sexta-feira, 12 de maio de 2017

SOBRE A MÁGOA (OFENSA)

Antes de poderem curar ou libertar a mágoa, precisam compreender o que é e o que não é; e como trabalhar a mágoa. Isso soa relativamente simples, mas há vários obstáculos que se intrometem no caminho, o primeiro dos quais será, porventura, o que aprenderam em criança. Foi-lhes incutido que não devem sentir magoados. Também os ensinaram a manipular a falsa mágoa.
Quando se acham fisicamente feridos, porventura - para citar uma expressão corrente: “Um abraço e um beijo, e já está tudo melhor” - é tudo quanto se faz realmente necessário. Todavia, a vossa mágoa emocional, geralmente é tratada com uma atitude do tipo: “Não te sintas assim,” ou um provável: “Não devias sentir-te assim.” A maioria dos pais não sabia lidar com a própria mágoa, e decerto que não iriam começar a aprender às custas da vossa. Ao mesmo tempo vocês assistiam a um mundo que manipula e que alega todo o tipo de mágoa.
Um segundo obstáculo significativo está a vossa própria sociedade, que exerceu uma enorme influência na compreensão e no trato da mágoa, ao difundir as mesmas mensagens de que não deviam, ou não podiam senti-la. A sociedade foi ainda mais longe - ao reprimir a ofensa ao chamar-lhe uma fraqueza, e ao sugerir que aqueles que a sentem, exibem e expõem com toda a clareza a sua própria fraqueza; mas também ao insinuar essa mágoa prolongada com base numa questão qualquer ou em vários danos subordinadas a diferentes questões como que de certo modo a beirar a insanidade. A sociedade optou por fazer vista grossa, ou tentou isolar a mágoa.
Em terceiro lugar, o chauvinismo também teve um impacto profundo na dor, na definição que teceu da imagem: “Para serem um homem, não podem sentir mágoa nem ser ofendidos.” Para serem uma mulher, não tem mal que se sintam magoadas, mas o preço que têm que pagar por isso, é o de aceitarem que essa mágoa constitui um outro exemplo da fraqueza inerente de que padecem. E de facto se uma mulher se mostrar suficientemente presunçosa por querer ser igual, tem que perder o seu direito de se sentir magoada.
Em quarto lugar, o movimento do potencial humano ou o próprio movimento metafísico também exerceu a sua influência, por intermédio de um conjunto de definições erradas relativas ao desapego. É suposto que todas as emoções desagradáveis sejam consideradas como aceitáveis, em especial a ira, e de forma mais incisiva e especial, a mágoa.
Tal como sugerimos que a mágoa constitui um tanto um assunto e um sentimento tabu, é igualmente verdade que a mágoa é um sentimento que é usado demasiadas vezes por toda a forma, e dessa forma se torna num utensílio de manipulação, usado para controlar. Assim, negam a mágoa, quando ela é real, e muitas vezes reclamam a mágoa, quando não é real. Afinal, quantas vezes terão ou não terão feito determinada coisa, dizendo que não queriam magoar ninguém nem a vós próprios, quando na verdade não tinham verdadeira vontade de fazer ou de deixar de fazer isso, desde logo? Quantas vezes os vossos próprios receios e joguinhos tomaram precedente sob o pretexto de não quererem magoar ninguém? Quantas vezes reclamastes mágoa para negar os verdadeiros sentimentos que tendes de raiva ou de fúria, de frustração ou de medo – só para proteger a imagem do vosso ego, ou controlar os outros? Tal como as pessoas negarão a mágoa quando ela é real, também negarão a mágoa quando ela não tem realidade.
Magoar como uma acção é causar mágoa conscientemente; causar prejuízo conscientemente, causar angústia. Pode ir da causação manipuladora da dúvida sobre si mesmo, até à sabotagem agressiva. Ser magoado, pela passiva, é sentir mágoa de uma forma sincera, ser prejudicado sinceramente e sentir com sinceridade a angústia do sofrimento. De modo similar, pode ir do facto de se ser manipulado na dúvida sobre si mesmo, até ser-se sabotado de um modo agressivo. Podem causar sofrimento a vós próprios e aos outros conscientemente; podem ser magoados - por vós próprios e pelos outros, de forma sincera. Isto soa tão simples, mas para a maioria que nega por completo a existência da mágoa, ou a usa falsamente para poder controlar, torna-se importante deixá-la entrar. Na vossa realidade, podem activa ou passivamente sofrer e fazer sofrer mágoa - e podem mentir sobre isso!
Para o pôr em termos ainda mais básicos, sempre que usam de manipulação, provocam mágoa; quando usam de uma manipulação consciente, estão a magoar de forma consciente; quando se permitem ser manipulados, estão a permitir-se ser magoados; quando conscientemente permitem a manipulação, estão conscientemente a permitir-se ser magoados. Quando não usam da manipulação, não chegam realmente a causar mágoa. Podem provocar raiva, medo, constrangimento, desapontamento e uma miríade de outros sentimentos que podem aproximar-se ou parecer-se com a mágoa; porém, se o fizerem com sinceridade, não será mágoa verdadeiramente o que estarão a causar.
Podem afirmar que seja mágoa, mas se a não sentirem sinceramente, não estarão a dizer a vós próprios a verdade. Quando manipulam provocam mágoa; quando manipulam de forma consciente, estão a magoar conscientemente. Quando se permitem ser manipulados, estão a permitir-se ser magoados. Quando conscientemente permitem a manipulação, estão conscientemente a permitir-se ser magoados. É muito importante ter consciência disso, é muito importante recordar, por tantas vezes saberem que estão a fazer algo em termos de manipulação e o justificarem dizendo que os fins justificam os meios, e dizendo que não os magoarão por eles não virem a saber, mas magoam-nos; por que sempre que manipularem estão a magoar, e vós sois responsáveis por essa dor que causam. Uma pequena manipulação porventura significará uma pequena mágoa - mas mágoa ainda assim.
De modo similar, se alguém os estiver a manipular, estarão a provocar-lhes mágoa. E se tiverem consciência de estarem a manipular-vos terão a responsabilidade de tentar deter a manipulação, ou de recusar ser manipulados pela acção dos outros. Porque, quando se permitem ser manipulados estarão a permitir-se ser prejudicados e quando o fazem de forma consciente, estão conscientemente a permitir-se ser prejudicados. Quando não manipulam, não provocam mágoa.
Esta é uma afirmação difícil por haver alturas em que poderão imaginar aquelas situações hipotéticas que podem provocar, e em que podem ver como, sendo sinceros e dizendo a verdade e fazendo-o de uma forma honesta, alguém pode ver-se ferido nos seus sentimentos. Bom, talvez se vejam, mas o termo eufemístico para o sentimento do que sentem pode muito bem ser mágoa, mas na verdade é de uma natureza diferente. Quando é provocado a partir do respeito-próprio e da honestidade e se gera uma consequência não intencional – verdadeiramente não intencional – o mais provável é que a pessoa sinta raiva, desapontamento, rejeição porventura, humilhação ou constrangimento – uma variedade de sentimentos que de certeza não são agradáveis, e que decerto serão sentimentos que não gostariam de produzir nos outros, mas torna-se importante estabelecer esse traço de distinção de não ser dano o que estão a provocar quando não estão a manipular.
A pessoa pode alegar isso, e pode sinceramente pensar que seja, mas na verdade não se sente magoada; poderá sentir qualquer das outras coisas, mas não estará a sentir ofensa. Se quiserem saber se alguma coisa que fizerem interiormente irá magoar alguém, perguntem a vós próprios primeiro se será uma manipulação. Se se tratar de uma manipulação, saibam que irão provocar mágoa quer tenham consciência disso ou não, quer alguma vez venham a ter consciência dessa manipulação ou não.
Se não brotar da manipulação não os magoarão, e poderão então avançar e assumir responsabilidade por quaisquer sentimentos que produzam neles, mas podem ficar bem certos de que não estão a causar ofensa em tais circunstâncias. Esperamos que pensem nisso e o considerem, e em vez de buscarem exemplos que provem o contrário, e em vez de tentarem descobrir situações em que possam escapar com certos comportamentos; sugerimos que olhem para isso e o assimilem e se permitam compreender a diferença entre a manipulação, como uma forma e situação de mágoa, e a não manipulação, por isso se enquadrar.
O paradoxo do fenómeno da mágoa - é importante repeti-lo, tal como as pessoas negam a sua mágoa quando ela é real - assenta no facto de também a reclamarem com tenacidade quando não é real. A ofensa, a mágoa, é uma emoção por que não nos devemos deixar enganar, por de facto poder ser muito perigosa. Se magoarem os outros, ou caso se permitam ser magoados, ou caso se agarrem às velhas mágoas, estarão a criar o que potencialmente poderá ser uma situação perigosa para vós próprios e para eles.
A CORROSÃO DA CONFIANÇA E DO AFECTO
Em primeiro lugar, mais do que qualquer outra emoção, a mágoa corrói a confiança e o afecto. Podem-se sentir horrivelmente irritados com alguém, podem-se sentir tremendamente desapontados com esse alguém, podem sentir-se incrivelmente envergonhados e humilhados com o comportamento desse alguém que isso não precisa influenciar o nível da confiança nem do amor, em particular numa situação do tipo da ira. Podem sentir-se terrivelmente irritados e podem confiar na pessoa e amá-la por completo, algo que muitos de vocês não compreenderão e que se recusam mesmo a compreender. Mas a dor é uma emoção que corrói a confiança e o afecto quer o queiram quer não. Podem querer confiar na pessoa e amá-la com todo o vosso coração que se ela os estiver a magoar, mas isso irá corroer essa confiança e esse amor – talvez o não destrua, mas corroê-los-á.
Se vos estiverdes a agarrar às mágoas do passado que não tenham lugar no vosso presente e estiverem a agir com base nessa mágoa, a confiança e o amor que tiverem por vós próprios serão similarmente corroídos, assim como a capacidade de confiar e de amar os outros. A mágoa consiste numa emoção perigosa, porque, mais do que qualquer outra emoção, corroer a confiança e o amor. Por uma questão de amor, pois, não é aconselhável que permitam que os outros continuem a causar-lhes mágoa. Pois, embora possam pensar ser superiores a isso, na verdade estarão a armar uma situação perigosa em que as acções do outro estarão a minar a vossa confiança e o vosso amor, e a confiança e o amor existente entre vós os dois venham a ser subsequentemente afectados.
A RUPTURA DA IDENTIDADE
Em segundo lugar a mágoa é perigosa por provocar uma ruptura na identidade. Provoca uma ruptura na auto-estima, no amor-próprio, na autoconfiança e na dignidade própria. Provoca-lhe uma ruptura - não as destrói. Ninguém consegue destruir a vossa identidade. A vossa autoconfiança e a vossa auto-estima, o vosso amor-próprio e a vossa dignidade salvam-nos, mas a mágoa pode causar-lhes uma ruptura, pode destruí-las e provocar-lhes danos irreparáveis.
Em terceiro lugar, a mágoa tenta retardar a evolução, ou ameaçá-la. Se estiverem conscientemente a tratar de manipular alguém e por conseguinte estiverem conscientemente a magoá-la, o que estarão a tentar fazer – muito embora possam não ser bem-sucedidos – o que estarão a ameaçar fazer é retardar a evolução desse alguém. E como toda a função da existência - desde o nível celular ao nível subatómico, e do nível subatómico até cima, ao nível de todo o vosso ser consciente - assenta no crescimento, uma acção que atente ou ameace a vossa evolução representa na verdade uma acção perigosa a exercer, uma acção perigosa a admitir; uma coisa perigosa a que se agarrar de forma perpétua.
Por fim, a mágoa constituía a única emoção que leva tempo a sarar; é uma ferida e precisa curar. A ira, podem-na sentir com intensidade num momento, limpá-la, libertá-la, acabar com ela e sentir-se bem no instante seguinte. A rejeição, a humilhação, os sentimentos dessa natureza que ficam aquém da dor, podem ser terminados de imediato, mas se a mágoa lhes estiver associada, e em resultado da rejeição se sentirem magoados, ou se sentirem magoados devido à humilhação, etc., ela sincera e absolutamente levará tempo a sarar. Representa uma ferida e precisa sarar. É por isso que não é tão bom permitir-se perder tempo com ela. Magoar os sentimentos de alguém por via da manipulação a que recorram, e mais tarde dizer, a rir: “Peço desculpa, não tinha a intenção, penso que tenha ficado um pouco mais perdido, ou tenha falado demais; creio que exagerei.” Isso pode estar tudo muito bom e bonito, e constituir uma resposta sincera, mas entretanto terão provocado uma ruptura na auto-estima de alguém e tê-la-ão dilacerado, e irá levar tempo a curar o vosso exagero, a declaração forjada, o vosso engano, e terão corroído a confiança e o amor que esse alguém tinha por vós.
Bom, “Eu não tinha a intenção.” Muitas vezes não importa, quando estão a sentir-se magoados. Devido a que a mágoa leve tempo a sarar, por ser porventura uma das emoções mais devastadoras com que poderão brincar. Não deviam evitar senti-la, por ser aí que se torna devastadora. Deviam saná-la e libertá-la tão prontamente quanto possível. E certamente não devem experimentá-la na manipulação que usam com as pessoas nem no que fazem para controlar os outros. Na verdade não é aceitável nem é sugerido que alguma vez tentem controlar os outros; mas se o fizerem, por favor, não o façam com a mágoa nem com a ofensa, por estarem a criar e a estabelecer circunstâncias com que não estão completamente seguros de querer lidar. Estarão a brincar com uma mercadoria muito perigosa. Mais perigosa do que poderão perceber. E o facto de o desconhecerem não reduz o perigo que encerra.
A mágoa, devido ao tempo que envolve, consiste numa emoção física. Assim que passam além do plano físico para onde não existe tempo, a mágoa deixa de ter existência. Mas vocês encontram-se no “plano” físico, e como tal, enquanto estiverem no plano físico, precisarão enfrentar essa mágoa. Precisam aprender a tratar dela e precisam aprender a libertá-la. Existem várias razões para o facto de ainda não o terem feito. Por que razão não a saram e libertam de forma automática, como uma função do ser? Uma das razões está em que muitos de vocês usam a mágoa que obtiveram ao longo dos anos como um tipo de permissão especial qualquer, como uma passagem para sair por aí a fazer coisas por que de outro modo deveriam ser responsáveis.
Desculpas e recompensas, sem dúvida – se mantiverem a mágoa, quer seja ou não real, poderão certamente fornecer-lhes explicações e desculpar-vos por evitarem uma grande quantidade de responsabilidade, uma grande quantidade de êxito e uma grande quantidade de felicidade. Certamente que podem manter as mágoas de modo a não terem que confiar no afecto, caso tenham medo da intimidade, ou se sintam irritados e sintam vontade de castigar; poderão justificar tais castigos com o facto de terem sido magoados. Podem fingir que as vossas mágoas são muito reais e mantê-las muito vivas se viverem a um passo do passado e funcionarem bastante com base no comportamento do jovem adulto que foram. Mas grande parte da razão porque as pessoas não curam a mágoa que sentem e a não libertam deve-se ao facto de não saberem "como." Jamais souberam o quão perigosa é, e caso se afigure como uma pequena mágoa que venham a suplantar (e de facto com o tempo conseguem-no) mas a que custo? Estarão certos de estar dispostos a pagar tal preço?
Assim, grande parte da razão por que não trataram da mágoa que sentem, deve-se à ignorância. Mas se tivéssemos que o definir em duas razões - por um lado, por a quererem usar para controlar e manipular; e por outro lado, por serem ignorantes do perigo que envolve, e ignorarem o processo e a técnica da cura e da libertação da mágoa. Assim, como é que o conseguem? A primeira coisa que têm que fazer é decidir se será uma mágoa real, ou se será alguma outra coisa disfarçada de mágoa. Esse é porventura o passo mais importante, entendem, porque muitas vezes quando têm medo da ira – muita gente que se sente aterrada com a expressão da ira chamar-lhe-á, em vez disso, "mágoa"; e se tentarem sentir ou libertar a mágoa quando na verdade se trata de ira, irão passar por grandes dificuldades, por não acontecer nada. Se se tratar efectivamente da ira que precisam de libertar e não mágoa, já terão tratado dela ao redefini-la adequadamente. Não é verdadeiramente mágoa mas uma outra emoção qualquer, como a solidão, que também é algo a que – por as pessoas terem tanto medo da solidão – muitas vezes chamam de mágoa, ou seja, muitas vezes chamam dor à solidão que sentem. “Ah, sinto-me tão magoada que nem sei que dizer.” Porquê? Por se afeiçoar como coisa assustadora admitir que o que na verdade representa é - solidão!
Muitas vezes haverão de se sentir envergonhados e rejeitados e humilhados e podem, em resultado disso sentir-se sinceramente magoados. Mas noutras alturas haverão de reclamar o facto de se sentirem magoados quando na verdade não estão, por não quererem confessar essa rejeição e humilhação particular, etc. E também haverá alturas em que se referirão ao sentimento que terão de mágoa, quando o que na verdade querem dizer é que estão errados. E para muitos de vós, estar errado é de certo modo a pior coisa que possivelmente poderá acontecer; têm que estar certos e ter razão a toda a hora.
E quando se vêm confrontados com uma situação em que estão errados, torna-se de tal modo difícil admitir isso, e admiti-lo parece-lhes de tal modo doloroso, que em vez de admitirem que tudo quanto ocorre se deve ao facto de estarem errados e de tudo (...) e de sentirem dificuldade em enfrentar essa mágoa. Mas nós atrevemo-nos a afirmar que não poderão curar a mágoa nem libertá-la se não se tratar de uma mágoa real. Assim, precisam decidir: “Será este sentimento que rotulo de mágoa verdadeiramente dor, ou será uma outra coisa qualquer que estou a disfarçar?” Se for outra coisa qualquer, então descartem a mágoa e descubram do que se trata, e continuem a libertar isso, certamente. Se for mágoa, então admitam-no e percebam-no.
Como saber? Bom, basicamente poderão saber que é mágoa se de facto em resultado do sentimento, a confiança e o amor que sentiam tiverem sido sinceramente corroídos. Se, em resultado do sentimento, a vossa identidade, a vossa autoestima, o vosso amor-próprio, a vossa autoconfiança e a vossa dignidade própria tiverem sido dilaceradas. Se na verdade sentirem com se tivessem sido enganados no campo do crescimento, ou algo que seja um pouco mais difícil de determinar, e envolver uma ofensa que possam averiguar precisar de tempo para sarar – não tempo para manipular, nem tempo para dela se assenhorarem, tempo para serem vítimas - tempo para curar.
Muito bem, vamos supor, a título do objectivo desta gravação, que o investigaram de verdade e que descobriram que se trata efectivamente de mágoa. Segundo passo: sintam a mágoa por completo, e o que queremos dizer com isso é que se afastam por uns vinte minutos para sentirem tudo, de uma forma ousada e inexorável - toda a mágoa. E com isso queremos referir-nos ao choro, ao rebolar pelo chão, ao rastejar, ao gritar e dar berros, ao bater no rosto, ao fazer o que quer que façam – e para alguns quer mesmo dizer sentar-se silenciosamente e sentir simplesmente a mágoa, sentir os danos, sentir a angústia da aflição. Mas não façam mais nada durante esses vinte minutos, não deixem que a vossa mente vagueie rumo a mais nada. Não se voltem para a vingança, nem para a forma como irão utilizar isso, nem para o: “Oh, pobre de mim, não será de lamentar que me sinta tão magoado?” Sintam simplesmente a mágoa por completo; usem a implacabilidade que os caracteriza para se focarem para se concentrarem; usem a vossa vontade unicamente para sentir – UNICAMENTE – a mágoa durante vinte minutos.
Agora; aqueles de vós que estão perpetuamente a sentir-se magoados, e que usam a mágoa como desculpa para a razão de não crescerem, ser felizes ou bem-sucedidos, esses vão querer ter a tendência para dizer: “Oh, não, eu não consigo permitir-me sentir; eu sou incapaz de a sentir durante vinte minutos.” Não! São capazes de a sentir durante vinte ou trinta anos; são capazes de a usar e de a evocar sempre que lhes apetecer. Assim, pelos céus, são capazes de a sentir durante vinte minutos! Se se sentirem legitimamente magoados não lhes será difícil senti-la durante vinte minutos. E não lhes será difícil focar-se apenas na mágoa, sem deixar que os restantes complexos do pensamentos se intrometam.
Sintam-na durante vinte sólidos minutos. E quando o vosso relógio disser ter chegado a altura, passem vinte minutos a relaxar, e façam tudo o que fazem para relaxar o corpo, da cabeça aos pés. Se for preciso entrar na banheira para relaxar, tudo bem, façam isso. Se tiverem que agasalhar os pés com uma manta macia façam-no. Se tiver que ser dar uma caminhada suave cedo pela manhã ou ao entardecer, então façam-no. Façam o que for preciso para relaxar e pensar unicamente no relaxamento – tanto no relaxamento corporal como emocional, mas façam-no durante vinte minutos. Por isso não se aventurem muito por fora; deem um passeio de vinte minutos se for preciso. Façam o que quer que precisem para relaxar, exclusiva e totalmente, tanto física como emocionalmente, de uma forma impecável, durante vinte minutos.
E quando o vosso relógio assinalar, aí façam mais dez minutos, desta vez para sentirem a mágoa de novo. Para sentir exclusivamente a mágoa e permitir-se senti-la na totalidade e de forma tão completa quanto possível, só que desta vez apenas por dez minutos; após os quais sugerimos que se sentirão bem e se deterão e se rodearão em bons pensamentos e de bons momentos, etc. Ocupar-se do resto da vossa vida, etc. Para não terem que arrastar esse período de vinte minutos que excede os vinte minutos, perfazendo assim um total de quarenta minutos de mágoa; vinte minutos de relaxamento e dez minutos de mágoa, constitui o segundo passo da cura ou libertação da mágoa.
COMPREENSÃO
O terceiro passo, consta da compreensão – e isto inicialmente poderá revelar-se um tanto difícil de conceptualizar, mas assim que efectivarem o processo compreendê-lo-ão com uma maior clareza – compreender que para realmente sentirem mágoa, têm que deixar que a mágoa se entranhe. O vosso sistema corporal toma conta de si próprio, entendem; possui as defesas que ergue anticorpos e toda a sorte de coisas dessas. Em termos físicos, e por si só, o corpo será completamente saudável e não contrairá qualquer doença nem distúrbios seja de que tipo for, e mostrar-se-á “perfeito”. Mas devido a que exerçam influência sobre o vosso organismo, e essa influência cause impacto nele, muitas vezes criam doenças e todo o tipo de disfunções no sistema corporal.
Bem, o corpo emocional, de forma similar, uma vez deixado a seu próprio cargo, apresentar-se-á de uma forma totalmente saudável, e expressará a raiva que sente de uma forma límpida e clara; expressará a mágoa que contém, e jamais manipulará, e assim, jamais provocará mágoa, mas expressará de uma forma sincera qualquer mágoa que possa conter de uma forma limpa e clara, e pôr-lhe-á cobro. O corpo emocional, por si só, funciona de forma “perfeita,” mas devido ao livre arbítrio de que gozam pode sofrer influência, pode sofrer determinadas enfermidades e fraquezas. Mas, para permitirem que a mágoa se estabeleça, ela tem que proceder de uma parte qualquer. Assim, se conseguirem descobrir neste terceiro passo, de onde estarão a deixar que ela venha, então conseguirão fazer alguma coisa para a curar e reparar com uma maior rapidez.
O que sugerimos que fizessem foi que depois de terem sentido a mágoa por vinte minutos, se dispusessem a relaxar durante mais vinte minutos e passassem mais dez minutos adicionais, etc., o que fazem a seguir a isso é sair da mágoa e passar para a análise a tentar descobrir de onde estarão a deixar que ela venha. Mas conseguem de certa forma fazer isso se passarem a vossa vida em revista. Regredindo no tempo, porventura de uma forma meditativa, ou tão só como um exercício de memória, e passar dos zero anos até à vossa idade actual e ver onde foi que deixaram entrar a mágoa antes, e ver qual dos períodos terá sido o mais significativo. Onde será que reside a vulnerabilidade do sistema emocional que permite que a mágoa penetre nele? Talvez tenha sido um incidente que tenham tido aos três ou cinco anos, ou aos dez, ou quinze anos de idade; talvez tenha sido uma série de pequenos incidentes que os tenha levado a uma crença particular sobre a mágoa, ou a uma crença particular em relação à vossa vida, ou ao mundo em que vivem Talvez tenha sido qualquer coisa que tenha ocorrido na vossa adolescência, etc., mas existe um incidente ou uma série de incidentes que tenham produzido uma experiência particular em relação á qual mantêm essa crença.
DESCOBRIR A PROVENIÊNCIA DA MÁGOA
Sugeriríamos que essas experiências evidentemente não provocaram a crença; a crença fez-se presente primeiro, mas que em essência se tiverem tido uma variedade de experiências a que associaram a crença, terão criado um sistema de crenças, preso e associado pela experiência, que se pode tornar no vosso ponto de vulnerabilidade. Assim, se examinarem primordialmente a vossa infância e adolescência, descobrirão que nesse período de tempo que foi dos 0 aos 6, e dos 6 ao 14, descobrirão onde foi que deixaram que a mágoa entrasse, onde a vossa vulnerabilidade e essa fraqueza tem lugar em toda a vossa graça, que está a permitir que a mágoa entre. Mas atrevemo-nos a dizer, que se descobrirem essa fraqueza, ela será de forma genuína a fraqueza porque sempre permitirão que a fraqueza entre. Portanto, se com uma mágoa poderem descobri-la e corrigi-la, também conseguirão efectivamente deter a mágoa nas outras áreas do vosso viver. Porque tal como se tiverem uma parede com três metros de altura e dez metros de largura e apresentar um ponto no canto inferior esquerdo onde seja particularmente estreito, será aí onde, uma pressão igual aplicada a toda a parede em breve a quebra ocorrerá.
Assim, quando a mágoa estiver a pressioná-los, geralmente virá quase sempre do mesmo ponto de fraqueza para que possam descobrir por onde estão a deixar que a mágoa penetre. Seja por que razão for, descubram onde é que isso está acontecer - passo número três.
OS DANOS
Aquilo que fazem em quarto lugar é tentar descobrir que corte terá essa mágoa que estão a enfrentar provocou. Bom, se estiverem a libertar uma velha mágoa, ela ainda provoca um corte, por estarem a mexer e a experimentar que a mantém em aberto a rever matéria. E se caso se trate de uma nova mágoa, então envolverá um novo corte. De qualquer das formas ocorre um corte - que corte foi que provocou? Que foi que dilacerou? A vossa identidade, a vossa autoestima, o vosso amor-próprio, a vossa autoconfiança, o vosso valor-próprio ou uma combinação disso tudo? Mas não por uma frase de uso geral: "Ai, dilacerou-me a autoestima."
De que corte ou ruptura foi em específico que essa mágoa provocou? "Prejudicou-me a identidade." Não chega; que aspecto específico dessa identidade, que parte específica da identidade foi desse modo prejudicada? "Danificou-me a auto estima." Que componente ou componentes da autoestima foram afectados, e de que modo foram afectados? De modo similar em relação ao amor-próprio: que quereis dizer de específico em relação a isso? Dizer que a categoria geral do amor-próprio não lhes dá nada a que se agarrar é quase como ir ao médico e dizer: "Estou a sangrar por alguma parte. Algures neste corpo está a ocorrer um sangramento" Podia ser interior assim como podia ser exterior. Isso irá fazer com que o médico leve muito tempo a tentar identificá-la e a corrigi-la, em vez de lhes dizerem que estão a sangrar do dedo esquerdo ou do baço.
Por isso, quanto mais específicos conseguirem ser acerca do local desse corte, não só por onde estarão a deixar que a mágoa entre, mas uma vez tenha penetrado, onde é feito o corte? Tracem-no por vós próprios, por vir a ajudá-los a saná-la e a libertá-la, por o quinto passo constar da reparação dos danos subsequentes dessa mágoa. Por outras palavras, se tiverem ressentimentos, expressem-nos agora. Relacionam-se com eles e expressam-nos de novo, e estão prontos para avançar. Descobrem onde foi que deixaram que entrassem e também descobriram o corte ou cortes específicos que tenham provocado. E agora precisam reparar os danos subsequentes. Se, por exemplo, os danos subsequentes à mágoa passarem por não confiarem ou sentirem amor por essa pessoa particular, precisam decidir-se a reparar isso.
O que não quer dizer que tenham que gostar delas; quer dizer que precisam decidir. Talvez seja uma pessoa que não queiram amar nem confiar, mas não faz mal. Assim, num certo sentido reparam o dano subsequente aceitando a realidade de não quererem confiar mais nessa pessoa ou amá-la, só que não o estão a fazer por vingança mas de forma honesta. Assim como poderão descobrir que querem amá-la e que precisam tratar especificamente de reconstruir a confiança, de reconstruir o amor.
REPARAÇÃO DOS DANOS
Isso poderá implicar num monte de técnicas, uma expressão honesta e respostas práticas etc., estabelecer e limpar, trabalhá-lo por meio da meditação - uma variedade de coisas, mas se tratarem disso, o que sugerimos que venha a resultar na perfeição é o quinto passo de tentarem reparar o dano subsequente. Talvez o dano subsequente nada tenha que ver com o nível de confiança ou o nível do amor por mais alguém; talvez o dano subsequente se deva à autoestima e vocês simplesmente sintam não poder mais confiar em vós próprios, ou porventura sentirão não conseguir dar mais ouvidos às vozes interiores; ou a ideia de assumir responsabilidade lhes pareça repugnante devido à mágoa. Tudo bem, nesse caso para repararem os danos subsequentes, reconstruam a vossa própria confiança. Precisam aprender a ter confiança para escutar esses sussurros de novo. Precisam voltar a examinar e a reagrupar na questão da responsabilidade.
Isso poderá não ser justo, e poderá ser: "Bem feito, por me terem causado mágoa. Porque não estão eles a fazer isso? Porque não estão eles a reparar-me a autoestima; porque não?"
Não é justo - mas é assim que a vida funciona! Vocês precisam cuidar de vós próprios. Vocês colocaram-se num plano físico a fim de aprenderem a cuidar de vós próprios. Sim, os outros poderão ajudá-los, e isso pode fazer parte da ajuda que derem a vós próprios - poderão exigir determinadas coisas da parte dos outros, poderão ter que exigir certas responsabilidades. Porém, em última análise vocês têm que cuidar de vós e reparar os danos subsequente. Mas, se não implementarem este quinto passo, então todos os outros poderão funcionar até certo ponto mas não curarão plenamente nem libertarão por completo a mágoa, mas mantê-la-ão viva.
SANAR A RUPTURA
O sexto passo, que está muito ligado ao sétimo, consta de curar a própria ruptura, o corte em si mesmo. Isso é conseguido primordialmente pela via meditativa. Entrem numa meditação e tratem de um corte específico encarando-o como se fosse uma laceração, e por meio do uso da luz ou da energia ou o amor, ou qualquer forma de terapia que quiserem pôr em pratica para a sanar, para a verem a reparar, para a verem a conjuntar-se a si mesma. Quanto mais imaginativos se tornarão com o uso da imaginação mais eficazes se tornarão, com a cura.
O passo final, na busca da cura e da libertação da mágoa, passa por fortalecerem o ponto em que deixam que a mágoa entre. Reconstruir a fortaleza. Não é isolar-se, nem tornar-se eremitas, mas tornar essa fraqueza forte. A mágoa não constitui uma fraqueza, entendem? O ponto em que a mágoa tem entrada já o é; por isso precisam fortalecer esse ponto, esse sítio em que estão a permitir que tenha lugar - quer pela libertação da filtragem que está a ter lugar aí, ou pela reparação meditativa, ou o que quiserem chamar-lhe, desse sítio em que deixam que a mágoa entre. Esse é um passo delicado porque alguém poderá acorrer a chamar-lhe "bom" e achar que tem permissão para mostrar indiferença ou para se distanciar, para erguer a fortaleza ao seu redor e para se escudarem contra o mundo - não, não é disso que estamos a falar em absoluto. Pretenderão erguer, porém, não isolar-se. Pretender fortalecer esse ponto, porém, não torná-lo num torpor.

Se trabalharem com estes sete passos em função da mágoa a que se têm vindo a agarrar, a mágoa que atraem da vossa infância até à do presente, e de facto percorrerem esses sete passos poderão efectivamente libertar essas dores e sanar qualquer dano que tenham provocado. Agora, atentem bem: se a mágoa provier da vossa infância então irá tornar-se importante para vós e para a criança em vós trabalharem em conjunto, para libertar e depois curar. Mas se provier do adolescente em vós, então irá tornar-se importante que tanto vós quanto o adolescente trabalhem em conjunto, para libertarem e depois curarem essa mágoa.

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