sexta-feira, 12 de maio de 2017

ACABAR COM A DOR






  ACABAR COM A DOR

Hoje esperamos conversar convosco e trabalhar convosco, assim como experimentar algo que se está a tornar cada vez mais importante, algo que se está a tornar cada vez mais profundo na vossa realidade. Sabem que ao longo dos anos abordamos o tema da Conquista do Medo, e tratamos do Pôr Cobro à Solidão, e lidamos com o Fim da Autopunição, assim como a Libertação da Mágoa. Porém, esta noite queremos ir mais fundo, esta noite queremos investigar o que reside por baixo do medo, o que reside por baixo da solidão e essa autopunição, o que reside por baixo da dor que vocês infelizmente experimentam com tanta frequência. 

Mas não só isso que queremos examinar se encontra por baixo dessas quatro coisas, desses quatro problemas, como frequentemente vocês estão a tentar fugir ou a tratar de o evitar. Mas é muita vez o resíduo que é deixado, é muita vez a pista que, à semelhança de um resíduo pegajoso que é deixada muito depois do medo ter sido abordado, muito depois da solidão ter sido há muito mitigada e a autopunição detida e a mágoa ter encontrado um fim - esta noite queremos tratar da dor (sofrimento, pesar) queremos tratar mais especificamente de pôr cobro a essa dor.

Porque, por baixo de cada um desses problemas do medo, da solidão, da mágoa e da autopunição existe uma semente - algo que frequentemente lhe dá início, algo que muita vez se acha presente, que passa despercebido, desacompanhado, mas que se acha presente, no sentido de que faz com que essa coisa brote e ganhe raiz e cresça, e em última análise com que venha à superfície, sob a forma de um desses componentes. E a abordam-na, adequada ou inadequadamente, ou protelam-na, ou, dependendo da mudança coincidente ou sincronística ou miraculosa das circunstâncias, vocês não se aproximam a fim de desenterrar essa semente, vocês simplesmente seguem em frente, "O medo já passou; não façamos disso um problema; não nos demoremos demasiado nisso. A autopunição deteve-se e a solidão terminou; a dor soçobrou. Não fiquemos pendurados nisso, não fiquemos por aqui; não nos vamos pôr a escavar, não vamos fazer ondas, não vamos pôr-nos a descobrir a semente que provavelmente terá dado início a esses componentes, a esses problemas particulares que foram tão difíceis de abordar. Além disso, a dor é o que é deixado para trás - enquanto resíduo, enquanto pista, enquanto indicador de que: "O medo esteve aqui certa vez. A solidão fez parte do que teve lugar, a certa altura." Poderá não mais ser evidente, poderá não mais ser aparente, mas denota-se uma pequena película pegajosa, que se chama dor, que ainda resta. E nós queremos abordá-la, numa tentativa de lhe pôr cobro.

Bom; a perspectiva de lhe pôr cobro sem dúvida que é entusiasmante, sem sombra de dúvida; porém, já o processo por que consegui-lo, por vezes já afeiçoa-se como coisa completamente diferente. Pode afeiçoar-se assustador, e muitos de vocês - não toda a gente, mas muita gente pode sentir receio da ideia de aprofundar e de trabalhar com essa dor - que só de ouvir falar por vezes já activa o obturador. Para outros, pode significar igualmente um confronto, e do mesmo modo pode mostrar-se muito esquiva, e por último, muito embaraçosa.

Pôr cobro à dor pode parecer assustador, por em muitos aspectos vocês não saberem o que a dor seja. Não o afirmamos no sentido de menosprezarmos a experiência que dela fazem - não é disso que estamos a falar. O que queremos dizer é que não sabem o que comporta - conhecem-lhe a sensação, sem dúvida - ela faz doer. Mas vocês não chegam a compreender nem a conhecer verdadeiramente em que consiste a dor. Mas, por provocar dor, vocês não se predispõem necessariamente a descobrir em que consiste a dor - não querem saber aquilo o que seja. Consequentemente, parece surgir como que por mistério, sem se fazer anunciar. 

E quando parece retroceder - se alguma vez chega a retroceder - parece desaparecer pelo mesmo tipo de véu de mistério por que se terá revelado. Por isso é que sugerimos aqui que se torne muito elusivo por essa altura; não só assustador por não saberem de que conste mas elusivo por não saberem aquilo que lhe dá início nem o que lhe põe termo, o que o faça aumentar ou diminuir, por que os afecta a vós e não a outros, e ainda porque outros ainda o sentem de forma diferente - tudo quanto  permanece tão nebuloso e desconhecido. Mas mesmo que examinem o medo, não se vão dispor a procurar a dor, vou examinar aqui o medo. A solidão é demasiado opressiva, é tudo quanto consome. A autopunição ou o castigo que propicio da parte de outros é demasiado confusa e a dor é demasiado deprimente. Consequentemente: "Venham-me falar de dor mais tarde!" E quando essa oportunidade chega, tão pouco têm vontade de falar nisso. E por ser apavorante e elusiva a dor frequentemente passa impune no vosso mundo. Ninguém se detém para a examinar; ninguém se detém a fim de a abordar.

Mas assim como é assustadora e elusiva também pode equivaler a um confronto por nos vossos sistemas de crenças a dor ser equiparada à tolice, ao disparate, à estupidez. "Se fosses sensato ou esperto não te terias metido desde logo nisso!" Além disso acha-se igualmente associado à fraqueza, como se de algum modo, se admitirem que estejam em sofrimento, por vós próprios ou seja por quem for, se estejam a candidatar a ser usados, a que tirem partido de vós, a que sejam manipulados - por nesse sentido ser um sinal ou indicação de fraqueza, e reconhecidamente admitir que se sente sofrimento é algo que exige vulnerabilidade. E se vocês associarem a vulnerabilidade à fraqueza, então é claro que irão associar o sofrimento à fraqueza. Além disso, há uma associação, uma conotação, que diz que o sofrimento, a dor, tenha algo que ver com o erro, com o ruim; como se, caso se encontrem em sofrimento, seja por terem feito algo de mal ou de errado, e de algum modo merecerem a punição que essa dor traduz. merecem a solidão que se afigura, merecem a dor que arranjaram. Afinal, em particular aqueles de vós que lidam com a metafísica, sentem-se assombrados por aquela frase: "Eu crio a minha própria realidade, pelo que devo ter feito isto, em resultado do que serei mau ou estarei errado por estar em sofrimento."

Além disso, há uma certa vergonha, um certo sentido de vergonha, razão porque muita vez a existência de dor é usada como aquilo a que chamamos chantagem espiritual que infelizmente decorre no vosso mundo. De que colhem o sentimento ou a sensação ou o choque do comunicado: "Bom; se és tão espiritual, porque razão estás em sofrimento? Se te achas tão próximo de Deus, porque estás em sofrimento? Se tu crias a tua própria realidade, porque razão crias isto? Ah-ah!" Sentem-se embraçados por causa daquela sensação de vergonha, aquele sentido de desculpa: "Peço desculpa; lamento ter feito isto..." que lhe está associado; por conseguinte, equivale a um confronto, por causa da tolice ou da estupidez; por causa da fraqueza e por causa do erro... e por causa da vergonha que está a envolver isso, essa coisa chamada sofrimento ou dor.

E por fim é embaraçoso, é embaraçoso sentir dor - tanto para vocês que a sentem, como para aqueles que passam pela experiência da vossa dor. Com que frequência não terão estado numa situação de dor em que aqueles que os rodeiam respondem com um silêncio desajeitado e ensurdecedor, e se põem a medir o tecto e o chão, sem mostrarem vontade de olhar para vós; põem-se a limpar a garganta de uma forma embaraçosa, enquanto só desejam que se vão embora e despareçam. Com quanta frequência terão feito isso quando alguém com quem se importam ou alguém ao vosso redor se encontra em sofrimento, e dão por vós incapazes de falar, incapazes de o encarar, e desejam poder falar sobre outra coisa qualquer, ou que a campainha da porta toque ou o telefone - qualquer coisa que os tire desse momento de embaraço e de incómodo, por vocês não saberem nem ele saber - por ninguém saber o que fazer com essa semente que parece encontrar-se tão enterrada em vós, essa dor. Se pudessem falar sobre a raiva ou o medo, a mágoa ou a punição ou mesmo a solidão - sobre isso conseguiriam falar, mas sofrimento? Não, é embaraçoso demais, além de, entre parênteses, demasiado "ameaçador."

E assim, aqui estão vocês, com esta coisa particular e estranha que se encontra por debaixo de tanto do padecimento, de tanta da aflição, de tanta da discórdia que caracteriza a vossa realidade; tanto do que reside por debaixo disso, e que muita vez é a trilha que tantos desses padecimentos deixam, e que passa incólume - por ser assustador, por ser elusivo, por ser um confronto e por em muitos casos ser bastante embaraçoso. 

Pois bem, a despeito do facto do medo e da indefinição, da qualidade esquiva e do confronto e do embaraço que para vós representa... ah, sim, e por causa da mágoa que essa dor produz, vamos tratar disso na mesma. E vamos começar examinando o que é a dor.

Bom; vocês sabem do que trata o medo - que é muita coisa, certamente, mas seja como for, sabem que o medo constitui uma ameaça, é sentir-se ameaçado, seja por que forma ou circunstância for que se faça presente. Vocês sabem o que é a solidão - é o isolamento, real ou imaginário, o isolamento que vocês sentem. E conhecem a punição, quer se trate da punição autoinfligida ou criada por outros, que é um acto de agressão. E conhecem a mágoa, enquanto função de alienação que é. Mas nós sugerimos que o sofrimento é a semente que faz brotar toda essa floração e impetuosidade na vossa realidade. É a semente, é aquela coisa invisível que reside por debaixo de cada um dos vossos receios, por debaixo de cada solidão das vossas, de cada punição e de cada mágoa. 

Também pode ser uma semente da vossa ira, uma semente para a vossa manipulação, para a vossa falta de defesas, o vosso martírio, a vossa vitimização, a pena de vós próprios, mas primordialmente constitui a semente dessas quatro florações impetuosas que com tanta frequência se revelam na vossa realidade. mas também representa a colheita - assim como é a semente também é a safra, o resultado; porque assim que o medo termina, terá desaparecido nesse sentido, mas terá deixado um resíduo. Mas como nós dizemos, vocês não querem parar, vocês não querem ficar imobilizados: "Eu não quero fazer muitas ondas nem causar perturbação; não quero cavar muito fundo com receio que o temor surja de novo.
E quando a solidão atinge um término vocês encontrem mais alguém e colhem a sensação de pertença e veem e sentem ser parte de alguma coisa, e só têm vontade de correr em frente tão rápido quanto puderem, e de deixar para trás a bagunça que é a dor. E o mesmo sucede com a punição; quando por fim deixam de se punir, a enchente de sucessos que tem lugar - por ser muito mais fácil ser bem-sucedido do que fracassar, porque para fracassarem precisam manter todo o sucesso fora para manterem o fracasso vivo; é muito mais fácil passar um bom bocado do que se sujeitar à dor por o estado natural do universo ser uma condição agradável, uma condição que pretende ajudá-los e amá-los - e assim, para sentirem dor precisam mantê-la viva, precisam manter viva a matéria que se intromete no caminho para poderem sentir essa punição, esse castigo. 

Por conseguinte, assim que o deixam entrar são muita vez inundados a ponto de alegremente se sentirem sobrecarregados de sucessos: "E quem quererá estragar a festa? Quem quererá que chova nessa nova parada e querer tratar da dor?" E assim é muita vez a colheita, o debulhe que é deixado no campo, assim que avançam. O mesmo acontece com a dor: "Estou tão satisfeito por a dor ter acabado; sinto-me tão aliviado por o pesadelo ter passado, que não tenho mais vontade de abanar o barco; não quero arriscar-me a despertar esse monstro adormecido." E assim, deixam para trás as conchas vazias que são a dor.
Mas a dor constitui, mais especificamente, uma sinergia. Já falamos um bom bocado de sinergias e dissemos que a sinergia quer dizer que o todo é maior do que a soma das partes; que não é somente uma combinação bidimensional aritmética mas ao invés uma manifestação exponencial tridimensional ou quadrimensional ou uma equação de natureza quase alquímica. E mencionámo-la muita vez em termos das energias positivas - o adulto e a realização que constituem uma certa sinergia, assim como determinados outros componentes enquanto escopo muito positivo ou combinação de energias bastante positivas que produzem uma reacção química perfeita ou manifestação de uma reacção alquímica. Chegamos mesmo a referir que a programação e o processamento que vocês fazem a seu modo representam uma sinergia da manifestação que produzem; que são o ritual e a dança que nesse sentido criam a ressonância (repercussão) e a harmonia que vai permitir a manifestação, ou que vai permitir que repercuta na vossa vibração. 

Tanta vez mencionamos as sinergias nesses sentidos positivos mas existe igualmente as sinergias que magoam, sinergias penosas -  e a dor constitui uma sinergia em que a combinação das suas partes representa mais do que uma simples aritmética e o todo é mais significativo do que a mera soma das partes. A dor constituiu uma sinergia - da separação de algo e da ânsia por algo. Não é só separação - isso está mais associado à solidão e a mágoa. Não é só um anseio por algo - por isso estar mais associado ao medo, e ao castigo. Ao invés, a dor constitui a sinergia que, quando pegam nessas duas e as combinam, e dessa combinação por uma forma qualquer misteriosa sai uma névoa que representa a dor - a busca e a separação, a separação e a ânsia por algo bastante específico.

"Ora bem; estaremos a dizer que se baterem com o pé em algo e isso causar dor, que estejam a sentir algum tipo de separação e estejam a ansiar por alguma coisa; ora, ora...!"
Exacto! É exactamente isso que estamos a afirmar. Desde a coisa mais simples como é bater com o pé até à dor mais trágica e insidiosa que pode durar toda uma vida; de natureza física, sim. Até o mais simples ou trágico sentido de dor física constitui uma separação e um almejar de alguma coisa.

Vejam bem; vocês têm basicamente quatro expressões no vosso mundo físico; já falamos delas muita vez. Vocês têm um mundo físico, sem dúvida, mais a sua expressão; um ser físico, obviamente; também dispõem de um aspecto do ser emocional, e com isso um aspecto do ser mental, ou porventura para o pormos com uma maior clareza, um aspecto do ser intelectual, que se acha separado dos outros dois. E têm um aspecto do ser que é espiritual, um aspecto que os relaciona, que os liga, que os leva a alcançar um sentido de Deus, da Deusa, do Todo, ao sentido da vossa própria espiritualidade. E vocês têm esses quatro vias ou aberturas por onde podem ver qualquer aspecto da vossa realidade. Vocês podem encarar as coisas em termos físicos, mentais, emocionais ou espirituais, e podem ver por essas janelas qualquer coisa que aconteça na vossa realidade, que pode ser vista a partir de qualquer dessas quatro perspectivas.

E a dor também surge na vossa vida por qualquer dessas quatro aberturas. E cada uma delas constitui a separação e ânsia únicas e específicas.
A dor física - constitui a separação e a ânsia por controlo; estar no controlo do vosso mundo. Quando se sentem fora de controlo, geralmente respondem a isso, respondem a essa separação e respondem a essa ânsia do retorno a um controlo, com a dor física. Como quando batem com o punho na parede e sentem a dor como a expressão frustrada dessa separação e desse almejar - constitui uma separação e uma ânsia pelo controlo físico da vossa realidade. Mas também constitui uma separação e uma ânsia... pelo sentir!
Certa gente encontra-se de tal modo entorpecida e tem tanta relutância em lidar com as suas emoções em todo ou qualquer nível, que muita vez o manifesta na sua realidade esbarrando com a mesa do café ou batendo com o pé na mesa de cabeceira, como uma forma de sentirem. Não é agradável, mas pelo menos é uma sensação: "Pelo menos sei que estou vivo; pelo menos sei que posso dizer Caramba. Pelo menos sei que posso praguejar por sentir a agonia; pelo menos sei que estou aqui. Mas encontro-me tão fora de contacto co os meus sentimentos e tenham tanta relutância em senti-los, que o meu último recurso, a única coisa quem e resta, a única opção que tenho é magoar-me fisicamente, de forma a que isso me recorde que estou aqui, de modo a que isso me recorde que ainda estou a operar neste mundo e que não sou nenhum tipo de robot nem nenhum tipo de autómato ou máquina." 

E assim, se sentirem dor física isso constitui uma separação - é querer uma separação e uma ânsia tanto de controlo como e sentimento (sensibilidade). E ao nível emocional, quando sentem uma dor emocional, quando sentem a mágoa, quando sentem a solidão, quando sentem os receios e os castigos e as irritações e a fúria e a pena de vós próprios e todo esse tipo de coisa que dói e os leva a sentir-se doridos, e vocês sabem-no, quer o admitam quer não, nesse nível emocional estão à procura... estão a separar-se e a ansiar por uma pertença. Desejam pertencer, querem sentir fazer parte de alguém, fazer parte de alguma coisa, querem saber que a vossa existência possui importância -- "fazer diferença" é a frase comummente empregue -- mas num sentido mais emocional, tem que ver com o facto de terem importância, que a vossa presença faz parte de alguma coisa -- quer se trate de uma outra pessoa, ou de um grupo, ou de uma ideia, ou de um conceito... "Eu quero pertencer!" E a dor emocional que tanta vez sentem representa essa separação e essa ânsia por pertença. Além disso, constitui separação e uma ânsia de amor, intimidade e interesse.

Por mais que esses três conceitos os assustem, por mais que deem por vós a querer mas a sentir-se aterrados, e mais particularmente a recear a intimidade, e com ela o interesse, a preocupação, o carinho.  Por mais que receiem e se afastem disso, por mais que se sabotem a vós próprios, durante o percurso todo subsiste a sensação da separação e a sensação da ânsia. E quando sentem a dor emocional, isso é o que estão a tentar comunicar a vós próprios, é o que estão a tentar fazer, começando por dar uma palmadinha no vosso ombro emocional, e de seguida esmurrando o vosso lado emocional, criando desse modo dor para que recordem a vós próprios que se encontram separados e que anseiam afecto, intimidade e/ou carinho.

Quando se encontram submetidos à dor mental (intelectualmente) e a entreter ideias que provocam dor e que são dolorosas só de pensar, e têm imagens que lhes acodem -- vocês já se encontraram numa situação dessas, em que tentam concentrar-se nisto, mas determinadas imagens ou ideias continuam a aglomerar-se: "Toda a vez que te vejo não consigo evitar pensar isto. Toda a vez que recordo o que sucedeu não consigo evitar..." As ideias parecem mesmo... são demasiado dolorosas! Essa dor intelectual constitui uma separação de e uma ânsia por compreensão. Não necessariamente para serem compreendidos (embora por vez seja) mas para encontrarem compreensão, para sentirem aquele poder que sobrevém com: "Finalmente compreendo o que está a suceder, e como tudo se enquadra. O que tudo isto significa!"
E a outra parte disso que vai além da compreensão é -- separação de e ânsia por sentido. "Por que a minha vida, eu, tenha sentido." E com isso também, a separação e a ânsia por concepção - ser capaz de conceber qualquer coisa. É por isso que muitas mulheres sentem a dor, aquela dor intelectual, e procuram satisfazê-la, ao conceberem (no sentido mais dramático, no sentido mais manifesto) a provação. Ou querem sair pelo mundo do trabalho a procurar conceber alguma coisa, criar algo que sacie essa separação, que lhes satisfaça essa ânsia. "Conceber algo sozinha. Esse tipo de dor intelectual afecta com mais frequência as mulheres do que os homens, por os homens ironicamente (embora possam não o admitir) terem, na sua grande maioria, mais vias para a concepção, do que aquelas que são dadas às mulheres. Mas os homens também dão frequentemente por si nessa angústia, nessa angústia intelectual, em que se sentem separados de toda a concepção; a sentir a ânsia por conceber e por conseguinte juntamente com ela, a percepção -- perceber, por ver que tudo faça sentido por meio do significado e por meio da percepção. Procuram e anseiam de tal modo desesperado que, quando lhe sentem a falta, e quando essa lacuna e separação aumenta, a dor é o que colmata a lacuna. A dor é o que preenche essa lacuna.

Mas depois, claro está que existe a dor espiritual. Dor espiritual -- que será isso? Onde é que isso incide ou se reflecte no corpo? De que modo se revela isso na forma como reagem emocionalmente ou na forma como intelectualmente tratam da vossa vida. Como é que essa dor espiritual se revela? Nós sugerimos que a dor espiritual se revela naquele sentimento de vazio, naquela sensação de vazio, naquela falta de realização, naquele espanto que diz: "Será isto tudo quanto existe? Será realmente isso que a vida toda quer significa? Num nível tangível será tudo quanto tenha que ver com erguer-se da cama pela manhã, ir para o emprego, ganhar dinheiro suficiente para pagar a hipoteca e as despesas dos filhos e do carro e da esposa ou do marido, etc? E depois levantar-se para o fazer no dia seguinte, e no seguinte também? Para depois regressar a casa e ser bombardeado com todas as coisas terríveis que sucedem no mundo? E quando isso termina, ser bombardeado com a mediocridade da televisão da noite? Será realmente de tudo isso que a vida trata? Foi para isso que cresci, e fui para a escola? Foi por isso que passei por tudo quanto passei? Para ter um cão que me traga os chinelos? Estão a brincar?!"

Ou então aqueles que criaram sucessos brilhantes, mas que ainda assim sentem o vazio: "Será para ter tudo isto que peço cada vez mais dinheiro? Para ter mais e mais sucesso e mais e mais coisas, para poder fazer mais dinheiro...? Para tirar mais umas férias, para comprar mais uma coisa dispendiosa? Será que tudo se reduz a isso?" Essa falta de realização, esse vazio, essa sensação de total falta de sentido, esse isolamento -- que sentem mesmo em meio a uma sala cheia de gente. Essa alienação, essa desorientação, essa desordem que assombra. É com isso que a dor espiritual se parece, porque, aquilo que representa o constitui é uma separação de, e uma ânsia por uma estética (que palavra mais encantadora, não? Leva as pessoas a interrogar-se se vocês serão inteligentes.) 

Estética, basicamente significa um sentido de harmonia, um sentido de equilíbrio, um sentido de simetria, um sentido de beleza, e uma essência de beleza. Vocês buscam tanto conseguir essa harmonia, esse equilíbrio, essa simetria, essa beleza na vossa vida, conseguir que as peças do quebra-cabeças não só encaixem todas, mas que encaixem na perfeição. Não só por conseguir que faça algum sentido e apresente algum significado, alguma percepção monocromática, mas ser belos e apresentar harmonia e equilíbrio na percepção. É por essa estética que anseiam. Mas também iremos sugerir que anseiam por um relacionamento com Deus, a Deusa, o Todo.

Muita vez a busca tangível da relação pessoal um-a-um, procurar aquele único, ou a busca do Tal, pelo menos por um tempo, constitui muita vez a manifestação física da busca mais profunda e crítica -- da busca por Deus, pela Deus, pelo Todo. Que poderão muito bem despendido em criança, no tédio da igreja, e no “fazer bem” de que ouviam falar, e no “porta-te bem,” e “veste um traje, veste um vestido chique e mantém as mãos afastadas da lama,” das imagens da vossa infância e das reminiscências da religião. Poderão muito bem ter voltado as vossas costas da desilusão e da mágoa, da dor e da culpa da religião do adolescência e do jovem adulto em vós, poderão ter exaurido tudo isso e dito “Para mim nunca mais!” e decidido numa espécie de sentido Nietzschiano que Deus tenha realmente morrido, mas mesmo assim sentem a separação, e essa separação combinada com a ânsia produz dor.

A separação por si só pode produzir solidão, pode produzir mágoa; a ânsia pode produzir medo, pode produzir punição. Mas quando s colocam juntas, e elas se misturam e revolteiam e se agitam, da “encrenca” da fervura que começa a borbulhar surge a dor – a dor espiritual da falta de realização.
A dor constitui uma separação de coisas e uma ânsia por coisas bem específicas. Se baterem com o cotovelo ou ficarem com o dedo na porta do carro, vocês gritarão pela separação do controlo, e ansiarão por esse mesmo controlo, ansiarão por sentir, etc.

“Bom; isso é tudo muito bonito, e já sei de que consta; posso juntar isso ao meu repertório de definições por já saber em que consiste a dor. Não custou lá muito. Tão pouco foi elusivo; antes foi um confronto, embora não me sinta muito embaraçado.”

Então, qual é o problema? O problema está no seguinte: No vosso mundo, é importante que compreendam que todos e cada um está predisposto à dor. É quase como o que ouviram ao nível físico, que cada um de vós comporta certas capacidades de imunidade, algo a que por vezes são susceptíveis e outras vezes não. E na verdade todo o conceito da inoculação, com que alguns de vós já não está envolvido, mas seja como for terá estado outrora, que diz que se puserem um pouquinho do mal em vós, o vosso sistema imunitário desenvolver-se-á e combatê-lo-á; pelo que toda a gente se acha predisposta para esta ou aquela doença – todos vós têm a possibilidade de contraírem todas as doenças da infância, de que poderão ou não escapar – mas todos estão predispostos a isso. 

Pois bem, num sentido real todos estão predispostos à dor – independentemente da experiência e do conhecimento que tenham obtido, independentemente da educação que tenham tido, da herança ou tradição, qualquer dessas coisas, todos vós vos encontrais predispostos – alguns de vós senti-lo-ão mais do que outros, e passarão mais tempo aparentemente sem ela – mas todos têm uma certa predisposição para a dor. E nessa predisposição, vocês estão pelo mundo fora a passar para um mundo que irá pressioná-los mais nessa predisposição, um mundo que vai ter percepção de uma dor maior. Por conseguinte, s enão souberem de que consta – mas mais importante, se não souberem como lidar com ela, irão dar por vós à beira de um futuro que encerra muitas possibilidades, um incremento de possibilidades de cair na dor sucessivamente. O problema está nisso! É por isso que se torna importante que procurem pôr-lhe cobro! Que cheguem não só a saber o que é, mas a acabar com ela. Caso contrário, o que poderia vir a ser um futuro brilhante, poderá muito rapidamente tornar-se num pesadelo e mais do que isso, num futuro doloroso.

Vocês todos têm essa predisposição, entendem, por cada um de vós comportar essa separação e essa ânsia pela integridade, essa inteireza. Querem ser íntegros, querem estar completos; anseiam por aquele sentido de domínio, enfrentar o controlo num mundo amigável; por ter um sentido de resposta emocional. Cada um de vós busca a inteireza do ser, não importa quem seja, não importa o quão sofisticados ou não sofisticados pensem ser no vosso desenvolvimento espiritual, não importa que no mundo em geral as pessoas riam e voltem as costas a esta coisa da nova espiritual com que se de um monte de disparates, porque também ele andar à procura de inteireza e sentir a separação e a ânsia por inteireza, e à semelhança de vós que almejais o domínio e a capacidade de sentir em profundidade e com intensidade.
Independentemente das pressões que a sociedade impõem quando diz: “Não sintam; não sejam tão sensíveis!” “Controlem pelo torpor, pela negação de tudo quanto tiver realidade para vós!” A despeito de tudo isso todos vós quereis essa inteireza do domínio e do sentir, e por conseguinte, acham-se predispostos a essa separação e a essa ânsia, essa saudade.

Do mesmo modo, todos se sentem separados e ansiosos por – impacto. Independentemente do facto de em criança ter parecido que só um impacto negativo vinha até vós, e tenham decidido: “Jamais voltarei a tentar exercer impacto de novo,” vocês ainda almejam exercer impacto. Não obstante a responsabilidade que requer e os apuros em que pode metê-los, a despeito da decisão que tomem de nunca mais proferirem uma palavra, de nunca mais se envolverem de novo, vocês ainda desejam exercer impacto. Independentemente do facto da metafísica que tenham aprendido que lhes tenha dito que o impacto é impossível, com base na errónea não obstante dedução lógica que diz que se vós criais tudo, então não existe mais ninguém, pelo que não podem exercer impacto em nada nem ninguém, nem ninguém poderá exercer impacto sobre vós. “Uma vez que vós criais a vossa própria realidade, então eles não os estão a fazer sofrer – são vocês quem está a criar esse sofrimento. Não os estão a fazer sofrer – são eles que estão criar esse sofrimento.” Geralmente isso é uma maneira de dizer que não existe qualquer impacto, em particular por parte daqueles que não querem assumir responsabilidade em relação ao próprio impacto que estão a ter com tal afirmação errónea.

O facto é que vocês criam a vossa realidade e por conseguinte podiam ter criado uma realidade que não comportasse impacto. Vocês redigiram as regras destes mundos “inferiores” o material, o astral, o causal e o mental; vocês redigiram as regras, é verdade, e podiam tê-las redigido sem o impacto. A lógica diria que sim, a lógica poderia conduzir a tal conclusão, mas por desejarem exercer impacto, devido a que se sintam suficientemente separados dele, e por ansiarem por ele, vocês optaram por redigir a regra, por mais lógico que possa parecer, mas exercem impacto uns sobre os outros. Porquê? Por o impacto lhes permitir amar, e ser amado. Vocês querem ser amados. E a única forma porque o podem conseguir é permitindo que alguém exerça impacto em vós.

Por isso mesmo, e embora a lógica diga que, em função de terem criado tudo, “Por eu te estar a criar, e tu não passares de uma concepção da minha imaginação, tudo quanto me faças de bom serei eu que o estou a fazer a mim próprio...” É verdade, é lógico – só que é solitário como o diabo! E é doloroso. Porque será doloroso pensar que a pessoa que amam não passam de uma concepção da vossa imaginação? E que as coisas agradáveis que lhes dizem não passam das deixas que lhes dão a dizer num roteiro na manga da blusa ou da camisa? Por ansiarem por exercer impacto; por ansiarem por se sentir amados. Por quererem saber que quando fazem algo de agradável e vocês sorriem, isso é real. E querem saber que, quando vêem a vós e os tocam, isso se deve a que vocês o desejem, e não porque tenham tirado o parceiro da vossa cartola. O narcisismo encontra-se tão disperso, só que não tanto quanto isso, ainda!

“Eu quero amar, e quero ser amada. E a única forma porque o poderei conseguir é pelo impacto. E quero ter intimidade – oh, isso deixa-me apavorado, mas desejo-o. Anseio por isso por me sentir separado e ansiar ardentemente por isso. Por conseguinte, necessito exercer impacto. Quer sentir atenção e interesse, e quero que alguém o sinta também por mim; quero saber que alguém se interessa por mim. Por isso, necessito de exercer impacto.”

"Assim, embora não seja lógico, vou admiti-lo a qualquer jeito. Sou eu quem estabelece as regras, já que fui eu que criei a minha realidade; assim, posso definir a escolha e a decisão, posso escolher e decidir pensar e sentir; posso alimentar a noção de que posso exercer impacto - e opto por isso."

Não obstante a criança e o adolescente que dizem Não, não; independentemente até mesmo daquele grupo de metafísicos que, a partir do próprio receio que têm do impacto se recusam a assumir a responsabilidade por qualquer impacto negativo que exerçam... Independentemente de tudo isso, independentemente até mesmo das palavras que vocês possam reunir para dizer, de uma forma maio automática, Ainda te encontras separado e com ânsia... vocês querem sentir amor, intimidade e interesse - querem dá-lo e querem recebê-lo! E também querem pertencer - e dar o que consideramos ser a dádiva mais adorável que podem dar - o dom do realismo! Querem poder dispor dessa faculdade de dizer: "Sim, tu és um produto da minha imaginação, mas eu liberto-te, e concedo-te o dom de seres real e de exerceres impacto em mim; e de eu exercer impacto sobre ti."

Todos se encontram predispostos a sentir a separação e a ânsia de impacto - amor, intimidade, interesse e pertença!

Do mesmo modo, todos se sentem separados e com ânsia de valor. Mesmo que o termo soe um tanto fora de moda, e vocês apelem com o relativismo para que tudo é relegado, ainda assim vocês buscam o valor; querem sentir o vosso próprio valor e querem sentir ter valor para os outros. Não querem só sentir-se íntimos, nem amados, cuidados, confirmados no sentimento de pertença, mas valiosos. Valor que conta como sentido de significado e sentido de percepção.

Por fim, toda a gente se sente separada e ansiosa por espiritualidade, por uma relação com Deus (Deusa e Todo). Anseia por regressar ao Lar. Isso encontra-se em cada um de vós, e dentro de todos quantos consideram "eles" por esse mundo fora - os vossos inimigos reais ou imaginários, que se encontram do mesmo modo que vós, predispostos a essas separações e ânsias. Por conseguinte, vocês predispõem-se a sentir dor - dor essa que ignoram e que negam e que mascaram, e em relação à qual se entorpecem. Mas predispõem-se mesmo assim. E nessa predisposição, estão agora a embarcar num mundo, neste século que termina, que vai zombar dessa potencial dor - que lhes vai trazer possibilidades, probabilidades e actualidades de se verem na dor. E se vocês não souberem lidar com ela nem souberem em que consiste, irão dar por vós às voltas de uma dor para outra.

Porquê? Por estarem a lidar com um mundo que, conforme temos sugerido repetidamente, se assemelha ao cubo de Rubik, em que não existem mais soluções, ou assim parece - nenhuma solução lógica, nenhuma solução tipo causa-efeito (ou muito poucas delas). É-lhes dito, em cada noticiário e em cada reportagem sobre a economia e a ecologia que vêm, que estão num problema e que estão enterrados até ao pescoço num mundo que não funciona. E vocês sentem-se desamparados e sem esperança, e esse desamparo e desespero só irão aumentar, pelo que o sentimento de inteireza esvai-se-lhes por entre os dedos. O mundo já não parece um lugar acolhedor, parece ao contrário bastante antipático e cada vez pior. Não há sentido de domínio nem sentido de controlo nem sentido de sentimento - é opressivo na desamparo e falta de esperança que apresenta; é opressivo na falta de solução para os problemas que existem.
Mas, como poderão exercer impacto? Quem são vocês para o fazer quando as florestas estão a ser destruídas e quando a camada do ozono está a encolher e a ser despedaçado; quando a poluição que está a ser produzida do outro lado do mundo está a surgir na água que bebem; quando a própria terra parece exsudar lixo radioactivo que lhes torna as terras improdutivas e inúteis; quando se verifica a ameaça de um terramoto que pode abalar e destruir tudo numa questão de segundos? Impacto? Estão a brincar?! Cada vez têm menos, e a vê-la a desaparecer por entre os dedos, assoberbados pela separação e por uma crescente ânsia - isso traduz a dor!

"Valor?! Valor num mundo em que me dizem que estou destruído por causa da estreiteza de mentalidade e das vistas curtas, por causa da cobiça e por causa da estupidez, por causa da arrogância com que o género humano me destruiu? Vens-me falar de valor?!"
Sentem-se mais separados. Sentem mais saudade dos velhos tempos, em que as coisas eram mais simples. Talvez não vão tão longe a ponto de dizerem como Nietzsche, que Deus está morto, mas decerto que sentirão que lhes terá voltado as costas, por acharem que na verdade não poderá testemunhar o que sucede e permitir que aconteça.

(continua)
Transcrição e tradução: Amadeu António
                                                                                   





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