras finais (“Daqui prosseguirei”) que me lembro de ter dito.

Todavia, a minha mente consciente não pôde, ou não quis, formular o que isso exactamente pretendia transmitir-me. (Tenho plena certeza, porém, de que o Eu verdadeiro sabe e cumprirá a promessa.)

3 de Janeiro

Frances

Fiz uma grande amizade com o Dr. X. Temos tido longas conversas sobre toda a espécie de assuntos. Estamos ambos certos de termos tido ligações em vidas passadas. Sim, ele aceita a reincarnação. Diz que no seu trabalho médico, reconheceu o quanto a natureza era prodigiosa na sua precisão, recapitulação e aplicação; que a própria vida devia ser em série. Ele confessa que a convicção de que tinha falhado nesta etapa lhe assombrara os últimos anos de tempo na Terra.

Agora, conforme você poderá compreender e avaliar, ele encontra-se mesmo ansioso por continuar. Deseja aprender, tornar-se forte, absorver a Luz, para depois retornar à Terra com a sua habilidade inata, só que com uma ligação e uma recordação mais forte do Espírito e com uma verdadeira união com a sua alma. Ele tem uma grande alma. Acho-o esplêndido e estimulante. É o tipo de personalidade que me teria deixado intrigada, caso o tivesse conhecido quando era moça. Ele teve percepção do seu Eu interior. Ele soube! Agora, porém, ele geme sempre que assinalo isso, por achar que o seu fracasso foi muito maior do que o pecado da ignorância: ele não foi suficientemente forte para manter o contacto que sabia existir. Este é um ponto interessante – para mim. Ele é uma alma velha, um ego avançado: e ele soube.

Muitas e muitas pessoas nem sequer têm aquele consolo de reconhecer o Poder interior, mas apesar de tudo ele não conseguiu, no seu pequenino eu, manter o contacto. Que técnica poderia ter empregadoque o ajudasse a conservar e a fortalecer esse contacto?
A resposta está naquela técnica e naquele método que têm sido do conhecimento de uns poucos, ao longo de todas as eras; a técnica da comunhão com o Divino; de usar um acto de vontade para afastar as ilusões da Terra e abrir um canal para a Fonte Suprema, para a luz do conhecimento consciente.

À minha modesta maneira e, possivelmente, de um modo pouco convincente, tentei ensinar, na Terra, o valor dos períodos de meditação, quando a personalidade gravita em direcção à luz da alma e do espírito. Também eu fracassei, porque, de certo modo, não consegui superar as minhas próprias barreiras pessoais. Aqui estou a aprender muito, muito mais. Mais tarde tornarei a falar sobre a meditação e a contemplação e sobre os métodos referentes a isso. Falarei também (uma vez que estou a começar a compreender) da maneira como essas técnicas funcionam realmente. Asseguro-lhe que não há nada de vago ou confuso. É um processo inteiramente científico, como diria o Dr. X.
Mas, continuando:

Com o Dr. X, fui visitar alguns dos seus contemporâneos e amigos, numa outra parte desta nova vida. Suponho que chamaria a isso de Planos mais Elevados.Não posso dizer com certeza. De qualquer modo, nós encontramo-nos num “círculo médico,” formado por almas. Havia muitas almas e elas irradiavam uma concentração jubilosa que era cativante. Logo nos reunimos em grupos numa conversa amigável e cheia de entusiasmo. Um dos que ali se encontravam tinha sido um grande médico, um médico muito estimado, quando na Terra; uma alma cujo semblante era de uma formusura além que qualquer descrição que eu possa dar. Ele irradiava beleza e amor espiritual. Parecia ser um líder deste grupo. Falou com o Dr. X e ficou ao lado dele, tão elevado em pensamento e em inspiração que eu me senti quase glorificada. Contudo, sabia que não poderia suportar a elevada frequência da vibração dele durante muito tempo. Esse líder disse que em breve teria o prazer de receber o Dr. X como membro do seu “pessoal.” Emocionei-me pelo meu novo (não obstante velho) amigo. Fiquei feliz por ele. Foi um momento – sinto eu – de suprema realização.

Depois encontramos o músico cuja vida, na terra, o Dr. X tinha sido capaz de prolongar por meio da sua perícia médica e cirúrgica. O músico prometeu levar-nos aos Salões de Música. Ele não correspondeu, de modo algum, à ideia que eu tinha de como deveria ser um músico... Mostrou-se alegre, quase folgazão, e mexeu com o Dr. X.
“Então, o senhor trouxe a sua enfermeira?” perguntou ele. (Ainda estou a usar o hábito).
“Minha enfermeira não, minha mestra: a irmã e eu temos esmiuçado, juntos, muitos problemas e enigmas,” respondeu o Dr.
“O senhor irá sair logo?” perguntou o músico.
“Não antes de ter terminado o Primeiro Grau,” interpus, sem perceber muito bem o que estava a dizer. Depois, fiquei com vontade de sair dali, achando que tinha cometido uma gafe. Mas eles não levaram a mal o que eu dissera.
“A irmã está absolutamente certa,” disse o Dr. X, “e se o trabalho da escola secundária é este, só posso esperar, com grande ansiedade, pelos cursos superiores.”

Esta foi a experiência mais maravilhosa que tive, deste ovo aspecto de Vida. Foi como se me enchessem de luz… esta é a única maneira de expressar a minha impressão. Todavia, nenhum de nós estava em condições de suportar por muito tempo esta enorme intensidade de vibração. Sentimo-nos esgotados, por assim dizer, por esta Elevada Frequência, de modo que, pelo que me toca, logo senti a estranha sensação de estar a minguar. E então estávamos ambos de volta, novamente ao meu jardim, e a Irmã Hilda estava ali para me dizer que acabara de surgir uma situação urgente, na Casa.

Todavia, nós dois tínhamos tido uma amostra da beleza das esferas Superiores e da comunhão com almas evoluídas… Senti-me como se estivesse a resplandecer. A luz ficou comigo. Isto é vida… Vida mais abundante.

No mesmo dia (3 Janeiro) – mais tarde

A Irmã Hilda e eu retornamos à Casa. Madre Florence encontrava-se à nossa espera. Conduziu-nos a um canto e disse que um “paciente” novo, e muito difícil, acabara de ser trazido para cá. Discretamente contou-nos os factos referentes a este recém-chegado. O homem tinha sido um líder nazista muito conhecido e extremamente poderoso durante a última guerra. Depois da queda da Alemanha, ele cometera suicídio. (Não posso dar o seu nome, mas não é Hitler). Desde então ele estivera “alojado nas sombras.” Madre Florence explicou que ele tinha estado “perambulando pelos lugares inferiores.” Sem dúvida você se referiria a esses lugares sombrios como “baixo astral.” De qualquer modo, durante vinte anos terrestres ele tinha sido prisioneiro da sua própria perversidade.

Agora, fora resgatado. Encontrava-se consciente da terrível crueldade que o caracterizara e estava cheio de remorsos. A Madre Florence preveniu-nos de que ele iria precisar de cuidados muito especiais e de atenção, compreensão e ajuda. Avisou-nos, também, de que poderíamos ficar chocadas pela sua aparência, que, eu prometi, devia ser um espectáculo tal como eu jamais vira.

A Madre avisou-nos igualmente para traçarmos uma “teia de protecção” ao nosso redor e para nos agarrarmos firmemente à Luz.

Enquanto nos dirigíamos para uma enfermaria isolada, na ponta extrema da Casa, eu senti-me apreensiva. Todavia, não me encontrava preparada para a visão que se nos ofereceu.

A enfermaria era escura a triste, muito diferente dos nossos aposentos habitualmente claros e ensolarados. Uma mortalha de tenebrosa penumbra parecia suspensa sobre aquele lugar. Foi somente aos pouquinhos que pudemos ver que “alguma coisa” jazia deitada na cama. Rapidamente, desviei o solhos daquela visão repulsiva. O corpo da pobre criatura estava coberto de chagas e cicatrizes; os olhos estavam fechados.
“Ele pensa que está cego,” sussurrou Madre Florence. “Não está, naturalmente. Todavia, a Luz aqui é por demais brilhante e penetrante para ele, por enquanto; e ele chora, dizendo que isso o deixou cego.”

O homem era uma visão terrível e comovedora. Quando de novo desviei os olhos, tornei-me consciente da presença do Padre Joseph, que se encontrava sentado à cabeceira da cama, atrás do paciente.

“Bem,” ouvi o Padre Joseph dizer, embora não houvesse, aparentemente qualquer som no aposento, “Esta pobre e infeliz criatura necessita de toda a atenção e compaixão. Ele veio a nós a fim de ser curado e preparado para se enfrentar a si mesmo e julgar as acções que cometeu, quando despertar da sua terrível provação nas trevas. Juntos vamos concentrar os nossos pensamentos e bênçãos sobre ele. Vamos sentir uma suave e gentil Luz curativa, para que a Força curativa de Deus, da mais extrema suavidade e doçura, seja vertida das nossas almas para a dele. Vamos pedir que a Luz possa entrar neste lugar: que ela possa tocá-lo, confortá-lo, e dar-lhe um sono agradável…”

Olhei ligeiramente ao meu redor. Ali estavam o Padre Joseph, Madre Florence, Irmã Arminda, Irmã Cecília e eu própria. Todos eles pareciam absolutamente calmos. Devagar, enquanto mergulhava cada vez mais fundo na concentração, senti-me arrebatada por uma grande alegria, força e poder.

A pobre criatura gemeu; porém, mal cheguei a ouvi-la. A enfermaria estivera às escuras. Gradualmente a Luz brotou dentro dela; num canto, um intenso tremeluzir tornou-se visível; uma Luz que se condensou numa Chama Incandescente, como um pilar de fogo.

Então, eu soube que um Ser Celestial adicionara o seu Raio de Força Espiritual. Dei por mim a rezar, não somente por esta alma atormentada, como também pelas almas das suas vítimas.

Subitamente, no meio das minhas preces, fui “levada” de volta para a Capela da Comunidade, na África do Sul. Ouvi as Irmãs a cantar e juntei-me a elas:

Uma criança nasceu, para nós,
O Filho nos foi dado…

O hino avolumou-se. Eu estava lá com a Comunidade, a cantar; não obstante, estava ajoelhada aqui, ao lado da cama desta alma perdida e despedaçada. Tive um sobressalto por ter pensado que devia ter estado a cantar em voz alta; mas ninguém se moveu. Então, uma voz ecoou na minha mente… e as palavras foram semelhantes àquelas do Mestre Jesus:

“Pai, perdoa-o. Ele não sabia o que estava a fazer…”
Dei por mim de joelhos, a encarar fixamente a Luz que agora diminuía bem devagar. Essa percepção foi de tal modo maravilhosa e tão esmagadora que senti todo o meu ser estremecer.
Naquele momento eu tinha estado unida com as Irmãs, na terra, nas suas preces e intercepçõespor todas as espécies e condições da humanidade, assim como também tinha estado unida a este pequeno grupo de dedicados e devotados servidores da Luz; e, ao mesmo tempo, tinha estado unida com a luz, penetrante e pura, de um grande anjo curador.
Não existe separação. Encontrámo-nos todos unidos
“Nem o céu, nem a Terra e nem o Inferno podem separar-nos do amor de deus,” murmurei para mim mesma enquanto era inundada pela compreensão de que o paciente viera, literalmente, do inferno para nós…

A grande Luz desapareceu lentamente, mas agora a penumbra abandonara a enfermaria. O nosso paciente jazia imóvel. A rigidez do seu corpo cessara. Ele parecia adormecido.

“Na enfermaria junto a esta,” – estava a dizer a Madre Florence – “encontra-se uma mulher que foi uma das suas vítimas, uma jovem mãe judia que chegou aqui com ele. Ela tem estado ligada a ele pelo profundo ódio que me move. Mas está a progrdir, por ter tido, no seu coração, um amor verdadeiro pelo marido e pela filha que lhe foram arrebatados. Ela tem o poder do Amor na sua alma. Ele, pobre criatura, não o tem… ainda…
“Mas quando ele for suficientemente curado,” prosseguiu Madre Florence, “ambos deverão ser postos frente a frente para aprenderem o perdão, a compreensão e a caridade.”

Percebi, então, que o Padre Joseph saíra sem ser notado. Madre Florence também nos deixou e nós as três ficamos ali, a velar.

Uma criança nos foi dada,
Um filho nasceu para nós…

…ecoou na minha mente. O hino de Natal parecia fugir ao texto. Contudo, na minha mente persistia o pensamento: “Isto é um começo, um nascimento. Isto é uma nova vida que está a nascer, uma alma que está a ser trazida para a Luz.” Lentamente, pareci dissolver-me numa contenplação total sobre a Paz e a Luz de deus; uma contemplação profunda, tal com jamais conhecera até então. Foi, de facto, a mais maravilhosa das experiências. Por fim, foi como se eu tivesse “atravessado” aquela barreira que tinha representado um obstáculo no meu caminho durante todo o período da minha vida terrena.

Não posso falar a respeito de tal paz porque as palavras não podem expressá-la. Todavia, basta que eu diga, com toda a sinceridade, que senti que finalmente compreendia de verdade, o significado daquelas palavras: “Eu vos dou a Minha Paz. Eu vos dou, mas não do mesmo modo que o mundo dá…”

Eu tinha encontrado uma nova medida, uma nova capacidade, e estava desperta na Luz. Naquela paz, fui transportada para o meu chalé, onde mais tarde dei por mim.
O nosso paciente dorme ainda…

5 de Janeiro

Estive de visita de novo, ao “grupo médico,” em companhia do Dr. X. É este que dou o nome que dou ao Grupo, embora esteja certa de que os seus componentes têm um título mais sublime. Não tornei a encontrar o Líder do Grupo. Por ser uma aluna bastante nova, para o encontrar talvez tenha que aprender a sintonizar as minhas vibrações. (Isto é mera suposição da minha parte, tendo como base a última experiência. Ninguém me informou a respeito.)

A ideia que você tem d’Ele está correcta. Ele é uma alma muito evoluída, um Mestre por seus próprios méritos e um discípulo do Senhor Jesus, que, segundo me contaram, vive num Plano muito distante deste. (Com respeito a este assunto devo enfatizar que grande parte da velha teologia das Igrejas Cristãs seja errada. Imagino que deva ser ocorrência muito rara, qualquer alma recém-chegada a este mundo encontrar-se a “descansar nos braços de Jesus.” Não por causa de qualquer falta de devoção nemporque Jesus ignore o discipulado da alma, mas porque, analisando de um ponto de vista mais prático, parecer lógico supor que as almas devam levar em conta as diferenças… e estas são vitais… existentes na frequência de vibração. Nenhuma alma, por mais elevada que seja, que tenha partido das limitações da Terra e tenha vindo para cá se encontra capacitada a suportar as vibrações diáfanas destes Planos mais elevados. Tomando-se como base as observações que fiz durante o tempo em que me encontro aqui, parece que temos que aprender para subir cada degrau de adiantamento.Pois o próprio Mestre não levou três dias até poder, conforme Ele disse, “Elevar-me até meu Pai”? Estas palavras enigmáticas são muito mais compreensíveis e passíveis de ser traduzidas quando nos encontramos no Astral, do que quando estamos na consciência do nível terreno.)

Talvez pelo facto de me ter sentido “esgotada” e com uma vibração por demais inadequada para elevar-me até ao penetrante poder da sua Luz durante a visita anterior, quando fora suficientemente venturosa para conhecer este grande médico – não foi permitido outro contacto. Não obstante, sempre relembrarei a beleza, o amor e a luz do seu rosto, assim como a roupagem de ofuscante luminosidade, que ele envergava.

Aqueles que fazem parte do Seu Grupo contaram-me que o seu Líder (é fácil perceber o respeito e a reverência que lhe dedicam) não está constantemente com eles. Segundo a nossa maneira terrena de pensar, que ainda não me abandonou, Ele desempenha o papel de Director dos estudos e do trabalho que realizam. Parece que só os visita quando há um novo impulso, nas pesquisas que eles fazem, que tem que ser estudado e posto à prova, ou quando, como no caso do Dr. X, um novo aluno, por assim dizer, tem que ser entrevistado e é necessário julgar se ele está preparado para ser admitido.

Ele habita nos planos que se encontram muito além de qualquer uma destas fraternidades médicas, no Grupo de Prioridade A… O Dr. X regalou-se conversando com os seus velhos amigos e com figuras lendárias, de grande importância na profissão médica. Lister encontrava-se entre essas. Pude trocar uma palavra ou duas com Pierre Curie, embora na terra ele tivesse sido um nativo da França e o meu Francês nunca tivesse sido fluente. Aqui a linguagem não oferece dificuldades; contudo, ainda não sei se fui eu que falei em Francês ou se terá sido ele que falou em Inglês. Ou mesmo se teremos chegado a “conversar,” no sentido terreno!

Ele referiu-se à lamentável prostituição da utilidade do átomo e do seu poder. A humanidade está a envenenar não somente a Terra, sobre a qual se acomodam essas partículas de poeira atômica, mas também a própria atmosfera; o envoltório da esfera terrestre, assim como também a vegetação e a vida dos seres humanos, dos animais e das aves.
Perguntei se ele agora nãolamentava o seu trabalho terreno. Ele sacudiu a cabeça.
“De modo algum. Para aqueles que vivem quase inteiramente mergulhados na penumbra de uma vibração lenta e inactiva, o progresso sempre deve apresentar um lado claro e um escuro. O nosso trabalho é o de tentar iluminar as vibrações do plano terreno, a fim de que essas oposições não possam continuar a agir negativamente. Como é natural, não pode haver comparação entre a mente ignorante que estava disposta a lutar pela crença de que o seu mundo era quadrado, e a mente parcialmente liberta que sabe, não só que a Terra é uma bola de matéria que está em constante movimento circular, mas que ela também é simplesmente um aglomerado de átomos que semantêm unidos por uma determinada velocidade vibratória.

O Doutor X interveio: “E o que me diz das doenças que o homem está a trazer para a sua espécie através dos abusos que comete? E a possibilidade de aniquilação total por meio da destruição desse próprio poder atómico que ele destruiu?”

Pierre Curie espalmou as mãos num gesto de resignação.

“A humanidade deve progredir. Ela prende vagarosamente e um progresso assim lento e cheio de inúmeros erros, gera dor. Mas se encararmos a vida a partir do ângulo de processo eterno, poderá adquirir um sentimento diferente a respeito disso. A Força Vital não é expandida somente sobre o globo terrestre. Nem termina quando é precipitada para fora desse globo, por acção daquilo a que a humanidade chama de morte. Aqui enxergamos mais além, ao longo da Estrada Eterna, porém somente até uma distância limitada. À medida que aprendemos a purificar as nossas vibrações e iluminamos os nossos “corpos,” e assim os refinamos para a realidade de recebermos mais luz proveniente da Mente Divina, assim também progredimos para a frente. Abrem-se-nos portas que antes permaneciam fechadas; a percepção torna-se mais clara e mais aguçada e somos capazes de entender mais plenamente o verdadeiro significado e propósito para que a Força Vital desceu até à vibração mais baixa e mais inactiva.”

“E o povo da Terra?” insistiu o Doutor.

“Retornará e voltará a retornar depois que tiver dotado as suas almas mais capazes de transmitir essa Força Vital, a fim de transmutar a densidade da vibração terrena, levando-a a uma vibração mais elevada.”

“E as doenças, a destruição?” perguntei.

“O homem morrerá como sempre tem feito. Enquanto ele acreditar que a morte é o fim, a doença e a destruição persistirão…”

De repente entendi o que ele queria dar a entender. A humanidade está a fazer uso de paliativos, quando a cura se encontra ao alcance das suas mãos. Mudem o ângulo da crença: despeçam o horror e o medo da morte e ensinem a eterna Unidade da vida. Isso equivale à redenção, tanto do homem como da Terra. Isso poderá levar milhares de anos, mas para trás de nós ficaram milhões de anos. O homem levou séculos para elevar a sua reacção inerte até tal distância, mas ele encontra-se numa trilha ascendente. Aqui está a velha resposta, mais uma vez. Luz e ainda mais luz. Luz de compreensão, de conhecimento, de sabedoria e de percepção verdadeira, para penetrar este nevoeiro de ilusão no qual a humanidade ainda vagueia

“E o senhor,” aventurei-me a perguntar a Curie, “trabalha para esse progresso?”

Ele sorriu. Talvez nós estejamos em actividade no lado paliativo; para aliviar e curar aquilo que a energia, a ignorância e o pensamento mal aplicado cristalizaram. Contudo, a seu modo, isso também é Luz.”

Fomos embora, muito inspirados. Mais do que nunca, percebemos a gritante necessidade de luz de que sofre a Terra. Jesus veio para mostrar e demonstrar que o homem continua a viver depois de deixar o plano terreno. Ele ensinou que esta Força Divina se encontra realmente dentro de cada um de nós, obscurecida, porém, inextinguível. Ele não foi recebido pelos seus compatriotas, não obstante a Sua luz, aquela Alta Frequência de vibração que foi capaz de transmitir à Terra, sobreviver. O Doutor e eu rememoramos aquela invocação que repeti frequentemente, quando no meu corpo:

“Que a luz possa descer sobre a Terra
Que Cristo possa retornar à Terra.”

Sinto que agora compreendi parcialmente o significado profundo daquela invocação.

8 de Janeiro

O nosso “paciente” ainda está a “dormir.” Ele não mudou e possivelmente continuará a repousar nesta pura luz de amor e de cura, até que a sua alma tenha readquirido paz e força suficiente para começar a sua longa marcha para a frente.

Tenho conversado com a moça judia que chegou junto com ele. Ela recobrou-se o bastante para começar a dar uma nova orientação ao seu pensamento; mudar a sua maneira de pensar. Ela foi uma “boa” mulher, ou seja, honrada, bondosa e carinhosa, mas antes que possa encarar de uma maneira objectiva o horror daquilo que lhe aconteceu, precisaremos instruí-la muito e solucionar com gentileza os seus problemas. A velha crença arraigada do “olho por olho e dente por dente,” precisa ser transmutada por intermédio desse novo ângulo de juízo, numa apreciação do Amor como instigador de vida.

Está a dissolver-se um pouco do ódio virulento, visto que ela agora compreende que o vingador, insistindo na sua compensação, nada recebe de construtivo ou que valha a pena.

Madre Florence falou-lhe a respeito da pobre alma que foi a instigadora das suas tragédias, e ela sabe até mesmo que ele se encontra a repousar e que está a ser curado. Por enquanto, ela dificilmente consegue suportar a ideia de que esse ser esteja a ser curado, mas virá a conseguir. Presentemente tudo o que ela pede é poder reunir-se ao marido e à filha que lhe foram arrebatados. Os próprios sofrimentos por que passou no campo para onde foi levada e onde mais tarde veio a morrer, estão a ser expurgados da sua consciência e ela está a prender a relaxar, a esquecer a vida terrena, com todo o terror e ódio que dela fizeram parte, e a viver na luz.

O seu marido, que fora um advogado alemão, foi arrebatado e transportado para um campo de trabalho, onde posteriormente também veio a morrer em resultado de ferimentos e de abandono. Ela nunca chegou a saber o que aconteceu à sua menininha. Madre Florence diz que o marido fora localizado. Como ele não guardou ódio na sua alma, de uma forma tão profunda e amarga, progrediu mais facilmente. Tem estado a aguardar a chegada da esposa que amou e tem-lhe endereçado amor e luz, mesmo quando ela residia temporariamente naqueles mundos obscurecidos do astral inferior, por culpa dos laços de ódio que a uniam ao homem que fora o causador das suas desgraças. Talvez essa mesma luz enviada para ela e para a alma do homem que fora responsável pelas crueldades, tenha sido o facto que a ajudou a libertá-los do mundo inferior, para que os mensageiros pudessem trazê-los para cá. Na natureza da consciência (que aqui é a maneira de dizer na plenitude do tempo) ele virá a encontrar-se com ela. Eles se reunirão e seguirão o seu caminho juntos. Sobre a criança nada sei.

O nosso cientista, o Doutor X deixou-nos. Segundo compreendi, ele ainda não se encontra preparado para trabalhar nas Esferas Superiores, ou mesmo para se reunir a um Grupo que esteja ligado Àqueles que trabalham em tais esferas. Mas ele recuperou-se e encontra-se mais preparado para aceitar as verdades que tinha rejeitado quando na Terra. Agora, porém, ele deve corrigir uma falha que existiu na sua vida passada, a falta de amor. Na Terra ele tinha estado de tal modo envolvido na mente lógica e racional que nem lhe sobrara tempo para os habituais sentimentos pelos seus semelhantes. Tivera medo de se deixar envolver pelo amor, de modo que nunca se casara ou chegara a sentir afeição por qualquer mulher. Vivera inteiramente para si mesmo e para o seu trabalho. Agora foi reunir-se com a sua mãe, o seu pai e as suas irmãs, por um período de tempo, para assim aprender a ser parte da unidade que é a família.

Você sabe que nós todos fazemos parte de uma Família ou de um Grupo, e se recusarmos aceitar isso, seja no cumprimento de uma vida familiar, de uma vida em grupo ou de uma vida comunitária quando estivermos no plano terreno, ou se nos recusarmos a cooperar desinteressadamente com tais grupos, quando temos oportunidade, somos retidos aqui e impedidos de progredir até termos corrigido essa falha. Por conseguinte, ele se reunirá, praticará a abnegação e colocará, generosamente, a sua solidariedade, o seu amor e a sua compaixão ao serviço dos seus semelhantes, antes que lhe seja dada permissão para prosseguir e juntar-se à pesquisa científica, como é o seu enorme desejo.

Quanto a mim, tenho passado por uma espécie de processo de limpeza, no que a querida Madre Florence tem sido tão prestimosa, gentil e compreensiva comigo quanto o foi nos meses que antecederam a minha profissão de fé definitiva, na carreira religiosa. Ela é uma alma maravilhosa, e no trabalho desta casa tem estendido a sua assistência de forma voluntária a estes seus semelhantes. Todavia, estou certa de que ela “visita” outras Esferas, embora nunca me tenha dito nada. Ela afasta-se de nós e quando retorna, tenho a certeza de que não está a usar o seu hábito do costume, que é a vestimenta que sempre usa. Certa vez encontrei-a justamente quando ela regressava para nós; o seu rosto apresentava-se refulgente. Estou certa de que ela se encontrava vestida com a roupagem do Espírito. Era uma veste de um azul profundo e de grande beleza. Mais tarde, sem qualquer explicação, ela retomou o hábito com o qual acolhe os nossos pacientes. Madre Cecília também está connosco ocasionalmente…

No que diz respeito à minha “vida” aqui, retiro-me cada vez mais e mais para a profunda alegria, paz e repouso do meu jardim, por entre as minhas flores. Lembra-se que nunca consegui sentar-me a saborear o repouso no meu jardim, quando me encontrava na Terra. Sentia-me sempre demasiado ansiosa por prosseguir com as minhas tarefas.

Aqui não existe tal pressa. Estou a aprender, cada vez mais, a abandonar a pressa e a deixar que a minha alma mergulhe, funda e confortavelmente, na contemplação da alegria do Espírito. Isso se desenvolve de uma forma a que você chamaria de “vida em sonho;” contudo, na realidade é um prolongamento da alma rumo a uma consciência mais ampla. Eu me rejubilo na luz, na paz e numa nova alegria. Não posso descrever, com maior clareza, o que acontece. Se eu disser que agora compreendo o significado da frase “Repousar no Senhor,”, isso poderá ajudar. Contudo, essa experiência não envolve qualquer individualidade. Para mim Deus é Luz, Energia e Júbilo.

Descanso nesta luz e sou curada de muitos dos meus erros, e vivo uma vida mais rica.

11 de Janeiro

Eu chamo-o de homem da bicicleta. É uma alma que se tem encontrdo aqui nesta Casa, há um longo período de tempo, segundo os padrões da Terra. Devo imaginar que ele tenha sido mnorto num acidente de cicicleta justamente antes ou bem no início da Primeira Guerra Mundial, pois, quando conversei com ele, não conseguia recordar-se de coisa nenhuma a respeito de qualquer guerra. Aqui ele está no que eu chamaria de minha enfermaria psiquiátrica. Ele foi um larápio que transformara o roubo numa arte e nunca fora a apanhado. Foi morto quando a sua bicicleta ficou fora de controlo por os travões não terem funcionado quando ele descia um morro íngreme. Ele bateu contra um carro (uma das primeiras safras) pertencente a uma mulher que ele roubara sistematicamente durante anos; verduras da horta e dinheiro da sua casa, que ele arrombara e invadira. Com ela possuía um negócio na cidade onde esse homem morava, ele sabia a que horas a mulher se ausentava de casa. Ela nunca chegara a suspeitar dele. Segundo parece, ele tinha sido um especialista a forçar trincos de janelas e em subir canos de escoamento. Trabalhava como operário, mas tinha ideias! Uma delas era que “todas as coisas eram gratuitas.” Naturalmente ele estava certo – em certa medida. Todas as coisas deveriam ser gratuitas, e se a humanidade tivesse alcançado um tal estágio de evolução elas seriam mesmo. Só que ainda não alcançou. Aqui todas as coisas são gratuitas, evidentemente. Este é um dos obstáculos que temos nas nossas longas e um tanto complicadas conversas que nós dois temos.

“Aqui é grátis! Porque é que lá as coisas não deveriam ser grátis para todos?” pergunta ele continuamente. Pode imaginar a dificuldae que tenho?

Temos que ensinar-lhe que moralmente ele estava errado, embora espiritualmente o mundo – e a absorção das riquezas que move – também estivesse errado. Acontece que ele ainda refuga a sugestão de que dora dominado pelo desejo de posse! Ele é uma estranha alma “trancada,” condescendente e prestimosa, mas parece que não consegue entender as crenças obstinadas que tinha nem adaptar-se à nova vida aqui. Ele anda a “trabalhar” pela casa. Até agora a sua inteligência limitada ainda não comprendeu que não é necessário ir chamar as irmãs ou cavar na terra para plantar as flores, pelo que continua a fazer como antigamente. Nós conversamos com ele e tentamos persuadi-lo a aceitar esta nova fase da Vida, em que entrou. Parece ter ficado estático, e assim permanecerá até que o seu Ser Superior seja despertado. Sente-se perfeitamente feliz por se encontrar onde está e não sente qualquer aspiração em relação a qualquer outra coisa mais Real.

Realidade? O que é isso?

Que ilusão é o pensamento! Quando eu estava na Terra, eu costumava pensar que era bastante real. Agora percebo que aquilo que parecia importante e substancial, que parecia valer o esforço, era somente a sombra de uma sombra! Aqui eu não sou verdadeiramente Real. Isto também representa simplesmente a sombra, a casca ou envoltório de uma outra coisa mais. Ainda me encontro numa jornada… talvez rumo ao Centro, e decerto que rumo a um ponto mais elevado, porém, mal me atrevo a imaginar qual possa ser. Por enquanto libertei-me somente da casca da sombra exterior, da pele exterior… mais ou menos como o descascar das cascas de uma cebola. Seguimos em frente perdendo as cascas, o que parece um processo eterno.

Nos meus longos momentos contemplativos, quando o Espírito em mim se eleva e parece alçar vôo em direcção ao próximo degrau, exalto-me e fico ansiosa, bem ansiosa por aquele estágio que virá a seguir. Contudo, sei que tenho que permanecer aqui onde estou a fazer exactamente o que estou a fazer, até que tenha desprendido algo mais do “envoltório de sombra…”

Você sabe, eu sempre desejei avançar em frente com demasiada rapidez. Com frequência visualizei acontecimentos que se encontravam uma encarnação à frente. Lembra-se do que costumávamos conversar? Eu imaginava grandiosos Seres a caminhar por entre os homens, na Terra. Tal tempo chegará, sem dúvida. Talevz isso já esteja a acontecer, mas os homens não têm visão para o enxergar. Naturalmente, agora reconheço os obstáculos; o homem não estaria pronto para os receber, ainda.

Até mesmo neste estágio, fora das limitaçoes físicas, os nossos pacientes não teriam capacidade para acreditar, quanto mais aceitar, a aparição de Seres Grandiosos. Fui deveras abençoada por ter tido permissão para conhecer um desses Grandes Seres no Amado Doutor do Grupo Médico… Mas acontece que vim para cá a contar com isso!

Os Planos do Espírito alongam-se em frente até ao infinito. Que grande alegria caminhar para o futuro, gravitando (mesmo que lentamente) para o nosso verdadeiro Lugar! Presumo que cada Plano parecerá real, terá mais realidade do que aquele que o tenha antecedido. Isto soa a paradoxo! Contudo, e a realidade? Ela situa-se absolutamente além da nossa compreensão.

Tenho conversado longamente sobre este assunto com a madre Florence, que se encontra muito mais avançada que eu; parece passar por entre os Planos à vontade. Todavia ela admite que há muito mais, infinitamente mais, além daqueles onde consegue penetrar. Desejo ardentemente prosseguir, ver esses Planos de Luz; tocar esses Grandes Seres; contudo, aqui sinto-me tão feliz e contente quanto qualquer um pode sentir. Mas não é possível penetrar à força nos céus que se encontram além de nós; a Lei do Progresso é rígida.

Todavia, estou a tentar livrar-me de umpouco da confusão da personalidade. Todos precisamos fazer isso… E aqui temos três maneiras de levar a cabo esse objectivo. Por meio da auto avaliação e da análise honesta das experiências; por meio do trabalho pelos nossos semelhantes; e por meio da aspiração.
Você diria que, afinal de contas, não defere assim tanto da vida terrena!
Oh, mas com tantas, tantas compensações!

Posso expressar isso com mais clareza por o seguinte pensamento: O “Subjectivo” da mente do plano terreno tornou-se o “Objectivo” neste novo estado de Existência. Começamos a compreender que esta é a lei da evolução. Por intermédio dela avançamos em frente, penetrando em reinos de incrível beleza e portento. Como poderia eu tornar isso mais claro?

O conteúdo “Subjectivo,” ou interior, dos mesu pensamentos, aspirações e desejos, aqui e agora, modelarão o lugar “Objectivo” para o qual passarei no próximo estágio da minha jornada, exactamente como a vida interior da alma, dentro do corpo-mente na Terra, determina o primeiro lar futuro, neste nível.
Por conseguinte, a vida interior de harmonização, de meditação e de contemplação da Verdade e da Beleza Divina é cada vez mais importante e inestimável. O provérbio que reza que na Terra: “Conforme o homem pensa, assim ele é,” é verdadeiro em essência, mais verdadeiro do que as nossas ideias conseguem conceber. Por meio dos seus pensamentos e inspirações, o homem cria, para si mesmo, o seu futuro lugar nesta dimensão. Está é uma lei lógica. Na vida terrena ele pode construir uma fachada para si mesmo, mas aqui ele não dispõe de tal máscara. Aqui ele é conhecido pelo que é e por aquilo que a sua vida interior subjectiva fez dele.

Veja, pois, a importância que a luz tem para a alma. A intensidade e a força com que a Luz ilumina a vida interior são objectivadas aqui; a alma recém-transportada sempre é encaminhada para o lugar a que tem direito, para o lugar que preparou e mereceu.
“Juntai para vós próprios tesouros nos céus,” pode ser aceite como tendo um significado concreto.

13 de Janeiro

Tivemos uma “recém-chegada” que não ficou connosco. Após ter repousado, prosseguiu com o seu caminho. Foi um caso interessante; era uma mulher que tinha sido enfermeira e missionária na África, durante muitos anos da sua vida, e que tinha vivido a religião cristã. Fora morta por altura de uma rebelião dos nativos e, com ela, um meninozinho nativo que estivera sob sua protecção. Ambos tinham aqui chegado juntos, pois parece que até mesmo no momento da transição para este plano ela se agarrara ao menino, com amor.

Esta é uma mulher a quem eu m epoderia er surpreendido invejando secretamente (caso não aprendido melhor). Ela é uma alma tão bela, com a Luz do Amor a cercá-la como um halo. Quando tomou consciência do ambiente que a rodeava, as primeiras palavras que proferiu foram: “Eu sabia que despertaria entre irmãs. Graças a deus! É maravilhoso!” Não tinha na sua mente qualquer dúvida com respeito a ter sobrevivido à terrível provação por meio da qual encontrara a morte; não abrigava recriminações, não sentia temor e o mais impressionante de tudo, não sentia rancor algum. Ela transpirava um amor desinteressado.

A sua primeira preocupação foi pelo meninozinho de pele escura. Quando soube que ele se encontrava aqui, junto dela, a “dormir” em segurança, quase chorou de alegria. “A senhora entende, prometi aos pais, que “partiram” algum tempo antes, que tomaria conta dele,” disse ela. “Agora posso realmente descansar uns momentos.” Ela constituiu uma grande alegria para todos nós que aqui nos encontramos – uma alma cheia de luz e de beleza. Tivemos grandes conversas, eu e ela. Falei-lhe da minha visita aos Doutores e ao Grande Médico que é o Líder deles.

Ela ficou emocionada e inspirada. Sei que logo se encontrará na Presença de alguma grande Alma.
“Porém, não antes que o pequeno Laki tenha sido devolvido aos pais,” insistiu ela.
Assim sendo, as irmãs puseram-se em campo para encontrar os pais do menino. Claro que não quero dizer que o tenham feito no sentido físico com que o teríamos feito na Terra. Elas “concentraram-se” e pediram a ajuda dos Grandes Seres que dirigem as almas recém-chegadas. Também enviaram os seus pensamentos para entrar em contacto com o “feixe luminoso” cujo raio essas almas habitavam. E o contacto foi estabelecido. Um mensageiro chegou com um guia e o pequeno Laki foi para o lugar a que tinha direito.

A sua mãe biológica ficou cheia de alegria por saber que poderia visitá-lo, conforme tinha feito quando se encontrava no corpo físico. A esta altura deveo dizer uma palavra a respeito do menino. Uma criança encontra-se muito mais prózima da vida da alma. Memso os curtos e poucos anos que esta alma passara na Terra – seis, creio eu – mal a tinham separado do seu contacto com o Amor Divino. Para o menino, esse amor tivera continuidade através da sua “mãe” missionária. Ele aceitou a nossa nova vida com um espanto mudo, mas não obstante, com alegria total. Amou-nos a todas e certa vez contou à Madre Florence de um grande anjo que, segundo disse, vira junto de nós, na casa.

Para mim, testemunhar aqui o renascimento de tal inocência fio uma experiência maravilhosa e inestimável; a lama desta criança, imaculada, livre da mácula do materialismo e da separação das crenças terrenas, estava assim pronta para o mundo celeste. Posso expressar isto melhor dizendo que aquela alma foi como um botão que se abriu numa flor. Por favor, escreva e sublinhe isto, por eu sentir que seja um conforto para aqueles pais e mães que possem ter sido separados dos seus queridos filhos, por aquilo que o mundo cahama de morte.

Laki reuniu-se à sua família; a nossa missionária descansou conosco. Para mim, el afoi uma lição sem palavras. Quanto aprendi com ela! Porquanto ela, sem dúvida, encontrava-se enrte os Escolhidos. A sua breve permanência connosco, aqui, ajudou-me a repassar os meus pensamentos com relação aos meus velhos conjunto de valores. Na vida terrena cometemos o erro de dar um valor demasiado elevado ao intelecto, e de escarnecer o simplório seguidor da Realidade. Esta mulher tinha inteligência, mas não possuia um intelecto bem desenvolvido ou treinado. Porém, viveu constantemente de acordo com o seu Centro Verdadeiro. Por outras palavras, o seu Espírito foi guia constante e ela entregou todos os problemas, todas as dificuldades e todas as alegrias a este Mestre Interior. Irradiava paz, amor e contentamento, e a morte tivera pouco significado para ela. Encontrava-se bastante familiarizada com a Voz interior e obedecera à Vontade Superior. Isso fizera-a passar por estranhas experiências; era evidente que, humilde como era, e bastante longe de ser talentosa, trouxera consigo para o mundo, um Raio Divino. Ela tinha vivido aquilo que muitos de nós tínhamos falado.

Na Terra os valores encontram-se enviezados. Intelecto e mente-cérebro treinados servem de grandes coadjuvantes, porém, frequentemente transformam-se em barreiras em relação à verdade e à expressão genuína do Amor Divino. A mente racional do homem precisa aprender a obedecer e a cooperar com o Eu Interior – o Cristo em cada homem, dos ensinamentos do Mestre Jesus - e a Luz Interna dos sábios orientais. Para mim isso foi demonstrado com muita clareza na “passagem” pela pela nossa estação, desta grande alma, tão simples porém, tão profunda na sua compreensão da reconciliação com a verdade.

A Madre Florence contou-me como foi a sua Partida.

Ela e a nossa missionária estavam a conversar no terraço que aqui temos, quando Madre Florence observou que a sua paciente parecia ter caído em profunda contemplação. Ficaram ambas quietas e caladas. Madre Florence sentiu uma Presença grandiosa, coo se um Anjo de Luz estivesse com elas; manteve a sua alma em silenciosa expectativa. Então, a Luz que as rodeava foi se tornando mais intensa, a atmosfera ficou mais potente e nela havia a “impressão” de música. Segundo diz a Madre, a sua amiga missionária fez um gesto impulsivo, estendeu a mão e tocou Madre Florence.

“Obrigada e que Deus abençoe a todas por me terem recebido com tanta bondade,” murmurou ela. “Quão esplêndido é o trabalho que aqui realizam! E eu percebo que ele é inteiramente voluntário. Mas o verdadeiro Lugar que lhes pertence está à espera de todas, quando tiverem terminado as vossas tarefas. Posso vir sempre aqui visitá-las?”

A Madre Florece sentiu que não tinha outras palavras a dizer a não ser “Deus a abençoe.” A Luz cresceu e multiplicou-se em torno delas e a Madre Florence disse que os seus olhos somente puderam perceber a Luz e nada mais. Ela sentiu-se arrebatada para cima, para a iluminação. Quando o seu “espírito retornou” (estas são palavras dela) a nossa missionária partira. Tinha ido o lugar que era seu por direito. Como você vê, o Amor tinha sido levado para as Esferas mais elevadas, muito antes que o intelecto – como no caso do cientista – ou a perícia – como no doutor X – estivessem preparados para ascender. Que lição, para nós aqui e para aqueles que se encontram na Terra. Por favor, anote isso.

13 de Janeiro – Mais tarde

O nosso paciente nazista ainda se encontra na mesma; inerte, imóvel, trancado na sua própria casaca. Na verdade, uma casca. O Padre Joseph diz-me que a pobre criatura poderá permanecer assim durante um espaço de tempo que na Terra equivaleria a muitos anos. Este homem já foi mantido no tenebroso cativeiro do inferno que ele próprio criou, desde o final da última guerra; e isso foi há mais de vinte anos atrás. (Estou rapidamente a perder a contagem do tempo conforme o conhecemos na Terra). Aqui “acontecem” coisas; almas e entidades, em todos os estágios mais inferiores da evolução, chegam e vão-se; partimos ou então ficamos; porém, não pensamos nestes eventos em termos de tempo. Vivemos, ou existimos, de acordo com o nível da nossa vida-pensamento; alguns sentem-se felizes por ficar, pensando, sem dúvida, que este seja o estágio final.

Naturalmente, deve chegar um momento, por altura do despertar da alma, em que a falsidade dessa crença é demonstrada, mas o Padre Joseph diz-me que algumas almas se acomodam a um estágio durante anos… até mesmo durante séculos! Enquanto outros persistem no seu antigo ambiente terreno durante eras!

O nosso nazista, nesse caso, poderá jazer deste modo até um longo tempo depois que muitos dos pacientes, auxiliares e servidores que aqui se encontram tenham recebido os seus diplomas e passado para Esferas Superiores. Contudo, ainda realizamos “sessões-pensamento,” para ele. Até mesmo a mulher judia veio visitá-lo! Ficou estarrecida diante desta alma até que, por fim murmurou: “Ele não parece tão perverso, não é?”

A maravilhosa lição referente a isto é que, na hora em que ele estiver pronto para um confronto com a Judia, ela terá progredido o suficiente para perdoar todas as mágoas pelas quais ele foi responsável: e estará preparado para o ajudar. E ele irá precisar de ajuda! Conversei sobre este assunto com o nosso sábio Director. O Padre Joseph disse que, embora estejamos a fazer tudo quanto podemos, é uma pena que não haja preces vindas dos habitantes do plano terreno, que podessem ser proferidas pela alma deste homem. Interessada por esta maneira de encarar a questão pedi explicações.

“Preces e bons pensamentos dirigidos àqueles que deixaram a vida terrena,” disse ele, “enviados pelos que ainda se encontram encarnados, representam um grande auxílio para o trabalhao que realizamos aqui. As formas de prece e a potência dos bons pensamentos provocam uma vibração acelerada que vai aoencontro daquele a quem tiverem sido enviadas. Geralmente o paciente encontra-se estreitamente ligado, por interesses, afectos e recordações, à sua vida anterior e, desse modo, pode reagir a essas vibrações; assim ele é imensamente ajudado. Para a alma recém-tranferida, tais petições e meditaç~eos poderiam assemelhar-se a um gole de água curativa.”

O nosso Conselheiro sacudiu a cabeça por algo que senti constituir uma tristeza infinita. “Mas, ai de mim, na Terra não há ninguém que reze até mesmo pelo repouso desta pobre alma…” Pensei profundamente sobre isto.

Ele é uma pobre alma… mas não uma “alma perdida.” Deve er havido algo de bom que os Grandes Seres tenham reconhecido, caso contrário o nosso paciente nazista não teria sido “resgatado.” O pecado que o acossou e que obliterou tudo o mais foi o amor ao poder; isso cresceu e transformou-se em rancor contra uma outra raça, induzindo-o até mesmo, a enviar para a morte homens, mulheres e crianças dessa raça. Contudo, a menos que sejamos divinamente sábios, como poderemos julgar o que ele fez? Sempre acreditei na reencarnação e até ao momento não tenho motivos para pensar de maneira diferente. Fico a imaginar, pois, com que espécie de estímulos e de amargas lembranças da alma esta pobre criatura se apressou a voltar para renascer! Através de toda a história existiram montros que queimaram, torturaram, pilharam e destruiram. Que foi que lhes aconteceu? Não podem ter ficado todos perdidos. Pobres criaturas, devem ter-se arrastado para fora do lamaçal das suas iniquidades, penetrado em alguma alma-luz num momento qualquer e então, talvez se tenham apressado a renascer com um conhecimento apenas parcialmente digerido.

Sempre tive a certeza de que aqueles que se encontram mais avançados devem ter estendido uma mão de auxílio ou enviado algum pensamento de amor, pois alma nenhuma é deixada ao abandono. Contudo, como cada alma deve ser julgada pelos seus actos terrenos e pelos resultados destes, a única coisa que podemos pedir é que sejam dadas forças as esta pobre criatura e iludida entidade quando ela também estiver na barra do tribunal. Nesta hora ninguém rezará pela sua alma, na Terra? Fomos ensinados a rezar por aqueles que nos exploram maldosamente. Aqui, por certo, está um exemplo vivo, para todos nós. Este talvez seja um caso notório. Mas, o que dizer dos outros milhões que durante o seu curto espaço de tempo, na Terra, pagaram pelos seus crimes (como tão presunçosamente dizemos) sendo executados e que depois foram esquecidos?

As preçes não têm sido modeladas pelo Amor, transformando-se em pensamentos de compaixão que podem alcançá-los na sua escuridão? Jamais nos lembramos deles e pedimos ajuda para que pudessem reconhecer as suas iniquidades? Este é um pensamento que nos traz à razão. Fazendo tal ligação, podemos descobrir que a negligência e o interesse próprio em que nos trancamos, talvez possam merecer uma retribuição quando alcançarmos este mundo.

Você pergunta sobre os Círculos e Salvamento?
Quando eu me encontrava no corpo conheci este método de auxílio e participei mesmo em tais grupos, quando estava a investigar. Contudo, os investigadores e os auxiliadores devem ter muita pureza do coração e devem estar bem seguros do Auxílio e da Força Divina quando tentam realizar tal trabalho. Agora que testemunhei, pessoalmente, o estado de uma alma desse tipo, vinda da escuridão exterior, tenho uma percepção muito maior dos perigos de tais grupos; por isso, aconselharia cautela.

Contudo, o envio de Luz emanada do Centro e emitida por grupos em momentos de meditação; a formação deliberada de um pensamento-oração, para alcançar e tocar essas pobres criaturas que se encontram nas trevas; um momento de recordação num lugar santificado e até mesmo o pronunciar dos nomes de tais infelizes, a enconmendá-los à Piedade Divina… todos estes actos são auxílios para a ressureição daqueles que habitam na treva.

Perdoe-me se lhe preguei um sermão; o desejo que tinha não era esse. Posso apenas confiar em que a descrição que fiz da importante experiência por que passei aqui possa trazer um eco de compaixão no coração daqueles que leem.

15 de Janeiro

Encontrei a minha família e visitei o meu pai, a minha mãe, a minha irmã e o meu irmão. Contudo, como este é um assunto privado, e sem relevância para o propósito destas comunicações, não escreverei a respeito…

O nosso paciente nazista ainda dorme. A sua vítima judia foi visitada pelo seu marido, uma alma bondosa e gentil, e ambos conversaram longa e apaixonadamente. Segundo parece, a menina que lhes foi arrebatada não se encontra neste mundo. O seu marido falou da longa busca que realizara. Por fim tinha sido informado de que a criança sobrevivera e se tornara adulta. E pobre alma amargurada e infeliz, vive afundada numa vida sórdida.

Ao receber esta informação, a princípio a mãe reverteu à sua amargura e ao seu ardente desejo de vingança, mas, conforme o Padre Joseph e o seu marido lhe fizeram ver, a vingança aqui não tem significado. Também não existe a vingança de uma mágoa, nem aqui nem nos reinos acima, imagino eu; existe apenas compreensão, perdão e amor desinteressado.

Depois de muita discussão (eu fui “chamada” para falar em uma das sessões), a nossa pobre mãe amargurada acalmou-se e foi capaz de ver o Propósito de todas as coisas. Agora encontra-se tão ansiosa quanto o seu marido para localizar a moça e entrar em contacto com ela por meio do pensamento, do amor e da prece concentrada. Ela própria precisa de uma limpeza muito maior no seu “etérico” antes de poder ter êxito na sua aventura. Mas ela já é uma alma diferente. A velha casca dura está a desaparecer. A bondade e o amor maternal brilham nela. Ela sente-se feliz por estar novamente com o marido que perdera e está a preparar-se para reunir-se a ela no lar que ele está a preparar para a receber. De início ficará com ele durante algum tempo, retornando para cá a fim de repousar e de se tornar mais forte na alma. Mais tarde, quando a cura se achar completa o caminho estará aberto para que estas duas almas possam ficar juntas e entrar em contacto com a filha… O que quero dizer é que as forças existentes, que operam estes contactos a partir deste lado, encontrarão um “canal” através do qual a moça possa ser alcançada; Luz e Amor serão derramados sobre ela…

O nosso Dr. X tem feito muitas visitas à nossa fraternidade médica. Ele volta para nós cheio de esperanças renovadas e de um entusiasmo renovado para prosseguir com a sua evolução e com o seu trabalho futuro. Ao voltar da última visita ele veio a mim, repleto de um fulgor de felicidade.

“É maravilhoso, irmã” irrompeu ele. “Aprendi tanto. Por que, oh, por que não pude ter conhecimento disto quando ainda vivia na Terra? Que maravilhoso Propósito e Plano existem para a Vida! E como agora parecem tão pequenas, quase insignificantes as lutas, os enganos e os fracassos da vida terrena, que findou.”

Insisti para que ele prosseguisse e me contasse mais acerca das suas descobertas. Ele admite estar emocionado com as perspectivas do trabalho e da pesquisa que fará no futuro. Agora ele pode ver como este devotado Grupo de médicos, sob a tutela do seu mestre e Líder, está a encontrar, bem depressa, os meios para aliviar a humanidade de alguns dos seus sofrimentos.

“Nós ainda estamos somente no lado paliativo, como disse Curie,” contou-me ele, “porquanto até que o homem aprenda a deixar de ser tolo, é preciso deixar que ele prossiga e use as suas descobertas para a destruição e para induzir o medo e a submissão nos seus semelhantes. Nesse meio tempo, porém, o Grupo está a ajudar a “transmitir” ideias acerca da origem e o tratamento de doenças…”

“Para o cancro?” perguntei, relembrando (agora somente com um leve estremecimento de desagrado) a destruição do meu próprio corpo físico?

“Sim, o cancro,” confirmou ele, com um aceno. “Estivemos a debater a causa dessa doença, em primeiro lugar, por uma célula que fica “frenética,” e que se transforma numa célula delinquente e fuge ao padrão e ao ritmo ordenado das funções corporais. Uma célula pode romper todo o ritmo de um determinado grupo de células. Por exemplo, se vocês colocar partículas de areia num prato de vidro e as dispuser conforme um determinado padrão e arranjo, depois dá o impulso a um grão de areia, fazendo-o passar, numa correria, por entre os outros, o padrão inteiro é perturbado. Rompe-se. E então, quando aquele determinado grão fica imóvel, o padrão já se encontra diferente.”

“Então, vocês têm que descobrir o que foi que fez com que aquela única célula ficasse furiosa?” Interroguei.

“Creio que nós já sabemos,” respondeu ele. “Isso poder ser provocado por duas causas; uma exterior, como uma força real que golpeia o padrão celular (conforme no exemplo que dei do grão de areia) e isso pode resultar de uma queda ou de uma pancada sofrida no corpo. E por uma causa interior: pressão e tensão desenvolvidas na mente e, portanto, reproduzidas nas células do corpo (que até certo ponto obedecem à mente) causando assim uma obstrução. Esta tensão muscular ou nervosa pode resultar no colapso de algumas células e na expulsão de outras. Tais tensões têm muitras causas – a preocupação, o ódio e o medo tingem a maioria das vidas na Terra; a frustração, a raiva, o ciúme, a inibição, e o “recalcamento” das emoções, talvez pelos mais elevados dos motivos, mas sempre contrários à liberdade da personalidade) são forças que se concentram numa tensão adicional, sobre um órgão e, por fim, sobre uma célula… a “delinquente,” que escapa e dá início a um sistema reprodutivo da sua própria autoria - de facto, a reprodução de um fungo. Você sabe, Irmã, se os cientistas e os pesquisadores médicos estudassem a causa e a produção de fungos em plantas, árvores e raízes, obteriam muitos conhecimentos a respeito da célula delinquente…”

Ele estava a falar comigo numa linguagem que eu conseguia entender. Esse seu entusiasmo era contagioso. Continuei a interrogá-lo. Contou-me muitas coisas que eu não consegui compreender, mas voltamos de novo à grande Verdade que eu estou a assimilar cada vez mais e mais, embora – como nós sabemos – o seu significado fosse visível em todos os nossos ensinamentos na Terra, se ao menos pudéssemos entendê-los. Luz! Luz! E ainda mais Luz! Luz para educar e enaltecer as mentes das pessoas, que traga serenidade e paz e que inspire uma tranquila confiança no Propósito da vida e no milagre da criação Divina. Luz nas suas almas e nas suas mentes, para elevá-las acima da ilusão dos temores da vida terrena; Luz nas suas mentes, para ensiná-las quanto ao modo de “sintonizar” qualquer frustração da vida ou da personalidade, com o randioso Raio de Amor Divino. Naturalmente esse é um facto que me interessa, nas revelações do Dr. X.

“O que o homem precisa descobrir,” prosseguiu o Dr. X, “é algum agente que possa (usando o exemplo do grão de areia a correr feito doido) atrair ou forçar esse grão isolado a voltar para o seu lugar correcto ou anulá-lo completamente, restaurando assim a forma e o padrão. No caso da primeira célula delinquente, no início de um temor canceroso, a ciência médica faria bem se concentrasse as suas pesquisas na descoberta de um agente poderoso que iria agir como um restaurador deste padrão-vida original. As drogas,” disse ele, “deveriam ser experimentadas, e os seus resultados seriam parcialmente favoráveis. Mas, para onde o homem deverá voltar os olhos, na busca de novas técnicas, novos tratamentos e novos reconstituintes, será para os excelsos benefícios da Luz; a luz,” assinalou ele, “do Raio Laser, recentemente descoberto porém apenas parcialmente compreendido e aplicado.”

O Dr. X falou da utilização de um Raio de Luz pura e eu entendi que se estava a referir ao Laser. No futuro, segundo ele afirma, um Raio desse tipo será utilizado mais extensivamente e poderá projectar a sua luz sobre essas células delinquentes. “Mais tarde,” disse ele, “o Grupo ajudará a imprimir, nas mentes dos pesquisadores, a compreensão de que, à parte do seu poder para cortar, este Raio – ou melhor, uma variação dele, numa forma modificada – poderá ser usado como uma espécie de catalisador, para reformar o padrão celular que se acha errado.”

Antes que o século actual tenha terminado, diz-me o Dr. X, este método de emprego da Luz ter-se-á transformado numa grande arte médica e num tratamento para aliviar e deter o sofrimento. Ao mesmo tempo, visando o pensamento criativo, o homem estará a aprender a governar-se a si mesmo, a governar a sua mente, as suas emoções e as suas reacções.

O Dr. X finalizou: “Nós ainda estamos no ramo paliativo, mas finalmente, num futuro que pode ser antevisto, os médicos estarão capacitados a controlar o furioso assalto do cancro, como já o fizeram com flagelos do passado, tais como a difteria, a febre tifóide e a peste bubônica. O diagnóstico dos estágios insipientes do cancro serão feitos por meio de uma adaptação do actual método do Raio-X e as células delinquentes serão isoladas. Depois estas serão tratadas pela Luz, a fim de anular a sua maligna perturbação da forma e do padrão. Assim como a inoculação e a vacinação operaram para eliminar antigos flagelos da humanidade, assim também o uso aperfeiçoado do Raio finalmente reduzirá o cancro a um valor mínimo, enquanto doença mortal… A pesquisa está a prosseguir activamente e as “sementes-pensamento” destas ideias revolucionárias estão actualmente a ser projectadas nas mentes de cientistas e de pesquisadores de todas as nações… Qual a nação que conseguirá ser penetrada primeiro,” disse ele sorrindo, “constitui uma especulação interessante, para nós.”

O Daily Telegraph, 31 de Outubro de 1968

CÉLULAS CANCEROSAS DETECTADAS PELO RAIO LASER

Uma nova e promissora forma de detectar células cancerosas, usando a luz laser para iluminá-las sob um microscópio está a ser investigada nos laboratórios da International Rsearch and development Company, em Newcastle-upon-Tyne.

Há evidências de que as células malignas assumem uma brilhante luminosidade vermelha, o que não acontece com as células normais. Isto foi observado pela primeira vez quando os cientistas de lá começaram a analisar células malignas retiradas do intestino. A técnica foi tentada, depois, em manchas cervicais, retiradas de mulheres, mas com sucesso limitado.

O daily Telegraph, 13 de Outubro de 1966
O NEUTRÃO USADO COMO TRATAMENTO DO CANCRO

Cientistas na Inglaterra, começaram a trabalhar num novo aparelho de radiação que utiliza neutrons, que poderá ser mais eficaz do que o Raio-x no tratamento de muitas formas de cancro.
O Sr, James Wood, encarregado do projecto no Electronics Research Laboratory, do Departamento de Serviços de Defesa, em Baldock, Hertfordshire, declarou ontem: “Ainda não podemos dizer definitivamente se isso será um remédio, mas parece que as probabilidades são de cinquenta por cento. Levaremos cerca de três anos a aperfeiçoar um tubo gerador de neutrões, com a alta potência do rendimento que é necessária. Depois de pronto, espera-se que o aparelho seja uma máquina suficientemente compacta para ser instalada numa sala comum de tratamento pela radioterapia. A produção de neutrões será protegida por catorze polegadas de aço, com uma pequena abertura para o feixe direccional dos neutrões. “O Sr. Wood disse que uma alta potência de rendimento era indispensável, para que o tempo de tratamento fosse reduzido a alguns minutos. Este era o máximo de tempo que um paciente consciente poderia suportar.

Seis semanas atrás foi instalado um tubo de alta potência para as primeiras experiências médicas, mas que ainda não alcança o elevado rendimento exigido para o tratamento rotineiro. Está a ser usado para o estudo de avarias nas células e das características da “medicação de profundidade.”

Nos dias em que o laboratório estiver aberto ao público, nas próximas sexta-feira, segunda e terça-feira, os visitantes poderão ver o tubo de neutrões. Estes dias de entrada franca comemoram o vigésimo segundo aniversário do laboratório.
A nossa Ordem dos Médicos escreve: É tudo inteiramente experimental. Ninguém ainda curou um cancro com neutrões, nem sequer o ciclotrão curou já o cancro. Nada foi provado.

(NT: Em 2008 foi publicada na página da Medical Physics Web, na internet, o seguinte resultado: A terapia de neutrões - a destruição de tumores por meio de irradiação com um feixe de neutrons - já foi anunciada como um novo tratamento de câncer altamente promissor. Infelizmente, a pesquisa baseada numa interpretação optimista da evidência experimental inicial produziu resultados clínicos decepcionantes. Como a sequência dos eventos ilustrou, o uso de conhecimento científico parcial na tentativa de melhorar o tratamento de uma condição biológica complexa, como o câncer, provou ser desaconselhado.
Matar células cancerosas em um ambiente laboratorial é consideravelmente mais fácil do que curar um tumor maligno situado dentro ou perto de órgãos e tecidos essenciais do corpo, que pode ser seriamente prejudicado por efeitos colaterais de radiação. No contexto dos futuros desenvolvimentos de radioterapia, particularmente o uso de prótons e terapia de feixes de íons, este conto é altamente relevante.)

17 de Janeiro

Agora você deve estar a perceber a tremenda importância e realidade associadas à Luz. Se é que pode lembrar-se, na Terra, nós trabalhamos (tanto quanto podíamos nas desajeitadas associações da Terra) tentando alcançar a Luz. Mas quão difícil é, aí, varar as forças inertes que parecem sujeitar-nos. No meu livro Fronteiras da Revelação, escrevi a respeito da experiência que tive com a luz etérica; tais experiências devem ser exploradas mais positivamente e com uma utilização muito maior dos poderes intuitivos, por aqueles que estão no mundo e que desejam elevar a vibração lenta do planeta… (Talvez voltemos a este assunto mais tarde.)

Não obstante, ensinar e aprender por meio da experiência é a razão principal das comunicações que temos consigo…
Cada vez mais e mais positivamente estou a estender-me para dentro da Luz. Neste estágio, pelo pensamento e pela vontade, a compreensão da Luz que me cerca, interpenetrando completamente cada estrato do meu ser, tornou-se no meu estudo, na minha concentração, na minha meditação.
Quando não estou “de serviço” junto às almas que aqui se encontram, na Casa, e que necessitam de cuidados e de auxílio (mas até mesmo então faço uso da Luz!) coloco-me dentro da Luz pelo uso da minha vontade, pedindo que a Luz me seja concedida e que a minha alma e o meu espírito possam vir a ser uma Luz inspiradora; que eu possa viver e movimentar-me dentro da Luz, que é a Vontade Criativa.

Esta é uma experiência maravilhosa e emocionante. Quando, na Terra, captei um simples lampejo de luz e ele me elevou e me modificou – assim como modificou o rumo da minha vida – esse lampejo transitório não foi nada comparado com a imersão na Luz que aqui se torna possível. Parece que me encontro deitada no meu jardim não obstante, no poder desta luz, a minha mente e o meu espírito se alongarem numa extensão gloriosa. Torno-me consciente (mesmo que apenas em parte) do mundo que existe além do mundo do pensamento, até mesmo além do pensamento enquanto Existência. Os psiquiatras chamariam a isto de “experiências subjectivas”. Todavia, o que é que qualquer um de nós realmente conhece das extensões subjectivas da mente?

Aqui nós somos mente (reduzida à nossa potência individual, concordo) porém, ainda se trata da mente, livre dos estorvos da realidade aparente e destrutiva da matéria… Por conseguinte, por meio do pensamento e da vontade podemos viajar até muito além daquilo que constitui as circunstâncias imediatas com que nos deparamos, se assim o desejarmos.

Conforme penso que já enfatizei antes, este alongamento para dentro da Luz e da Vida pode parecer-se com uma extensão-no-sonho. Contudo, inversamente, ele é verdadeiro e real para o sonhador! Talvez ele seja a própria Realidade… no estágio actual em que me encontro não o posso apurar.

Talvez eu consiga ilustrar o facto por meio de uma experiência e da explicação do que aconteceu comigo (ou pareceu acontecer, se o preferir!). Uso a palavra “pareceu” com muita cautela, por ainda estar a tentar sincronizar uma experiência interior, espiritual, com a expansão da mente subjectiva dos psiquiatras e com a mente inconsciente dos ocultistas, em termos terrenos.

Contudo, aquilo que ganhei ou aprendi por meio da minha “experiência,” além de possuir um valor inestimável, é emocionante e enche-me de novas esperanças e de alegria. A minha experiência aconteceu durante a última ocasião em que me coloquei dentro da luz, por intermédio da vontade e da oração. Fui transportada (não sei como) para um outro lugar, uma outra Esfera, uma outra “mansão” neste mundo… talvez para um outro planeta; mas quanto a isso não obtive qualquer conhecimento conclusivo. Bastará dizer que, súbita e imediatamente, me tornei consciente de me encontrar numa grandiosa “atmosfera” de erudição. Compreendi que me encontrava numa universidade; contudo, era muito mais do que isso, porquanto havia Salões de Estudo e uma penetrante atmosfera de Pensamento, me mo emocionou ao nível da alma e me satisfez um desejo profundo. Os “edifícios,” simétricos e de linhas puras, pareciam ter um carácter Grego. Foi como se eu pudesse imaginar, ou talvez relembrar, em alguma memória da alma profundamente enraizada, qual a aparência que tais edifícios deveriam ter tido.

Havia pátios internos e lindas vistas de jardins onde brincavam fontes de Luz. Havia muitas almas, grupos de estudantes, às vezes rodeando Alguém que parecia ser um Mestre, atentos à sua dissertação, ou quietos e em profunda meditação com Ele; às vezes reunidos, todos a discutir apaixonadamente; e às vezes um estudante isolado e solitário, em contemplação. Estes que aqui se encontravam eram de todos os tipos e de todas as nações. Eu tive “conhecimento” de que este homem tinha tido uma pele negra na sua última encarnação, no plano terreno. Aqui estava um Chinês, um hindu, um pele-vermelha. Agora não diferiam um do outro; todavia, interiormente podia-se reconhecer a raça a que tinham pertencido recentemente. Todos tinham um ar de concentrada clareza de pensamento e de propósito, que os envolvia como se fossem auras brilhantes e cintilantes, que todavia variavam na cor e na intensidade.

Eu encontrava-me emocionada. Olhei ao redor e vi as Salões interiores, talvez Templos. Notei que as portas desses salões se encontravam escancaradas, mas apesar disso nenhum dos estudantes que se encontravam nos pátios exteriores parecia penetrar nelas. Andei livremente por ali, entre os grupos e através das avenidas e arvoredos. Aqui está, disse eu para mim mesma, a minha Universidade do Espírito; e a recordação do meu ardente desejo de materialização de uma universidade desse tipo, na Terra, encheu-me de uma nova alegria, nesta realização celestial.

Juntei-me a um grupo e depois a outros. Enquanto vagueava, pensei identificar rostos que conhecera, ou figuras que eram familiares por causa da sua fama ou das realizações obtidas na Terra. Todavia, não podia ter a certeza. Pensei ver o seu marido num dos grupos que se encontrava neste pátio, atento, juntamente com outros, na dissertação de um Mestre. Por demais absorvido no assunto, Ele apenas demonstrou que me reconhecera virando rapidamente a cabeça, como se estivesse surpreendido por me ver. Continuei andando. Preciso encontrar o meu lugar nesta grande cidade de cultura – insistia comigo mesma. Sentia que me encontrava nalgum sonhos extático, tão enobrecida e transportada que me encontrava, na minha mente. “Isto é o céu, deveras.” Este sempre tinha sido o meu objectivo, semelhante a algumas visões, semiesquecidas, da realidade.

Agora exulto, por saber que tal universidade da Dissertação e de Estudo existe. E comparecerei às aulas, também, quando descobrir o Mestre cujo currículo contém o conhecimento que procuro. Subitamente veio-me um pensamento: “E os salões interiores?” E com a velocidade do pensamento à qual estou apenas a começar lentamente a acostumar-me, encontrei-me a subir as escadas, em direcção a uma das portas que se encontravam abertas. Senti que de facto a revelação estava aqui! Contudo, quando alcancei o último degrau, de cima, fui cega por uma luz. O choque impediu-me de prosseguir. Fiquei parada, ofuscada e com a mente em branco, incapaz de forçar o meu caminho dentro deste raio brilhante. Tive consciência de que o fulgor desta Luz era excessivo para a minha condição.

Imediatamente algo pareceu extinguir-se dentro de mim. A minha própria luz tinha sido obscurecida. Passei pela inexplicável sensação de estar a diminuir. Senti de novo a estranha e um tanto assustadora impressão de estra a minguar… a minguar…
E encontrava-me de volta ao meu jardim. Esta expansão de consciência tinha sido interrompida. Senti-me como um balão vazio; além de frustrada!
Qual o motivo – perguntei a mim própria?
O motivo estava no meu próprio egoísmo e na minha própria insuficiência. Eu, que ainda não tinha a capacidade para estar presente nos pátios exteriores, tinha-me atrevido a tentar entrar. Dizer que o meu espírito ficou abalado representa um escamotear da verdade… para conseguir enxergar esta experiência na clareza de uma compreensão desprovida de emoções, tive que passar muitos momentos a examinar-me profundamente e a solicitar Luz suficiente, com todo o fervor. Sempre fui por demais precipitada; sempre fui uma exploradora por demais ansiosa para prosseguir e avançar, para invadir, à força, as fronteiras da revelação. Na Terra (você se lembra?) eu tinha imaginado uma Universidade do espírito; eu tinha ansiado por participar de um tal movimento. Eu tinha trabalhado tendo na minha mente o lampejo desta visão.

A visão talvez tenha sido correcta, mas a maneira de a abordar teve o sabor do egoísmo; o egoísmo da mente humana limitada que tem que ser purificada e desnudada antes que os padrões mais elevados, do espírito, possam manifestar-se. Agora vejo que o padrão-pensamento, na terra, não se acha a par de uma velocidade (frequência) suficientemente elevada – acima do matéria e do pessoal – que lhe permita conter tal possibilidade. Tive que aprender, também, que ainda falta muito para que eu esteja preparada para participar, conforme esperara… Segundo parece, ainda não tenho autorização para ser admitida nos pátios externos destes Salões de Cultura… Por ocasião de uma outra encarnação, talvez… Quem sabe? Só podemos compreender os nossos erros e caminhar para a frente, para uma compreensão muito maior.

Mas agora estou contente. A visão ainda permanece comigo, completa e satisfatória; a esperança de novos ensinamentos e de novo progresso. Devo preparar-me por meio do trabalho contínuo, assim como pela análise de mim mesma e pela compreensão dos meus defeitos, aprestando-me para aquela transição para a esfera por que minha alma anseia ardentemente.

Nesse meio tempo, há tanto que fazer, tanto para aprender, tantas facetas novas desta vida, com as quais experimentar e, finalmente, com as quais ajustar-me; mas a Luz encontra-se sempre aqui, aquela Luz do Espírito, que precisa ser consolidada dentro de mim de modo que eu possa habitar Nela e Ela em mim. Quando, por fim, isso tiver sido conseguido, mesmo que em parte, sei que terei permissão para avançar em direcção ao desejo da minha alma; isto é, tornar-me uma aluna dos pátios exteriores, misturar-me com aqueles que possuem uma Mente grandiosa e exaltada, ouvir as Verdades expostas pelos Professores e Mestres da Sabedoria, absorver tais conhecimentos e abrir a minha alma às Realidades eternas. Aqui, nada nos impede de fazer aquilo que desejamos… excepto as nossas próprias insuficiências.

17 de Janeiro – Mais tarde

De facto, este é um mundo (composto) de pensamento! O plano terreno também é, dirá você – esse plano do qual apenas acabei de ser promovida. Só que aí o pensamento tem uma acção muito mais lenta porque todas as vibrações e, consequentemente, todos os resultados ou efeitos, são mais vagarosos; e porque temos uma fachada, uma personalidade com a qual mascarar o pensamento.

Aqui parecemos estar nus. Não há máscaras, nem mesmo para o pensamento, o nosso pensamento mais íntimo, e às vezes estremeço diante da percepção de que os nossos companheiros, que aqui se encontram, podem ler-nos do mesmo modo que lemos os livros, na Terra, que falam do carácter, do pensamento e da acção. Aqui, os nossos pensamentos voltam para nós como bumerangues, potentes e imediatos os efeitos que têm. Conforme o pensamento, negativo ou positivo vêm á mente, é cristalizado em acção imediata. Na mente humana, um pensamento negativo pode penetrar furtivamente e insinuar-se entre todas as nossas boas intenções, e ficar aparentemente adormecido. Depois ele transforma-se num núcleo que atrai para si os pensamentos de conteúdo similar, até tomar uma ilusória aparência de força, através das emoções; posteriormente, manifestam-se em resultados físicos, materiais ou espirituais.

Todavia, nesta nova vida a potência do pensamento é elevada para uma frequência que não permite fugas. Os efeitos são imediatos. Aqui, o padrão de pensamento determina a nossa prosperidade, o nosso progresso, a nossa felicidade e a nossa alegria. Conforme pensamos assim somos… em ambiente, aparência e companhia! Temos que aprender a viver nesta nova frequência; temos que aguardar as portas da nossa mente; e antecipar a acção do bumerangue das emoções negativas… Esta é a maneira de viver destes planos e cada alma deve assimilar a Maneira antes de começar o seu avanço para planos de frequência ainda mais elevados. Isto é luz e escuridão, conforme as conhecemos na Terra; é o dia e a noite da alma…

18 de Janeiro

Encontra-se aqui um antigo polícia; ele já se encontrava na casa há algum tempo, quero dizer, antes da minha chegada, e logo irá ser transferido para outro lugar, neste mesmo plano, por motivos que eu explicarei. Ele é um homem simples, que não teve educação mas que teve um grande senso de dever e que sempre ocupou, com o máximo da sua capacidade… “aquele posto na vida, para o qual deus houve por bem chamá-lo,” conforme costumávamos dizer. Segundo me é dado entender, ele estivera doente durante algum tempo antes que uma súbita paragem de funcionamento do coração pusesse um termo à sua vida e ele viesse para cá. Fora um homem honesto, que nunca “preocupara a sua cabeça” (palavras suas) com religião ou filosofia; e que acreditara, como todos ainda acreditam, que a morte significa o fim de tudo o que conhecemos. Para ele tinha sido um grande prodígio e espanto descobrir como a vida aqui é tão “normal.” Contudo, reagiu bem. Foi preciso tempo e muita ajuda dos devotados auxiliares que aqui se encontram; mas agora, que ele já pode ajustar-se a esta nova fase de vida, encontra-se ansioso para auxiliar a sua família, que ainda permanece na Terra.

Parece que ele tinha um filho e uma filha e que viva bastante feliz com a esposa. O filho agora está nas forças policiais, seguindo as pegadas do seu pai. Segundo ele, é a moça que necessita da sua ajuda. Ela era uma coisinha linda e caprichosa, disse-me ele, e aos dezoito anos de idade teve um filho ilegítimo. Ele admitiu, sem nenhum recalque que nessa ocasião ele e a sua esposa tinham sentido uma grande vergonha; apesar disso, aceitaram a criança e a criaram como se fosse sua própria filha. Após dois anos, a jovem mãe abandonou a sua família e o seu bebé e foi embora, para viver com outro homem. Surgiram brigas e recriminações. Contudo, ela seguiu o seu caminho e eles tinham pelo bebé um carinho grande demais para o enviar para um asilo. Passaram a ver a filha cada vez menos; o bebé cresceu e transformou-se numa menininha saudável, amorosamente tratada pelos avós.

Posteriormente, a filha brigou com o seu protector e foi embora com outro homem; a partir daí viveu aventuras intermitentes com marinheiros, num porto do sul, e desceu inabalavelmente a “escada da respeitabilidade e da moral,” conforme ele referiu.
Como é natural, os avós e o irmão ficaram transtornados, tendo ansiado e trabalhado para que a moça retornasse a uma vida decente. Mas cada vez que conseguiam arrumar um encontro, este terminava em cenas e acusações. O nosso polícia admite, com absoluta franqueza, que o gênio que tinha não era dos melhores e que invariavelmente perdia a calma durante tais encontros. Portanto, nenhum resultado construtivo foi obtido. Os avós ficaram com a criança e a filha continuou “de mal a pior” (a maneira que tem de tornear as frases é inconfundível e muito rememorativa da criação que teve) terminando por viver abertamente como prostituta, ou, de acordo com a expressão dele, “nas ruas.”

Pobre homem! Pobre pai, triste e zangado! Em virtude da tensão e da preocupação, a sua saúde saiu arruinada. Ele teve que ser dispensado do trabalho. A preocupação, o medo e a raiva e o sentimento de importância, com relação à sua filha, provocaram a tensão que causou o problema cardíaco. Ele acabou por sucumbir. Este polícia falou-me acerca dos “inexplicáveis acontecimentos que se deram à hora da sua morte.” Foi levado às pressas para o hospital; a filha foi informada e, para sua grande surpresa sua, veio vê-lo. Na verdade, ela estava ao lado da sua cama – segundo ele crê - quando ele “se apagou como uma luz” (expressão sua). Antes desse momento, porém, ele estava (como pude explicar-lhe) inconsciente para o mundo terreno, não obstante poder ouvir o que se passava ao seu redor. Conforme acontece com todas as pessoas que estão a morrer, ele conseguia ouvir, porém, não tinha forças para pensar com clareza nem para falar. Todavia, estava perfeitamente ciente do remorso da sua filha. Ela chorou amargamente e disse que, se ao menos pudesse, voltaria para casa de novo. Ele ansiava por dizer: “Volta para casa agora” mas a sua língua não queria obedecer.

A esposa disse: “O seu pai haveria de querer que você voltasse para casa e ficasse connosco e com a sua filhinha,” mas a moça apenas continuou a chorar e a dizer que agora era digna de voltar para casa. Depois ele recorda de que deve ter “conseguido,” por se recordar de ter sentido uma estranha espécie de ventania violenta a seguir ao que mais nada se seguiu, até que acordou aqui. Mas vocês deve poder ver coo os pensamentos dele e anseios se dirigem para a filha. Ele já não sente vergonha nem raiva, mas somente um grande desejo de expressar o amor que sente por ela e de a ajudar a redimir-se da vida que está a levar. Contaram-lhe da possibilidade de entrar em contacto com aqueles que se encontram no plano terreno, de modo que agora esse é o único desejo (desejo da alma) do nosso polícia. Ele nada quer para si mesmo; nem mesmo a perspectiva de evoluir e de trabalhar, em qualquer coisa que queira, o atrai.

“Preciso encontra-la,” insiste ele em repetir. “Se, como a senhora diz, existem caminhos que me podem levar a conversar com ela, então devo tomá-los. Tenho que dizer que lamento a severidade que manifestei. Tenho que fazer com que ela saiba que eu a amo; e tenho que dizer a ela que ainda estou vivo… e que habito aqui compos mentis (em são juízo) e tudo o mais… e que ela também viverá!”

“Mas, suponhamos que ela não queira ouvir?”

“Eu insistirei e insistirei até que ela ouça!” respondeu-me ele, deixando-me perceber um lampejo da sua velha personalidade inflexível. “Tenho que lhe provar isso, tanto para o meu bem como para o dela, entende? Por tudo isto ser tão estranho… e maravilhoso! E por eu agora pensar de maneira diferente,” aduziu ele, com mais calma.

Por essa razão, numa das nossas reuniões do Conselho discutimos o problema dele e foi tomada a decisão de ajudar este polícia a realizar o seu desejo. Neste plano existem Estações sonde a comunicação com o plano terreno se torna possível. (Sempre imaginei que existisse algo assim, mas agora sei que é um facto.) Nessas Estações existem servidores e auxiliares que dedicaram o seu conhecimento e o seu esforço a ajudar aqueles que almejam enviar mensagens aos entes queridos que ainda se encontram na Terra. Segundo entendo, a técnica empregue é absolutamente especial além de muito difícil de acompanhar, no princípio, até mesmo por aqueles que desejam usá-la. Mas existem Estações, Directores deste trabalho, administradores, e (num certo sentido) técnicos para fazê-las funcionar.

Vocês lembra-se de como, logo que a conheci, costumava chamá-la de “telefone celestial”? Bom, para diversão do Padre Joseph, agora eu imagino esta transmissão de mensagens, emitidas do nosso lado, como se fosse um “telefone dos mortais.” Intimamente, porém, penso nisso como sendo um telefone público. No princípio tive muita vontade de ver como esse trabalho era executado, até mesmo, talvez, de enviar as minhas próprias mensagens – até que se tornou claro, para mim, que isso não somente representaria um desperdício de esforços mas, além disso, uma demonstração de egoísmo da minha parte, por não necessitar realmente dessa espécie de ajuda.

Sempre tive a sorte de possuir uma mente inquiridora, como você sabe, e com ela pesquisei profundamente os temas da comunicação e da Percepção Extrassensorial. A telepatia estudamos nós as duas juntas, como vocês poderá confirmar, que eu pratiquei à minha modesta manira, obtendo algum grau de sucesso com experiências sem importância, tanto consigo como com outros. Contudo, esses métodos de comunicação – via astral - nunca me foram revelados (talvez para minha mortificação). E agora estou convencida de que não há razão para investigar.

Assim sendo, embora possa visitar o nosso “homem das forças policiais” no seu novo lar e até mesmo observá-lo na estação e tentar ajudá-lo, continuarei a praticar os métodos que parecem ser mais adequados para o trabalho que estou a tentar realizar…. Naturalmente que me quero referir ao contacto telepático que tenho consigo (e com outros), no qual a minha mente se encontra em sintonia com a sua e eu posso transmitir e receber sem que nenhum outro auxílio seja necessário… nem mesmo aquele prestado por uma técnica possivelmente fantástica.

Isto porque, utilizando esta onda telepática, posso “escrever” consigo estes fragmentos de informação sobre o tema altamente controverso da Vida após a Morte (embora nós apenas estejamos a tocar a fímbria de todas as maravilhas daqui e do além) com resultados – confio eu – satisfatórios… ou pelo menos suficientes para ajudar aqueles que possam ler o que foi escrito.

Isto é parte dos deveres que agora me cabem, e você, que me conheceu tão bem, sabia da minha característica, que cravo os meus dentes num assunto não largo dele até que tenha extraído conhecimentos suficientes que me satisfaçam… esta inclinação me é muito útil aqui! Agora, porém, gozo de liberdade para lhe dizer que não é proeza que executo sozinha. De modo algum! Há um Grupo que me ajuda e me guia na selecção dos incidentes que serão telepaticamente transmitidos a si. Em virtude de ter estabelecido contacto com a sua mente numa ocasião anterior, o Padre Joseph é de muita ajuda nisto; o seu marido também me auxiliou a abrir o caminho e serviu de instrumento para que você desse ouvidos à minha mente, da primeira vez.

Há outros no Grupo, e eu percebo que nós somos apenas instrumentos neste trabalho. O véu existente entre os mundos precisa ser descerrado (ou dissolvido, como você sugere) (NE: Aqui, numa aclara alusão ao título da primeira publicação da autora, The Dissolving Veil ou Além do Véu da Morte) Todas as pessoas que estão a viver na terra devem ser alcançadas, tanto as mentes inteligentes, eruditas e refinadas, como as mentes piedosas e religiosas e as mentes fechadas, desprovidas de refinamento e de cultura. Todas elas necessitam deste conhecimento para afastar o medo, que é uma das mais poderosas e sombrias emoções terrenas e que precisa ser combatido e vencido antes que a paz e o progresso possam chegar à Terra.

Todavia, o meu grande desejo e certeza é o de poder continuar a trabalhar convosco, na nossa Associação e, talvez, ampliar as crenças e as percepções de muitas almas, por intermédio do Trabalho que foi planeado neste nosso lado e em cooperação com os esforços feitos por vós, aí a Terra.

23 de Janeiro

O seu marido tem visitado a casa com frequência e nós os dois temos conversado bastante… Sinto que agora conheço e compreendo você muito melhor… As informações que ele me deu esclarecem muitas coisas que me intrigavam, nas reacções que você demonstrava à vida e às pessoas. Agora compreendo-a de um modo diferente daquele conforme pensara tê-la entendido quando trabalhamos juntas, na Terra… Ele sente um enorme respeito pelos seus dons que, segundo disse, nunca valorizou quando se encontrava no corpo...

Parece-me agora que nós só compreendemos de maneira correcta e sem preconceitos emocionais quando estamos separados da ida na Terra, o que parece bastante de lamentar, mas o seu marido concorda comigo. Aqui é inútil abrigar arrependimento... arrependimento por aquelas coisas que não fizemos assim como por as que tivermos feito - pelas nossas acções, quase todas elas resultantes do facto de que as nossas mentes - e, por conseguinte, as reacções às nossas circunstâncias - foram obscurecidas por um juízo parcial e por conclusões preconcebidas (e, com frequência, erradas). Aqui, lamentamos muito tais falhas, ainda mais porque as escamas que tínhamos nos olhos caíram, e nós contemplamos a Verdade (o talvez fosse mais seguro dizer "uma estágio mais amplo da Verdade," mais amplo do que aquele que as condições negativas do corpo e da mente poderiam penetrar e neutralizar.

Ele disse que aqui o remorso é inútil... mas tal declaração pode ter sido demasiado impetuosa. Saber de tudo é perdoar tudo; portanto, quanto  maior a soma de pensamentos construtivos que depositamos sobre tais arrependimentos, tanto melhor.

Você deveria saber muito bem que "prosseguir com o negócio" sempre foi um dos meus preceitos. Até mesmo tendo toda a eternidade diante de mim, parece-me um desperdício grotesco usar energia com lamentações. Remissão, sim! Compreensão do que estava em falta e do que saiu errado... e confissão, para nós próprios, dos pecados de acção e de omissão, juntamente com a aceitação da vergonha e do fracasso.

Depois, à medida que o conhecimento é transformado em sabedoria, um novo começo; um esforço por corrigir esses mesmos erros e de auxiliar por meio do amor e do pensamento directo, concentrado, a fim de ajudar onde a ajuda se faz necessária. Algumas das almas que vêm para o nosso lado, e que praticaram muitas perversidades, recebem uma grande quantidade de conselhos e de auxílio, neste ponto. O remorso as assoberba e elas escolhem viver na obscuridade do arrependimento. Isso é acertadamente chamado de "obscuridade" (e não me estou a referir ao lugar das Sombras) porque até mesmo aqui, por efeito da sua tristeza e do seu remorso, elas estão a isolar-se da Luz que poderia iluminar-lhes as mentes, dissolver-lhes as culpas e trazer um raio construtivo para ser projectado sobre os seus problemas...

Visitei as "regiões inferiores," embora - isso eu lhe asseguro - acompanhada por Condutores capacitados para nos guiar e proteger. Acredite-me, é uma região terrível (ou regiões) de semiobscuridade, de emoções doentias e "pegajosas," de absoluta distorção de tudo quanto é belo. Os nossos sentimentos são afligidos por visões dolorosas, a compaixão brota por essas pobres criaturas com semivida - na semi-escuridão em que se encontram. Nessas regiões acham-se presentes Auxiliares maravilhosos. Antes que sejam escolhidos para a realização de tal trabalho, precisam ser almas avançadas, fortes em si mesmas e firmes na Luz. Enquanto estava aqui a fazer uma visita, contemplei o rosto de um Ser de tal beleza que me vi detida na minha caminhada em frente e precisei parar por um tempo somente para me situar na aura desse Grande Ser.

Posteriormente fiquei a saber que na Terra ele tinha sido quase um santo; tinha sido um grandioso místico, embora um filósofo iletrado. Agora ele é o líder de um Grupo de Auxiliares que aqui se acham presentes; mas a luz do seu semblante, ainda que atenuada por causa dos seus pacientes, e reduzida a uma potência que eles podem suportar, é gloriosa. O meu Condutor contou-me que este é o seu último trabalho de treino, uma preparação para uma missão mais elevada que esta grande alma empreenderá. Não tenho certeza se isso pressagia um retorno às condições terrenas, como um Grande Mestre ou Profeta, ou se isso será um prelúdio para a passagem por mais uma iniciação, e para mistérios ainda maiores. Fiz tantas perguntas quantas podiam ser respondidas, com respeito a tal assunto, e fui informada de que ele realmente era um Mestre de Sabedoria, uma alma das mais santificadas - devotada ao Cristo - e um dos participantes de um grande grupo de potenciais Redentores do Mundo.

Ele tem estado nas Esferas há mais de três séculos, conforme o tempo é calculado na Terra, e tem "atravessado" muitos dos Planos Superiores, sendo Membro de uma Fraternidade de Luz. O trabalho altruísta que aqui tem realizado constitui uma lição sem palavras. As irmãs o reverenciam e algumas juntaram-se ao seu Grupo de Auxiliares e têm trabalhado aqui, sob a sua direcção, retornando à Casa para repousar e recuperar após as árduas tarefas. Sei que o Padre Joseph visita frequentemente este lugar e que trabalha com o Grupo.

Eu "voltei " para o meu chalé e o meu jardim dourado com um grande sentimento de alívio, acrescido de uma imensa alegria e admiração pela Luz que aqui reina. Pensei um bocado a respeito destas palavras... "Àqueles que jazem na escuridão e na treva da morte..." e um novo significado e conotação me foram acrescentados a nossa velha frase das escrituras. Aquele lugar era realmente a Escuridão, a escuridão da morte, não tão decisivamente a morte do corpo quanto a morte da mente, porquanto ali, a mente torna-se inerte na densidade criada pelo uso erróneo de faculdades dadas por Deus, o pensamento e o livre-arbítrio do homem. Esta densidade faz com que a alma definhe e seja reduzida a uma debilidade tal que acaba ficando "isolada" e com a sua luz obstruída. Certamente isso não representará a morte... ou melhor a escuridão da morte?

Para mim isso é muito mais assustador, nas implicações que comporta, do que a explicação que nós aceitamos para esta frase, na Terra. A morte do corpo constitui uma simples mudança. As "trevas da morte" é facto apavorante, mas graças a Deus, é u facto que nunca será experimentado por aqueles que procuram viver uma vida virtuosa e abrir as suas mentes à Verdade.

E não ligo a esta frase, “uma vida virtuosa,” nenhuma interpretação piegas, não. A Vida Virtuosa, conforme o conceito dos que aqui se encontram, não é um vago e sentimental sonho de virtude, e também não é a devoção e a caridade publicamente exibidas, que envaidecem o ego e que Jesus condenou nos fariseus. Conforme aqui estou a aprender, o seguir da verdadeira Luz interior, a obediência dessa Luz e o consequente trabalho e a acção prescritos pela sabedoria dessa Luz, constituem a Vida Virtuosa, a vida plena, a vida mais abundante – das escrituras de todas as religiões.

Lembra-se de que “uma personalidade inspirada pela alma” foi frase que eu usei muitas vezes, na Terra, mas provavelmente com uma falsa interpretação do seu verdadeiro significado? Agora que já vi esta grande Alma-Mestre em Sua humilde posição e trabalho, tive a impressionante percepção do que a Alma é; uma percepção que, estou certa, jamais esquecerei.

A Alma é Luz inspirada… ou Luz insuflada.
O isolamento da alma é a escuridão.

Assim como o sol é o portador de fachos de luz para a Terra, assim o Filho, a segunda Manifestação da Energia Divina, da Mente Criativa, é o transmissor dos raios luminosos do Filho e por isso mesmo estão na morte, na escuridão da morte.

Que a Luz possa descer sobre a Terra!
Então, as terríveis ilusões destes lugares de treva serão dissolvidas para sempre.

4 de Fevereiro

Você pergunta acerca da precognição e quer saber se é verdade que o futuro possa ser previsto. Até onde alcança a experiência que tenho, e até onde esta nova extensão da minha consciência revela factos sobre o tempo de vida terrena, estou a ter uma percepção, cada vez maior, de um Padrão e de um Plano. O Diagrama dos nossos esforços, dos nossos sucessos e dos nossos fracassos em todos os planos – físico, material, emocional, mental e espiritual – indica que uma linha definida de progresso é voluntariamente aceita pela alma antes de ela encarnar.

Indubitavelmente, quando eu estiver mais versada no estudo das vidas humanas e do resultado destas, juntamento com o curso da vida das nações e dos resultados, bons ou aparentemente maus, que tenham sido colocados em movimento pela Lei de Causa e Efeito, estarei mais habilitada a avaliar de que modo o Padrão divino – de desenvolvimento individual e de desenvolvimento de grupo – estabelece uma ligação de vida para vida e de era para era. É apenas lógico presumir que recomeçamos, por assim dizer, um teste de força e de fraqueza a partir do ponto em que o abandonamos numa existência anterior. Isto pressupõe uma corrente de vidas, de experiências, de reencarnação, na sua forma tão pouco compreendida. Contudo, à medida que observo histórias de esforços, sucessos e fracassos, mais me convenço de que a alma precisa “projectar” uma parte de si de volta para o ambiente mais denso da Terra, em repetidas tentativas de dominar as provações e as tensões destas vibrações. Mas qual parte de si ela projecta, e se é sempre a mesma parte, isso ainda constitui um mistério e deve permanecer como tal até que tenhamos progredido muito, em sabedoria e percepção.

Depois de conversar com sábios que tive o privilégio de conhecer aqui, não me parece haver qualquer razão para mudar a minha aceitação terrena das vidas repetidas e, por conseguinte, da possibilidade de prever o futuro que pode apresentar-se, mesmo quando ainda num corpo material. Quando uma alma reencarna (ou aquela parte da alma que busca a ampliação da experiência) ela encontra-se num determinado estágio do seu Esquema Divino. Em algumas experiências ela procurará uma prova de força, em outras procurará um papel de liderança em assuntos humanos, em outras uma compreensão emocional nos relacionamentos pessoais, e assim por diante. Por conseguinte, até que ponto ela determina os seus próprios “acontecimentos futuros,” porque eles trarão a necessária experiência que ela veio colher e esses acontecimentos coincidirão com o Padrão global associado ao seu progresso. De certa forma, ela deve reagir de u modo compatível com o seu estágio de desenvolvimento e, assim, na sua trilha e na sua esfera particular de influência, serão cartografados relevos de consecuções, modestas ou elevadas, juntamente com desalentos e fracassos, que podem ser previstos pelo Olho Interior.

Como aqui é possível passar em revista os incidentes da nossa vida na Terra, juntamente com as causas que levaram a esses incidentes, os efeitos que eles produziram e, também, as lições que proporcionaram, assim também é plausível presumir que o processo pode funcionar para a frente, tão bem quanto funciona para trás. Por outras palavras, como não existe coisa tal como o tempo, o começo, o fim e o acontecimento real são uma coisa só. Por conseguinte, numa alma que observou esta “negação do tempo” em sua consciência na Terra, o futuro possível pode ser divisado. Os erros que são cometidos e a promulgação de afirmações indiscriminadas e infundadas, ainda assim não negam a verdade do facto. A mente humana pode ser desviada pelas emoções humanas – egoísmo, egocentrismo, orgulho – e tais emoções obscurecem a questão da verdade. Contudo, permanece o facto de que a possibilidade existe, de que o futuro brota do passado. O facto de que certos videntes sempre puderam predizer não implica na obrigatoriedade de padrões de existência preordenados, num sentido rígido. Isso só ilustra a realidade da inexistência do tempo… mostra que cada momento contém, em si, todo o passado e todo o futuro.

Nas novas experiências realizadas na exploração do espaço, o facto da “inexistência de peso” provou-se por si mesmo. Num “futuro previsível,” (assim sou informada por aqueles que sabem mais a respeito do Padrão e do Plano) as almas que se encontram encarnadas na Terra poderão provar o facto da inexistência do tempo, e isto por meio de processos e experiências científicas (possivelmente naquele mesmo espaço que os cientistas começaram a explorar). Esta descoberta será tão excitante quanto este último avanço relativa à inexistência do peso e a tração não-gravitacional.

Através da verdade inerente neste conhecimento “novo” a humanidade dará um imenso pulo para a frente, para a Luz. Pois conforme o conhecimento é multiplicado por mil, assim também a responsabilidade, no seguimento do Modelo, se torna mil vezes maior. Este é um grande ponto que todas as almas encarnadas, e também desencarnadas, precisam compreender. Tenho certeza de que a prenderão.

7 de Fevereiro

Sim, eu sou uma professora e estou a receber ensino. Posso prestar serviços a outros que, em virtude de circunstâncias infelizes – de nascença ou de ambiente – ou por causa do preconceito, que frequentemente é um ingrediente da ignorância, não aprenderam nem mesmo os rudimentos da existência.

Muitos que chegam aqui estão completamente esmagados pelo facto de haver uma outra vida, ou então encontram-se desiludidos porque, na estreiteza das crenças que abrigavam, visualizaram um céu de absoluto deleite que inclui, para imaginações tão ignorantes, a jubilosa inferência de que a partir deste momento jamais terão que fazer qualquer esforço. Na verdade, um bem-aventurado estado de negatividade, de aceitação passiva, de paraíso, uma espécie de estado de uma óptima Felicidade onde eles ficarão a sonhar Eternidade afora. Certamente, porém, este não é um Estado de óptima Felicidade. Na verdade, é um estado de felicidade que possui um significado totalmente diferente; é óptima, de facto, se por meio deste objectivo nós queremos descrever uma existência onde a beleza é visível, onde os pensamentos grosseiros e negativos são proibitivos porque são visíveis e audíveis, onde o socorro e o amor estão sempre a postos para ajudar o viajante e onde cada circunstância aponta para uma vida mais grandiosa, para uma compreensão mais ampla e para a gloriosa certeza do progresso depois do esforço e da acção vigorosa.

Esta é uma existência numa outra dimensão do pensamento; a doença, a pobreza, a crueldade e o sofrimento, conforme conhecidos na Terra, aqui não têm possibilidade de existir por a Luz do Espírito nos abrir a visão e nós procurarmos o Caminho para Mundos Superiores, de beleza ainda ais gloriosa.

Sim, estou aqui a ensinar. Também estou a aprender a compadecer-me da consciência limitada que pertence àqueles que não tiveram as oportunidades que me foram concedidas, de estudar os mistérios da vida. O nosso trabalho é estar à mão quando estas entidades recém-chegadas despertam para a percepção. Às vezes os amigos e os entes queridos destas entidades, que chegaram antes a estes reinos, já terão sido “alertados.” Então, aguardamos em segundo plano, até que os cumprimentos de boas-vindas tenham terminado. Noutros casos, os primeiros “semblantes” que elas vêem são os nossos; são nossas as palavras de conforto, de confiança e de boas-vindas.

Os nossos “pacientes” ficam connosco até que se tenham ajustado a esta nova vida e estejam prontos para se reunir aos seus entes queridos ou aos seus Grupos especiais. Esta fase poderá ser uma breve passagem ou um “período” bem mais prolongado, em conformidade com o estado de desenvolvimento desses pacientes. De acordo com as reacções, depois do primeiro choque dos exames individuais das Fotocópias da vida terrena, assim e o sistema que empregamos na sua ajuda. Com compreensão, extrema bondade e, por certo, sem a mais leve demonstração de censura, as Irmãs dão explicações a respeito da Casa de Repouso e dos propósitos dela. Depois é apresentada, aos recém-chegados, a ideia de um progresso cada vez maior e eles são encorajados a corrigir, por meio de pensamentos concentrados de perdão e de compaixão, os erros que cometeram na sua vida terrena.

Suponho que você poderia chamar isto de hospital, de casa de repouso no Caminho e de centro de ensino tipo jardim-de-infância. Todos esses termos seriam correctos. As almas deprimidas, as almas amedrontadas, as almas “caídas” e as ignorantes, juntamente com aquelas que foram resgatadas da “Terra das Sombras,” precisam de compreensão e de uma explicação acerca do estado doloroso em que se encontram; e há algumas para as quais a Sobrevivência precisa ser explicada e até mesmo demonstrada. Muitas recusam-se a aceitar a morte, ou preferem julgar que ainda estão a sonhar. Você vê como o nosso trabalho aqui é vasto e como, ensinando, nós mesmas aprendemos. Pelas demonstrações dos resultados de outras vidas, eu mesmo aprendi e estou a aprender muito.

Muitas das Irmãs da minha antiga comunidade, na Terra, agora passaram para Esferas mais elevadas, mas a querida Madre Florence permanece aqui por sua própria escolha, embora também visite outros planos para revigorar as suas forças e, imagino eu, como recompensa. As nossas Irmãs, vindas de comunidades similares, juntam-se a nós e trabalham connosco; uma delas, a Irmã Ursulina, tornou-se numa companhia para mim. Temos inúmeras coisas em comum e eu admiro os seus muitos dotes e a sua mente clara e lógica. Ela terá que partir para trabalhar numa outra “Estação Receptora,” pois a nossa, segundo compreendo, é somente uma entre outras tantas Casas de Cura. Mas eu também sou ensinada, não tanto por meio de aulas e de leituras – embora eu ainda leia muito – quanto através de debates e de exemplos. Voltarei a falar sobre isto mais tarde.

9 de Fevereiro

Este é, na verdade, u mundo de pensamento. Naturalmente você também vive num mundo de pensamento, só que com você o pensamento ficou profundamente cristalizado na matéria e grande parte da ilusão dessa existência ficou “solidificada” na mente terrena. Com frequência, a mente por si mesma se isolou d realidade. Aqui nós somos aquilo que parecemos ser. No corpo podemos mascarar o nosso verdadeiro Eu, e a nossa individualidade, e mostrar uma aparência muito diferente da realidade. Aqui a personalidade, ou máscara, foi removida e os nossos próprios pensamentos estão abertos a todos. Pense no que isso poderia significar, na Terra. Este novo interesse que muitos cientistas do mundo têm demonstrado pela percepção extra-sensorial, especialmente pela telepatia, resultará no desaparecimento dessa máscara da personalidade, porquanto através dela a deslealdade, a insinceridade e a mentira serão descobertas. Em desenvolvimentos futuros, durante este e o próximo século, os pensamentos realmente serão coisa, conforme o são em essência, e poderão ser “lidos.” O homem aprenderá que a verdade é essencial em todas as coisas. É tal como aprendemos aqui.

A raiva, a irritação e a depressão podem realmente ser vistas na aparência de uma entidade e no “campo” ao seu redor. Podem ser realmente sentidas e às vozes “ouvidas” na forma de um zumbido grave, de advertência, muito semelhante ao zumbido de uma vespa. Experimentei isso em outros e, infelizmente, outras almas queridas às vezes me evitaram pela mesma razão.

Os pensamentos são coisas, realmente. É por isso que quando uma entidade chega a este plano, ele ou ela, é automaticamente colocado no plano a que tem direito. Esta é a Lei. Isso também explica a razão por que muitas pessoas ficam surpreendidas e consternadas diante do ambiente que as cerca. Alguém que, por exemplo, tenha vivido uma vida virtuosa normal, digamos, e tenha feito as coisas correctas e cumprido com as observâncias religiosas exteriores, mas que durante todo esse tempo tenha escondido, no seu íntimo, pensamentos turvos de inveja, de malevolência e de injustiça, encontrar-se-á na companhia de outros que são seus iguais, e às vezes de alguns de são piores que a própria pessoa. A sua alma encher-se-á de aflição até que por fim ele perceba que esta grande Lei é justa, até que empreenda o máximo esforço por ajustar os pensamentos no sentido do Amor, da Caridade e da Verdade, e tente reparar os males que causou a outros.

Nesses esforços, ele sempre encontrará um auxílio ao seu alcance, sempre encontrará almas mais elevadas prontas a confortá-lo, a ouvi-lo e a ensiná-lo. Também verá que há almas prontas para guiá-lo para domínios mais elevados e companhias mais felizes.

Aqui o progresso é tão livre de impedimentos – talvez mais ainda – e tão satisfatório, em matéria de recompensas, quanto qualquer sucesso no plano terreno. Para perceber o milagre da Criação e o Amor de Deus por suas criaturas, precisamos apenas ter um vislumbre dos planos da Mente, onde as emoções foram dominadas e transformadas em aspirações. Para compreender a justiça e o equilíbrio da Força da Vida, precisamos apenas ver a sombria miséria do auto aprisionamento das almas, nos mundos de sombras.

Quando a telepatia e a comunicação mental se tornarem mais comuns no mundo, então a Luz será aumentada no homem e ele perceberá a unidade que tem com todas as coisas. Então, o significado de frases como “Paz na Terra” e “Boa Vontade entre os homens,” tornar-se-á evidente. Então, o véu de escuridão – a crença na matéria - começará a dissipar-se e a força do pensamento do homem será elevada para uma manifestação construtiva. Então, o homem passará das sombras para a Luz, da miséria para a alegria, da ignorância para o conhecimento, da ilusão para a realidade. E então o mundo conhecerá a paz.

Que a Luz desça sobre a terra!

17 de Fevereiro

Deixe que lhe conte sobre a Jeannie. Ela viveu na Terra até quase aos doze anos de idade. Era uma criança linda, graciosa, delicadamente conformada. Toda a ambição que tinha era de vir a ser uma bailarina, e ela começou a aprender dança quando era ainda bem pequena, mostrando, creio eu, bastante talento. Infelizmente, aos oito anos a menina foi acometida de poliomielite severa, e durante alguns meses foi mantida num pulmão artificial.

Jeannie recuperou, mas uma das suas pernas estava mais curta; e continuou a encolher, como se os seus músculos estivessem a secar. Durante meses, a pobre criança viveu entrando e saindo de hospitais. Sofreu várias operações e chegou a usar um tirante na perna, mas os músculos continuaram a encolher, até que a perna ficou visivelmente mais curta do que a outra. Essa criança sofria dores frequentes, mas a sua maior tristeza era não poder mais ser bailarina.
Ela não suportava pensar que nunca mais dançaria, que nunca faria parte dos corpos de baile, que nunca teria a felicidade de realizar aquilo que amava. Na esperança de retomar a sua perna no seu estado normal, sofreu estoicamente as várias torturas dos aparelhos de estiramento, das braçadeiras de ferro e de novas operações.

Por fim, na idade de onze anos, ela reconheceu que nunca seria como as outras meninas, que nunca tornaria a correr, a saltar e a pular. A agonia da sua mente, as emoções provocadas pela compreensão do seu estado e as doenças constantes, enfraqueceram-lhe a constituição. Aos doze anos de idade, depois de um resfriado, ela morreu de pneumonia.

Quando Jeannie “acordou” aqui na nossa Casa, Madre Florence e eu estávamos à sua cabeceira. A criança olhou em torno de si, tentando focalizar a visão neste novo ambiente que a cercava. Por fim, ela viu-nos. Olhou-nos fixamente e depois o seu rostinho abateu-se e ela irrompeu em lágrimas.

“É a Irmã. Estou outra vez no hospital,” disse ela, a chorar. “Por favor, por favor, não quero que me façam sofrer qualquer outra operação…”
Madre Florence acariciou-lhe a mão.
“Tu encontras-te na nossa Casa para repousar,” disse-lhe Madre Florence. “Vais ficar absolutamente boa de novo, Jeannie… absolutamente, absolutamente boa,” enfatizando a palavra “boa.”
A ciança olhou para Madre Florence.
“A senhora é a enfermeira-chefe?” perguntou.
Madre Florence assentiu. “Se preferires chamar-me assim. Mas isto não é um hospital, é apenas uma casa de repouso; e tu vais ficar boa muito depressa.”
Jeannie voltou o rosto para o outro lado.
“Não,” disse ela, “eu nunca ficarei boa. Tenho uma perna atrofiada.”
“Agora já não, Jeannie,” disse eu, espontaneamente. “Nem nunca mais. A tua perna encontra-se sadia, completamente boa e forte.”
A criança sacudiu a cabeça.
“Olha para ela, tu mesma,” insistiu a Madre. “Ela está do mesmo tamanho que a outra. Olha e vê.”
“Mas eu sei que não está.” Jeannie não queria deixar-se convencer.
“Eu sei que só estão a dizer isso para… Onde está a minha mãe?”
“Tu poderás vê-la dentro em breve,” sugeriu a Madre, “quando tiveres aprendido a correr novamente.”
“Correr?” A atenção de Jeannie foi captada.
“Sim. Correr.” Inclinei-me sobre ela: “Aqui nós vamos ensinar-te a correr, a brincar e a dançar, Jeannie.”
Os olhos dela iluminaram-se.
“Dançar?”
“Sim, dançar.” Segurei as pernas da menina, erguendo-as gentilmente. “Olha, Jeannie, as duas são do mesmo comprimento, vês?
A Jennie arregalou os olhos. Olhou para nós e depois para a outra. Lentamente, sentou-se. Correu as mãos para cima e para baixo da barriga da perna e sobre os tornozelos, tateando cuidadosamente os ossos do pé e depois voltando até ao joelho. Ela repetiu várias vezes esses gestos como se não pudesse acreditar naquilo que podia ver e sentir. Estava calada, intrigada. Evidentemente, em nenhum momento lhe ocorreu a ideia de tentar ficar de pé. O hábito era ainda muito forte. Ficou apenas sentada ali a seguram as duas pernas e a olhar fixamente para os pés. Um pouco de pois, ergueu os olhos para nós.
“Será um milagre?” perguntou, uma voz cheia de reverência
“Podes chamar isso de milagre,” respondeu a Madre, e o sorriso que iluminou o seu rosto foi verdadeiramente lindo.
A Jeannie ficou em silêncio, a ponderar nisso.
“A senhora é a Virgem Maria? Perguntou por fim.
“Não, minha querida, eu não sou a Virgem Maria.”
“Parece-se com Ela,” e fez-me pensar no quanto era adorável aquele rosto sob o véu modesto. “E Ela faz milagres.”
A Madre Florence sorriu. “Vamos supor que te levantas e que ficas de pé,” sugeriu.
“Sem as minhas muletas?”
“Sim, tenta.”
“Vai doer?”
“Não. Você não sentirá qualquer dor. Nunca voltará a sofrer aquela dor de antigamente, Jeannie.
“A senhora promete? É verdade que não vou?”
De repente Jeannie pegou na minha mão e agarrou-se a ela.
“Eu prometo,” dissemos nós as duas. Ela fez um aceno de assentimento. Era evidente que não tinha certeza se podia confiar em nós.
“Não vai tentar ficar de pé?” perguntou Madre Florence, mais uma vez. A menina não respondeu, mas deixou que eu erguesse as suas pernas e as colocasse assentes no chão. Nós as duas erguemos o seu pequenino corpo e, lentamente, fizemos com que ela ficasse de pé. Jeannie hesitou e cambaleou, com um terrível medo de confiar naquela perna, antes aleijada. Depois de algum tempo de espera, ela firmou o pé no chão, mas ainda agarrada no apoio que lhe estendíamos. Lentamente, a sua expressão mudou. Surpresa, incredulidade, crença, júbilo, espelharam-se por todo o seu rosto. Largou o nosso suporte e ficou de pé, ereta, a equilibrar-se nos dois pés. Moveu-se mesmo para a frente, dando alguns passos.
“É verdade. É verdade. É um milagre!”
Subitamente, dominada por este grande jubiloso despertar, ela recuou e caiu na cama onde irrompeu em soluços de pura felicidade.
“Vou tornar a andar,” exclamou a chorar. “Estou curada. Sou igual às outras meninas!” Com os olhos nublados ela lançou-me um olhar que implorava piedade. “A menos que eu esteja a sonhar…”
“Tu estás curada, Jeannie,” insisti, “e isto não é um sonho. É verdade.”
A menina sorriu. Era óbvio que tudo isto tinha sido um grande esforço. Ela estava a ficar cansada. Precisava repousar. Com frequência, o nosso primeiro retorno para a consciência, depois da transição, é esmagador e este não era excepção.
“Então, se isto é verdade… devemos dizer uma oração… uma agradecimento… uma Ave Maria.”
A Madre Florence curvou-se sobre a menina.
“Gostarias que todos nós agradecêssemos a Deis contigo?” perguntou docemente. A criança assentiu. Fechou os olhos. Juntas, murmuramos suavemente a Oração de Graças. Enquanto rezávamos, a Jeannie mergulhou de volta ao estado passivo em que ficam os recém-despertados para esta nova consciência. Portanto, deixamos que ela descansasse.

Jeannie foi minha companhia constante. Saíamos para dr longos passeios juntas; competíamos uma com a outra na descoberta das flores mais lindas; corríamos de mãos dadas, descendo as longas encostas das colinas, e era uma alegria observar a criança. Ela dançava, girava e rodopiava tão leve quanto uma borboleta. Corria de flor para flor: saltava, cantava e ria de pura alegria.

Descobri que ela possui uma mente bem desenvolvida. Os anos de doença, os repousos forçados e os consequentes períodos de leitura e reflexão talvez lhe tenham desenvolvido um estrato de pensamento mais profundo do que se costuma verificar nas crianças da sua idade. Ela apresenta uma inclinação filosófica e uma sabedoria que é surpreendente em alguém tão jovem.

Eu referi “jovem?” A alma dela não é jovem. Creio que posso julgar que é uma alma evoluída. El aparece “saber” muitas coisas, mesmo que não lhe tivessem sido contadas. Recordo a sua maneira de aceitar a morte, solene e naturalmente. Na realidade, ninguém lhe disse nada sobre esta transição. Deixaram que repousasse até se encontrar preparada para mover-se. Então, caminhou pelos jardins desta linda casa, até satisfazer os desejos do seu coração. Naturalmente, foi cuidadosamente “protegida” dos nossos pacientes “doentes.”
Encontrei-a no meu jardim.
“Queres ver as minhas flores’ perguntei. Ela sacudiu negativamente a cabeça.
“Vim ver a senhora, irmã.” Houve uma pausa. Fixou os olhos em mim com franca sinceridade. “Acabo justamente de compreender uma coisa.”
Aguardei.
“Compreendi que não estou a sonhar,” disse ela, calmamente. “Estou morta.” O seu olhar sustentou o meu. “Todas nós estamos mortas. Isso é verdade, não é?”
“Sim, é verdade, Jeannie,” respondi, “mas, como podes ver, encontramo-nos realmente mais vivas do que nunca. Só que tu te libertaste do teu antigo corpo doente e encontraste um novo…”
Ela aceitou isto.
“Suponho que este lugar é… uma espécie de Céu.”
“É o começo do Céu, Jeannie.”
“A senhora quer dizer que estamos apenas de partida… Ainda não nos encontramos lá?”
“Não no Céu que tens em mente, Jeannie. Mas estamos a caminhar para lá.”
Ela ruminou aquilo. “Mas aqui e tudo tão lindo. São todos tão bondosos e… e… angelicais.”
“É mais do que certo que não somos anjos,” retruquei, e ambas rimos das minhas palavras. De súbito, ela ficou quieta.
“Nesse caso, onde está Deus?” inquiriu.
“Longe demais para que até nós mesmas possamos vê-lo. Ainda não estamos preparadas para a Sua Glória. Mas estamos todos a caminhar para a frente, a caminhar para o Seu Céu…”
“A senhora quer dizer que o Céu Dele pode ser melhor do que isto?”
“O, muito, muito melhor! Muito mais lindo e cheio de luz e de anjos. Anjos de luz…”
Jeannie sorriu para mim e ficamos ambas em silêncio enquanto a menina pensava no que eu dissera.
“Eu entendo,” concordou ela. O seu rosto iluminou-se. “Gosto disso… Anjos de Luz…”

Num outro passeio disse ela inopinadamente:” Espero que a mamãe não sinta terrivelmente a minha falta. Não creio que ela vá sentir, entende, eu estava sempre doente e depois, há os outros. Mamãe estava sempre tão ocupada!”
“Tu tinhas irmãos e irmãs?”
“Sim. Eles não eram como eu. Eles tinham saúde.” Durante um momento, ela ficou ocupada com graves ponderações. “Apesar de tudo, eu gostava de falar com a mamãe. Posso?”
“Faremos uma tentativa, Jeannie. Mas não é fácil alcançar a tua mãe. Entende, aqueles que conseguem “ouvir-nos” na Terra, precisam ter desenvolvido um “telefone” interior.” “Não creio que a mamãe tivesse um telefone interior. Nós tínhamos um “telefone”, é claro, um telefone comum, e eu gostava de falar ele.”
Durante algum tempo nós as duas ficamos a observar um raio de Luz que parecia brilhar além do lugar onde estávamos sentadas.
“Eu gostaria de ver a mamãe outra vez… e saber o que ela está a fazer. Posso?”
“Podemos tentar,” respondi, relembrando as minhas próprias experiências nos serviços religiosos em memória de mim. “Dizes-me a aparência que a tua mãe tinha, da tua casa, dos teus irmãos e irmãs, e eu verei se podemos criar uma imagem…”
“E nós podemos “descer” através dessa imagem, é isso?”
Ela compreendera rapidamente este novo “jogo.”
“Sim, é isso mesmo.”
Tentamos. A menina descreveu o seu pai, a sua mãe, a sua família, o lar que tinha tido na Terra. Fiz o melhor que pude para me concentrar e “projectar” nós as duas dentro da imagem. Ficamos em silêncio por tanto tempo que imaginei se Jeannie tinha realmente “encontrado” a sua família. Ela encontrava-se deitada sobre a relva, a meu lado, com uma expressão absorta e expectante, no rosto. Finalmente, suspirou.
“Não consigo ver mamãe… mas sinto estar perto dela… creio que ela sabe. Estou a tentar contar-lhe que as minhas duas pernas estão do mesmo comprimento e que agora posso andar e correr.
“Oh, eu quero que ela saiba disso, Irmã. A senhora acha que ela sabe?”
“Estou certa de que ela terá uma impressão interior a respeito disso, Jeannie.”
“Mamãe não se está a sentir infeliz por minha causa… não de verdade,” prosseguiu a criança. “Sinto que ela sabe que eu estou no Céu e está contente com isso. Eu estou mesmo, não estou?”
Que poderia eu responder?
“Querida, você está muito perto do Céu,” disse eu. Estava grata por essa explicação ter sido colocada na minha consciência.
“Suponho que esta é a Vida Eterna, não?” insistiu ela. Tive que pensar antes de responder.
“Nós sempre estivemos na Vida Eterna, Jeannie, até mesmo quando na Terra. A nossa alma, o nosso verdadeiro Eu, sempre viveu de experiência para experiência. Isto é somente uma outra parte da experiência.”
Ela aceitou as minhas palavras com muita seriedade.
“E o céu, será uma outra experiência?”
“Creio que haverá muitas experiências, minha querida, até mesmo depois de alcançarmos o Céu. “A senhora quer dizer, onde Deus está?”
Fiz um gesto de assentimento. “Sim, essa deve ser a mais gloriosa das Esferas.
Depois de alguns instantes a menina disse: “Eu nunca fui muito à Igreja nem à Catequese. Eu não podia, é claro, e os meus pais não eram muito religiosos. Mas nos hospitais, as freiras costumavam conversar comigo. Elas contaram-me histórias sobre Jesus e os Santos. A senhora acredita nos Santos, não é, Irmã?”
“Naturalmente. Eles são os Sábios, os Grandes Seres, e eles têm comunicação com a Hoste Angélica.”
“A senhora acha que alguma vez poderei vê-Los?”
Tive vontade de lançar uma bênção sobre esta alma doce e inocente.
“Sim, tu irás vê-los, Jennie.”
“E a Hoste Angélica… os Anjos de Luz?”
Fiz um aceno afirmativo. “E a Hoste Angélica,” concordei. (Muito provavelmente antes que eu consiga – pensei para comigo mesma).
A menina disse serenamente: “Espero que sim; a senhora vê, quando eu me encontrava no hospital eu costumava pedir à Irmã Terezinha para fazer com que a minha perna crescesse até ficar do comprimento da outra. Estou certa de que ela me terá ouvido… Talvez algum dia eu possa vê-la… Vê-la de verdade.
“Talvez,” disse eu.

Recordo claramente a visita que a menina fez ao meu jardim, um pouco antes de nos deixar. Nessa ocasião exclamou: A Madre Florence disse que quando eu me encontrar preparada irei para os Salões da Beleza… que ficam noutra parte do Céu… Ela diz que ali eu irei ver os maiores dançarinos de todo o mundo, bailarinos gregos, bailarinos hindus, Pavlova e Nijinski e, oh, muitos e muitos outros” Ela diz que eu vou aprender a dançar, quer dizer dançar de verdade, e que me vou poder juntar a esses outros bailarinos nos granes Festivais de Dança. A senhora acredita nisso, Irmã?
“A Madre Florence sabe muito mais do que eu, acerca das Esferas,” concordei. A menina fez piroetas subindo e descendo, nas pontas dos pés, diante do meu canteiro de flores.
“Oh, vai ser adorável! Vou trabalhar muito e vou ser boa. Para ficar logo preparada, quero dizer. Naturalmente, vou sentir falta da senhora, da Irmã Hilda e de Madre Florence, e de todo mundo, mas quero tanto ir. Devo partir logo. A senhora vê,” ela parou de dançar, aquietou-se e fiou imóvel diante de mim. “A senhora vê, tenho que dançar com perfeição antes de…” e ela calou-se.
“Antes do quê, minha querida?”
A menina girou o corpo para que eu não pudesse olhar para o seu rosto.
“Antes de voltar ara a Terra de novo… para ser realmente uma bailarina.”
Fiquei em silêncio durante algum tempo, esmagada pela sabedoria desta criança.
“Quem disse que você iria retornar à Terra?” perguntei, finamente. Ela ainda evitou mostrar-me o rosto.
“Foi o Anjo,” contou-me a menina. “Ele veio quando eu estava a repousar. E ele disse-me…” Jeannie voltou-se e encarou-me com solenidade. “A senhora sabe, eu acho que ele era o meu Anjo. Foi como se eu já o tivesse conhecido antes.”
Que resposta dar a isto? Eu, que me tinha devotado à vida religiosa, estava a receber as respostas da boca desta criancinha. Senti-me realmente muito humilde.

Jeannie recuperou rapidamente da surpresa da sua transição. Ajustou-se a esta nova vida com toda a flexibilidade de uma natureza infantil livre de vícios. Para ela tudo foi uma revelação. Sempre a recordarei como uma alma feliz, dançarina. Alguém do Grupo da Beleza, do Plano de Deus.
Ela deixou-nos de uma forma muito serena. Num instante encontrava-se aqui a rir e a dançar, a tagarelar em meio a todas nós. Depois, tomamos consciência de um Ser que se encontrava imóvel, além da sombra das árvores: Um homem de Luz, alto, gracioso, com os membros admiráveis de um bailarino. Parado na Luz, ele estendeu a mão.
“Vem, Jeannie,” disse. Imediatamente a menina correu para ele. Depois, virou-se para nós, com o rosto transfigurado pela alegria.
“É o Mensageiro,” gritou ela. “Não é maravilhoso? É maravilhoso!”
Fez-nos um aceno a todas. “Obrigado pelo que fizeram por mim. Obrigado por me ajudarem a ficar boa. Agora poderei dançar de verdade. Alguma vez me virão ver no lindo Lugar? Virão?” Com absoluta confiança, a menina colocou a sua mão na mão do Mensageiro. “Adeus!”

Os dois caminharam juntos, descendo as longas encostas iluminadas pelo sol, e a Luz do Mensageiro parecia até mesmo mais brilhante do que a Luz que cintilava sobre os nossos jardins. Depois, ambos desapareceram… e eu, da minha parte, senti que tínhamos devolvido um raio de luz um raio de luz para o Grande Sol Criativo.

Sinto falta da Jennie, naturalmente. Em virtude da fina qualidade da sua natureza, aquela criança ensinou-me muito. A beleza enquanto beleza, nas artes criativas da dança e do movimento, achara-se por completo ausente da minha vida terrena. Agora podia compreender o quanto tinha perdido. Porquanto a Beleza, certamente, constitui um atributo de Deus…e a arte da dança representa uma manifestação desse atributo.

Espero que alguma vez eu possa ver a Jennie nos Festivais do seu Salão da Beleza. Será um momento grandioso e comovente.

17 de Fevereiro – continuação

Quando estava na comunidade passei alguns períodos nos sertões da África do Sul, a realizar trabalho missionário. Lembro-me de lhe ter contado das viagens que fiz por estradas acidentadas, sobre a nossa velha mula, com o seu passo lento e sacudido e sobre a cabana pequena e engraçada, onde eu ficava “hospedada” durante as minhas visitas.

Pois bem, com a permissão de Madre Florence tive licença para a acompanhar, e algumas outras Irmãs, no trabalho missionário que elas realizam na Terra das Sombras. Este é uma experiência salutar. Foi-me especialmente recomendado que lhe narrasse uma triste aventura, para que possa ser incluída no livro. Isto, por ela poder vir a ser útil no esclarecimento das ideias ilusórias, com respeito aos estados de Céu e Inferno, que têm sido alimentadas durante séculos.

Existem Céus… eu mesma posso dar testemunho do pequeno céu de beleza, tranquilidade e trabalho amoroso com o qual tive a felicidade de assumir um compromisso aqui. Contudo, mais além existem Esferas de júbilo e de Beleza inconcebíveis… que se estruturam e expandem além de cada estado de desenvolvimento… e que se encaminham directamente, creio eu, para os Mundos Espirituais do Pensamento Divino, muitos distantes de qualquer concepção que possamos ter sobre eles. É deste modo que a alma evolui rumo a estas esferas de Perfeição, e nos sentimos confiantes ao compreendermos que temos toda a Eternidade para empreender essa jornada para a frente e “para cima.”

Todavia também existem “infernos,” embora certamente diferentes dos infernos físicos e dos tormentos causticantes e eternos da imaginação deformada do homem. Existe o inferno do espírito e da mente, estados de aprisionamento pelo sofrimento; tenebrosos, depressivos e tão reais quanto pode torna-los a consciência torturada daquele que neles habitam. Contudo, tais “infernos” não são eternos. O homem (ou mulher9 que se encontra nestes estados mentais não precisa ficar ali por mais tempo do que aquele que o seu desejo o mantém neles. Ele é livre de combater os ódios, as crueldades e os apetites da sua natureza inferior, que tenha conservado da sua vida terrena e que o estejam a manter ali, em masmorras sombrias e entre habitantes de idêntica mentalidade. Ele pode preferir seguir a Luz do Amor, do Perdão e da Harmonia, e lá sempre haverá almas prontas a ajudá-lo, a guiá-lo, a confortá-lo e a prestar-lhe assistência.

Alma nenhuma é deixada sem conforto, a menos que ela queira.

Isto soa a paradoxo., porém, acontece que muito daquilo que aqui aprendemos, difere ao extremo dos ensinamentos do homem, até mesmo dos homens bons, limitados como são nas ideias que têm. A existência na Terra constitui um estado de vida num mundo de pensamento, ilusório, muito restrito e fechado pela fascinante teia da matéria. Além da morte física o mundo do pensamento é mais nítido e, por certo, muito mais potente nos seus efeitos. Nesse plano de matéria astral, do mesmo modo que na Terra, a Lei ainda representa Causa e Efeito. Entendo que essa Lei só possa ser superada quando a alma prossegue avançando na sua evolução para Reinos mais Elevados, quando outras leis mais elevadas precisam ser obedecidas. Mas, voltemos à minha missão.

Madre Florence, duas outras irmãs e eu fizemos a nossa viagem para o interior daquilo que você chamaria Região dos Mortos. Aqui nós preferimos chamá-la de Terra das Sombras, por realmente ser uma Terra de Sombras. A viagem para esse lugar é difícil e exaustiva, por precisarmos “diminuir as nossas vibrações,” por meio do poder do pensamento concentrado, a fim de ficarmos em condições de suportar as condições físicas ali existentes. As Irmãs nunca lá vão sem a companhia de Mensageiros especiais, que as orientam e as conduzem para as várias Estações situadas no caminho.

A terra das Sombras é um lugar muito real, real de facto: é coberta por uma densa obscuridade, à qual precisamos acostumar-nos: há moradias sórdidas, habitadas por seres infelizes e atormentados, que escarnecem, zombam e prosseguem nas suas existências pervertidas. Algumas vezes essas almas vivem no ódio e na revolta, outras vezes na apatia: e às vezes na negativa furiosa de que possa existir qualquer outra condição de existência.

Devo, porém, contar-lhe sobre o pintor que conheci: um artista que vive num “quartinho” horroroso, numa rua escura e cheia de curvas, na Terra das Sombras, mas que apesar de tudo ainda abriga, na sua alma, algumas recordações da beleza. Na Terra ele fora um francês, um pintor de futuro, que desperdiçou o dom que Deus lhe confiara. Passou a sua vida numa turbulenta indolência, entregando-se à bebida e aos entorpecentes, até que ficou reduzido a um vagabundo das sarjetas. Eventualmente, envolveu-se numa rixa nocturna, durante a qual matou um companheiro seu, um artista, tendo ele próprio recebido um ferimento de faca, do qual depois veio a morrer.

Devo ter-me separado das outras componentes do nosso pequeno grupo, por me ter encontrado sozinha nesta rua estreita, de calçamento irregular e calçadas acanhadas, entre as moradias. No lance do passeio de uma esquina, sentado diante de um cavalete, estava o pintor, ocupado em esparramar cores oleosas sobre a sua tela. Era baixo e atarracado, tinha um monte de cabelos negros a cair-lhe desordenadamente sobre o rosto e parecia estar a usar um macacão cinza, muito sujo. Parei a observar o seu trabalho e ele ergueu os olhos e fez uma carranca na minha direcção. Notei que a pintura era monótona e destituída de inspiração. Consistia em grandes manchas informes, que eu concluí terem a intenção de representar os companheiros deste homem. Aquelas massas tinham uma aparência bastante lúgubre e eram todas de tonalidades sombrias e sem nuances. Quando não tinha mais a atenção voltada para mim, perguntei: “Este é o seu estúdio? Pode dar-me licença para ver as suas outras telas?

Ele voltou a fazer uma carranca, mas fez um movimento espasmódico com a cabeça em direcção a uma porta aberta, próxima dali, num gesto que tomei como um consentimento. Entrei no quarto atravancado. Aquele lugar era um alpendre pequeno e escuro, com apenas uma vidraça que se encontrava por demais suja para deixar passar qualquer coisa para além de uma débil penumbra. As paredes encontravam-se repletas de telas. No princípio fiquei tão enojada por causa do cheiro forte e penetrante que o quarto exalava que não tive condições de fazer coisa alguma. Quando, porém, me acostumei aos odores, pude dedicar a minha atenção às pinturas, e comecei a examiná-las detidamente. Eram todas iguais: todas escuras, todas horrorosas, todas primitivas e quase perversas na sua interpretação sarcasticamente hábil do carácter, e todas extraordinariamente feias. Porém, havia um traço estranho que era comum a todas. Uma porta.

Pintada no último plano de cada tela havia sempre uma porta, de cor marrom escura e sempre fechada. A porta era sempre do mesmo modelo e da mesma cor de mogno. Sempre, porém, mostrava uma leve linha de branco a contorná-la, efeito que o pintor conseguira deixando exposto um pedacinho de tela. Estudei as pinturas com grande atenção e imediatamente fiquei interessada, do ponto de vista psicológico, pois a porta estava sempre representada com as suas almofadas escuras a isolar uma sugestão de luz… Depois de um certo tempo, percebi que o pintor estava parado unto ao meu cotovelo.

“Bem,” resmungou ele, e se falou na sua língua nativa, eu compreendi perfeitamente na minha. “Então você não gostou delas.”
“São muito melancólicas,” disse eu.
Ele sacudiu os braços freneticamente. “Muito melancólicas? Desafio qualquer um a fazer qualquer outra coisa neste buraco fedorento.”
“Então, porque o senhor fica aqui?”
Ele endereçou-me um olhar furioso. “Oh, vá-se matar! Porque ficarei eu aqui? Você acha que eu ficaria se soubesse de algum meio de sair?”
Voltei-me como se pretendesse ir embora. “Existe um meio de sair,” comentei casualmente. Ele pontapeou com raiva uma tela.
“A mesma velha empalhação missionária. Já ouvi tudo isso antes. Vocês não passam de um bando de excomungados salvadores preconceituosos. E todos vocês estão a viver na ilusão, tal como eu.”
A estranheza da resposta indicava uma mente que ainda não se encontrava por completo obliterada.
“Não sou excomungada nem preconceituosa.” Mantive a minha voz tão indiferente quanto me foi possível. “Isso parece ser uma descrição de si próprio.” Ele ficou muitíssimo ofendido.
“Mas que inferno…”
“Você é um excomungado, ao viver neste lugar,” salientei. “Devo imaginar que qualquer um seria; e você é preconceituoso, por ter fechado a sua mente a qualquer outra coisa.”
“Qualquer outra coisa mais?” rugiu ele. De súbito, virou-se para me encarar de frente e disse, mudando de tom: “Mas, existirá mais alguma outra coisa?”
“Sim,” falei, cheia de confiança. “Existe.”
“Conte-me lá,” escarneceu ele.
Aquilo não ia ser fácil.
“Existem lugares aqui,” tateei cuidadosamente o caminho por entre aquilo que desejava imprimir de modo indelével nele, “onde pintores, como você, vivem e pintam as belezas naturais da região.”
“Oh!” O seu humor sofrera uma pequena modificação. “Com que então, trata-se da velha história. Sabe como é, já me contaram tudo isso antes.”
Fiz um aceno, concordando. “Não obstante, você ainda se agarra aos seus preconceitos. Ainda não quer acreditar, mesmo que lhe digam sempre a mesma coisa?”
“Como posso eu acreditar?” Lançou um olhar furioso em redor, apanhou uma tela e amarrotou-a, jogando-a de seguida a um canto. “Pergunto-lhe, como é que eu posso? Tenho estado no Inferno por tempo demais…”
“Sim – por tempo demais,” atrevi-me a interromper.
“Talvez me tenha acostumado a ele… tem sido um inferno por tempo demais. Eles trouxeram-me do hospital para cá, contudo, ainda não consegui descobrir o que foi que se passou comigo. Eu encontrava-me inconsciente, creio… e de seguida encontrei-me aqui. Ninguém parece saber porquê. Mas, de qualquer modo, eu não o perguntaria aos velhos bêbados – eles aqui não sabem coisa nenhuma. E eu também não me preocupo por saber… o que diz respeito a mim eu reservo para mim próprio…” ele dirigiu-me um sorriso malicioso.
“Madame, eu não sou do tipo que faz confissões e essa classe de coisas…”
“Então, que está você a fazer senão a confessar-me os seus preconceitos e temores?”
“Ora!”
“Sabe, vocês está a construir o seu próprio inferno.”
Ele abriu os braços num gesto eloquente. “Eu nunca fiz isto.”
“Não, realmente… apenas pelo pensamento que nutre… exactamente como os outros o fizeram.”
“Os outros que aqui se encontram? Corvos malditos! Não têm sequer uma ideia nas suas cabeças. Nem mesmo conhecem a diferença entre luz e sombra…”
“E você conhece?” Apontei, deliberadamente, para as massas de cor encardida patente nos seus quadros.
O seu gênio ruim exaltou-se no mesmo instante.
“Sim, eu sei!” rugiu. Caminhou altivo através do aposento, de volta para o cavalete; olhou ferozmente para a tela semiacabada, que nele repousava. “Diabos levem os seus olhos. Certa vez eu pude pintar. Eu digo-lhe que pintei, pintei de verdade…”
“E agora não?”
De súbito aquietou-se, e toda a sua zanga se sumira.
“Você conseguiria pintar aqui?” murmurou. Lancei um rápido olhar às moradias vulgares lá da rua, às faces contorcidas dos indivíduos que passavam lá fora, à miséria.
“Eu nem tentaria sequer.”
“Aah!”
“Porque você não procura encontrar outros lugares?” sugeri, em vista de ele não ter dito nada.
“Outros lugares?”
“Onde haja claridade e beleza.”
Enquanto meditava sobre isso, ele observou o meu rosto.
“Você conhece tais lugares?”
“Conheço.”
O pintor encolheu os ombros. “Eu? Como poderia chegar até eles? Não tenho nada, não tenho dinheiro, não tenho passagem, não tenho passe. Como poderia alguma vez chegar até tais lugares?

Eu estava a ponto de responder, quando tomei consciência de Madre Florence, parada ao nosso lado. Eu tinha estado tão absorvida que esquecera as outras com quem tinha feito a viagem rumo a estes infernos do pensamento.
“Procurando por eles,” interpôs Madre Florence, com muita doçura. “Pedindo para ser conduzido a esses lugares de luz.”
Ele olhou fixamente para Madre Florence. Como uma nuvem escura, a descrença e a desconfiança postaram-se ao seu redor.
“Vocês têm certeza de que tais lugares existem?” perguntou, agora porém, com uma penosa expectativa na sua atitude.
“Ah, sim!” respondemos nós as duas, e eu alimentei a esperança de que a minha voz não tivesse demonstrado um açodamento exagerado. “Nós os conhecemos.”
“Mas eu não tenho senha de ingressão.”
“Você tem,” recordou-lhe a Madre Florence, com o seu modo suave. “Você tem o pensamento.”
“O pensamento? E daí?”
“Pense na luz,” disse ela. “Pinte luz nos seus quadros.”
No mesmo instante ele ficou exasperado devido à nossa aparente estupidez. “Como poderei pintar luz?” bradou ele, “quando não tenho as cores… as cores claras?”
“Você sempre pode consegui-las. Um dos auxiliares dar-lhe-á as cores claras,” respondeu Madre Florence, calmamente. “Espere, vou chamar um agora mesmo.”
Imediatamente, um homem jovem, usando uma batina marrom surgiu junto a nós.
“O nosso amigo artista,” Indicou a Madre Florence ao pintor, “precisa de cores mais puras. Ele deseja pintar luz nos seus quadros…”
O sorriso do irmão foi de alegria.
“Esplêndido. Venha, meu amigo. Arranjar-lhe-ei novos tubos de tinta. Faremos com que possa pintar a Luz. Venha…”
Encolhendo os ombros um gesto de espanto ante estes estranhos acontecimentos, o pintor virou-se e seguiu a figura de toga. Ficamos a observar os dois a caminharem juntos, a subir em direcção a uma colina onde uma flecha de luz riscava a escuridão. O sorriso de Madre Florence foi absolutamente lindo.
“Ele está no caminho, irmã,” disse ela, sacudindo a cabeça num gesto característico, que sempre demonstrava o contentamento que sentia. Com serena certeza, afirmou: “Ele conseguirá… Ele conseguirá!”

19 de Fevereiro

Estou a encontrar a paz. Encontro-me em paz. Acho-me incorporada nesta atmosfera de paz. Encontrei tranquilidade numa medida tal que me encontro em condições de a aceitar e apreciar. Já não preciso esforçar-me nem lutar conforme fiz na vida terrena. Lá, sempre trabalhei duro. Lutei. Batalhei tentando avançar. Segui cada canal, cada trilha que parecia conduzir àquela "brecha” do espírito pela qual a minha alma ansiava tão profundamente. Obedeci os preceitos, segui as doutrinas, estudei e examinei todas as teorias que poderiam “explicar” o espírito: dirigi-me a mim própria com o látego de uma vontade de ferro; li, absorvi e digeri as ciências (assim chamadas) da mente humana e das suas reacções aos estímulos, assim com também da psique humana e a sua tentativa de se alongar para a frente, para a revelação. Tudo isto – segundo acreditei – com um enorme propósito de iluminação. Sempre lutei para encontrar a “brecha” que conduzia ao espírito, à união com a alma, ao contacto com as Grandes Forças – e a esperança, a glória, a bem-aventurança de uma “passagem” para o espírito estavam sempre a impulsionar-me a minha mente e a minha vontade pessoal. E agora, quando olho para trás, para a vida terrena que levei, percebo que tudo isso foi uma ilusão.

Procurei o Espírito e o Espírito estava ali o tempo todo.
“Ele veio para os Seus e os Seus não O receberam.”

Agora, enquanto descanso nesta Realidade, vejo, com tristeza, a verdade que tais palavras encerram. Eu não O reconheci. Batalhei, jejuei, procurei por aquilo que já se encontrava presente, perfeito e eterno, dentro de mim. Como a maioria de nós, na vida terrena, eu encontrava-me mergulhada na ilusão; encontrava-me perdida no fascínio. Procurei pelo Espírito, para que Ele se me revelasse, quando tudo o que precisava fazer era “relaxar em Deus.” Velado, por a visão física não poder distingui-Lo, o Espírito estava sempre comigo. O “abandono” do eu constituía o grande segredo na descoberta do Espírito. Eu, que tanto ansiara pelo toque divino, que dedicara a minha vida ao trabalho religioso, que lera as vidas dos santos para que me servissem de exemplo, que esmiuçara as ciências da psicologia, da percepção extrassensorial e de todos os fenómenos psíquicos, assim com, também, as ciências ocultas, que me negavam a vida comum, sensual e reprodutiva de um ser humano; eu que tinha tentado obedecer verdadeiramente os preceitos do Mestre, conforme relatados no Novo Testamento, não aceitara a simples Realidade destas palavras: “Vejam, Eu estou convosco sempre, até ao fim.” Eu não tinha sido capaz de me abandonar e deixar que o Espírito se incorporasse em mim. Agora, à medida que vejo os meus pensamentos, acções e aspirações a partir deste ângulo, percebo que a própria tensão gerada pela minha luta constituiu a minha desgraça, e interceptou o caminho para aquela mesma união pela qual a minha alma ansiava. Golpeei repetidamente o Véu que ocultava a face da Divindade, tentando arranca-lo por meio da minha mente e da minha vontade, mas quanto mais intenso se mostrava o meu pensamento, com maior realidade eu criava a ilusão. Porque o Véu – conforme agora percebo – foi um véu colocado por mim própria.

Luz, Realidade, Divindade… consciência que tudo penetra… encontravam-se ali para que eu as aceitasse. O progresso alcançado teria sido muito maior caso eu tivesse “abandonado” todas essas imagens humanas e deixado que o Espírito me absorvesse. Descontraia e permita que o Espírito flua através de si. Nade com a maré do Espírito. Esta é uma grande lição que eu estou aqui a aprender, à medida que revejo os meus equívocos. Agora encontro-me no Espírito… não há qualquer “brecha” para o Espírito a respeito do qual certa vez referi de forma tão loquaz. Existe apenas uma absorção gradual daquela quantidade, ou grau, do Espírito, que a abertura da alma pode aceitar. Conforme posso avaliar agora, este grau precisa ser governado pela Lei do Progresso, porquanto o Espírito nunca é limitado e somente nós, enquanto receptáculos que somos, governamos o grau de penetração.
Esta é uma lição verdadeiramente salutar.

Também estou ciente de que na minha última experiência, na minha última vida, apenas repeti antigas lutas. Nada do que aconteceu constituiu novidade. Nenhuma aventura na matéria, no exterior, jamais é inteiramente nova ou tentada pela primeira vez. Tudo já foi empreendido antes, desde o começo até ao fim, talvez centenas de vezes, embora em circunstâncias diferentes e, possivelmente, em mundos diferentes. Ainda não estou segura quanto a isso: e tudo será empreendido de novo e de novo, até que, enquanto almas, tenhamos aprendido a “conduzir a Luz” connosco, através das nossas personalidades.

O livre-arbítrio, o desenvolvimento da mente lógica, as ilusões dos sentidos, tudo isso tende a extinguir ou, pelo menos, empalidecer a Luz da Divindade. Agora percebo com mais clareza – pelo facto de não me encontrar confundida pelas ilusões – que o grande propósito da vida na matéria é o de iluminar a matéria com o Espírito. Até mesmo aqui, na minha nova vida, me tenho impacientado de um lado para o outro, à procura de aventura, de experiência, de progresso e de tudo o mais que tenho descoberto e que tenho procurado contar nesta minha narrativa. Agora, porém, eu abandono-me. Não procuro nada. Absorvo-me e sou absorvida pelo Espírito de Luz, de Amor e de Beleza.

Sei que estou a passar por uma reconstrução. A consciência está a sofrer uma expansão de modo a reconhecer e aceitar o facto de que sou uma Filha da Luz Viva, já possuidora, em consciência, de tudo quanto é necessário e que reflecte aquela porção do Espírito que a minha percepção consegue permitir. Ao meu redor, a vida prossegue ainda. O trabalho de ajudar os outros, que talvez possam afundar no pantanal das suas ilusões de superatividade, ainda me ocupa e constitui uma alegria. Já não desejo ansiosamente passar para o próximo estágio, aquele onde obterei permissão para ser uma estudante nos pátios exteriores da Universidade que aqui existe. Tal aventura gloriosa será minha quando a minha consciência se encontrar preparada para ela. Até que tal percepção esteja viva e activa em mim e até que eu tenha alcançado a protecção da profunda tranquilidade deste conhecimento, sentir-me-ei feliz por permanecer aqui e receber os benefícios desta atmosfera de amor.

Até que esta nova paz se tenha tornado uma parte integral de mim mesmas, até que todos os arrependimentos se tenham dissolvido no amor e no trabalho, até que eu tenha aprendido a descansar totalmente nesta nova consciência do Espírito, terei que permanecer onde estou. O tempo, conforme o imaginamos, aqui não tem existência. A consciência assumiu o seu lugar. Por intermédio do grau de consciência do Espírito nós podemos medir a extensão dos vários estágios do nosso progresso para a frente, e a nossa permanência neles. Para si, que ainda vive no conceito do tempo, isto poderá levar meses, anos, séculos. Para mim, agora, o estado de consciência do espírito vivo e da serenidade que tal consciência provoca na minha alma são o meu presente e o meu futuro nesta Vida Eterna.

25 de Fevereiro.

Eu mudei, contudo, não mudei. A minha mente ainda é a mesma, ávida e sedenta de conhecimentos, como era quando eu me encontrava na terceira dimensão da vida terrena, só que agora as fronteiras da revelação acham-se abertas, recebendo-me cordialmente, e avenidas de pesquisa conduzem a domínios do Espírito que nunca se tinham manifestado, nem mesmo nos meus sonhos mais ambiciosos. Até onde o meu progresso permitirá – e, creia-me, as barreiras encontram-se na nossa própria consciência – encontro-me livre para prosseguir nas minhas explorações da natureza da Eternidade. Os únicos obstáculos ao progresso advêm da nossa limitada recepção da Luz. Só posso comparar isso à transmissão da electricidade. Luz e força eléctrica mais fortes requerem uma voltagem mais elevada: e uma voltagem mais elevada requere cabos, fios condutores mais grossos. Precisamos ter desenvolvido os nossos “cabos mais grossos,” com todas as entradas unidas e “ligadas.” Com cabos de voltagem mais baixa haverá menos luz; é tão simples quanto isso.

Para a exploração que devo aguardar com confiante alegria, devo limpar as minhas linhas de todas as antigas deficiências e erros. Tenho que desenvolver mais “linhas de comunicação” dentro de mim, mais “fios de transmissão,” a fim de aumentar a voltagem. Em virtude de tais razões e antecipações, contento-me em meditar sobre os enganos do passado e ver de que modo eles poderão ser reconciliados com o Modelo: contento-me, também, em aprender lições de encarnação por intermédio das estórias daqueles que nos chegam, aqui. E com tudo isto, a vida e o trabalho que aqui tenho enchem-me de júbilo e eu estou a descobrir uma forma emocionante de me aproximar da verdade.

Sempre há quem tenha jornadeado mais além, dentro da Realidade, a quem sempre podemos recorrer em busca de conhecimento e de orientação. Há beleza na plenitude disto, há liberdade de alma, e a maravilhosa percepção de que sou a mesma, de que eu, que perdera a espontaneidade e me encontrava mascarada pelo egoísmo da personalidade, estou mudada; contudo, não estou mudada. O essencial permanece. O desnecessário está a ser extraído lentamente, de modo que fica apenas a alegria do Espírito e uma paz inabalável.

“Na Cada do meu Pai há muitas moradas…”

Este lugar de habitação temporária do Espírito constitui a “morada” a que tenho direito actualmente. Mas que alegria saber – assim como antecipar – a existência de outras moradas para estados de existência mais avançados!
Esta é a mensagem que eu desejo, ardentemente, transmitir através deste trabalho.

Depois da morte do corpo físico nós gravitamos para o lugar que nos compete; uma morada, um chalé, até mesmo um covil, conforme tivermos feito por merecer. Por conseguinte, durante o tempo em que nos encontramos encarnados no plano terreno, é essencial encarar a experiência da vida como sendo uma preparação para esta existência. Viva agora a Vida da Eternidade.

Alguém disse, certa vez: “Viva cada dia com se ele fosse o último.” Existe uma enorme sabedoria nisso, porquanto o conhecimento transformará o pensamento e a acção em positividade e realidade, fugindo ao fascínio da vida terrena e levando a encarnação para perto do Plano original, preparando desse modo a morada aqui, na Luz do Amor de cristo. Por meio da profunda compreensão desses preceitos, a comunhão com a alma com a personalidade tornar-se-á cada vez mais íntima; a possibilidade de a Persona ser um obstáculo para o padrão da lama será cada vez menor, a encarnação presente será mais valiosa e útil e o progresso da alma será muito maior.

25 de Janeiro – mais tarde

O Grupo e eu não temos conseguido estabelecer um contacto fácil com a sua mente, durante estas últimas sessões, por causa da variação que o seu padrão vibratório tem sofrido. Este factor é provocado por um estado de saúde temporariamente deficiente, do seu corpo. Lembra-se do que eu lhe disse – e do quanto você se surpreendeu e me criticou – que não conseguia meditar quando atravessava aquelas últimas e penosas semanas da minha doença física? Bem, foi verdade, e agora você pode ver, por si mesma, como a Luz parece ter-se afastado da sua companhia durante as suas próprias sensações de fraqueza e de doença. Pelo facto das entidades físicas serem tão reais para nós, na vida terrena, e porque, por enquanto, muitos de nós inda não nos encontramos suficientemente evoluídos para desprezar esta existência do corpo, vemo-nos isolados do Abastecimento Superior. As vibrações tornam-se ais lentas – fiam assentes na matéria – tornam-se mais densas e mais difíceis de penetrar.

9 de Março

Vejo que andou a ler o livro do doutor Leslie Whaterhead, “O Agnóstico Cristão.” Reparei, em particular, que parou e releu a seguinte passagem:

“A menos que consiga escapar da prisão das expressões, dos credos, e das fórmulas antiquadas, nunca ficaremos livres para descobrir as verdades muito mais gloriosas, inerentes à religião cristã.”

Como você sabe, através da história da minha vida, dediquei-me à vida religiosa e depois de passar anos a repetir esses credos e fórmulas com os meus lábios, anos durante os quais a minha vontade foi estirada e teve que se esforçar para que eu pudesse continuar a desempenhar honradamente, e com o melhor da minha capacidade, aqueles votos que fizera tão solenemente – depois de vinte e cinco anos de tal devoção à minha religião, descobri que não era capaz de continuar, por um instante que fosse.

Não que eu já não acreditasse mais em Deus, ou que não desejasse seguir o modelo de Jesus e não que duvidasse que Cristo fora a Luz do Mundo, mas porque uma nova explicação destes mistérios se filtrara na minha experiência e nos meus conhecimentos. A descoberta pessoal tinha implantado, no meu íntimo, dúvidas a respeito daqueles dogmas de fé que já há mais de vinte e cinco anos estavam a ser postos de lado como obsoletos, que eram limitados na interpretação e inexequíveis como formas de crenças modernas.

Agora, este novo Mundo, dentro do qual estou gradualmente a ser introduzida, com toda a sua beleza, claridade e libertação, posso olhar para trás com alegria pelo facto de um tal passo ter feito parte da minha experiência. Pois eu não cheguei aqui por acção de pensamentos e expectativas coloridas, por acção de obsoletas meias verdades, conforme acontece com tantas almas honestas e convencionais; não cheguei a esta nova expressão da liberdade com ideias preconcebidas acerca da sobrevivência da personalidade, assim como a respeito da possibilidade de a alma ser dissolvida, não importa quão dolorosamente.

Por fim, sinto-me grata por poder relatar que vim com a expectativa, com antecipação e com absoluta crença numa vida nova, e desse modo encontrei alegria na reunião com velhos companheiros e encontrei igualmente prazer na obediência à Lei da recompensa e do trabalho. Passei pela experiência da morte acreditando firmemente na Ressurreição, porém, não na ressurreição do corpo que me revestira na terra. Como eu poderia desejar trazer uma coisa velha e desgastada para esta Vida nova? Ou até mesmo ocupá-la de novo, em qualquer experiência futura?

Aqui eu possuo um corpo, decerto, só que ele tem uma composição muito mais refinada do que a do meu falecido corpo físico. Aqui eu tenho a mesma aparência que tinha na terra, ou, relativamente a mesma aparência, mas encontro-me livre para remodelar este corpo por meio do pensamento. Estou a iniciar aquela aventura de escapar da prisão daqueles credos que limitam a realidade da vida. Aqui habito temporariamente entre as minhas companheiras religiosas, numa comunidade inteiramente dedicada a ajudar as almas a despertar para uma liberdade muito maior, antes que elas prossigam para os “lugares” a que têm direito; e na medida em que tenho permissão para participar, estou a aprender mais e mais a respeito dos valores verdadeiros da experiência de cada alma, em todos os mundos através dos quais ela está destinada a passar na sua evolução rumo à Divindade.

Aqui não existem dogmas, não existem credos, não existem fórmulas, não há regras duras e fixas, concebidas por uma mente qualquer a fim de limitar ou restringir o progresso. Tudo é individual; contudo, em função ou pelo bem do todo; pela evolução do grupo. É um movimento para a frente e para trás, se é que me pode ser permitido usar uma expressão contraditória. Individual e colectivamente, cada alma e cada grupo move-se para a frente, para uma expansão cada vez mais, para a concepção Divina de uma Criação que não conhece limites. Ao mesmo tempo, porém, cada grupo e cada alma remete “para trás,” para o plano abaixo, as suas conquistas actuais, os frutos do seu conhecimento. Estas ideias, ideias e concepções, enquadram-se dentro do Plano ou Padrão Divino e tornam-no evidente, tanto quanto este pode ser aceite pelas almas ainda infiltradas na ilusão e no fascínio da matéria. A aceitação da crença de qualquer outra alma não empresta colorido à evolução. A alma precisa julgar por si mesma – deve construir o seu próprio progresso, deve escolher o que aceitar como a sua própria verdade. Nenhuma alma é coagida, forçada ou amarrada por credos. Se ela acreditar que este seja o seu Céu, ou inversamente, que esteja no inferno, então para ela, no seu estado de progresso, isto será isso mesmo.

Existem inúmeros Auxiliares. Mestres e Grandiosas Almas, para explicar tais erros de pensamento, mas não há regras para seguir e obedecer excepto o Divino Preceito do Amor, da Luz, da Sabedoria e da Compreensão.

Jesus disse: “Eu sou a Luz do Mundo,” e Ele, na verdade, descobriu essa Luz e pode viver n’Ela. Nós também estamos a lutar para viver nessa Luz, na medida em que ela se apresenta como verdade para nós, individualmente. Esta é a glória da religião cristã, assim como de todas as religiões; este selo interior de Divindade, existente em cada alma, quer ele se encontre ou não reduzido à cegueira e à surdez por obra do pensamento material. Os nossos “olhos interiores” são abertos, gradualmente ou com maior rapidez, para os erros dos nossos velhos padrões de pensamento e de acção. Temos permissão para marchar para tais experiências porque elas nos ajudarão a corrigir esses erros. Para alguns isso significa permanecer num determinado estado até que os efeitos dos desastres, causados pelas suas acções na vida terrena, tenham sido solucionados e o amor e a harmonia tenham curado as feridas. Para outros isso significa juntar-se a um grupo, onde as omissões e os seus pensamentos e sentimentos podem ser remediados. Para outros, ainda, há o trabalho em benefício dos seus companheiros, enquanto que para aquelas poucas e felizes almas evoluídas há o rápido progresso para outras esferas ainda mais elevadas.

A “vida em série,” de um plano para outro, de uma experiência para outra, de um grupo para outro, de uma aventura para outra, de uma compreensão parcial para a compreensão profunda, de uma separação aparente para a unidade inerente e a bem-aventurança da Divina Realidade, parece ser, para mim – e até onde já pude evoluir e tão claramente quanto a minha compreensão em desenvolvimento pode permitir – as “gloriosas verdades”, como diz o doutor Weatherhead, da religião cristã ou de qualquer outra que enfatize o aqui e o além.

11 de Março

Você não deve pensar que a comunidade na qual agora resido temporariamente seja a mesma Comunidade religiosa da qual me tornei membro quando na Terra. Muitas das irmãs há muito que estão aqui; também há outras que vieram de comunidades similares. Muitas já passaram para actividades mais importantes; outras são tão novas e tão “recentes” quanto a minha própria chegada. Estou a usar o termo “recente” de uma forma puramente metafórica, visto que a minha experiência da terra e do tempo já está a esmaecer. Parece-me ter estado aqui durante séculos. O fio cortante das emoções, que faz com que certos eventos permaneçam indelevelmente gravados a nossa memória, já está a dissolver-se na expiação dos efeitos das minhas acções. Agora começo a correlacionar a vida como um todo, de modo que os diferentes períodos se ajustam dentro do Modelo e o Modelo passa a relacionar-se com o todo. Esta Comunidade difere da Comunidade terreno no aspecto em que não existem credos, não existem restrições e não existem votos (excepto aquele da dedicação pessoal ao trabalho em benefício dos nossos companheiros) e não existem hierarquias. Todos nós trabalhamos. No pensamento e no progresso, somos individuais. Ainda realizamos cerimónias, num sentido mais amplo e mais completo, pois sempre há a necessidade da elevação da alma por meio da acção dedicada e significativa, correlacionada com o pensamento e a aspiração ardentes.

Todavia, estas “cerimónias! Não seguem o mesmo padrão prescrito na Terra. Aqui, as nossas cerimónias têm origem numa unidade essencial com a Fonte de toda a Vida, do veemente desejo de participar, de um crescimento, para cima, da Força Vital que se acha em nós, de modo a iniciar uma mescla de uns com os outros, assim como também com as Forças maiores. Aqui, e noutros ugares, tomei parte naquilo que chamamos de Cerimónia de Luz. Esta disposição do pensamento, esta concentração profunda e combinada, brota do intenso desejo de experimentar Vida e ainda mais Vida, de nos unirmos com a essência Suprema, de percebermos, tanto quanto a nossa consciência actual nos permitir, que a Vida é expansão, que Vida é apenas a ampliação das nossas percepções interiores. Tais cerimónias e festivais parecem ter o propósito de romper as barreiras que obstruem, de romper aquelas inibições remanescentes da personalidade, que circunscrevem a alma e que têm que ser conscientemente dissolvidas e descartadas antes que a Luz possa fluir e penetrar verdadeiramente. Nestes festivais dá-se uma “elevação” de Força e de Energia, melhor do que “derramamento.”

Quando tomamos o nosso lugar entre a Comunidade das Almas, cumprindo este ritual de cerimónia, temos consciência de uma suprema aceleração do ritmo, de um aumento da acção do dínamo do Espírito. Há uma nítida sensação de crescimento, o corpo parece expandir-se e tornar-se menos maciço, parece estirar-se numa nova elasticidade e numa dimensão mais etérea. A mente alça voo rumo a uma vastidão de actividade criativa, até então inexplorada. O Espírito impregna tudo com uma dinâmica elevação de consciência. Novos e vastos conceitos jorram dentro da mente. O Caminho para a frente é iluminado com uma claridade que ultrapassa toda a imaginação.

“Isto é verdade,” sussurramos, cheios de um temor carregado de veneração, porém, de regozijo. “Isto é Luz.”

Estes festivais, como sempre nas cerimónias, são acompanhados por música, numa escala mais grandiosa do que qualquer coisa executada na terra. Contudo, nunca “vi” instrumentos tais como aqueles que, na Terra, eram necessários para a produção de tais harmonias. As notas formam-se e são gorjeadas como que por certos executantes invisíveis. Não há qualquer dissonância, mas uma crescente preponderância de algum tema majestoso; a harmonia vai-se avolumando até que uma determinada nota é alcançada e mantida. Esta nota parece ser a chave, a meta, o objecto da cerimónia. Todos os movimentos, todas as vozes elevadas em uníssono, todos os sons provenientes das Esferas se unem numa experiência até à ascensão da nota correcta – mais ou menos como um coro de pássaros ao amanhecer, elevando-se gentilmente rumo ao grande finale, a garganta de cada pássaro deixando jorrar a sua contribuição para o som.

Aqui, então, quando a Nota por fim é alcançada e ressoa plenamente, ela é mantida e vibrada num tal grau de intensidade que arrebata cada alma, em harmonia. A Luz penetra na assembleia. Somos cercados pela luz, elevados, tocados, despertados. Encontramo-nos expressando a Nota, ou a tentar expressá-la, com toda a nossa mente e com todo o sentimento e intensidade que podemos atingir. Estamos a cantar – porém, não cantamos – a uma só voz, como nos coros terrenos. Estamos a catar com o organismo inteiro.

Pensamento, produção, sentimento, expressão, aspiração e exaltação unem-se num vasto esforço por capturar e sustentar aquela Nota, na consciência, viver e tornar-se a vibração daquele Raio de Luz expresso através da Nota que ressoa.

É a ascendência da Luz
É a união com os vastos Mundos do Espírito
É a impregnação da matéria com a Força Espiritual
É a luz Universal, a Luz de que Cristo falou quando disse: “Eu sou a Luz do Mundo”
É a Luz de todos os Mundos… deste mundo, do mundo físico e de todos os Mundos mais vastos e superiores
É a luz que nos penetra e se torna a essência em nós.
É Som, Harmonia e Luz em Um
Esta é a cerimónia da Luz!

Quando eu estava na Comunidade, na terra, amei a cerimónia da eucaristia. Todavia agora percebo o quanto são desbotados os festivais e as cerimónias realizados com a consciência separada da mente humana. Contudo, estas cerimónias são valiosas, por gerarem aspirações enaltecedoras. Conforme agora posso perceber, o valor da cerimónia assenta na intensidade de aplicação do participante; a intenção com que o ritual é realizado e seguido.

Na Terra tive pouco ouvido para a música. Creio que expliquei no meu livro Fronteiras da Revelação, que todas as minhas impressões de outros “estados” foram visuais. Raramente “ouvi”. Com maior frequência vi ou tive percepção das vibrações que rodeavam os corpos físicos dos que me acompanhavam. Aqui estou a aprender a desenvolver ambos, o Olho e o ouvido da Luz… e a ver a Luz, assim como também a ouvir as vibrações das diferentes frequências de luz

14 de Março

Talvez a mudança mais importante que me aconteceu no período desde que deixei a Terra, seja o aprofundamento e a comprovação da vida “por capítulos” que todos nós levamos. É como se eu tivesse simplesmente terminado um capítulo, abandonado a minha caneta, fechado o livro e adormecido, por simples exaustão… Agora estou desperta, revigorada e alerta, e comecei, de imediato, a escrever um novo capítulo – ou talvez isto represente todo um livro novo, uma dimensão diferente. Não importa se isto é um novo livro ou somente um novo capítulo. Ainda é uma continuidade, uma consequência de tudo quanto foi confiado à memória na última história. Existe um fio de continuidade, definido. Encontramos velhos amigos, companheiros leais e antigos Mestres. Através de conversações e comunhões com eles, e ouvindo as suas histórias, as partes esquecidas das nossas próprias experiências retornam à memória e o modelo é novamente construído.

Não que o modelo da vida em série jamais tivesse ficado totalmente perdido. Como actriz principal do meu próprio drama particular, eu ficara tão imersa, por assim dizer, no último acto, ou capítulo, que os incidentes, tragédias e lições das cenas anteriores, tinham mostrado a tendência de tornar-se cada vez mais nebulosos. Mas agora estou a começar, lenta e laboriosamente, a reunir estas cenas num todo, no esforço de descobrir a sequência da vida. Através do confronto com os seus coautores, muitos dos incidentes que tinham sido irregularmente entalhados na minha memória, e que desde muito tempo tinham ficado obscurecidos na minha consciência, surgiram diante de mim como um choque. Poderia ter sido assim que eu pensei, falei, agi? Que grande semelhança existe em todas as acções; contudo, como elas são diferentes! A Essência é firme e serena; a personalidade é mutável e esquiva. Enquanto medito sobre alguma recordação que me vem com um relâmpago, sobre alguma coisa enfiada na corrente de experiências, tanto neste plano como no plano terreno ou em qualquer outro, o Diagrama desenrola-se – apenas parcialmente, é claro – diante do meu olhar fascinado. Abandonei esta grande oportunidade? Reagi de uma forma tão pueril? Não aprendi a dar ouvidos àqueles vagos clarões de memória, que me dirigiram a sua voz de vez em quando, durante todas as experiências que o pensamento “separatista” frequentemente transformou em travessuras? Tinha eu mergulhado tão fundo na matéria que esquecera lições já aprendidas, filosofias tantas vezes confirmadas como Reais, para a minha mente?

De facto, devo ter feito tudo isso. As comparações enchem-me de consternação. Posso dar um exemplo?

Tive a maravilhosa iluminação de ser temporariamente transportada pelo pensamento para um Plano onde estive em contacto com uma Grande Alma, um Sábio, um Ser Evoluído, um Mestre de Sabedoria que é um dos que fazem parte da Companhia Divina. A sua face resplandeceu como um relâmpago, tornando-se visível para mim. Eu o reconheci. Não houve necessidade de falar.

De acordo com a maneira desta nova dimensão, à qual me estou a acostumar, compreendi, em silêncio, tudo o que me comunicava. Foi como se as minhas jornadas se desenrolassem diante de mim, numa tela cheia de cor e movimento, porém, sem sons. Eu estava hipnotizada e às vezes jubilosa ou triste, orgulhosa ou envergonhada. Contudo, em nenhum momento Ele pronunciou uma palavra de censura. Sorriu com infinita compreensão quando, uma vez mais – só que agora numa escala muito mais vasta e detalhada – a Fotocópia mostrou, com marcas definidas, os pequenos triunfos e, também, os fracassos das minhas diligências.

“Eu sou, eu fui, eu sempre serei” – lembro-me de ter pensado. Como que em resposta ei O vi – em breves lampejos – conforme Ele era quando eu tinha entrado em contacto com Ele nos meus vários de Existência: pois Ele desempenhara um papel em muitas experiências, sempre como o Irmão, o Mentor, o Inspirador.
“E eu não O reconheci,” pensei, com tristeza. “Não me lembrei dele.”
Quando tornei a olhar para Ele, vi que o seu Rosto era o Rosto do Amor infinito e ilimitado. No meu ouvido “interior”, soaram as palavras: “E nem eu te condenei…” Fui banhada por um novo júbilo, uma grande esperança e uma profunda força de consciência. Fiquei tão comovida que dei por mim a chorar interiormente. E quando me recobrei, a visão desaparecera e eu estava de novo no meu jardim, a contemplar a glória da Vida Eterna e o Caminho de possibilidades infindáveis.
Madre Florence encontrava-se a meu lado.
“A senhora sabia de tudo isso?” perguntei.
“Quando me encontrava no corpo terreno, eu também esqueci,” respondeu ela, com sua habitual suavidade.
“Mas a senhora realizou tanto,” insisti.
“Também falhei.”
“A senhora também O viu? Perguntei.
O Seu rosto estava radiante. “Conheci outros iguais a Ele, quando tive permissão para visitar Planos Superiores.”
“Conheceu-Os? Exclamei, maravilhada; e quase que numa censura, acrescentei: “E preferiu ficar aqui?”
“Preferi.” Ela meditou sobre isso. “Tenho um dever, querida Irmã, e tenho a minha expiação, que também é escolha minha Além do mais,” explicou, “não creio que pudesse suportar, por muito tempo, a intensa Luz e Glória desses Planos mais Elevados. A minha alma ainda não se encontra suficientemente forte.”
Fiquei em silêncio Sem qualquer sinal de reprovação, tinham-me feito perceber uma falha me mim mesma. Quanto eu precisava aprender! Quão divina é a verdadeira humildade!
Mas “nem eu te condenei.”
As palavras ecoam na minha mente como um botão de flor que surgia cheio de grandiosas promessas. O Caminho é eterno. As nossas pequeninas mentes são iluminadas e confortadas pelo conhecimento de que a “vida em capítulos” é um projecto maravilhosamente bondoso, que a Compaixão Divina elaborou para cada um de nós. Na medida em que tivermos procurado realizar em outras consciências, outros estados do Ser, assim teremos permissão para prosseguir, capítulo por capítulo, série por série, livro por livro, para crescer em sabedoria e em beleza dentro daquela imagem tão gloriosamente representada, aquela da Imagem Divina. Até mesmo a contemplação de tal progresso, num esquema de coisas infinitamente distante, enche-me de esperanças, de serenidade e de tranquila aceitação.

SOBRE O CONCEITO DE ALMA-GRUPO

25 Março de 1966

...Mencionei que falaria a respeito dos Grupos e de um assunto que foi muito caro aos nossos corações quando me encontrei encarnada - o da Alma-Grupo.

Nada daquilo que aqui aconteceu ou do que me foi mostrado nas ocorrências da minha vida aqui, na Eternidade, provocou qualquer mudança na crença que tinha no Trabalho de Grupo e na evidência dos Grupos de Alma... ou se preferir que o expresse de outro modo, nos grupos de alma que se unem para construir uma Alma-Grupo. Estou perfeitamente ciente de que este conceito não se harmonizará com a maior parte da teologia das Igrejas cristãs estabelecidas, nem será aceite por muitas pessoas, devido à ideia inerente, cultivada, da importância individual do homem: por outras palavras, as pessoas fazem objecção ao facto de constituírem somente uma célula, conforme a expressão que utilizam, num enorme aglomerado de células, uma alma num grupo formado por almas. Contudo, qual será a razão de tal objecção? A natureza inteira expressa a unidade do Plano de Vida: as plantas, os animais, os minerais pertencem a diferentes famílias e reagem, de maneira uniforme, a padrões prescritos. O ser humano deveria ser, pois, diferente?

Desde que a minha vida aqui teve início, meus olhos têm sido abertos para Verdades nobres e sábias inerentes e esses conceitos de Grupos. E pelo facto de agora o mundo estar a entrar numa nova Era, dotada de novas concepções, esta questão dos Grupos de Almas virá a ser cada vez mais postulada, até mesmo por aqueles que agora preferem ver um motivo de orgulho no isolamento das unidades.

Conforme se torna aparente ao meu conhecimento limitado, nós todos somos membros não apenas de um Grupo, mas de muitos; e esses muitos formam o Grande Grupo, ou Grande Alma Ser, no qual vivemos, nos movemos, e temos o nosso ser... E esses grandes seres unem-se para formar outros grandes Grupos Alma, ou Seres Divinos, na Divina Companhia Celestial. Talvez a princípio este represente um conceito de difícil aceitação, mas procurarei fraccioná-lo para quantos se interessarem por ler estas ideias.

1 - Antes de mais, pertencemos a um Grupo-Família. Nascemos e casamos dentro de Grupos-Família mais convenientes ao tipo de experiências e de lições que, enquanto almas encarnadas necessitamos. Muitas pessoas não se distanciam muito dos Grupos-Família ou Tribos (nas nações menos refinadas.) A Alma do Grupo-Família é a mais importante nas suas vidas. Essas pessoas são as que poderíamos dizer que se apegam às traições do seu clã. Naturalmente que, quando aqui chegam, depois da morte do corpo físico, são transferidas para aquele Grupo-Família a fim de aí dar prosseguimento às lições e experiências da vida terrena e desenvolver harmonia e felicidade. Elas não são obrigadas a deixar o Grupo até que se encontrem preparadas e dispostas a passar para o Grupo seguinte, maior, ao qual também pertencem sem que disso tenham conhecimento. Este primeiro Grupo é o mais simples, e muitas almas permanecem nele por um longo espaço de tempo sob a jubilosa orientação e protecção deste Grupo-Ser.

2 - Os grupos seguintes são os Grupos de interesse, de apaixonada ligação com as artes, a música, a educação, as ciências sociais e o serviço social. Estes grupos são maiores e mais vastos, entendendo-se por entre famílias e indivíduos para formar grupos menores. Tais grupos serão os dos músicos, dos artistas, dos profetas, dos oradores, dos escritores, dos doutores, dos filósofos e dos cientistas que já tenham passado pelo Grupo de Trabalho e tenham sido promovidos. O seu interesse apaixonado naturalmente será parte da vida da sua alma e eles serão promovidos para grupos tais onde possam continuar os seus estudos e as suas realizações. Às vezes, Grupos-Família acham-se incluídos nesses grupos maiores e então ambos adaptam-se um ao outro e fundem-se. Por outras palavras, esses Grupos-Família serão como células dentro dos Grupos mais Elevados.

Quando as almas aqui chegam e após terem "limpo a casa receptora," são primeiro transferidas para a Família e depois, mais tarde, (caso a família não pertença a grupos mentais semelhantes) para o Grupo Especial do seu interesse, mais ou menos semelhante ao processo de "passarem pela alfândega," na terra, logo que chegam a um outro país, para posteriormente se reunirem à família que aguarda a vossa chegada, passando, mais tarde, para o local onde se encontram os vossos associados em assuntos de negócios, intelectuais ou artísticos. Esses grupos harmonizam-se entre si, ou fazem parte de algum outro, exactamente como o dedo faz parte da mão, e esta por sua vez é parte do braço e o braço é parte do corpo.

3 - O grau dos grupos seguintes situa-se num nível mais elevado e nem sempre é atingido pelas almas que desejam um rápido retorno às condições terrenas. No humilde estágio em que me encontro agora no meu primeiro grupo (Aquele de participação e trabalho, tal como na Comunidade a que pertenci, na Terra) posso antecipar com imenso júbilo a possibilidade de ser incluída nesses Grupos mais evoluídos e dotados de consciência ampliada, para o que trabalho com boa vontade e alegre aquiescência.

Podemos comparar esses Grupos Evoluídos às classes adiantadas de uma universidade. Aqui os interesses e os temas de estudo ainda se acham parcialmente separados. O estudante maios adiantado é admitido nas classes de maior alcance, força e interesse. Grandiosos Seres orientam esses Grupos e observam os progressos desses seus aglomerados de almas que se assemelham a células. Operam em raios mentais de influência mais elevada, pois embora por enquanto eu saiba muito pouco a respeito desses Seres, interroguei muitas almas que entraram em contacto com eles e trabalharam no seu seio. Esses Grupos-Alma são muito extensos, mas acham-se concentrados nas suas sal de aulas e oficinas de trabalho. Pertencem, mais do que nos é possível perceber, à Divindade inerente a toda a partícula do Cosmos. Possuem a capacidade de estudar as Leis Divinas que se acham além da nossa compreensão. Comungam juntamente com e na Mente de Seres mais evoluídos, cujo Grupo-Alma, cujos Grupos-Alma eles constituem. Trabalham pelo progresso em imaginação Divina e como Grupos de Ideação Divina. Comas suas descobertas eles inspiram grupos menores, porquanto ainda contêm grupos menores dentro dos seus Centros, como unidades de células num vasto organismo, intrincado e belo.

Entre eles, acham-se filósofos e cientistas, pesquisadores, sacerdotes e mestres. Fazem parte dos grupos que influenciam e determinam movimentos na Terra, tais como Pesquisas Psíquicas, Movimentos de Cura, Cooperação Religiosa, o avanço da Ciência e todos os movimentos cuja intenção é trazer Luz aos mundos futuros...

Quando me achar preparada e a "purificação" e "despojamento" dos desejos terrenos por que passo tiverem avançado o suficiente para que possa viver numa atmosfera mais rarefeita, tenho certeza de que serei transferida e que irei residir e estudar com um desses Grupos. Então, poderei assistir às aulas, ouvir os Mestres e debater com os meus colegas numa dessas Universidades do Espírito. Então poderei tomar parte na comunhão com o Grandioso Ser Espiritual que é o Centro do Grupo. Isso, porém, ainda está por vir.

4 - Além desses Grupos devem existir outros grupos e Companhias Celestiais. Seres mais evoluídos ainda, projectos ainda mais vastos, subindo directamente até ao conceito da Divindade em Si Mesma, a respeito da qual pouco ou nada podemos imaginar.

Se aqui não fiz menção às terras das sombras, isso dever-se-á a que, na minha mente, elas pareçam ser casas de purificação onde os acessórios ilegítimos e malignos das antigas personalidades são rejeitados, postos de lado e, finalmente, desagregados. Neste determinado lugar do meu próprio progresso, encontro-me no meu grupo de "interesse", aquele da Comunidade e do trabalho, mas tenho igualmente Percepção do Grupo superior ao qual pertenço e para o qual, confio, estou a gravitar. Já entrei ligeiramente em contacto com alguns daqueles que habitam essas Esferas mais amplas, por intermédio do pensamento interior posso comunicar-me com eles e receber impressões da sua parte. A título de interesse, repetirei aquilo que já lhe transmiti antes. Estes textos estão a ser organizados e incutidos em mim por um Grupo de Almas, de modo que estou a ser usada por essas Almas com um elo telepático dirigido a si e à Terra.

Esse Grupo, pois, representa o meu estágio seguinte, pelo qual anseio com jubilosa antecipação. Farei parte da Comunidade e poderei voltar aqui sempre que o desejar, para trabalhar e repousar, mas serei igualmente absorvida num Grupo mais Elevado. Naturalmente que é sempre mais fácil recuar para um Grupo anterior do que progredir para a atmosfera de grupos de consciência mais ampla - isto até que nos encontremos completamente preparados. Por conseguinte, deverei ficar ligada a esses dois grupos, assim com também ao meu Grupo-Família, que não mencionei aqui por ser um assunto pessoal e privado.

Agora conseguirá avaliar o que significa Grupo de Trabalho e Grupo de Almas? Um grupo situa-se dentro do outro, dentro do seguinte - e o seguinte dentro do Raio de Luz mais elevado, que constitui a Vida Divina em Si - ou Deus. Tudo é progresso e nada permanece estático. A imaginação atravessa e evolui dos níveis emocional para o mental e deste para o espiritual. A Vida é um caminho isento de interrupções que se dirige para o nosso Grupo particular, para as nossas experiências individuais, para o nosso progresso, e que ruma para diante no arco da ascendência. Para mim este é um processo muito mais encorajador do que qualquer glória de um céu estático, com anjos e pavimentos dourados.

Existem Anjos, naturalmente; grandes Seres de Luz que executam a vontade do Divino Criador e que carregam e transmitem Força, Beleza e Luz. Mas eles também se acham incluídos no processo de evolução, de avanço em direcção aos seus próprios grandiosos Centros. Tudo é ordem, evolução, progresso. E tudo é unidade, Células de Vida incluídas dentro de Células de Vida, Centros dentro de Centros, Grupos dentro de Grupos, no próprio seio da Divindade.

28 de Março - Mais a Respeito dos Grupos

Eu disse que pertencemos a grupos, uns dentro dos outros, tais como grupos de família, de interesse, de trabalho absorvente, de aspiração, de credos, etc. É verdade que a Alma-Grupo ou o Espírito-Grupo é o Ser no qual os membros do Grupo vivem e se movem. por outras palavras, a Fonte de Energia e de Vida Divina da qual os Grupos retiram as suas inspirações, a sua vida e as suas intuições, emana d'Ele.

Por conseguinte, entrar em sintonia com a Vida, a Força e a Beleza de um tal Espírito-Grupo é experimentar a Força de Deus dentro da nossa própria mente e da nossa própria alma. Todas as grandes aspirações, revelações e divinos sussurros de intuição têm origem no Espírito e através do Espírito do Grupo ao qual pertencemos, ou seja, a Unidade mais elevada do Grupo. Assim pois, os sacrifícios feitos pela família, a paz da família, o amor, a harmonia, tudo tem origem na Alma-Grupo da família; do mesmo modo, as grandes aspirações de servir, de partilhar conhecimentos com os outros e de guiar e orientar os nossos companheiros provêm do Grandioso Ser Espiritual que é o Espírito-Grupo Central desse determinado Grupo.

Desde que deixei a Terra tenho recebido ensinamentos de um Mestre com quem me acho em contacto, mental e espiritualmente. Ele próprio é uma parte da Alma-Grupo existente no Grupo rumo ao qual estou a progredir e do qual tenho sido membro durante muitas eras, embora não estivesse totalmente consciente disso. Este Mestre é um Discípulo evoluído, uma alma sábia avançada, capaz de transmitir conhecimentos e sabedoria para as almas do Grupo. Aqui, o progresso alcançado é sempre recompensado com um trabalho. Por outras palavras, conforme avançamos para uma Luz maior, assim também ganhamos permissão para ensinar e orientar outros, do Grupo, que se encontram numa senda inferior. O Grupo em si é formado por almas que se encontram em todos os níveis da consciência, desde o mais elevado até ao medíocre, mas o próprio Espírito dos Grupos só avança quando os membros mais recentes e mais ignorantes conseguem progressos. É um avanço unificado. Nenhum membro do Grupo pode passar adiante da convocação e da comunicação de outros membros. Quando o Grupo em si avança para a Companhia Celestial, então não haverá "extraviados." Todavia, conforme os ensinamentos que recebi, tal experiência encontra-se muito além da percepção do Grupo, neste estágio.

Você também pertence a esse mesmo Grupo. De facto, você ficaria surpreendida ao saber das personalidades que fazem parte dos grupos menores, grupos esses que se acham todos unidos para formar o Grupo maior. Este abrange muitos outros grupos aparentemente separados.

Assim sendo, estamos realmente "um com o outro" e a mim parece-me que uma das principais lições que temos de aprender, enquanto nos achamos imersos na personalidade, é aquela da tolerância, pois, com frequência, não sabemos quem é do nosso mesmo grupo (e como haveríamos de saber se temos os olhos velados na vida terrena?) Podemos até sentir sentimento de repulsa por uma determinada pessoa, mesmo que ela pareça estar a trabalhar ao longo das linhas de pensamento idênticas às nossas; mas a repulsa é superficial, é efémera, e mais tarde quando nos tivermos libertado de alguns dos aspectos mais inferiores da personalidade, poderemos descobrir que a outra pessoa é um membro adiantado do nosso próprio Grupo, com quem nos achamos indissoluvelmente ligados por laços de parentesco espiritual.

Por outro lado, há almas diante das quais reagimos, instintiva e imediatamente, com afeição, admiração e união. Eu costumava acreditar que essas seriam almas com quem tínhamos estado em contacto durante outras encarnações, e com as quais teríamos dívidas cármicas a saldar, ou que tinham débitos para connosco por males infligidos. Agora a compreensão que tinha está a sofrer uma expansão. O que eu acreditava poderá ainda ser verdade, em parte, mas agora percebo que essas almas que nos atraem são parte de nós mesmos. Elas pertencem ao mesmo Grupo, à mesma Família Espiritual, à mesma Alam-Grupo. A ligação que têm connosco é mais profunda e muito mais permanente do que seria se ela fosse criada por simples contactos terrenos. Elas poderão ser parte do mesmo Espírito, visto que esse Espírito é, Ele próprio, parte do Grande Espírito, da Grandiosa Companhia de Divindades, muito distanciada da compreensão que temos, a Companhia Celestial, os Cocriadores, os Maravilhosos e Divinos Filhos de Deus.

Estou a aprender muito, a experimentar e a compreender mais ainda. Percebo que na Terra fui persistente demais, trabalhei com exagerada energia, tentei demasiadamente. Agora aprendo a absorver através da experiência e não totalmente através da aplicação mental, embora os atributos de aplicação da mente sempre façam parte da minha constituição. A actividade mental foi uma parte do meu eu mais inferior. Não foi a Essência, da qual lentamente começo a ter percepção, lentamente e talvez, por causa da minha ignorância, de maneira dolorosamente absorvente. Dolorosamente. Isto talvez possa ter uma estranha conotação, mas possui uma significação profunda. Contudo, apesar da dor da tristeza pelas oportunidades negligenciadas, há ainda o profundo júbilo do espírito pela compreensão muito maior, que é a própria Luz.

"Abandone-se... e deixe o Espírito fluir para dentro de si," foi um dos ensinamentos de Plotino, e quão certo ele estava! Não precisamos lutar pela compreensão. Deise que a perfeição da alma e do espírito seja filtrada pelas aberturas da personalidade.

Recorda-se do quanto amei Hound of Heaven (Caçador do Céu) de Francis Thompson? Quão profunda a percepção espiritual que corria pela alma do poeta. Ele escreveu a respeito da Luz que nos persegue ao longo dos anos, ao longo das Eras, acrescentaria eu. Isso, a Luz, o Espírito, o Aspecto Mais Elevado de qualquer Alma-Grupo faz parte de nós em cada encarnação, em cada existência, em todos os nossos afastamentos do Céu, em todas as experiências por que passamos. É o Espírito Divino do Grupo, a extensão de Deus, a Fonte e a Nascente que, por meio dos nossos esforços, por mais pobres que eles possam ser, sempre se expande para dentro, para o eterno Centro de Luz e de Energia Criativa que os homens chamam de Deus. Nesta criação progressiva, por Grupos e Companhias, evoluímos para diante e para cima, rumo àquele Eu Divino - depois de eternidades de esforços, para a inclusão na Companhia Divina, para uma bem-aventurança que no nosso estado de compreensão actual é inexplicável.

O Espírito da Vida é mais extraordinário, mais atemorizador, mais glorioso e muito mais vasto do que o homem jamais concebeu. No voo da águia podemos ver a ave alçar-se aos céus, podemos distinguir as batidas das asas e o revolutear das penas, podemos distinguir o progresso que faz até que ela se transforma num simples ponto do céu. Eleva-se mais alto ainda e deixamos de poder segui-la. A vida é exactamente assim, apenas visível e somente compreendida em parte no seu nível mais inferior, e perde-se para nós conforme avança impetuosamente para se juntar ao céu ilimitado do Amor Criativo de Deus.

3 de Abril

Estou agora a chegar ao fim do meu trabalho para este livro. Os textos já não serão tão longos e difíceis, embora eu ainda possa receber ordens para acrescentar alguma outra coisa, de tempos em tempos. Logo que aqui cheguei e "despertei" para esta vida nova e livre, sem os inconvenientes do meu corpo físico, fiquei emocionada e excitada. Senti um ardente desejo de transmitir de imediato tudo isso para você que tinha sido minha parceira em tantas e tão emocionantes aventuras espirituais, no final da minha permanência aí. Soube logo de imediato que podia entrar em contacto consigo por intermédio dos métodos telepáticos que tínhamos andado a estudar.

Eu queria redigir todas as minhas experiências, descrever as pessoas que conheci, falar dos casos que tive permissão para assistir e pormenorizar, para você, cada pedacinho da vida que aqui levo. E assim fiz. Pensei que estivesse a agir por conta própria, até que fiquei a saber que era um instrumento de um Grupo maior. Também foi emocionante perceber que o nosso Grupo de Trabalho tinha sido uma preparação para esta forma de contacto. Com grande alegria, lancei-me ao trabalho e ao serviço de assistência, aqui. Ponderei longamente acerca dos casos que lhe "descrevi." Comecei a compreender mais e mais a maravilha e a realidade desta vida "em série."

Esta é, pois, a mensagem que desejamos divulgar, antes que eu termine os textos:

1 - O medo da morte não tem razão de ser, por a morte do corpo constituir uma suave passagem para uma vida muito mais livre

2 - Toda a Vida é vivida em séries, que passamos de uma experiência de vida para outra experiência de vida numa velocidade diferente, isto é, num nível de percepção mais elevado.

3 - Que muito daquilo que julgamos digno de louvor na Terra, torna-se-nos medíocre à Luz de um conhecimento maior, e que o inverso, ou seja, muito daquilo por que nos culpamos e fomos culpados, aqui é visto de um ângulo mais amplo, e se torna até mesmo um mérito. Isto soa a afirmação contraditória; contudo, faz sentido quando observada deste ângulo mais livre.

Agora estou calma. Acomodei-me e estou a começara ajustar-me a esta nova vida, e a apreciar o amor e o trabalho com muitos de quantos conheci na Terra, ao ensinar aqueles que encontram dificuldade em se ajustar, a absorver a Essência da beleza e de Luz na qual habitamos. Há uma esperança infinita de, mais tarde, avançar e de me juntar ao Grupo mais elevado a que sempre pertenci… o Grupo que também contém este Grupo em sua consciência espiritual. Contudo, sinto-me feliz e satisfeita no trabalho para o qual os meus talentos, tais como são, e o treino mental que recebi na Terra podem ser aplicados. O Grupo está contente com a maneira como os textos foram transmitidos e recebidos. Pequenos erros, tais como os que ocorreram, serão corrigidos ou terão uma importância mínima, e eu estou confiante em que o livro que resultar destes textos irá ajudar muitas almas, na Terra. Isto representa somente um panfleto preparatório, pois ainda me encontro no estágio preparatório da minha viagem. Mas será útil e, todos seremos triplamente abençoados por abrir as mentes de muitos para esta nova vida para a qual todo o ser humano se está a dirigir – e se ela tornar mais simples as respostas para algumas das questões que têm atormentado aqueles que se encontram encarnados na Terra, a nossa tarefa terá sido correcta e sinceramente realizada.

Bênçãos sobre você e sobre todos quantos lerem este humilde testemunho da Luz do Espírito e do Espírito da Vida.

14 de Abril

(Helen Greaves)
Veio-me a sensação de paz, grande e duradoura. Lembro-me de que era um frio dia de Abril, que de vez em quando nevava e que o fornecimento de energia eléctrica falhara durante a manhã, de modo que durante a maior parte do dia fiquei sem aquecimento, excepto por uma velha e fiel estufa a óleo. A luz estava ruim e eu tentava dactilografar uma palestra que seria dada antes do fim-de-semana. Havia muitos aborrecimentos e dificuldades físicas… Subitamente, a onda de paz desceu sobre mim. Cruzei as mãos e deixei-me absorver nesta beleza e repouso. O Espírito, por assim dizer, filtrou-se dentro de mim como uma luz suave, como calor e radiância. Sentia-me muito bem, muito calma, porém, muito alerta e com uma tranquilidade interior que parecia estar além de qualquer explicação.

“Isto é o Espírito,” falei para mim mesma, abrindo-me para aquilo como uma planta faminta de luz, que se abre para os raios de sol. “Isto é o Espírito.” Doce e imperceptivelmente tive percepção de Frances. Ela estava a influenciar a minha mente e “registei,” com absoluta nitidez, os pensamentos que ela me enviava. Na verdade, tão logo me dediquei a “ouvir,” os pensamentos se transformaram em palavras e, sem um momento de hesitação, procurei a caneta.

(Frances)

Agora posso usar muito mais a minha “Mente Interior,” ditou Frances, por intermédio da minha mente e da minha caneta. Na Terra foi difícil “penetrar” até ao espírito durante períodos suficientemente longos para serem de efeito duradouro. Por meio da meditação, tentei e fui capaz de silenciar a mente consciente, mas durante esse tempo não consegui um certo grau de existência na Mente Espiritual, conforme agora posso fazê-lo. Todavia, ainda tenho várias “partes,” ou “corpos,” e à medida que os reconheço mais maravilhada fico. A parte de mim “puramente pessoal” está a ser limpa e purificada. Agora vivo quase que somente num corpo astral e isso dá-me um grau de liberdade muito maior do que aquela dada por um corpo físico denso, mas tenho muita consciência do meu Corpo Superior, ou se preferir, do meu Eu interior – tenho muito mais consciência dele do que tinha quando estava em encarnação no plano físico da matéria. Agora, eu consigo alcançar, creio bem, um equilíbrio de vida muito mais elevado. Com isto quero dizer que estou a tomar consciência do meu Corpo Espiritual, e assim sendo fico capacitada a ausentar-me deste plano de pensamento, o astral ou emocional, e a passar, em consciência, para os planos do pensamento Mental e Espiritual, mais elevados.

Com a transição desta consciência para aquela do Mais Elevado, vem um primoroso sentimento de paz e de liberdade, que eu dificilmente poderia explicar.

(A esta altura, eu Helen Greaves, perguntei mentalmente se a paz que tinha experimentado pouco antes seria uma amostra desse sentimento.)

Sim, mas somente uma fracção da sua intensidade. Eu nem mesmo posso ter a esperança de transmitir a paz envolvente, a sensação de um existir sereno, que nos domina com esta transição de consciência. É a penetração pela qual sempre ansiei na Terra e que somente experimentei em momentos infinitesimais de União. É a realidade do Ser. É júbilo que não pode ser traduzido por palavras, É, de facto, um êxtase de viver, de ser uma vida, um Eu vigilante num mundo de Vida e de outros Eus Gloriosos, dentro da consciência de um Grande Eu Criativo. Não posso expressar com mais clareza esta sensação do Espírito interior. E devo agregar que sou apenas uma principiante no que se refere a alcançar até mesmo este grau de consciência. E nem posso mantê-lo indefinidamente, no actual estágio de evolução em que me encontro. Talvez a intensidade dele me possa queimar, por assim dizer, enquanto eu não estiver harmonizada com esta frequência de vibração acelerada. É júbilo intenso, é bem-aventurança irrestrita, é a meta e o pináculo de todas as lutas para descobrir o Espírito, mas mesmo assim só posso alcançá-lo em “períodos” de consciência. Todavia, à medida que vou ficando mais plenamente vigilante para as possibilidades dos Planos mais Elevados, sinto-me feliz.

15 de Abril

Sou uma criatura que está a hibernar, mas que, ao mesmo tempo, se está a despojar de uma pele que já não é necessária. Às vezes sinto-me como uma serpente que gradualmente vai desprendendo a sua pele. Estes anéis de densidade mais baixa estão a desaparecer de mim. Estou a emergir das mágoas das recordações da Terra, das desilusões, das idealizações que se transformaram em ilusões efémeras e sem valor real. Estou a analisar cada pedaço de pele, que se desprende de mim, na sua conexão correcta com o Eu verdadeiro, que essa pele serviu para obscurecer. E, cada vez mais e mais, fico agradecida pela realidade que – Deus seja louvado! – esteve escondida lá, por baixo da pele, o tempo todo. Esta realidade é o eu que cada vez se torna mais evidente, mais revelado, mais substancial. Esse Eu é Luz substancial. Talvez esta última sentença lhe soe estranha. Não estou a tentar mostrar-me obscura, mas neste plano de existência, o nosso ângulo de visão altera-se. Compreendo que aquilo que está a desaparecer de mim, como uma pele que está a ser descascada, é insubstancial, é transitório e conforme se desprende de mim, decompõem-se e transforma-se num nada poeirento. O que permanece é essencialmente Luz, é Realidade, é permanente e é verdadeiro. Chamo a isso meu novo Corpo de Luz e é isso, de facto, que ele é realmente. Um Corpo de Luz que não é denso, que não é material, que não é lento e pesado como o corpo físico, que não é insubstancial, que não é sombrio e irreal como o corpo astral no qual eu me tenho abrigado, mas que é brilhante, que está cheio de “células” de luz, que é etéreo, não tem peso e não é arrastado para a matéria porque está enredado na cor e na beleza, na forma e na substância. Essa será uma concepção difícil?
Precisa recordar que eu estou a forma isso, estou a forma o meu corpo espiritual, ou talvez eu me expressasse mais correctamente se dissesse que estou a fundir-me nele. Isso soa como um paradoxo, mas acontece que muito daquilo com que estou a começar a me adaptar, aqui, é paradoxal quando observado à luz do pensamento limitado, da mente humana. Eu ainda tenho uma mente, ainda tenho um corpo, mas ambos estão a modificar-se de uma forma inevitável, e por causa disso eu sinto-me como se estivesse a emergir, como uma lagarta a sair de uma crisálida, para vir a tornar-se numa borboleta. Pouco a pouco vou-me tornando capaz de funcionar mais facilmente, e durante períodos mais intensos, no meu Corpo de luz; e nele posso comungar com Almas mais evoluídas e delas absorver sabedoria.

16 de Abril

Estou a tentar funcionar cada vez mais e mais neste Corpo de Luz. Ainda não posso sustentá-lo durante um tempo muito longo, mas resta-me a alegria e a bem-aventurança da certeza de uma expansão ainda maior, que se encontra ao alcance de todos nós. Este é o único passo na sequência, a evolução da ilusão para o conhecimento consciente do funcionamento do Eu Superior, um emergir numa consciência mais ampla, e uma percepção dos Seres Espirituais e das Forças que têm origem na Mente Todo-Criativa de Deus. Este é um progresso gradual e poderá levar anos (na percepção terrena do tempo) a ser realizado. Sinto como se estivesse de partida num Caminho de Luz que se dirige para cima e para a frente, para Reinos de beleza e de maravilhas que não podem ser imaginadas, e dos quais tenho apenas, por enquanto, o mais tênue vislumbre de compreensão.

A jornada em si é compensação suficiente para todas as provações da existência terrena, para a emoção do julgamento no processo dessas provações e para a minha responsabilidade individual por elas, de cujo julgamento eu estou a emergir. Isso leva-me a recordar uma passagem de Robert Browning:

“Nunca haverá um bem perdido! O que foi viverá como antes… Sobre a Terra os arcos quebrados, no céu a circunferência perfeita. Tudo o que desejamos, esperamos ou sonhamos de bom, existirá; não enquanto aparência mas como realidade; nenhuma beleza, nenhum bem, nenhum poder cuja voz tenha sido ouvida desaparecerá, mas todos sobreviverão para o melodista quando a eternidade declarar solenemente a concepção de uma ocasião. O elevado que provou ser demasiadamente elevado, o heróico que foi demasiadamente fatigante para a terra, a paixão que deixou o solo para se perder no céu, tudo isso é música enviada para Deus pelo amante e pelo bardo. Basta que ele tenha ouvido isso uma vez; dentro em pouco nós ouviremos.

SEGUNDA PARTE

(Helen Greaves)

Entre estas duas séries de escritos, houve um período de quase dezassete meses, durante o qual tive pouca ou nenhuma comunicação com Frances. Na verdade, na minha ideia, estava quase certa de que Frances tinha terminado a sua inspiração para o livro. Senti que ela, de facto, tinha “feito a transição;” que se encontrava fora do alcance da minha mente, e por causa dessa crença nunca pensei em entrar em contacto com ela.

Certa vez, durante uma sessão de Meditação numa Conferência da Associação das Igrejas para Estudos Psíquicos e Espirituais, à qual compareci e que estava a ser dirigida pelo nosso Presidente Coronel Lester, tive uma nítida “visão” de Frances. Esta não era a Frances que eu tinha conhecido, nem era o Espírito que eu tinha “visto,” de forma clarividente, no seu hábito, quando ela esteve presente ao próprio Serviço em sua Memória, em Londres. Este era um ser diferente, um Espírito Impregnado de Luz, radiante e glorioso. Frances encontrava-se parada junto ao altar da capela, onde nos encontrávamos reunidos para esta oração e meditação, e Luz ondulava ao redor dela.

Lembro-me distintamente de que a vestimenta que tinha me impressionou. Era de um delicado azul claro que cintilava e resplandecia. Só posso comparar a sua iridescência à de um vestido coberto com lantejoulas que captavam e reflectiam a luz. O seu rosto era o rosto de uma mulher jovem. A sua beleza era tal que me emocionava.

“Frances encontrou a sua alma,” pensei, ou ouvi interiormente. “Agora ela é ela realmente.”

Por conseguinte, não esperei receber qualquer comunicação proveniente desta culminância alcançada por ela. Sendo assim, fiquei atónita quando, no começo de Setembro de 1967, tornei a ter percepção das vibrações de Frances. Durante alguns dias, no meu Eu interior, tinha conhecimento de que uma Presença estava a meu lado. Isto sempre me é revelado pela silenciosa expectativa com que ponho fim às minhas tarefas domésticas ordinárias, todos os dias. Esta percepção do que se encontra ao meu redor pode ocorrer em qualquer momento do dia. Parece, então, que fico ligada a um outro mundo, uma outra dimensão. Às vezes vem um mensageiro com uma resposta para uma interrogação muda; outras vezes experimento uma enorme sensação de paz e de unidade. Finalmente, porém, tive certeza de que era Frances e que ela desejava escrever de novo. Certa noite, apanhei a minha caneta e o meu livro de notas, preparei-me e fiquei sentada, em repouso, à espera da mensagem.

Nada aconteceu! Decidi que me devia ter enganado.

De novo, porém, aquela sensação de urgência premiu-me. Isto continuou durante alguns dias e por fim telefonei para um membro do nosso próprio Grupo especial de Meditação que Frances e eu tínhamos fundado oito anos antes e ainda mantínhamos. Pedi ajuda.

“Você e os outros membros poderiam entrar em sintonia e perguntar se há alguma comunicação a ser feita, se o meu canal poderia ser purificado e iluminado, de modo que Frances possa alcançar-me?” pedi. Eles prometeram as suas preces e os seus pensamentos.

No fim de semana seguinte, durante o almoço de domingo, quando ouvia a rádio, com todos os meus pensamentos e a minha atenção ocupados com as notícias, levantei-me, fui até à minha escrivaninha, apanhei a caneta e o livro de notas e desliguei o rádio.
“Frances.” O nome dela retiniu na minha mente. Sentei-me e comecei a escrever, com o meu almoço parcialmente comido, na mesa, junto a mim.

Terminei de escrever as palavras que tinham aflorado à minha mente e li-as do princípio ao fim. Elas tinham vindo de Frances – não restava qualquer dúvida. Este foi o primeiro dos textos que se seguem, que foram transmitidos de forma intermitente. Pude constatar que eram diferentes, no conteúdo, das comunicações anteriores. Frances tinha realmente avançado para a frente e para cima. Os seus pensamentos apresentavam uma maior confiança. Ela encontrara o seu verdadeiro lugar; era uma alma renascida. A confirmação de que isto era facto foi-me dada mais tarde, no mesmo mês.

No dia 20 de Setembro tive a felicidade de ter uma sessão privada com uma excelente sensitiva, de muito renome, a senhora Lilian Bailey. Essa sessão tinha sido “reservada” anonimamente, com uma antecipação de quase quatro meses, mas o interessante é ela ter-se concretizado nesta ocasião especial. Depois de encorajadoras mensagens de natureza pessoal, provenientes do meu marido e de outros entes queridos, e de instruções a respeito do livro já publicado, The Dissolving Veil, (O Véu em Dissolução), e outros que aguardavam publicação, perguntei se a minha amiga se encontrava presente. A resposta veio sem demora.

“É uma senhora mas ela ficou afastada enquanto os outros comunicavam,” disse a senhora Bailey. “Espere um instante. Ela encontra-se um pouco atordoada, por estar a reassumir as condições com as quais deixou esta vida. Ela teve uma doença que finalmente se espalhou por todo o seu corpo, e faleceu enquanto estava em coma.”

Ficamos sentadas em silêncio durante alguns momentos, a seguir ao que a sensitiva disse:

“Agora isso já passou e ela encontra-se bem e feliz.” Disse o nome de Frances e ajuntou: “Alguns chamavam-lhe Fanny.” Isto foi verdade, como o leitor poderá ver por si mesmo na breve biografia que eu juntei a este trabalho. Os seus alunos, na África, chamam-lhe Fanny. E sabia e divertia-se com isso, razão porque não me senti surpreendida quando ela acrescentou, por intermédio da sensitiva: “Ainda sou a mesma Fanny!”

Segundo a descrição que a senhora Bailey fez, Frances tinha uns olhos muito lindos, grandes, luminosos e cinzentos. Aqueles que a conheceram bem atestarão que os seus olhos foram lindos.

“Ela está a falar de um livro. Ela acha-se muito presente nesse livro. De facto, ela está a escrevê-lo,” prosseguiu a senhora Bailey, e eu senti-me emocionada diante dessa confirmação.

“A senhora pensa nela com frequência.” Depois ela forneceu outros factos, por meio dos quais Frances pode provar a sua identidade.

Pouco de pois o Guia da senhora Bailey falou solenemente:

“Esta senhora encontrou a sua alma.” Fiquei cheia de alegria. “Você não deve esperar tê-la por aqui. Ela avançou, porém, ainda continuará a emitir para si, de vez em quando. Agora ela alcançou uma velocidade vibratória muito mais rápida do que anteriormente. Por causa da rapidez da sua própria velocidade vibratória, é fácil, para ela, vir até si de vez em quando, mas não sempre. Ela não saiu da sua vida. Encontrou uma vida de tão prodigiosa beleza que a sua capacidade é insuficiente para descrevê-la a si. Ela está a tentar dizer: O que o homem criou nas esferas encontra-se além de qualquer coisa que o homem tenha criado na terra. Agora ela encontra-se na Esfera Criativa.”

Eu iria perceber o quanto isto era verdade nos textos que tornaram a ser transmitidos no mês seguinte, em Outubro, cujo derradeiro fora no aniversário, dia 10 de Dezembro. Eles irradiam um alcance espiritual que para mim representa o próprio Espírito da Esperança, e creio bem, para quantos os lerem.

Aqui estão os últimos textos escritos numa Esfera mais Avançada.


SEGUNDA SÉRIE DE TEXTOS

3 de Setembro de 1967

Frances Banks

Lembro-me da observação que você fez certa vez, de forma solene: “Prefiro conversar a comer.” Naquele dia tínhamos conversado muito. Numa das nossas longas sessões, conforme deve lembrar-se, uma amiga comum estava a discutir a possibilidade de se unir à Associação das Igrejas para Estudos Psíquicos e Espirituais, (a propósito, agora penso que o segundo adjectivo devia ser Místicos) e nós achamos que essa seria uma medida absolutamente correcta, a única que ela poderia tomar para ser orientada no seu trabalho futuro. Na nossa pequena sala de trabalho, nós conversamos, discutimos, formulamos prós e contras e chegamos mesmo a concentrar os nossos pensamentos para ajudá-la a enxergar o caminho certo. Aquele tinha sido um dia de conversa e terminou, lembra-se, com a chegada da informação de que o passo necessário tinha sido dado. Um dia interessante e excitante.

Naquela ocasião não avaliei plenamente o poder e o alcance da comunicação de mente para mente, como posso agora avaliar. E tão pouco a Realidade e o Propósito da Mente-Alma, infiltrando o Seu conhecimento do próximo passo no Plano Divino. Naquele tempo eu via através de um vido turvo, mas agora, por fim, vejo mais claramente, sem o véu da personalidade a amortalhar a verdade que a alma conhece, mas que a entidade nascida na Terra se recusa a aceitar.

Você prefere conversar a comer. Isso ainda me diverte. Talvez seja por isso que quero que saiba que aqui nós conversamos e conversamos, embora não tenhamos necessidade de comer, no mesmo sentido em que alimentamos os nossos corpos na vida terrena. Todavia, a nossa conversa é diferente. Aqui as nossas palestras consistem numa comunicação. A mente dirige-se à mente. Na Terra nós emitimos sons, formulamos palavras com vibrações variadas ou com significados diferentes e empregamos uma ênfase tonal para expressarmos o propósito que temos. Nesta nova vida, a fala enquanto som, é desnecessária. A vibração é tudo. Basta dizer que formulamos e exalamos um pensamento forte, para que este se vá comunicar com as outras mentes. Transmitimos e recebemos impressões. Elas carregam a nossa verdadeira intenção, de modo que as palavras enganadoras não podem insinuar outras coisas além daquelas que nós pensamos, conforme é o caso que se dá com muitos dos sons das palavras da personalidade. Que pena, dirá você, que esse não seja o sistema comum na vida terrena, onde conversa frívola pode provocar discórdia e rancor!

Por conseguinte, quando no decorrer das minhas comunicações eu faço uso das palavras “Eu disse” e “Ele disse,” você compreenderá que eu estou simplesmente a repetir um fraseado que me foi habitual na vida da minha personalidade, e que você e aqueles que lerem estes escritos apreciarão por estarem acostumados com ele.

Mas a verdade sincera é que eu agora vivo num estado de comunicações profundas. A minha mente pode penetrar no conteúdo de Mentes mais evoluídas. Posso, embora ainda não de todo, ouvir a sabedoria destilada de fontes avançadas, tanto por meio de perguntas e respostas individuais como por meio da doutrinação de Grupo. Isto porque agora fui transferida do meu fluxo de trabalho na casa, para me tornar membro de um Grupo – por outras palavras: para assumir o meu lugar como recém-chegada, muito humilde e muito ignorante, naquilo que eu gosto de chamar de Grupo de Extensão.

Este é um Grupo que está a trabalhar naquilo que você classificaria como misticismo, e que aqui nós enobrecemos com o título de Realidade. Este é apenas um nome destinado a diferenciá-lo dos inúmeros outros Grupos que se organizam em companhias de trabalho, com motivações diversas: isto é, Grupos dedicados à Ciência e ao Desenvolvimento Científico; Grupos dedicados à Medicina e às Técnicas de Cura para o corpo humano; Grupos que estudam a elaboração de um método que visa um alcance mais amplo da mente humana; Grupos voltados para os padrões da evolução mundial, para o estudo do Plano Criativo, para os reinos animal e mineral; além de Grupos mais avançados, que se dedicam à reconciliação da história conhecida da raça humana (Registos Akáshicos) com as tendências presentes e futuras, e à possível elaboração de Planos destinados ao avanço da evolução do homem animal para o homem espiritual.

Naturalmente, existem estados de existência e de percepção, e grupos de entidades avançadas que se encontram muito distantes da minha compreensão, porquanto “Na Casa do Meu Pai Há Muitas Moradas!”

Para alguém, que, na Terra, tantas vezes lutou e não conseguiu contemplar claramente a Luz, basta ter encontrado um nicho onde Aqueles que Contemplaram, e estão sempre a Contemplar, podem transmitir para uma alma que procura, a riqueza e a profundidade da Sua sabedoria.

“Você prefere conversar a comer!”

Agora no novo estado em que me encontro, para mim conversar é alimento. A Comunicação com o Grupo e com as grandes almas que estão no seu Centro é a minha nutrição, o meu pão, o meu vinho, o meu bordão de vida verdadeira.

11 de Setembro

Expansão. Agora, nesta fase da minha existência como alma, esta é a palavra-chave. Nós ainda habitamos num universo em expansão, e eu enfatizo a palavra ainda, porque sempre habitamos este mundo, e a morte do envoltório físico serve apenas para clarear a nossa visão. O mundo da matéria física está a expandir-se, está a sofrer uma modificação interminável, embora a maioria das almas, nesse estado de existência física, não consiga estabelecer um vínculo suficientemente forte com a personalidade efémera, de modo a poder perceber essa expansão. Até mesmo quando a personalidade – que, em oposição a algumas crenças, sobrevive à morte de uma forma mais atenuada – é libertada na expansão consciente, ainda assim ela existe. Numa entidade que ficou profundamente mergulhada na ilusão da existência material, ou que nunca desenvolveu o corpo mental do pensamento e nem fez qualquer contacto com a alma, este novo estado de existência pode ser de extrema dificuldade e confusão. Isto explica a existência de diferentes Planos de expansão aqui, conforme tentei demonstrar nas minhas comunicações anteriores, transmitidas da casa. A terra das Sombras existe para aqueles que não podem aceitar a libertação do eu aprisionado, e essas pobres entidades demoram-se por essas sombras, até que elas próprias desejem encontrar outras moradias mais iluminadas.

Nós sempre possuímos um corpo-alma, ou, para o explicar de outro modo, uma alma estende-se para cada um de nós, mas, para milhões daqueles que se encontram na encarnação física, o vínculo com o corpo-alma é tão efémero a ponto de ser praticamente inexistente. Assim, se chegarem aqui depois da mudança física chamada morte, tais entidades veem-se nuas diante dos seus irmãos. Isto não quer dizer sem roupas, no sentido físico, porém, sem as vibrações protectores e criativas da alma É como se lhes faltasse uma pele exterior, e elas também já não se sentem no comando de si mesmas nem da sua situação. Acham-se perdidas e confusas, transformando-se, por conseguinte, em presa fácil para as entidades não desenvolvidas que se emboscam nas trevas.

Às vezes elas ainda se sentem acorrentadas a cenas familiares, da sua vida terrena, às vezes existem num sonho semiconsciente, enquanto Auxiliares e entes queridos esperam o seu retorno à percepção. A duração e a intensidade deste estado deve depender, necessariamente, da realidade que o materialismo tem para elas. Ou seja, o fascínio da vida terrena, a ilusão do estado temporal. Uma mulher ou um homem bondoso, honesto, generoso, que tenha procurado Deus durante a sua vida, mas que não tem conhecimento ou compreensão da sobrevivência, não precisa temer. As suas boas acções já terão atraído aqueles que podem orientá-lo e ajudá-lo a adaptar-se a estas novas condições, e, sob orientação, ele aprenderá a aproximar-se da alma por meio da aspiração.

Isto leva-me àquilo que estou a tentar dar a entender a respeito da Expansão nestes domínios. A alma expande o seu conhecimento e sabedoria, na personalidade sobrevivente. Este processo pode estender-se por longos períodos de tempo terreno… às vezes até mesmo por centenas dos vossos anos terrestres, em conformidade com o progresso ou falta de progresso da entidade. Mas sempre há os Irmãos do Caminho, para dar assistência àqueles que desejam progredir. O desejo tem origem na própria entidade, depois de ter sido feita a reparação dos males cometidos e depois das paixões inferiores, ainda existentes, terem sido lavadas, curadas e libertas. Quando a limpeza parcial tiver sido efectuada, o passo seguinte, rumo à Luz é o Trabalho – e muitas almas queridas passam os seus estágios de transição a trabalhar por aqueles que ainda estão a viver nos infernos da sua própria criação. Tal trabalho, voluntário e compassivo, fortalece o vínculo com o Eu que aguarda. Esse Eu, contudo, sempre está à espera, para expandir-se na entidade.

Tal expansão tem muitas facetas. O trabalho amoroso é apenas uma. A entidade em evolução ainda precisa ser educada naquele conhecimento e sabedoria que a alma possui, e para essa finalidade existem inúmeros Grupos aqui, Grupos que, conforme sou levada a crer, funcionam em todos os Planos. A entidade em evolução é puxada, pela lei da Atracção, para um Grupo que progrediu até aquele estágio que expressará, para ela, a intensidade de percepção que agora ela é capaz de receber.

Aqui tudo é expansão, porém, expansão por estágios. Esta Lei é rigorosa. Nenhuma entidade pode mover-se para a frente, para dentro de um Grupo, até que a sua expansão emocional, mental e espiritual seja comparável, pelo menos, com a fímbria da percepção daquele Grupo. Esta é uma declaração importante. Pense bem nela, desde o princípio até às suas conclusões. Aqui a ilusão, o fascínio e ao auto-engano não têm utilidade. Nós revelamos aquilo que somos. Mesmo nas vestimentas que envergamos, exibimo-nos publicamente. A máscara foi abandonada com o corpo físico. O corpo de Luz em desenvolvimento, com a sua obscuridade ou brilho, torna-se visível, em especial para aqueles membros do Grupo para os quais a qualidade de tal Luz permite gradações.

13 de Outubro

Na última comunicação que lhe dirigi enfatizei este pensamento: “Revelamos aquilo que somos. Exibimo-nos publicamente, mesmo nas vestimentas que envergamos.” Naturalmente, se analisar uma personalidade terrena, a validade da frase também se aplicará nesse nível. As roupas revelam o homem. Quando estamos no corpo, instintivamente formamos uma opinião a respeito das pessoas, quando as conhecemos pela primeira vez, em primeiro lugar pela sua aparência, isto é, pela tonalidade clara ou escura das roupas que veste, pela escolha da cor, pelo estilo, pela sua elegância ou falta de asseio.

Assim como em cima, também em baixo – afirma o preceito. Só que neste nível as roupas e o estilo não são criados por aqueles que comandam a moda. Com os resíduos dos pensamentos, palavras, acções e aspirações que trouxemos para cá, junto connosco, nós criamos aquilo que nos veste, isto é, que nos envolve. Começamos a aprender e a praticar esta Lei de Criação, a partir do momento em que tivemos percepção da nossa sobrevivência noutra dimensão. Às vezes há um espaço considerável entre o momento em que o corpo físico é abandonado e o momento da percepção, estado a duração de tal espaço na dependência, como já dissemos, da familiaridade ou falta de familiaridade que a entidade tenha com a vida depois da transição humana, com a crença ou descrença na consciência subsistente, com a força e a obstinação dos conceitos materialistas e, naturalmente, com os registos da vida que acabou de findar.

Contudo, quando tal percepção fica “estabelecida,” por assim dizer, então surge o entendimento de que criamos as nossas próprias vestimentas. Durante os estágios iniciais desta nova consciência nova e absolutamente excitante, o prazer de criar roupas e cores satisfaz uma necessidade e, com frequência, é muito apreciado. Por outro lado, uma roupa que tenha adquirido significado na terra, será assumida, às vezes para satisfação da alma, às vezes como penitência e às vezes por causa da alegria ou da paz que o seu uso tenha proporcionado à alma. Durante o meu trabalho na casa eu enverguei o hábito da Ordem à qual tinha pertencido quando na terra, e na qual a maioria das minhas companheiras servidoras também tinha professado. O seu uso foi necessário para mim, por várias razões particulares, embora durante algumas fases desta experiência eu me tenha permitido o prazer de criar as cores e os modelos bem relembrados, dos meus últimos anos terrenos.

Finalmente chegou a oportunidade para continuar a marcha para a frente, que eu desejara com tanta ansiedade. Por similaridade de mente e de aspiração, fui “atraída” para um Grupo. Avidamente entrei em comunicação com os seus membros. A alegria que senti foi forte e profunda quando percebi que encontrara realmente o meu Grupo, mesmo reconhecendo que me encontrava apenas na orla exterior das actividades dos seus componentes. E aqui eu gostaria de enfatizar o valor da consciência de Grupo, que nós as duas tínhamos praticado e esforçado por alcançar. O “sulco” que tínhamos “gravado” na nossa consciência, da responsabilidade do Grupo no nível da alma, da unidade no Centro, do desenvolvimento – de Grupo - das qualidades divinas do nosso todo composto, tudo isso foi de inestimável ajuda para a minha entrada na Lei do trabalho em Grupo e para a minha compreensão dessa lei.

Gradualmente, tomei consciência de que os meus companheiros se encontravam “ataviados” com cores, como se elas fossem roupas, e pela sobriedade ou brilho do seu “envoltório” passei a conhecer, não só o seu carácter como também o seu avanço individual nos Domínios Espirituais. Isto, de facto, foi muito revelador, porém, capaz de conduzir à humildade. Vi que agora tinha que abandonar o hábito ao qual me agarrara. Ele cumprira a sua finalidade. Como roupagem, eu devia usar aquilo que sou. O pensamento foi aterrador. Que era eu? Ousaria apresentar-me diante dos meus companheiros de Grupo vestida com o “hábito novo” do meu pensamento? As cores seriam sombrias ou brilhantes? Detida e solenemente, conversei com outros que se encontravam em idêntica situação e meditei seriamente sobre aquilo que desejava ser, a fim de que esse meu desejo pudesse mostrar-se com Luz verdadeira, em torno de mim.

Este é um estágio novo. Ainda sou uma neófita. É o estágio preparatório (a concentração que antecede a meditação, na técnica terrena) da penetração dentro de nós mesmos para descobrirmos aquilo que realmente somos; uma recapitulação absolutamente honesta das nossas faculdades, tanto mentais como de aspiração, e depois a “emissão” numa determinada forma, de qualquer Luz que porventura tenha raiado. “Deixe qua sua luz brilhe,” aqui adopta um significado sólido.

Gradualmente, a roupagem evolui, as cores estabelecem-se e você vê-se ataviada como realmente é. Assumiu a sua luz. Por outras palavras, a personalidade sobrevivente acha-se reunida a uma parte, pelo menos, do corpo Alma verdadeiro. A vida excita-a. A mente cresce em claridade, expansão, criatividade. VOCÊ EXISTE, VOCÊ VIVE. Agora você pode tomar o lugar a que tem direito no Grupo, embora somente no anel exterior. Começou a sua ascensão rumo à consciência. Agora encontra-se vestida com roupagens de Luz, como os seus companheiros. Agora a sua Luz pode misturar-se com o brilho deles e tornar-se uma em intensidade. Pensamento e aspiração transformam-se em júbilo e êxtase. Canais de conhecimento e de sabedoria abrem-se para si e a beleza torna-se numa realidade viva.

Esta é a “brecha de penetração” pela qual eu tanto ansiara quando no corpo físico. Nessa fase ela nunca é manifestada com intensidade. Lampejos de percepção servem apenas para aumentar a fome, da personalidade, pela radiância da alma. Esta lucidez de consciência talvez não seja possível no materialismo da vida terrena. Não posso saber a resposta para essa questão. Tudo o que compreendo agora enfatiza a realidade e a praticabilidade dos ensinamentos de Jesus. O Reino do Céu encontra-se dentro. “Primeiro busque o Reino do Céu, e todas essas coisas ser-lhe-ão acrescentadas.” Assim, naquela ocasião, tudo se encontrava dentro de mim, tudo: mas o véu do fascínio e da ilusão impediu a minha visão, como ainda vela a Realidade para a maioria daqueles que habitam na terra.

Cara amiga, este é apenas o estágio inicial de uma Jornada para a Luz, durante a qual a entidade sobrevivente é gradualmente reunida com a alma integral Passo a passo, rumo a uma Luz cada vez maior, este caminho estende-se à minha frente, mas, sinceramente, alegro-me por isso. “Um passo é bastante para mim…”

14 de Outubro

Distingo, na sua mente, perguntas a respeito do Grupo. Como eu terei sabido que pertencia a este determinado Grupo? Como entrei em contacto com o Grupo? Que credenciais eu possuía, que me habilitaram a ser aceite pelos outros membros?

Compreendo que se tivesse recebido comunicações deste tipo, vindas de outra mente que operasse num estado de consciência diferente, eu também teria desejado conhecer as respostas. Esforçar-me-ei por responder com a maior clareza que me for possível. Em primeiro lugar, tomarei a sua segunda pergunta. Como entrei em contacto com o Grupo? Este não foi um caso de entrar em contacto, como se pela primeira vez, com este Grupo. Parece que estive ligada a ele desde tempos imemoriais. Isto, agora, representa uma reunião. Será um mistério tão grande assim? Toda a alma tem o seu lugar no Divino Esquema da Vida. Toda alma pertence a um grupo e forma uma parte integral de uma Alma-Grupo. Eu faço, você faz. O mais insignificante mendigo das ruas também faz, assim como o maior dos génios. Uma Alma-Grupo é constituída por almas que se encontram em níveis de progresso individuais, cada uma complementando as outras, para formar um Todo. Somos parte de uma Alma-Grupo do mesmo modo que somos parte de uma família, no sentido físico: um relacionamento familiar pode ser temporário, mas o relacionamento da alma é eterno.

A questão das almas gémeas, sobre a qual muitos disparates e especulações são feitos na terra, pode ser explicada pela hipótese de duas almas pertencentes a um mesmo Grupo, reunidas em harmonia por se encontrarem em estágios de progresso idênticos e por terem evoluído juntas, de forma conspícua. Isso lhes dá vibrações similares assim como um “puxão” de atracção correspondente. Contudo, todas as almas que constituem uma Alma-Grupo experimentam esta “aproximação harmónica,” uma a ser atraída para a outra, quer estejam a funcionar em corpos materiais, quer estejam a atravessar os estágios aqui, na Vida do Espírito. As Almas-Grupo presidem aos movimentos universais e às grandes causas, razão porque os membros de uma Família Espiritual frequentemente sejam atraídos um para o outro por interesses mútuos, por uma vida dedicada a um trabalho especial e, também, pelos vínculos eternos.

Eles podem trabalhar juntos, podem de facto, compartilhar as suas vidas numa sociedade, ou podem apenas encontrar-se ocasionalmente, enquanto trabalham em algum determinado projecto. Às vezes, por intervenção daquilo que parece ser um destino perverso, membros do Grupo são separados e nascem em campos aparentemente errados. As suas vidas tornam-se trágicas, amiúde fúteis nos seus repetidos esforços para se juntarem aos seus companheiros iguais e ao seu trabalho legítimo. O estranho é que muito nunca encontram o seu nicho certo. Com frequência vivem e morrem como proscritos. Contudo, como nem todos os membros de um Grupo se encontram encarnados ao mesmo tempo, ou seja, como neste lado sempre existe uma certa integridade do Grupo, os proscritos, depois da sua transição para cá e depois que adquiriram consciência do seu estado e atingiram, pelo menos, um certo grau de Luz, reúnem-se aos seus próprios Grupos.

Agora tenho consciência da sua mente estar a inquirir: “Quantas Almas-Grupo existem?” Não posso responder a essa pergunta. Até onde tenho vislumbrado por aqui e por ali, o seu número deve ser incontável. Também me é dado compreender que em níveis mais elevados de consciência, as Almas-Grupo se unem para formar Unidades ainda maiores. Segundo o meu raciocínio, esta deve ser a Lei do Progresso ininterrupto rumo à Divindade, que é uma Unidade, uma Unificação, um todo completo misterioso e glorioso. Mas é somente assim, de muito longe, que me atrevo a aspirar ao Plano Divino. Aqui e agora tenho o privilégio de poder tocar apenas a fímbria da consciência dos Grupos que estão a trabalhar nesta nível e de poder cooperar com eles.

Portanto, até onde alcança a minha compreensão actual, tenho-me esforçado por dar respostas às suas perguntas. Você avaliará, espero, que não foram necessárias quaisquer credenciais, num sentido literal (excepto a minha própria aspiração e a reparação das oportunidades desperdiçadas, do passado) para ingressar no Grupo. Fui, por assim dizer, assimilada dentro dele, porquanto ele era o meu lugar legítimo.

Como, você pergunta, fui arrastada para uma comunicação com este Grupo?

Está lembrada de que nas primeiras comunicações, transmitidas da Casa de Repouso para a qual fui transferida inicialmente a fim de prestar serviços, contei a história de um certo médico, um cirurgião que se tornara vítima do vício das drogas, enquanto se encontrava no corpo físico? Deve estar recordada que visitei um Grupo na companhia dele e que me comuniquei com várias Almas evoluídas. Durante várias visitas tive encontros e encontrei-me com essas Mentes, que alcançaram elevados padrões de consciência e de sabedoria. Em certas ocasiões, pacientemente, eles me deram explicações acerca do trabalho de Grupo. Uma delas, uma Alma nobre e iluminada, deu-me a seguinte instrução… “Procure o seu próprio lugar. Peça que a Luz possa abrir a sua mente para aquilo que lhe está destinado; que a sua velocidade vibratória possa ser aumentada para corresponder à vibração do seu Grupo; que você possa ter percepção dos membros desse seu Grupo, pois eles estão perto, ao seu lado…”

Meditei longamente sobre essas palavras.

De repente, enquanto observava o eu velho amigo, o Padre Joseph, enquanto atendíamos a um paciente, na Casa, pude ver, não o habitual hábito marrom que eu sempre associara a ele, porém, um envoltório de um azul glorioso, a envolve-lo como uma veste. Foi como se eu olhasse directamente dentro dele. Os eus olhos interiores estavam abertos. O sorriso dele foi gentil, porém, cheio de compreensão, quando disse:
“Bem-vinda ao lar, minha filha.”

As palavras foram suficientes, o contacto estava feito. Eu tivera que esperar pela iluminação, mas ele sempre soubera. Achei difícil deixar a Madre Florence e a Casa onde tinha sido tão feliz. Contudo, a perspectiva de progredir era inspiradora. Além do mais, fiquei confortada ao saber que de vez em quando Madre Florence iria visitar o Grupo para o qual eu estava de partida, pois ela também estava unida a ele – embora, por força, tivesse feito a escolha de continuar com os seus deveres na Casa até que todo o seu “rebanho” tivesse sido recebido, em segurança, neste lado da Vida.

Não a posso esclarecer quando à mecânica da minha mudança para o Grupo, em parte por ainda não ter um conhecimento completo de tudo o que aconteceu comigo e em parte porque não existe nenhum compartimento de pensamento, na sua mente, que possa “receber” tal informação. Posso oferecer isto, para sua compreensão e a dos seus leitores: Enquanto estava a meditar no meu jardim dourado vi-me “transportada” de volta para aquele Templo da instrução onde certa vez, anteriormente, tivera o atrevimento de penetrar. Só que desta vez o Padre Joseph (agora eu o conheço por outro nome) estava comigo. Juntos, reunimo-nos a um punhado de entidades que rodeavam um Mestre. Imediatamente experimentei uma elevação da consciência, uma onda de alegria, uma mistura de unidade e de harmonia que coloriu todo o meu ser. Não posso explicar isto em quaisquer outros termos, embora duvide que eles pudessem ter a mesma conotação para si.

Eu soube que este era o meu Grupo legítimo. Viera reunir-me aos meus. Não houve uma aceitação definida, toda a operação foi discreta e simples: todavia, tive a certeza de que tudo estava em ordem, de que eu estava entre os meus companheiros de Viagem, no Caminho.

“Qual é o nome dado a este Grupo?” emiti, rápida e silenciosamente, para o padre Joseph. Ele sorriu.

“O nome daquilo que você sempre procurou, minha filha – Realidade!”

Então, eu recordei aquilo como sendo a extensão daquela tentativa de alcançar a Verdade Espiritual e a Força Criativa, que, quando na terra, nós tínhamos chamado de misticismo. Aqui estava a primeira fase da procura da União Mística, porém, num nível mais elevado e sem o íncubo da personalidade terrena e a interferência flutuante dos desejos do corpo carnal.

15 de Outubro

Este é o estágio mais satisfatório do meu progresso através da vida, e, acredito, das vidas, e do consequente reexame destas vidas que a minha memória consegue recordar no momento actual. Na minha vida terrena como Frances Banks, como Irmã Frances Mary e de novo como Frances Banks, eu estive sempre preocupada, sempre intrigada, sempre à procura. Nunca tive certeza de ter encontrado, realmente, aquilo por que procurava com tanto ardor. Durante vinte e cinco anos em religião tentei fervorosamente aceitar o conceito de Verdade no qual professara, mas ninguém pode conhecer as negras noites da alma, a solidão, o sentimento de derrota através do qual a frustração me conduziu durante aqueles anos. Sincera e honestamente, embora eu tivesse procurado acreditar na vida da religião, a minha voz interior sempre reclamava pela expansão do conhecimento e da experiência. Amei o meu trabalho de ensinar.

Acredito que as minhas qualidades como professora poderiam ser avaliadas como boas. Amei o conhecimento pelo amor de conhecer e, sem dúvida, levei uma vida útil no lugar para o qual tinha sido designada. Todavia, o Espírito sempre me instigou: “Procura e encontrarás.”

Quando, porém, o caminho se abriu para mim e tive permissão para deixar a Ordem, depois que os meus votos foram anulados, descobri – como todos nós temos que descobrir – que os caminhos abertos e ensolarados, ao longo dos quais parecemos ser compelidos a nos aventurarmos, contêm pântanos de desespero e atoleiros de dúvida, assim com paisagens de promessas. Então, por fim, senti que estava a mover-me, que não me encontrava estagnada, como a Vida parecera ter-se tornado, na Ordem.

Mas movendo-me para onde? Com frequência, extenuei-me com conjecturas. Supliquei e orei por Luz, mas a consumação da sua glória sempre se esquivou de mim. Nos meus últimos anos, na meditação, encontrei uma percepção silenciosa; uma nova focalização do eu com Eu e uma confiança resultante, que me levou a falar aos outros sobre esta pesquisa. Nos poucos Retiros que dirigi para a Associação de Igrejas, o exercício, a disciplina da preocupação e as muitas horas gastas com isso trouxeram-me um lucro espiritual genuíno. Se fui bastante virtuosa por ter podido compartilhar, ainda que mesmo apenas uns poucos vislumbres da percepção que obtivera nessas tentativas cegas, mentais e espirituais, então uma estrela de esperança brilhou no meu próprio caminho.

Agora que deixei para trás os negros véus que cegam a percepção espiritual durante a nossa peregrinação terrena, descubro que ainda estou a repetir o padrão, só que de um outro ângulo. Já não tenho dúvidas, como certa vez tive. Agora eu sei. Todavia, devo admitir com toda a honestidade que a Realidade às vezes parece ser maravilhosa demais, até mesmo para a minha consciência que cresce e se expande. Estarei a sonhar – pergunto a mim mesma – e uma manhã acordarei?

Você poderá ficar surpreendida ao saber que esta reacção é comum entre os peregrinos que tenho encontrado. A mente, você vê, está apenas a abrir-se lentamente, muito devagar, para o seu vasto potencial. Os véus da matéria que agora, para nós, são representados por uma perda na frequência de vibração, foram dissolvidos tão recentemente que nós podemos avançar, e avançamos, somente para cada estágio sucessivo, conforme a compreensão vai se tornando mais profunda e a percepção consciente se amplia. Para colocar esta ideia numa linguagem e numa metáfora terrena, é como se cada Cinderela se tivesse transformado, inexplicavelmente, numa princesa.

Você desejará saber mais a respeito das minhas ocupações e da organização da minha existência, e farei o possível para explicar, com simplicidade, para que você e os leitores possam compreender, pelo menos em parte, algumas das satisfações espirituais que se acham muito integradas na nossa jornada para a frente.

Tenho um novo lar. Partilho, com outros do Grupo, uma propriedade muito linda. Este lugar possui amplos relvados em declive, árvores e flores da mais primorosa beleza e avenidas de Luz. Não tenho outras palavras para o descrever, para descrever a meditação e a contemplação. Como aqui estamos mais próximos, em vibração, dos Mundos Espirituais, a música das Esferas a ecoar ao longo destas avenidas torna-se numa glória que arrebata os nossos pensamentos e aspirações para a contemplação dos Mistérios da Divindade e da Vida Eterna.

Naturalmente, estamos livres para seguir os nossos próprios objectivos. Não há regras no colégio nem comparecimentos obrigatórios, mas eu, pelo menos, encontro-me nos Salões de Aprendizagem quase continuamente. Você pode reparar que, mais uma vez, eu repito o padrão, aquele desejo ávido de conhecimento espiritual, que agora eu percebo que caracterizou todas as minhas excursões nas diferentes experiências na terra e que agora compreendo, embora vagamente, como tendo sido o foco daquelas personalidades com as quais voltei para a encarnação. Esta avidez poderá não ser uma qualidade!

Posso viajar na mente, e faço-o com frequência. Visitei países do mundo, que não conhecia. Tenho visto muita coisa e aprendido muito. Volto, frequentemente, aos cenários familiares. Compareci a algumas Assembleias, fui a Grupos de Meditação, e algumas vezes entrei em contacto com amigos e companheiros que amei, na terra. Não acho que seja coisa fácil “falar através” de um médium. Conforme você avalia, tenho certeza de não haver necessidade disso. Neste nível de pensamento a telepatia desenvolveu-se para um potencial muito maior do que aquele que foi praticado na terra. Por meio da transferência do pensamento procuro alcançar as mentes de velhos e caros amigos, ainda na existência física. Às vezes sinto-me feliz por pensar que os meus esforços produzem uma certa impressão. Outras vezes, o véu da ilusão (mesmo naqueles que já deveriam compreender melhor) interfere com a recepção e o contacto é imperfeito, ou e até mesmo repelido. Mas isso continuará a ser assim enquanto aqueles que se encontram na terra ainda se agarrarem à teoria da separatividade.

Aquilo que estou aqui a aprender, neste estado de consciência mais amplo, é uma jubilosa concepção do imenso milagre da unidade da Mente Criativa, na qual todos, todo o átomo, todo o fragmento de alma, toda a Alma-Grupo, todo pensamento criativo é Um.

10 de Dezembro

Este será o último texto destinado a este livro. Se existe uma mensagem nestes escritos, ela é a simples afirmação de que tudo é Unidade e de que a unidade é Luz.

Esta declaração poderá ser interpretada simbolicamente, pelos meus leitores, como sendo referente à Luz da Sabedoria, do Conhecimento, da Compreensão da Unidade da Vida que existe em todas as coisas. Contudo, um ponto difícil que eu poderia esclarecer é que, nesta nova fase da nossa existência neste plano, a referência à Luz deve ser interpretada literalmente. Estamos a progredir para a Luz, e ainda para mais Luz. Agora, para nós, as referências ao “Trono de Ouro de Deus,” que fazem parte da nossa instrução religiosa na terra, revelam verdades ocultas, bem definidas. O Máximo de tal Luz está além da nossa compreensão que ainda é limitada, ou até mesmo além das nossas aspirações mais elevadas.

Aqui a Luz é, literalmente, a substância e a matéria da nossa vida-pensamento. Por isso mesmo, conforme os nossos pensamentos entram em sintonia com a vibração da Divindade Criativa, assim também a substância dos nossos corpos se modifica, tornando-se menos densa e reflectindo mais Luz

Nós carregamos a nossa própria Luz. Por conseguinte, quanto maior for o altruísmo e a iluminação das nossas mentes, e quanto mais positiva for a nossa reacção à frequência de vibração mais elevada, mais pura e mais brilhante é a Luz que transmitimos

Falamos da Alma-Grupo

Portanto, conforme começo agora a compreender, quanto mais pura e forte é a Luz de cada unidade-alma do Grupo, maior é o avanço do Grupo-Alma em Si, rumo à suprema bem-aventurança da União, ruma àquela Luz inefável que será, sempre, o mistério e o milagre da Divindade.

Todavia, cada unidade precisa ser testada, ou seja, a sua Luz deve ser submetida à prova dos véus de densidade em outras esferas de acção. Tantas unidades voltam e tornam a voltar para a inconsciência da matéria densa, afirmando corajosamente a realidade eterna da sua iluminação. Com tanta frequência, tais unidades, vestidas nas suas personalidades transitórias, transformam-se em vassalos de conceitos materialistas. Alguns são abençoados nas suas jornadas, por clarões de penetração na Luz; e, me casos raros, a Luz conseguida nestes mundos espirituais mantém-se firme, brilhando através das máscaras carnais, para abençoar e encorajar os seus companheiros viajantes que se encontram nas trevas de uma suposta separatividade. A Luz brilha através dos olhos destes egos avançados e é reflectida nos campos magnéticos que circundam os seus corpos densos.

A minha maior mágoa, agora, talvez seja a compreensão de que enquanto estava à procura e a pesquisar, mental, física e ocultamente, para descobrir aquela “brecha” para o espírito, pela qual tanto ansiei, a Luz da Unidade com todas as coisas, com todas as criaturas, com todos os Seres, todas as Hostes e todos os Poderes, habitava dentro de mim, em glória inefável.

“Eu sou a Luz do Mundo” significa exactamente isso.

Jesus, o Mestre, durante a Sua permanência na densidade da matéria bruta, reflectiu aquela Luz ura e irrestrita. A Luz habita em todos nós como um fulgor luminoso, a Luz da Unidade com todo o Espírito, a bem-aventurada percepção e reconhecimento da Unidade com toda a criação, desde a Ordem mais inferior atá á mais Alta, até mesmo o Trono da graça em Si.

“Deixe a sua Luz brilhar diante dos homens…” é essencialmente um facto aqui, onde cada um é revelado pela sua Luz.

Então, que isto possa ser verdadeiro para aqueles que lerem estas palavras na terra! Que a Luz da Percepção da Unidade Divina possa brilhar através dos véus ilusórios e temporais das personalidades assumidas, para que, na preparação para esta nova experiência, elas possam, de facto, ser conhecidas pela sua Luz!

Deus abençoe todos vós.

Dezembro de 1967 (Sussex)

Frances Banks
In “Testemunho de Luz,” de Helen Greaves


ÁGUA DE VIDA

Frances Banks

"Eu sempre fui uma buscadora da verdade. Toda a minha vida material foi passada a servir o Espírito Santo, e (conforme se me apresentou à visão limitada que possuía) e sempre cuidei dos assuntos do meu Pai. Entrei na vida da comunidade para me dedicar a esse Serviço, e por vinte e cinco anos creio que, dentro do poder que me foi dado, cumpri com os verdadeiros votos religiosos, amei os meus companheiros, e ensinei a fé àqueles que vieram colhê-la.

Abandonei a comunidade por acreditar sinceramente que toda a verdade não tinha sido assimilada na sua religião. No meu entendimento pareceu-me que existia uma certa ignorância quanto à consciência de outros estados de consciência, que a mente superior do homem podia alcançar. "Graça" era tudo de quanto necessitava, fui informada, para o meu trabalho e para a minha vida comunal; e até essa altura isso era verdade. Mas, passado um tempo, a ideia chegou-me a ser representada como um olhar por cima do muro para um jardim glorioso de flores, arbustos e árvores, de modo que ansiava por me passear por entre tal beleza e por arrancar as flores. A Graça veio, é verdade, como que pela inalação do perfume dessa visão espiritual, destilado da presença do Espírito Santo.

Só que a minha alma ansiava por uma maior participação na sementeira, trato e colheita da beleza de tal elevada extensão  de consciência que, conforme senti, a mente superior do homem conseguia atingir. Assim teve início o meu interesse pelo "sobrenatural" conforme era na altura chamado. Estava firme na percepção de que a vida persistia numa outra forma após a morte do invólucro físico da alma, o corpo. Também condescendi com a doutrina defendida desde tempos antigos, respeitante à progressão que a alma sofre através das diversas experiências e lições enfrentadas durante repetidas encarnações ou incursões na matéria. Esses princípios da crença não chocavam com a ortodoxia que eu professava; e tão pouco eram estranhos ou novos para a minha mente quando comecei a ler e a estudar aprofundadamente o assunto. Regressaram como factos conhecidos destinados a suscitar uma maior iluminação. Descobri um maior vigor através da meditação e do silêncio, uma maior fé racional do que alguma vez me tinha sido concedida à alma com a enunciação de tais orações embora lindamente formuladas.

Estava a fazer a minha própria "jornada rumo ao interior," tal como Santa Tereza de Ávila tinha advogado séculos antes. Sentia-me ansiosa por comunicação com amigas que tinham passado para a vida maior, embora as minhas próprias faculdades não se achassem tão desenvolvidas quanto as da Santa. Quando a minha querida Madre Florence comunicou comigo exactamente como o ser querido que eu tinha conhecido e reverenciado na Comunidade, senti-me radiante e agradecida. A luz raiou para mim.

A partir daí, dei palestras e escrevi com respeito ao psiquismo, ao misticismo e à espiritualidade, discernindo nessas faculdades mais elevadas do homem a realidade da doutrina do corpo, mente e espírito da Igreja. Numa quase ofegante alegria sem fôlego diante dessa expansão de consciência, ansiei e planeei mesmo formar uma Comunidade onde tais faculdades pudessem ser examinadas e experimentadas, onde a ordem de Cristo de "curar os enfermos" pudesse ser realizada, e onde um experimento moderno do verdadeiro viver no Espírito pudesse ser conduzido.

Com o temperamento ardente que possuía cheguei mesmo a aspirar a uma Universidade do Espírito onde esses níveis avançados de consciência pudessem ser experimentados, praticados -- e mesmo alcançados -- por meio do pensamento correcto, da aspiração correcta e de uma viver verdadeiramente espiritual. Para minha tristeza, essa terra prometida nunca me chegou a ser revelada, por a doença e a morte importunamente me terem interrompido a vida na Terra.

Será de admirar que, quando despertei neste mundo de luz (um refúgio espiritual livre da doença do corpo, liberta dos padrões mentais parcialmente restritos) que o primeiro desejo que tenha tido tivesse sido o de remeter de volta prova de tudo quanto me tinha estimulado na busca que empreendera da verdade? Porquanto agora eu sabia!

Ansiei por a proclamar dos telhados, nas ruas, e dos púlpitos das igrejas ortodoxas. Ansiei por ajudar o ignorante, o transviado, o medroso, guiar as almas, destravar as portas barradas do preconceito. Daí a comunicação que estabeleci através da minha amiga, a autora deste tratado; e daí o livro resultante conhecido por Testemunho de Luz.

Mas eu fui sempre demasiado impaciente e procurava demasiado longe. Chegara mesmo a prever flores antes que as sementes largassem a sua casca. Agora, dotada de uma maior compreensão e de uma profunda humildade, e talvez da verdadeira percepção da limitação da mente material, e com conhecimento das eras de ignorância presentes no planeta Terra, e do fracasso da humanidade em compreender o sentido daquilo que o Mestre dos mestres ensinara, faço uma pausa na eternidade, e cultivo a lição da paciência.

A mente humana não mudará da noite para o dia. A crença dogmática não renderá o seu fanatismo nem mesmo diante da verdade. O homem que viveu essa verdade e que expôs a fé foi crucificado; aqueles que o seguiam foram torturados e eliminados. Na era moderna os fiéis, os aspirantes, os que buscam são condenados pelo fraco elogio, ou punidos como tolos ou embustes; a velha ordem da fé cega persiste, e o ignorante e crédulo seguem autoproclamados salvadores e sensacionalistas...

Contudo, a semente foi lançada. Na plenitude do tempo terrestre germinará, e esse jardim resplandecente do Espírito, que certa vez eu busquei, tornar-se-á no Éden de uma humanidade em progresso."

Helen Greaves:

A esta altura, incluirei uma passagem proveniente da minha amiga, Frances Banks. Destilou-se-me na mente certa noite na primavera do ano passado, quando já me sentia desconcertada com relação à difícil tarefa de escrever este livro, e realizando o tema das Águas Vivas." Redigi-a à medida que as palavras brotavam na minha mente; descrições tocantes de um conhecimento mais vasto e da Luz maior que Frances tinha atingido. Espero que o leitor veja, conforme eu vi, a suave transformação voltada para dentro, de uma mente erudita, rumo à Mente Espiritual. Revela o mesmo respeito inteligente com que Frances estudou os assuntos na Terra, contudo, dotada de uma compaixão e concordância que soam como Verdade.

Frances Banks:

"A pluralidade de vida, repetição da experiência, avanço do conhecimento na alma humana por meio da provação e do erro, é revelada neste plano, onde a verdade não mais é dissimulada ou distorcida, para quantos se achem suficientemente avançados para aceitarem como facto da evolução uma base íntegra do desenvolvimento da mente em união com a Mente, como uma escola mesmo para a personalidade temporária. O plano do Espírito Criativo opera de acordo com a Lei eterna sementeira, desabrochar e frutificação. A alma jovem já contém a semente da imortalidade incorporada nela. Por meio de sucessivas existências nos planos da matéria, ela prende lenta e dolorosamente a trepar de volta, por assim dizer, até à sua verdade prístina original, só que agora dotada de um conhecimento, experiência, e uma compreensão adicional, robustecida pelas adversidades, amadurecidas pela compaixão e livre das ilusões do fascínio da vida-própria, e por fim chega ao estágio do brotar e do desabrochar.

Um dos maiores enganos e ilusões da vida terrena, tem sido, e ainda é para a maioria do género humano, uma firme crença de que o seu planeta particular constitua o único lar para a existência humana. Foi realçada, no mundo da Terra, a crença numa única experiência da alma que, segundo erroneamente declarada, era suficiente quer para atingirmos a Eternidade paradisíaca, ou o inferno para os chamados pecadores, ou até mesmo uma jornada expiatória para os não tão caídos malfeitores.

Muitas das almas que chegam a estes planos astrais após a morte física, ainda se agarram a este princípio e continuam a crer nele, até que pelo Amor, pelo exemplo, pelo crescimento da alma, comecem a perceber algo da esplêndida Lei da Vida. Contudo, não há qualquer urgência, nenhuma pressão é exercida quanto às teologias que envolve. Estas mudam lentamente, de forma imperceptível, e por vezes resultam num maior desejo de experiência, numa outra oportunidade. Assim, com uma pequena medida de uma verdade mais vasta, muitas almas dessas apressam-se de volta para a encarnação, insuficientemente preparadas, possivelmente para tratarem de algo relativo ao seu padrão anterior uma vez mais. Contudo, quando atravessam as "Águas de Lethe" (esquecimento imposto pela nascença), a sua nova consciência quase é deixada quase em branco, e nas suas vidas terrenas seguintes escassamente recordará alguma coisa das provações anteriores. Mas de vez em quando a alma, mais as suas recordações encobertas, incita-as a tomar decisões correctas na sua jornada eterna rumo à verdade.

Para outros, dotados de um maior avanço quanto à realidade do espírito e da matéria, é o progresso para Esferas mais Elevadas. Aí juntam-se a almas afins; aí aprendem (conforme eu creio estar a aprender) acerca das Leis imutáveis do grandioso experimento da evolução humana. Aí, eruditos, santos e sábios discursam acerca da realidade, e da interminável jornada rumo à perfeição, acerca da transcendente e contínuo propósito de toda a vida, de toda a consciência, quer seja na pedra, na planta, no animal ou no homem. Conforme enfatizei anteriormente, o tempo aqui é factor desconhecido, e Inteligências grandiosas conseguem olhar para trás para os registos de civilizações passadas; antigos fracassos e sucessos e apontar os passos ascendentes que elas deram - e da sua derradeira transferência para uma bem-sucedida mortalidade. Porquanto nada termina -- nada que tenha sido criado chega verdadeiramente a morrer. Tudo experimenta as mudanças drásticas dos actores Shakespearianos.

Conforme aqui somos ensinados a entender, (e conforme Jesus enfatizou) existem muitas moradas na Casa do Pai (Espírito Criativo). Alojamento há para todos, e somente a aspiração e a vontade determinam a permanência ou o afastamento para uma maior experiência material. Há grandiosas almas aqui que foram habitantes experientes do plano terreno muito antes do alvorecer da história! Elas não têm necessidade de experiência humana por terem passado nos testes exigidos, porém estendem o conhecimento que têm, a sua gnose, a quantos anseiam por uma grande erudição espiritual; e eles mantêm contacto com aqueles da nova ordem caso elegessem entrar de novo na vida humana. A sabedoria pode ser retransmitida por esses Grandiosos em benefício daquelas almas jovens que ainda se debatem com os véus da fascinação da Terra.

Todavia, mesmo eles no seu avanço ainda não representam o Homem Perfeito do Plano Divino! Não mais se lhes apresentará a necessidade de encarnarem na matéria, no entanto progredirão para um Plano ou Mansão mais avançada, de que nós evidentemente não podemos ter impressões possíveis. Rumo a Deus, rumo a esse Centro eterno e imutável nos estamos todos a mover no nosso próprio ritmo; ainda assim isso permanece de tal modo incognoscível para as almas deste Plano, quanto o nosso Plano do Pensamento aqui permanece para quantos se encontram na Terra antes da sua morte e transferência.

A morte, conforme eu anteriormente afirmei, é uma questão de processamento de um nível de consciência para outro. Portanto, a Segunda Morte que precisa ser experimentada por essas grandes Inteligências, grandiosas Almas transferi-las-á para a fase seguinte do plano magnífico e grandioso. O que essa experiência subentende e como é realizada, eu e os meus companheiros de jornada não poderemos saber. Mas aquilo que aprendi é que “conforme em cima, também em baixo,” renascimento em estados mais etéreos, mais místicos, mais elevados aqui na Lei, conforme na terra. Por tudo ser progresso. Tudo é avanço rumo ao apogeu da Mente; rumo àquele estado que os poetas vagamente percebem; e por que as gentes da terra se esforçam por visualizar ao “lançarem as suas coroas de ouro diante do Trono de Deus.” Isto, creiam-me, não constitui uma falácia total – a glória desse Centro de Vida constitui uma realidade, para a qual todos prosseguem, todos caminham, e para que todas as almas estão a ser refinadas, purificadas, erguidas e preparadas.

Do Livro intitulado: “Living Waters,” de Helen Greaves
Tradução: Amadeu António


O DESAFIO DA LUZ

A frase: “Nada consegue deter uma ideia quando o seu tempo amadurece,” carrega a marca da verdade. Por a vida ter um jeito de adiar o significado de uma ideia criativa até à altura do seu cumprimento.

Assim, quando Frances Banks e eu nos conhecemos e nos tornamos amigas, jamais a ideia de que viríamos a trabalhar juntas na redacção de livros me passou pela cabeça; e quanto à probabilidade (ou mesmo a possibilidade) de uma parceria que abrangesse dois mundos, isso estava para além da imaginação.
Contudo, aconteceu!

Frances Banks era uma obreira! Ela possuía uma mente intelectual e era inteligente. Durante vinte e oito anos, ela foi monja confessa numa Ordem Anglicana na África do Sul. Sempre foi ansiosa por aprender mais e mais, e por transmitir muito do que tinha experimentado a outros. Quando percebeu que reunia condições para a posição honrosa de Madre Superior do convento ela pediu para ser liberta dos votos que tinha feito. Frances sentiu que tinha muito a aprender com o mundo, com outras doutrinas acerca do sentido do Cristianismo; também tinha em mente a forte convicção de que tinha muito a dar da sua própria experiência de vida religiosa. Uma vez a partida da vida do Convento aceite, embora com pesar por parte de muitos, ela voltou para Inglaterra.

Por essa altura ela tinha-se tornado interessada na possibilidade de comunicação com almas livres num mundo mais vasto pela morte do corpo. Ela ingressou a recém-formada Associação das Igrejas para os Estudos Psíquicos e Espirituais, e em breve foi eleita para o seu conselho.

Foi nesse período da sua vida que nos encontramos numa conferência religiosa. Eu fiquei imediatamente impressionada, como muitas outras pessoas, pela figura elevada e recta, a face de forte cunho espiritual e os grandes olhos de um cinzento brilhante que pareciam mirar a nossa própria alma. Ela começou a fazer-me visitas; e mais tarde veio morar no apartamento por cima do meu em Addington Park.

Olhando de volta para os meus primeiros anos com a Frances em Addington, consigo ver o justo momento em que a “ideia” pela primeira vez se enraizou na mente da minha amiga. Ela tinha dado início a um grupo de sete amigos destinado à meditação, ao debate e ao ensino. Era composto por dois homens e por cinco mulheres inclusive eu própria. O grupo reunia-se na minha sala de estar, e os outros vinham de Londres.

Eu dei graças pela ajuda, pela alegria e pelos ensinamentos desse grupo. Ele continuou em força durante dezoito anos, jamais falhando um encontro, e cresceu até atingir um número mais vasto de membros.

A Frances e eu eramos as líderes, e ela sentia-se entusiasmada e animada à medida que ele progredia. Um dia, após nos termos encontrado há alguns meses, ela desceu até ao meu apartamento com um maço de papéis dactilografados.
“Devíamos escrever sobre este grupo,” explicou ela.” É tão interessante. Já redigi os três primeiros capítulos. Podia escrever os três seguintes!”
Eu contemplei-a subitamente alarmada. “Partilhar a escrita de um livro?” Explodi. “Consigo?”
“E porque não,” retorquiu ela.
“Por a Frances ser intelectual! E eu não sou!”
“Mas você tem o dom,” explicou ela, “o dom da intuição. O dom da percepção, do saber!”
Eu hesitei.
“Você é a sensitiva, a vidente, Helen. Eu sou a intelectual – certo. Não faremos a parceria perfeita?”
Eu assenti com a cabeça. “Ainda não creio que possa trabalhar consigo, Frances. Nós somos tão diferentes…”
Ela sorriu: “Seremos?” E de seguida voltou-se para ir, “Bom, deixo os capítulos consigo.”
Bastará dizer que a redacção foi guardada na minha secretária, e que eu jamais lhe acrescentei uma letra sequer. Tão pouco ela voltou a abordar o assunto de novo. Mas eu ainda recebo essas tentativas iniciais da parte dela para satisfazer o que se tornara no nosso destino. Três anos mais tarde, Frances passou deste mundo, e ainda tinha consciência da parte que viria a representar na minha vida, embora decerto eu não. Terá a Ideia sido concebida pela Mente Superior naquele mesmo instante em que eu rejeitara os capítulos? E precisaria esperar pelo seu tempo, atingir a maturação, até alcançar um propósito que viesse a conceber e a inspirar o livro Testemunho de luz que viria a encontrar uma ampla aprovação por parte dos milhares de leitores? E teria então a Ideia atingido a sua maturação? Creio firme e sinceramente que tal fosse a verdade
Daí este livro, inspirado e escrito por nós as duas, uma neste mundo da matéria inerte, e a outra na gloriosa liberdade dedicada à expansão da beleza da alma numa outra Vida. A Ideia deu um passo adiante rumo à concretização. Conforme agora a vejo, esta Ideia do Desafio da Luz nas vidas que levamos aqui na Terra e a realidade da vida no Espírito após a morte do corpo, trarão uma revolução a toda a ética da religião Cristã. O medo da morte, implícito em tantas vidas, não mais ampliará o poder e a ameaça da arma, da espada, da faca ou da finalidade das armas de destruição nuclear.

Impossibilitada de finalizar o seu trabalho devido a uma morte prematura motivada pelo cancro, ao se encontrar em posição de ver, no outro mundo, com horror a infelicidade do nosso, a minha amiga Frances, regressou a fim de me inspirar, mesmo na minha aposentação, a escrita deste livro com ela.
Possam os nossos esforços tocar toda a gente no mundo, seja qual for a fé ou crenças que tenha, e conduzir-nos sem guerra e com segurança ao próximo século.

Quando pela primeira vez conheci Frances Banks, fomos apresentadas, e cumprimentamo-nos com um aperto de mão.
“Ah, eu conheço-a,” observou Frances.
Eu acenei com a cabeça. “Não creio que conheça!” Disse.
“Ah, sim. Eu sempre reconhecerei esses olhos.” A seguir sorriu. “Já trabalhamos juntas antes – e voltaremos a trabalhar de novo!”
Eu não respondi, por já ter ouvido essa declaração antes, da parte de outros. Contudo, viria a ser assim, por nos termos tornado boas amigas. Mais tarde, após a sua boa Madre Florence lhe ter falado de forma convincente por intermédio de mim, a Frances nunca mais me largou. Chamava-me o seu telefone celestial.

Mais tarde, quando o andar que ela partilhava com a irmã mesmo à saída de Londres foi vendido, ela veio viver para Addington Park. Era interessante ver o quanto ela era amada e admirada por toda a gente, por ela possuir muito pouco dinheiro e não ter qualquer mobília para poder montar um lar. Mas logo vieram donativos e enviaram uma cama e um colchão, cobertores e lençóis, e uns amigos doaram mobília e dinheiro suficiente foi recolhido para acrescentar uma poltrona, uma mesa e outros artigos de necessidade.

Francês nunca chegou a ter muito dinheiro até cerca de três anos mais tarde, por altura da morte de um irmão que lhe deixou um pequeno legado, no entanto sempre parecia ter o suficiente para viver de forma bem simples. Fez palestras para a Associação das Igrejas para Estudos Psíquicos e Espirituais, mas quando lhe perguntei qual eram os honorários que cobrava, ela sorriu. “Ah, eu nunca cobro comissão – isto faz parte do meu serviço terreno,” retorquiu ela. “Apenas peço a minha passagem.” Foi algo que passei a conhecer e que jamais esqueci, porque quando mais tarde também eu tive que enfrentar palcos para falar do meu trabalho e dos meus livros, senti-me na obrigação a seguir o código de conduta da Frances.

Ela foi uma mulher, acho que possa agora dizer, que mergulhava directo em todo estratagema, todo trabalho que sentisse poder empreender. Nunca hesitava. Criava oportunidades e satisfazia-as. Ela foi uma líder e uma mulher cuja vida foi inteiramente dedicada ao trabalho e ao serviço. Isso é enfatizado pelos seus vinte e oito anos de obediência aos votos que ela fez e pelo trabalho extraordinário que empreendeu na África do Sul. Ela escreveu livros de cariz espiritual para os catraios, lecionou currículos na Faculdade para Professores contígua ao Convento enquanto ao mesmo tempo estudava para obter um mestrado, que chegou a conseguir, e chegou mesmo a partir em missões por entre as raças nativas das regiões mais selvagens dessa nação. Isso, sem esquecer os exercícios e orações estritas da comunidade! Mais tarde tornou-se directora principal da Faculdade para Professores, e chegou mesmo a preparar os concertos dos alunos, e as fardas dos desfiles.

Quando Frances visse algum serviço que pudesse ser desempenhado, ela fazia-o. Assim, que não me tenha surpreendido com o seu “regresso” do outro mundo, e a ênfase com que me instou a escrever com o seu auxílio, o Testemunho de Luz, que percorreu o mundo todo, e ainda constitui um best-seller no seu campo dezassete anos após a publicação. Deveria eu alimentar alguma dúvida de que no seu amplo conhecimento desejaria colaborar numa sequela desse mesmo livro?

Das palavras iniciais que me lançou, que proferiu no nosso primeiro encontro, posso agora ver em retrospectiva a dedicação e o desejo de esclarecer os outros quanto às necessidades espirituais que ela nutria, e posso constatar a compreensão implícita que tinha das necessidades espirituais da humanidade.
Recebi centenas de cartas de muitos países, da parte de leitores que me agradeciam pelo auxílio recebido com o Testemunho de Luz quando se encontraram em apuros, em agonia, u experimentavam uma enorme tristeza em face da perda de entres queridos.
Será de surpreender que eu agora compreenda e aceite as palavras iniciais que ela me lançou? “Nós trabalhamos juntas antes mas iremos trabalhar juntas de novo.”

A história de Frances recorda-me um incidente que se deu logo após a ter conhecido em 1955. Conforme declarado no livro que ela publicou, Ensinem-nos a Viver, ela passara alguns anos como Tutora Organizativa na Prisão de Maidstone, onde foi bem-sucedida junto mesmo dos mais difíceis dos prisioneiros, ao ajudá-los a descobrir talentos latentes. Ela mostrou-me esboços notáveis e aguarelas pintadas pelos prisioneiros, assim como diversos artigos concebidos e executados por eles.

Porém, havia um prisioneiro, um padre destituído, que se mostrara completamente intransigente e se recusava a dar ouvidos. Um dia ele discutiu com ela – contra tudo quanto pudesse ser concebido como bom e bonito, progressivo ou espiritual. Foi a última vez que ela o viu. Ele desapareceu das aulas dela; mais tarde viria a saber que ele cometera suicídio.
Alguns anos mais tarde, quando se demitiu do serviço da prisão, estávamos ambas a tomar chá no meu apartamento. Progressivamente, á medida que conversávamos, tomei consciência da presença de um homem do outro plano de existência. Ele forneceu-me o nome, e logo me chegaram à mente as palavras: “Diga-lhe que aquilo que ela me disse no nosso último encontro é absolutamente verdade!”

Eu contei o sucedido a Frances, e ela soube de imediato de quem se tratava, e recordou-se do que lhe tinha dito, e das palavras que empregara.
“Durante a conversa que tivemos,” disse ela, “esse prisioneiro provocou-me, insistindo que nada existia para além do túmulo excepto a matéria inerte. Eu respondi-lhe dizendo que cinco minutos após a morte ele seria exactamente o mesmo.”

À medida que ela falava eu ainda conseguia escutar a voz na minha mente, que dizia: “Mas isso é absolutamente verdade. Eu não mudei.”
A Frances sorriu e disse: “Esses foram os últimos comentários que ambos fizemos. Evidentemente ele terá progredido no outro mundo, e compreenderá. Abençoado seja!”
Quão raro não deverá ser passar pela repetição de uma experiência profunda como uma cópia exacta anos mais tarde! No entanto isso deu-se comigo no segundo regresso da minha amiga Frances Banks.

Após a publicação de Testemunho de Luz, a comunicação com Frances terminou por completo até aproximadamente quinze anos mais tarde. Então, com a rapidez do imediatismo ela encontrava-se a meu lado de novo, e eu tive noção disso!

Por essa altura, 1981, tinha-me retirado do meu chalé, devido à ameaça de cegueira, e tinha ido para um pequeno lar para idosos, dirigido por duas senhoras dedicadas. A ideia de não fazer nada representava para mim um anátema pelo que comecei de uma forma meio desconexa a escrever a história da mudança de estilo de vida por que passara.
Uma manhã, ao me sentar à escrivaninha junto à janela do meu quarto por não ter imprimido disciplina às minhas ideias olhava de uma forma lacónica para os carros que passavam na estrada. De súbito e inexplicavelmente senti-me viva, e a vibrar fisicamente com uma energia espiritual vinda de dentro. Por um instante permaneci imóvel; logo, porém, bradei: “Frances! Tu voltaste!” E ergui-me.

Frances encontrava-se a meu lado. Eu sabia! Ela estava a meu lado de uma forma tão real quanto a que teria se ainda se encontrasse no corpo. “Oh, Frances!” Quase chorei de excitação. De seguida alguém tocou à porta e uma amiga minha que vive no Lar entrou. “A Frances voltou!” Bradava eu, porém, não muito ciente disso. “A Frances voltou!”

O prazer que ela sentiu foi imediato, por também ela a ter conhecido. Conversamos por um momento e depois peguei na minha caneta. “Preciso apontá-lo,” disse eu. “Apontar o quê?” Interroguei-me eu um instante mais tarde. Subitamente, soube com perfeita clareza. A Frances jamais desperdiçava o seu tempo ou esforços em conversas prolongadas. Na verdade ela tornou a razão que tinha para comunicar comigo inteiramente clara. Ela tinha regressado com um propósito. Havia trabalho a fazer. Ela necessitava de mim, conforme eu dela! Havia um livro a escrever. E competia a mim escrevê-lo! Ela mais os companheiros do seu grupo inspirar-me-iam. Eu sentei-me electrificado. Com que então ela não tinha mudado! O seu espírito estava tão forte quanto sempre.

Desalento, entusiasmo, alegria e dúvida, tudo isso parecia apossar-se de minha mente. Como poderia eu escrever um livro? Dificilmente conseguia agora ler um. Porém, quando me acalmei o suficiente para argumentar com ela, ela tinha partido; Tinha noção de que um livro assim viria a ser escrito, conforme ela me dissera. E assim foi. Ela daria início a um capítulo na minha mente antes mesmo de ter despertado pela manhã. Inicialmente anotei as ideias e os fragmentos, que soavam fascinantes. E senti-me intrigada. Algumas semanas mais tarde após ter sido dada como cega por um especialista oftalmológico, comecei a anotar os vários capítulos no livro. Por essa altura já não conseguia ver de todo, e a minha escrita era quase indecifrável. Uma amiga emprestou-me um gravador. Tentei falar para ele, mas quando reproduzia as palavras elas pareciam-me monótonas e desinteressantes. Era inútil.

Certa manhã sentei-me na cama a tentar colocar as palavras que tinham vindo a passar-me pela ideia no papel desde que acordara. Imagine-se a surpresa e a alegria que me invadiu quando descobri que conseguia rabiscar as palavras no papel de almaço. E lá comecei a escrever. Fiquei emersa no acto e passaram-se duas horas antes que pousasse a minha caneta. Tinha preenchida quatro folhas de papel de almaço com as garatujas desalinhadas mas inspirados ao longo das linhas pautadas, embora não conseguisse ler uma só palavra do que escrevera! O livro encontra-se agora acabado, sem que eu alguma vez tenha lido uma palavra do que comporta! Milagres acontecem quando o Espírito do Criador se acha envolvido.





A MENSAGEM DE FRANCES BANKS

“Uma vez a minha vida no plano terrestre terminada vitimada pela doença terminal e pela morte, busquei e encontrei outros e elevado progresso e de grandiosa experiência que me ajudaram. A recomendação que me deram foi tão realista e sofisticada que a segui.

“Trabalha por intermédio da mente superior da tua amiga, Helen Greaves,” insistiram eles. “Isso pode ser conseguido!” O resultado foi o livro Testemunho de Luz, cujas palavras acordaram o Espírito dormente de milhares de vidas.

Então, após me ter juntado ao meu próprio Grupo, e aprendido mais dos trabalhos do Grande Espírito de Luz, foi aventada a sugestão da tentativa de um segundo volume. Os Grandiosos aqui tinham consciência do estado precário para que a humanidade tinha resvalado, devido ao mal engendrado pela ignorância, pelo medo, pela inveja e pela desconfiança.

A minha coautora tinha-se por essa altura aposentado da vida literária activa. Foi-me assegurado que tal era a confiança e a crença que ela tinha no Espírito de Cristo no homem, e o reconhecimento da facilidade co que tínhamos comunicado, que ela responderia de todo o coração ao nosso apelo, embora viéssemos a fazer face a muitas dificuldades.
E assim foi! E assim é!

É humildemente que ofereço este tratado sobre o Espírito da Luz, presente tanto no homem encarnado no mundo da matéria, como desperto na alma além da experiência física.
A mensagem é dividida em duas partes, mas é simples e directa. Primeiro, para ilustrar o trabalho do Espírito de Deus o Criador na Sua Criação, e na Sua evolução; e segundo, as almas dos humanos e as almas daqueles que passaram da Terra e que são um no Espírito de Deus.

A comunicação por um meio adequado e com o propósito de elevar é possível no verdadeiro entendimento da vida no Espírito. Todos os homens possuem almas. Devido a que o desenvolvimento de tais almas seja desigual, cabe àqueles que se encontram nesta consciência acudir e guiar os seus irmãos no complexo plano da existência humana.

As pessoas ao viverem no plano terrestre sempre formularam diversas ideias acerca da possibilidade de vida após a morte do corpo. Tais crenças e esperanças estenderam-se desde a velha convicção do céu e do inferno através de graus de existência, até mesmo ao grau ateísta da completa e absoluta escuridão do túmulo. Esta última especulação podia, evidentemente, não passar de uma falsificação da questão, devido ao medo interno presente nas mentes de tais crentes. Mas também representa uma afirmação que faz de toda a criatividade, de toda a lei e ordem existente na vida, bem como da evolução das espécies, conforme a vimos e conhecemos ao longo das eras, um disparate.
Em primeiro lugar nega um Criador ou de um Plano criativo. As próprias estações o negam. Poderá o descrente ignorar o milagre da Primavera, quando a vida regressa à relva aparentemente morta da terra?

Um mundo adicional após o término do intervalo da existência material é aceite pela maioria dos praticantes Cristãos como uma espécie de paraíso onde tudo é perfeito, onde Jesus vai ao encontro de toda a alma recém-chegada no caso dos cristãos, e claro está, diferentes Salvadores mundiais no caso de seguidores de outras confissões religiosas, após o que se instalam numa felicidade monótona e interminável.

Será isso o Paraíso? Certamente que não concorda com as narrativas de almas empreendedoras que se empenham no rompimento do silêncio do temor das suas crenças de infância.
Isto é Vida e não a pálida teia da intriga, egoísta domínio e medo característico do mundo da humanidade. A esse respeito não existem serviços policiais, nenhuma defesa contra outros poderes, qualquer dinheiro que governa a principal influência sobre as almas terrenas.
Esta é uma nova consciência, uma compreensão alterada e percepção dos valores. É uma terra em que a paz e a alegria constituem a norma, ao contrário da guerra e do sacrifício.

Somos almas, e agimos e pensamos de acordo com um nível diferente de entendimento. À medida que nos desenvolvemos e crescemos aqui habilitámo-nos a entender a vida que vivemos, bem como o progresso que tivermos ou não conseguido no plano da Terra. À medida que evoluímos encontramos maior compreensão, e dá-se uma mudança na nossa maneira de pensar.

Há, evidentemente, aquelas almas tímidas que levaram vidas sem inspiração, que se encolheram diante das ideias novas, e que se arrastaram vagarosamente ao longo das suas experiências terrenas sem compreensão ou qualquer vestígio de iluminação. Essas almas poderão preferir viver aqui, reunidas com os seus entes queridos e amigos que não buscam mais do que ficar em paz e descanso na beleza deste mundo.

Não há leis que os mudem, ou que interfiram com o seu gozo estático. Ele prossegue até que o seu espírito cresça dentro delas, e as almas despertem para um novo começo. E isso sucede sempre – até mesmo, porventura, após o que designariam por centenas dos vossos anos terrestres. O progresso pode ser lento e estável, assim como imediato e cativante. Todos os tons de evolução são satisfeitos neste mundo do Espírito.

Mas há um importante desenvolvimento que preciso aqui realçar. Manifestar-se-á o desejo de auxiliar amigos e entes queridos deixados para trás na Terra? Esse é um problema difícil, por as pessoas na Terra não compreenderem a unidade subjacente à doutrina de Jesus que trouxe a Luz do Espírito à Terra.
As palavras que ele proferiu: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso,” e “Eu estarei convosco, até ao fim do mundo,” e “O Reino dos Céus acha-se em vós,” possuem uma conotação diferente daquela que a humanidade lhes deu.
A Luz acha-se aqui neste mundo de consciência refinada, porém, a Luz acha-se presente na alma de todo o homem, mulher, ou criança, no plano terreno.

O Espírito é a Luz e a Luz constitui um desafio, pois quando a invocam, nela acreditam, a reverenciam, e se torna na própria vida, e marcos e o bem-estar, curam e espiritualizam todas as coisas. Esta percepção de um Espírito Criativo, o Deus da vida num mundo em evolução podia alterar o medo numa paz e acelerar a evolução animal e humana rumo ao espírito. Ao se realizar e tornar vivo esse princípio para as almas que se encontram aqui, assegura uma maior compreensão e compaixão não só para com as semividas da experiência terrena como assegura o desejo Cristão de auxiliar. Todos somos espíritos na essência, e certamente seria natural que o fôssemos.

CRUZAR A MARGEM
Estrela do crepúsculo e da noite,
E um claro chamamento por mim!
Que da margem não me chegue pranto
Quando eu partir para o mar,

Que a maré movimentada pareça adormecida
Cheia de mais para sons e espuma
Quando quem saiu das profundezas sem fim
De novo a casa regressar.

Alfred Lord Tennyson

Frances parecia sorrir-me!

"Tanta gente," disse, "parece sentir-se aterrada com esse estado a que chamam de morte. Torturam-se com pressentimentos de longos e escuros túneis, de uma ponte a atravessar, ou de uma derradeira jornada pavorosa a percorrer, sós e aterrorizados. Outros, ligeiramente céticos, arqueiam o sobrolho, adoptam ares de indiferença e de sabedoria, dizendo que não é nada de mais, que seja somente passar para um outro aposento.
Depois o ateu, o homem da desgraça ou morte, para quem ninguém sabe nada acerca disso; apenas se é enfiado num buraco no chão e isso é o nosso fim. Ressurreição? UM conto de velhas viúvas!

"Existem efectivamente amostras da ignorância da parte dos recém-chegados que se podem registar - ou talvez do retorno dos que viajam para essa popular designação de vida após a morte. O que, para início de conversa, constitui um equívoco. Na nossa maneira de pensar, a palavra "morte" possui uma conotação errónea. A morte implica inércia, o que é errado, por não existir momento algum em que a própria vida conforme ela verdadeiramente é, não tenha tido início.
Por a própria Vida, no instante da partida, apenas descarta uma casca inútil. A Vida ainda se acha presente na mente, na alma, e geralmente na compreensão. O corpo humano que é formado por partículas refinadas da substância terrena, retorna simplesmente ao seu estado original.

"Em muitos casos da experiência que a humanidade designa por morte, a mente, mesmo separada do cérebro físico, pode achar-se activa. Por exemplo, os que viajam por esta mudança de consciência do material para o etéreo, em vez do espiritual, possui conhecimento, ainda que turvo, da mudança, e não tem qualquer recordação de qualquer dor. Caso passem por uma experiência de terror, será por o esperarem. As imagens lúgubres impressas sobre a mente da alma por parte de ensinamentos equivocados de infernos e agonias torturantes tornam-se reais. Isso dever-se-á ao facto da mente da alma, motivada pela perda do cérebro e dos centros nervosos, ainda reter imagens profundamente impressas. O novo aspecto da alma, e o poder que tem de pensar, ainda não se terá desenvolvido. Tão prontamente a alma desperte, conforme vocês dizem, ou tome consciência de si, conforme achamos mais apropriado dizer, todo o medo retrocederá.

"A alma terá regressado a casa e é saudada por múltiplas formas diferentes. Poderá instaurar-se um sono profundo, que na realidade constitui uma ligeira recaída da alma em si mesma a fim de gerar a sua nova actividade que se aproxima na paz do espírito. Quando desperta, ter-se-á tornado numa alma consciente.

Será isso demasiado difícil? Confio em que o leitor não o ache. Sabemos que o corpo de um bebé recém-nascido no plano terreno precisa passar por um período de desenvolvimento e de crescimento antes de poder passar a existir no mundo material. Entretanto a alma paira sobre ele a aguardar o momento da sua reunião.

Na verdade, o nascimento e a morte, no plano material consistem no ajustamento da consciência da alma do seu verdadeiro nível em relação ao seu papel diferente e menos activo.
A morte do corpo humano não deveria apresentar terror algum e sempre que fosse permitido ensinar esta ideia por parte das diversas religiões praticantes do mundo, um grande papão teria sido removido do pensamento ulterior das raças.

A própria experiência por que passei para esta vida pareceu ter-me sido simplificada. Conforme afirmei no Testemunho de Luz, nada senti até acordar e vi a minha querida madre Florence tal como a tinha conhecido na Terra, sentada ao lado da minha cama. Esse reconhecimento inicial tinha sofrido uma mudança, claro está, por ela já se ter tornado na alma elevada que é, enquanto a compreensão e apreço que tinha se tinham, creio bem, aprofundado com as diversas experiências por que passei.
Mas este capítulo é sobre a transição, como nós lhe chamamos, de modo que vou prosseguir.

"Conforme mencionei, a minha própria transição foi misericordiosamente auxiliada, talvez por causa da grave e dolorosa doença que me torturou o corpo terreno, de modo que eu acolhia as perspectivas defronte com alívio e verdadeira esperança. Talvez também por a minha alma e corpo se encontrarem completamente exaustos, pelo que terá parecido que tenha recaído num vazio até acordar revigorada. Não me recordo de nenhum túnel ou ponte ou outeiro. Era como se eu não fosse nada, e o alívio posterior às agonias deverá ter parecido um céu para a minha alma transmissora.

"Mas outros aqui relataram experiências, e preciso concordar que a maior proporção deles deva ter cumprido a síndrome do túnel. Contudo, a maioria das almas que se aproximavam experimentaram o alívio de encontrar alguém a seu lado, ou de encontrarem uma Luz à sua frente. Outras almas, porventura mais aventurosas, recordam a ponte. A muitos terá parecido que o passo dado no sentido de entrarem nela terá representado um acto da vontade, a seguir ao que tudo correu bem - e a alma encontrava-se no seu caminho.

"Um tipo diferente de alma que regressa elege a experiência, e digo elege intencionalmente, através de um vasto mar. O nosso poeta citado no verso acima referido mantinha essa imagem gravada na alma - de modo que o provável é que eventualmente viesse a ser realizada. Vindo de um grande poeta, um mestre na sua arte e uma grandiosa alma que conhecia o Espírito, isso traz-me à ideia a probabilidade de que almas avançadas destituídas de medo ou de ignorância possam muitas vezes optar uma partida consciente das suas almas assim rumo a uma consciência mais elevada. Eu não sei, apenas conjeturo que essa seja a ideia da passagem de uma alma elevada.

"Precisamos agora voltar-nos para aqueles que tolamente planeiam o próprio tempo e método de abandono da vida material. Eles não percebem que não há como escapar à sua própria alma - mesmo que rejeitem o seu corpo por meio do suicídio, estão a fazer de Deus e a usurpar o direito que o Criador tem sobre a Sua Criação. Por existir um tempo para todas as coisas - um tempo certo. E isso sucederá na devida altura para o potencial suicida, e não quando a sua mente terrena o quiser. Existem dificuldades quando uma alma dessas chega despreparada para esta transição. A experiência que tive com alguns deles realça os perigos desses trânsitos precipitados. Por tudo ser ordem e uma alma que chega se achar obviamente em desordem.

"A morte do corpo material pode ser e deveria ser uma bela experiência da alma a regressar a Casa.

Helen Greaves

Uma história interessante e reveladora poderia ser relatada a título de elogio das palavras finais empregues pela Frances neste capítulo.
Uma amiga minha que já tinha passado os noventa sentia-se muito cansada da sua prolongada vida. Certa noite, telefonou-me para me pedir se eu poderia orar para que morresse. Não pude concordar em fazê-lo de modo que lhe disse que o tempo chegaria para o término da sua vida.

A minha amiga tinha sido uma mulher animada e divertida, só que de um carácter difícil. Perto do fim da sua vida os lares de acolhimento que a tinham aceite como paciente queixavam-se das exigências que fazia às enfermeiras. A pobre velhinha, que certamente sofria muito, tinha sempre reclamações a apresentar e parecia nunca aceitar qualquer serviço ou mudança implementada.

Eventualmente, no seu nonagésimo segundo ano de vida ela teve a habitual queda que tão frequentemente constitui o prelúdio do fim. Quebrou alguns ossos e ficou inconsciente, Jamais recobrou a consciência e morreu cerca de uma semana após a queda. Ao seu funeral compareceram muitos que tinham apreciado os seus anos de juventude, e as flores foram magníficas. Achei que a minha amiga deveria sentir-se agradada. Pois não sentiu! Cerca de uma semana mais tarde, encontrava-me sentada à janela do meu chalé a tratar de completar as palavras cruzadas do Daily Telegraph quando subitamente senti como que um berro no cérebro e escutei um nome repetido duas vezes. Era a minha falecida amiga. A conversa dela começou veloz, exactamente conforme ela costumava falar, distinta e objectiva.

Não sabia que me encontrava morta, Helen.
Nem tempo me deu para pensar e prosseguiu
Acordei numa cama estranha e perguntei à enfermeira por que me tinham mudado! Ela respondeu que eu tinha ido para ali. Porquê, perguntei eu, ao que ela respondeu que eu tinha morrido.
Eu estava certa de não ter passado por tal coisa, e disse-lho!
Então ela trouxe uma outra enfermeira e ambas insistiram em que eu tinha morrido.
Cheguei mesmo a brigar com elas, Helen. Acredite.
As palavras dela vieram com tal brusquidão que não consegui fazer qualquer comentário.
Sentia-me tão irritada, continuou ela, que não consegui acreditar que tinha falecido!
De repente ficou em silêncio.
Mas não até ver Frances Banks tranquilamente sentada aos pés da minha cama!
Seguramente que este terá sido um caso de uma jornada de morte despercebida. Passado um instante veio o pedido.
Escreva à Senhora Fulana de tal a dizer que eu parti e que voltei para conversar consigo. Sempre lhe prometi que procuraria fazer com que soubesse.
Só a minha velha amiga! Eu levantei-me, escrevia a carta descrevendo a entrevista que tivera e enviei-a. A resposta veio de imediato e cheia de gratidão, dando-me a saber que ela sempre lhe tinha prometido, Uma amiga querida - mas só ela para resmungar e se queixar daquilo por que ansiava que acontecesse! Deus a abençoe!

Conforme a Frances tinha escrito, e velha senhora não tinha percebido a passagem; e não seria ela exactamente cinco minutos após a morte a mesma que cinco minutos antes? Era de facto!

O MUNDO DO PENSAMENTO

A vida faz sentido, insiste a Frances. É um excepcional exemplo de lógica, um padrão de tentativa e erro, enganos, fracassos e êxitos: A Vida é eterna, e o Plano é perfeito.
Esta é uma das profundas experiências que aparecem nesta dimensão espiritual durante os estágios iniciais da sua nova vida após a alma se ter finalmente separado do corpo material.

Para aquelas almas que aqui chegam com alguma ideia desta Lei da Vida é uma grandiosa e gloriosa revelação. Para os pobres de espírito (no sentido de ingenuidade), os não pensadores, os descrentes com relação a qualquer esquema da Evolução o despertar neste Mundo do Espírito pode ir além de toda ideia pré-concebida; a experiência imediata pode ser avassaladora, e criar uma necessidade de um tratamento especial.

Isso foi o que procurei explicar a um homem de negócios que jamais pensara que tinha uma alma, ou sequer que era responsável pelos actos materiais da sua vida entre os homens. Ele foi recebido por um homem a quem ele arruinara tão completamente que ele atentara contra a própria vida - Charlie Brookes. Esse fora um choque necessário para lhe apresentar a primeira lição que ele precisava aprender, a realidade da própria vida e a realidade de que a morte do corpo físico apenas enfatiza a realidade da vida.

À medida que a raça humana progride a alma humana reterá algum do seu conhecimento, para o efeito da mente transformar a ignorância e o descrédito num grau qualquer de revelação e de compreensão.

Para aqueles que tenham dado atenção ao ser interno e tenham tentado viver de acordo ou que tenham prestado atenção a tais ensinamentos dos seus líderes espirituais - muitas vezes de forma inadequada, contudo desajeitadamente útil - a percepção da vida seguinte constitui um maravilhoso despertar. Para eles a morte não passara de um processo de abandono de um compartimento para passar para outro, de uma vida para uma experiência mais grandiosa.

A vida faz sentido, o seu despertar e percepção, tal como fez a minha quanto contemplei a minha querida Madre Florence.
Como esse fora o despertar da minha amiga Frances, e fora registado no Testemunho de Luz, não vou adiantar muito mais. Bastará dizer que me convencera da realidade do Pós Vida.

Esta manhã a Frances acordou-me para dar continuidade à sua história.

"Tem vindo a querer saber sobre o homem comum e convencional que aqui chega," prosseguiu ela. A maioria da humanidade não pensa. Não faz a si próprio qualquer pergunta, tal como Quem sou eu? Que coisa serei? Porque me encontro aqui? Que terei vindo fazer? Perambulam de um dia para o seguinte aceitando a sorte que lhes cabe, e crendo das diversas doutrinas que lhes são impingidas em criança.
A massa da humanidade jamais questiona. Entorpecem o seu intelecto com histórias românticas frívolas, ou com as aventuras por que outros passam nos altos mares ou nas montanhas, ou então excitam e aterrorizam a sua mente com histórias de fantasmas ou ocorrências mágicas ou tornam-se viciados nos mistérios de assassinato.

"Quer saber o que lhes acontece aqui. Bom, muitos deles não mudam. Após o choque inicial do despertar acolhem as suas famílias e parentes amados, e assentam alegremente na sua nova vida, sem mais questionamento, e muitas vezes sem o desejo de progredir. Muitos decidem que estão a sonhar, até que algum incidente, alguma conversa com uma alma elevada lhes desperte a compreensão e anseiem por aprender mais.

"Não se compadeça deles nem os condene. Nós não mudamos num piscar de olhos. Nós ganhamos cada passo de progresso que damos mas depois não existe qualquer convênio, quer de carácter persuasivo quer de ameaça que seja usado para forçar o nosso progresso.

"Aqui, conforme Jesus disse, vamos ocupar o lugar preparado para nós; e tal lugar precisa ser merecido pelas acções que cometemos na vida terrena. Muitas almas não se encontram nem mesmo preparadas para passar em revista as suas experiências passadas no corpo, e nenhuma outra alma as forçará a fazê-lo.

"Tudo é Espírito, e o Espírito opera com perfeição. Não carece de tempo que representa uma conveniência terrena, e as almas simples aprendem a ajustar-se e a encontrar paz e muitas vezes uma felicidade que nunca tenham antes experimentado.

"Será, porventura, pois, que muitos anos volvidos após a sua retirada que a alma sobrevivente começa a despertar e a buscar o progresso. E existem muitos auxiliares para os ajudar.

"O mundo do pensamento é tão completamente diferente do plano material de que procedem as almas recém-chegadas aqui que um verdadeiro significado e compreensão se tornam muitas vezes prolongados para elas. Não há conversa em voz alta, como na Terra, por os órgãos da fala não mais fazerem parte de nós. Contudo, conseguimos comunicar livremente uns com os outros. Porque neste mundo, como no vosso, o recém-chegado precisa aprender novos modos. O corpo material, a mente humana limitada, a personalidade temporária falecem. O habitante deste estado de consciência não mais tem necessidade deles.

“No Mundo do Pensamento, a Mente constitui o elo de comunicação. A Mente também representa a energia e o propósito da vida contínua do Espírito. Por o Grandioso Espírito Criador Divino a que chamamos de Deus constituir o Poder vivo, motivador e criativo aqui, conforme o era no plano terreno. Apenas na Terra as almas descobrem que tal Poder poderia ser usado para o bem ou para o mal. Aqui, tais desvios do verdadeiro e do bem podem ser prontamente observados, enquanto no mundo da matéria podiam ser ocultados e desse modo sofrer agravo.

“Cheguei à conclusão desde que estou neste Plano do viver, que se encobre os pensamentos reais com a palavra proferida. Aqui, o pensamento fala ao pensamento. Por outras palavras, torna-se impossível ocultar o que quer que seja. O Sentido é comunicado directamente entre as almas. Este é um pressuposto muito difícil, poderei tentar explica-lo da seguinte maneira: A Mente é a pessoa O Pensamento forma o padrão da alma, tal como o faz no mundo da matéria. Unicamente aqui são reconhecidas por esses padrões de pensamento e não pela palavra proferida, ou pelas acções transformadoras da pessoa. Nisso reside a diferença. Não precisamos esperar pela acção ou sequer pela palavra para contestar ou confirmar ou qualquer outra coisa qualquer o pensamento. Somos revelados tal como somos, e até mesmo pelo nosso ambiente.

"Há uma aura a circundar as pessoas no mundo da Terra e isso, devido a que habitualmente não possa ser vista pela visão humana, é rejeitado pela maioria das pessoas. Ela pode ser claramente revelada àqueles que possuem o dom da visão interna, mas aqui no nosso Mundo do Pensamento, tal Cor e Luz tornam-se numa forma definitiva. Creia-me quando lhe digo que tais vestes de Luz e de Cor, que me tem ocasionalmente sido permitido ver estão para além das palavras para podermos descrever a sua beleza e o esplendor da sua Luz, mas tais vestes aparecem ao redor dos Grandiosos, das almas avançadas, dos Seres Angélicos. Tal beleza deve na verdade, creio eu, envolver o próprio coração da Força Criativa do Espírito Divino, e do Poder de Cristo dentro dele.

"O Espírito é Criativo, e o homem formado a partir do Espírito do Criador evolui e desenvolve-se nessa Luz tanto aqui como no vosso plano terreno. Somente aqui a evolução é mais clara definida, por não nos podermos esconder por detrás de uma forma terrena nem de uma personalidade dividida. À medida que a raça humana aprende a viver mais na sua Mente Superior e menos nos apetites e desejos do seu ser inferior, também o mundo da matéria se alterará, e a conduta do homem para com o seu irmão progredirá rumo à harmonia. A destruição trazida à Terra e aos seus habitantes é provocada pelo pensar consciente das pessoas. A escassez é provocada pela ganância do homem presente na consciência que tem das florestas produtoras de chuva pelo preço da madeira. Uma política de vistas-curtas para com as secas trazem a profanação e os resíduos das regiões desérticas. O excesso de produção da terra fértil e a extração do solo de químicos e de minerais, deixam as searas desprovidas do alimento essencial e a terra torna-se inútil. A pesca excessiva nos mares e nos rios diminui os cardumes.

"A natureza constitui uma amante difícil. Trabalhem contra ela e o Espírito da Natureza retribuirá da mesma forma. Não se poderá, pois, perceber que recessões, surtos de fome e inundações são da responsabilidade do homem e que demonstram a falta de verdadeira consciência de que padece? No mundo da matéria o homem cria e o homem destrói. Somente o verdadeiro Espírito cria aqui no Mundo do Pensamento. Daí que o ambiente de que gozemos esteja para além da beleza passível de descrição e a natureza abençoe todos com esplendor. O Pensamento constitui a semente e o solo fértil. No entanto este Mundo não passa de uma das Mansões da casa de Deus. Existe evolução dentro de uma evolução superior, num esplendor maior. Por o Espírito do Criador acha-se em constante criação e evolução, e a própria Vida é eterna no seu mistério e esplendor.

"A probabilidade do homem se tornar anjo após abandonar o plano terreno, doutrina que foi acordada no mundo medieval, não parece apresentar qualquer verdadeira base factual. Mas que aqui existam seres de evolução Espiritual gloriosa, não me resta a menor dúvida. Existem Mundos Espirituais para além da nossa estreita concepção.

"Na Bíblia ficamos a saber que Lazaro percebera que existia um enorme abismo se fixara entre "o vosso mundo e o meu." Da mesma forma, devem existir enormes abismos que se fixaram entre os Mundos do Pensamento e os Domínios Espirituais. Todavia sabemos, à medida que prosseguimos em frente, que tudo é possível à alma que regressa à sua Origem. Essa é a convicção mais convincente e possível que se forma à medida que avançamos pelo Mundo do Pensamento, ou regressamos ao Mundo da Matéria para mais um grau de experiência.

"Aqui no Mundo do Pensamento, a alma assim que se revigora e encontra repouso dos seus anos terrenos, das preocupações e dores, aprende a ajustar-se às suas novas condições, o que muitas vezes pode representar um lento e prolongado processo, dependendo das experiências da alma, e aqui, conforme no Mundo da Matéria, há graus de avanço. O pensador, o artista, o poeta, o escritor, o servente da humanidade, a pessoa dedicada ao serviço em prole dos seus companheiros, todos eles se formarão rumo ao devido lugar que merecem.

"Aqueles cujas vidas tenham sido egoístas e arrogantes, sintonizadas com a consecução dos seus próprios desejos, serão atraídos para uma outra sociedade agradável mas possivelmente menos construtiva. "Na Casa de meu Pai existem muitas Moradas" - habitações, moradias, como na Terra, mas podem variar consideravelmente. No entanto o termo "Mansões" parece transmitir uma certeza de que a beleza, a harmonia e a paz também aí residam.

"Na curta experiência que tenho aqui, descobri que isso é assim. As almas ajustam-se às suas novas vidas. Aprendem a controlar formas de pensamento em que edificam e reconhecem os erros que na Terra terão provocado tanta infelicidade. Aprendem a perdoar e a esquecer querelas, feudos, ciúmes, e fracassos decorrentes da sua vida terrena; descontraem e crescem na nova compreensão da unidade existente por entre o esplendor e assombro desta nova vida. Lentamente trabalham em prole da compreensão, muito embora de uma natureza imatura, do papel que a humanidade tem no esquema divino da Vida.

"Nessa diversidade de níveis de abordagem do pensar alguns encontram paz, outros o desejo de servir, alguns o anseio pela grandiosa Sabedoria das Esferas, enquanto outros formarão interesses e desenvolvem nova técnicas que desejam trazer de volta à Terra a fim promoverem uma melhor compreensão do viver humano.

"Nós ainda somos "nós mesmos" aqui, com o Si Mesmo a revelar-se com uma maior facilidade à medida que as velhas inibições são descartadas. Esta é a delicada Vida do Espírito em que a alma no seu progresso se move e pensa e encontra o seu ser. Mas existem outras moradas em que o pequeno eu ainda persiste com todas as suas irregularidades e onde os desejos do mundo material ainda têm primazia. Chamei-lhes Regiões Inferiores, o que não representa termo privilegiado. Aí se encontram os desajustados. Almas empobrecidas e esfomeadas incapazes de se estimar para além da vida física. Os habitantes são mais tristes do que perversos e deixam-se perder pelos contínuos apetites que têm pelo passado - pelas avaras, pelas mesquinhas, pelas fracas súplicas por bebida e por drogas; pobres almas perdidas que não podem ou não poderão reorientar as suas vidas e pensar. Falarei desses lugares num outro capítulo. Suficiente será dizer que existem muitos auxiliares oriundos das Elevadas Esferas que trabalham incessantemente no sentido de elevar a estagnação dos desejos terrenos. Lentamente, as almas são libertadas dos seus próprios cativeiros e ajudadas pelos Irmãos de Luz a subir para o verdadeiro Mundo do Pensamento onde eventualmente encontrarão a paz.

"Dizer que exista "alegria no céu" com tais retornos ao Espírito de tais filhos e filhas pródigas é de facto verdadeiro...

Helen Greaves

Uma manhã, ao me sentar num banco junto ao rio, notei um emaranhado de ervas daninhas e de ramos caídos que passava por mim na corrente do rio; sobre eles iam três pequenos patos sentados empoleirados de forma confortável no próprio ninho de ervas, eles deixavam que a corrente os transportasse. "Estão a tirar um dia de folga," pensei, "enquanto se deixam carregar pela balsa, e deixam que a água corrente faça o trabalho!" Dei por mim a rir à media que passavam por mim.

"Estão a deixar que a corrente os transporte!" Repeti para mim própria. De súbito soube. "É o que eu devia estar a fazer!" Censurei-me mim própria. "No entanto, aqui estou, a lutar contra a corrente - e a perder!" Foi o momento de verdade. Eu orava por que me fosse possibilitado continuar a escrever, e já tinha desistido. Estava a dizer que era demasiado velha - e a Frances tinha partido. Seria esse o modo por que ela deveria ter agido? Mexi-me a ergui-me. Não, ela teria continuado e feito por escrever. Virei os meus passos de volta a casa, fui directamente até à minha escrivaninha e desatarraxei a tampa da minha caneta tirei papel de ofício e comecei a escrever.

"Há quatro histórias que gostaria de lhe contar," dei pelas palavras a escorrer da minha caneta. São narrativas curtas de quatro diferentes chegadas ao meu mundo, e do que lhes aconteceu."

Parei de escrever: com que então Frances encontrava-se aqui de novo. Talvez ela tivesse estado o tempo todo a meu lado - e eu não me tenha detido suficientemente para a ouvir! A inspiração chegou qual explosão de luz do sol após uma manhã tempestuosa. Escrevi rapidamente.



SERVIÇO E RAZÃO

Frances Banks

Todo o serviço tem o mesmo valor para Deus, escreveu Robert Browning.
Essa Verdade é uma que o recém-chegado a este plano da consciência descobre mais cedo ou mais tarde; e que ele estabelece na sua própria compreensão. Apenas com base no seu próprio esforço e busca do valor da recente vida passada na Terra poderá esta Verdade tornar-se clara à sua avaliação com respeito aos sucessos ou fracassos que tenha tido.

Muitos são os que… na verdade, uma vasta proporção dessas almas libertas não consegue enfrentar a avaliação nua das suas vidas materiais. Mas não recebem qualquer persuasão da parte de outros para o fazer quer se trate de amados, ou inimigos odiados ou desprezados do passado. E as almas grandiosas, a quem reverenciamos enquanto Mestres de Sabedoria jamais interferem, muito embora, com uma compreensão silenciosa, procurem acender a chama do Espírito em tais almas entorpecidas, aterradas, ou complacentes que se recusam a enfrentar o inevitável.

O Espírito de Deus o Criador na homem abrange todos os ramos do Espírito, tal como o Espírito da Beleza, que abrange a Arte, a Música, e Poesia e o progresso, a realização e até mesmo o sacrifício quando ele se aplica em prole do bem, da verdade, da sabedoria e de atributos que tais que por vezes surpreendem o mundo com a grandeza que carregam, contudo parecem ter… “nascido para morrer despercebida, e desperdiçar a sua doçura no ar do deserto.” (Thomas Gray 1716-1771)

Aqui, nesta consciência, não existe linha de diferenciação entre o serviço terreno de um Presidente ou Primeiro-ministro, ou o serviço menos triunfante de um humilde servo, um trabalhador por entre os pobres, um humilde sacerdote, uma enfermeira, uma amada esposa e uma sábia e gentil mãe que devote a sua vida ao encorajamento dos talentos que brotam nos filhos, e os verdadeiros valores da vida que lhes transmite.

Quando a alma por fim se afasta do corpo material e renuncia a todos os desejos e conquistas por que ansiara pelo pensar limitativo materialista da mente humana, descobre-se purgada de toda a experiência, como se não tivesse passado de um sonho. O desejo evapora-se com ele, e a conquista, a honra e o poder passam a ser vistos num contexto completamente diferentes. Essa é a reacção inicial do corpo após a morte. A alma vê-se, por assim dizer, despida nos seus novos arredores, exactamente com a criança humana chega despida à consciência terrena.

A morte a o nascimento acham-se ambas estreita e inevitavelmente relacionadas. O nascimento é o começo da morte eventual: e a morte é o advento, assim como o retorno, à consciência do Espírito. Depende do quão profunda e completamente o Espírito tenha baixado à consciência terrena restrita para que a Realidade do Espírito se torne reconhecida. Nos estágios iniciais da vida aqui, a alma recém-chegada sente-se muitas vezes aturdida, e carece de muito cuidado. Geralmente – naturalmente existem excepções – após acolher os seus entes queridos e de se deleitar no momento com a própria recuperação da dor e se livrar das restrições terrenas, a alma sente necessidade de descanso. Depois retira-se para dentro de si mesma a fim de repousar e de recuperar. Durante essa experiência em ambientes de grande beleza e paz, é tratada por almas treinadas para tal serviço. Por quanto tempo, nos termos da Terra, poderão estender a sua estada depende de muitos factores – da utilidade ou desperdício das suas vidas, das suas conquistas ou dos seus fracassos, e da força e do propósito da alma. Por vezes tal repouso é prolongado, por vezes um curto período materializa-se em realização, compreensão, e no desejo de aprender mais e de compreender, ainda que de forma fraccionada, o sentido, a responsabilidade, e o alcance e a consecução até então, da alma.

Tal como as crianças da Terra aprendem a caminhar, a escrever e a falar e a viver nesta nova e irrestrita consciência, também aqui as almas aprendem a “ser,” a conhecer, e acrescer para a vasta percepção da Realidade da Vida que não tem fim. Lentamente e com infinito portento, os nossos verdadeiros eus percebem e maravilham-se com o Experimento Divino da essência da alma a descer à matéria grosseira, para poder evoluir através da experiência de volta para o Eterno de que partiu.

Esse grandioso Experimento já sofreu um avanço, e já foi retardado pela falha para avançar de novo por milhões dos nossos anos-luz. O homem não consegue visualizar-lhe fim. Somente o próprio Criador, a Origem, o Próprio Espírito pode observar e monitorizar, já que Ele avalia o progresso com falhas.

Esta realidade é aqui percebida por todos os credos e raças da mesma forma. Por todas as religiões assentarem na crença de um Poder, numa Força do Espírito que abrange tudo e é eterno. Nos Salões da Aprendizagem das Artes, da Medicina, da Música, indivíduos de todas as raças descartam as diferenças que os separam e trabalham juntos em equipas. Este é o Mundo do Espírito, e não o plano da multiplicidade de nações.

Para as almas jovens que ainda precisam experimentar muita existência material, viver aqui quer com as suas famílias, os seus amados e amigos, ou em perfeita harmonia, a alma experimenta a “essência” do Espírito. Quando estiverem preparadas, propor-se-ão ao serviço nos muitos campos abertos a elas, ou optam por aprender e experimentar no espírito do progresso nos grandes salões. Muitas almas têm aqui permanecido por muitas centenas dos vossos anos. Mas o tempo não tem importância. Assim que estiverem preparadas avançarão. Por este ser o Mundo do Espírito e não a experiência limitada da existência material. Não existe pressa prematura alguma, e a nenhuma alma é permitido prosseguir além da estatura que já tenha alcançado. Mesmo em períodos de intenso avanço e conquista nas Universidades do Espírito, uma alma contribui igualmente para a ajuda “caridosa” junto daqueles seus irmãos que não tenham avançado tanto no caminho.

Aprendizagem, avanço e serviço aqui contam para a vida do Espírito. Aqui aprendemos que o Espírito constitui a própria força sem a qual a vida não possui sentido, quer no mundo material ou aqui no Mundo do Pensamento. É, ou devia ser, o pilar da nossa própria existência. Este Espírito de Deus (Bem) é uma parte constante de nós, é sempre a energia interior secreta, quer estejamos conscientes disso ou não. Não nos abandona quando o corpo morre. Na verdade, com a liberdade das restrições da vida material, o Espírito é libertado para uma maior compreensão.

Contudo essa não é uma mudança fácil para os recém-chegados a este mundo. Na verdade esta mesma ideia foi transmitida à escritora deste livro da parte de um querido amigo que tinha “falecido” recentemente. “Desejara conhecer mais sobre este novo mundo,” foi-lhe dito pela amiga dela. “Torna-se muito difícil compreender.” Foi igualmente proferido pelos lábios de uma jovem moça de cerca de catorze anos de idade. “A minha tia veio a mim e disse-me quem era” – a jovem nunca tinha visto a relação que tinha. “Ela disse que tem estado ali há vinte e cinco anos. Ela disse que tem sido difícil mas que agora está feliz.”

Por as crenças que temos no céu e no inferno terem estado baseadas em concepções materiais, aquelas almas que tenham aqui chegado ou estejam a chegar, têm dificuldade em compreender ou em avaliar as novas condições sem terem previamente “reconhecido” o Espírito Interior dentro delas. Daí a surpresa e a provável consternação por todo o serviço valer a mesma coisa para Deus, que lhes dificulta o avanço. Na Terra, homens e mulheres são elevados à honra pela sua devoção para com o dever e o serviço. A riqueza e a facilidade de vida, a responsabilidade e a fama são ganhas por um bom serviço. No Mundo futuro, ou assim não tenha aprendido, tais honras como as que aqui são alcançadas, as fortunas são acumuladas para serem descartadas pelas faculdades humanas. Elas valem tanto quanto o êxito de uma boa mãe, um servo diligente e leal, ou um humilde cura que sirva o seu Deus na obscuridade e na rotina monótona. Mas a compreensão do Propósito por detrás de tal Lei é, sem dúvida, difícil e lenta na observação. Mas assim, também, a percepção do facto de estarmos aí para aprender, para descobrirmos quem e o que somos, e assim avaliar as nossas vidas e as nossas experiências como na vida do Espírito.

Sinto que para fechar esta parte do capítulo deva citar o extracto completo do glorioso poema de Robert Browning, “Pippa Passes,” por um entendimento como o de nos preparar a alma para a vida após a morte nele se tornar claro.

Todo o serviço vale o mesmo Para Deus
Com Deus – cujos bonecos melhores e piores
Somos nós; não existe último nem primeiro.

A alma do homem é o juiz e o júri As nossas vidas terrenas não são unicamente instantes da experiência, mas padrões inevitáveis na Eternidade. A vida terrena revela o progresso da alma em anos de serviço bem-sucedido ou no fracasso para cumprir o próprio padrão espiritual. Quando a morte ocorre e a vida termina, a alma passa para uma experiência adicional. A obscuridade da consciência da Terra que não tiver sido penetrada pela luz do espírito adere à alma recém-liberta do corpo humano. Jesus no seu ministério falou com clareza acerca da vida seguinte. "Na casa de meu Pai," disse ele, lugares são preparados para toda a gente e cada um de nós vai para o lugar preparado para nós. O termo "lugar" neste contexto torna-se difícil de entender. Por o mundo seguinte não constituir um lugar, mas antes um estado de espírito.

(NT: Aqui cumpre referir, para uma maior elucidação do leitor, que o "local" não é preparado por ninguém mais excepto nós, que durante a nossa vida terrena cunhamos o "molde" porque nos passamos a reger, "molde" esse que uma vez no estado seguinte passa a valer como "a verdade" que prevalece, uma vez que bens e posses não mais se fazem necessários para aferir a verdade da alma)

Assim, quanto mais elevada e expandida for a alma, quanto mais compassiva, e despretensiosa e espiritualmente avançada, mais belo será o lugar, ou a consciência para que será atraída. Decerto que, se pensarmos bem neste facto, alcançaremos a sua verdade e o "Céu" será o nosso destino.

Neste mundo o nosso nível foi bloqueado e enegrecido por aquilo que designamos como "pecado" que reconhecemos como crueldade, cobiça, ciúme, licenciosidade e perversão da verdade. Almas em todos os estágios passam por este mundo do Pensamento. Quer optem por ficar pelas zonas sombrias dos mundos inferiores ou nas terras altas da paz e do repouso e das oportunidades de crescimento, é uma questão que fica ao seu critério.
Como sabe, eu, Frances Banks, ansiei por penetrar nos Salões de Aprendizagem e, na minha própria ignorância, dei por mim a retrair-me de volta seguramente para o meu próprio nível. Não existem regras ou regulamentos, nem compulsões. Os espíritos em crescimento são levados pelos processos de pensar para os seus verdadeiros locais, de acordo com o registo que tenham trazido consigo. Em termos simples, "trazem consigo os seus molhos."* Ilustra o processo da direcção para o lugar "preparados para eles."

*(NT: Salmo 126:6, que na sua totalidade refere: "Os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão; os que carregarem a preciosa semente e prosseguirem semeando, voltarão com alegria e trarão consigo os seus molhos")

As almas que estendem os seus serviços no mundo inferior diserta para mostrar a esses prisioneiros a luz adiante. No entanto a sua tarefa é difícil. A alma assim reduzida, e escravizada pelo pecado, não consegue suportar a luz. Nas suas pobres mentes acreditam que as trevas a ocultam.


Helen Greaves

Uma bela manhã encontrava-me tranquilamente sentada no meu quarto a tomar o meu pequeno almoço quando subitamente e sem aviso prévio, a voz de Frances Banks se tornou inteiramente audível. Ela falava-me tão directamente como se também ela estivesse a tomar o seu chá e torradas a meu lado. Só que a sua voz entoava no meu cérebro e não me chegava aos ouvidos. Escutei por uns instantes, enquanto prosseguia com a minha refeição. Esta era a velha Frances que eu tinha conhecido - prática, positiva, e tão confiante quanto sempre tinha sido, só que agora o conteúdo, a intenção das palavras que empregava era apreensiva. Senti-me como uma aluna da mais alta filosofia. Eu estava certa e intencionalmente a ser ensinada, e em breve percebi que a Frances pretendia que as suas palavras fossem publicadas neste livro. Na verdade quase estava a fazer um ditado.

Frances Banks

"Tanto o psíquico quanto o espiritual," começou, "são passos na escada do progresso de Jacó. A experiência terrena é possivelmente um dos mais baixos passos da ascensão. A maioria dos seres encarnados encontra-se nesse nível, de modo que as suas mentes se tornam sobrecarregadas pela dificuldade de perceber o que seja verdade e o que seja inexplicável para elas no nível de compreensão em que se encontram.

"A minha importante questão inicial é que ambos são uma continuação da natureza progressiva do homem. A humanidade, que se encontra em diferentes estágios de evolução na jornada que empreende rumo às estrelas, ou rumo a um nível mais elevado de realização consiste em entidades dotadas de uma natureza tripla. Por exemplo, o homem é animal, humano e espiritual.

"Em vagas sucessivas de progresso, é revelado que as grandes almas, os mestres, os santos, os grandiosos intérpretes do Espírito terão evoluído desde os instintos animais até ao nível humano no seu melhor, enquanto na verdade as massas permanecem completamente ignorantes de muito para além da inteligência superior animal, da natureza animal e da completa aceitação da vida de criatura. Contido deve ser aceite que, mesmo por entre esses grupos haja indivíduos dotados de uma sensibilidade que os habilita a ter percepção de seres e de Seres, para lá da compreensão limitada das massas. Por entre esses encontram-se os psíquicos, os curadores naturais, assim como aqueles que estudam os escritos dos sensitivos (como a Santa Tereza da Ávila) ao longo das eras.

"A pessoa dotada de percepção psíquica, frequentemente chamada médium, é frequentemente inculta, pobre e retraída. Essa gente consegue e de facto contacta os recém-falecidos, e por vezes os espíritos das conexões familiares que tenham habitado durante anos (no nosso tempo) o mundo contíguo de consciência. Contudo muita vez parecem ter avançado pouco e a sua mensagem parece insignificante e trivial.

"Mas, deveremos condená-la ou encontrar satisfação na superioridade das suas palavras? Creio que não! Eu testemunhei o lento crescimento feito por muitas almas. Não é para qualquer um ser superior a esses espíritos que anseiam por uma oportunidade de contactar amados que ainda se encontrem na terra. Nem tão pouco temos o direito ou o desejo sequer de proibir tais momentos de correspondência. Todavia, quando o dinheiro entra em questão em tal comunicação, perspectivamos o perigo. Mas quem poderá julgar o conforto e ajuda que podem ser dados a uma alma pesarosa no plano terreno. Relembro a própria alegria que senti quando a minha querida madre pela primeira vez comunicou comigo.

"Não há condenação quanto ao auxílio transmitido, conquanto o receptor não permita que essa forma de conversa se torne numa droga no seu próprio caminho de vida, ou aborde o mundo psíquico imbuído de um espírito da adivinhação. Desde a minha chegada a esta consciência, tomei consciência das ciladas decorrentes do emprego casual da comunicação com o espírito. Na opinião de muitos aqui, os perigos poderiam ser muito mais remediados pelas Igrejas Cristãs. Achamos que deveria haver um lugar em que os sensitivos que sejam cristãos pudessem operar. Quanta vez um clérigo, completamente inconsciente ou oposto ao dom do espírito, não se terá visto totalmente incapaz de dar ajuda ou de levar verdadeiro conforto após a morte de um parente? Eu própria precisei medir bem as palavras que empregava, até descobrir as possibilidades de comunicação. Tais médiuns a trabalhar com a Igreja, respeitados e protegidos pela Igreja prestariam, estou certa, um enorme serviço ao exporem questão tão controversa. Certamente que a Bíblia fala abertamente dos "dons do Espírito," do seu uso e das suas salvaguardas, não?

"Mas comunicação e confiança através da conversa com espíritos tem muito pouco que ver com a adoração, ou obediência ao Espírito de toda a vida, a que Jesus chamou de Seu Pai e que na verdade é o criador de todos nós. Decerto que a nossa escada de Jacó reside na aproximação, passo a passo, da percepção da unidade que nos caracteriza com a Realidade do espírito Criativo de Deus, não? Jesus ensinou que somos feitos à imagem desse Espírito. Os poetas falam em "trilhando nuvens de glória viemos, do Céu que é o nosso lar," e igualaram o Espírito ao "Caçador do Céu," (NT: Título de um verso de Francis Thompson) que vela por nós, cuida de nós e que espera por que a alma dentro de nós O reconheça.

"Aqui neste mundo somos espírito no Espírito, contudo ainda não no Coração do Espírito. A nossa consciência ainda precisa desfazer muitos erros já feitos e de avançar em frente rumo ao Centro. Aqueles que se encontram no Espírito podem e muitas vezes enviam mensagens de esperança de volta ao mundo que tiverem deixado. Mas isso não é o mesmo que a unidade com o Espírito de Deus, o Eterno. Mesmo aqui nós continuamos a ascensão dessa Escada de Jacó. Até mesmo aqui existem passaportes para os níveis Elevados - mas cada um de nós precisa merecê-los para podermos -- conforme o mundo o descreverá -- nos juntar aos Imortais. Por Imortais existirem e sempre virem a existir. E se precisos forem milhões de anos de provação e de erro, de acção e inação, da nossa parte e da de outros, da parte de Deus ou de Mamon, (riqueza material ou cobiça) isso não significará tão só o lento progresso do animal até ao humano e ao Espírito?

"O tempo não possui substância. O homem espiritual evoluirá como e quando a Lei do Progresso estiver pronta. Há uma máxima que ainda recordo da minha experiência terrena, e que aplico agora à Lei Espiritual: "Nada consegue deter uma ideia cujo tempo amadureceu." Por outras palavras, quando o passo seguinte estiver pronto para ser dado, nada o poderá deter. Aqui percebemos e aprendemos a aplicar a Lei a toda a acção e ideia. Mas ao fazê-lo o espírito cresce o suficientemente para estar pronto para o passo seguinte. Não temos pressa de ir para o Paraíso. Ele encontra-se aí diante de nós - quer imediato quer prolongado no nosso caminho adiante - mas nós passamos para a frente para as muitas mansões existentes na casa do nosso Pai, conforme descrito por Jesus.

"Mas o Espírito nivela-nos de acordo com o nosso merecimento, e as Almas Grandiosas e os Mestres podem descer ao nosso nível para comunicarem e ensinarem. No vosso plano terreno o termo "espiritual" possui um sentido diferente.
Uma pessoa espiritual é muita vez descrita como alguém que se identifica com a religião que professa, ao passo que nesta consciência, uma pessoa espiritual é alguém que tenha descoberto e que viva na parte Espiritual do seu ser. As religiões no plano terreno, que muita vez se recusam a reconhecer umas às outras, evoluíram todas da necessidade do humano em crescimento de conhecer e de trabalhar com o Espírito de Deus dentro dele. Deixe que cite o grandioso trabalho de Robert Browning, que conheceu.

Existe um centro interior em todos nós,
Onde a verdade habita em pleno;
...Mas conhecer ao invés consiste no encetar de uma Caminho
Por onde o esplendor aprisionado possa escapar.

"Quando, no plano terreno, esta Verdade for conhecida e seguida, então o homem espiritual evoluirá, e o psíquico alcançará o espiritual, até ao âmago da própria vida.


PERGUNTAS RESPONDIDAS

Frances Banks

Pergunta se somos felizes? Essa dificilmente é palavras que se aplique ao nosso estado de vida. A felicidade, que parece ser tão importante para tanta gente não esclarecida, não possui um sentido real para nós.
Achamo-nos em paz.
Quantas almas que pensam ser felizes terão encontrado verdadeira paz, ou compreenderiam se fossem interrogadas se se encontram em paz? A felicidade é transitória. A paz da alma, que a entidade sobrevivente lentamente alcança, é de tal valor e permanência que alcança proeminência sobre tudo o mais.

Para nós, a paz é felicidade, embora duvide que muitos de vocês pensem assim. Paz em todas as coisas, em todos os modos, em todas as mentes, em todas as esperanças futuras constitui um atributo que precisa ser conquistada. A sua conquista e aceitação para nós representa a própria vida. Por ser ganha, não pelo sacrifício, excepto das nossas paixões e fúrias, mas pela Unidade com o Espírito da Paz.

Da observação feita pelos habitantes do seu mundo que aqui chegam, há poucas almas que sejam capazes de enfrentar a mudança com equanimidade, e decerto não com paz. Não resta dúvida de que, por a morte se achar erradamente associada ao temor e mesmo ao terror, a passagem da alma de uma consciência para outra acha-se carregada de ansiedade desnecessária. É por essa razão que os nossos recém-chegados, após serem saudados e acolhidos por aqueles que amaram, encontram alívio no repouso das suas mentes agitadas. Mais tarde, ao comunicarem com outras almas percebem ter sofrido traumas desnecessários. Muitas vezes as almas recordam o sofrimento antes de passarem de um mundo para o outro, mas na doce paz do seu repouso no Espírito a recordação gradualmente se desvanece.

A paz precisa ser cultivada e praticada. Trata-se de uma actividade da mente e da alma. Assim, quando o corpo é golpeado ocorre necessariamente uma enorme mudança. A Mente do Pensamento começa a trabalhar, e a mente do corpo esvai-se no nada. Cabe à alma que esteve recentemente em repouso descobrir se deseja permanecer só ou juntar-se aos seus entes queridos, ou encontrar um mestre que a instrua com respeito ao progresso que pode agora empreender, ou mesmo se existirá um local onde possa servir outros. Mas durante todo esse tempo absorverá paz, aprenderá a controlar as suas reacções ou ressentimentos para com a separação da vida material, ou a acalmar os pesares motivados pelos fracassos que agora percebe. Não sofre compulsão alguma. Ela é um espírito livre. O seu pensar encontra-se agora desprovido do terror e da preocupação; gradualmente, ela absorve a paz que as outras almas absorveram.

Permanecer em paz torna-se normal. A alegria da liberdade com respeito a todas as restrições, a gloriosa música das esferas, a beleza do crescimento natural é toda sua. Tudo isso reside além da ideia normal de felicidade. A própria alma está a aprender a responder à paz e à paz interior.

Foram suscitadas perguntas em face de declarações feitas anteriormente em Testemunho de Luz respeitante a Grupos aqui e nos Mundos mais Elevados. Por que razão deveria isso provocar dúvidas nas mentes dos homens? "Assim em cima como em baixo," sempre tem sido um marco na explicação de padrões de comportamento. É a lei da natureza, e a natureza não passa de uma parte do trabalho do Espírito. Os animais, os pássaros, agrupam-se em bandos e revoadas; os peixes em cardumes, as abelhas em enxames, de modo que é natural que os humanos se agrupem em famílias, parceiros, raças e nações, não? O semelhante atrai o semelhante. No outro mundo deveria ser encarado estranho que as mesas parcerias destinadas à aprendizagem e o serviço, faça parte da experiência da alma? Realmente é tão natural quanto no mundo da matéria, excepto que neste plano esses Grupos acham-se imbuídos de um propósito mais profundo. Por ora a alma está a descobrir a sua verdadeira identidade, e a tratar de abrir caminho para cima através dos Salões e Aprendizagem, as Escolas de Filosofia, os grandiosos Centros de Música, arte, literatura, e a compreensão da consciência cósmica conhecida dos Mestres.

Fomos criados à imagem de Deus; saímos do grande Centro de Luz do Espírito Criativo, para ganharmos forças através da experiência, antes de retornarmos a esse Ponto de Luz para nos tornarmos Um com Ele de novo; um progresso de Peregrino dotado de Vida infinita, contudo, não um caminho solitário, de almas que travam lutas individuais mas um crescimento de espíritos agrupados que ligam o seu caminho à eventual Eternidade.

"Terá descoberto o Espírito no novo despertar após de deixado o plano terreno?" Perguntei.

Fez-se silêncio. "Creio," respondeu a Frances, "que tenha maior consciência daquilo que o Espírito opera, e quase ainda incapaz de decidir o que Seja!"

"Mas, a Frances vive no Espírito," Protestei.

"Verdade. Não possuo um corpo terreno sólido e vivo na mente, que gradualmente se desenvolve na Mente eterna. Conforme Jesus nos disse, "Na casa de meu Pai há muitas mansões." E assim é. Mas descobrir as entradas e mesmo obter permissão para entrar torna-se numa questão da Mente dentro de nós obter um ascendente sobre a mente com que viemos para esta vida após a morte do corpo.

Eu tentava formular uma pergunta mais, mas a mente de Frances já se achava em contacto uma vez mais.

Jamais me arrependerei da decisão que tomei de trabalhar no mundo, nem tão pouco renunciei sequer aos votos que cultivei na Ordem. Mas agora, ao tentar descrevera minha própria chegada e experiências, sei que a vida religiosa serviu de excelente escola para a compreensão da vida do Mundo do Pensamento. Não nos tornamos de imediato anjos nem mesmo em Seres de Luz, o que constituiu crença popular durante muitos séculos até mesmo por entre as Igrejas. Faz-se essencial muito preparo para as almas recém-chegadas. Ajustamentos precisam ser empreendidos e compreendidos.

Para alguns isso chega como um enorme alívio e uma maravilhosa libertação do Espírito. Para outros que terão existido quase que completamente num nível material e sensual, muitos ajustamentos acham-se envolvidos antes que possam, por assim dizer, avançar.
Eu própria fiz isso, embora por ventura não de forma tão lenta, já que passara a minha vida a obedecer às regras da meditação e da oração do Convento.

O livro encontrava-se terminado, pensei eu, embora ainda não dactilografado, quando recebi uma carta a colocar uma pergunta que parecia suficientemente importante para ser atendida. Creio que essa pergunta terá preocupado mais leitores do que eu percebera.
Uma leitora, que eu jamais conhecera, escrevera-me acerca da vida de infelicidade e da perda de um filho vitimado pela leucemia. E ela escreveu sobre aquelas almas que terão progredido para regiões mais elevadas de sabedoria e de iluminação. Contudo, sentia-se na incerteza quanto à possibilidade delas poderem descer da sua exaltada sabedoria para ir ao encontro dos amados do plano terreno quando eles chegassem ao outro Mundo.

Pensei nisso durante alguns dias, e pedi ajuda na obtenção de uma resposta. Esta manhã a ajuda veio antes mesmo de me encontrar adequadamente desperta e eu apressei-me para a minha escrivaninha para escrever. Sei somente que provém do Espírito da Sabedoria; não preciso indagar acerca da Fonte ou do Canal.

A alma não pode perecer! A vida no corpo termina, mas a alma mais as suas recordações é instantaneamente desperta no novo ambiente em que se descobre. Contudo, poderá acontecer que essa alma seja uma estranha numa terra estranha caso, como muita vez sucede, se tiver sido atolada de exigências, desejos, e apegos para com as necessidades do corpo. Com efeito, o elemento humano durante a vida terrena terá cegado e entorpecido tanto os instintos da alma que, quando por fim alcança o lar após a morte, a alma encontram-se tão fraca e franzina quanto um recém-nascido, e carece muita vez de muita ajuda da parte daqueles que aguardam oportunidade de a saudar.

Deverá aqui ser dito que muito do foi ensinado e aceite com respeito ao pós vida foi baseado em concepções medievais, que requerem uma actualização com respeito ao mundo diferente e mais sofisticado de hoje. O outro mundo não muda, mas a concepção mais alargada que temos dele que nos conduz a um exame das provas da mudança. O outro mundo não é uma região nem um local. É uma consciência diferente.

Assim, quanto à pergunta e à resposta.

Conforme dissemos já, assim como é em cima, assim é em baixo. Aqui, no nosso mundo concreto podemos subir e podemos posteriormente descer. Mas não podemos descer sem que tenhamos subido. Da mesma maneira, aquelas almas que tiverem progredido nesta experiência terrena, ou que tiverem progredido em frente na sua experiência pós morte pode sempre descer a esferas mais baixas em paz e segurança a fim de ajudar outros espíritos na escalada, ou para saudar e auxiliar amigos e amados do mundo da matéria. Elas poderão então retornar às suas esferas avançadas quando e se desejarem. Ou, conforme muitas fazem, permanecer para transmitirem o seu próprio conhecimento.

A alma, como devemos compreender, evoluiu do Espírito Criativo a que chamamos Deus, e pela própria Lei de Deus em algum tempo não predeterminado retornará a esse Espírito, num experimento da própria Vida, desse modo obedecendo á Lei: Vai em frente e regressa. Sem tal risco na Lei não poderá haver avanço. Conforme já foi mostrado, nós copiamos no plano terreno aquilo que as nossas almas recordam do Espírito. Tão perfeita é a Lei, que o caminho para tais Esferas se acha aberto a todos, muito embora possamos precisar de incontáveis anos terrenos pata o alcançarmos. Poderão igualmente haver outros mundos onde possamos obter experiência. Nós não temos qualquer conhecimento definido presentemente. Porém, isso também poderá representar mais uma etapa no nosso progresso.
                             
A Lei de Deus a que poderemos chamar de Desafio da Luz é perfeita: encontramo-nos sempre no local adequado e no tempo certo para podermos experimentar aquilo que tivermos edificado nas nossas vidas - muito embora possa ser a morte. As guerras e os ódios resultam do facto de nos encontrarmos todos em diferentes estágios de crescimento. É uma Torre de Babel, em que todos falam diferentes línguas da Alma. O mundo é composto de almas jovens ansiosas de aventura, almas em desenvolvimento, almas amadurecidas, almas avançadas, e almas velhas e sábias; por vezes até mesmo uma alma iluminada visitará o plano terreno para um trabalho especial. Entre essas devemos colocar Jesus Cristo, Buda e outros Mestres do Oriente, assim como muitos dos santos ocidentais, que vieram à Terra com uma mensagem para a sua era. Escutemos, pois, a sua mensagem, para que o nosso avanço espiritual possa ser apressado.

O DESAFIO DA LUZ
Frances Banks

 O termo Desafio da Luz deve ser encarado como uma designação incorrecta. A Luz constitui uma bênção em todas as épocas. Ela eleva, e ilumina o caminho. Mas também representa um desafio porque se a luz for demasiado vívida ou demasiado forte poderá cegar, e conduzir mesmo ao desastre. Que será, pois, que reconheço constituir um desafio à Luz do Espírito? Os seres humanos vivem num mundo dividido de temporário materialismo e de uma espiritualidade inata. Até vir para este mundo, não tinha verdadeiramente reconhecido as dificuldades, desvantagens e fracassos provocadas por essa dualidade no homem. Permita que explique a partir da minha própria experiência terrena.

Durante os vinte e oito anos que passei na Ordem, cada momento do meu dia era predeterminado, Para além de manter a Regra Sagrada, dos momentos de oração, dos silêncios, das horas de meditação prescrita, os meus dias eram passados a ensinar. Eu dedicara a minha vida ao serviço de Deus. Ao ter aceite e elegido essa vida, encontrava-me muitas vezes cansada com aos deveres que me cabiam e as responsabilidades. Mas agoira vejo como fui salvaguardada nesta vida do Espírito. Encontrava-me abstraída do mudo material. Não lidara com dinheiro. O meu salário era directamente pago à Ordem. Quaisquer direitos recebidos pela publicação dos meus livros também passaram a fazer parte do rendimento da Ordem. Mas eu encontrava-me satisfeita e em paz. Não foi senão quando o meu Ser Interior me ter incitado para sair pelo mundo para aprender mais acerca dos Mistérios do Espírito e da Matéria que a noção de desafio fez violentamente luz em mim.

O poder do dinheiro começou a afectar-me a vida, o mundo, descobri, era um lugar hostil, a Luz do Espírito foi-se ofuscando, na luta diária pela existência. O desafio achava-se diante de mim, e talvez a minha vida dividida tenha feito com que a minha vida estremecesse, e eu hesitei. Agora encontro-me em posição de julgar tudo de modo impassível. Então achava-me despreparada para as dificuldades e provações da existência humana usual. Certa vez decidi mesmo regressar ao Convento; encontrava-me só e desesperada, e resolvi telefonar à Madre Superiora e pedir permissão para regressar.

Foi num dia de muita chuva, e eu encontrava-me a alguma distância do Convento, e quase não tinha dinheiro suficiente para regressar. Pareceu-me que descera inúmeras ruas, à procura de um quiosque para telefonar. Encontrava-me ensopada até aos ossos e profundamente infeliz. Finalmente encontrei aquilo que buscava. Ansiosamente entrei e peguei no auscultador. A linha estava avariada. Não podia voltar. Encetei caminho de volta à minha hospedagem enfadonha. Mas nessa noite soube aquilo que precisava fazer. A porta do meu anterior retiro tinha-se-me fechado. Havia um outro caminho a seguir, e um trabalho diferente a ser feito.

Decidi regressar à minha própria nação, onde, com a ajuda de algumas amigas generosas, me foi providenciado dinheiro e roupas. A segunda parte da minha vida tinha começado. Provou-se ser o passo certo a dar, pois obtive a posição criada de raiz de Tutora Organizadora da Prisão de Maidstone, e eu gostei do trabalho e da nova vida. Foi aí que me tornei amiga de Helen Greaves. Eu chamava-a de meu Telefone Celestial, e ela provou ser digna desse cognome. Mais tarde, para minha grande alegria, a minha Madre Superior falou com frequência comigo através do "Telefone" da Helen. Então fiquei a saber da recém formada Associação das Igrejas para os Estudos Psíquicos e Espirituais, e Helen e eu juntámo-nos a ela.

O Caminho tinha-se aberto diante de mim. Eu não estava errada nem perdida. O Espírito tinha-me conduzido. A solidão do Convento deu lugar ao desafio do espírito de Luz na plataforma aberta. Mais tarde ocupei o pequeno apartamento por cima do da Helen na região da Addington, e formamos o primeiro de muitos grupos dedicados à meditação. Ele prosseguiu por mais de dezoito anos. A minha doença veio como um choque e a minha passagem para a vida seguinte... como uma tristeza, já que tinha que deixar o trabalho por acabar. Tentei mostrar neste livro como o Espírito nos desafiou a ambas, á inspiração e à escritora. Caberá ao leitor decidir se o Desafio foi satisfeito. Só o tempo revelará se a Luz brilhará por meio da ajuda a quantos duvidam ou se temem a força dessa Luz.

Na minha presente consciência, posso olhar para trás e compreender que o meu tempo na Terra se destinou a esse trabalho, e como o meu Convento sossegado me preparou para ele. Eu morri para poder aprender um conhecimento e uma compreensão maior que podia enviar num livro para ser recebido pelo mundo material. Uma das lições, que espero seja revelada na história da minha vida, é a de que o Espírito conduz. O caminho certo está sempre aí para o tomarmos, mesmo que seja difícil. A Luz lidera sempre! A luz que brilha através dos outros que pode acabar com dificuldades e obstáculos insuperáveis, mesmo através da morte do corpo físico. Jamais se desvanece por completo. Unicamente a nossa visão se debilita e nos leva a desistir.

Aqui a Luz resplandece com brilho e o assombro e a majestade do Espírito é mais facilmente compreendida por essas grandes Almas que progridem para cima em direcção do Coração de Deus. O Centro da Luz é inspiração e força e propósito para aqueles como eu, que aprendem a confiar no Espírito. Possa este livro inspirar os viajantes na Terra a perceber, conforme Jesus ensinou, que o Reino dos Céus se encontra dentro deles, a confiar na sua Luz e a aceitar o seu Desafio.

Contudo a Luz pode ser usada para desafiar. Ela pode revelar o que a escuridão oculta. Um homem ou uma alma (se quisermos) pode, movido por razões particulares esconder-se de outros, perder-se, por exemplo, na escuridão de uma floresta, ou no deserto das favelas urbanas. Da mesma forma que se usa uma lanterna acesa para procurar uma pessoa perdida, também a Luz do Espírito ilumina o caminho para os Filhos Pródigos do vosso mundo e de todos os mundos. Quando a Luz os busca, eles são revelados conforme realmente são. Então o mau e o bom são expostos, as promessas não cumpridas, os dons por desenvolver, e os anos desperdiçados. A luz revela-se, desafia, e graças a Deus, frequentemente despertam. Pelo que o Desafio da Luz se pode tornar na Luz que Desperta.

Contudo há milhões de homens e mulheres que passam a vida inteira sem alguma vez questionarem a razão de viver. Entorpecidos, adormecidos, eles parecem dormir ao longo de toda a promessa das suas vidas. Jamais se interrogam: “Quem sou eu? Que sou eu? Porque estarei aqui?” A religião está confinada à Igreja. A Luz do Espírito indu-los a despertar. Mas como hão-de despertar, pergunta você. Voltem-se para dentro, descubram o vosso ser interior. Meditem sobre vós e na relação que têm com o Espírito de Deus dentro da vossa própria alma, e lembrem-se as palavras registadas de Jesus: “O Reino de Deus acha-se dentro de vós.” “Eu (o Espírito) se eu me erguer atrairei todos os homens a mim.” “Peçam e ser-lhes-á dado; procurem e encontrarão; batam e abrir-se-vos-á.” “Olhai, Eu estou convosco até ao fim do mundo.”

Helen Greaves

Tais meditações poderão ser postas em prática enquanto arrancam as ervas daninhas do jardim – ou durante uma caminhada pela região em grupos de meditação. Todos temos diferentes jeitos de perceber a Unidade que temos com Deus. O Espírito Santo representa o mediador e o desafiador. Trabalhar e viver na Luz do Espírito constitui a manifestação de Deus em nós. A luz do Espírito é o Desafio da Luz. Nós somos tanto espíritos agora quanto o seremos sempre. Somos irmãos e irmãs em todas as terras, em todos os mundos, em todos os estados da consciência, quer despertos na Luz ou entorpecidos pela traição, pela ganância, pelo medo, pelas falsas doutrinas ou pela estupidez.

Os homens e as mulheres tornaram o Espírito Criativo num Homem-Deus, e não conseguiram perceber que somos parte desse Espírito Criativo.
Nós aqui somos Espíritos tal como vocês são espíritos nos vossos corpos terrestres. A nossa consciência foi libertada da dualidade do pensar terreno, contudo, somos o mesmo no Espírito. Ainda amamos aqueles que amamos na terra, ansiamos por os ajudar quando sucumbem ao mal, ao temor, ao ódio, tudo quanto enegrece a Luz do espírito neles, e os conduz ao desastre. Podíamos, (e por vezes fazemo-lo) ajudar a conduzir essas vítimas a uma nova compreensão e paz. Ansiamos por fazer mais. Mas – há um fosso criado – não pelo Espírito, nem por nós, mas pelo homem. O homem teme e desconfia da comunicação com aqueles amigos, mestres e inspiradores que considera mortos. Mas nós não nos encontramos mortos. Nós vivemos.

Contudo, desde os primeiros tempos da história homens sábios, profetas e santos possuíram o dom de serem capazes de comunicar comos espíritos. Só que esses poderes foram comummente abusados e charlatães tiraram muita vez proveito fingindo predizer o futuro. Por causa de tal negligência o homem tornou-se cético o que levou que a clarividência e a clariaudiência viessem a ser varridas da sua vida espiritual. Nós nesta consciência sentimo-nos entristecidos pela humanidade. Mas ainda há homens e mulheres que possuem o olho capaz de ver, ou o ouvido capaz de ouvir, assim co aqueles que possuem o dom da curam e notamos que o dom da verdadeira cura, tirado do Espírito, estão lentamente a ser aceites pelas Igrejas e por muita gente.

É somente quando o dinheiro predomina que tais dons são contaminados e deteriorados. A Bíblia explica que esses são dons do Espírito que não foram criados para o progresso material. Ninguém pode esperar ser recompensado com pagamento de dinheiro por tais serviços. Esses dons são do Espírito e serão recompensados pelo Espírito. Esse tem sido o erro do homem. Os dons do Espírito são livres e deviam ser livremente distribuídos. Tais dons, caso sejam aceites e reverenciados pelas Igrejas, poderão confortar os enlutados, e guiar aqueles que se encontrem em apuros com dificuldades terrenas. O clero das paróquias prega e realiza o trabalho da caridade, mas da minha própria experiência e da de outros parece que não esteja dotado de um olho interior nem de um ouvido que escute que possa trazer um verdadeiro conforto espiritual ao enlutado.

O dinheiro é uma forma de câmbio instituída para o pagamento de coisas materiais, e jamais deveria achar-se incluído no dom livre do Espírito. Mas a doação de dinheiro a instituições de caridade não contamina o Espírito, nem tenta aqueles dotados dos Dons a ir vendê-los no mercado. Para as Igrejas, e as pessoas, a aceitação dessas pessoas dotadas não as manteria afastadas do ganho financeiro mas também nos ajudaria a ajudá-los a vós!

Ao vermos o vosso mundo a deslizar para o caos por causa da dependência de que padecem da riqueza e do poder terreno, ansiamos por os guiar e ajudar. Mas entre nós há este fosso. O vosso mundo precisa criar uma ponte sobre este vasto mar de ignorância, medo e cobiça que por tanto tempo provou ser uma barreira intransitável.

Mas, que dizer das comunicações interiores e privadas que ocorrem no santuário do nosso próprio coração? Pensamentos de amor e bênçãos remetidos para os amados que partiram, como pequenas nascentes no deserto. Eles tranquilizam os viajantes neste mundo quanto ao facto dos seus amados continuarem a recordá-los. Nós aqui recordamos aqueles que ainda se encontram na jornada da vida. Não se esqueçam de nós.

O homem teme aquilo que desconhece. Os seus instintos têm tendido a ridicularizar aquilo que não compreende. Isso foi ilustrado através da vida da inventores que se atreveram a irromper pela ignorância comum da consciência terrestre. A possibilidade de que o homem pudesse criar uma máquina que conseguisse superar a atracção da gravidade e erguê-lo no céu para poder voar em aviões com asas foi ridicularizada. A consciência terrestre mantinha que tais eventos eram impossíveis, improváveis e mesmo ridículos. Porém, a consciência Cósmica reconheceu não só a probabilidade como também a possibilidade. E assim chegamos a voar. Chegamos a caminhar na lua. Atingimos os outros planetas. Superamos o problema do espaço. Dentro da mente do homem se acha o saber – mas com o tempo e através do trabalho ele consegue pôr esse saber em acção.

Ao longo das eras, o homem conversou e maravilhou-se com a mente que Jesus Cristo possuía. Mas Jesus insistiu que essa Mente se encontrava em todos os seus ouvintes, caso eles se libertassem unicamente da crença terrena, e reconhecessem a nova consciência em si mesmos – e na consciência e na crença na Mente dentro de nós, esse Espírito Interior, esse Esplendor Aprisionado que se é preterido pelo medo e pela ignorância. Muito devagar, o homem está a descobrir que não precisa ser limitado pelo conhecimento terreno.

O caminho para as estrelas está a ser aberto pelos grandiosos milagres da moderna tecnologia, as maravilhas da moderna cirurgia, e pelos novos empreendimentos da mente. O homem pensante está a perceber que a verdadeira consciência constitui o reconhecimento e a aceitação do espírito de Deus em cada alma. Jesus soube disso e ensinou-o; ele demonstrou os seus prodígios e foi temido e morto por isso. Mas a semente foi lançada. Há uma consciência profunda em todos nós, e quando a fé no Espírito é mantida, não há limite no seu desenvolvimento. Ainda assim, com todas as maravilhosas possibilidades a abrir-se diante da humanidade, a humanidade está a destruir-se. Hoje o ódio, o medo e a inveja são os nossos deuses e a nossa Terra encontra-se em perigo de ser destruída por eles. Irá a humanidade provar que não digna do Espírito do seu Criador?

Os Grandes que viveram na Terra, no seu conhecimento e compreensão, sempre pregaram a paz, a unidade, o amor, a compaixão. Sem essa consciência espiritual, as maravilhas e revelações do Espírito no homem não poderão florescer. O homem foi criado por meio do Espírito da Eternidade. Mas ao longo da história a evolução do homem tem sido interrompida por holocaustos e destruição. Todas as nossas orações serão inconsequentes até que aprenda o significado da própria vida. Para poder realizar um Esplendor Interior a natureza da alma deve governar os desejos do corpo. Por o corpo ser passível de perecer, mas a alma ser imortal. Quando conseguir conceber uma Nova Era o desenvolvimento do homem terá alcançado um pináculo.

O Espírito do Progresso enriquece as almas do homem. Que não seja empregue na destruição da humanidade. Tal Luz é esmaecida e enegrecida pelo poder ilusório da existência terrestre. O progresso emerge da dor, da luta e do uso da Vontade. Mas que vontade será essa que pode enfraquecer até perder todo o seu poder? Ela pode ser usada para o bem, para o trabalho positivo, e progresso em benefício do utilizador, assim como do dos seus vizinhos, o do seu país, e mesmo o do Mundo. Mas esse mesmo poder de vontade pode ser tão desorientador que opere somente em prole da satisfação própria e do egoísmo. Isso consta da liberdade de acção do homem que lhe foi dada pelo Criador – um dom que carece de cuidado e de controlo.


Talentos a Usar

Talentos a usar, talentos a usar:
Agora com o Teu Espírito, todo o homem infunde;
O desvio do seu coração do abuso
Talentos inatos, quando recusar
A pausa e a meditação: - Como deve usar
Os talentos atribuídos – talentos a usar.

Giles Lang

Ao longo de eternidades de progresso o mundo da humanidade ainda se debate com os efeitos do seu livre-arbítrio. Mas esse livre-arbítrio não deve ser completamente divorciado do seu Criador. Desviar-se da luz é causa de destruição do progresso no mundo moderno.

Parece pela história que esta não será a primeira vez em que o homem tenha confiado por completo o seu próprio poder, ambição e ganância. Só que a presente desconfiança entre as nações abriu uma força negativa de temor. No presente, os habitantes deste - e possivelmente de outros mundos - vivem no nevoeiro escuro do temor. Algumas das melhores mentes estão a ser usadas unicamente na invenção de novas e mais terríveis armas de guerra, num terrível volume de tempo e de dinheiro e os melhores materiais são empregues na sua construção. Onde nos terá esse livre-arbítrio conduzido? E a que desastre nos conduzirá? Esta chamada civilização tornou-se distanciou-se com relação ao Espírito da sua criação. Não mais crê que um viver com base num progresso positivo possa ser estabelecido nas pessoas e nas nações.

O medo pode ser superado pela fé, e a crença pode modificar as vidas individuais de comunidades e de países.


O EXPERIMENTO

Um certo fim-de-semana, lá pelo final dos anos sessenta, logo após o Testemunho de Luz ter sido publicado, eu encontrava-me presente numa Conferência sobre a Vida Espiritual, e dei uma palestra sobre o assunto. Na manhã de Domingo, um homem que eu conhecia mal, e que tinha estado na audiência veio até mim e falou-me. Era um velho médico reformado.

“Para minha surpresa,” disse, “gostaria de falar consigo, Helen,” pelo que lá fomos juntos até um esquina de um grande salão, e sentámo-nos. Ele começou quase de imediato: “Sinto que devo contar-lhe algo.”

A história, conforme narrada em termos simples pelo doutor, ocorrera por volta de finais de 1963. Esse tinha sido um ano de seca na Grã-Bretanha e a terra ressecava. Recordo-me que enquanto conduzia meu pequeno carro pela região nas datas das minhas preleções, me senti chocada com a desolação do nosso belo campo. Nos leitos dos rios dificilmente se via lama enegrecida ou um pingo de água, onde uma forte corrente tinha anteriormente corrido. Os campos encontravam-se secos, as colheitas tinham fraco aspecto e longas extensões de solo fértil assavam no tempo há muito tempo seco.

Essa fora uma seca realmente má, e era óbvio que se seguiria uma pobre colheita, e que iria haver escassez de colheita no ano seguinte. A nação achava-se preocupada. Lembro-me disso muito bem.

Enquanto observava a face tranquila do médico, deixei-me cativar pela simplicidade da história que me narrava. Contou-me, pois, que seis homens e mulheres de fé, cultura e educação, se tinham reunido para debater a tragédia que ameaçava toda a nação. Não mencionou os seus nomes embora acreditasse ter reconhecido a descrição de um deles.

Nessa reunião surgiu a discussão do que poderia ser feito para evitar o possível desastre na Grã-Bretanha. Eles iriam depositar a fé que tinham no Espírito de Deus, e decidiram-se por um plano de acção. Os seis iriam até um sítio tranquilo na Suíça, onde viveriam completamente isolados, num chalé alugado, durante seis dias. Cada dia seria passado em profunda meditação, cada um deles a experimentar a Unidade do espírito de Deus no homem. Não pediriam ajuda, nem orariam pelo alívio da fome que ameaçava. Eles saberiam e a fé e o conhecimento que tinham (conforme Jesus tinha dito) moveria montanhas. Durante esses seis dias em silêncio mal falaram uns para os outros até mesmo durante as suas simples refeições. Estavam a empreender um grande experimento.

Viveriam no Espírito, com consciência de se enquadrarem nas Leis de Deus enquanto Seus filhos e sabiam que o Espírito responderia. No final do período de seis dias retornaram às suas casas, refrescados e certos de que tudo correria bem. Na véspera de Natal desse mesmo ano, começou a nevar. Consigo recordá-lo por me lembrar dos primeiros flocos ao conduzir de regresso a casa com uma amiga quando vínhamos de uma pequena festa de xerez anterior ao Natal. E a neve, o gelo e as temperaturas baixas continuaram até vésperas de Abril. Lembro-me por ter trancado o meu carro na garagem no dia a seguir ao Natal, e a relva ao redor das portas da garagem fortalecia com a neve e o gelo, e as ter trancado até Abril.

De súbito, conforme muitos se lembrarão, a neve parou, o descongelamento veio e a terra tinha água a correr. Esse verão de 63 trouxe uma colheita frutífera. A relva estava verde de novo, o gado pastava nos campos repletos de flores da Primavera. O Inverno tinha passado e o perigo de um aterra árida tinha desaparecido.
O médico terminou o seu recital com estas palavras: “O Espírito opera, sabemo-lo.” Muitos poderão zombar dessa estória, mas foi um episódio sagrado para aqueles poucos crentes desconhecidos. Decerto mostra que existe uma verdade nas doutrinas que referem que a Luz pode Iluminar as trevas e dúvidas da mente do homem. Se a fé, tão pequena quanto um pequeno grão de semente de mostarda é capaz de mover montanhas, decerto que uma fé inteiramente abrangente no Desafio da Luz pode remover montanhas de temor, os ultrajes do mal, a suspeição e a ganância, e os arsenais de armas mortais em que hoje colocamos a nossa fé. Não o poderíamos tentar? Não em cerimónias nem rituais, não em orações de súplica mas no silêncio e conhecimento e fé sem dolo profundamente enraizada nas nossas próprias almas. Precisamos depositar a nossa fé nessa Luz que é agora desafiada no seu período mais crítico da nossa história.

“Sinto que precisava contar-lhe, “ terminou o médico, “não sabia porquê. Mas agora creio que sei porquê.”


Frances Banks

Dado que não fiz menção ao efeito da morte súbita motivada quer por falha cardíaca ou em resultado de um acidente gostaria de incluir as experiências reconfortantes daqueles que sofreram tais tipos de morte inesperada. Após o ter discutido com eles, dei por mim a pensar na minha própria experiência. Conforme já tinha explicado, o abandono do corpo transitório não foi nada em comparação com a dor lancinante que ele suportou durante aquelas semanas anteriores à morte. Para mim, foram mais difíceis de apagar da minha consciência do que o completo abandono do próprio corpo.

Aqueles aqui cujos últimos momento de vida terrestre consciente foram ameaçados por um holocausto iminente qualquer, asseguram-me de não ter recordação alguma do abandono do corpo ou do que tenha ocorrido imediatamente a seguir. As lembranças que têm parecem estar envoltas no abençoado estado de inconsciência.

A morte súbita não é prolongada na angústia conforme os humanos acreditam. Sem que o perceba a alma foi preparada, e tudo é conhecido. Conforme fomos instruídos, nem um só pardal cai ao chão sem que o Espírito tenha conhecimento disso. Tal como foi preparado no meu próprio caso a mente humana da vítima parece ser anestesiada. O Espírito encarrega-se do processo. Quando a alma desperta nesta consciência encontra-se em paz, muito embora de início provavelmente não perceba que tenha abandonado o lar humano.

Aqui sinto que isto suscite perguntas na mente do leitor. Onde fica o céu? Para onde terão ido os nossos entes amados? A resposta está em que o céu encontra-se por toda a parte. E não existe uma partida assim. Os nossos amigos que partiram ainda se encontram ao redor daqueles que amaram na Terra. Eles não se foram embora. Por a morte não representar uma partida, mas mera mudança de consciência. A consciência que temos nesta experiência nova é bastante diferente da consciência humana. Temos consciência de um “viver” mais amplo, de uma introdução a uma maior compreensão… mas entre a vida espiritual e material, um enorme fosso se apresenta.

Contudo, encontrámo-nos ao vosso redor, conscientes dos nossos amigos, cientes do estado do mundo, e ansiosos por os ajudar e confortar e por lhes trazer à Terra o Desafio da Luz…

Tal como filósofos, artistas, inventores e exploradores definem o padrão do tempo que despendem na terra, também os Grandes, as Almas Avançadas aqui conduzem as massas adiante a um maior entendimento. No mundo da Terra, barreiras de nascimento, herança, educação e sexo limitam-nos no nosso progresso e tristemente as massas permanecem desinformadas.

Aqui todos têm igual oportunidade. Uma alma progride à medida que aprende a absorver e a unir-se à Luz Desafiadora do Espírito Eterno. O caminho acha-se aberto a todos. A própria alma elege o seu próprio caminho rumo à salvação. Aqueles que, ainda na Terra, tiverem acreditado que fazem parte da Luz Iluminadora do Espírito seguramente avançarão mais rapidamente rumo às Elevadas Esferas onde conhecerão aqueles Seres que no seu tempo foram grandiosos homens e mulheres, e ser-lhes-á permitido aprender mais dos mistérios da vida e da evolução.

Nos Salões da Aprendizagem tais mistérios são explicados para poderem enriquecer a vida da alma. Por uma eternidade o homem tem regressado por iniciativa própria para descobrir o Centro dentro dele próprio. É nesse centro mais profundo que é a evolução de Deus, o Espírito Criativo n’Ele criado.

À medida que as almas progridem rumo a uma compreensão do grande desafio do Espírito Eterno, também sobre elas sobrevém a ansia por tentar de novo, de retomar o que tiverem alcançado num avida material, no renascimento e nova experiência dos planos inferiores.

“O céu encontra-se ao nosso redor na nossa infância,” escreveu Wordsworth. Ai, que este plano inferior de pensamento procura destruir a Verdade. Em vez disso, são-nos inculcadas meias-verdades que passamos a aceitar, e assim moldamos o nosso futuro nos degraus escorregadios de riquezas e poder. Jesus trouxe-nos a mensagem da Verdade, porém, a Sua mensagem foi demasiado simples para a humanidade. Levou dois mil anos de meias-verdades a arrastar-nos para baixo a uma sociedade alicerçada no medo onde o mal e a luxúria dominam. Sem dúvida que a própria Terra estremecerá com a sua carga oculta de armas nucleares, e os mares enfurecem-se com os vasos de guerra submersos e os seus torpedos de morte.

A lição mais urgente que a humanidade precisa aprender e praticar é a da sobrevivência da própria raça, e a de que o homem não pode matar o seu vizinho. Só poderá destruir o corpo, que eventualmente retornará à Terra de novo.

O Espírito do Homem vive e vai para o lugar que tiver reservado, quer seja chamado céu ou qualquer outro nome. Aí, por entre a sanidade e a beleza aprende a reconhecer as faltas que cometeu, os seus fracassos e a verdadeira compreensão da verdade. Por o Espírito do homem ser indestrutível.
Existem, claro está, muitas mansões e outros mundos, embora pareça que a maioria das almas que retornam voltem à Terra para as suas vidas futuras para poderem saldar o seu Carma. O Espírito do Criador opera em nós e por meio de nós, e ao longo de toda a nossa vida e pensamento. Foi bem dito que “aquilo que pensamos, somos.”

Desse modo, se pensarmos com o espírito e através do Espírito, que é a Lei de Deus, fortaleceremos os laços que temos com o Espírito, e descobriremos que o Espírito trabalha para nós. Se concentrarem pensamento na paz e no amor essas qualidades serão vossas. Ao contrário, pensamentos de ódio, medo, ciúmes etc., são negativos, e produzem o próprio desastre que tiver sido receado.
(Continua)
In “ChallengingLight,” de Helen Greaves
Traduzido por Amadeu António

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