domingo, 7 de maio de 2017

UMA LINGUAGEM SUPERIOR E UMA "ESCOLA" PARA FILÓSOFOS



UMA LINGUAGEM SUPERIOR 
E UMA "ESCOLA" PARA FILÓSOFOS
Existe um contacto telepático constante entre os vivos e os falecidos embora não nos termos em que por vezes o imaginam. Quero dizer, os pensamentos e os sentimentos dos falecidos acham-se activos e têm tanta vitalidade quanto aqueles dos vivos, e contribuem para a atmosfera mental, embora a um nível diferente, por esses pensamentos "circularem" da mesma forma que as altas correntes de ar podem circular, fornecendo uma atmosfera geralmente mais estabilizadora.
As ideias e métodos da comunicação natural das espécies depende não só das inclinações e das habilidades que são incorporadas, mas também do conhecimento contínuo de cada indivíduo que ao falecer contribui com a sua experiência para a espécie no seu todo, ou antes, torna-a acessível de uma forma nova.
A aprendizagem em vida tem lugar durante o estado do sono do mesmo modo que no estado de vigília, mas nos sonhos as pessoas aventuram-se mais por aquela atmosfera generalizada, e levam consigo os problemas e a informação do dia, ponderando neles e pesando-os contra uma herança de experiência que pertence a toda a espécie, para a qual os mortos terão contribuído. A aprendizagem ao longo das eras é passada de tal modo, que implementa os métodos mais pragmáticos da tentativa e do erro, do estado de vigília. Nessa medida, a ênfase atribuída à adoração dos ancestrais em certas culturas possui uma base de validade. Tão pouco a aprendizagem se detém por altura da morte mas tem lugar num contexto diferente.
É sabido, evidentemente, que certas culturas passam o seu conhecimento por via oral às gerações mais novas, por meio do canto e do mito. A informação é igualmente transmitida por intermédio deste ambiente interior para que tanto vivos como mortos contribuem, e que pode ser comparado a um campo de informação viável invisível em toda a parte que rodeia a vida. As ideias de vivos e mortos misturam-se como, digamos, o ar dos desertos e das enseadas eventualmente fundem-se umas com as outras contribuindo assim para o clima do mundo, muito embora localmente cada uma apresente as suas características próprias e tenham a sejam aparentemente opostas. Bom, não me estou a referir à invasão psíquica mas a dizer que os pensamentos e sentimentos dos homens, tanto dos vivos como dos mortos, formam um campo mental de informação e de interacção.
Esta espécie não depende inteiramente apenas dos métodos físicos da aprendizagem, mas é igualmente e sempre impelida pelos incentivos internos e abastecida de uma informação adicional, de modo que o conhecimento é transmitido de geração para geração através de sonhos e comunicações interiores. Isso familiariza os povos com a sua herança cultural e realça enormemente o mérito da linguagem, que em si mesma actua como uma estrutura destinada à comunicação de certos símbolos e ao bloqueio de outros.
Diferentes linguagens representam evidentemente diversas características do sentimento, do pensamento e da crença; e dignificam algumas delas por intermédio da expressão e da ênfase, enquanto ignora outras enquanto molduras verbais. As línguas representam tanto molduras verbais quanto, digamos, quadros verbais, e dão expressão a certas imagens e sensações e enfatizam-nas por meio do âmbito da armação verbal, que expressa e restringe ao mesmo tempo.
Basicamente, os pensamentos dos mortos não precisam seguir tais padrões, e a informação recebida desse campo mental generalizado de informação é dada num tipo de "linguagem superior" que cada indivíduo traduz no seu próprio idioma. Tais traduções são automáticas, do mesmo modo que a fotossíntese das plantas constitui um processo automático; de modo que qualquer comunicação que se faça em qualquer língua já constitui uma tradução automática de informação interior, tal como a água vertida numa taça assume a forma do recipiente que a passa a conter. Elas não são distorções mas diversas expressões de realidades interiores, e as línguas representam os recipientes psíquicos que servem para expor informação de modo que possa ser "vertida" de um recipiente para outro de modo mais eficiente.
Em termos básicos, porém, as línguas nascem a cada instante, e essa presença atmosférica de que falava parece ser caracterizada por um conhecimento em que todas as línguas são compreendidas. Ou seja, independentemente da linguagem em que costumarem apresentar uma questão, a resposta é dada no mesmo idioma. E com as conversas mentais que tenho com outros aqui, o mesmo se aplica. Aqui, pois, a atmosfera em si mesma parece traduzir as minhas palavras da minha para a língua do ouvinte. Isso sucede automaticamente, tanto quanto me é dado apurá-lo. A tradução é menta, instantânea e perfeita, e não dá azo a equívocos de interpretação a esse respeito. As barreiras habituais da linguagem não se apresentam, enquanto me sinto igualmente seguro de que uma língua superior que permanece "invisível" é utilizada, uma vez que as traduções são feitas de modo tão instantâneo.
A informação é específica e faz sentido somente em meio a um sistema de factos em que se enquadre. A sabedoria das emoções não se enquadram no sistema da matemática, por exemplo, e conforme anteriormente mencionado, a informação pode fornecer conhecimento, assim como também pode, sob determinadas condições, na realidade diminuí-lo. Todo o conhecimento intuitivo do homem, as suas bíblias e demais livros sagrados, consistem num conhecimento automaticamente traduzido na especificidade de uma língua, que é por sua vez traduzida pelo homem noutras. O conhecimento corre para esse recipiente verbal ou escrito, e é exibido de acordo com as imagens, as tradições e os formatos culturais e mentais característicos de um dado idioma. O conhecimento torna-se, pois, específico, porém especifico de uma forma necessariamente preconceituosa. Os símbolos de uma linguagem flutuam por cima quais peixes multicoloridos de múltiplas formas, de modo que se torna igualmente necessário procurar por entre as vogais e as sílabas as águas transparentes abaixo, em que os peixes se movem.
A versão que o homem tem de Deus ou dos deuses, ou da vida futura, do começo e do fim do mundo, constituem, pois, traduções - tal como evidentemente os manuscritos o são - traduções que encaixam na realidade experimentada até certo ponto enquanto também conduz além dela. Qualquer um saberá que o discurso privado só aproxima do sentimento ou da sensação, e somente um tolo toma, equivocadamente, a expressão que dá a um sentimento pelo próprio sentimento.
Dá-se, pois, o mesmo lapso - que não adquire expressão - entre a experiência que tenho "fora do âmbito do tempo" e as tentativas que empreendo para as explicar. Os mitos são mais verosímeis do que os factos com respeito a isso, mas apenas se não os tomarmos à letra. A minha natureza não é uma de criar mitos, contudo, pelo que busco correspondências que sejam imaginativas e ainda assim estejam em sintonia com os factos da vossa experiência. Nesses termos, é verdade afirmar aqui que eu me dirija a outros que se encontrem mais ou menos num mesmo nível de realidade ou de compreensão que eu. Esses níveis de compreensão formam os seus próprios ambientes e fornecem certas dinâmicas que estruturam a experiência. Em vez de continentes e outras formações terrestres que estruturam a vida na terra, aqui estados mentais fornecem o critério para os diversos tipos de percepção que enquadram a experiência da mesma forma que a linguagem estrutura o pensamento em termos concretos.
Estou agora habituado a comunicar com pessoas que podem não se tornar visíveis em parte alguma para mim, por exemplo, por o critério da comunicação depender mais das relações complementares dos estados mentais do que da "viabilidade" física. Outros ambientes e circunstâncias estão em relação comigo em tais casos, por intermédio de imagens mentais transmitidas automaticamente. Essas acham-se ao dispor, somente, apenas para aqueles que como eu tenham uma existência "numa mesma frequência" ou que estejam em harmonia com certas frequências deste vasto campo de informação viável. A minha experiência está da mesma forma relacionada com a do que estão "no meu nível," e nós juntamos o nosso conhecimento, e decompomo-lo numa informação de uma natureza pessoal mais específica para nós próprios, enquanto a nossa experiência pessoal forma parte do campo generalizado que é perceptualmente acessível. Alguns de nós tornam-se visíveis, nesses termos, para os outros, mas as nossas comunicações mais vastas não são restringidas a esse grau. Há aquelas que são caracterizadas mais pela expressão visual, ou pelo som, que em vez da linguagem verbal ou mental comunicam por meio de uma linguagem de sentido cruzado dotado de uma rica complexidade.
De certo modo, toda a vossa inteira ordem constitui um tipo de linguagem por meio da qual a realidade física é pronunciada, uma linguagem adquirida tão cedo na vida e tão sem esforço que se torna automática. Contudo, é conquistada com todas as nuanças, inflexões e pretensões de qualquer língua, só que esta possui verbos biológicos e pronomes mentais e organiza toda a ordem perceptiva.
Já que também eu outrora falei essa língua, embora nesses termos actualmente seja bilingue, posso comparar a experiência que faço agora com a de então. Obviamente consigo ainda organizar as ideias à velha maneira a que estava habituado (conforme estou agora a fazer), mas em última análise acho isso tão limitativo quanto pouco prático excepto para a produção deste tipo de manuscritos.
Um viajante inteligente procurará aprender a língua nativa do país que pretenda visitar para poder compreender os outros e fazer-se entender por eles, e a fim de dar-lhes a conhecer as suas necessidades e desejos em termos práticos. Se, e quando viajarem para outros planetas para além do vosso sistema solar, perceberão instantaneamente que aquilo que acabei de referir é verdade: o vosso corpo físico e toda a sua gama de percepções constitui em si mesmo uma língua, que é pronunciada de forma automática. Não só uma diferença na língua convencional os separará dos hipotéticos nativos de outros planetas, como também a linguagem da vossa biologia - os enunciados das moléculas em células, passagens genéticas, ou frases construídas por padrões biológicos completamente diferentes.
Alguns dos que visitam a Terra aprenderam a mudar a sua "língua" nessa forma mais compreensível, ao aparecerem mais como homens quanto possível, de modo a examinarem e entenderem o mundo físico. A estrutura e a forma corporal constituem igualmente uma linguagem, e muitos no ambiente em que existo conseguem alterar essa estrutura, ao criarem formas diferentes que expressem o seu estado de humor ou experiência, conforme vocês poderão fazer, digamos, cantar uma canção, escrever uma sinfonia, enfim. Eu não sou assim tão proficiente, e a partir de agora a experiência directa que faço é com aqueles cujas existências se parecem bastante com a minha, quer por meio de interesses complementares ou da conotação histórica.
Ainda me encontro propenso à filosofia, pelo que me encontro em contacto directo com muitos filósofos tanto famosos quanto desconhecidos, a maior parte de outros períodos históricos que não o meu, e muitos nativos de outras culturas e civilizações que foram desconhecidos em relação à posição que tive no mundo Ocidental. Nos nossos "diálogos," fico assombrado com as histórias de outras civilizações que existiram no planeta Terra, mundos outrora práticos e reais, agora perdidos para a história do mundo, contudo muito vivos - por, semelhantes a fósseis, as suas crenças contribuírem com um novo combustível a sucessivos sistemas de pensamento e escolas de conhecimento. Os seus idiomas esquecidos têm existência nas pausas que existem entre as palavras, e ajudam a compor os ritmos das línguas vivas, do mesmo modo que as suas filosofias fornecem ritmos internos em que teorias mais correntes vigoram com tanta segurança.
Agora sorrio, ao pensar com que frequência durante a vida eu falava dos antigos Gregos ou habitantes da Mesopotâmia, porque actualmente e do ponto de vista que tenho as suas culturas existirem quase em simultâneo com a vossa. A era Vitoriana assemelha-se a um sussurro que ecoa por corredores de "som" em que a mais sublime das civilizações representam apenas uma nota; porém, uma nota dotada de infinitas variações, que ecoa e volta a ecoar, só que de cada vez com uma mais significativa mudança de ritmo ou cadência. Assim, esses filósofos já me ensinaram mais do que eu poderia possivelmente chegar a conhecer numa ou numa série de vidas. Por aqui existir um tipo concentrado de experiência de aprendizagem que não consigo explicar, embora tente.
Existiram muito mais civilizações na Terra do que supõem os cientistas, e a Terra é muito mais velha do que os registos que vocês encontram o revelam, ou do que as evidências venham a apoiar. Algumas dessas culturas diferenciaram-se muito daquela com que me familiarizei que as próprias perguntas que eu formulava em si mesmas faziam muito pouco sentido, apesar de concederem a compreensão interior telepática que nos une.
Eu perguntei, por exemplo, a um filósofo: "Poderá explicar a estrutura social que tenha existido na sua civilização," e deparei-me com um silêncio mental intrigado. O filósofo, porém, sorri e tem vontade de me agradar com uma resposta, ainda assim mostra-se divertido com a forma como o bloqueio definitivo que a pergunta que lhe fiz lhe entrava o entendimento. Volto a tentar. O termo "social" e "sua" são a causa disso. Mentalmente, ele envia-me imagens de um mundo em que não existia palavra para "sua," mas apenas para "nossa," e em que o conceito de "social" tem um milhar de conotações diferentes; um mundo em que homens e animais do mesmo modo são considerados criaturas sociais que se misturam a muitos níveis; como se, digamos, nas civilizações Ocidentais fosse dada igual consideração aos castores que aos humanos construtores de pontes e ambos trabalhassem em conjunto, os seus fossem aposentos respeitados e as suas necessidades satisfeitas. Mentalmente, transmito imagens do mundo que conheci, em que "sociedade" referia as actividades humanas somente, mas o filósofo abana com a cabeça em descrença, pronto a dispensar aquilo que estou a "dizer" como piada filosófica, sem que, não obstante, revele ser do melhor bom gosto. Eu persisto: "Quando foi que a sua civilização teve início e terminou?" Ele olha para os outros filósofos interrogativamente: estarei eu a falar sério? No meio deles vejo um filósofo do mundo Ocidental do, creio eu, século dezasseis; mas também ele se limita a sorrir-me, como se tivesse passado pela mesma experiência que este pelo que preciso ficar na minha. A resposta que creio receber é: "A civilização existiu do mesmo modo antes e depois."
Eu digo: "Mas, quando foi que floresceu? Quando foi que as suas artes e ciências atingiram o auge do desenvolvimento?" "Agora," é a resposta engraçada que me dá. Persisto uma vez mais: "Mas, em termos históricos? A civilização desvaneceu-se há milhões de anos, se bem entendo o que me diz." E diante dos meus olhos é lançado de súbito um mundo vivo dotado de óbvia indústria e realização: prédios, cidades, pessoas a passear pelas ruas, um profusão de animais a misturar-se. Eu habituei-me a partilhar as avenidas com cavalos, e ao pensar nisso, o filósofo acena com a cabeça: "Uma aceleração e uma continuidade desse tipo de confluência de homem e animais, só que numa maior igualdade de condições." Em qualquer aspecto do que diz tem intenção fazer um comentário jocoso mas afeiçoado que não chega a compreender bem, ao empregar o termo latino de cavalo (Equus) e uma piada com a palavra do vocabulário Inglês que refere igual, mas não chego bem a acompanhar a graça. Ele mostra-me imagens resplandecentes de enxames de abelhas ao redor das flores, de insectos a esvoaçar de planta em planta. E então, imediatamente a seguir, brotando dessa imagem, vejo uma nave espacial a mergulhar no espaço profundo de planeta em planeta. "Um e o mesmo princípio. Aprendemos com os animais, com as plantas e com os insectos."
Começo a protestar.
Ele diz: "Tal como as abelhas andam de flor em flor, nós andamos de planeta em planeta."
"Mas eu estou a falar da história passada da Terra," digo. Mesmo da compreensão que tenho da ciência terrena desde a minha morte, a evidência do passado do planeta não inclui a quantidade de tempo que parece implicar. A terra não é assim tão velha."
Mas ao mesmo tempo que lhe comunico isso eu sei que a despeito de todas as evidências do contrário, a terra não é assim tão velha. "Mas, é impossível," digo eu, e os filósofos riem em conjunto e concordam comigo! E enquanto os encaro directamente, eles respondem quase em uníssono: "É bem verdade." Um estalo na cara da lógica, creio bem, uma lógica que presentemente leva o meu rosto estampado. Eu torno-me mais teimoso e por um instante sinto uma estranha inversão de papéis, ao recordar os estudantes rebeldes que vez por outra protestavam em audiências enquanto eu procurava explicar uma dada matéria. Agora sinto-me como um desses estudantes, e o desconforto do processo.
Diante dos meus olhos voltam a relampejar imagens de mais civilizações do que eu podia contar, cada qual próspera, a usar o que parecia o mesmo planeta de modos diferentes, cada qual com relações diferentes entre o homem e as outras espécies, cada qual refletindo essas características por meio dos seus próprios idiomas e - o mais esquisito de tudo - a interpretar o estado de existência do homem em termos completamente diferentes. Quase vislumbro milhões de pontos reluzentes que parecem ligar esses mundos e mantêm cada um intacto enquanto fornecem uma tensão invisível porém que se pressente com que cada mundo se relaciona com o outro, porventura como uma teia de aranha multidimensional. Mas, uma vez mais, não consigo perceber.
"Como poderá qualquer ciência ou civilização compreender tudo isso?" pergunta o filósofo que também fala pelos outros. Ele responde a si próprio: "Na vida material, você só pode examinar a informação fornecidos - as regras do seu próprio mundo - e proceder a deduções com base nessa informação."
Este diálogo é imaginativo e ao mesmo tempo não deixa de não ser; quero dizer, é uma reconstrução de um vento real, um processo de aprendizagem com que frequentemente me deparo, só que traduzido para mim por meio do meu conhecimento dos costumes ocidentais num edifício da imaginação tão fiel quanto possível dos eventos reais. Nesta condição em cada diálogo, quando de uma forma ou de outra me é mostrada a vastidão da realidade, geralmente sucede o seguinte. Fico bastante irritado, e sinto-me como um membro juvenil da assembleia, acostumado como estava a não conceder a mim mesmo poderes irrefletidos de intelecto e perspicácia. Não consigo identificar exactamente o dilema psicológico, emocional e intelectual; ou a faculdade da minha mente que subitamente se abre assim que a própria frustração que sinto me inunda com uma quase agonizante sensação de incompetência e ignorância. Mas de repente a minha mente estremece com o abalo e torna-se em essência transparente, como se um milhar de véus que previamente a cobriam se tivessem dissolvido.
O que tem lugar não consigo descrever, por dificilmente eu próprio o entender. Talvez a lagarta que se transforma em borboleta os leve a sentir de certo modo o mesmo: tem início um processo de transformação, e por meio da nova abertura reduzida mas limpa da minha mente uma imensamente cálida mas não ofuscante luz brilha. Quer essa luz tenha ou não algo que ver com a luz conforme a entendi na terra não o sei dizer, mas experimento-a como uma luz viva e dotada de inteligência que faz parte da presença atmosférica que mencionei antes; e ela transmite conhecimento, ou melhor, compreensão, por métodos desconhecidos para mim. Recebo compreensão como, digamos, como uma flor recebe luz do sol. Sou imensamente fortalecido, auxiliado, e as sensações anteriores de frustração e de tatear que sentira desvanecem-se.
Esses diálogos e encontros instrutivos sempre terminam dessa maneira, e não obstante o inconcebível número de visões de outros mundos - com ocasionais reduções do sentido que tenho da importância resultantes, em contraste com a vastidão cósmica que se desdobra diante dos meus olhos mentais - a despeito de tudo isso, essa luz viva do conhecimento parece despertar as mais pequenas porções do meu ser e brilhar de forma cálida através da janelas transparente cada vez maior que se abre na mente.
Após cada experiência dessas, sinto-me tipo uma jovem planta psicológica que está a ser tratada com cuidados à sombra enquanto se expões gradualmente à luz do dia real, quando anteriormente supunha que a sombra representava toda a luz do mundo. É como se uma cortina tivesse sido posta ligeiramente de lado, de modo que depois não me sinta diminuído pelas visões que me tinham sido dadas, digamos, pelos filósofos. Irracional quanto possa parecer, por vezes interrogo-me se essas visões de certo modo não representam modelos psíquicos de uma realidade tão distante da minha quanto uma semente está para todas as gerações da sua progenitura. Será possível, por exemplo, que me estejam a ser mostradas imagens dos meus estágios completos?
Claro que eu hesito chegar a tais conclusões mesmo por tentativas. Contudo, estou igualmente bem certo de que existe uma ligação entre mim próprio, conforme eu sou, e as imagens que me estão a ser mostradas. Ocorreu-me que porventura os meus pensamentos moldem tais formas e padrões noutros níveis que não no meu; que todos os nossos pensamentos na realidade se encaixam quais quebra-cabeças eternos massivos, que atingem um outro tipo de existência que não a nossa, um outro tipo de percepção; que existem civilizações de "gente-pensamento" cuja realidade parece bem normal e natural para ela, conforme a vida terrena me terá parecido a mim, e ainda parece a vós.
Nesse caso veria universos-pensamento em que os meus próprios pensamentos tomam parte, por de facto não ter qualquer ideia para onde se dirigem os pensamentos quando deixo de os formular. Percebo isso como visões de sociedades povoadas e culturas de uma variedade infinita, objectivos, ciências e artes; nos meus termos, tanto da cultura como do passado, e de épocas paralelas que parecem brotar como estrelas cadentes de um dado momento. Na posição em que me encontro, sei que melhor será que não me interrogue se essas serão realidades físicas, correntemente operacionais. A questão parece-me ser - em que contexto estarão esses mundos operativos, e estarão eles ligados a mim? Eles poderão, uma vez mais, representar configurações mentais, aparentes em termos representacionais para minha própria edificação. Por vezes acho que sinto da forma como imagino que uma simples célula sinta, caso subitamente lhe revelassem uma visão do corpo inteiro na sua forma inteira; como se um óvulo pudesse vislumbrar a forma humana agigantada que brotasse do seu próprio desenvolvimento natural.
Estar-me-ão, pois, por alguma forma ainda desconhecida a mostrar um padrão que represente a própria forma de adulto futura que virei a ter, só que numa escala inteiramente diferente; um equivalente mental do que na terra sejam processos normais de crescimento, mas que ocorram num meio mental, psíquico e espiritual?
Eu pensava que a vida na terra representava enigmas, mas os conceitos problemáticos (estimulantes) que vislumbro afeiçoam-se-me estonteantes. Por exemplo, vez por outra vagamente quando tais visões me são mostradas, sinto uma identificação de mim próprio ou de partes de mim próprio com as imagens espiraladas que vejo. Contudo, quando procuro localizar com exactidão a identificação, ainda o sinto, só que sem que seja capaz de o localizar em mim próprio. Quero dizer, a associação não parece estar envolvida, no entanto, subsiste um sentido irresistível familiar de natureza a mais íntima, a par de uma igualmente reverência estranha, por as configurações representarem uma grandiosidade e uma complexidade que é impossível compreender por completo.
Para tornar as coisas ainda mais complicadas, também sinto que essas visões (reveladas durante os encontros de instrução ou aprendizagem) também representam civilizações válidas do conhecimento dos vários filósofos, de modo que as imagens parecem representar alguma expansão ou desenvolvimento dos pensamentos em realidades discretas. Reflito nessas experiências depois das sessões terminarem, e por fim fico com as minhas ideias confusas quais nuvens a afastar-se de mim e a mudar de forma à medida que as perco de vida.
As nuvens mudam de forma, é claro, ao se misturarem com a atmosfera terrestre, e transformam-se em produtoras de chuva ou de neve, e embora a sua aparência exterior possa ser calma, ventos de enorme intensidade podem começar a rodopiar por dentro; e embora pareçam suficientemente sólidas quando vistas do chão, as suas formas desvanecem-se mais ou menos numa névoa e a sua solidez aparente cede, pelo que também me ocorre que, como as nuvens se combinam em diferentes padrões, em diferentes formas, e provocam condições diferentes, talvez os pensamentos operem da mesma forma.
Devem ter-me passado inúmeras ideias pela mente, contudo recordo apenas a pequena percentagem e identifico-me, evidentemente, com aquelas que mantenho como penhores relativos a mim, por providenciarem um sentido de continuidade. Mas depois dos meus encontros instrutivos, pressinto igualmente outras ideias, igualmente minhas a zumbir ao meu redor, agrupadas sob determinadas formas se bem que não num contexto de tempo: acham-se igualmente presentes ou igualmente não presentes. Parecem formar configurações, pelo que me interrogo se serei, de forma completamente inadvertida, o centro psicológico de muitos mundos.
A assembleia de filósofos poderá passar por uma experiência similar, mas eu suspeito que não. Creio que eles sejam os professores, por assim dizer. Eles são atenciosos, contudo, cabe-me a mim responder a estas questões, e os outros filósofos simplesmente fornecem o meio através do qual a compreensão poderá ocorrer. Embora eu pareça o único estudante presente, senti frequentemente a existência de outros, tão invisíveis para mim quanto eu para eles. É como se estivéssemos cada um provido de um cubículo de aprendizagem separado - talvez para concentrarmos a nossa atenção. Tenho a ideia de que há gestos mentais comparativamente simples que me habilitem a ver os meus camaradas de aprendizagem - maneiras de espreitar por cima ou por baixo das paredes psicológicas que nos separam - mas até agora tenho estado demasiado absorvido nas minhas próprias experiência para o tentar.
Também deveria ser compreendido que estou unicamente a descrever as minhas próprias experiências. Num ambiente terrestre, suponho que isto representasse uma escola para filósofos. Outros poderão pouco se importar com este tipo de desafio com que me estou a deparar e ficar rapidamente maçados com a contemplação das complicações que surgem de tais combates filosóficos. Há outros que mergulham em vez disso em relacionamentos de carácter mútuo, e que realçam as inumeráveis interacções emocionais possíveis, e as tecem em diversos tipos de existência e formam ligações psicológicas multidimensionais com outros. Tais diligências têm o seu próprio sabor porém encontrariam em mim um estudante impaciente.
Também poderá ser que a diferente matéria e escolas de investigação sejam apenas várias inclinações ou enfoques em que o mesmo material seja apresentado, concebidos nos termos do interesse principal dos estudantes e assim adaptado de forma a captar-lhe a atenção. Consigo imaginar um psicólogo qualquer amável, astucioso a afagar uma barba vivaz e a dizer aos seus associados: "Aqui o James imagina-se um filósofo pelo que lhe vamos dar o gosto a conhecer, não é?" Se assim for, terei abocanhado mais do que consigo mastigar.
James
Tradução: Amadeu António








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