segunda-feira, 17 de abril de 2017

FELICIDADE PERFEITA










FELICIDADE PERFEITA



da sabedoria de um viver simples

Será possível encontrar por todo este vasto mundo uma felicidade verdadeira ou não? Haverá maneira de nos mantermos vivos ou não? Bom, que poderá ou não ser feito e em que se deverá confiar? Que deverá ser evitado e a que deveremos ater-nos? Que se deverá perseguir e que se deverá abandonar? Onde residirá a felicidade e onde residirá o mal?

Aquilo que todo mundo valoriza são as riquezas, a posição, a vida longa e a fama. O que garante a felicidade são a segurança pessoal, os bons apetites, vestes vistosas, as belas vistas e sons agradáveis. Aquilo que o mundo despreza é a pobreza, a baixeza moral, a morte prematura e a má reputação. O que considera desagradável é o estilo de vida que não acarreta repouso, a falta de pratos requintados, a falta de boas roupas, olhos que jamais pousam em vistas adoráveis ao olhar, e uma música agradável ao ouvido.

Quando não conseguem obter tais coisas tornam-se alvo da agitação e do temor. Mas essa é uma forma atoleimada de tratar o corpo! Os ricos afadigam-se e apressam-se a obter mais e mais riquezas, para além daquela que necessitam. Consequentemente, embora façam isso em prol do corpo, alienam-no.

Aqueles que detêm posições de poder passam dia e noite a traçar e a ponderar no que fazer para atingir os melhores fins. Mas, do ponto de vista do nosso corpo não será esse um tratamento muito descuidado? As pessoas vivem a vida constantemente cercadas pela ansiedade. E se viverem muito acabam na senilidade, desgastada pelas preocupações: que terrível destino! O corpo é tratado de uma forma muito desagradável. Homens de coragem são vistos por todos os cantos sob o céu como dignos, mas isso é insuficiente para os manter vivos. Não estou certo de saber se essa sabedoria será ajuizada ou não. Se a considerarmos boa, não chega para a sua salvação. Se a considerarmos como não boa, é suficiente para a salvação dos outros. É dito que se um amigo não der ouvidos aos conselhos que lhe ofereceremos, devemos fazer uma vénia e retirar-nos sem discussão. Afinal, Tzu Hsu mostrou resistência para com o seu soberano e acabou por perder a vida. Caso não tivesse discutido, não teria ficado famoso. Será possível que realmente contenha alguma grandeza efectiva, ou não?

Bom, quando as pessoas comuns tentam encontrar felicidade, não estou certo se a felicidade que encontram será realmente felicidade ou não. Observo o que as pessoas ordinárias fazem para conseguir felicidade, aquilo por que se debatem, e o quanto correm aparentemente incapazes de se deter. Dizem sentir-se felizes, mas eu não me sinto feliz nem infeliz tão pouco. Em última análise gozarão ou não de felicidade? Eu considero a acção sem agir (sem intenção) como mais digna de ser chamada felicidade, embora as gentes comuns a considerem como um grande fardo. Foi dito: "A perfeita felicidade é ausência de (consciência de) felicidade, a perfeita glória não ser objecto de glória."

O mundo todo é incapaz de julgar certo e errado. Mas é certo que a acção (inação da ausência de resistência interna) pode ajuizar tanto o certo quanto o errado, só que o mundo receia-a. A perfeita felicidade está na preservação da vida; somente a acção sem agir pode produzir tal efeito. É por isso que sou levado a dizer:

"O céu e a terra nada operam e no entanto nada fica por fazer."

Ambos combinam o agir sem acção e todas as formas de vida saem mudadas e desse modo voltam à vida! Maravilha das maravilhas, elas não vêm de parte alguma! Toda a vida é misteriosa e emerge da acção sem agir. Há o dito de que o céu e a terra adoptam uma acção sem agir, mas nada fica por fazer. Por entre as pessoas, quem será capaz de seguir tal agir isento de acção?

a conformação pelo conhecimento

A mulher de Chuang Tzu morreu e Hui Tzu chegou a fim de o consolar, mas Chuang Tzu permaneceu sentado de pernas cruzadas, a bater numa bacia surrada e a cantar.
Hui Tzu disse: “Viveste com ela como homem e mulher, e ela criou-te os filhos. Na morte o que pelo menos devias fazer seria sentir vontade de prantear, em vez de estares para aí a fazer da bacia um tambor e a cantar: Isso não está certo."

Chuang Tzu respondeu: “Certamente que não. Quando ela morreu, decerto que fiz o luto tal como toda a gente! Contudo, recordei que ela já existia antes, num estado anterior ao do nascimento. Na verdade, não só antes que nascer, mas antes do seu corpo ser sequer criado. Não só sem forma como sem substância, mas antes mesmo do seu sopro vital ser adicionado ao seu corpo. E por meio do maravilhoso mistério da mudança foi-lhe atribuído o alento de vida. Esse alento vital forjou uma transformação e ela passou a possuir um corpo. O seu corpo gerou outra transformação e ela morreu. Ela assemelha-se às quatro estações, na forma como a primavera, o verão, o Outono e o inverno se sucedem. Agora encontra-se em paz, a repousar no seu ataúde, mas se eu me entregar aos soluços e ao pranto decerto parecerá que eu não compreenda o destino. Foi por isso que me abstenho.”

o remédio do irremediável

O Corcunda e o Aleijado perambulavam pelas tumbas dos heróis falecidos nos montes de Kun Lun onde o Imperador Amarelo repousa (Símbolos ou locais de imortalidade). Sem aviso uma úlcera começou a brotar do ombro esquerdo de Aleijado. Ele certamente ficou surpreendido e um tanto baralhado.

"Sente-se ressentido por isso?" disse o Corcunda.

"Não, disse o Aleijado. Porque deveria sentir-me ressentido? A vida tem lugar na partilha e constitui um empréstimo. E com esse empréstimo, só acrescentamos mais sujeira e lixo à soma total da nossa existência. A morte e o nascimento assemelham-se à manhã e à noite. E enquanto vós e eu, observamos as evidências da mortalidade que nos rodeia, se a mesma mortalidade me acometer, porque haverei eu de me ressentir por isso?"

não será a morte um alívio?

Chuang Tzu foi a Chu para observar um crânio antigo que lé havia sido dissecado, que ele espicaçou com a sua chibata, dizendo: "Senhor, seguiu algum curso desafortunado que lhe tenha trazido desonra ao seu pai ou à sua mãe para terminar dessa forma? Terá, porventura, sido o frio e a fome que o terá reduzido à expressão de indigente? Talvez tenha sido a resoluta sucessão das primaveras e outonos (a idade) que o tenham conduzido a isso, não senhor?" Assim dizendo, puxou o crânio de encontro a si e deitou-se a dormir, utilizando o crânio como travesseiro. A meio da noite sonhou que o crânio lhe aparecia em sonho e disse: "Senhor, você grasna que nem um orador público (bem). Mas tudo quanto diz, senhor, é referente à vida dos mortais e aos problemas da mortalidade. Nós, mortos, nada temos que ver com isso. Gostaria que lhe falasse sobre a morte, senhor?"

"Certamente," disse Chuang Tzu.

E o crânio lá lhe disse: "Os mortos não conhecem soberania nem sujeição. As azáfamas das estações são-lhes desconhecidas, de modo que vivemos como se a nossa existência fosse restringida unicamente pela eternidade e pelo infinito. Não se iluda, porque a felicidade de um rei entre os homens não se iguala àquela de que desfrutamos."

Chuang Tzu não pode acreditar e retorquiu: "Se eu pudesse gozar de arbítrio sobre o destino de modo a poder trazê-lo de novo à vida, senhor, e pudesse voltar a gozar de um corpo de carne e osso, e a voltar a ter companheiros, isso não lhe agradaria?"

O crânio fez uma careta com ar de chateado e respondeu: "Porque quereria eu afastar felicidade maior do que a dos reis entre os homens e tornar-me de novo um ser humano e assumir os trabalhos e as dificuldades dos mortais?"

nutrição adequada

Yen Yuan viajou para Este em direcção ao Estado de Chi, e Confúcio ficou muito ansioso. Tzu Kung ergueu-se da sua esteira e perguntou-lhe: "Posso eu, enquanto humilde discípulo, Senhor, perguntar-lhe porque ficou tão ansioso, uma vez que Hui também partiu para o Este, rumo a Chi?"

Confúcio respondeu:

"Essa é uma boa pergunta! Kuan Tzu tinha um dito que eu acho ser de levar em conta. Dizia ele: "Um saco pequeno não pode conter nada grande e um balde de corda curta não pode chegar até ao fundo do poço." Do mesmo modo é igualmente verdade que o que é determinado pelo nosso destino possui a sua própria ordem particular tal como a sua forma as suas limitações. A nenhuma delas podemos tirar ou acrescentar. Sinto-me preocupado por quando Hui chegar ele vá pôr-se a pregar ao Duque de Chi acerca de Tao de Yao, Shun e o Imperador Amarelo, e subsequentemente se debruce sobre as palavras de Sui Jen E Shen Nung. O Duque procurará ver se ele está à altura de tudo isso e apontar-lhe-á falhas, e ficará desapontado, e quando uma pessoa dessas cai na dúvida, incorre-se na morte!

"Além disso, já não terás ouvido esta história antes? Certa vez uma ave marinha pousou nos arredores da capital de Lu. O Príncipe de Lu foi acolhê-la e levou-a em procissão até ao santuário dos antigos, onde tocou o Chiu Shao (música composta pelo imperador Shun) para a animar e sacrificou um touro para a alimentar? Mas isso deixou a ave confusa, em razão do que deixou de comer e beber e no espaço de três dias morreu. Por esse não corresponder ao tratamento natural a dar a uma ave. Tivesse ele dado um tratamento adequado a uma ave, teria sido levá-la para o meio da floresta, e deixá-la livre para vaguear com o bando e para se banhar nas águas dos riachos ou lagos, caçar peixes, e por lá ficar tranquila. Quando os pássaros se sentem aterrados com as vozes dos homens, de nada adianta porem-se com cânticos! Se procurarem contentá-los com música, as aves deitarão a fugir para longe. Se os animais o ouvirem, também eles fugirão e correrão a esconder-se e se os peixes o escutarem correrão para as profundezas. Apenas as pessoas acorrerão a reunir-se para a escutar.

"Os peixes podem subsistir contentes nas águas, mas se os homens o tentarem, morrerão, por diferentes seres as necessidades dos diferentes contextos que lhes são apropriados. Sendo diferentes, também os seus gostos e aversões diferem. É por isso que os antigos sábios nunca favoreciam a uniformidade, a perícia nem a ocupação no trato das criaturas nem procuravam conformá-las. A reputação é proporcional à realidade, e os meios adaptavam-se aos fins, por isso ser sensato e atrair a fortuna. A isso se chamava o devido relacionamento com os demais junto ao benefício pessoal."

a roda da transformação

Lie Tzu ia de viagem quando parou à beira da estrada para comer quando avistou um velho crânio. Arrancando uma haste de relva, apontou para ele e disse: "Só tu e eu sabemos não existir vida nem morte; que nunca viveste e que nunca morreste. Estarás verdadeiramente em paz, ou estarei eu verdadeiramente feliz? Quem poderá dizer se a morte não será, afinal de contas, vida, e se a vida não será morte?”

Quando determinados germes caem na água transformam-se em lentilhas de água. Ao atingirem a costa tornam-se líquenes. Ao se espalharem pela margem transformam-se em Lírios Violeta. Ao atingirem o solo rico tornam-se numa planta cujas raízes se tornam larvas e as folhas tornam-se borboletas. As borboletas transformam-se e tornam-se insectos que andam por baixo das lareiras, que se parecem com cobras. Após um milhar de dias tornam-se aves de cuja saliva surge um tipo de mosca do vinho, moscas essas que se transformam em Vaga-lume, de que outros insectos se formam, que por sua vez se transformam em lavas, que se deita nos bambus que não germinam há muito tempo, de modo a se dar lugar às plantas dos Jardins. Esses, dão lugar a leopardos, os leopardos dão lugar aos homens, os cavalos dão lugar aos humanos, e eventualmente os humanos voltam ao Grande esquema das coisas. Toda a diversidade da vida surge do mistério dos começos e aí retorna.



Zuangzi

Tradução: Amadeu António








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