sábado, 24 de junho de 2017

STEPHEN WARD - A PARTE SUBSTANCIAL DO HOMEM



espiritualidade, autoconhecimento, respeitabilidade, conformismo
Passei por aqui para uma pequena conversa, mas não vou berrar muito alto, por ter descoberto que se me esforçar demasiado tornar-se-á mais difícil aguentar muito tempo e manter uma conversa fácil e inteligente. Se descontrairmos e não me aplicar de modo tão esforçado para além de me fazer ouvir razoavelmente bem, por de algum modo isso vir a consumir o poder, conforme já experimentei noutras ocasiões.
Levemos o tempo de que precisarmos para falarmos de forma audível, mas sossegadamente e com facilidade, sem nos entusiasmarmos demasiado. Por outras palavras, creio que é sempre difícil para mim, mas tentarei dar o meu melhor, por ter descoberto ser o mais natural possível sem me sentir demasiado ansioso e de me fazer ouvir sem precisar berrar. Relaxar mais, acalmar-me e ficar tranquilo, todas essas coisas são coisas a que não estava acostumado - calmo e tranquilo, pelo que, se parecer que esteja um pouco diferente em consequência, desculpar-me-ás mas realmente quero ter uma conversa longa, pelo que melhor será que me tente controlar, a ver como isto vai sair. Seja como for isto é uma experiência.
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Desde que aqui tenho estado tenho sido capaz de ver espectáculos de todo tipo. Tudo quanto pudesse ter visto do vosso lado quando comparado com isto... creio que deva dizer que não é lá muito encantador... e definitivamente não significa nada, não tem substância, que é o realmente conta. Aqui tudo tem substância. Mas quando as pessoas pensam neste mundo, pensam que seja um mundo insubstancial - caso cheguem mesmo a pensar nisso de todo - mas na verdade é ao contrário; este é O mundo substancial enquanto o vosso é um mundo insubstancial. A única coisa que no vosso mundo num certo sentido a presenta apresenta substância são as ideias e o carácter das pessoas.
Por outras palavras, a pessoa autêntica por baixo do verniz e da fachada, e até mesmo num certo sentido, até mesmo as pessoas... pelo menos essa é a parte real do que procuro dizer. E essa é a única parte de vós que trazeis para aqui. E por conseguinte essa é a substancial – pelo menos a substancial, na medida em que é a única coisa que realmente compõe a pessoa, a única parte que o incrementa, querendo com isto dizer que podemos emitir toda a sorte de escudo exterior e de ideias e de impressões, pelas nossas acções, ou pelas coisas que possamos dizer, enquanto estamos na terra, mas ainda podemos não ser a pessoa real, e isso ainda não valer pela parte substancial da pessoa, e ainda não ser a parte substancial mas a insubstancial, que a pessoa cria quer para criar uma impressão ou para obter qualquer coisa.
Por outras palavras, a verdade da coisa é que agora eu vejo o vosso mundo como insubstancial num certo sentido, não mais como o mundo real para mim. A única coisa de real que apresenta são as naturezas das pessoas, o carácter das pessoas, a personalidade – essas são as coisas que as pessoas trazem para aqui, essas são as coisas tangíveis. Por conseguinte, quando eu retorno à terra, embora consiga ver, evidentemente - e este é um ponto muito interessante, creio eu – eu ver, eu ter nervos, e sou não só capaz de ver com os... eu ia dizer “com meus próprios olhos” – o que num certo sentido é verdade – mas seria muito mais correcto dizer, na minha própria alma, como também tenho sido capaz de ver por intermédio dos olhos – ou talvez seja mais correcto dizer, por intermédio dos pensamentos e das impressões dos outros.
É muito fascinante porquanto, e por vezes (por exemplo) eu posso colocar-me por trás de uma pessoa e posso deliberadamente apagar-me de uma forma estranha que não conseguiria explicar, e consigo assumir, ou tirar, se preferirmos, do indivíduo em quem estou interessado, algo dele próprio, e consequentemente consigo colocar-me na sua posição, numa posição em que consigo perceber as coisas através do seu aspecto ou da sua mente. E ao fazer isso capacito-me a descobrir a realidade, digamos, desse indivíduo particular.
Nesses exemplos, quando regresso à terra, posso por exemplo percorrer uma rua ou passar por uma rua e alguém vir ao meu encontro, e eu não estar em sintonia com a pessoa por não ter feito tentativa nenhuma de penetrar na esfera da sua personalidade individual ou do seu estado mental. E sinto, o que é interessante, como a pessoa realmente é, e assim eu pensei em ir por trás e tentar como que entrar na forma do seu pensamento de tal modo que sou capaz de discernir o que a pessoa está a pensar, assim como ver o aspecto do seu ser interior. E isso é revelador, por descobrir que bem no fundo da vasta maioria das pessoas, existe muito bem, embora exteriormente não pense que cometam coisas necessariamente más, mas frequentemente as pessoas criam uma forma de defesa, suponho bem, contra o mundo. Por me parecer a mim, conforme agora encaro o mundo, a uma luz diferente porventura, eu vejo o mundo como um local que tem uma condição ou uma atmosfera que assumiu ao longo de gerações de pensamentos – pensamentos que evidentemente levaram à acção, mas que consequentemente deixaram para trás uma atmosfera ou condição porventura não muito diferente da de uma igreja ou mesmo de um teatro, mas é uma coisa extraordinária como o mundo em massa, como as pessoas, sem que cheguem mesmo a percebe-lo, são tão sensitivas e enfrentam um mundo que o próprio homem produziu durante gerações de pensamento e acção erróneos. Um mundo que é árduo, muito difícil, muito complexo, um mundo que apresenta toda a sorte de tentações (poder-se-á dizer) – não que as tentações por vezes sejam necessariamente más, porque até mesmo com uma tentação por vezes se pode aprender uma lição e pode produzir um bem, pelo que em certa medida será necessária. Não estou a desculpar o mal nem estou a admiti-lo por forma nenhuma. O que estou a tentar dizer é que é uma coisa natural, para o homem, à medida que ele se desenvolve, ou assim me parece.
Por outras palavras, à medida que se torna mais consciente do vosso mundo, à medida que começa a tornar-se mais adulto, mais consciente, mais capaz de se afirmar nas condições em que se encontra, também a sua melhor parte é empurrada para o fundo, mais escondida, e ele constrói uma espécie de barreira como um muro de protecção que a vida lhe construiu e o levou a criar artificialmente - que ele provavelmente não quer e que (...) mas que infelizmente as circunstâncias da vida forçam a isso.
Isto não é desculpa nenhuma mas algo que me parecer ser como que uma armadilha em que o homem caiu em que é confiscado e o tempo todo está à espera de alguém que o venha libertar. Mas é evidente que ele não sabe como sair, não sabe como possa ser libertado, em consequência do que passa pela vida a (...) Esse é o círculo vicioso da vida, e parece-me a mim que é algo que é muito difícil de mudar. E até que o homem descubra por si próprio, ou venha a redescobrir o seu verdadeiro eu, e analise a sua verdadeira natureza e o seu verdadeiro eu consciente, e se afirme. Por ser algo em que o próprio homem infelizmente condescendeu meter-se, a condição em que se está a debater a toda a hora. Parece-me que o homem um certo sentido está a debater-se, e a procurar rebentar a prisão.
Por outras palavras, ele sente-se agrilhoado e sente-se acorrentado e acorrentou-se em todo o tipo de modos diferentes, por meio do pensamento ortodoxo, acorrentado pelo padrão da vida que muita vez é artificial, encontra-se acorrentado até mesmo pela configuração social em que dá por si, e a que precisa sujeitar-se e precisa curvar-se à autoridade contra a qual ele próprio por vezes se revolta. Por outras palavras, o homem está a toda a hora a debater-se e a lutar e a tentar afirmar-se, só que invariavelmente o homem comum cede e simplesmente aceitar, e em consequência torna-se num dente da cremalheira, mas o que quero dizer é que a questão está em o homem descobrir-se a si mesmo e começar a afirmar-se.
Mas parece-me que o único modo de o conseguir, seja pela descobrir a realização do poder que reside dentro dele, e quando ele chegar a perceber a substância que se encontra profundamente enraizada em todo ser humano, e começar a afirmar esse algo – que é de importância tão vital... Quando ele começar a tornar-se, poder-se-á dizer, um homem livre - o que não quer dizer que ele não precise sujeitar-se de determinadas formas, por precisar existir algum tipo de lei e de ordem na vida, mas se tivermos que seguir a lei natural e a ordem natural, e a lei espiritual que é implícita a todo ser humano... O homem é um ser espiritual, obviamente, enquanto se encontra na terra, só que esse aspecto espiritual encontra-se de tal modo submerso no seu eu verdadeiro que ele dificilmente o percebe ou chega a reconhecer. E se for um homem religioso, ele não irá necessariamente descobrir a verdade por causa disso. Segundo me parece, infelizmente, muita vez o chamado homem religioso é quem precisa ser libertado de dentro de si, ou ser iluminado, ou talvez possamos verdadeiramente dizer, elevado espiritualmente, é muita vez ainda mais reprimido, por aprender ou aceitar toda a sorte de coisas que em si mesmas são muito restritivas, e que por vezes são de tal modo artificiais, e tão destituídas de verdadeiro sentido e de realidade que representam um outro tipo de falso (...) De facto por vezes parece-me que o chamado homem religioso se encontra mais enjaulado do que o homem que não siga nenhuma religião particular. Para mim isso é tudo muito fascinante, por eu andar por aqui e por ali, e por me interessar por esta e por aquela pessoa; e talvez em aspectos muito diferentes, todos são não obstante fascinantes, e tenho visto coisas extraordinárias ocorrer com as pessoas, e em particular pessoas que, por exemplo, se esforçam por quebrar as cadeias e por descobrir a verdade, por exemplo – não a verdade em relação à vida após a morte, ou a verdade do espiritualismo ou o que quiserem chamar-lhe – a verdade com respeito a elas próprias, do ponto de vista de como elas próprias poderão viver uma vida mais harmoniosa, mais generosa, poderemos dizer num certo sentido, em que possam ser mais livres e mais fiéis ao seu eu interior.
Parece-me a mim que muita gente esteja a viver... não empregarei o termo “uma mentira” embora num certo aspecto isso seja bem verdade, por vocês terem tanta gente na vida que bem lá no fundo serem muito diferente do que habitualmente vocês pensam ser e mesmo diferentes da impressão que elas possam passar aos outros. Tanta gente sente que têm que o fazer, por ser o que esperam delas. É “a coisa a fazer,” sabes, ou seja, precisam sujeitar-se, ajustar-se ao padrão, à sociedade, adaptar-se à classe em que dão por si ou em que nascem – o que em muitos aspectos é completamente estúpido, por num certo sentido estarem a viver artificialmente, por estarem a viver como marionetas e não possuírem vida própria, e muita gente cede demasiado fácil, e receia ser diferentes, receia aceitar o facto de ser o que são e ser elas próprias, e tornarem-se consequentemente indivíduos interessantes.
Parece-me a mim que saem todas do mesmo molde, não só em termos de educação, por estar ciente de que a educação pode num certo sentido levar as pessoas a ajustar-se de um molde similar, mas é mais profundo que isso, é muito mais real do que isso, é algo muito mais fundamental. As pessoas imitam umas às outras, e é por isso que penso que seja uma pena, porque... se considerarmos o reino animal por exemplo, mesmo no reino animal, a certos títulos pelo menos, os animais não imitam necessariamente uns aos outros. Se pegarmos no exemplo do que é geralmente considerado uma das formas de vida animal mais baixas como as diversas variedades de macacos... sabemos que existem diversos tipos de macacos e sabemos que eles diferem entre si, talvez num determinado pais ou numa certa tribo ou determinado grupo pode diferir bastante de outro, e no entanto, existe uma diferença fundamental. Contudo, ao mesmo tempo, se observarem um monte de macacos descobrirão que eles imitam uns aos outros, por tenderem a fazê-lo. E por exemplo, se o ser humano se puser diante de uma jaula de macacos e o indivíduo fizer caretas aos macacos, estes provavelmente farão o mesmo.
Por outras palavras, ainda não atingiram o estágio de evolução que lhes forme um carácter forte e individual, mas mesmo assim têm carácter próprio, como por exemplo, se pegarem num cavalo ou num cão, descobrirão, se forem subindo a escala do reino animal, que encontrarão uma maior sensibilidade, um carácter maior, um tipo de personalidade mais definido. Mas parece-me a mim que o ser humano frequentemente adopta as caretas do macaco, mas pelo menos os macacos são ignorantes e em certos aspectos isso é ainda mais estúpido que o macaco.
Na sociedade a coisa a fazer é seguir o padrão, mas na realidade não se pretendia que o homem seguisse qualquer padrão e que se tornasse como o vizinho do lado, e que estivesse a toda a hora a copiar ou a imitar e que aceitasse tudo quanto é sugerido e se tornasse, num certo sentido, como carneiros.
O que podemos sentir intensamente é que até que o homem por si próprio perceba que possui em si próprio um espírito individual – e eu acho que isto é importante, por haver alguns (...) do vosso lado que parecem presumir que aqui nós percamos a nossa personalidade, ou que percamos a nossa individualidade, que deixemos de ser indivíduos, o que é completamente inverídico, por eu ter conhecido todo o género de gente aqui e tudo indivíduos detentores de forte personalidade, e por causa da “evolução,” (coloquemo-lo nesses termos) em que eles foram capazes de descartar um monte de ideias estúpidas que geralmente lhes foram impostas na terra. Por outras palavras, pela primeira vez que começamos a emergir aqui, na plenitude da acepção da palavra, tornamo-nos ainda mais numa personalidade. Quero dizer peguem em alguém como o Bernard Shaw ou alguém que na terra tenha tido uma personalidade forte, e provavelmente uma personalidade brilhante, no que quer que se tenha esforçado por fazer, alguém que não tenha tido receio de ter sido eles próprios na plenitude do sentido; esses são aqueles que na minha opinião mais progrediram.
A coisa toda passa por pessoas que desenvolveram um espírito forte e que pareceram conhecer o verdadeiro sentido da palavra “espírito” ou mesmo que a “espiritualidade” significa. O espírito não é uma coisa insubstancial, mas uma coisa bem substancial, e a espiritualidade não é aquela concepção religiosa insípida que a pessoa comum concebe. Na medida em que o entendo, a espiritualidade na realidade significa um elevado grau de inteligência que reage ao infinito, e é a esse poder tremendo que pende para o bem que o homem deve as faculdades e as oportunidades e o discernimento que traz consigo, que torna o homem numa pessoa evoluída, que não permanece um dente da roda e que não fica, como frequentemente muita gente parece na terra, a despeito das suas religiões e a despeito da sua chamada espiritualidade, que não alcançam avanço algum e que me parecem estar imobilizadas. E a estúpida concepção que as pessoas têm de que quando morrem vêm para aqui, por terem sido bons, segundo a ideia de "bom" que o mundo tem, e que tenham adoptado certas ideias e certos credos ou dogmas ou o que seja, que tenham falsamente inculcado em vós mas e que vocês tenham aceite dos vossos grupos de pares, por ter sido a coisa acertada a fazer para chegarem à igreja, ou por ter sido a coisa acertada a fazer para se tornarem respeitáveis. Mas a respeitabilidade nunca levou ninguém a lado nenhum, Creio que as pessoas que por vezes conseguem ser um tanto irreverentes, num certo sentido, afirmam muito mais a própria personalidade e decerto deixam uma impressão, embora possam não agradar a todos.
Mas depois é só por causa de algumas pessoas, muita gente na realidade, terem a ideia errada do que seja bom e do que seja mau. Quero dizer, as leis naturais, as ligações naturais que são comuns a toda a raça humana, mas não só isso como todo o aspecto da vida na terra, quer se trate de um insecto ou de um macaco ou de um camelo, ou das árvores, os pássaros, as bestas, tudo isso segue o instinto na natureza, tudo segue o caminho da natureza, tudo faz tensão de seguir o plano, que obviamente constitui uma concepção tremenda da vida, que é normal.
Aqueles que são - não normais como o mundo considera "além do limite" ou algo (...) Por outras palavras, se vocês forem reais, se percorrerem o caminho da natureza, por afinal de contas o homem constituir fundamentalmente um animal, embora uma forma animal superior, por ser dotada de uma grande inteligência. E o problema está em que muita gente se considera inteligente mas na minha opinião não são inteligentes em absoluto; de facto por vezes mostram-se em questões de cunho fundamental revelam-se bastante estúpidas, e alimentam ideias de tal modo estranhas que, se chegarmos a examinar bem fundo não fazem sentido nenhum. Mas é isso que as pessoas não compreendem, pelo menos eu duvido que os da minha geração empreendam as coisas que impeçam o homem de se expandir e de se realizar na estatura mental e espiritual.
Vocês, num sentido fundamental, na condição material, que possui significado espiritual, precisam viver com a natureza; não podem forçar a natureza nem podem ir contra ela, e se o fizerem, que é que acontece? Que é que está a acontecer ao vosso mundo? Vocês assistem a toda a sorte de tragédias ao vosso redor, assistem à ocorrência de todo o género de coisas, pessoas completamente retorcidas por dentro, pessoas infelizes por variadas razões, pessoas indiferentes, pessoas que num certo sentido temem dar, que temem ser oprimidas, que receiam ser normais e naturais, e que na realidade apresentam toda a sorte de doenças físicas e neuroses, toda a sorte de coisas que sucedem à humanidade devido a que por vezes, com bastante frequência, combatam o instinto natural, e as leis naturais.
E eu receio que se quiserem ter uma vida livre e venturosa, e ter uma mente capaz de pensar, e ao ser capaz de pensar, seja igualmente capaz de compreender; e que sendo capaz de compreender, seja capaz de progredir; e sendo capaz de progredir, seja capaz de atingir um estado espiritual e mental. Precisam mesmo de se libertar e de se aceitarem, e precisam conhecer-se. Uma das maiores leis que descobri é a de nos conhecermos a nós próprios, porque quando o conseguirmos começaremos a compreender não só a vida, mas começamos a compreender as pessoas, começamos a perceber as razões porque as pessoas são como são. E é evidente que, naturalmente, quererão ajudar sempre que puderem no sentido de as mudar, e com isso vem a parte mais difícil de todas - a de tentarem ajudar as pessoas e de tentar mudá-las, porque por vezes esbarramos com uma parede de tijolo, e outras vezes nós próprios sentimo-nos ultrajados em consequência, por as pessoas tenderem a dizer que nós não nos sujeitamos. Mas assim que deixarmos de nos conformar passaremos a ser nós. Aqueles que sempre se acomodam tornam-se mentalmente enfermos e fisicamente enfermos, e por vezes mesmo espiritualmente fracos.
As pessoas parecem não compreender que ao se conformarem, muita vez vocês estão a opor-se à natureza; estão mesmo a opor-se aos instintos espirituais, à vida espiritual. Parecem pensar que a vida espiritual seja algo que os leve a adorar a Deus, ao mesmo tempo que procuram fazer certas coisas que pensam que Deus queira que façam, o que num certo sentido poderá ser bom, só que ao mesmo tempo, se fizerem algo contra a vossa verdadeira natureza; se aceitarem coisas contrárias à razão, se fizerem coisas que empreendem por uma questão de temor; se as estiverem a fazer por pensarem que se as fizerem, quando para aqui vierem quando eventualmente morrerem, vocês (...) E isso será igualmente estúpido.
Já te disse que, desde que tenho estado aqui, já vi não só o meu próprio aspecto de vida que levo aqui, mas encontro-me ainda muito intensamente interessado nas pessoas do vosso lado, por sentir que, se as conseguir ajudar e impressionar, se as conseguir ajudar a livrar-se das fobias e dos medos, se as ajudar a chegar a um termo com elas próprias e a aceitar-se e a tornar-se nelas próprias, então ficarão livres, na medida em que começarão a agir e a pensar de modo diferente, e os seus destinos abrir-se-ão e não permanecerão distorcidos, e elas em todo o seu aspecto mudarão, por aprenderem, gradualmente - sempre é muito gradual - aprenderem o caminho da sabedoria.
E desde que tenho escutado aqui algumas palestras dadas por alguns dos maiores filósofos e alguns dos grandes mestres eu estou a começar a aprender mais acerca do verdadeiro caminho da sabedoria, sobre os meios por que nos poderemos libertar e livrar-nos de todas as estúpidas ideias e deixar os trastes no sótão, e como que limpar a casa e arranjar uma mobília nova. Entendes?
Há tanto que podemos aceitar e prontamente aceitar em nós próprios, quando nos livrarmos dos velhos trastes, pelo menos é o que estou a tentar fazer, o que estou a achar extraordinário e entusiasmante e fascinante, que por uma primeira vez não consigo dizer-te o quanto traduz. É como se estivesse a viver uma vida que, pela primeira vez, se mostra plena de promessas, que apresenta uma abrangência formidável, em nada me prende por me ter libertado de qualquer preconceito ou receio que possa ter tido; consigo ver-me pelo que fui, e consigo ver-me conforme sou, e embora me arrependa de certos aspectos, (conforme devemos) mas mesmo os remorsos que possa abrigar, consigo ver que tenha sido algo (...)
Essa é a questão a que chegamos aqui, entendes? Examinamos de volta a vida que levamos, e vemo-lo, e percebemos que é verdade isso de que falam do Livro da Vida, por o carregarmos connosco, sem que porventura saibamos disso na terra - mas ele está aí. Mas depois não tem importância, por o ter visto, conforme disse, quando me interesso por um indivíduo, e é justamente como se o conseguisse ler e pudesse apreender toda a sua vida; posso vê-lo como realmente é, os pontos fortes e os pontos fracos, onde a vida lhe terá corrido mal, a razão por que terá corrido mal, todas as influências que tenham prevalecido, por se achar tudo registado. E quando para aqui vierem verão por vós próprios e libertar-se-ão de todos os trastes que tenham reunido e carregado às costas quase sendo esmagados sob o seu peso, enquanto na terra.
Eu sei que é fascinante por eu ter sido capaz de me libertar de todos os fardos e de muitas das coisas que me retinham. Eu consigo ver a personalidade dual que eu encarnava (...) pelo que num certo sentido será verdadeiro afirmar que todos vivem uma mentira, todos num certo aspecto apresentam uma personalidade dual. Se ao menos conseguissem livrar-se de toda a estupidez, fobias e receios e conseguir e permitir-se desimpedir-se de todo o entulho que acumularam em tantos e variados aspectos, sinto que esta verdade, esta coisa fascinante e maravilhosa chamada vida – porque aqui existe verdadeiramente vida. Se ao menos as pessoas compreendessem o que significa morrer e viver, e chegar a saber que ao viver aqui se encontram numa existência que num certo aspecto é tão plena que as palavras não conseguem descrever.
As pessoas pensam que o vosso mundo como a realidade; num certo sentido contém realidade, por vocês serem seres espirituais em fase embrionária, e por estarem aí a fim de aprender e de experimentarem, e por possuírem em vós o poder de superar. Isso é fundamentalmente a verdade de todas as doutrinas dos grandes mestres, não só do Cristo, como também do Buda e de Confúcio, e de toda a gente fascinante que gradualmente tenho vindo a escutar e a conhecer cuja verdade fundamental constitui verdades que nunca mudam.
Só que os homens distorceram a verdade e criou falsos ideais, falsos ídolos e impressões e ideias falsas, além de falsas ideologias. O homem confundiu todas as verdades e trancou-a e trocou-a pela estupidez e levou as pessoas a fizeram à verdade ao longo dos séculos. Nós queremos libertá-lo, queremos trazer a verdade de volta ao mundo, queremos levar as pessoas a ver, a conhecer e a compreender, e em consequência tornar-se livres de toda essa estupidez que retém o homem.
Não tenho palavras que descrevam o estado em que me sinto; é como se estivesse à beira de uma tremenda aventura. Ninguém devia recear da morte; a morte é uma porta que se abre para aqueles que não a receiam e que lhe dão um pequeno empurrão, e que passam através dela; não consigo dizer-te o que significou para mim, mas inicialmente quando para a qui vim sentia-me oprimido e infeliz, e de certo modo ressentido, o que para mim foi incomum, embora não fosse melhor que ninguém, mas (...) não infeliz, e não regressaria ao vosso mundo para viver nem que isso fosse possível, não voltaria a dormir, e detestaria voltar a viver. É como se passasse por isto pela primeira vez. É claro que já passei por isto antes, é claro que já passei várias vezes antes, mas esta noite parece como se pela primeira vez eu esteja completamente livre, quando vim esta noite decidi-me a não me deixar excitar e que não iria deixar-me ficar demasiado ansioso nem berrar, e que iri mostrar-me calmo, mas sinto-me de tal modo excitado que nem consigo dizer-te o que sinto. Mas vir aqui conversar contigo é a coisa mais maravilhosa pelo que te fico agradecido, por tu me teres ajudado a abrir a porta, pelo que quero que saibas que te estou grato.
Seja como for, faço intenção de te contar toda a sorte de coisas nos próximos meses, tudo acerca dos vários mestres que conheci, sobre os locais que visitei, as coisas que tenho aprendido que tu ADORARÁS!
Eu posso não ser um Doutor Marshall mas acho que consegui algo (interrupção)
Bom, eles têm conhecimento e experiência e estão muito mais avançados que eu, mas de uma forma qualquer estranha talvez eu ainda me encontre próximo à terra (interrupção) quanto mais me afasto da terra mais difícil se torna (interrupção) mas não faço intenção de me afastar da terra demasiado cedo (embora num certo sentido faça) mas de certo modo sinto que pelo menos quero despender um ano a tentar conversar contigo enquanto me for possível. Preciso ir, mas esta noite foi maravilhoso pelo que te agradeço por tudo, e espero que este médium a quem estou tão agradecido por usar todo o poder que possui; acho que é egoísmo da minha parte aqui vir, mas não pude evitá-lo. Eu precisava conversar contigo sobre coisas mais importantes do que tudo o mais de momento. Fico muito agradecido ao médium. Deus o abençoe. Adeus.
Leslie Flint
Transcrito e traduzido por Amadeu António


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