terça-feira, 11 de julho de 2017

O LIVRO DE CHUANGTZU - 1ª PARTE

CHUANG TZU

Tradução: Amadeu António Tavares Duarte
duartfil@gmail.com

ÍNDICE

CAPÍTULOS INTERIORES

1 Livre e Fácil Vaguear
2 Tornando todas as Coisas Iguais
3 Conduta Para a Vida
4 Questões do Homem e do Mundo
5 Sinais de Plena Virtude
6 O Verdadeiro Mestre
7 Curso Natural de Reis e Governantes

TEMÁTICA DOS CAPÍTULOS

capítulo 1
livre e fácil vaguear
As pessoas devem livrar-se da escravidão do mundo mundano e esforçar-se pela liberdade espiritual absoluta. Quando somos atraídos pelos desejos mundanos, o nosso espírito fica vinculado a eles.
Somente se o nosso espírito puder "vagar pelo espaço ilimitado," ficará livre.
O título do capítulo refere o lazer por ser natural e gratuito. É feliz porque Chuang Tzi era um crente na alegria celestial, que ele elaborou num capítulo posterior.

capítulo 2
tornando todas as coisas iguais
O capítulo mais importante que incorpora a filosofia de Chuang Tzu. O Tao é o mestre de todas as coisas do mundo. A ideia central deste capítulo reside na igualdade entre pessoas e todas as coisas do mundo. Uma obstrução à igualdade está no facto de usarmos o preconceito para julgar as pessoas e as coisas ao nosso redor. O nosso primeiro esforço deve ser de eliminar o preconceito por esquecer o "eu e o outro."

capítulo 3
conduta para a vida
O essencial para manter uma boa saúde é seguir o curso natural dos acontecimentos e não se deixar perturbar por desejos materiais e emoções pessoais. Façamos as coisas à maneira da natureza e teremos um enorme sucesso isento de esforço. Sigamos os princípios do Tao e procederemos sem desvio.

capítulo 4
questões do homem e do mundo
A guerra e a tirania tornam o mundo impróprio ao viver. Os idealistas inocentes anseiam por experimentar as suas convicções para melhorarem as condições para as pessoas mas obtêm poucos resultados significativos. Como as relações públicas são complicadas, a melhor filosofia para lidar com o mundo está em possuirmos um espírito livre e vazio e seguir o curso natural dos acontecimentos.

capítulo 5
sinais de plena virtude
Um ensaio sobre a moralidade. Se ao menos tiverem uma moral elevada e perseverarem no Tao, os homens tornar-se-ão modelos para outras pessoas, mesmo que sejam deformados. É o moralmente deformado que é verdadeiramente deficiente. A força interior de uma pessoa excede de longe em importância a deformidade externa.

capítulo 6
o verdadeiro mestre
Com o Tao como seu mestre, as pessoas podem alcançar o Caminho se se misturarem com a natureza, ignorarem a vida e a morte, lidarem com o mundo na quietude e esquecerem o mundo. O homem e a natureza não vencem um ao outro. Devemos honrar o grande Tao por ser nosso mestre e seguir os verdadeiros homens como um modelo no nosso cultivo pessoal.

capítulo 7
curso natural de reis e governantes
Um ensaio sobre política. Para governarem o mundo, imperadores e reis devem seguir o curso natural dos eventos e não exercer quaisquer actos, para que o país volte ao estado primitivo das coisas. O melhor governo é aquele que adoptar uma política de não-acção, isto é, ações tomadas com naturalidade sem recorrer à artificialidade, à astúcia ou ao egoísmo. Claro que é mais fácil dizer do que fazer. Veremos como Chuang Tzu descreve isso.

Introdução

O Chuang Tzu é o produto do turbulento período que antecedeu a Dinastia Chin. Nasceu na cidade de Meng, no Estado de Song, parte da actual província de Henan, em 369ac. Certa vez ocupou uma função no Jardim de Laca da sua terra. Não sabemos que tipo de departamento seria esse, mas aparentemente não o manteve por muito tempo, por detestar os protocolos oficiais. Foi casado e teve filhos mas a mulher morreu antes dele, conforme se depreende dos seus escritos. A família fora pobre e por vezes sofrera escassez de arroz.
Da sua leitura atenta se depreende igualmente que teve discípulos, embora não se conheça nenhum deles pelo nome, com uma pequena excepção, que aparece no capítulo 20. De facto conhece-se muito pouco sobre o homem Chuang Tzu, embora isso não nos deva surpreender, já que se sabe menos de Lao Tzu.

Mas quem foi Chuang Tzu? Foi um Taoista, que enquanto tal acreditava que o universo se formara sem um objectivo ou propósito. Tao é a natureza, o Criador, e não possui consciência nem julga. Suporta incondicionalmente todas as coisas, tanto vivas quanto não vivas, e não aceita retribuição. Ele refere de modo sucinto que “O Céu e a Terra e eu vivemos juntos; a miríade de coisas e eu somos um só.” Realça uma união com a natureza por um lado, e com todas as coisas por outro, o que constituía uma ideia nova à altura. Lao Tzu não chegara tão longe.

Muito embora cite Lao Tzu inúmeras vezes na sua obra, o Tao de Chuang Tzu é muito mais refinado do que o do seu antecessor, pelo que não se poderá referir que tenha desenvolvido as ideias de Lao Tzu, do mesmo modo que Mêncio não desenvolveu as ideias de Confúcio, mas ambos deram uma contribuição muito própria ao Taoismo. De facto, no notável papel que desempenhou deveria ser considerado co-fundador do Taoismo.

Sabe-se muito pouco da educação que teve. De acordo com Cheng Chuanying, o seu tutor fora o Príncipe Changsang, porém, desconhece-se quem esse tutor tenha sido. Decerto que terá tido conhecimento da obra de Lao Tzu, o Tao Te Ching, já que a cita muitas vezes ao longo do livro. Eles viveram separados no tempo por uns duzentos anos, porém, não existe registo algum da transmissão da doutrina de Lao Tzu a Chuang Tzu por meio de quaisquer intermediários. O mestre Chuang foi contemporâneo de Mêncio, o grande elaborador do Confucionismo, contudo, jamais o menciona nos seus escritos, tal como Mêncio alguma vez menciona Chuang Tzu nos seus. Pode-se presumir que ambos esses dois homens brilhantes jamais se tenham encontrado. Mas a relação que Chuang Tzu teve com Lao Tzu foi diferente da que Mêncio teve com o Mestre Confúcio. Mêncio mostrou reverência pelo Mestre, enquanto Chuang Tzu jamais demonstrou qualquer sentimento formal de respeito por Lao Tzu. De facto, dirigia-se a ele pelo nome. Isso reflecte o carácter informal que marcava as relações pessoais.

Certo será que, se não começou por ser Confucionista, teve grande admiração por um dos discípulos do Mestre, e sabe-se isso por ele ter feito inúmeras referências a Yan Hui, a quem verdadeiramente admirou pelo estilo de vida simples que levou. Pode ter tido acesso aos rascunhos dos Analectos, por ser possível que tenha tido contacto com a segunda e terceira geração de discípulos do Mestre na sua juventude. Mas é claro que deixamos isso a cargo da hermenêutica.
Chuang Tzu era um observador judicioso; utilizava temas não atraentes para a maioria das pessoas e transforma-os em puros ensaios filosóficos. Escreveu sobre a sombra e a penumbra e sobre sonhos, e pela primeira vez chegou à conclusão de que talvez a vida não passasse de um sonho. Mas acima de tudo Chuang Tzu foi um humanista, que prezava enormemente a força moral dos fisicamente deformados, não com comiseração pelos seus infortúnios mas pela admiração que sentia pelas suas conquistas que aqui expressa, e criticava quantos os olhavam com sobranceria ou desprezo. Aquilo que ele considerava verdadeira deformidade apontava-o nos que padeciam de uma moral distorcida.

Facilmente se constata que Chuang Tzu era contra o sistema e as instituições, e tinha desprezo por governantes e pelo governo. Isso tinha muito que ver com o amor que tinha pela liberdade. Conta que certa vez um príncipe do Estado de Chu o nomeara para um cargo, que declinou por preferir, conforme ele próprio narra “Ser como a tartaruga que preferiria estar a abanar a cauda na lama a estar morta no relicário.” Noutra altura, enquanto foi de visita ao Estado de Wei, correram rumores que ele iria competir com o amigo nomeado para lhe usurpar o cargo, o que deixou esse amigo profundamente preocupado. Ao constatar o sucedido ridicularizou o seu insensato amigo equiparando-o a uma coruja que tinha apanhado um rato morto e que receava que a fénix lho viesse tirar.

Chuang Tzu revela um certo cinismo conveniente, que reflecte na insatisfação que sente em relação ao sistema social e à ordem política do seu tempo, e critica o establishment pelas suas práticas hipócritas da benevolência e da justiça, e não se cansava de apontar a sagacidade como o cerne da corrupção e do engano. Esse é um ponto crucial da sua obra, porquanto põe o dedo na ferida do conhecimento do bem e do mal como verdadeiro nódulo do problema e depois ilustra a prática de tal hipocrisia (Veja-se 10:1) e faz da doutrina de Confúcio o centro dessa hipocrisia, seguramente por a sua doutrina já ter sido objecto de distorção que a tornara num sistema social corrupto.

“Adoptam pesos e medidas, contagens e selos para formalizar as credenciais, e são roubados à mesma. Promovem a benevolência e a justiça a fim de corrigir as irregularidades, e roubam igualmente. Aquele que furta uma fivela de cinto é executado, enquanto aquele que rouba todo um estado é nomeado Príncipe. Desse modo, benevolência e justiça só prevalecem para interesse dos príncipes. Assim, é por causa dos sagazes que não se livram dos bandidos.”

Também foi crítico do código penal da época, e denunciava a desumanidade das medidas que imputavam penas como cangas e grilhões, antes que Moistas e Confucionistas se indignassem. Basicamente porém, referia que se a sagacidade e a astúcia não fossem abolidas do comportamento, o mundo não conheceria a paz.

Chuang Tzu foi tanto um filósofo como um gigante literário, senhor de uma belíssima prosa e de um vocabulário discreto que tinha um jeito próprio de expor as ideias de Lao Tzu. Enquanto aquele as enunciava de forma concisa, Chuang Tzu expandia-as com alegorias que lhes emprestava realismo e clareza de compreensão. Era comum usar personagens históricos fora de contexto para ilustrar o que queria transmitir, conferindo-lhes tanto mais peso quanto as despia do envoltório de eminência de que se rodeavam, pelo que não é estranho vermos Confúcio a falar como um propagandista Taoista. Também era perito no aforismo, que, juntamente o com as frases curtas que usava, acentuam autoridade e assertividade às máximas que proferia.

Por mais de 2000 anos o trabalho de Chuang Tzu tem sido valorizado pela originalidade de pensamento que apresenta, assim como pela singularidade de estilo literário. As análises críticas que faz do mundo real e a penetrante compreensão que tinha do mundo abstracto não encontram paralelo na literatura Chinesa. Mais, a sensibilidade que demonstra perante as desigualdades humanas e sofrimento, e a ridicularização que faz dos males do governo ainda brilham qual farol na actualidade.
                                                                                                                          
Talvez devêssemos abordar o Chuang Tzu contextualizando-o, antes de mais, histórica e culturalmente, e preocupar-nos por traçar um paralelo da importância que outras figuras chave da história do pensamento Chinês tiveram, bem como da influência que exerceram no texto.
Confúcio foi um homem de elevada estatura, tanto física como na reputação moral de que foi objecto. Foi um moralista profundamente conservador, cujas doutrinas ficaram registadas nos Analectos, que consistem essencialmente em diálogos mantidos entre si e os seus discípulos, onde Confúcio afirma que um governante deveria governar com base numa forma de persuasão virtuosa (exemplo) ao invés do poder absoluto. O ideal que defendia assentava no Homem Superior, alguém orientado para os mais elevados princípios de conduta.

Na sua doutrina preocupa-se bastante com questões de benefício e prejuízo, certo e errado, bom e mau, o que levou a que os confucionistas tenham vindo a tender a tornar-se absolutistas morais, com as noções de retidão e de justiça, humanidade e benevolência que defendiam. Ao mesmo tempo, orientavam-se bastante no sentido da posição, na abordagem que faziam da importância das relações sociais, e ao insistirem na existência de um padrão inalterável de domínio e de subserviência entre governante e súbdito, pais e filhos, marido e mulher, e irmãos mais velhos e irmãos mais novos.

Chuang Tzu achava-os demasiado rígidos e formalistas (para não dizer enfadonhos), demasiado estreitos e tendentes à defesa das hierarquias. Chuang Tzu deliciava-se a troçar de tais traços e movia-lhes tais acusações que, os sincretistas que decidiram cooptar por ele escrevendo várias secções do livro defendem a sua causa e ocultam isso no texto.

Os Moistas, que estiveram activos durante o terceiro e quarto séculos, foram os primeiros a desafiar a herança de Confúcio. O seu fundador, Mo Tzu, viveu durante a segunda metade do século quinto, tendo nascido uns quantos anos após a morte de Confúcio. É curioso que o Mestre Mo tenha sido contemporâneo de Sócrates e que existam umas quantas analogias entre o sistema de pensamento por ele proposto e as várias escolas de filosofia Gregas d o mesmo período, mas especialmente a dos Estoicos.

A tradição sustenta que o Mestre Mo teria sido originalmente um seguidor de Confúcio, até ter chegado a perceber que os rituais eram sobrevalorizados às custas da ética, pelo que se terá separado e formado a sua própria escola. O Mestre Mo foi sobretudo um engenheiro militar sobredotado que devotou os seus talentos unicamente aos trabalhos de defesa. Nesse sentido, ele seria melhor caracterizado como um militante pacifista. Dos títulos de alguns dos seus importantes trabalhos pode-se tirar a ideia dos temas que o absorviam e aos seus seguidores: No campo da religião - "A Vontade Céu" e "Elucidando os Espíritos." NO campo da filosofia - "Rejeitando o Destino" e "Amor Universal." Na área política - "Elevação dos Merecedores" "Conformidade com os Superiores," e "Rejeição e Agressão." No campo da moral - "Economia nos Funerais," "Economia nas Despesas," e "Rejeitando a Música."

O Mestre Mo associava-se a trabalhadores, a artesãos e a comerciantes, ao contrário de Confúcio e dos seus discípulos, que defendiam uma orientação aristocrática. Os Moistas eram ferozmente igualitários e testavam todos os dogmas pelos benefícios que demonstrassem ter sobre o povo. Para Mo tudo era medido em termos de utilidade social. Ele criticava os Confucionistas com base no cepticismo que mostravam em relação ao Céu e aos seres celestiais, assim como em relação ao fatalismo que defendiam. Daí que se tenha levantado um debate de proporções alarmantes entre ambas essas escolas. O estilo de argumentação dos Moistas era seco e grosseiro, razão porque as suas doutrinas desapareceram virtualmente após o terceiro século ac., e somente tenham sido trazidas à luz do dia neste século.

Devido à ostensiva similitude que patenteiam na sua doutrina, os cristãos têm mostrado um enorme interesse por essa corrente. Mas os Moistas eram propensos à ciência e os seus trabalhos incluem, entre outros, inestimáveis tratados sobre questões como a da ótica e outras questões técnicas. Tinham uma orientação de tal modo prática que chegaram a adoptar caracteres simplificados (sinogramas) numa tentativa de facilitar o peso de um sistema e escrita difícil. Subscreviam uma disciplina ascética e comportavam-se como fundamentalistas religiosos.

Enquanto homem, o Mestre Mo foi admirado por todos mas a sua doutrina foi considerada pela maioria dos Chineses como demasiado exigente. Em resumo, ele poderá ser descrito como um Espartano, um activista populista e teórico dotado de uma disposição rígida que advogava o amor universal, censurava o excesso e a luxúria, e que acreditava que a única guerra justificável era a de carácter defensivo - o que não é de censurar de todo, mas que não agradava a Chuang Tzu, que considerava os Moistas demasiado pregadores e pragmáticos, excessivamente mecanicistas e sentimentalista. Nestas páginas encontraremos muita ridicularização que ele lhes move.

Quem surgiu em finais do século quarto, mais ou menos, ao mesmo tempo que o Mestre Chuang Tzu, foram os Sofistas e os Defensores da Lógica. Talvez fosse melhor referi-los pela tradução literal de que foram alvo no Chinês, como Escola dos Nomes e Termos (Debates), por não terem desenvolvido qualquer raciocínio silogístico nem descoberto nenhuma lei do pensamento. Os Sofistas eram igualmente defensores do Amor Universal e opunham-se à guerra ofensiva, mas diferiam dos seus predecessores pela prática da disputa em seu próprio benefício. Forma os Sofistas quem concebeu todo um conjunto de paradoxos célebres, muitos dos quais foram preservados na obra homónima do Chuang Tzu, a título de piada. Parece que o Mestre Chuang foi amigo íntimo de um dos fundadores da escola sofista, com quem maliciosamente debatia e de cujas evasivas zombava, devido ao pedantismo argumentativo que revelavam.

Outro personagem que surgiu em cena quase ao mesmo tempo que o Mestre Chuang foi Mêncio. Enquanto Chuang Tzu satirizava de Confúcio, de Mo Tzu e de Yang Chu, Mêncio defendia ardentemente Confúcio e criticava os outros dois. Na advocacia que fazia do colectivismo baseado no amor universal Mêncio destacava Mo Tzu enquanto o rival mais proeminente (e perigoso) de Confúcio. Focava-se na natureza humana, um tema que na realidade tinha sido trazido à tona por Yang Chu. Mesmo assim, Mêncio criticava Yang Chu por causa da afirmação da primazia que o indivíduo deveria ter sobre a sociedade. Mêncio enfatizava que a natureza humana é essencialmente boa e que todos os homens podiam tornar-se sábios se satisfizessem o seu potencial inato.
Ele temperava o lado aristocrático do Confucionismo ao tornar-se no campeão da gente comum, e ao falar em defesa de um governo compassivo.
De todos os pensadores Confucianos, Mêncio foi o que mais se preocupou com o desenvolvimento humano, porém, sempre no contexto da criação de uma sociedade sã.

Resumindo, os Confucianos interessavam-se primordialmente pelas relações familiares enquanto modelo de organização do bom governo. Os Moistas preocupavam-se com as obrigações sociais, os partidários de Yang Chu interessavam-se pela preservação e o aprimoramento do indivíduo, os Sofistas consumiam-se com as questões da lógica e os Legalistas focavam-se completamente no melhoramento do governo e do seu estado.

A quarta fonte de textos mais significativos da corrente iniciada por Lao Tzu foi da autoria do Mestre Huainan, que data de 130ac. e que se traduz por um trabalho altamente eclético que selecciona elementos de diversas fontes.

O Chuang Tzu, porém, encara a sociedade humana e a política como inevitavelmente corruptos e procura fundir-se com o Caminho e retornar à natureza como eremitas e quietistas contemplativos. Chuang Tzu preocupa-se essencialmente com as questões da transformação e a grandeza da alma, com a realização da verdadeira felicidade, que passa por uma elevada compreensão da natureza das coisas, com o desenvolvimento espiritual do indivíduo por intermédio da expressão da sua natureza inata (autenticidade). Em suma, interessava-se pela integridade de carácter e a manifestação do Caminho Universal por meio do indivíduo, o Tao imanente em todas as criaturas, e traçava a distinção entre intrínseco e extrínseco na determinação da igualdade e uniformidade (artificialidade).
Toca na questão do governo e declara o repúdio que movia contra os métodos mecanicistas de governo, diante dos quais preferia a total ausência de governo, sem, contudo, beirar a anarquia, mas antes defendendo um papel menos minimalista, por colocar a tónica no governo do indivíduo, que forma, aliás, o aspecto central de toda a obra, pois que, quanto mais intervencionista for o governo em todas as áreas do viver da população, menos eficaz tenderá a ser em termos de resultados e mais opressor das liberdades das populações.
O aspecto da liberdade é justamente pilar na sua obra, ao referir que tem início e que termina no indivíduo e que assenta na educação, ou formação do esclarecimento espiritual e na formação do carácter, contrariamente aos anarquistas, que defendem a ausência do estado, das hierarquias e das instituições mas que sempre apelam para medidas representativas de massas.

Com as histórias dos artífices e artesãos humildes que, com engenho e arte dominavam a área da sua acção, ilustra o domínio da arte de viver. Não se revela anti racionalista nem defendia que fosse completamente fútil, porém, não defendia que a razão fosse eficaz na resolução dos problemas humanos. Para entendermos a ambivalência que Chuang Tzu sentia com respeito à razão precisaríamos explorar as fontes do descontentamento que sentia em relação a ela. A forte predileção que os Moistas tinham pela lógica deixou Chuang Tzu desencantado com essa forma entorpecida de racionalidade. As doutrinas do Mestre Mo mostravam-se inéditas no contexto do pensamento Chinês, mas tinham que ser defendidas em debates abertos, em resultado do que ele e seus seguidores viam-se imiscuídos em disputas formais habituais. Aperfeiçoando a sua experiência na elocução desse modo, os Moistas foram quem mais perto chegou de, entre todas as escolas da China antiga, estabelecer um sistema coerente de lógica. o sucesso inicial que tiveram com essa nova técnica de persuasão encorajou outras escolas a seguir o exemplo de desenvolvimento de técnicas de debate que eles introduziram, o que tornou a disputa filosófica endémica durante esse período. Mais do que nunca, os oradores tinham que prestar atenção à definição dos termos e à estrutura dos seus argumentos, além de visarem tirar proveito das falácias que os seus opositores apresentavam. Porém, com a escola dos Sofistas, a lógica tornou-se um objecto de busca em função de si própria.

A familiaridade que Chuang Tzu teria tido com o paradoxo e o sofisma (arte do silogismo, ou refutação capciosa) indicam que deva ter tido contacto com as subtilezas da lógica quando fora novo, mas que terá suplantado, já que revela ter-se interessado por sondar os limites da razão, e a colocava (a razão) na adequada perspectiva.

Os Moistas do período de 300 ac., apresentaram os textos de lógica mais sofisticados do começo da China, em que se constata o recurso à razão na arbitrariedade dos pontos de vista conflituosos. Tal abordagem já se tornara marca d filosofia Grega e viria, subsequentemente a caracterizar toda a tradição filosófica ocidental, mas no final foi rejeitada pelos pensadores tardios Chineses, que preferiram apoiar-se mais na forma de persuasão moral e na intuição.

O Mestre Chuang desempenhou um papel vital na emergência do cepticismo com relação ao racionalismo, ao virá-lo do avesso e satiriza-lo de modo incisivo. No Chuang Tzu os argumentos que parecem adotar a aparência da razão são ironicamente designados para a desacreditar. Ele interessou-se igualmente bastante pela complexa relação existente entre a linguagem e o pensamento, o seu trabalho está repleto de conclusões que não decorrem da lógica do argumento ou de declarações anteriores por ele empregar esses meios na exploração das imperfeições e insuficiências da própria linguagem, numa abordagem similar à que mais tarde viria a ser adoptada pelos Mestres Zen, com os seus Koans. Assim, uma vez mais vemos o Mestre a utilizar um meio que punha em dúvida a infalibilidade do próprio meio, o que prova que não abandonara nem a lógica nem a razão, mas que pretendia apontar a exagerada dependência que nelas poderia restringir a flexibilidade do pensamento.

Outro instrumento chave é o do relativismo. Se entendermos que os contrários não se contrapõem necessariamente, transcenderemos as distinções ordinárias das coisas, assim como “eu e o outro.” A compreensão disso representa apedra basilar da unidade pela transcendência. Para tal fim enfatizava a espontaneidade e a liberdade do mundo e das suas convenções, porquanto sem a autenticidade de sermos o que somos, jamais conseguiremos colmatar o fosso criado pela dicotomia do pensamento.

A maioria dos filósofos da antiga China dirigiam as suas ideias a uma elite política ou intelectual, ao passo que o Mestre se focava naqueles que se esforçavam por uma realização espiritual. Em resumo, o Mestre não foi um pensador isolado, pois será de lembrar que o Taoismo ainda não existia como corrente plenamente consolidada; ao invés, constitui um produto impressionante de um longo processo de cruzamento fertilizante de diversas correntes nacionais e internacionais. Foi um filósofo que se expressou por meio de fábulas e alegorias, estilo literário com que maior impacto exerceu na cultura – provavelmente mais do que qualquer outro autor. Por isso, constitui um texto literário que não deve ser submetido a uma excessiva análise filosófica, conforme actualmente tende a ser, por isso lhe distorcer o verdadeiro valor. Mas, mais do que um texto, o Chuang Tzu é uma antologia de textos literários, o que o torna ainda menos susceptível a qualquer análise filosófica sistemática, mas devido ao corpo heterogéneo que apresenta, torna-se extremamente difícil senão impossível determinar um sistema de pensamento que o mestre tenha subscrito.

                                                                                              Fonte: Diversos autores


Apresentação

O Chuang Tzu, ou Nan Hua Zhen Jing, ou O Verdadeiro Clássico do Sul da China, como foi simultaneamente chamado, constitui uma súmula da sabedoria personificada na imagem do Homem Perfeito, que ilustra o Ideal, e de uma aprendizagem que não tem fim. Ele é o reflexo perfeito do acalento que o sábio tem pelo que se situa abaixo, e pelo apreço que sente pelo que se situa acima, sem menosprezo por um nem preferência pelo outro, numa atitude de perfeita compreensão do ser em toda a esfera da manifestação.
Recorre o seu autor ao paradoxo como expressão mais aproximada e fidedigna da realidade que as coisas e expressões no seu sentido mais profundo expressam ou encerram, e não revela pressa em fazer-se entender nem aponta a perfeição ao jeito dos néscios que prezam os alvos materialistas e a supremacia do ser.
Desencoraja o proselitismo ciente de desviar os espíritos menos bem preparados.
Troça do entendimento tacanho de quantos projectam o mérito na consecução da fama ou do acúmulo de bens, que com os fins que têm em vista justificam quaisquer meios, e aponta justamente nos meios e nas atitudes e crenças o destino da acção.
É célere a desmentir a ideia de que só sejamos dignos e sábios se seguirmos o exemplo, o cultivo do saber ou o renome, e aponta o logro que tais abordagens encerram, dando expressamente a entender que o verdadeiro Alcance do Mérito ou da Virtude assenta na autenticidade e no apreço efectivo ou honra pela autenticidade do ser.

Uma das pedras basilares do seu pensamento assenta no facto do homem “saber demais,” ter cultivado um conhecimento do bem e do mal, do certo e do errado que é raiz da corrupção, por nos separar de nós próprios e do verdadeiro sentido da acção.
É um texto que alude ao transcendentalismo do auto imanente que nunca correu o risco de se tornar popular, por se revelar de difícil realização.
Aponta principalmente a hipocrisia que marcava o período, à semelhança dos dias actuais, pelo que mais se nos serve para desmascarar a benevolência e a justiça que se alicerçaram no “saber” dos sagazes.

Historicamente, é duvidoso que o livro que carrega o nome de Chuang Tzu tenha sido elaborado como o são os livros da actualidade. No passado os livros não sugeriam necessariamente um autor. Nos dias da antiguidade tais livros não tinham propriamente um só autor. Não é só que fossem anónimos, mas é que nesses dias a composição de um livro raramente ou nunca o era sob a forma original que a nós nos chega. Eles não eram “feitos” mas iam ganhando corpo. Ditos, passagens, lendas, versos eram passados adiante, ou “herdados” numa escola, ou por entre os discípulos dessa escola, para acabarem por ser gradualmente reunidos, ou melhor, “misturados.” Eram alvo de acrescentos, a ligação ou sequência que tivessem era alterada, e por fim eram coligidos em diferentes alturas e por diversas mãos em compilações de diferentes tendências.

Exemplo disso é o Lieh Tzu, que revela as características de uma compilação elaborada por diferentes mãos. Apresenta passagens que foram quase copiadas, em alguns casos de transposição literal, noutros de modo menos exacto, casos de passagens de clássicos anteriores Taoistas tidos como autênticos. Crê-se, com base nisso, que Lieh-Tzu nunca tenha existido, o que o coloca no plano da nossa Bíblia ocidental, cujo teor histórico à partida poderá ser considerado implausível, por apresentar um teor religioso muito tênue e assentar no fruto de múltiplas interpretações e interpolações e acréscimos.

Cheng Chuanying, da Dinastia Tang, explicava que esta obra se dividia em três séries, a primeira das quais consiste, em larga escala, de declaração generalizada das razões lógicas, a Série Interior, uma outra que compreendia narrativas de evidências de apoio, a chamada Série Exterior, e uma Série de Miscelâneas que traduz uma mistura de ambas. Supõe-se geralmente que a primeira reúne os escritos de Chuang Tzu, a segundo compreende os trabalhos inacabados, completados posteriormente pelos seus alunos, e que a terceira série encerra os trabalhos dos seus discípulos sobre as ideias principais do mestre. Tal suposição, porém, parece ser uma simplificação excessiva.


                                                                                                      Amadeu António


Capítulo 1
livre e fácil vaguear

Nas profundezas do norte há um peixe chamado Kun que é tão vasto que nem lhe conheço a medida. Transforma-se num pássaro chamado Peng, cuja medida do dorso desconheço, mas que quando levanta voo as suas asas se assemelham a nuvens que cobrem o céu.
Quando o mar se agita para o acolher, este pássaro parte para as profundezas do sul, o Lago Celestial.

O livro da Harmonia Universal regista várias maravilhas, entre as quais figura a seguinte: “Quando Peng viaja para as profundezas do sul, por volta do sexto mês, as águas agitam-se por várias milhas e ele provoca um tumulto com o calor e, levantando poeira, eleva-se no céu azul.
Mas, será o céu verdadeiramente azul, ou dever-se-á ao facto de se estender ao infinito? Ao olhar para baixo, esse pássaro decerto também o perceberá como azul

Se a água não se acumular o suficiente, não terá força para sustentar grande coisa. Deseje-se uma taça de água num orifício do solo e ela conseguirá fazer flutuar qualquer bocado de cortiça. Mas pouse-se a taça sobre ela e a taça afundará com o peso, por a água ser demasiado rasa e a taça demasiado grande, e a água não possuir força para sustentar coisas de porte muito elevado.
Do mesmo modo, só a determinada altura poderá o pássaro encontrar sustento para as asas de elevada envergadura. Por isso, Peng eleva-se nas alturas, por aí dispor de corrente de ar suficiente por baixo das asas para o sustentar. Assim, nada o poderá impedir de lançar o olhar a sul.

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A cigarra e a pomba zombam disso, dizendo: “ Quando nos esforçamos por voar conseguimos atingir os ulmeiros, mas por vezes nem isso alcançamos e estatelámo-nos no chão. Como será possível alçar-se a tais alturas?!”

Se forem dar um passeio pelo campo, deverão levar comida para três refeições, e voltar de barriga cheia. Se viajarem ara mais longe que isso, precisarão moer grão na noite anterior, para passarem a noite. Mas se forem ainda mais longe, deverão prevenir-se com provisões para meses.

Que entendimento terão essas pobres criaturas? A falta de compreensão não se pode comparar a uma compreensão efectiva; uma vida curta não se pode comparar com uma vida longa.
Como saberei eu que é assim? O cogumelo da manhã nada sabe do crepúsculo nem da aurora; a cigarra do Verão nada conhece da Primavera nem do Outono. Eles possuem uma vida curta.

A sul de Chu há uma criatura vasta para quem uma Primavera dura quinhentos anos e um Outono outros tantos. Na antiguidade existiu uma roseira que contava uma Primavera de oito mil anos e um Outono de outros tantos anos. Esses viviam muito. Contudo, hoje Peng Chu é famoso pela vida longa que teve, e todos o procuram imitar. Isso não será triste?

Nos diálogos dos reis Tang e Chi encontramos a mesma coisa. Lá pelos baldios estéreis do norte existe uma área obscura, o Lago Celestial. Aí habita um peixe cujo comprimento ninguém conhece com precisão. Há igualmente um pássaro chamado Peng, que tem um dorso semelhante ao Monte Tai e asas da envergadura de nuvens que cobrem o céu. Ele bate as asas num turbilhão, alça-se no ar e sobe às alturas, e cortando por entre as nuvens abeira-se do céu azul e deita o olho ao sul, preparando-se para viajar para as profundezas do sul.

A pequena codorniz ri-se dele dizendo: “Onde pensa ele que vai? Eu bato as asas um pouco e alço-me no ar, mas nunca consigo ir além dos arbustos e das silvas. Mas, seja como for, esta é a melhor forma de voar. Onde pensa ele que vai?”
Esta é a diferença entre o pequeno e o grande.

Por conseguinte, aquele que possui sabedoria suficiente para satisfazer a posição de estado, boa conduta suficiente para impressionar a comunidade, virtude suficiente para agradar a governantes ou talento suficiente para ser contratado pelo estado, possuirá o mesmo tipo de orgulho dessas pequenas criaturas.

Sung Yung Tzu desataria por certo no riso, com tais homens. Toda a gente poderia prestar louvores a Sung Yun Tzu que ele não se sentiria comovido nem motivado; toda a gente poderia censurá-lo que ele não se sentiria desanimado nem desencorajado.
Estabeleceu ele uma linha inequívoca entre o interno e o externo, e reconheceu as diferenças existentes entre a verdadeira honra e a desgraça. Mas ficou-se por aí. Tinha pouca consideração pela opinião dos outros, mas havia coisas que ainda se via incapaz de superar.

Lieh Tzu conseguia cavalgar os ventos com destreza mas passados quinze dias tinha que regressar à terra. Com respeito à fortuna, não precisava ele preocupar-se nem esforçar-se. Apesar de nunca mais se ter que preocupar por andar, ele ainda dependia de alguma coisa para se deslocar. Se ele apenas conseguiu alçar-se à verdade de céu e terra e dominar a transformação dos seis sopros internos para desse modo navegar pelo infinito, de que terá dependido?
Por isso afirmo o seguinte:

Aquele que é perfeito é desprovido de ego.
O homem espiritual não tem mérito.
O sábio não arrecada fama.

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Yao quis ceder o próprio império a Hsu Yu, dizendo: “Quando surgem sol e lua, não será um desperdício continuar a empunhar tochas, mestre? Quando achega a monção, não será um desperdício de água continuar a irrigar os campos? Se assumisses o trono, o mundo permaneceria em ordem. Eu continuo a ocupá-lo, porém, tudo quanto vejo são as minhas falhas. Imploro-te que tomes o mundo nas tuas mãos.”

Hsu Yu respondeu: “Tu governas o mundo e ele é bem governado. Se eu aceitasse a tua posição, não o faria pela fama? Todavia, fama não é outra coisa senão uma ilusão. Mas não o faria eu pelo bom nome?
Quando o rouxinol constrói o ninho no bosque cerrado, não usa mais que um galho. Quando a toupeira bebe à borda de água, não ingere mais água do que a sua barriga lho permite.
Ide em paz e esquecei o mestre, senhor. Nenhuma utilidade tenho a dar ao governo do império.
Se o cozinheiro não conseguir governar a cozinha adequadamente, durante o serviço fúnebre, nem o sacerdote nem as carpideiras irão deixar o vinho nem a carne para ir ocupar o seu lugar.

Chien Lu disse a Lien Shu: “Ouvi a Chieh Yu narrar continuamente histórias sem par, mas também sem substância e sem chegar a qualquer conclusão. Senti-me estupefacto com as palavras dele, que pareciam estender-se sem fim como a Via Láctea, exageros sem nexo algum com a realidade humana.”

“Que palavras empregava ele?” Perguntou Lien Shu.

“Dizia que havia certo homem santo que viva afastado no Monte Kung-she, que tinha uma pele como gelo ou neve e que era tão gentil e tímido quanto raparigas novas. Não comia nenhum dos cinco grãos mas sorvia a aragem e sugava o orvalho, trepava as nuvens e o nevoeiro e cavalgava um dragão voador pelos quatro mares. Concentrando o seu espírito conseguia proteger as pessoas da doença e das pragas e levá-las a obter colheitas férteis.

Lien Shu respondeu-lhe: “Claro que sim! Não se pode esperar que um cego aprecie belos motivos, nem que o surdo ouça o bater dos tambores ou dos sinos. E a cegueira e a surdez não são coisas que se cinjam ao corpo unicamente, mas à compreensão também, conforme as tuas palavras agora mesmo o comprovaram. Esse homem santo, com todas as suas virtudes, está prestes a abarcar a multiplicidade das coisas como uma só. Embora os tempos actuais necessitem de reformas, porque haveria ele de se desgastar com os assuntos do mundo? Nada o poderá atingir. Mesmo que uma grande cheia se amontoasse, ele não se afogaria. Ainda que grande seca pudesse crestar colinas, ele não se queimaria. Do seu pó e restos mortais somente se poderia criar um Yao ou um Shun! Por que razão consentiria ele em preocupar-se com meras coisas?

Um homem do estado de Sung que vendia chapéus de cerimónia fez uma viagem a Yueh, mas o povo dessa região rapava o cabelo e cobria o corpo com tatuagens e não tinha uso a dar a essas coisas. Yao trouxe ordem à vida das pessoas e dirigiu o governo até às fronteiras com o mar. Mas quando estava de volta do rio Feng foi ao distante monte de Ku-she de visita aos quatro sábios perdeu o interesse pelo império.

Hui Tzu disse a Chuang Tzu: “O rei de Wei deu-me umas sementes de uma espécie de abóbora gigante. Eu plantei-as e quando cresceram o fruto era tão grande que dava para armazenar cinco alqueires. Tentei usá-la como depósito de água, mas tornou-se tão pesado que não a conseguia levantar. Cortei-a em dois para fazer delas conchas, mas eram ainda tão grandes que não as podia mergulhar fosse no que fosse. Não é que as abóboras não fossem desmesuradamente grandes mas é que decidi que não se prestavam para coisa nenhuma, pelo que decidi quebrá-la em pedaços.”

Chuang Tzu respondeu: “Naquilo que diz respeito ao uso das coisas grandes tu não és lá muito inteligente. Havia em Sung um homem que era perito em fabricar um excelente bálsamo para as retas das mãos, e geração após geração, a sua família subsistiu às custas da operação de branquear seda.

Certo viajante ouviu falar do bálsamo e ofereceu-se para lhe comprar a receita por cem moedas de ouro. O homem reuniu a família em conselho, e disse: Vimos a lavar seda há gerações e nunca ganhamos mais do que dez moedas de ouro. Agora, se vendermos o nosso segredo poderemos ganhar cem moedas numa só manhã. Vamos vendê-lo.

O viajante conseguiu a pomada e apresentou-a ao rei de Wu, que se encontrava em apuros com o estado de Yueh. O rei pôs o homem a comandar as suas tropas e nesse Inverno travaram uma batalha naval com os homens de Yueh e derrotaram-nos. O rei doou uma porção de terra ao homem, como um feudo.

O unguento tinha o poder de prevenir as gretas nas mãos, em qualquer dos casos; só que um usou-o para obter um feudo, enquanto o outro nunca foi além da lavagem de seda – por o usar de modo diferente.

Agora, tu tens uma abóbora suficientemente grande para armazenar cinco alqueires. Porque não pensaste em fazer dela uma barrica para poderes flutuar pelos rios e pelos lagos, em vez de te preocupares com o tamanho e peso de comportar coisas? É óbvio que ainda tens muito a aprender.”

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Hui Tzu disse a Chang Tze: “Eu tenho uma árvore grande que as pessoas dizem ser inútil. O tronco acha-se deformado e esburacado demais para lhe poder encostar uma fita métrica. Tem os ramos tão deformados e retorcidos que não se lhe pode encostar compasso nem esquadro. Podíamos deixá-la à beira da estrada que nenhum carpinteiro lhe lançaria o olhar duas vezes.
Também as tuas palavras têm tanto de grandioso quanto de inútil quanto ela, e qualquer um as desprezará.”

Chuang Tzu disse-lhe: “Talvez nunca tenhas visto um gato selvagem nem uma doninha quando se agacham e escondem, à espreita do que possa surgir. Dão saltos e correm de um lado para o outro, e não hesitam em andar para cima e para baixo até que a pressa caia na armadilha e a apanhem. Mas há igualmente o iaque, tão grande quanto uma nuvem. Decerto que ele sabe ser grande, contudo, saberá ele caçar ratos?
Agora tens uma árvore gigante e sentes-te arreliado pela falta de uso a dar-lhe. Porque não a plantas em terra onde nada cresça ou numa área deserta e ampla onde possas vadiar sem fazer nada, ou deitar-te a dormir um bom sono sob os seus galhos? Os bois não lhe encurtarão a vida, nem criatura alguma a poderá prejudicar. Se não tiver qualquer uso, como poderá ser objecto de ansiedade ou de sofrimento?”


Capítulo 2
TORNANDO TODAS AS COISAS IGUAIS


Nan Kuo Tse Chi, achava-se debruçado sobre uma mesa baixa, a fitar os céus e a suspirar como que abstraído.

Yen Cheng Tse Yu, que estava de pé perto dele, exclamou: "Em que estás a pensar para que o teu corpo tenha ficado como um cepo morto e o teu espírito se pareça com cinzas de fogo extinto? Certamente o homem que agora mesmo estava reclinado sobre a mesa não é o mesmo que aqui se encontra - "Meu amigo", respondeu Tse Chi, "a tua pergunta vem a calhar. Hoje perdi a noção de mim próprio... Compreendes? Talvez conheças apenas a música dos homens e não a da Terra. Ou mesmo tenhas escutado a música da Terra e talvez não tenhas ouvido a do Céu.

"Explica-te, por favor", pediu Tse Yu.

"O sopro do universo", continuou Tse chi, chama-se vento. Às vezes encontra-se inactivo. Porém, quando activo, todas as fendas assobiam pela acção da sua fúria. Por acaso jamais ouviste esse tumulto ensurdecedor?

"As cavernas e os fossos das colinas e das florestas, as cavidades em enormes árvores de muitos palmos de circunferência - algumas semelhantes a narinas e outras a bocas, outras ainda a orelhas... E o vento por elas entra com violência, como torrentes em redemoinho ou setas sibilantes, a bramir, com fúria, a gorgolejar, a gemer, a clamar, a sussurrar, a assobiar por um lado e a ecoar pelo outro, ora suave com o ar fresco, para de seguida se apresentar violento com o redemoinho do vento, até que a tempestade passe e reine supremo o silêncio. Por acaso nunca reparaste como as árvores e os objetos são sacudidos e tremem, e os galhos ficam emaranhados e se contorcem todos?"

"Bem, então", indagou Tse Yu, "já que a música da Terra é feita de cavidades e aberturas, e a do homem de flautas e gaitas, de que é feita a música do Céu?"

"O efeito produzido pelo vento nas várias fendas", replicou Tse Chi, "não é uniforme, porém, os sons produzidos variam de acordo com sua capacidade individual. Quem é que lhes agita o sopro?".

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"O vasto conhecimento, a profunda compreensão, abrange tudo; a sabedoria mesquinha, a compreensão superficial, é vaga e passível de disputa. Os discursos eloquentes e as palavras de sabedoria, são inspiradoras e claras, os discursos desapaixonados, desagradáveis. No sono entramos em contacto com a nossa alma; quando acordados, empenhamo-nos nos sentidos, e nas coisas que nos cercam e deixamo-nos envolver pelo tormento e pela hesitação. Os receios provocam ansiedade e o terror provoca pânico. Alguns são fáceis de resolver e são comodamente acalmados, outros são profundos e dissimulados, e outros misteriosos. O espírito voa célere, como flecha desferida pelo arco, e arbitramos como se soubéssemos o que é correcto e o que é errado. Ou então afincamo-nos ao nosso ponto de vista, como se tivéssemos prestado um juramento, como se tudo dependesse dele, mas as nossas opiniões possuem tanta permanência quanta a geada do outono, que gradualmente passa. E imersos na corrente das coisas continuamos a seguir o curso sem podermos voltar atrás. Finalmente esgotados e aprisionados, aproximamo-nos da morte e não encontramos maneira de recuperar a clareza.

"Alegria e cólera, tristeza e felicidade, esperança e arrependimento, indecisão e poder, humildade e força de vontade, entusiasmo e indolência acometem-nos por turnos, apresentando-se de maneira sempre diferente, tal como a música que sai de uma cana oca ou cogumelos que brotam na humidade. Dia e noite alteram-se em nós, mas não sabemos de onde vêem. Deixa que te acometam! Poderemos compreender tudo de uma só vez? Sem eles não teremos existência; sem nós, não terão qualquer propósito. Isso aproxima-se do sentido, mas não podemos saber o que leva as coisas as ser como são. É como se tivessem uma Orientação Suprema, mas temos maneira de a descobrir. Certamente que actua, quanto a isso não resta a menor dúvida, mas não consigo descobrir-lhe a forma; possui vontades mas não forma.”

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“As cem articulações mais os nove orifícios compõem a nossa forma, o nosso corpo, mas alguma será superior às demais? Qual preferirás? Não serão todas elas nobres? Deverei eu tratar alguma melhor que as outras? Não nos servirão todas por igual? Se todas se revelam prestáveis também poderão conservar a ordem que reina entre si de uma forma espontânea. Pode ser que existe um senhor supremo sobre todas elas, mas duvido que lhe consigas apontar a verdadeira forma. Mas quer o consigas ou não, isso nada terá que ver com a sua natureza verdadeira.”

“Quando a alguém é dada uma forma, ele não viverá nela até morrer? Quer seja fácil ou difícil, quer em conflito ou em harmonia com os demais, atravessamos a vida como um cavalo veloz sem que nada o detenha, incapaz de labutar duro até morrer e incapaz de apreciar qualquer conquista, e incapaz de descansar, desgastado. Uma vida assim não terá qualidade. Não será isso triste? Poderá dizer que não existe morte, mas quando o corpo entra em decadência a mente acompanha-o. Que conforto trará isso? Não representará isso um verdadeiro contra-senso? Ou serei eu o único a perceber a incongruência?

Se alguém seguir a sua natureza e fizer disso o seu guia, como poderá dizer que não tem mestre? Porque será que somente aquele que compreende a mudança e molda pensamento e sentimento nisso pode ter um mestre? Até os idiotas têm os seus mestres. Mas se ignorares a tua mente e insistires no conhecimento do certo e do errado, isso equivale a dizer que tenhas saído de Yueh hoje e lá tenha chegado ontem, ou dizer que o que não tem existência exista. Mas se afirmares que aquilo que não tem existência existe, então até mesmo o santo Yu não te conseguirá entender, quanto mais eu!

As palavras que empregamos não coisa vazia mas possuem sentido. Porém, se o que tiverem a dizer não for definido, se não se conseguir definir o sentido de uma palavra, então nada quererá dizer. As palavras parecem diferenciar-se do chilrear dos pássaros, mas existirá mesmo alguma diferença, ou não? Como poderá dar-se o caso do Tao parecer de tal forma obscuro para que possa existir verdadeiro e falso? Em que se basearão as palavras para termos certo e errado? Como poderá o Tao deixar de existir? De que modo poderão as palavras existir e não ser aceites ou compreendidas?

Quando o Tao assenta no discurso eloquente, o significado da palavra é ocultado pelos floreados da retórica, e isso acaba por gerar discussão entre Confucionistas e Moistas. O que uns dizem estar certo, os outros afirmam estar errado; o que uns dizem estar errado, os outros asseveram como certo. Se pretendermos confundir o “errado” deles e confirmar o “certo”, então o melhor a fazer é usar de clareza e olhar além de certo e de errado.

Todas as coisas são relativas e podem tanto ser uma coisa como outra. A forma como os outros as vêem pode não ser a perspectiva que temos delas, de modo que só as poderemos ver pela compreensão pessoal. Por isso, “isto” procede “daquilo”, e “aquilo” depende “disto”, o que quererá dizer que dão origem um ao outro. A vida depende da morte e a morte sucede à vida; onde existir uma precisará existir a outra. Onde reinar aceitação deverá existir falta de aceitação; se existir, também não existirá, e por não existir, também existirá.

Assim, o sábio não se incomoda com tais distinções, mas verte sobre a questão a luz da clareza. Também ele distingue “isto” e “aquilo”, só que numa qualidade que compreende igualmente o contrário. E as suas perspectivas também comportam um “certo” e um “errado”. Assim, ainda as distinguirá, ou não? O estado em que subjectivo e objectivo deixam de comportar o oposto (pela separação) representa a quietude do Tao. O eixo garante o centro do círculo que não tem fim, por poder reagir tanto ao que “é” como ao que “não é”. É por isso que o melhor será fazer uso da clareza de compreensão.

O emprego de atributos para demonstrar que os atributos não são atributos não-atributos a fim de ilustrar que os atributos não são atributos efectivos. Recorrer ao uso de determinada coisa (minha) para ilustrar que a coisa (do outro) não é tal coisa, não se compara à demonstração do contrário segundo a perspectiva do que é reconhecido como sendo determinada coisa. O Céu e a Terra podem ser tratados como qualquer coisa objectiva – que é una.

O que é, e o que não é não é. O Caminho é feito percorrendo-o. As coisas são o que são pela sua constante nomeação. Como assim? É assim por ser assim. E quando não é assim, não é assim. Todas as coisas possuem um carácter inato e uma função própria, sem excepção. Assim sendo, quer indiques um pequeno caule ou um grande pilar, o repugnante ou o belo, a obscuridade ou a destreza, o engenho ou o grotesco, todas essas coisas à luz do Tao poderão igualar-se.

Na diferença que as caracteriza se acha a sua perfeição. Na sua perfeição reside aquilo que as diferencia. Nada é perfeito nem imperfeito mas tudo poderá ser percebido como uno se transcendermos perfeição e imperfeição.

Só o homem que possua uma visão com um alcance assim conseguirá torná-las numa só coisa. Uma pessoa assim não faz uso das distinções e vive na constância (no que é permanente). Acolhe as perspectivas comuns e desse modo evita a dissensão. As perspectivas comuns são alicerçadas no terreno da utilidade; a utilização de algo que defina o uso que possa ter. Tal uso indiciará flexibilidade e aceitação A abrangência de juízo que disso resulta conduz ao êxito na busca. Assim que a busca da compreensão for alcançada, perto estaremos do fim que a terá motivado, do seu alvo, e aí é que chegamos a deter toda a coisa - quando atingimos o ponto em que todas as coisas são realizadas. Nisso confiamos unicamente, sem que saibamos como o teremos atingido.

Ao tormento por tentarmos unificar todas as coisas sem percebermos que são todas uma mesma coisa chama-se “Três pela Manhã”. Que quero dizer com “Três pela Manhã”? Determinado zelador de macacos distribuía-lhes bolotas quando disse: “Vou-vos dar três pela manhã e quatro à noite.” Os macacos ficaram furiosos com aquilo e o tratador então replicou: “Tudo bem, vou passar a dar-lhes quatro pela manhã e três à noite.” Isso deixou-os contentes. Ambas as formas de tratamento não eram substancialmente diferentes, mas os macacos reagiam-lhes de modo diferente. E o zelador conseguiu aquilo que queria com tal astúcia.

Assim, o sábio é equânime na aceitação que faz do “certo” e do “errado”, e repousa no equilíbrio do Céu. Isso representa a consideração de ambos os aspectos da questão.

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O conhecimento que os antigos possuíam era vasto. Quão vasto era ele? O suficiente para os levar a ver que nada existia, o que representa um conhecimento virtualmente perfeito, por nada mais precisarem acrescentar. Posteriormente alcançaram a noção da existência de alguma coisa, porém, não lhe atribuíam nomes nem qualidades. Mas foi quando começaram a formular juízo moral que a unidade do Tao se perdeu – juízos de “certo” e de “errado”, de “bom” e de “mau”. Com o declínio da Unidade do Tao, surgiram o desejo e a parcialidade da preferência. Mas existirá mesmo realização e perda?

Mas tal declínio ter-se-á seguido à formação do desejo, ou terá precedido ao surgimento das preferências? Se o declínio se tiver seguido à formação parcial do desejo e das preferências, a maneira que Chao Weng tinha de tocar alaúde era natural. Se o dano tiver ocorrido antes do surgimento da parcialidade do desejo, Chao Weng não teria razão para tocar o seu alaúde.

Chao Weng tocava o alaúde
Shih Chuang conduzia com a sua batuta
Hui Tzu discorria sobre a filosofia.

O conhecimento que esses três mestres possuíam abeirava a perfeição, e prosseguiram assim até ao fim. Por serem excepcionais distinguiam-se dos demais. Os seus nomes foram legados à posteridade. Por serem excepcionais pretendiam iluminar toda a gente por meio da sua arte. Recorrendo à simplificação tentaram ensinar o que desse modo redundaria no fracasso, por resultar em debates obscuros sobre a natureza do “árduo” e do “alvo”, por tal conhecimento não poder ser transmitido por vias externas. Também os seus filhos lhes seguiram os passos, mas não lograram alcançar a perfeição.

Poder-se-á dizer que esses homens tenham atingido alguma perfeição? Se assim for, também nós a teremos atingido. Poderão não ter atingido a realização? Nesse caso, nem eu nem nenhum de vós alguma vez a teremos alcançado. Assim, é pela luz cintilante que surge da dúvida e da confusão que o sábio se guia. Desse modo, não faz uso da distinção, mas tudo relega à constância, ao imutável; a isso se chama clarividência.

Todavia, tenho algo a dizer. Não sei se isso se enquadrará na categoria do que os outros afirmam ou não; mas, quer seja ou não relevante, não difere das afirmações que proferem. Seja como for, deixa que tente expor aquilo que te tenho a dizer.

Existiu um começo; contudo, tal começo ainda não teve início, e existiu mesmo um começo antes desse. E esse início deu-se mesmo antes desse começo. A existência é um facto mas existe igualmente a não-existência. Não é fácil dizer se o que não tem existência não existe, ou se o que tem existência existe. Eu fiz uma afirmação, contudo, não sei se o que acabei de dizer será efectivo em meio ao que afirmei ou deixei de afirmar.

Nada há no mundo maior do que a ponta de um fio de cabelo. Ninguém conseguiu viver mais tempo do que um nado-morto. Nem mesmo o monte Tai ultrapassa isso, nem Peng Tzu, que morreu jovem.

O Céu e a Terra surgiram ao mesmo tempo que eu, e as dez mil coisas uma só perfazem juntamente comigo. Ao afirmar a unidade de todas as coisas eu apontei uma grandeza, não? A Unidade e o atributo perfazem duas coisas. Se lhe juntarmos o Original isso totaliza três – o que prosseguiria para além da compreensão até mesmo de uma hábil contabilista ou matemático, quanto mais da pessoa comum. Se pela não-existência chegarmos a deduzir a existência, alcançamos três coisas; pensem só no quanto nos desviaremos caso fôssemos de uma dada coisa para uma outra qualquer. Detenhamo-nos, pois, por aqui!

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No princípio o Tao não tinha qualquer nome. As palavras não são eternas, mas por causa da palavra surgem a distinção e os limites. Deixa que te fale sobre tais distinções. Existe esquerda e direita; debate e divisão, discriminação, concorrência e contenção. A tais coisas se chama qualidades. Quanto ao que vai além disso, o sábio admite a sua existência, mas não a discute. Quando ao que tem assento no domínio dessas qualidades, ele discute, mas não se pronuncia a favor nem contra. Quanto ao registo das acções passadas dos reis que constam dos Anais da Primavera e do Outono, ele pronuncia-se, mas não julga.

Quando se divide, não se distingue; aqueles que distinguem, não conseguem discriminar. Que quererá isso dizer, perguntarás tu? O sábio abraça todas as coisas, ao passo que a gente comum as discute. É por isso que digo que aqueles que distinguem não conseguem ver de uma forma discriminada.

O Caminho encontra-se além de toda a descrição. O melhor argumento não requer palavras. A mais elevada benevolência não é cortês. A modéstia em demasia não é humildade. A mais elevada coragem não é agressiva nem representa bravura.
O Tao que se manifesta não é o Tao. As palavras argumentativas não alcançam a questão. A amabilidade permanente não alcança o objectivo. O desinteresse que alardeia a pureza não é credível. A coragem obstinada é ineficaz.

Estas cinco qualidades parecem íntegras (completas), mas tendem a tornar-se angulosas e inflexíveis. É por isso que aquele que conhece o suficiente para se deter diante do que não sabe, é o que age melhor.

Quem conhecerá a argumentação que não requer palavras (contenda) e o Tao que não pode ser indiferenciado? Aquele que conhecer tal coisa possuirá o Tesouro do Céu. Se tentar enchê-lo, ele jamais se mostrará cheio; se procurar esvaziá-lo, ele nunca chegará a ficar vazio. Entretanto, ele desconhece a procedência dessa provisão. Chama-se a isso prover-se de luz.

Há muito tempo atrás o imperador Yao disse a Shun:
“Gostaria de invadir os estados de Tsung, Kuai, e Hsu Ao. Desde que me tornei imperador que isso não me sai da cabeça. Porquê?”
Shun respondeu-lhe:
“Nesses três estados levam uma vida por entre canaviais e mato. Por que incomodar-se com eles? Tempo houve em que existiam dez sóis ao mesmo tempo a iluminar todas as coisas. Quanto mais não deverá a vossa virtude iluminar mesmo esses sois!”

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Yeh Chueh perguntou certa vez a Wang Ni:
“Mestre, conheces aquilo que é comum a todas as coisas?”
“Como poderia eu sabê-lo,” replicou-lhe o mestre.
“Conheceis, mestre, aquilo que não conheceis? Perguntou-lhe novamente o discípulo.
“Como poderia eu conhecê-lo?” respondeu-lhe o mestre.
Mas o outro interrogou-o uma terceira vez: “Nesse caso, serão todas as coisas incognoscíveis?”

“Como poderia eu saber isso? Não obstante, vou procurar explicar-te o que quero dizer. Como poderás tu saber se o que eu digo que sei não seja a revelação do não-saber, e que quando digo não saber esteja verdadeiramente a revelar que sei?
Deixa que te coloque a seguinte pergunta: Se um homem dormir numa entulheira abafada e húmida ficará com dores nas costas e o corpo meio paralisado. Mas acontecerá o mesmo a uma enguia? Se alguém viver no alto de uma árvore ficará trémulo de medo, mas acontecerá o mesmo aos macacos?
De entre estes três que enunciei, qual saberá ser o local acertado para viver? Os homens comem carne, os veados alimentam-se de erva, as centopeias deliciam-se com os vermes, e as corujas e os corvos apreciam ratos.
De todos esses quatro, qual saberá qual é o melhor paladar?

Os macacos encontram par por entre outros macacos. Os veados e os alces coabitam e as enguias apreciam andar por entre os peixes.

“Mao Chiang e LI-Chi eram consideradas pelos homens como beldades, mas assim que os peixes as viam a aproximar-se, mergulhavam para o fundo do tanque; se os veados as vissem fugiriam a correr, e se chegassem muito perto dos pássaros, estes voariam para longe. Desses quatro seres, qual reconhecerá o que seja a verdadeira beleza?

“Tal como vejo as coisas, as regras da benevolência e da rectidão (do bom e do sábio) e as sendas da aprovação e da reprovação (certo e errado) acham-se inextricavelmente entrelaçadas e misturadas. Como poderia distinguir qual é qual? Como poderia discriminar por entre elas?”

Yeh Chueh voltou a perguntar: “Se o mestre não consegue distinguir o bem do mal, e o vantajoso do que é prejudicial, poderá o homem perfeito distingui-los?

Wang replicou: “O homem perfeito é espiritual. Um grande lago poderia entrar em efervescência que o calor não o afectaria. Um grande rio poderia congelar que ele não lhe sentiria o frio. Os trovões poderiam levar montanhas a desabar e as tempestades abalar o oceano, que ele não haveria de sentir medo. Um homem assim poderá alcançar as nuvens e a bruma, ou o sol e a lua, ou navegar para lá dos quatro mares que nem a vida nem a morte o afectarão nem se preocupará com o bem nem com o mal.

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Chu Chiao-tze perguntou a Wu tze:

“Ouvi contar que Confúcio não se perturba com as coisas mundanas; que não persegue o que seja rentável nem tenta evitar aquilo que se revele pernicioso; que não busca o prazer em nada nem em ninguém, e que não se apega à senda. Que fala mas sem pronunciar uma palavra, e que quando fala, nada diz. Assim busca ele a satisfação além da poeira e da imundície do mundo.

O Mestre (Confúcio) via isso como um rosário de palavras destituídas de sentido, mas eu creio que essa seja a via do insondável Tao. Que pensas tu, mestre?”

Chang Wu tze respondeu-lhe: “Essas palavras teriam deixado até mesmo o Imperador Amarelo confuso, de modo que como poderia Confúcio compreendê-las? Além, disso tiras conclusões muito precipitadas ao contares com a galinha antes do ovo e com o pato assado antes de o caçares. Vou tentar explicar-te a coisa, mas por alto. Não tomes o que te vou dizer à letra.

“Como poderia alguém igualar-se ao sol e à lua e de abraçar o universo e tornar-se um com todas as coisas, abster-se de interferir na diferença e na confusão e ignorar a ordem e o poder?

“Tal discurso quer apenas dizer que o sábio mantém a boca fechada e que coloca de parte as questões da incerteza e da obscuridade, tornando assim as suas capacidades inferiores unas consigo mesmo ao honrar a vida. Os homens no geral, labutam duramente e vivem numa azáfama. O sábio parece estúpido e ignorante. Vive dez mil anos no agora. A miríade de coisas prossegue espontaneamente no seu curso que ele considera-as a todas num todo.

“Como poderei eu saber se o apego à vida não passa de uma ilusão? Como poderei eu dizer se o temor pela morte não se assemelhará a um jovem que esqueceu o caminho de casa e não sabe como regressar?

“A jovem Li Chi era filha de um guara da fronteira de Ai. Quando o Duque de Chiu a tornou cativa, ela chorou tanto que deixou a frente do vestido encharcado de lágrimas. Mas quando foi levada para o palácio do Duque, compartilhou do seu leito e se deliciou com a sua comida, arrependeu-se de ter chorado. Como poderei eu saber se os mortos não se arrependerão do anterior apego que terão sentido pela vida?

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“Os que sonham com os prazeres da bebida, poderão pela manhã cair num pranto e na lamúria. Os que sonham com pranto e lamúria, poderão no dia seguinte sair a caçar. Enquanto sonham não sabem que se trata de um sonho, e enquanto sonham, podem mesmo chegar a interpretar os seus sonhos. Mas quando despertam sabem que se tratava de um sonho.

“Dar-se-á um grande despertar, após o que passaremos a conhecer que esta vida não terá passado de um sonho. Entretanto, os tolos pensam estar despertos, e ao empregarem a discriminação, insistem em que possuem conhecimento, ora desempenhando o papel de governantes, ora de governados. Quão tolos são!

“Tanto o Mestre (Confúcio) quanto tu estão a sonhar. Quando o afirmo, eu próprio sonho. Estas palavras poderão parecer capciosas, mas se após dez mil gerações chegarmos a encontrar um grande sábio que nos explique isso, será como se o tivéssemos encontrado numa só manhã ou tarde.

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“Já que me levaste a entrar neste debate contigo, se me levares a melhor, em vez de ser eu a levar-te a melhor, quererá isso dizer que estejas automaticamente certo e que eu esteja errado? Mas se for eu quem te leva a melhor na disputa, estarei eu porventura certo e tu errado? Estará um de nós certo enquanto o outro está errado, ou estaremos ambos certos e errados?

“Já que nós não conseguimos chegar a um entendimento comum, os homens deverão certamente continuar nas trevas da ignorância. Quem deverei chamar para que seja juiz? Se chamar alguém que concorde contigo, como poderá ele fazê-lo correctamente? O mesmo poderá ser dito caso escolha alguém que concorde comigo. Chamarei alguém que concorde com ambos? Mas, se o fizer, como poderá ser um juiz imparcial?

“Portanto, se nem tu nem eu nem mais ninguém conseguir decidir, esperaremos que mais alguém ainda decida por nós? Esperar por outros para se ficar a saber como opiniões conflituosas podem chegar a ser mundanas assemelha-se a não esperar coisa nenhuma. Se encararmos todas as coisas à luz da harmonia e não nos aferrarmos a opiniões, poderemos viver o nosso tempo de vida até ao fim.

“O que quero dizer com a instauração da harmonia entre as opiniões conflituosas? Toma a afirmação e a sua negação congénere (certo e errado). Toma a asserção de uma opinião e a sua rejeição (ser e não-ser). Não ser é ser, e ser é não ser. Se a afirmação estiver de acordo com o acto, com a realidade do facto, decerto que diferirá da sua negação; não poderá tornar-se objecto de debate. Se a asserção de uma opinião estiver certa, decerto que será diferença da sua rejeição. Tampouco isso se tornará alvo de disputa. Esqueçamos o lapso do tempo e o conflito de opiniões. Façamos um apelo ao Infinito e assumamos a nossa posição com base nele.”

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 A Penumbra perguntou à Sombra:

“Há pouco movias-te, mas agora permaneces parada. Antes permanecias sentada, mas agora estás de pé. A que se deverá tal instabilidade?”

A Sombra respondeu-lhe: “Para fazer aquilo que faço tenho que aguardar o movimento de uma outra coisa qualquer, e aquilo por que espero, espera por sua vez que outra coisa o faça. A minha dependência não será como a das escamas em relação à cobra ou das asas em relação à cigarra? Como haveria de saber por que faço uma coisa ou se deixo de afazer?”

Certa vez, eu, Chuang Tzu, sonhei que era uma borboleta que esvoaçava alegremente por aqui e por acolá, e que gozava a vida sem saber quem era. Mas subitamente eis que acordo e voltei a ser Chuang Tzu. Agora, não sei se terá sido Chuang Tzu que sonhou ser uma borboleta ou se não será uma borboleta que sonha ser Chuang Tzu. Mas entre Chuang Tzu e a borboleta deve existir uma diferença. A isso se chama transformação das Coisas.

CAPÍTULO 3
CONDUTA PARA A VIDA

Embora a vida tenha um limite, o conhecimento é ilimitado. Se fizermos uso do que é limitado na perseguição do ilimitado, isso perigoso será. Se o entendermos e ainda assim nos esforçarmos pelo conhecimento, certo será que reservará ainda mais perigo. Se praticardes o bem, afastai-vos da fama. Se cometerdes maldades, afastai-vos do castigo. Procurai o caminho do meio; guiai-vos pelo que é constante e conseguireis permanecer íntegros e vivos, cuidar dos vossos pais, e viver o tempo que vos resta.

O cozinheiro Ting estava a cortar um boi para o Lorde Wen-hui. A cada golpe de mão, a cada jeito de ombros, a cada movimento de pés, a cada golpe de faca a carne era cortada em postas num ritmo perfeito como se estivesse a executar a dança da chuva ou a manter o passo de uma música.

Lorde Wen-hui reparou: “Que maravilha. Como alcançaste tamanha perícia?”

O cozinheiro pousou a faca e disse-lhe: “Aquilo que me interessa é o Caminho, que suplanta a perícia. Quando comecei a cortar bois, só conseguia enxergar o boi. Após três noas não mais distinguia o boi. Agora aplico-me por inspiração e não me guio pelo olhar. A percepção e a compreensão detiveram-se e o meu espírito move-se por onde quer. Sigo o corpo na sua composição natural, começo por cortar nos pontos mais fracos e pelas aberturas, e sigo as coisas como elas são. Nunca toco nos ligamentos nem nos tendões, e muito menos nas principais articulações.

Um bom cozinheiro troca de faca uma vez por ano, por cortar. Um cozinheiro medíocre troca de faca uma vez por mês, por retalhar. Já tenho esta minha faca há dezanove anos e já cortei milhares de peças com ela, contudo, o gume encontra-se em tão bom estado como se tivesse vindo da pedra de amolar.
Há espaços por entre as juntas em que a lâmina não tem espessura que a impeça de modo que se a inserirmos em tais cavidades, então disporemos de imenso espaço – mais do que o suficiente para a faca poder cortar. É por isso que após dezanove anos a lâmina da minha faca está como nova.”

“No entanto, quando me deparo com uma peça complicada, avalio o grau de dificuldade que apresenta, mantenho a atenção e o cuidado, fixo os olhos naquilo que estou a fazer, movo-me muito devagar e aplico a faca com subtileza até abrir o boi em dois e ele cair por terra. Fico parado com a faca na mão a olhar em redor, completamente satisfeito e relutante em avançar, para a seguir limpar a faca e a guardar.”

“Excelente,” disse o Lorde Wen hui. Dei ouvidos ao meu cozinheiro e colhi a perfeita conduta para a vida!”

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Quando Kung Wen Hsuan viu o comandante das tropas ficou espantado e exclamou: “Que tipo de homem é este? Porque terá sido punido com a perda de um pé? Terá sido punido pelo céu ou pelo homem?”

“Não foi pelo homem,” disse o comandante, “mas obra do céu. Quando o céu me deu vida, determinou que viria a ter unicamente um pé. A aparência do homem constitui uma dádiva, por isso sei que foi obra do céu e não do homem. O faisão dos pântanos precisa dar dez passos para dar uma bicada e cem passos para conseguir um gole de água., mas não tem a menor vontade de se ver atrás de uma gaiola. Embora o tratemos como a um rei, ele sabe que não será feliz.”

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Quando Lao Tzu morreu, Chin Shi foi lamentá-lo mas após ter dado três berros, deixou os aposentos cerimoniais. Os discípulos de Lao Tzu perguntaram-lhe se não tinha sido amigo do mestre, ao que ele respondeu pela afirmativa. Os outros perguntaram-lhe se pensaria ser correcto pranteá-lo daquele modo.

“É, disse, Chin Shi. A princípio tomava-o como a um homem real, mas agora sei que não era. Há pouco, quando entrei para o prantear, dei com velhos a pranteá-lo como se tivessem perdido um filho, e jovens que choravam a sua morte coo se tivessem perdido a mãe. Para ter reunido um grupo desses, ele deverá ter feito algo que os tenha levado a falar dele, embora não lhes tenha pedido para falar nem querido que o chorassem, apesar de os ter levado a fazê-lo. Isso assemelha-se a negligenciar a natureza., voltar costas ao verdadeiro estado de coisas e esquecer aquilo com que nasceram.
Nos dias de Outono, chamava-se a isso crime por negligência da Natureza.

O vosso mestre veio por ter chegado o tempo, e partiu por seguir a ordem natural das coisas. Se vos satisfizerdes com o tempo apropriado e desejardes seguir a ordem natural das coisas, então nem a tristeza nem a alegria deverão comovê-los. A isso se chamava, nos velhos tempos, liberdade dos grilhões. Mas embora o azeite se consuma no archote o fogo alastra sem que se saiba onde poderá terminar.”


Capítulo 4
Questões do Homem e do Mundo


Yen hui foi despedir-se de Confúcio mas este perguntou-lhe: "Aonde vais?"
"Vou a Wei", respondeu aquele.
"Que vais lá fazer?" perguntou-lhe Confúcio.

"Ouvi dizer que o Príncipe de Wei é jovem e arbitrário nas suas decisões, e não se preocupa muito com o seu país nem possui consciência dos seus erros, pois não faz nada pelo povo, que se encontra num estado lastimável. Ora, ouvi-lhe dizer, mestre, que devemos deixar o país quando estiver bem governado para irmos àquele que se achar num caos. À porta de um médico há muitos doentes. Eu gostaria de usar o seu ensinamento para remediar a situação por lá.
Confúcio respondeu-lhe:

"Se lá fores, só encontrarás dificuldades. A aplicação do Princípio tem de ser pura. Quando alguma coisa lhe é adicionada, haverá perturbação, e onde houver perturbação acabará por resultar ansiedade; pela ansiedade não se obterá esperança.

Os sábios do passado desenvolveram o princípio (Tao) neles próprios antes de o oferecerem aos outros. Se não estiveres certo de o teres em ti mesmo, como poderás mudar a acção de um tirano? Além disso, tens conhecimento de que a virtude é corrompida pela fama (consciência de si). O ensino nasce do desinteresse. A fama leva os homens a lutarem entre si e o ensino é a arma para essa luta. Ambos podem ser instrumentos do mal, mas seguramente não são o meio para atingir a perfeição.
Embora tu sejas altamente virtuoso e digno de confiança, se não entenderes o espírito dos homens, ainda que possas atingir fama sem competir, se não compreenderes a mente dos homens mas, ao contrário, fores junto de um tirano e lhe ensinares a benevolência e o comportamento ético, regras e normas de conduta, estarás apenas a usar as falhas alheias a fim de demonstrar a tua própria superioridade e isso é ferir deliberadamente. E aquele que fere os outros, será por sua vez ferido, e assim acabarás provavelmente com sérios problemas.

Se, na verdade o Príncipe gostar dos homens bons e odiar os maus, por que precisarás tu de mudá-lo? Se assim procederes, ele porá a nu os teus fracos argumentos e vencerá a discussão, e tu ficarás confuso e envergonhado, tratarás de encontrar uma e outra desculpa e mais parecerá que cedes. A tua mente será moldada pela sua maneira de pensar, e a isso se chama deitar achas na fogueira.
Se começares a fazer concessões, não haverá limite para tal acto. Outros foram já tomados de assalto pelo infortúnio, em resultado de procurarem desse modo a fama para a sua virtude.

Há muitos anos, Yao atacou os estados de Tsung Shi e Hsu Ao. Essas nações foram devastadas e destruídas e os seus chefes mortos, porque todos eles estavam constantemente em guerra, numa tentativa para ganhar fama e riqueza. Nunca ouviste falar deles? Até nem mesmo os sábios podem lidar com a fama e a riqueza, quanto mais tu! Contudo, deves ter mais alguma coisa em mente; diz-me o que é."

Disse-lhe Yen Hui: "Se eu for desligado e auto confiante, perseverante e determinado, isso não funcionará?"

"O quê? Como poderá isso funcionar? Tu podes encenar um espectáculo corajoso, mas a tua incerteza estampar-se-á na tua cara, como aconteceria a qualquer outro. Esse Príncipe tira prazer em explorar os sentimentos alheios, e nem sequer consegue praticar as virtudes mais comuns; como podes esperar que seja capaz de apreciar as virtudes mais raras? Ele pode ser obstinado e inflexível e poderá aparentar que acredita, mas o seu coração não sofrerá mudança. Como poderás ter êxito nessas condições?"

"Então está bem. Serei firme por dentro e complacente por fora. Armar-me-ei com os exemplos da antiguidade; sendo firme por dentro serei um seguidor do Céu. Sendo um seguidor do Céu, saberei que o Príncipe é um filho, como eu, do Céu. Por isso, por que razão deverei preocupar-me se as pessoas aprovarão ou não as minhas palavras? A isso se chamaria ser infantil; eu chamo ser um seguidor do Céu.

Sendo complacente por fora, serei um seguidor dos homens. Levantar o retábulo, ajoelhar-se, curvar-se, arquear-se, esse é o comportamento de um ministro. Todos os homens fazem isso. Porque não eu também? Se fizer como os outros fazem, não terei problemas! É a isto que chamo ser seguidor dos homens.

Cumprindo os preceitos estarei a seguir a antiga tradição. Apesar das minhas palavras poderem ser de censura e crítica, não serão minhas mas dos sábios. Por isso não terei nenhum receio de falar. É a isto que chamo seguir a tradição. Não resultará?"

Confúcio respondeu-lhe: "Como poderá resultar? Tens demasiados planos, mas além de serem subtis são inadequados. Essas ideias pré concebidas talvez não te tragam problemas, mas não irão mais longe por isso. Como poderás influenciá-lo, de algum modo? Ainda estás a ser muito rígido naquilo que pensas fazer."

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Yen Hui perguntou novamente: "Isso foi tudo o que me ocorreu. Posso, então, perguntar-lhe o que se deve fazer?"

Confúcio disse-lhe: "Deves praticar o jejum, e digo-te porquê. Poderá ser fácil agir com base em ideias pré concebidas? O Céu desconfia daqueles que assim pensam."

Ao que Yen Hui replicou: "A minha família é pobre, e eu não bebo vinho nem como carne faz muito tempo; não será isso jejuar?"

"Não", disse Confúcio. "Isso é o jejum que se pratica nos rituais e não o jejum do pensamento. A tua vontade tem de ser una; não escutes com o ouvido mas com a mente. O ouvido só poderá escutar. A mente só poderá pensar, mas a energia vital estará vazia e receptiva a todas as coisas. O Tao habita no vazio e esse vazio é o jejum da mente."

Yen Hui respondeu: "Antes de ter ouvido tudo o que dissestes eu imaginava ser Hui. Agora que o ouvi, já não sou mais Hui. Será isto o vazio?

"Exactamente" disse Confúcio. "Deixa-me agora explicar-te. Tu podes entrar ao serviço desse homem mas não te lances em frente. Se ele escutar fala. Se não, fica em silêncio. Não cries lacunas (n.t. posicionamentos precários) e não serás atingido. Fica atento e aceita o que acontecer. Desse modo estarás perto do sucesso. Se não te moveres fácil te será passares sem seres notado. Mas é difícil andar sem pisar o chão. É mais fácil ser hipócrita nos acordos com os homens, mas é difícil ser hipócrita nos acordos com o Céu. Tu podes compreender como se poderá voar tendo asas, mas não percebes como se poderá voar sem as ter. Compreendes como agir a partir do conhecimento, mas ainda não percebes como se actua a partir da completa ignorância. Olha o espaço vazio. É no vazio que a luz se gera. Há felicidade na imobilidade, e à ausência de imobilidade se chama passear sentado. Se te abrires a tudo o que vires e ouvires, e permitires que isso actue através de ti, até os deuses e espíritos virão ao teu encontro, para não falar dos homens. Isto representa a transformação de todas as coisas, o segredo dos sábios e a sua prática constante. Muito mais útil será isso para o homem comum."

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Tendo, o duque de She, Tsu kao, sido incumbido de se deslocar ao estado de Chi, na qualidade de embaixador, e porque se sentisse apreensivo, foi consultar Confúcio, a fim de receber concelho: “O rei confiou-me uma missão da máxima importância. É provável que o Príncipe de Chi me receba com todas as honrarias, mas não revele interesse imediato ao que lhe vou propor. Até mesmo os homens comuns evitam apressar-se a tomar decisões, quanto mais um senhor feudal. Mas tal facto torna-me apreensivo.

Vós, mestre, sempre disseste que, em todas as questões, sejam grandes ou pequenas, poucos serão aqueles que obterão êxito, se falharem em seguir o Tao. Mas, se falhar em obter sucesso na minha missão, tornar-me-ei alvo da crítica. Por outro lado, se obtiver êxito, serei perturbado pelas flutuações da ânsia e da confusão, porquanto, só aquele que for sábio actuará livre dos resultados, e estará, pois, ao abrigo de toda a afectação resultante do que suceder.

Geralmente, alimento-me com comida sem condimentos, pelo que não careço de bebidas refrescantes. No entanto, fui nomeado para esta missão pela manhã, e à noite já estava sedento de água fresca. Estarei com febre? Antes, mesmo, de ter uma noção objectiva da situação, já me encontro vítima da ansiedade e da confusão. Se não conseguir obter êxito serei, certamente, condenado à crítica. Acho-me duplamente atado, pois esta tarefa excede as minhas capacidades de ministro. Não poderá, mestre, dizer-me de que modo deverei proceder?”

Confúcio respondeu-lhe: “As questões do mundo são regidas por dois princípios universais, os quais se impõe que respeitemos: um, é a ordem natural; o outro, é o dever. Segundo a ordem natural um filho não pode furtar-se a amar e a respeitar os seus pais; tal não pode, simplesmente, deixar de se fazer premente no seu afecto. Por outro lado, é dever de todo súbdito servir o seu soberano. Aonde quer que vá, deverá respeitar tal dever. É por isso que lhes chamo princípios universais. A suprema piedade filial consiste em honrar os próprios pais, onde quer que se esteja, e em todas as circunstâncias. A mais elevada forma de lealdade para com o soberano consiste em cumprir as suas funções com espírito de boa vontade. Servir os próprios desígnios, livres de toda a emoção por parte da tristeza ou alegria, aceitando o que quer que suceda, imbuído da compreensão de nada haver a fazer contra o facto, é a mais elevada virtude. Seja na qualidade de súbdito ou de filho, sempre pode ocorrer algo de inevitável que se seja obrigado a aceitar. Faz o que tiver de ser feito e não te preocupes contigo próprio; desse modo não terás porque te preocupar, nem em preferires uma coisa em detrimento de outra. Cumpre a tua missão desse modo, e tudo acabará por resultar pelo melhor.

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Vou dizer-te mais uma coisa. Se dois indivíduos ou Estados mantiverem entre si elos de firmeza, a confiança recíproca demonstrar-se-á na realização. Caso se encontrem apartados pela distância, a sua boa-fé terá de ser renovada por intermédio de um terceiro, que se encarregará de transmitir mensagens de confiança. Encarregar-se dessa missão, porém, é das coisas mais difíceis, sejam mensagens de regozijo ou de ira. Quando ambas as partes pretendem agradar, gera-se a tendência para o exagero nos elogios. Se ambas sustentarem sentimentos de ira e queixume, haverá tendência para exagerarem na crítica. O exagero, porém, trais sempre a justiça; e sem justiça ou verdade é improvável que resulte confiança. É por isso que se diz que é preferível falar a verdade sem exageros, de modo a não se ser prejudicado.

O combate entre dois lutadores é geralmente iniciado num estado de abertura de espírito amigável e desprendido mas, na maior parte das vezes, termina no ressentimento e na amargura. É comum no calor da disputa trocarem-se certas imprecações que se tornam conducentes ao dano e à zanga. Quando, nas cerimónias, os homens começam a beber, iniciam com toda a polidez, todavia, é comum terminarem na descompostura. O que se inicia assim, num espírito de diversão acaba, a maior parte das vezes, na insensatez e no exagero; Assim é com tudo, que a princípio parecia destituído de importância, termina adquirindo proporções monstruosas.

As palavras e os actos são como os ventos e as ondas do mar, que facilmente podem ser postos em movimento. Os interesses em jogo facilmente produzem situações de perigo real. A ira decorre da esperteza e das meias verdades empregues. Quando os animais se confrontam com a eminência da morte, tornam-se apoderados por uma ferocidade que os faz rosnar e grunhir ou até atacar sem receio. Do mesmo modo, quando um indivíduo se vê forçado para lá da medida, pode ser impelido a tornar-se agressivo, sem saber porquê. E se nem ele próprio conhece as razões desse seu comportamento, quem saberá saber onde tudo isso irá parar, ou terminar? É por isso que se diz: “Não te desvies das tuas instruções nem te apresses a terminar a tua tarefa.” Não forces as coisas. É perigoso ultrapassar os limites naturais, pois podes comprometer-te e tornar irreversível o processo das negociações. Uma vez empreendida alguma atitude errada, poderá tornar-se demasiado tarde para a corrigir. Mas todo bom desenlace leva o seu tempo a desenvolver. Deste modo, deixa-te seguir na corrente das coisas e conserva a mente livre. Permanece intimamente ordenado e cuida da tua força interior, de modo a aceitar o inevitável. Esse é o melhor método de procedimento. De que outra forma poderás agir, de modo a levar a cabo a tua tarefa? É preferível deixar que tudo se desenrole com naturalidade, muito embora tal, seja, de facto, pouco fácil de conseguir.

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Yen Ho estava prestes a tornar-se tutor do príncipe da Coroa, filho do duque Ling, do estado de Wei. Foi consultar Chu Po Yu dizendo: "Eis aí alguém que é naturalmente violento. Se eu deixar que permaneça indisciplinado, o Estado correrá perigo. Se o procurar corrigir, incorrerei eu próprio em risco. Ele conhece o suficiente para reconhecer as faltas nos outros, mas não o suficiente para reconhecer as próprias. Nesta circunstância, que poderei fazer?"

Chu Po Yu respondeu: "Eis uma excelente questão! Fica em guarda, sê prudente e assegura-te de que atuas apropriadamente. Aparenta ser flexível mas preserva a harmonia interior. Todavia, conseguir essas duas coisas envolve perigo; conquanto flexível assegura-te de continuares centrado. Mantém a total harmonia mas não a reveles abertamente. Se fores demasiado flexível e perderes o teu centro então serás vencido e destruído, e desmoronar-te-ás. Se tentares demonstrar a tua compostura, serás criticado e dilapidado, levado na conta de filho da mãe e de inimigo. Se ele quiser ser infantil, sê infantil juntamente com ele. Se quiser agir de uma forma estranha, age como ele. Se ele quiser ser descuidado, sê descuidado com ele. Assim poderás tê-lo ao alcance e trazê-lo de volta ao equilíbrio."

"Conheces a história do monge que orava? Ergueu um braço para fazer com que a carruagem que se aproximava parasse, sem perceber que tal estava além do seu poder, tal era a elevada opinião que tinha de si mesmo. Vigia e sê cuidadoso. Se ofenderes o Príncipe ao ostentares os teus próprios talentos, estarás a cortejar o desastre."

"Sabes o que faz o domador de tigres? Não se arrisca a alimentar os tigres com animais vivos, com receio de lhes despertar a ferocidade, quando eles os matam. Não se arrisca a nutri-los com carcaças inteiras, com medo de lhes despertar a raiva, quando as despedaçam. Ele sabe quando os tigres se encontram famintos e saciados; por isso, acha-se em contacto com a sua natureza feroz. A dos tigres é uma espécie diferente da dos homens, no entanto, se observarmos o seu comportamento, poderemos treiná-los na docilidade. Eles só matarão uma vez excitados."

"Um homem apaixonado por cavalos recolhe o estrume num cesto e a urina num balde. Se um mosquito ou uma mosca pousam num cavalo ele os enxotar de forma demasiado rápida, o cavalo poderá perder o freio, magoar o homem, e partir-lhe as costelas. Uma pessoa assim será dotada de boas intenções, mas levá-las-á longe demais. Podes permitir-te ser descuidado?"

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Shih, o carpinteiro encontrava-se a caminho do Estado de Chi. Quando chegou a Chu Yuan, avistou um carvalho peto do santuário da aldeia. A árvore era suficientemente grande para dar sombra a muitos bois e tinha centenas de braços de copa. Assemelhava-se a uma torre sobre a crista dos montes, com os ramos mais baixos a oitenta pés do chão. Vários deles eram tão grandes que poderiam ser transformados em barcos. Encontrava-se ali uma multidão de pessoas, como se fosse um mercado. O mestre carpinteiro nem sequer voltou a cabeça e prosseguiu viagem sem se deter. O seu aprendiz lançou um olhar demorado, e de pois correu atrás de Shih, o carpinteiro, e disse: "Desde a hora em que peguei no meu machado e te segui, mestre, nunca vira madeira tão bela como esta. Mas tu nem sequer te deste ao trabalho de a contemplar e prosseguiste sem parar. Porquê?"

Shih, o carpinteiro, respondeu: "Pára! Não digas mais nada! Aquela árvore é inútil. Um barco feito dela afundar-se-ia, um caixão rapidamente apodreceria, uma ferramenta racharia, uma porta empenaria e uma viga ganharia caruncho. É madeira inútil aquela, e sem préstimo. É por isso que alcançou idade tão avançada."

Após o regresso de Shih a casa, a árvore sagrada apareceu-lhe num sonho, dizendo: "Com que é que estás tu a comparar-me? Estás a comparar-me com árvores inúteis? Há cerejeiras, macieiras, pereiras, laranjeiras, limoeiros e outras árvores de fruto. Assim que os frutos amadurecem, as árvores são despidas e abusam delas. Os ramos maiores são cortados e os menores esgaçados, e elas têm uma vida amarga por causa da sua utilidade. É por isso que não vivem uma vida natural, e são cortadas na sua juventude. Elas atraem a atenção das pessoas vulgares. O mesmo se passa com todas as coisas. Quanto a mim, tenho vindo faz tempo a tentar ser inútil. Algumas vezes quase fui destruída, mas finalmente sou inútil, e isso tem-me sido bastante útil. Se eu tivesse sido útil teria crescido tanto?"

"Além disso, tu e eu somos ambos coisas. Como poderá uma coisa julgar uma outra coisa? Que poderá um homem inútil e moribundo quanto tu saber de uma árvore inútil?"

Shih, o carpinteiro, acordou e procurou compreender o sonho que tivera. O aprendiz disse:  "Se ela tinha assim tanto desejo de ser inútil, como é que serve de santuário?"

Shih, o carpinteiro, disse: "Calma! Deixa de falar! Ela está apenas a fingir ser alguém que não possa ser ferido pelos que não sabem que ela é inútil Se não se tivesse tornado uma árvore sagrada, provavelmente teria sido cortada. Ela protege-se a si própria de maneira diferente da utilizada pelas coisas comuns. Nós não a compreenderemos de uma forma comum."

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Nan-po, mestre Ki, andava a vaguear pelos montes Chang quando se deparou com uma extraordinária árvore enorme capaz de dar abrigo a várias carruagens. Tze Chi disse:

“Que tipo de árvore será este? Deve dar uma madeira muito especial. Todavia, ao olhar para cima viu os ramos enrugados e retorcidos que não poderiam ser usados para barrotes nem para vigas. Olhou para baixo e viu que o tronco estava cheio de nós, e que não poderia ser usado para fazer caixões. Saboreou uma das suas folhas e ficou com a boca a arder e a língua retalhada. O odor que exalava deixou-o intoxicado e inebriado durante três dias.

Tze Chi disse: “Na verdade, esta árvore não serve para coisa nenhuma. Não é de admirar que tenha atingido tal tamanho. É assim mesmo! Esse é o tipo de inutilidade que os sábios privilegiam.

Ching Shih, na província de Sung, é um local excelente para o cultivo da catalpa, do cipreste e da amoreira. As que atingem sete ou oito palmos são cortadas para fazer pranchas laterais para os caixões das famílias aristocratas e dos mercadores ricos.

As que atingem os três ou quatro palmos são cortadas pelos que precisam de vigas para as suas casas sumptuosas e afamadas. As que não atingem mais do que um palmo são cortadas para fazer postes para quem quer amarrar o macaco. Assim, as árvores nunca chegam a atingir a sua estatura completa e têm um fim prematuro a meio do seu crescimento. Esse é o risco implícito à utilidade.

Da mesma maneira, as escrituras especificam que os bois de testa alva, os porcos de focinho arrebitado e os homens que padecem de hemorróidas não podem ser sacrificados ao deus do rio. Os feiticeiros identificam-nos por essas especificidades e consideram que trazem má sorte. Contudo, os sábios, acreditam que eles sejam afortunados.

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Existiu outrora um corcunda chamado Shu. O queixo dele parecia repousar sobre o umbigo, os ombros erguiam-se-lhe acima da cabeça e a espinha apontava para o alto. As suas vísceras encontravam-se comprimidas na região superior do corpo e as ancas mais pareciam costelas. Afinando agulhas e lavando roupas lá conseguia ganhar o sustento. Joeirando e peneirando arroz, ele conseguia sustentar dez pessoas.

Quando as autoridades recrutavam soldados, esse pobre Shu podia mostrar-se por entre as gentes; sempre que havia alguma grande empreitada em curso, nenhum trabalho lhe era atribuído devido à invalidez em que se encontrava. Quando o governo distribuía trigo aos doentes, ele recebia três medidas e dez feixes de lenha para queimar. Se tal homem tão deformado de corpo era capaz de se sustentar e de viver até ao fim dos seus dias, quanto mais não o conseguirá os que apresentam deformação nas faculdades!

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Quando Confúcio foi ao estado de Chu, o louco de Chu – Chieh You – encontrava-se ao portão quando o mestre passou e disse:

“Oh fénix, oh fénix, como a tua virtude se degenerou! Não se pode ficar á espera do futuro; não adianta correr atrás do passado. Quando todo o mundo atinge o Tao (ordem natural), o sábio alcança a perfeição. Quando a desordem prevalece, ele poderá preservar a sua vida, mas desperdiçará o seu tempo. Em tempos assim, o melhor que há a fazer é manter-se à distância das complicações. A felicidade é mais leve do que uma pena, mas ninguém consegue suportá-la. A calamidade pesa mais do que a terra, mas ainda assim ninguém sabe como evitá-la. Desisti! Desisti de abordar os homens com as vossas lições de virtude! Coreis perigo! Tomai cuidado para não demorardes onde tiverdes marcado o terreno contra o vosso avanço!

Eu evito a publicidade para que a minha senda não se veja prejudicada. Prossigo no meu curso, ora dando um passo atrás, ora de uma forma deformada, evitando os meus pés.

As montanhas vêem-se enfraquecidas por causa das árvores. A gordura que é adicionada ao fogo consome-se a ela própria. A árvore da laca é útil por causa da resina que dá; razão por que lhe fazem cortes. Todos sabem da vantagem de ser útil, mas ninguém conhece a vantagem de ser inútil.

CAPÍTULO 5
SINAIS DE PLENA VIRTUDE

Havia um certo Wang-tai em Lu que tinha perdido ambos os pés; os discípulos que o seguiam e andavam com ele por toda a parte eram tão numerosos quanto os de Confúcio. Khang Ki perguntou a Confúcio por ele, dizendo:

"Embora Wan Tai seja um aleijado, tem tantos seguidores no estado de Lu quanto tu, mestre. Quando se ergue não lhes dá qualquer ensinamento; quando se senta, não faz o menor discurso. Mas eles vão a ele de mãos vazias e veem dele com elas cheias. Existirá efectivamente coisa tal como instrução sem palavras? E enquanto o corpo pode permanecer imperfeito, poderá a mente ser completa? Que tipo de homem será ele?"

Confúcio respondeu: "Esse mestre é um sábio. Eu cheguei a ele demasiado tarde, mas farei dele meu mestre; quanto mais não o deverão fazer aqueles que não se me assemelham! Por que deverei ficar-me pelo estado de Lu? Conduzirei tudo quanto existe sob o céu a fazê-lo comigo."

Khang Ki replicou: "Ele é um homem que perdeu os pés, no entanto é conhecido como venerável Wang; ele deve ser bastante diferente do homem comum. De que forma peculiar empregará ele a sua mente?"

A resposta que recebeu foi a seguinte: "Vida e morte são considerações de elevada importância, mas não conseguem operar o menor efeito nele. Ainda que o céu e a terra estivessem para desmoronar, não lhe ocasionariam a menor perturbação. O seu juízo fixa-se naquilo que não comporta o menor elemento de falsidade; e, conquanto as demais coisas mudem, ele não sofre qualquer mudança. As transformações das coisas para ele representam o desenvolvimento prescritos para elas, ele agarra-se tenazmente ao imutável."

Khang Ki disse: "Que é que queres dizer? Quando contemplamos as coisas," disse Confúcio, "à medida que apresentam diferenças, percebemo-las como diferentes, (como por exemplo) o fígado e o fel, ou os estados de Ku e Yueh; quando olhamos para elas, se concordarem, percebemo-las a todas como a mesma coisa. O mesmo sucede com este Wang-Tai. Ele não se deixa guiar pelos ouvidos nem pelos olhos, mas a sua mente delicia-se na harmonia de todas as excelentes qualidades. Ele contempla a unidade inerente às coisas e não percebe em que é que elas possam sofrer qualquer perda Considera a perda dos pés como a perda de coisa insignificante."

Khang Ki disse: "Ele acha-se completamente imerso em si mesmo. Através do conhecimento que tem descobriu a natureza da sua mente e a isso se atém como aquilo que é imutável; Mas por que será que o têm em tal elevado conceito?"
A resposta que recebeu foi a seguinte: "Os homens não contemplam a água corrente como um espelho, mas a água imóvel; somente a imobilidade pode mante-los imóveis na contemplação do seu verdadeiro Eu. Quanto às coisas que são como são por influência da terra, somente o pinheiro e o cipreste constituem os melhores exemplos; que tanto no inverno como no verão brilham verdejantes. Quanto às coisas que são como são por influência do céu, os exemplos mais acertados seriam os de Yao e Shun; afortunados em viver correctamente, e em dar o exemplo de correcção aos outros."

"Ater-se às forças originais é o fundamento do destemor - como o espírito heroico de um único soldado bravo que é capaz de vencer nove exércitos. Se um homem que busque somente fama dessa forma a fim de a segurar é capaz de produzir um tal efeito, quanto mais não aquele que domina céu e terra, e que abraça a multiplicidade de coisas como o seu tesouro e que tem como morada temporária o corpo e cujos olhos e ouvidos servem para transmitir imagens efémeras de coisas, que compreende todo o conhecimento que possui numa unidade, e cuja mente jamais perece! Se um homem assim fosse escolher um dia para ascender ao alto, os homens procurariam segui-lo aí. Mas de que modo optaria ele por se preocupar com os outros?"

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Shan-thu Ki era outro homem que tinha perdido os pés. Juntamente com Dze-Khan de Kang ele estudou com o mestre Po-hwan Wu-zan. Tzu-khan disse-lhe certo dia: "Se eu sair primeiro, tu permaneces atrás; Se tu saíres primeiro, eu permanecerei atrás."

No dia seguinte encontravam-se de novo sentados juntos na mesma esteira na sala quando Tzu-khan proferiu as mesmas palavras acrescentando:

"Neste instante vou sair; ficas para trás ou não? Além disso, quando vires alguém de posição como eu, não procurarás sair do seu caminho? Considerar-te-ás igual a alguém de posição importante?"

Shän-thu Ki respondeu: "Na escola do nosso mestre existirá coisa alguma como reconhecimento requerido a uma posição importante? Vós sois alguém, Senhor, que tem prazer na posição de importância que assume, e em conformidade deve tomar precedência diante dos outros. Ouvi dizer que, quando um espelho reluz, não tem pó depositado; quando o pó se deposita, o espelho não reluz. Quando se passa muito tempo junto a um homem de competência e virtude, chegamos a tornar-nos irrepreensíveis. Aí temos o mestre que elegemos para nos tornar maiores do que somos; mas quando ainda falamos assim, não estaremos no erro?"

Tzu-khân replicou: "Tu, que és insignificante, e ainda te esforças por te fazer tão bom quanto Yao! Se examinares as tuas virtudes, poderás encontrar matéria de reflexão."

O outro respondeu: "A maioria dos criminosos, ao descreverem as ofensas cometidas, procurariam justificar-se para evitar a punição; poucos os descreveriam de forma que parecesse que se recusassem a ser poupados. Somente os virtuosos sabem que uma calamidade tal seria inevitável, e em consequência se resignariam ao inevitável, aceitando-o como a vontade do destino. Quando os homens se vêm na frente de um arqueiro como eu, com o seu arco armado, se se encontrarem no meio do campo de tiro, serão atingidos; E se não fossem atingidos, isso também seria o destino. Há muito quem tenha os pés e se ria de mim devido a que eu os tenha perdido, o que me deixa vexado e irritado. Mas quando vou até o nosso mestre, ponho tal sentimento de lado, e retomo um humor melhor; ele purificou-me esse outro sem que eu tivesse conhecimento disso, com as suas instruções e a sua bondade. Há já dezanove anos que estudo com ele, e não sabia que me faltavam os pés. Agora, vós, Senhor, e eu temos por objecto do nosso estudo a virtude eterna e não um acessório do corpo, no entanto está continuamente a dirigir a sua atenção para o meu corpo externo; não estará errado isso?"

Tzu-Khan sentiu-se apreensivo, alterou os modos e os olhares, e disse: "Não precisa acrescentar mais nada, Senhor, em relação a isso."

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Em Lu havia um aleijado chamado Shu-shan, o Sem Dedos, que veio sobre os calcanhares ver Confúcio. Confúcio disse-lhe: "Por causa da carência de circunspeção de que padeceste no passado, Senhor, incorrestes nesta calamidade; de que servirá vir a mim agora?"

O Sem Dedos respondeu: "Devido à ignorância do que me competia e ter tido tão pouco cuidado do meu corpo, cheguei a perder os dedos. Mas venho agora a vós ainda na posse do que é mais honroso do que os meus dedos, o que consequentemente anseio por preservar intacto. Não há nada que o céu não cubra e nada que a terra não sustente; vós, Mestre, pensei que éreis como céu e terra; como poderia eu saber que me receberias deste modo?"

Confúcio replicou: "Fui incoerente. Mas porquê, mestre meu, não entras para te poder dizer aquilo que aprendi?"

Contudo, o Sem Dedos foi-se embora, e Confúcio disse: "Sejam estimulados ao esforço, discípulos meus. Este aleijado sem dedos ainda anseia aprender para compensar pelo mal da conduta anterior que teve; Quanto mais não deveriam ansiar aqueles cujas condutas não foram contestadas!"

Contudo o Sr. Sem Dedos disse a Lao Tze: "Confúcio, segundo percebi, ainda não conseguiu tornar-se num homem Perfeito. Que terá ele que ver com a reunião de uma multidão ao seu redor? Ele busca reputação de homem extraordinário e maravilhoso, e não sabe que o Homem Perfeito considera isso algemas e grilhões."
Lao Tzu disse: "Porque não o levaste simplesmente a ver a unidade de vida e morte, e que o admissível e o inadmissível pertencem à mesma categoria, de modo a libertá-los dos seus grilhões? Teria isso sido possível?"

O Sem Dedos disse: "É a punição que lhe foi infligida pelo Céu, Como poderá ele libertar-se dela?"

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O Duque Ai de Lu abordou Confúcio, dizendo: “Havia um homem de aspecto feio em Wei, chamado Ai-thai-Tho. O seu padrasto, que viva com ele, tinha-o em tal consideração que não se conseguia afastar dele. As jovens, quando o viam (feio como era) corriam para casa dos pais dizendo: "Eu preferia ser sua concubina do que mulher de qualquer outro homem."

Nunca se ouviu que ele liderasse uma discussão, e sempre parecia cordato em relação à opinião alheia. Não tinha a posição de regente, de modo a poder salvar os homens da morte. Não tinha qualquer rendimento, para pode satisfazer a ansia de comida da parte dos outros. Por outro lado, era suficientemente feio, para deixar todo mundo apavorado. Concordava com os outros em vez de procurar persuadi-los quanto às suas perspectivas. Os conhecimentos que tinha não iam além da vizinhança. Contudo, o seu padrasto e a sua mulher eram da mesma opinião com respeito a ele, na sua presença; ele deve ter sido diferente dos outros homens. Eu chamei-o, e vi-o. Decerto que era suficientemente feio para assustar o mundo inteiro. Todavia, não tinha vivido comigo. Durante muitos meses, quando me senti atraído para o homem, e antes de passar um ano inteiro comigo, eu tinha confiança nele. Por o estado não ter um ministro, eu era de opinião de lhe entregar o governo a ele. Ele respondeu à proposta que lhe fiz com tristeza, e pareceu evasivo como se de bom grado a tivesse declinado. Senti vergonha de mim próprio, como se fosse inferior a ele, m as por fim entreguei o governo nas suas mãos. Contudo, em pouco tempo ele deixou-me e partiu. Eu fiquei triste e senti que tinha sofrido uma perda, coo se não houvesse mais quem partilhasse os prazeres do reino comigo. Que tipo de homem seria ele?

Confúcio disse: “Certa vez em que fui enviado numa missão a Ku, vi alguns porcos a mamar na sua mãe morta. Passado uns instantes deitaram um olhar rápido, e todos a abandonaram, fugindo. Sentiram não a ter visto, e que ela não mais se parecia com eles. Aquilo que tinham apreciado na sua mãe não era a sua figura corporal, mas aquilo que lhe tinha animado essa figura. Quando um homem morre na batalha, eles não usam as suas vestes costumeiras de penas no enterro. Quando a fornecer calçado para alguém que perdeu os pés, não sobra a menor razão para se preocuparem com isso. Em qualquer dos casos não subsiste razão apropriada para o seu uso.

Os membros de um harém real não aparam as unhas nem furam as orelhas; quando um homem é recém-casado, durante um tempo permanece ausente dos seus deveres oficiais e não se ocupa deles. Tal era a importância de manter o corpo num todo; quanto maior resultados não deverão esperar aqueles cujos dons mentais são dotados de perfeição!

Esse Ai-Thai-Tho tinha a confiança dos homens, embora não pronunciassem uma palavra, e era amado por eles, embora não lhes rendesse qualquer serviço especial. Ele levou os homens a nomeá-lo chefe do estado deles, receosos somente que ele não aceitasse tal cargo. Ele deve ter alcançado a perfeita harmonia, embora a percepção que tivesse deles não se manifestasse na sua pessoa.

O Duque Ai disse: “Que queres dizer com ter alcançado a perfeita harmonia?”
Confúcio respondeu: “Vida e morte, preservação e ruína, sucesso e fracasso, pobreza e riqueza, superioridade e inferioridade, elogio e culpa, fome e sede, frio e quente; isso são mudanças de circunstância, o funcionamento do nosso fado. Dia e noite sucedem-se diante de nós, mas não há quem na sua sabedoria consiga descobrir a sua origem, pelo que não se revelam suficientes para perturbar a harmonia (da natureza) nem têm permissão para penetrar no domínio da inteligência. Levar a que esta harmonia e satisfação sempre se difunda, sem perder de vista a sensação de prazer; não permitir que se interrompam neste estado dia e noite, de modo que sempre seja Primavera na relação que tem com as coisas exteriores; em todas as experiências perceber o que seja indicado para cada estação do ano; essas são as características daquele que alcançou a perfeita harmonia.

“E que queres dizer com percepção dessa harmonia não manifesta na pessoa,” prosseguiu o Duque.

E a resposta que recebeu foi:

Não há nada que atinja o equilíbrio como a superfície de um lago de águas tranquilas. Isso pode servir de exemplo para aquilo que quero dizer. Tudo quanto se situe no seu íntimo será preservado em paz, e nenhuma agitação oriunda do exterior o atingirá. A eficácia da virtude está no cultivo perfeito da harmonia da natureza. Embora o percebimento disso não se manifeste na pessoa, as coisas não se podem furtar à sua influência.

Alguns dias mais tarde, o Duque Ai contou a conversa que tinha tido ao Mestre Min, dizendo: “Ao voltar a olhar ara si, parecia-me que seria obrigação do soberano nomeado para o governo voltar a face para sul, para governar o reino, e guiar as pessoas e cuidar das suas vidas, para que não terminem na miséria; isso considerava eu ser o máximo do dever que lhe cabia. Agora que ouvi uma descrição destas acerca do Homem Perfeito, receio que a ideia que tinha não fosse correcta, ao empregar-me tão levianamente que podia conduzir o meu estado à ruína. Confúcio e eu não nos relacionamos mais como governante e súbdito, mas como virtuosos amigos.”

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Uma pessoa sem lábios, e cujas pernas deformadas a ponto de só poder caminhar nas pontas dos pés, ou que apresentasse outra deformação, dava concelhos ao Duque Ling de Wei, que se sentia de tal modo satisfeito com ele que, quando via pessoas de fisionomia normal as achava comparativamente magras e descarnadas. Outra com um enorme bócio como uma jarra de barro, dava seus concelhos ao Duque de Khi, que se sentia de tal modo agradado com ele que o achava homem perfeito e dotado de pescoço magro em comparação com ele. Assim é que, quando a virtude que se possui é extraordinária, qualquer deformidade física pode ser esquecida.

Quando os homens não esquecem o que é facilmente deveriam esquecer, e esquecem o que não é fácil esquecer, temos um verdadeiro caso de esquecimento grave! Por isso, o sábio contrai aquilo em que a sua mente encontra prazer, e encara a sabedoria como brotos de um velho cepo; acordos e convenções, para ele, assemelham-se a cola; a amabilidade não passa de artifício próprio das relações sexuais e as aptidões assemelha-se a mercadoria de mercador.

O sábio não estabelece planos. De que lhe serviria a sabedoria? Ele nada tem a aperfeiçoar. De que lhe serviria a cola? Ele não sente falta de nada. De que lhe serviriam os artifícios próprios das relações sexuais? Ele não tem bens de que possa dispor: que necessidade terá ele de passar por mercador? A falta dessas quatro coisas constitui uma graça dos céus. Dado que ele acolhe essa graça dos céus, que necessidade terá ele qualquer coisa que proceda da concepção dos homens? Ele possui forma humana, mas não a paixão nem os desejos dos outros. Ele possui forma humana, pelo que homem será. Mas não possuindo as paixões nem os desejos dos semelhantes, não é senhor de aprovação nem de desaprovação. Quão pequeno e insignificante é o corpo pelo qual faz parte da humanidade! Quão grandiosa é a perfeição única que é própria da sua natureza celeste!

O mestre Hui disse ao Mestre Chuang: “Poderá efectivamente um homem ser desprovido de desejos e paixões?”

E a resposta que recebeu foi: “Pode, sim.”

Mas, com base em que é que lhe chamareis homem, quem será que não tem desejos ou paixões?'

O Mestre Chuang disse: “O Tao dá-lhe a aparência e os poderes pessoais; O Céu dá-lhe a forma corporal; porque não deveríamos chamar-lhe homem?”

O Mestre Hui retorquiu: ”Já que lhe chamas homem, como poderá ser desprovido de paixões e de desejos?”

E a resposta que recebeu foi: “Estás a interpretar mal o que refiro por paixões e desejos. O que quero dizer quando afirmo que não tem nada disso é que, esse homem não provoca qualquer agravo à sua condição corporal com base nos gostos e aversões; sempre segue o seu curso sem esforço, e não procura prolongar a sua vida.”

O Mestre Hui retorquiu: “Se não tiver esse crescente prolongamento de vida, como conseguirá ter corpo?”

O Mestre Chuang disse: “O Tao concede-lhe o aspecto e poderes pessoais; O Céu concede-lhe a forma física; ele não provoca qualquer dano corporal por intermédio dos gostos e aversões. Mas vós, Senhor, lidais com o vosso espírito como se ele fosse algo externo a vós, e sujeitais a vossa força vital à labuta. Vós cantais as vossas cantigas encostado a uma árvore; Dorme agarrado a um tronco de árvore apodrecida. O Céu concedeu-lhe a forma corporal de homem, e você não para de balbuciar acerca da dureza e da brancura.”

CAPÍTULO 6
O VERDADEIRO MESTRE

Aquele que distingue a parte que nele opera proveniente do céu, e que distingue a parte que nele opera proveniente da terra, esse atingiu a perfeição do conhecimento. Aquele que conhece a parte que o divino desempenha sabe que nasce naturalmente consigo; aquele que conhece a parte que o humano deve desempenhar dá prosseguimento ao conhecimento que possui no suprir daquilo que ainda não conhece, para que desse modo complete o seu tempo de vida e não veja a perfeição do conhecimento comprometida por uma morte antecipada.

Apesar de ser assim, ainda subsiste um problema. Um tal conhecimento ainda dependerá de uma confirmação, por ainda não se achar determinado. Como haveremos de saber se aquilo que chamamos de Céu em nós não será humano e o que chamamos de Humano em nós não será divino?

Primeiro precisará existir o Homem Verdadeiro e só depois poderá existir o Verdadeiro Conhecimento.

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Mas, que será isso de “Homem Verdadeiro”?

O Homem Verdadeiro do passado não rejeitava o frugal; não procurava realizar os seus fins por uma questão de orgulho, nem traçava planos para alcançar esses fins. Assim sendo, embora pudesse cometer erros, não era acometido pelo arrependimento; embora pudesse obter êxito não era complacente consigo próprio. Desse modo, era capaz de ascender aos lugares mais elevados sem medo, podia atravessar a água sem ficar molhado, atravessar o fogo sem se queimar; assim era que pelo conhecimento que alcançava ascendia e atingia o Tao.

O Homem Verdadeiro do passado não sonhava quando dormia, nem sentia ansiedade quando permanecia acordado, e tão pouco se preocupava por que a comida fosse boa. Cultivava uma respiração profunda e silenciosa. A respiração do Homem Verdadeiro procede até mesmo dos calcanhares, enquanto a dos homens comuns geralmente procede unicamente das suas gargantas. Quando os homens são derrotados na discussão, as palavras procedem das goelas como vómitos. Quando desejos e cobiça se acham enraizados, o que brota do Céu neles permanecem supérfluo.

O Homem Verdadeiro do passado nada sabia do apego pela vida nem do horror pela morte. A vinda à vida não era causa de exaltação; o abandono da vida não lhe desencadeava a menor resistência. Serenamente ia e vinha. Não esquecia as origens nem procurava aferir o seu fim. Aceitava a sua vida e alegrava-se com isso; esquecia todo o temor da morte e retornava ao estado original. Tinha o que é chamado de “falta de querer” para resistir ao Tao e de “tentativas humanas” para ajudar ao divino. Assim era o Homem Verdadeiro.

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Assim sendo, gozava de liberdade em relação a todo o pensamento; tinha uma conduta calma e imperturbável e irradiava alegria e simplicidade. Qualquer indiferença que demonstrasse assemelhar-se-ia à calidez da Primavera. A alegria e a ira que o inundava fluíam como as estações. Fazia o que era conveniente em todas as coisas, e ninguém conseguia medir o alcance das suas acções. Por isso, conquanto o sábio possa embrenhar-se na guerra, é capaz de destruir um estado sem comprometer o coração dos homens. Os benefícios e favores que proporciona, entendem-se a incontáveis gerações posteriores sem que apego pelos homens. Por isso, aquele que se esforce por levar alegria e sucesso aos demais, não sente júbilo nem é bem-sucedido; aquele que pretende demonstrar afecto não é benevolente; o que observa os costumes da época para regular a sua conduta, não é possuidor de virtude; aquele para quem o proveito e o dano não sejam o mesmo, não é um homem verdadeiramente digno; aquele que age em prole do reconhecimento e o faz sem noção da adequação, não revela compreensão; aquele que se desvia do caminho e não é verdadeiro consigo próprio não poderá comandar os outros. Homens como Hu Pu-Chieh, Wu Chuang, Po I, Chou Chi, o conde de Chi, Hsu Yu, Chi Tah e Chang Tu Ti, todos prestaram serviços à humanidade e trataram de lhe suprir as necessidades, sem terem encontrado alegria nisso.

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O Homem Verdadeiro do passado era altivo no julgar os demais correctamente, mas sem ser partidário; procurava apurar as próprias insuficiências, mas não aceitava adulação nem servilismo. As peculiaridades que o caracterizava eram-lhe naturais, mas não se apegava a elas de forma obstinada; tinha uma aparência humilde, mas desprovida de ostentação. A placidez e satisfação que demonstrava tomavam um aspecto de felicidade; tudo quanto evidenciava parecia constituir uma necessidade para ele. A radiância que emitia atraia os olhares dos homens; a insipidez que demonstrava fixava o apego dos homens na sua virtude. Parecia acomodar-se aos moldes da época, mas sem perder o discernimento; a indiferença altiva que demonstrava era espontânea. Infatigáveis pareciam ser os esforços que envidava para manter a boca fechada; quando se compenetrava, ficava abstracto, como se não fosse consciente do que queria dizer.

Considerava a punição como matéria do governo e não incorriam nela; achava que as cerimónias eram o seu suporte, e sempre as observava; tinha o conhecimento (razão) na conta de uma necessidade na orientação da acção, e do oportuno; a virtude, via-a como o acordo constante com os outros, e mostrava acordo em tudo. Ao considerar a punição como matéria dos governos, demonstrava rigor no julgar. Ao considerar as cerimónias como o suporte dos governos, colocava o homem em primeiro lugar. Por considerar a razão um guia na definição do momento oportuno da acção, tinha necessidade de a empregar. Ao considerar que a virtude residia no perfeito acordo de si, procurava aspirar a ela junto de quantos demonstrassem o mesmo. Assim era, mas ainda assim os homens pensavam que agia assim com base num empenho esforçado.

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Desse modo era uno e o autêntico nas preferências e nas aversões que nutria. Naquilo de que gostava cooperara com o divino em si; naquilo por que sentiam aversão estava em conformidade com a sua natureza humana. Nenhum desses elementos superava o outro na sua natureza. Assim era aquele que é chamado de Homem Verdadeiro.

Vida e morte fazem parte da ordem das coisas, tal como a sucessão constante do dia e da noite; ambos os casos excedem a interferência do homem. Tal é a natureza das coisas. Há quem considere o Céu como seu Pai e o ame à distância. Quanto mais não deveriam amar AQUILO que se destaca como superior e único! Alguns sentem em especial que os seus governantes lhes sejam superiores, e entregam-se de bom grado à morte por eles; quanto mais não o deveriam fazer por AQUILO que os rege verdadeiramente a eles próprios! Quando as fontes secam, os peixes ficam encalhados e tentam untar-se no lodo e humedecer-se uns aos outros, mas seria melhor que pudessem esquecer-se dos outros nos rios e nos mares. Mas quando os homens louvam Yao e condenam Chie, seria melhor que esquecessem ambos, e procurassem transformar-se no Tao.

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A Natureza impõe-nos a labuta dura da terra, mas na velhice nela encontramos descanso e na morte nela encontramos repouso. O que faz com que a minha vida seja boa também faz com que a minha morte seja boa. Se escondermos um barco na falésia e uma rede de pesca num lago, diremos que o barco e a rede estejam seguros; mas à noite sucederá que venha um homem forte e os carregue consigo sem que tenhamos como dar por isso. Os néscios acham acertado ocultar as coisas pequenas nas grandes mas ainda assim elas desaparecem. Mas se puderem ocultá-las às vistas de todos não haverá de onde possam ser tiradas. Essa é a grandiosidade das coisas.

Possuir um corpo humano é motivo de júbilo, porém esse corpo passa por uma miríade de transformações que não têm fim; isso não será causa de incalculável alegria? Por conseguinte, o homem sensato desfruta daquilo que não tem possibilidade de sofrer separação e por intermédio do que todas as coisas são preservadas. Considera a morte prematura e a idade avançada, o começo e o fim, tudo positivamente. Se ele servir de exemplo para os homens, quanto mais o não será AQUILO de que todas essas coisas dependem e de que toda a transformação brota!

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O Tao comporta emoção e sinceridade, mas não move nada directamente nem possui forma. Pode ser transmitido pelo mestre, mas não pode ser adoptado. Pode ser apreendido pelo intelecto, mas não visto. Possui as suas raízes e fundações na SUA própria natureza. Existiu antes que existisse Céu e Terra por toda a eternidade. D'Ele provieram os espíritos e os deuses. Ele produziu a Terra e existia antes do éter, mas ainda assim não pode ser considerado elevado. Encontra-se por base de todo espaço e ainda assim não pode ser considerado profundo. Foi criado antes de Céu e Terra, no entanto não se pode dizer que exista há muito tempo. Acha-se em existência como a coisa mais antiga mas ainda assim não pode ser considerado velho.

Chi Wei alcançou-o, e com isso harmonizou Céu e Terra. Fu Si realizou-o e por ele penetrou no mistério da fonte da matéria primordial. A Ursa Maior alcançou-o e desde toda a antiguidade não se afastou do seu curso. O sol e a lua atingiram-no, e por toda a antiguidade não deixaram de resplandecer. Kan Pi alcançou-o, e com isso se tornou senhor de Kun Lu. Feng I realizou-o e com isso deleitou-se pelas margens do grande rio. Kien Wu alcançou-o, e com isso foi viver para o Grande Monte Tai. O Imperador Amarelo alcançou-o e assim ascendeu acima das nuvens até aos céus. Kuan Su, a Rainha Mãe do Ocidente, alcançou-o e por isso habitou no Palácio Negro. Yu Chiang alcançou-o e por isso foi viver para o polo norte. Hsi Wang Mu alcançou-o e obteve uma posição no palácio de Shao Kuan. Ninguém sabe onde começa nem onde acaba. O Mestre Peng alcançou-o e viveu do tempo de Senhor de Yu até ao tempo dos Cinco Príncipes. Fu Yueh realizou-o e tornou-se primeiro ministro de Wu-Ting, e assim num instante se tornou mestre do reino. Após a sua morte Fu Yueh alçou-se até à porção ocidental da Via Látea onde, cavalgando Sagitário e Escorpião, tomou o seu lugar por entre as estrelas.

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Nan Po Tzu Chuei interrogou Nu Yi dizendo: "Vós sois velha, mestre, mas apresentais a compleição de uma criança; como será isso possível?"

E recebeu a seguinte resposta: "Familiarizei-me com o Tao."

O outro retorquiu: "Poderei cultivar com o Tao?"

Nan Po Tzu Chuei respondeu: "Não. Como o poderias? Não és homem para tanto, amigo. Havia Pu Liang I, que possuía a destreza de um sábio, mas não a sabedoria do Tao. Ao passo que eu tenho a sabedoria do Tao, mas não o talento. Contudo, desejaria ensiná-lo, se porventura, ele pudesse tornar-se efectivamente num sábio, pensando que deva ser fácil alguém que já possua a destreza de um sábio apossar-se da sabedoria do Tao.

Em concordância com isso, prossegui com a tarefa de forma deliberada, e após três dias ele baniu da mente todos os assuntos mundanos. Conseguido isso, dei continuidade a essa acção do mesmo modo; em sete dias ele foi capaz de banir da mente toda ideia relativa ao homem e às coisas. Tendo-o conseguido, e tendo dado continuidade à instrução que lhe transmiti, volvidos nove dias, foi capaz de considerar a própria vida como coisa não essencial. Tendo conseguido isso, a mente dele atingiu uma claridade como a da aurora, após o que também conseguiu realizar a própria individualidade. Uma vez percebida essa individualidade; foi capaz de banir toda a ideia de passado e de presente. Livre disso, foi capaz de penetrar a verdade da inexistência de diferença entre vida e morte; por a destruição da vida não representar "morte" alguma, nem a vinda a esta vida constituir a criação da vida. O Tao constitui uma coisa que acompanha todas as outras coisas e que vai ao encontro delas, e acha-se presente quando são destruídas ou concluídas. A isso se chama Tranquilidade em Meio à Perturbação, o que quer dizer que essa perturbação conduz à Sua Perfeição.

"E como foi que tu, sozinho, sem qualquer mestre, aprendes tudo isso?"
"Aprendi-o," foi a resposta, "do filho de Fu Mo; ele aprendeu-o do neto de Lo Sung, o qual colheu-o de Shan Ming, que por sua vez o obteve de Nie Hsu, e esse de Hsu Yi, que também por sua vez o absorveu de Wu Ao, que o adquiriu de Hsu An Ming e este de Zhan Liao, que o conseguiu junto de I Shi."

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Tsu Szu, Tzu Yu, Tzu Li e Tzu Lai, todos esses quatro homens conversavam entre si, quando alguém disse: "Aquele que puder crer que a cabeça seja o Vazio, a espinha seja a Vida e o traseiro a Morte? Quem souber se a morte e o nascimento, a vida e o desaparecimento não serão todos uma mesma coisa, desse gostaria de ser amigo."

Os quatro homens entreolharam-se e riram, mas ninguém deu importância ao rumo que a conversa tomava.

Passado não muito tempo após Tzu Yu ter adoecido, Tzu Szu foi consultá-lo: "Quão grandioso é o Criador! Por me ter criado como a criatura deformada que sou!" Ele tinha uma corcunda, e os intestinos retorcidos na parte superior do abdómen; O queixo inclinava para o umbigo; os ombros arqueados e a cabeça não passava de uma úlcera retorcida; a respiração ofegante; no entanto era mentalmente articulado, e não fazia alvoroço em relação à condição em que se encontrava. Coxeou até um poço, olhou para o seu reflexo na água, e disse:

"Ai de mim, por o Criador me ter tornado no objecto deformado que sou!" Disse Tzu.

"A tua condição incomoda-te?"

Ele respondeu: "Não, porque haveria de me incomodar? Se me transformasse o braço num galo, poderia usá-lo para cantar as horas; se me transformasse o braço direito num arco, poderia apontá-lo a um pássaro e abatê-lo e comê-lo; Se me transformasse as ancas numa roda e o meu espírito num cavalo, então poderia montá-las, e não o trocaria por uma carruagem. Além disso, quando tivermos feito o que temos que fazer, tê-lo-emos feito no seu devido tempo. Quando o perdemos por acção da morte, é de submissão que precisamos. Quando repousamos no tempo devido e manifestamos essa submissão, nem a alegria nem a tristeza nos poderão comover. Isso é o que os antigos chamavam de libertar-se das amarras. Mas há quem não possa libertar-se, por se achar preso às obrigações. O facto de as criaturas não poderem suplantar o Céu (o inevitável) é facto há muito reconhecido; porque haveria eu me ressentir com a condição em que me encontro?"

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Algum tempo após Tzu Lai cair doente, e de se encontrar à beira da morte, enquanto mulher e filhos pranteavam junto dele, Tzu Li foi visitá-lo e disse: “Ora, não o perturbem enquanto passa pela transformação que tem que passar.”
A seguir, encostando se à porta disse ao moribundo: “Grandioso na verdade é o Criador! Em que irá ele agora tornar-te? Onde te conduzirá? Tornar-te-á no fígado de um rato ou no braço de num insecto?”

Tzu Lai replicou: “Quando um pai diz ao filho para partir, ele simplesmente tem que obedecer aos seus ditames. O Yin e o Yang representam mais para um homem do que os seus pais. Se eles aceleram a minha morte, e eu serenamente não me submeter à sua acção, serei obstinado e rebelde. Encontro sustento para o meu corpo na natureza, sobrecarrega-me a vida de trabalho; na idade avançada proporciona-me descanso, e por fim na morte encontro garante-me repouso. Assim, o que torna a minha vida numa coisa boa também faz da minha morte coisa boa.”

“Se um mestre ferreiro estiver a moldar o metal, e ele pular de um salto e disser:
Tenho que ser moldado numa espada, como Mo Ye, o mestre ferreiro verá a situação como uma coisa inquietante. Assim também, se uma forma humana que está a ser moldada no ventre disser: Preciso tornar-me num homem, não posso tornar-me noutra coisa senão num homem, o Criador irá considerar isso uma coisa inquietante. Quando chegamos a compreender que céu e terra não passam de um cadinho, e o Criador, um mestre ferreiro, para onde poderemos ser enviados que não nos leve a sentir-nos bem? Nascemos como que de um sono sossegado, e morremos como que num sereno despertar.”

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Tzu Sang Hu, Mang Tzu Fan, e Tzu Ching Kang, todos os três homens eram companheiros. Um deles disse: “Quem será capaz de se associar sem condescender e de cooperar sem concordar? Quem conseguirá alçar-se ao céu e divertir-se por entre as névoas e errar para além dos limites e esquecer tudo como se isso é que fosse viver, sem encontrar fim?”

Os três homens olharam uns para os outros e deram uma risada, sem darem muita importância à questão; e continuaram a conviver como amigos.

De súbito, passado um tempo, Tzu Sang Hu faleceu. Antes do enterro, Confúcio soube do sucedido e enviou Tzu Kung a ver se poderia prestar alguma assistência. Um dos sobreviventes tinha composto uma cantilena, e o outro a tocava alaúde e assim cantavam os dois em uníssono: “Ai, Sang Hu! Sang Hu! Resgataste de novo o teu ser verdadeiro, enquanto nós, homens, ainda aqui nos encontramos, quão grandioso!”

Tzu Kug adiantou-se na direcção deles, e disse: “Aventuro-me a perguntar-lhes se acham que faça parte da regra cantar assim na presença do cadáver.”

Os dois homens entreolharam-se e desataram a rir, dizendo: “Que saberá este homem acerca da ideia que se acha subjacente às nossas regras?”

Tzu Kung regressou a Confúcio, e contou-lhe o sucedido, dizendo: “Que tipo de gente será essa? Não aprontaram nenhum dos preparativos da praxe e desprezaram a aparência pessoal. Cantavam na presença do cadáver, sem qualquer evidência de expressão na face. Nem sei como descrevê-los: que tipo de gente será aquela?”

Confúcio retorquiu: “Essa gente ocupa-se e diverte-se pelo que é exterior aos caminhos comuns do mundo, enquanto eu me ocupo e satisfaço a seguir o que faz parte desses caminhos. Caminhos tão divergentes quanto os nossos nunca apresentam nada em comum; foi tolice minha enviar-te a prestar condolências.

Além disso, eles fazem do homem companheiro do Criador e buscam a diversão na condição destituída de forma, do céu e da terra. Consideram a vida como um apêndice, uma excrescência, e consideram a morte como uma separação desse apêndice, a drenagem dessa excrescência. Com tais noções, como poderão saber que lugar ocupará a morte e a vida, ou o que virá primeiro e o que virá por último? Encaram o corpo como um arranjo de uma variedade de partes.

Ignoram a ideia dos constituintes internos como fígado e vesícula e desprezam os seus constituintes exteriores, como olhos e ouvidos. Entram em decadência na ignorância do que seja começo ou decadência, sem ter ideia dos princípios primordiais. Ocupam-se inconscientemente com o que dizem residir além do mundano e vagueiam pelo mundo do não fazer nada. Como haverão de se preocupar com a conduta apropriada só para agradarem às gentes comuns?”

Tzu Kung disse: “Sim, mas nesse caso, mestre, porque é que vós vos conformais às convenções do mundo?”

E recebeu a seguinte resposta: “Encontro-me sujeito a fazê-lo por jugo imposto pelo Céu. No entanto, vou partilhar contigo aquilo o que alcancei.”
Tzu Kung rejubilou: “Aventurar-me-ia a interrogá-lo quanto ao método que terá seguido.”

Confúcio respondeu: “Os peixes medram-se na água; o homem desenvolve-se no Tao. Ao florescerem na água, os peixes clivam as águas e encontram o alimento. Ao se desenvolverem no Tao, os homens não fazem nada, e o desfrute das suas vidas estará assegurado. Daí que se diga que os peixes esquecem-se uns aos outros nos rios e nos lagos. Os homens esquecem-se uns dos outros nas artes do Tao.”
Tzu Kung disse: “Aventurar-me-ia a perguntar com respeito ao homem que permanece indiferente aos outros.”

E recebeu a seguinte resposta: “O homem singular permanece indiferente aos olhos dos outros, mas acha-se em concordância com o Céu! Daí que se diga que o mais insignificante do Céu seja um fidalgo entre os homens; e que o homem superior entre os homens é o mais insignificante no Céu!”

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Yen Hui interrogou Kun Ni, dizendo: “Quando a mãe de Meng Sun morreu, em todo o lamento que ele fez por ela não verteu uma lágrima; não se deixou afectar pela emoção no seu íntimo; durante todos os ritos de luto, ele não exibiu qualquer aparência de tristeza. Sem essas três coisas, ele foi considerado como o que melhor expressou o luto. Como será possível que no estado de Lu alguém que não expresse realismo possa merecer tal reputação? Isso espanta-me.”

Kung Ni disse: “Esse Meng Sun fez tudo quanto era de fazer ao máximo. Ele era avançado em conhecimento; mas neste caso, optou por não parecer negligente na observação das cerimónias, e conseguiu ser autêntico para si próprio. Meng Sun nem sequer sabe que propósito a vida ou a morte servem; não tem ideia de qual deva ser buscada em primeiro lugar, ou em último. Se tiver que ser transformado numa outra coisa, aguardará simplesmente essa transformação que ainda desconhece. Isso é tudo quanto ele faz. Além disso, quando se está prestes a sofrer a mudança que ele sofreu, como se saberá se ela terá ocorrido? Considera o nosso caso: não nos encontraremos os dois num sonho de que nem sequer teremos começado a despertar?”

“Ademais, Meng Sun mostrou a agitação que o corpo manifestou, mas mentalmente não tinha consciência de qualquer perda. A morte era para ele como o decreto de mudarmos casa pela madrugada, e nenhuma outra realidade terrível. Ele achava-se mais desperto que todos os outros. Quando pranteavam, ele também pranteava, eis a razão por que age assim. Todos nós possuímos a nossa individualidade que faz de nós aquilo que somos e que nos compara uns aos outros. Mas conseguiremos em qualquer caso determinar correctamente essa individualidade? Tu podes sonhar que és um pássaro que voa nas alturas, ou que és um peixe que percorre as profundezas. Mas não sabes se nós que estamos a conversar estamos despertos ou estamos num sonho. Nem só do agradável brota o sorriso. E nem todo o sorriso esporadicamente manifestado responde pelo acordo de si. Quando sossegamos na disposição natural e deixamos de lado toda a ideia de transformação, ficamos em harmonia com os mistérios do Céu.”

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Yi Er Tzu foi fazer uma visita a Hsu Yu, e este último disse-lhe: “Que benefícios te trouxe Yao?”

Ele respondeu-lhe: Yao disse-me: “Deves-te esforçar por praticar a benevolência e a integridade, e por seres capaz de distinguir com clareza o que seja correcto e incorrecto.”

Hsu Yu replicou: “Então, por que me vieste visitar? Já que Yao te transmitiu a qualidade da sua benevolência e rectidão, e te colmatou a noção crítica do certo e do errado, como irás ser capaz de percorrer o caminho do gozo descuidado, da contemplação sem regulamentos, e das formas em constante mudança da disputa?”
Yi Er Tzu disse: “Até poderá ser que sim, mas eu gosto de ir além dos limites.”
“Mas,” disse o outro, “não pode ser. Se não tiver olhos, o homem nada saberá da beleza dos contornos e de outros traços, nem distinguem a cor das vestes cerimoniais.”

Yi Er Tzu retorquiu: “No entanto, quando Wu Kwang perdeu a sua beleza, Ku Liang a sua destreza, e Hwang Ti (Imperador Amarelo) a sua sabedoria, todos eles recuperaram isso por meio do esforço. Como saberás se o Criador não me revogará a sabedoria e não me possibilitará a dissolução de modo que, uma vez mais na perfeição da forma, te passe a seguir como discípulo?”


Hsu Yu disse: “Ah, isso ainda nunca poderá ser conhecido. Vou-te dar umas noções. Óh, mestre meu! Óh, mestre meu! Ele trás a qualidade da combinação a todas as coisas sem considerar que isso seja um bem. A sua generosidade estende-se a todas as gerações, sem que a considere uma generosidade; Ele é mais antigo que a mais velha antiguidade, sem se considerar velho; Ele expande-se pelos céus e sustenta a Terra; concebe e molda todas as formas sem se considerar um perito. Assim, é n’Ele que encontro o meu prazer.”

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Yen Hui disse: “Estou a fazer progressos.”

Kung Ni (Confúcio) perguntou: “Que queres dizer?”

“Deixei de pensar na benevolência e na virtude,” respondeu-lhe o outro.
“Muito bem, mas ainda não chegaste lá.”

Numa altura subsequente Hui encontrou-se de novo por Kung Ni e disse: “Estou a fazer progressos.”

“Que queres dizer?”

“Perdi toda a noção de cerimónia e de música.”

“Muito bem, mas isso não é suficiente.”

Por uma terceira vez, encontrou-se Hui de novo com o mestre e disse: “Estou a fazer progressos.”

“Que queres dizer?”

“Deixo-me ficar pelo esquecimento de todas as coisas.”

“Kung Ni franziu o semblante e disse: “Que é que queres dizer com isso de esquecer todas as coisas?”

Yen Hui respondeu: “Deixei que a identidade resultante do corpo se dissolvesse e deixei de fazer uso da percepção dos sentidos. Assim desprendido da identidade resultante da forma e do conhecimento, torno-me Um com o Infinito. A isto chamo de deixar-me ficar pelo esquecimento de todas as coisas.”


Kung Ni disse: “Uno com o infinito, permaneces livre de toda a escolha; assim transformado, tornas-te impermanente. Na realidade tornaste-te num homem digno! Por isso preciso pedir-te permissão para me deixares seguir os teus passos.”

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Tzu Yu e Tzu Sang eram amigos. Certa vez choveu sem parar durante dez dias, o que levou Tzu Yu a dizer: “Receio que Tzu Sang possa estar aflito.”

Assim, embrulhou algum arroz e foi-lho levar para que tivesse de comer. Ao chegar à porta de Tzu Sang, ouviu algo parecido com um canto ou um choro, acompanhado por um alaúde com as seguintes palavras:

'Ó Pai! Ó Mãe! Ó Céu! Ó Homem!'

A voz parecia mais um lamurio, pronunciada de forma entremeada. Tzu Yu entrou e disse: “Porque estais vós a entoar, senhor, tal poesia?”

Ao que o outro replicou: “Estava a tentar perceber, porém em vão, como será que eu tenha atingido uma tal situação extrema. Teriam os meus pais desejado que eu fosse tão pobre? O céu tudo cobre sem parcialidade e a Terra tudo sustenta sem parcialidade; Ter-me-ão o Céu e a Terra designado para ser tão pobre por crueldade? Tentava perceber o que o terá causado, e não consegui, e aqui estou prostrado na ruína! Dever ter sido o meu destino!

CAPÍTULO 7
O CURSO NATURAL DE REIS E GOVERNANTES

Nieh Chue colocou quatro perguntas a Wang I, nenhuma das quais ele sabia como responder. Isso deixou Nieh Chue exultante que, deliciado se afastou para ir informar o mestre Phi I, que lhe disse: “Só agora o sabes? O da linhagem de Yu não pode equiparar-se ao da linhagem de Tai. O da linhagem de Yu ainda mantem a ideia da benevolência para angariar a submissão dos homens. Ele conseguiu-o, mas nunca foi capaz de ver o que não é próprio do homem. O da linhagem de Tai tem um sono tranquilo e tem uma conduta reservada e simples. Por vezes vê-se como um cavalo e outras vezes como um touro. Possui um conhecimento desafectado e não era perturbado pela dúvida; era possuidor de nobre virtude: mas ainda não tinha percebido o que não é próprio do homem.”


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Chien Wu foi ver o recluso excêntrico Chie Yu, que lhe disse: “Que foi que Chakun Shi te contou?”

E recebeu a seguinte resposta: “Ele disse-me que quando os governantes emitem as leis de acordo com o próprio exemplo que dão de regra e de justiça, ninguém se aventurará a deixar de lhes obedecer, e todos sairiam transformados.”

Chie Yu disse: “Isso não passa da virtude da hipocrisia. Impor a ordem sobre o mundo desse jeito seria como tentar andar a passo largo contra a corrente ou cavar uma vala no rio, ou carregar o peso de uma enorme responsabilidade às costas.” Quando um sábio governa, ele preocupar-se-á em controlar as acções exteriores dos homens? Deixa que os homens se orientem com naturalidade e assim eles reflectem controlo. Essa é a maneira mais certa para ele assegurar o sucesso da sua empresa. Senão pensa na ave que voa lá por cima a fim de evitar ser atingida pela flecha do caçador, e no pequeno rato que faz o buraco bem fundo para evitar ser apanhado com fumo. Os governantes não terão maior compreensão que essas criaturas?

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Tien Chan viajava pelo sul do monte Yin quando chegou aos arredores do rio Liao. Aconteceu encontrar-se com um homem de quem não se sabe o nome, e perguntou-lhe: “Peço-te que me digas o que devemos fazer para governar o mundo.”

O homem sem nome lá lhe disse: “Vai-te embora, que não passas de um rude pretensioso. Por que me fazes uma pergunta para a qual não te achas preparado?

Eu vagueio pelas bandas do criador de todas as coisas. Monto o ar leve e vazio e alço-me até aos seis pontos cardeais e vagueio pelos domínios de parte nenhuma e recolho-me na região do vazio. Porque me incomodas com a questão do governo do mundo, e me deixas assim a mente agitada?”

Tien Chan, contudo, colocou de novo a pergunta, e o sem nome disse-lhe: “Deixa que a tua mente encontre gozo na pura simplicidade. Deixa-te envolver pela fonte original além da definição; deixa que todas as coisas sigam o seu curso natural e não adoptes a personalização: faz isso e o mundo será governado.”

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O mestre Yan Tzu, ao ter uma entrevista com Lao Tan (Lao Tzu) disse-lhe: “Aqui está um homem atento e vigoroso na resposta que dá a todas as coisas, dotado de visão e amplamente inteligente e um infatigável estudante do Tao; poderá ser comparado a um dos reis de sabedoria?”

Ele respondeu-lhe: “Um homem desses está para um dos reis de sabedoria como um subalterno que moureja até deixar o corpo e a mente em estresse, por causa das múltiplas obrigações. Além disso, é a beleza da pele do tigre e do leopardo que os leva a ser cobiçados pelo homem; é a agilidade do macaco e a sagacidade que o cão revela na condução dos bois que leva a que os homens os atem a correntes. Mas poderá um homem assim dotado ser comparado aos reis de sabedoria?”

Yang Tze Chu ficou como que desconcertado e disse: “Aventurar-me-ia, pois, a perguntar-te como será o governo de um rei de sabedoria.”

Lao Tan respondeu: “A acção do governo dos reis de sabedoria espalha-se por tudo o que se acha sob o céu, mas eles não parecem considerar-se autores disso. A sua influência transformadora atinge todas as coisas, mas os homens não esperam nada da sua parte. Ninguém nota a sua acção, mas eles contribuem para que os homens se tornem felizes por si mesmos. Não se consegue sondar o seu paradeiro, por eles encontrarem fruição na terra de ninguém.”

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Em Cheng havia um mago misterioso chamado Chi Hsien que conseguia apurar tudo acerca do nascimento e da morte dos homens, ganho e ruína, infortúnio e felicidade, e se gozariam de vida longa ou curta, chegando a predizer o ano, o mês e o dia em que isso sucederia, como um espírito. Quando o povo de Cheng o via, fugia do seu caminho. Mas o mestre Lie foi fazer-lhe uma visita e ficou fascinado com ele. Ao regressar, narrou ao seu mestre Hu a entrevista que ele lhe deu, dizendo: “Considero que a tua doutrina, mestre, é perfeita, mas encontrei outra que lhe é superior.”

Mas o mestre Hu respondeu: “Só te transmiti a letra da minha doutrina, não te transmiti o espírito, e tu ainda achas que estás na posse dele? Por mais galinhas que haja, se não tiverem um galo entre elas, como haverão de pôr ovos de verdade? Quando confrontas o mundo com a tua doutrina, asseguras-te de ostentar na tua expressão tudo quanto carregas na mente, de forma que a energia que expressas habilita esse homem a conseguir interpretações da tua vida. Tenta trazê-lo até mim, de modo que me possa fazer uma interpretação.

No dia seguinte o mestre Lie levou-lhe o homem a visitar o mestre dele. Ao sair, o mago disse-lhe: “Ai de mim! O teu mestre é um homem morto. Ele não viverá nem sequer mais dez dias! Vi algo de estranho nele, vi toda a sua vida apagada como cinzas com água!”

Quando o mestre Lie voltou a entrar, tinha as vestes ensopadas em lágrimas e contou ao mestre Hu o que o mago tinha contado. O mestre Hu disse: “Eu mostrei-me a ele sob a forma da vegetação dotada de rebentos com efeito, mas destituída de toda a aparência de crescimento ou de periodicidade: ele parece ter visto as fontes da minha força vital cerradas. Tenta trazê-lo à minha presença de novo.”
No dia seguinte, o mestre Lie agiu de acordo com o combinado e lá levou o homem uma vez mais a visitá-lo. Ao sair, o homem disse: “Foi afortunado para este teu mestre, que se tenha encontrado comigo. Ele vai melhorar, por apresentar todos os sinais de vitalidade e de equilíbrio dos fluxos de energia que tinham estancado, a seu favor.”

O mestre Lie entrou, e narrou o sucedido ao seu mestre, que lhe disse: “Revelei-me a ele sob o aspecto da terra sob o céu. Nem semblante nem realidade tiveram lugar no que exibi, mas as nascentes da vida que propagava a partir dos meus calcanhares. Ele deve-me ter visto com os centros da força vital em pleno vigor e potencial. Tenta cá trazê-lo de novo.”

No dia seguinte o mestre Lie lá trouxe o homem de novo, para visitar uma vez mais o mestre Hu. Ao saírem, o homem disse: “O teu mestre nunca é o mesmo; não consigo entender a fisionomia dele. Espera até que estabilize, que irei vê-lo de novo.”

O mestre Lie entrou e reportou o sucedido ao seu mestre, que disse: “Desta vez mostrei-me a ele de acordo com o padrão da Grande Harmonia, uma das duas forças elementares, cujo equilíbrio não inclina a favor de nenhuma. Ele deve-me ter visto com os vórtices do poder vital em equilíbrio. Quando isso sucede pela detenção do seu curso, gera-se um abismo. E existem nove abismos desses, de que só lhe exibi um. Tenta fazer com que cá volte uma vez mais.”

No dia seguinte lá vieram, e voltaram a ver o mestre Hu. Mas antes mesmo de se instalar na sua posição, o mago perdeu a compostura e correu a fugir. “Vai atrás dele” disse o mestre Hu, e o mestre Lie fez isso, mas não conseguiu trazê-lo de volta.

Quando regressou disse ao mestre Hu: “Ele desapareceu; perdi-o e não fui capaz de o encontrar.”

O mestre Hu replicou: “Revelei-me a ele de acordo com o padrão do que existia antes de vir da Origem. Confrontei-o com a pura vacância e a indiferença. Ele ficou sem saber o que lhe apresentava. Ora pensava que fosse a exaustão do vigor ora um fluxo activo, e foi por isso que ele se deitou a fugir.”

Após o ocorrido, Lie considerou que nem tinha sequer iniciado a aprendizagem da doutrina do seu mestre. Voltou a casa, e em três anos não saiu à rua, tendo ficado a cozinhar para a mulher e a alimentar os porcos como se os estivesse a alimentar gente. Deixou de tomar parte nos acontecimentos e de se interessar pelos assuntos do mundo, e retornou à simplicidade pura. Como um torrão de terra ali se deixou ficar em estado de presença, silencioso e reservado entre todas as distracções., e assim continuou até ao fim da sua vida.

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A não-acção faz do seu autor senhor sobre a fama; a não-acção ajusta-se-lhe como o tesouro de todos os planos; a não-acção enquadra-se-lhe como senhora de todos os cargos, e faz dele senhor sobre a sabedoria. O alcance da acção de tal homem é inesgotável, mas não existe qualquer vestígio da sua presença em lugar nenhum.

Cumpre com tudo quanto tenha recebido do Céu, mas não se tem na conta de receptor de coisa nenhuma. A pura vacância de todo o propósito é o que o caracteriza. Quando o homem perfeito emprega a sua mente, torna-se num espelho. Não comanda nada nem antecipa coisa nenhuma; responde ao que existia antes dele, mas não o retém. Desse modo, é capaz de lidar com êxito com todas as coisas, e não prejudica nenhuma.

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O governante do mar do sul era Shu, o governante do marte do norte era Hu e o governante do centro era Caos. Shu e Hu encontravam-se continuamente na terra de Caos, que os tratava muito bem. Eles consultavam-se mutuamente quanto ao modo de pagar a cortesia, e disse: “Todos os homens têm sete orifícios com os quais vêem, ouvem, comem e respiram, enquanto só este pobre governante (Caos) não tem nem um. Tentemos arranjar-lhe um.”

Conformemente fizeram-lhe um orifício por dia; ao fim de sete dias Caos morreu.

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