segunda-feira, 17 de abril de 2017

LIE-TZU - REAL OU IRREAL?



que será real e irreal?

Um lenhador que reunia lenha na floresta cruzou-se com um veado, que matou e que escondeu num buraco para poder voltar mais tarde e recolhê-lo. Ele ficou tão contente com esta tremenda sorte que em breve se esqueceu onde o tinha guardado e começou a suspeitar que possa ter sonhado com a coisa toda.

Ao regressar a casa, ele murmurava consigo mesmo com respeito a tal sonho tão estranho. Aconteceu que um transeunte ouviu os murmúrios do lenhador e decidiu ver se conseguiria descobrir o veado que o lenhador tinha mencionado.

Depois de ter procurado com todo o cuidado pela área que o lenhador tinha descrito ele descobriu o veado oculto num buraco coberto por ramos de árvore. Espantado com a sorte que teve, o homem levou o veado para casa e disse à mulher: “Hoje encontrei um homem que sonhou que tinha morto um veado mas que esquecera onde o tinha escondido. Mas fui e procurei por toda a zona onde ele tinha dito que tinha morto o animal e encontrei-o num buraco. Não será incrível como os sonhos podem tornar-se reais?”

A mulher retorquiu: “não terá sido que tu sonhaste com todo o incidente? Descobriste um veado e sonhaste ter encontrado um lenhador que falou em ter morto um veado.” O marido respondeu: “Bom, realmente não tem importância que eu tenha sonhado o incidente ou não. Eu descobri um veado e agora dispomos de um bom suprimento de alimento.”

Quando o lenhador chegou a casa ele ainda se sentia incomodado por não conseguir ter a certeza se tinha morto um veado ou não. Nessa noite teve um sonho, e sonhou que efectivamente tinha morto um veado, e que o tinha metido num buraco e tapado com ramos. Além disso, no sonho viu que alguém que tinha visto a caminho de casa tinha descoberto o esconderijo e tinha levado o veado.

Na manhã seguinte ele dirigiu-se directamente a casa que vira no sonho e encontrou o veado no pátio. Entrou para reclamar o seu veado, porém o outro homem não abriu mão dele. Por fim, ambos foram ao magistrado da região para resolver a questão.

O magistrado escutou as alegações de ambos os dois homens, e disse: “Um de vocês matou o veado e depois disse ter sido um sonho. Mais tarde alegou ser verdade e não um sonho. Agora, o outro encontrou o veado que alguém sonhara ter matado, mas diz-me que a sua mulher dissera que sonhara toda a trama e que o lenhador no seu sonho jamais existira. Pois bem, tudo quanto aqui vejo é um veado e duas pessoas a contestar as suas reivindicações. Determino que o veado seja dividido em partes iguais entre vocês os dois.”
Quando rei ouviu falar desse estranho incidente, perguntou aos seus ministros: “Supõem que o magistrado sonhará dividir o veado?”

O seu magistrado respondeu: “Eu não consigo apurar se algo foi real ou produto de sonho. Somente os sábios como o Imperador Amarelo ou Confúcio poderão falar da diferença entre o estado de vigília e o sonho, mas como ambos deixaram este mundo, não temos maneira de aferir o que foi produto do sonho e o que não. Entretanto, eu prosseguiria com a decisão do magistrado de dividir o veado em metades iguais.”


O Homem que Perdera a Memória

Um certo homem chamado Hua-Tzu de repente perdeu a memória na meia-idade. Se lhe dessem alguma coisa pela manhã, à noite já o teria esquecido. Se lhe perguntassem alguma coisa pela noite, no dia seguinte tê-lo-ia esquecido. Na estrada, esquecer-se-ia de caminhar. Em casa, esquecer-se-ia de se sentar. Hoje esquecer-se-ia do que ocorrera ontem, e amanhã não se recordará do que acontecera no dia anterior.

Preocupado com a sua perda de memória, a sua família começou por convidar um adivinho e de seguida um feiticeiro a ver se conseguiriam ajudar Hua-Tzu a recuperar a memória. Quando nenhum dos dois conseguiu ser de alguma valia, foi chamado um doutor, mas o terapeuta abanou a cabeça e disse que tão pouco tinha o que pudesse fazer.

Por fim, Hua-Tzu pensou num filósofo que provavelmente poderia ajudá-lo. Tão desesperada estava a mulher de Hua-Tzu por lhe descobrir uma cura que dispensou metade das posses que tinha para levar o marido ao filósofo e pedir-lhe ajuda.

A família viajou até à casa do filósofo e suplicou ao homem sábio que curasse Hua-Tzu. O filósofo disse à família: “Esse tipo de doença não pode ser curado por presságios, magia ou ervas. Vou ter que recorrer a métodos especiais que são concebidos para funcionarem na sua mente.”

O filósofo então fez uma experiência com Hua-Tzu. Quando dizia a Hua-Tzu para despir as roupas, Hua-Tzu queria ser vestido. Quando deixava o homem passar fome, Hua-Tzu pedia comida. Quando fechava Hua-Tzu num quarto escuro, o homem queria sair. Ao ver as reacções de Hua-Tzu, o erudito ficou encantado e disse à mulher de Hua-Tzu: “O seu marido pode ser curado, contudo, vou precisar recorrer a um método secreto que me foi passado ao longo de gerações, pelo que não posso que aqui permaneça a assistir. Volte dentro de sete dias. Dou-lhe a minha garantia de que ele será curado.”

A família de Hua-Tzu não teve escolha senão partir. Durante sete dias, o filósofo isolou-se com Hua-Tzu. Ninguém sabe aquilo que fez nem como o fez, mas quando a família de Hua-Tzu regressou para o levar para casa, encontraram-no completamente curado.

Após Hua-Tzu ter recuperado a memória, tornou-se irritadiço e nervoso. Ele expulsou a mulher, espancou os filhos e ameaçou o filósofo com uma lança. Quando a polícia o prendeu por perturbar a paz e questionou os seus motivos, Hua-Tzu disse: “Quando perdi a memória, tornei-me despreocupado e feliz. Dormia pacificamente e ao despertar não tinha preocupações. Não tinha nada em mente, pelo que era um homem livre. Agora que recuperei a memória sinto-me infeliz. Considero a sorte e o azar, os ganhos e as perdas, bem como as alegrias e tristezas que tive na minha vida, e sinto-me oprimido. Despertei de um belo sonho e encontro-me num pesadelo. Jamais serei capaz de regressar aos bons tempos de quando perdera a memória!”

Quando Tzu-kung, um estudante de Confúcio, ouviu falar de Hua-Tzu teve um acesso e ficou intrigado. Foi pedir uma explicação ao mestre, mas Confúcio disse somente: “Isso é algo que jamais compreenderás.” Então, voltou-se para o seu aluno mais promissor, Yen-Hui, e disse-lhe para tomar nota de tudo aquilo.

Traduzido por Amadeu António

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