quarta-feira, 29 de março de 2017

CHOPIN - ACERCA DA VIDA E DA PESSOA COMPLETA



CHOPIN FALA ACERCA DA VIDA
Rose: Olá. Estas a falar comigo...?
Leslie: Sinto-me muito bem aqui sentado.
Chopin: "Sinto-me muito bem, aqui sentado..." (Riso geral) Ele sente-se muito bem ali sentado e eu sinto-me muito feliz por aqui vir.
Rose: Ah, ele veio... Estupendo.
Chopin: É claro que eu viria esta noite. Achas que não cumpriria a promessa que te fiz?
Rose: Não, mas por vezes não conseguirá, entende?
Chopin: Ah, por vezes não é possível, por vezes temos... ideias sobre determinadas coisas a fazer, que nem sempre é possível gerir, mas mesmo que assim seja, eu virei; eu prometi que vinha e aqui estou. Como estás tu hoje?
Rose: Ah, eu estou bem, obrigado.
Chopin: Óptimo!
Rose: De que vai falar?
Chopin: De que gostarias que eu falasse?
Rose: Vocês...
Chopin: Você, você, você...
Rose: Fale você comigo, que à medida que for prosseguindo, se tiver alguma coisa a perguntar, perguntarei.
Chopin: Tu queres perguntar-me alguma coisa. Vais perguntar-mo? Não consegues pensar em nada para me perguntar, é por isso que me pedes para prosseguir de modo a que te suscite alguma coisa.
Rose: (Ri) Não, não é truque nenhum desses.
Chopin: Que é então? Só queres ver o que eu venha a dizer, não?
Rose: (Ri)
Chopin: Por vezes és muito ardilosa! (Riso geral) Ah, bom, espero não perder essa astúcia quando passar para o seu lado.
Chopin: Estou plenamente convencido de que não perderás a arte. (Rose ri) A arte de seres tu própria. É sempre importante. Certas pessoas parecem pensar que o progresso aqui signifique perder-se; creio que por vezes essa pergunta tenha vindo à baila, o que em certo sentido contém uma certa verdade, só que nós sempre permanecemos indivíduos, sempre temos o nosso tipo de perspectiva e o nosso aspecto, sabes. É quando aprendemos a perder a pior parte, quando nos amalgamamos com muitas outras pessoas. Por outras palavras, é quando nos tornamos abrangentes e damos de nós próprios em amor e serviço pelos outros. Quando nos fundimos, tornamo-nos num certo sentido mais...
Rose: Que é que quer dizer com o termo "fundir"? Quer-me explicar isso?
Chopin: Bom, creio que "fundir," no verdadeiro sentido significa perdermos o egocentrismo da natureza, perdermos para nós próprios todos os piores aspectos que nos impedem de nos tornarmos numa pessoa excelente, digamos. Quando começamos a compreender que a única maneira para realmente nos desenvolvermos no verdadeiro sentido é misturando-nos com os outros, compreender os outros, simpatizar com os outros, querer estar coim os outros, tornar-se parte dos outros na medida em que sentimos vontade de partilhar e queremos aprender com eles, queremos dar-lhes de nós próprios tudo quanto pudermos dar de nós próprios em amor. Misturamo-nos de forma mais completa, sabes...
Rose: Não temos qualquer tentação... É mais fácil...
Chopin: Não, não, não... Não temos ideia... bom, depende, uma vez mais, precisas lembrar-te de que.... Ah, não, tu não compreendes. Dizes que é mais fácil por pensares que seja mais fácil, por provavelmente não perceberes... Claro que não é o mesmo tipo de tentações. Mas precisas ter em mente que, em certas esferas próximas à terra, para as quais um grande número de pessoas vai, quando inicialmente para aqui passa, existem formas de tentação, só que não são do mesmo tipo de tentação da terra. É quando o indivíduo possivelmente toma consciência de si próprio com uma maior clareza - o que evidentemente depende do próprio indivíduo - mas algumas pessoas retém durante um tempo, em certas esferas tanto de si próprias onde vivem nesse tipo de estado mental, e consequentemente, embora não tentadas da mesma maneira que na terra, por não padecerem do mesmo tipo de tentações, mas ainda têm a tentação, se quisermos, para se tornarem ou para reterem a possessividade ou para reterem o desejo pessoal. Claro que me estou a referir às esferas próximas à terra.
Precisamos aprender a sacudir-nos...
Rose: ...a personalidade que assumimos na terra, suponho bem.
Chopin: Bom, é. Mas precisas lembrar-te e perceber, entendes, que quando para aqui vêm... uma das primeiras coisas que percebem, segundo creio, é que pela primeira vez podem ser completamente vistos conforme realmente são, mas toda a gente... Por outras palavras, não podem mais erigir a falsa máscara ou o fingimento, não podemos manter a dissimulação que a terra permite. Por exemplo, uma pessoa na Terra poderá parecer, por todas as aparências externas, uma excelente pessoa, e isso poder ser parcialmente falso, por poder ser algo completamente diferente aqui. Não conseguem fazer isso, por aqui serem verdadeiramente vistos pelo vosso eu verdadeiro, e é causa de enorme apreensão e de um grande choque para a pessoa quando ela começa a perceber que as pessoas conseguem perceber-lhe o íntimo, e conhecê-la como ela verdadeiramente é. Em consequência a pessoa comum em breve começa a perceber que tem muita necessidade de mudança, e começa a ver-se de forma mais clara, e torna-se mais consciente te si mesma.
Bom; uma pessoa pode ser consciente de si mesma do ponto de vista de querer ser diferente por desgostar ou se sentir infeliz com aquilo que tenha visto. Ou a pessoa poderá sentir-se muito satisfeita com aquilo que vê em si mesma. Assim, em algumas esferas encontram pessoas que não se sentem perturbadas de todo consigo próprias e que gostam de si próprias. E têm pessoas no vosso mundo que se conhecem muito bem, e que se sentem bastante agradadas consigo próprias, e que não têm qualquer vontade particular de ser diferentes. Sabem que em muitos aspectos são más, mas não desejam necessariamente ser diferentes. Creem que seja uma boa coisa, por vezes, ser como são. Pensam que seja uma protecção delas próprias, contra os outros, que tirariam partido delas. Orgulham-se de ser duras em si mesmas, sabes, e temos pessoas que quando aqui chegam ainda retêm essa atitude, em certas esferas próximas à Terra. E por vezes não se alteram durante muito tempo, levam muito tempo a perceber que precisam mudar se quiserem avançar.
As pessoas vivem numa espécie de mundo que é criado por elas próprias, o que em larga medida se aplica ao vosso mundo. É verdade que vivem num tipo de mundo que foi criado por gerações de pessoas, pelo que sofrem em consequência de todos os erros de todos quantos tenham sido injustos ou desonestos. Quero dizer, as circunstâncias da vossa vida terrena são como são por causa das pessoas que as criaram assim, e o inocente sofre mais do que o culpado em consequência, porque quanto mais sincera for a pessoa, quanto mais sensitiva a pessoa for, quanto mais amável a pessoa for, obviamente mais difícil se tornará para ela própria ser feliz e compreendida.
Aquelas pessoas que são assim, aqui automaticamente, devido à sua própria natureza, e à intensidade de sentimento que têm dentro delas pelos outros, pelo bem da humanidade, em si mesmo, poder-se-á dizer, representa o começo, se quisermos, de uma existência mais feliz. Elas automaticamente isso torna-lhes possível encontrar para si uma existência mais feliz, por entrarem num estado de existência que é tão idêntico a si mesmas, que o quererão, o desejarão, por virem de um mundo de crueldade e de um mundo de intolerância, onde as coisas materiais são consideradas como mais importantes do que as coisas da mente e do espírito e do coração. E em consequência, entrarão automaticamente numa condição que elas próprias teriam desejado que a terra albergasse e que não albergavam. Mas entrarão aqui numa condição que elas próprias terão criado, e que terão desejado no seu íntimo.
Tudo depende inteiramente do indivíduo, com respeito à recepção que venha aqui a ter e em que condições de vida venha a penetrar. É por essa razão que te disse, não só para ti mas para muita gente como tu. Virá a surgir uma condição de vida que será extremamente feliz, por não existir nenhuma das coisas terríveis, depressivas e infelizes com que vocês se deparam na terra. Por vocês serem demasiado conscientes dessas coisas e sentem aversão por elas os deixarem tão tristes e infelizes por causa delas na terra. Mas elas automaticamente deixarão de existir aqui para vós, por vocês viverem numa condição de vida em que tais coisas não se farão presentes, e só as coisas boas permanecerão.
Rose: Dou graças a Deus por isso.
Chopin: Tu não sabem como terão que ter feito por isso. Por vezes pensam que não fazem nada. "Os tempos são para os números," ouço-os eu dizer. "Eu não faço nada,” dizem vocês como." "Os nossos assistentes não fazem nada um perfeito tolo," e vários tipos de coisas que dizem acerca de vós próprios. Mas não sabem, não é só nesta vida, mas noutras vidas tenham realizado muito. E talvez nesta agradável existência talvez tenham feito muito mais - de facto eu sei que fizeste muito mais do que creditas a ti própria, muito mais. Ficarias surpreendida com o tanto que conseguiste. Não tens consciência, porque quando se faz algo e se tem muita consciência disso - não estou a dizer que não seja bom, porque sempre é bom fazer o bem - mas quando fazem as coisas de forma automática como se fossem as coisas mais naturais do mundo, isso é óptimo, muito bom, mas se fizerem alguma coisa que achem que deviam fazer por ser o correcto a fazer, um tipo qualquer de incómodo, digamos, que fazem por pensarem que o devam fazer, aí já não é tão bom entendes?
Isso é humano, e afinal de contas precisamos considerar toda a sorte de coisas. Eu sei que vocês fazem muitas coisas. Não quero dizer apenas as coisas rotineiras do costume que vocês fazem, por essas são naturais com relação a vós, evidentemente, mas outras coisas que não sabem muito bem o que fazem. Por vezes é fazer no mais recôndito da vossa alma, de um modo que parecem não estar a fazer nada no sentido material. Mas é mesmo o amor intenso, e o sentimento intenso de desejo de alcançar e de fazer coisas que são boas para as pessoas que têm mais importância. Por vezes não fazem nada em termos materiais, não é possível. Mas isso não é tão importante. É claro que há muitas coisas que podemos fazer de natureza material que são importantes, caso se chegue a ser capaz de as fazer, mas a maioria das coisas boas - coisas mesmo boas - são feitas pelo querer nos recônditos da alma, da intensidade do amor que se verte enquanto efeito disso - não veem os resultados, por vezes. Por vezes pensam: “Oh, de que serve?” À semelhança de muitos, pensam para si mesmos “De que serve? Não posso fazer nada.” Só que a própria intensidade de tal sentimento, da alma mais íntima, tem um efeito espantoso, um grande efeito, mais do que poderão alguma vez perceber, na vossa humanidade, assim como nos indivíduos em particular com que se preocuparem ou que considerem ou amem.
Vocês falam, por vezes, sobre as coisas estupendas que nós fazemos. Bom, nós somos grandes filósofos, é claro, mas muitas das coisas por que nos atribuem crédito, embora num certo sentido em parte sejamos responsáveis, não poderiam ser conseguidas não fora pelo amor formidável daqueles interessados, como no teu caso, dispensam, e a fé que possuem. E, por exemplo, de momento tens esta tua amiga que se encontra muito doente, que conseguiu uma recuperação miraculosa do ponto de vista material, mas é claro que, com todo o amor do mundo que possas dar mais todo o amor e toda a cura que te possa chegar da parte de fontes afastadas aqui. Só podemos agir até determinado ponto; nós fazemos tudo quanto nos é possível fazer, e diria mesmo, e creio que é verdade afirmar isto, que resulta de uma força combinada de amor e uma combinação... uma interligação de todo o nosso esforço, que tornou tudo isso possível. O que não quer necessariamente dizer que nós possamos curá-la, embora talvez prolongar. Mas o que acharmos que puder ser alcançado poderá ser alcançado pelo indivíduo envolvido, a paciente doente por exemplo, que neste caso, porventura sem que o perceba por completo o que está a ser feito deste lado. Não se pode culpar a paciente, quero dizer, isto aplicar-se-ia a muta gente e não só a esta paciente.
A questão está em que o indivíduo que tentamos assistir ou ajudar, é a ela que concedemos todo o nosso amor e todo o nosso poder, mas ela precisa retribuir, sabes. Não estou a dizer que esta paciente não retribua; acho que possivelmente ela não perceberá de todo, mas nós estamos a fazer tudo... mas conforme o Francisco te disse, se não me engano, ou talvez tenha sido o Marshall a contar-te, não estou certo, que em meio ao que poderia ter lugar, que de certo modo teve lugar, mas quando isto pode continuar, não seríamos capazes de dizer no momento. Sabes... ai, como hei-de dizer isto? Sabes, é um pouco assim, se pegares num balão e lhe bombeares o ar para dentro, o ar o fará inflar. Agora, desde que não lhe metas demasiado ar, não sucederá nada de mal, mas se bombeares demasiado ar, ele rebentará. De modo que não há muito que possamos agir até determinado ponto, e se tentarmos fazer demais tornar-se-á insensato. Mas sabes que mais, muito depende dessa força, ou seja, o indivíduo.
Penso que ela só poderá aguentar, mas ela pode lutar e aguentar a partir do seu eu interior, e possivelmente ele poderá assistir-lhe mental e fisicamente, que assim acho que ela possa ser ajudada de uma forma considerável durante um tempo, uns quantos anos no máximo, mas é uma coisa muito difícil por me parecer que a pobre mulher contraiu diversas coisas...
Rose: Pois foi, complicações...
Chopin: E isso torna-se difícil, entendes? Não sei com toda a franqueza, não sei se deveria dizer isto mas, pelo que consegui apurar, ela negligenciou-se terrivelmente, e fez muitas coisas... não direi que tenham sido coisas más, não é isso que quero dizer, mas penso que ela tenha sido uma mulher muito tola, com respeito à sua saúde. Ela não a considerou o suficiente. Em definitivo, por aquilo que me foi contado, ela soube durante muito tempo que não devia fazer tal coisa como comer, etc. Ela devia ter tido mais cuidado de modo a ajudar-se a ela própria. Mas ela simplesmente estragou tudo ao se desleixar.
Rose: Sim, é bem verdade, Frédéric.
Chopin: E isso é uma grande lástima, sabes, porque, na vida... não suponho que de um modo isto seja o mesmo, mas... se quiserem fazer algo de realmente importante, precisam fazer sacrifícios. Precisam considerar cada aspecto e pensar em tudo, é verdade, mas devem colocar tudo no respectivo lugar. Mas se fizerem algo grandioso, muito importante, a que dediquem todo o vosso tempo, toda a energia que tenham. Não há muito que possam fazer, não podem continuar, por isso ser mau.
Mas mais uma vez, tomando o meu exemplo, é claro que eu também fui um tolo, percebi a doença de que padecia e percebi a possibilidade de eventualmente vir a ser muito mau para mim, e de certo modo poder-se-á dizer que por vezes eu tentei cuidar de mim, mas era sempre de acordo com o estado do meu humor ou das circunstâncias. Caso se mostrasse possível e não houvesse nada de mais atraente que me captasse a atenção, eu olhava calmamente por ela. Mas comigo só durava um tempo muito curto. Não suportava ficar sozinho durante muito tempo e por vezes também me sentia muito confuso. Em certa medida receava-me - não era receio - a mim próprio. Tive alturas em que me sentia melancólico e afundava-me de tal modo que precisava que alguém... por vezes, quando não se encontrava ninguém por perto... quer dizer, quando o tempo estava terrível, eu forçava-me a sair, quando sabia e todos os meus sentidos apelavam a que ficasse no calor junto à fogueira, e eu saia, por precisar ver gente e por precisar ouvir as suas vozes, tinha que estar com as pessoas. Claro que nesses dias não era como hoje, em que vocês dispõem de uma máquina chamada telefone e conseguem dizer: “Olha, por amor de Deus, anda conversar comigo, estou cansado de morte,” sabes. Nesses dias tal coisa não era possível. Porventura gozávamos de muitas vantagens, em muitos aspectos, mas também enfrentávamos enormes desvantagens, de modo que por vezes me sentia desesperadamente só, e já noutras alturas em que me sentia desesperadamente só e procurava comboios. E talvez de forma insensata, conforme agora o vejo, bebíamos, e ia com alguém a qualquer parte, ou ficávamos em casa...
Rose: Ah, no seu caso foi isso. Eu sei.
Chopin: Eu sei! Mas sabes que uma coisa que valha o esforço, quero dizer, para alguns mais do que para outros, para os estritamente artistas, aqueles que vivem muito no seu íntimo, para os estritamente sensíveis, até mesmo a coisa mais terrível pode ser... têm a terrível sensação de... por vezes, não sempre, mas às vezes, quando gostava de ficar a sós... mas tinha alturas em que não conseguia suportar e era como se as paredes se estreitassem ao meu redor, e eu precisava fazer alguma coisa como se não conseguisse respirar... talvez tivesse vindo a tentar e me sentisse perdido na minha música, e de repente sobrevinha uma sensação, um pressão, e eu sentia o mutismo, a estupidez, mas não quero despender muito tempo com isso.
Rose: Eu sei...
Chopin: E precisava fazer algo por me sentir a sufocar e a perder a minha (...) Ia até à janela, abria-a para trás, inclinava-me no parapeito e tentava respirar o ar. Mas por vezes encontrava-me em tal estado mental que precisava fazer alguma coisa, e por vezes fazia uma coisa grave, percebo-o agora. Sabes que tinha alturas em que caminhava sem parar e não fazia mais nada senão observar as pessoas e pensar e por vezes não dizia palavra – dependia do estado de humor em que me encontrasse. Por vezes vagueava num pequeno barco... Não sei se tens conhecimento de alguma coisa dessas mas tive uma ocasião em que tive um pequeno amigo, um homem que tinha um barco, mas eu nunca me interessei muito pela água. Não me interpretes mal, mas eu nunca gostei do mar, mas ele era um homem interessante. Por vezes ele era muito divertido e levava-me a vaguear pelas águas até à outra margem. Isso era quanto bastava para mim, porque nunca gostei de estar demasiado tempo na água... E eu caminhava e caminhava, e às vezes ia visitar alguns amigos nessa margem. Mas sabes, eu costumava fazer esse tipo de coisa.
Certa vez lembro-me de ter caminhado até ficar cansado, e não parecia haver onde chegar, nem café nem coisa nenhuma. Pareceu-me que me perdera. Mas vi uma igreja e lá entrei e sentei-me simplesmente a ouvir a música do órgão. Sabes, nunca me interessei muito pelo órgão mas mostrei-me complacente. Mas nunca quis saber muito dele, mas por vezes pensava comigo próprio: "Talvez um dia destes componha alguma coisa." Porque havia um amigo meu que sempre me dizia que eu devia fazer um trabalho de órgão e não só de piano. Quando tinha mau gosto e costumava dizer-me que permitia um maior compasso. Eu não conseguia entende-lo porque para mim o órgão era... não sei bem, era apropriado para aquilo que era, mas para mim não dava a mesma sensação. Mas lá está, eu não me conseguia expressar-me desse modo; para mim era... não sei que termo empregarias, mas nunca teve um tom claro... Para mim nunca foi claro, por uma nota passar para outra... Eu quero contar-te...
Rose: Oh, perdoe-me Frédéric, mas é maravilhoso de ouvir...
Chopin: Certa vez fiquei muito zangado com um homem que me cortava o cabelo...
Rose: (Ri) Porquê?
Chopin: Bom, ele era um tolo. Mas, acho que foi mesmo depois que ganhei uma grande calvície  e deixava crescer o meu cabelo mais do que o habitual, e eu queria-o asseado sabes, e ele cortava-mo muito mais curto, e eu na altura estava em conversa com uns amigos, embora não me recorde exactamente daquilo que falávamos e não estava atento ao cabelo, e o homem ia cortando e dando atenção à nossa conversa e quando acabamos eu tinha o cabelo espetado; tinha desaparecido na parte de trás. Eu fiquei muito zangado com isso, por ter muito orgulho no meu cabelo.
Rose: Eu sei. Eu apreciava uma certa barba. (Ri)
Chopin. O quê?
Rose: Não era barba mas patilhas.
Chopin: Ah, referes-te a isso. Eu costumava usar barba.
Rose: Não, não era uma barba, eram patilhas.
Chopin: ...Eu usei um bigode.
Rose: Não...
Chopin: Ah, tu não tens conhecimento disso, mas era muito engraçado. Quando pela primeira vez vim ao Poulain, eu deixei crescer um pequeno bigode, só que não durou muito tempo. Eu não gostava muito de me ver com ele, sabes, de qualquer modo não me parecia bem, de modo que me livrei dele...
Rose: (Ri) Aquelas patilhas, a de um lado parecia crescer mas a do outro lado parecia não crescer.
Chopin: Não conseguia cortá-las por igual de modo que a cortava mais curta.
Rose: (Ri) O doutor Marshall contava-me que certa vez o viu, você tinha um nariz recto, e que você não suportava o nariz que tinha, e que se vestia maravilhosamente, em tons de lavanda e de cinza. Lembro-me de mo ter contado um dia. E que cortava o cabelo curto, muito curto. Seria isso verdade?
Chopin: Era, mas consigo entender a razão por dele pensar isso. Sabes, por vezes... não deves nunca pensar que, por termos... que é que chamam a isso... progredido, não sejamos assim tão humanos, porquanto possuirmos, por exemplo, o bom senso do humor e gostamos de rir, o que é óptimo e constitui uma grande dádiva. E às vezes gosto de brincadeira, e por vezes gosto de passar rasteira, quando não mesmo aos meus amigos, sabes. Por vezes gosto de pensar que gostava de envergar esta vestimenta nova, e talvez pense com os meus botões: “Oh este nariz! Quem dera que fosse direito.” (Rose ri) Mas pelo mero pensamento e desejo sou capaz de o alterar...
Rose: É capaz de o alterar, olha só!
Chopin: Mas lá está, não tem importância, entendes? Não passa de um capricho do momento. Por exemplo, se eu quisesse ter uma aparência diferente, não tem realmente nada disso de: “Porque o deveria querer usar isto ou aquilo?” Precisas lembrar-te que basicamente todas as coisas são mentais. Mas uma vez mais, claro que quando percebemos que é uma pequena vaidade, se quisermos, percebemos que não passa de uma fraqueza que não permanece necessariamente. Afinal de contas... mas lá está, e precisas ter isto em mente, que se tivermos tido muitas encarnações, obviamente que os corpos físicos dessas encarnações não eram necessariamente idênticos na aparência. E em muitos casos em diversas encarnações poderemos ter sido do sexo diferente ou podemos per passado dessa vida numa idade muito mais avançada.
Os corpos físicos podem variar a ser diferentes, mas aqui, o corpo espiritual pode ser uma reconstrução, de acordo com a forma como nos sentirmos.
Rose: Sim, sim. É estupendo, Frédéric!
Chopin: Claro que se quiseres ser aqui uma mulher gorda, podes ser uma mulher gorda. Se quiseres ser uma mulher jovem magra e elegante, poderás ser uma mulher jovem magra e elegante.
Rose: É isso que eu quero!
Chopin: Quando para aqui vieres sem dúvida que serás muito bela, tu já és muito bela, mas aquilo que não percebes – e isto é o que mais importa – as pessoas sempre dizem, em relação aos rostos e tudo isso: “Ah, eu gostava de ser alta e bela; gostava de ser capaz de usar vestidos e de ser uma criatura com um aspecto magnífico.” Mas o que as pessoas não percebem é que, se fossem assim, não seriam necessariamente tão bonitas. Por vezes arruínam-se por dizerem que são gordos... por não saberem que são muito melhor assim. Fisicamente poderá não ser o melhor, por sentirem o desconforto, mas o importante não é o formato da pessoa. Eu descobri isso muito rapidamente, por eu costumar ser uma pessoa muito vaidosa. Descobri que afinal de contas não é a aparência, quer dizer a forma física do corpo nem a elegância da costura... o que importa é o que a pessoa é em si mesma.
Rose: Isso é bem verdade, só que quando nos encontramos na Terra, as pessoas julgam-nos pela aparência.
Chopin: Ah! Mas julgam por não compreenderem.
Rose: É isso!
Chopin: Afinal existe uma grande beleza na fealdade. Mas não estou a sugerir que sejas feia! (Rose ri a bandeiras despregadas) Não me interpretes mal. Existe uma enorme beleza na fealdade, coisa que as pessoas não entendem. É por isso que por vezes na música, algumas pessoas não compreendem, não valorizam, ou talvez não percebam a música e digam: “Adorei aquela parte, era tão bela e tão suave e romântica,” e tudo mais. Mas claro que era, e tinha a intenção de o ser, só que por vezes não entendem que certas partes têm que ser dissonantes por ser importante e necessário. Precisam incluir todos os aspectos em tudo; precisam considerar os opostos, as diferenças, as nuanças; precisam ter toda a sorte de mudanças.
Rose: Mas a discórdia em certa música... se posso empregar o termo “misturam-se” no objectivo comum.
Chopin: E eu penso que deva, por achar que deva ser parte integral do todo, caso contrário será inútil e não terá propósito ou intenção. É por isso que os músicos de hoje, tentam ser inteligentes mas não têm sentimento, carecem de profundidade, de realismo, são uma coisa superficial. É do mesmo modo que no vosso mundo de hoje onde há tanta coisa que é aceite como arte, até mesmo pelas autoridades que acham que sabem. Só que muito disso é muito falso e não possui profundidade nem realidade; não passa de uma fachada falsa que tanta gente presume ser a realidade. As pessoas são aceites no trabalho com base na fachada que apresentem, mas até que realmente cheguem a conhecer profundamente a pessoa...
Rose: Suponho que as pessoas se debatam...
Chopin: Eu sei; não penses que não sinto empatia. Só que aquilo que penso é que, muitos daqueles que são aceites hoje enquanto artistas nos diversos campos, realmente debatem-se, é verdade... mas em si mesmos não se acham preparados, não possuem suficiente profundidade nas suas vidas, não viveram... não me refiro só a esta encarnação, mas em outras. Não possuem a sensibilidade, não têm a compreensão da vida de modo a serem capazes de expressá-la na arte. Todos tentam ser simples, só que de uma estranha maneira; tentam ser simples e não percebem – que é exactamente aquilo que estou a tentar transmitir. Tantos artistas dizem que precisam ser complexos...
Rose: (Falando ao mesmo tempo)...ser simples e tentam...
Chopin: Usemos por exemplo o caso que têm hoje do escultor, que cria algo a partir (35:30) muito tosco, e se o observarem pensarão convosco próprios: “Que será isto?” Mas talvez ele lhes diga, e aí pensarão que não se pareça com aquilo que ele lhes diga que deve parecer-se. Mas a questão está em que, houve uma altura em que o escultor era perfeito, tão perfeito quanto as mãos humanos o permitiam, e o que esculpia era uma reprodução perfeita, uma imagem da realidade. Mas hoje um homem tenta simplificar demais as coisas para o rebaixar a um nível simples, a um nível infantil se quisermos, mas para mim isso não chega a ser verdadeira arte, por ser indolente... (Falam ao mesmo tempo)
No meu tempo, sabes, os artistas verdadeiras vivam em constante luta; num certo sentido estavam constantemente em luta consigo próprios, não só com o mundo exterior, ou mesmo com aqueles que superficialmente se diziam nossos amigos. É verdade que felizmente tive alguns bons amigos sinceros, mas também tive muita gente que em muitos aspectos eram gentis comigo e talvez mesmo compreensivos, e suponho mesmo que de certo modo seriam meus amigos, mas por vezes, e sem que o percebessem, não eram meus amigos porque embora aceitassem as coisas, diziam certas coisas sobre o meu próprio trabalho que eu sabia intimamente não ser verdade. Eu sabia quando tinha criado algo que era realmente importante e vital, algo que era uma verdadeira contribuição para a música, algo digno de nota. Mas havia muitas coisas que eu precisava fazer, por eu saber que era necessário ter dinheiro, em consequência do que, por vezes eu compunha todo o tipo de coisa, mas nunca me satisfazia com isso por saber que a música devia conter algum germe de verdade, em certas peças de música, que devia trabalhava durante meses a fim de criar algo de verdadeiramente importante. Esse germe ou ideia por vezes não era desenvolvido, mas as pessoas diziam: "Ah, isso está perfeito, maravilhoso." Mas eu sabia que tinha feito essa coisa particular por precisar desesperadamente do dinheiro nesse momento.
Por outras palavras, tentei introduzir alguma música que nem minha era. E as pessoas diziam: Ah, quão fabuloso! Ninguém poderia ter feito isso para além de você." "Ah!" dizia eu, "por ser nisso que se engana, porque não fui eu que o fiz." Eu dizia às pessoas que não era obra minha, mas de um aluno meu, mas elas não acreditavam em mim. Mas aí diziam que o aluno era como o mestre e que ele me imitava tão bem que se tornava impossível distinguir. Isso poderá ter sido verdade, eu não sei. Mas sabes que mais, eu ria-me muitas vezes das pessoas, porque com essa gentileza, por supor que elas tentavam ser gentis, elas não eram verdadeiras com eles, e é mau as pessoas não serem verdadeiras com um artista, porque por vezes podem passar a um artista ideias falsas, quero dizer, podem passar ideias falsas em que passa a trabalhar, e em consequência destruir-lhe a verdadeira arte.
Por vezes um artista, muito embora seja muito sensível e sincero, por vezes pode ser induzido em erro. Eu percebo que desperdicei muito do meu tempo, olhando agora em retrospecto e percebo que podia ter conseguido muito mais. É claro que nem tudo se perdeu, isso é verdade, mas por vezes penso que podia ter conseguido muito mais do que consegui.
Rose: Pois é, Frédéric, foi uma grande pena; você era tão aficcionado pela ópera, mas nunca chegou a compor uma ópera, compôs?
Chopin: Ia compor; eu interessava-me muito pela ópera e ia criar, mas em determinados aspectos queria que fosse diferente do tipo de ópera a que me acostumara a ver. Por um lado, eu sentia uma enorme ansia por criar; se alguma vez viesse a compor uma ópera - quero dizer, para além da música - as pessoas precisavam ser reais; deviam ter alguma realidade na vida. Não deviam assemelhar-se aos personagens artificiais que nos meus dias possivelmente eram mais comuns. Mas claro que isso é muito difícil.
Rose: O Elsner teria o maior interesse em que o fizesse. (Józef Elsner)
Chopin: O Elsner interessava-se por que eu fizesse todo o tipo de coisas por ser Elsner. Mas era um bom amigo.
Rose: Alguma vez o terá encontrado aí?
Chopin: Ah, claro, por sermos bons amigos. Mas claro que sempre estarei grato a Elsner. Mas sabes, o Elsner... deverei dizer isto?  Não creio que o venha a perturbar; o Elsner foi um grande amigo para mim, mas ao mesmo tempo foi um grande amigo de Elsner. (Leslie e Rose riem) mas ele era sincero e valorizava...
Rose: Ele era-lhe muito afeiçoado.
Chopin: Eu sei que me era muito afeiçoado, ele ajudou-me mais do que uma vez, à excepção de que certa vez me deu o pior piano que se possa imaginar em que tive que tocar. (Riso geral) Houve certa vez uma loja, em Paris - claro que não existe mais - a que eu costumava ir muita vez a certa altura, que costumava vender... como é que lhe chamam? Doces de Fondant, de que eu era muito aficcionado. Percebes que eu era tão grande consumidor de doçuras quanto tu?
Rose: (Riso geral) Eu sei que nunca fumou...
Chopin: Não, eu costumava comer doces. Eu não me entregava ao tabaco por causa do meu peito. Mas era muito apaixonado por Fondants, e havia uma pequena loja a que habitualmente eu ia. E havia lá uma pequena mulher que era proprietária dela que era uma mulher encantadora. Ela costumava fingir que era aficcionada pela música, mas não creio que o fosse...
Rose: Era aficcionada por si!
Chopin: Bom, por vezes ela mostrava-se generosa comigo. Por vezes quando estava com pouco dinheiro ela costumava dizer-me: "Ora, não tem importância. Mais tarde. Nós somos bons amigos, você e eu." Foi há muito tempo atrás. Ela chamava-se Hortense.
Rose: Hortense!
Chopin: Não creio que... não, tu não conheces nada...
Rose: Não, não. Mas já que o Frédéric está com disposição para conversar, talvez me possa dizer quem foi a Fanny. Lembra-se de uma Fanny, que veio conversar duas ou três vezes?
Chopin: Fanny... E não foi ela que te contou, foi?
Rose: Não.
Chopin: A Fanny era uma grande amiga de um amigo, que estava sempre disponível para nós. Era uma mulher muito amável que por vezes se interessava, que tinha amigos na música e que sempre fornecia montes de comida, razão porque era muito popular.
Rose: Ah, ela disse-mo! Ela disse-me: "Devia tê-lo visto, ele comia e comia..."
Chopin: Ela era muito amável para muitos músicos que passavam dificuldades, nesse tempo, e promovia esses pequenos encontros, cuja desculpa passava sempre pela música, o que nem perto da verdade chegava. Mas ela dava-nos tanto de comer e de beber, sabes, por saber que os artistas - e não eram só os músicos, mas todo o género de artistas – que geralmente viviam com fome e com grandes necessidades, e ela era muito generosa. Não era um carinho de pessoa nem nada disso, era simplesmente... Na realidade cheguei a ser-lhe introduzido por um amigo meu que era músico na ópera, fazia parte da orquestra.
Rose: O Amaury era amigo dela, não?
Chopin. O Amaury, é verdade, mas lá está... Torna-se-te muito difícil... estás a entender? As pessoas no meu tempo, embora não reinasse uma frieza estrita, como vocês dizem, havia uma separação entre as classes. Havia certas pessoas que eram capazes de ultrapassar a barreira; a Fanny era uma pessoa assim, a Fanny era uma mulher muito rica, e nesses dias o dinheiro falava mais alto, o que possivelmente ainda acontece nos dias de hoje. E ela era aceite, sabes, por o marido ter sido oficial e gozava de uns antecedentes. Mas ela, Fanny, não era nenhuma dama; isso era o que a questão tinha de divertido. Uma coisa que a Fanny tinha de engraçado era fingir que era uma dama, só que ela não enganava ninguém. Mas ela era doce por ser Fanny. Ela falou contigo?
Rose: Falou. Ela apareceu umas duas ou três vezes, e nós discutimos acerca de chapéus...
Chopin: Ah, ela discutira acerca de todo tipo de coisas e não só de chapéus. Ela discutia acerca dos homens, ela altercava sobre todo tipo de coisa. Ela tinha um pássaro, ela disse-te? (Rose: Pássaro? Não, não.) Ela tinha uma ave muito rude e que repetia todo tipo de coisa. E a Fanny, sabes, nem sempre percebia que repetias coisas conforme nós fazemos, sabes, sem pensar, e o pássaro imitava-a. E por vezes, quando íamos a casa dela, o pássaro lá dizia alguma coisa, o que nos deixava surpreendidos, por ser sempre algo que a Fanny tinha dito, acerca de alguém. Era muito divertido e todos o víamos como piada e dizíamos: “Vamos ver o que o pássaro dirá esta noite!” Ela era muito engraçada. Ela teve esse pássaro durante muitos anos. Ela tinha uma bela casa, que foi belamente retractada, mas conforme dizia, ela cultivava a sociedade, e certos membros da sociedade iam a casa dela, mas em determinados segmentos da sociedade não era aceite. Ela era uma mulher muito doce e amável, muito boa para os artistas.,
Rose: Ela foi muito amável em vir conversar comigo, e fê-lo duas ou três vezes.
Chopin: Ela não te contou acerca da Nanine?
Rose: Quem? Nanina?
Chopin: Nanine! Não, provavelmente não te terá contado.
Rose: Não. Quem era ela?
Chopin: Nanine foi uma criada que ela teve durante muitos anos; ela era tão amável com todos. Ah (...) o que aconteceu, o que nós fizemos, do que por vezes claro que riamos, mas ela era sempre tão amável e compreensiva. Por vezes quando ela sabia que os artistas tinham discutido, ela deliberadamente convidava-os, de forma que ela tentasse apaziguá-los.
Rose: Você tinha-me contado que teve uma discussão terrível, a determinada altura...
Chopin: Sabes, isso é verdade, mas... por vezes as discussões levam-nos a vicejar, durante um tempo, porque quando amamos muito alguém e admiramos muito a pessoa, por vezes não o conseguimos evitar por o revelarmos abertamente possivelmente mais do que o devíamos, e por vezes essa franqueza deixa alguém um tanto aborrecido, e a pessoa fica perturbada e chateada e talvez se revele infantil e ficar uma pilha e deixar de falar connosco. Mas a Fanny frequentemente juntava-nos. Ela era muito boa e reunia muita gente. Sabes, acho que lhe devo muito. Mas depois, ao examinar de novo a última encarnação que tive, eu devo muito a diversas mulheres. De facto, acho que não poderia ter existido... mas claro que não poderia ter existido não fora pelas mulheres que foram boas para mim, mas as mulheres sempre foram boas para mim.
Rose: Elas ainda o são.
Chopin: Elas foram-no sempre, mas por vezes eram más.
Rose: Ah, como as mulheres que mandavam... (Falam ao mesmo tempo) Espere lá, você era apenas um homem que concedia atenção e que olhava pelas... delicadas.
Chopin: Ah, eu sei. Eu tive disso até ao fim.
Rose: Onde estava essa Nanine quando faleceu? Não estava por perto, estava?
Chopin: Não. Não estava... não era possível. Tão pouco a Fanny.
Rose: A Fanny não estava consigo...
Chopin: Muita gente tinha morrido e muita gente tinha partido e muita gente tinha perdido o contacto que tinha comigo. A Europa era um sítio diferente, e era mais difícil lá chegar. Hoje não há nada... Em duas ou três horas vocês podem pôr-se em qualquer parte. Mas nesses tempos levava-nos diversos dias de carruagem...
Rose: Vocês costumavam chamar-lhe... Que é que lhe costumavam chamar?
Chopin: Chamar o quê?
Rose: Às viagens que costumava fazer. Esqueci como lhes chamavam, o nome especial que vocês davam às viagens que faziam de coche, etc... Deixe lá, não importa.
Chopin: Era algum nome engraçado, ou uma piada?
Rose. Não, não era piada nenhuma. Era o nome por que tais viagens eram chamadas. Não tem importância. Não se lembra. Fale apenas daquilo que recordar.
Chopin: Sabes por vezes gosto muito quando consigo vir e ser eu próprio...
Rose: É adorável, Frédéric.
Chopin: Também me divirto muito com isso, por pensar nas coisas conforme elas por vezes nos chegam ao conversar contigo, que esqueci, essas pequenas coisas que (talvez de algum modo ainda tenham mas...) mas que não têm mais influência na minha vida actual. Na altura eram coisas importantes e muitas vezes coisas muito felizes. E sempre me sentirei grato... mas embora pareçamos esquecer as coisas (e de certo modo esquecemo-las obviamente, porque ao progredirmos esquecemo-las) mas no íntimo da nossa alma temos sempre consciência de todos os momentos e do bem e do amor que recebemos das pessoas. É como se isso se tenha tornado... eu não sei... isso carrega-nos em frente, somos levados nas asas do amor. Decerto que nenhum de nós pode conseguir nada ou tornar-se o que quer que seja a menos que seja pelos esforços de outros e dos seus pensamentos – nem sempre pelas coisas materiais, mas pelos pensamentos e pelo amor que as pessoas nos dão
Sabes, eu fui afortunado. Por vezes poderão, ao lerem acerca da minha vida, conforme fizeram tanta vez, pensar que eu tenha sido o homem mais infeliz. Em muitos aspectos fui muito feliz por ter feito as amizades e por ter tido os companheiros que tive. É verdade que tive os meus desgostos e que tive desilusões, mas isso é humano, e é a vida. Mas eu estou agradecido pelo pouco que tive ocasionalmente, e em muitos aspectos tive muito. A minha saúde constituiu o meu maior problema. Suponho que se a minha saúde tivesse sido mais forte, talvez a minha vida se tivesse estendido mais e eu tivesse conseguido muito mais. Mas depois, talvez tenha sido melhor assim. Quem, sabe? Tudo quanto sei é que estou grato por tudo quanto experimentei em cada encarnação, não só nessa mas em todas. E por toda a gente que fez parte da minha vida, de todas as vidas, e por tudo quanto contribuíram para mim e eu para eles.
Acho que de certo modo o número de anos não tenha importância. As pessoas sempre dizem: “Ah, quem dera que fosse jovem de novo,” ou “Tenho receio de envelhecer. As pessoas fazem todo o tipo de coisas,” dizem, mas na realidade o que importa não é a idade que se tem nem o número de anos que possamos viver, mas o que somos no nosso íntimo, o que tivermos alcançado – não por nós próprios mas pelo bem dos outros. O amor que tivermos dado, isso é que importa. Não é com o tempo que isso venha a ter importância, mas com a qualidade, o empenho. Não sei colocar muito bem, mas sinto-o muito forte.
Tu e eu, por exemplo. Tu não conheces isto em pleno, porque se não compreenderes não acreditarás. Tu és uma tola, não consigo evitar dize-lo, mas sabes, tu e eu estivemos muitas vezes estreitamente interligados. Mas quando aqui vens, conforme já te foi dito, compreendes o que possivelmente podes compreender. Nós estamos unidos por vários laços de amor que resistiram a todo tipo de gosto e a todo tipo de tensão, e consequentemente nós possivelmente alcançamos mais do que aquilo que eu próprio suponho - que não sabes. O que importa é que estamos juntos. Tu não sabes como, talvez não o consigas perceber. Não podes nem compreender o milagre que envolve - por num sentido ser um milagre. Suponho que não o compreenderás adequadamente por causa disso. Mas a questão há algo que sempre sentiste e que sempre soubeste no mais recôndito da tua alma que deve ser... Tu talvez não o aceites mas é verdade. Esta unidade que partilhamos, este laço que é tão forte que nada pode quebrar... Eu estou a tentar explicar isto, mas não é somente por se dever a esta encarnação mas por se dever a muitas outras anteriores.
Quando nos reunirmos aqui será no sentido perfeito, e não haverá nada do tipo de infelicidade nem descrição alguma por ninguém sofrer por minha causa, entendes? No vosso mundo, muita vez quando parece haver uma união perfeita, nem sempre será porventura tão perfeito quanto parece. Certamente que muitas vezes a felicidade de uns é granjeada às custas de outros, mas aqui isso não acontece. Aqui reina a completa felicidade por haver completa compreensão, completo conhecimento, completa realização, e por não sermos egoístas nem possessivos. Nós damos de boa vontade e aceitamos de boa vontade. Não existe vergonha nem desonra nenhuma na aceitação. No vosso mundo por vezes as pessoas fazem uma ideia errada da aceitação, por vezes as pessoas não têm vontade de gostar de aceitar, e não me refiro somente ao amor, porque em diversos sentidos acharem que seja menos digno ou errado. Na realidade deviam perceber que é tão bom aceitar quanto é dar. E em tantos aspectos aqui percebemos que o amor apropriado, a união apropriada, a realização apropriada sucede quando as pessoas conseguirem ser completamente livres em si mesmas, nesse dádiva e nessa aceitação. Aqui reina uma harmonia perfeita e completa por se verificar uma combinação tão natural em si mesma que nada a pode afectar por ser um amor perfeito. Isso é tudo quanto tem importância e é algo que tu e eu partilhamos com um número incalculável de pessoas. E eventualmente tu alcançarás a perfeita compreensão disso.
Rose: Porque é que lhe chamam "único"? Quando o Valentino veio, mas o Liszt também e mesmo o doutor Marshall. Todos eles disseram que é deveras singular.
Chopin: Eu creio que eles referem que seja único na medida em que, embora isso suceda com outras pessoas, leva muito tempo... Aqui existem muitos estágios de evolução e muitos estágios de desenvolvimento entendes? Porventura serão somente uns quantos - de que possamos ter conhecimento, evidentemente - que o tenham alcançado. Mas o que estou a tentar dizer que há milhares e milhares de pessoas no estado de evolução que estão a acercar-se e a trabalhar para esse objectivo. Mas elas poderão conhecer muito poucos que o tenham alcançado. O que não quer dizer que não haja milhões que o tenham atingido, para além do seu conhecimento, entendes? Lá está, isto é algo que te poderá parecer um pouco confuso, mas ao mesmo tempo não devia ser confuso, porque afinal nós, que podemos viver numa certa esfera da evolução, podemos não ter conhecimento de certos indivíduos ou de gente que possa ter alcançado um estágio mais elevado de existência. Sabemos que existem, mas não os conhecemos necessariamente; não sabemos qual o seu estado de existência, por nós próprios não termos alcançado esse estado de perfeição. E assim é que evidentemente as pessoas que chegam (...) e dizem: "Sabe, fulano ou beltrano, é deveras único!" Mas poderá ser único para elas por não saberem como o terá alcançado, mas não altera o facto de milhões de outras pessoas... Provavelmente terá consciência de que não o terá alcançado, mas do ponto de vista de não te encontrado o parceiro certo. Pensaria encontrá-lo na ilusão terrena, mas mais uma vez, poderá ser que não seja uma alma assim tão antiga. Penso que terá alcançado muito ao passar pelas diversas fases da evolução
CHOPIN FALA SOBRE A VIDA (SEGUNDA PARTE) 
Chopin: ...Na vida é muito difícil. Eu compreendo muito mais do que aquilo e sinto empatia. Nós nem sempre sabemos valorizar ou perceber, por vezes, quando as coisas nos são dadas, como diversas pessoas fazem grandes sacrifícios para nos fazer felizes. Devíamos esforçar-nos por apreciar - porventura fazemo-lo, mas nem sempre o valorizamos, talvez, ou algo assim, conforme o devíamos...
Rose: Talvez as pessoas por vezes pensem que valorizar seja coisa que para elas seja impossível.
Chopin: Não, talvez seja o tipo de humildade que por vezes precisemos respeitar. Mas ao mesmo tempo precisamos perceber que dentro de nós se encontra algo tremendo, algo tão grande, tão absolutamente maravilhoso, que se tivermos fé e trabalharmos - e isto importa perceber, a fé em si mesma não é alcançável, mas com fé e percepção desse poder que temos dentro de nós podemos subir às alturas e alcançar as coisas que importam. Nada é impossível quando percebem o potencial inerente à vossa alma individualidade, porque essa parte de nós que é indestrutível, que é divina, possui um tremendo poder que é de tal modo vital e poderosa que nos dá a oportunidade de exercermos e de mostrarmos a nós próprios... Não, não existe coisa alguma como "não pode alcançar," ou "não consegue fazer," assim que o perceberem. Mas é verdade, precisamos ser felizes, mas humildes no sentido correcto, e não no errado.
As pessoas que não alcançam êxito, qualquer que possa ser aquilo que querem fazer, deve-se ao facto de não terem Deus. Podem ter fé suficiente mas não têm Deus de forma suficientemente forte para desejar trabalhar suficientemente duro para o tornar possível; nada vem com facilidade, e tudo quanto vale a pena ter é árduo e muita vez uma luta, em consequência do que por vezes destruímo-nos mesmo a nós próprios com um tipo de processo desses de conquista, mas existe uma coisa chamada satisfação. Quando percebemos que criamos e que trouxemos à existência algo que era maravilhoso e que vale a pena, algo que venha do nosso coração, das profundezas da nossa alma até que se torne algo belo. Mesmo que a vossa saúde seja arruinada para além da cura, mesmo que não alcancemos a idade madura, conforme o mundo o entende, ou jamais cheguemos sempre como que ao auge, pelo menos terão alcançado um certo nível de sucesso que terão atingido para vossa satisfação, bem fundo no vosso íntimo, independentemente do que esse sucesso seja. Mas o sucesso virá a ser alcançado por o terem tornado possível, por terem lutado por ele, por o terem desejado, por terem feito tudo quanto estava ao vosso alcance por isso, para que se torne numa verdadeira realidade. E então sucede uma tal alegria e uma tal realidade e satisfação... Quando para aqui vieres verás de um modo mais claro aquilo que quero dizer. Aqueles que alcançaram a grandeza, não acharam fácil o quanto sofreram pelo caminho.
Rose: Pois. Obrigado por este discurso...
Chopin: Mas é verdade que nós nem sempre pensamos que o êxito, conforme provavelmente saberás, seja sinónimo de felicidade, ao passo que a realização da conquista, esse esplendor interior, se quisermos, do sucesso, (muita vez no sentido material) comporta uma grande felicidade e amargura - talvez não amargura, mas uma sensação de... não de fracasso porventura, mas de desilusão. O maior dos artistas que se sinta satisfeito consigo próprio e com os outros mentirá. Nós combatemos os defeitos em nós próprios e vemos as fraquezas nos outros, e eles vêm para o nosso mundo e para a nossa música, mas ao mesmo tempo serão porventura essas mesmas coisas que compõem a grandeza, caso exista coisa alguma como "perfeição." Mas não o compreendemos, por vezes, por causa das fraquezas, em nós e nos outros. Por podermos "pintar o retracto da verdade," como Shakespeare disse: "Porque teria o espelho que mentir? Será isso verdade?" Eu sempre tentei trazer à minha música vida, gente, amigos - existem múltiplas descrições de gente que trouxe à música e de locais que visitei, de facto acham-se aninhados em mim. Quando me sentia profundamente infeliz e triste, era quando por vezes alcançava os meus maiores trabalhos.
Não devemos recear a escuridão ou as sombras; devemos enfrentá-las e ser fortes e perceber que são o nosso desafio. Se o fizermos, de tudo isso resultará o nosso maior trabalho, a nossa maior conquista. Se não tiver sido com alegria e felicidade e contentamento, então não teremos alcançado muito. Muita da música que possui muito brilho, muita pura e alegria (...) muito pura e muito agradável, mas não possui alma nem lhes dá nada de satisfatório mas momentâneo. É somente na música que se acha repleta da tristeza da vida, e as sombras negras, as rainhas, são profundas na sua realização e ajudam... Eu sei disso porque muitas vezes quando me sentia mais triste o descobria não só na minha própria música mas na música dos meus amigos e de outros, uma grande fonte de força. Por saber que não sofria sozinho mas junto com o mundo, todo o mundo sofre de um jeito ou de outro, e alguns parecem sofrer mais do que outros.
Mas nesta associação, nesta realização de que somos todos UM, estamos todos juntos na alegria e no sofrimento, De algum modo isso muda tudo. E percebemos que a música é universal e representa a humanidade, com toda a grandeza, beleza e energia, toda a felicidade e tristeza e fraquezas e provações e tribulações. Todas essas coisas são a vida, e na minha música penso que tentei expressar essas coisas. Mas foi quando me senti mais infeliz e triste que os meus maiores trabalhos foram conseguidos. Não me arrependo absolutamente nada pelas infelicidades que tive na vida, nem pela doença nem pelas desilusões e desapontamentos que tive em relação a mim próprio e aos meus amigos, por perceber que foi isso que me fez, assim como te fará a ti e a outros. Não devíamos recear essas coisas, mas aceitá-las como um desafio e saber que são boas para nós. É como os remédios que o doutor prescreve que não sabem bem mas que fazem bem; por vezes não, mas muita vez auxiliam.
Por outras palavras, nós somos todos pacientes, todos estamos doentes, todos somos fracos. Todos necessitamos de forças, mas precisamos lembrar que a força provém dessa fonte, dessa fonte divina. Em nós reside uma grandeza por ser alimentada por Deus, e por Deus nos dar este vigor estupendo que jamais nos deixará ficar mal, se tivermos fé n'Ele e na Sua vontade e no Seu poder e na Sua bondade e no amor que tem por nós. Nada se perde.
Um dia virás para cá e saltarás de alegria e não caberás em ti de excitação e animação por tudo quanto vires e por aqueles que conheceres, a música a que assistires, será como ser transformado num mundo que se tornou numa realidade estupenda. Mas aceita o teu mundo, aceita a tua vida, aceita os teus amigos, aceita tudo quanto conheces e percebe que por trás de todas as coisas e em toda a gente existe esta centelha do divino, e que existe desapontamento, e desilusão e fraqueza. Não obstante, essas coisas existem em ti tanto quanto neles. Embora ninguém seja perfeito nós viremos a ti na perfeição, com perfeição de traços, todos nós. Mas gradualmente aperfeiçoar-nos-emos através do amor e na transmissão do amor, pela compreensão do amor, como que pela vivência da palavra, do amor e na manifestação do amor em todos os nossos pensamentos e acções, em todos os nossos modos. Estas coisas levar-nos-ão para mais perto e tornar-nos-ão mais Deus. Estas coisas são o nosso direito de nascença, as nossas dádivas naturais, a nossa herança natural. Tentei fazer todas essas coisas de forma insignificante porventura, na minha música e na minha vida, por frequentemente ter falhado. Mas nos fracassos da minha vida descobri o meu verdadeiro ser, e tu e outros também o descobrirão.
E se a minha música sobreviver, como sobrevive, indefinidamente, ela ajudará de algum modo a mostrar ao mundo que, aquilo que eu senti durante o meu tempo de vida, que pode ter sido há centenas de anos atrás, existe na mesma, e que tem sido procurado desde o começo dos tempos. O homem precisa encontrar o seu próprio Eu e ser forte e ter fé, e saber que consegue superar, e que na realidade pode tornar-se verdadeiramente num filho digno do divino, pelos próprios esforços e pelos sacrifícios que deve fazer, que com esse sacrifício se poderá esperar chegar a alcançar. Um grande músico só conseguirá tornar-se num grandioso músico se ele sentir intensamente a tristeza da alma dos outros tanto quanto da sua, e depositar tudo quanto possui de si mesmo e dos outros na sua música, e estiver preparado para trabalhar, dia e noite, e para se esforçar e lutar pela perfeição, ciente de que nunca alcançará essa perfeição, mas que atingirá algo que passe pela perfeição, pelo menos por um tempo. Porque ao nos tornarmos mais conhecedores, mais desenvolvidos, mais compreensivos, percebemos que aquilo que tivermos achado grandioso antes não era realmente tão grandioso, por termos alcançado uma grandeza maior, ou seja por estarmos sempre à procura, sempre a descobrir, sempre a encontrar grandeza em várias formas. E aquele que disser que conhece todas as coisas, ou que tenha descoberto isto ou aquilo, ou uma realização insuperável, não passa de um tolo, por compormos um pouco mais e descobrirmos um pouco mais, sabermos um pouco mais e por sermos um pouco mais. Tu conseguiste progredir e virás a conseguir um progresso muito maior. E eventualmente encontrarás a felicidade que tiveres aprendido no devido tempo. Sê paciente contigo própria; sê paciente com a tua música, sê paciente com os teus amigos, e busca somente aquilo que for bom em cada um e serás muito mais feliz. Não que sejas infeliz mas, eu sei que tu (...) por um coração; por vezes 
(Fim da gravação)
CHOPIN fala sobre o que torna a pessoa completa 
Rose: Frederick, estou para aqui sentada completamente impaciente.
Chopin: Tu estás sempre impaciente; esse é o teu maior problema. (Riso) Porque deverás estar impaciente?
Rose: Ah, bom, por causa de certas coisas que disse da última vez, que desencadearam isto em mim.
Chopin: Torna-se muito difícil explicar, por precisarmos recuar e recuar no tempo e ressuscitar todas as memórias que em certa medida se estão a tornar ofuscadas, mas o problema do homem, as questões do homem posso contar; mas muita coisa se perdeu.
Rose: Pois, mas do que quer que tenha sido retido, conte-nos.
Chopin: Torna-se muito difícil fazer com que as pessoas percebam o que torna uma pessoa completa. São tantas as pessoas no vosso mundo que não compreendem os aspectos essenciais que tornam a pessoa completa. Há tantos aspectos, como o carácter, a individualidade, a personalidade, que todos os aspectos se tornam importantes em relação ao todo. A completa unidade é algo que só pode ser alcançado depois dos aspectos essenciais da experiência em muitas vidas, em muitos corpos... o corpo é unicamente como que uma concha, conforme sabes, é somente o veículo que sente e está habituado a expressar. Aquele que pensa que uma só vida é suficiente para conhecer e desenvolver a personalidade e para desenvolver a integridade, é tolo. Há tanta gente que pensa que a vida toda de um homem se ache circunscrita ao período de vida que vai do berço à sepultura... Isso não passa de um aspecto, uma única parte desse integridade.
Rose: Quando a pessoa se achar completa e viver aí por completo, que personalidade adoptará, já que viveu tantas vezes na Terra e teve tantas?
Chopin: Eu tentei explicar-te que o corpo físico é de pouca importância; creio que é necessário para se expressarem enquanto seres humanos que são, enquanto se encontram na terra, mas constituiu apenas o aspecto externo e não a realidade; é apenas a concha, e isso aqui não tem qualquer importância, por a carne e o osso aqui não poderem existir mas apenas o espírito. E o revestimento exterior desse espírito pode assumir muitas formas. Enquanto no vosso mundo só podem assumir uma forma, ou seja a forma que lhes tiverem dado à nascença, forma essa que se desenvolve e cresce, tal como a Rose Creet que conheces enquanto Rose Creet fisicamente, o espírito não é tanto... digamos, inibido, retido no seu desenvolvimento. Aqui podemos assumir muitas formas de acordo com o capricho, embora ao se desenvolverem para mais alto, para além das coisas materiais e do pensamento condicionado... por outras palavras, o corpo ou cobertura tem muito pouca importância. Podemos tornar-nos completos e invisíveis. Por outras palavras, não precisamos de uma forma externa; na forma mais elevada do desenvolvimento não é necessário ter a concha ou a cobertura, mas podemos sempre assumir... Por exemplo, eu invariavelmente assumo a aparência exterior física do Chopin, conforme vocês me conheceram, mas se eu quiser, quer dizer, se concentrar os pensamentos suficientemente posso regressar a vós, não como o Chopin em absoluto, mas como um dos Eus que assumi anteriormente.
Rose: Estou a entender (...) quanto à forma do teclado. Ora, porque terá isso aparecido dessa maneira...? Que será suposto que isso signifique?
Chopin: Bom, não se acha completo; é um processo mental que adoptamos. Por exemplo, nós temos leis... sim, nós temos método, adaptamos mais ou menos, e podemos utilizar completamente certas leis a fim de criarmos. Afinal de contas a vida é criativa. Aqui aprendemos a criar. Por outras palavras, por exemplo, se quiser desenvolver uma imagem de modo que me consigam ver, posso mentalmente utilizar o meu poder ou aquilo a que chamariam de concentração, com recurso à utilização da condição atómica ou poder da vibração, de que vocês de momento não têm conhecimento mas que os cerca a toda a volta... Por outras palavras, posso desenvolver não só uma forma - que até agora não consegui ser bem-sucedido nas tentativas que tenho feito por a edificar mas...
Por exemplo, não temos que aproveitar-nos apenas do corpo humano, por podermos fazê-lo a partir da natureza, que constitui um grande recurso de abastecimento em todos os tipos de manifestação. Por exemplo, quando usam um compartimento como este de forma indefinida e por longos períodos, para experiências especiais, a sala achava-se impregnada de uma força tremenda, que podemos utilizar, e que se torna essencial à reprodução da voz, por exemplo. Mas mais tarde espero edificar a cobertura externa física do corpo de modo a que possam ver uma semelhança. Por vezes não resultará, talvez devamos dizer completa, e só veem uns contornos indefinidos ou uma ideia indistinta daquilo que tentamos construir, tal como na fotografia.
Somos, por exemplo, capazes de, a partir do ambiente... Por exemplo, peguemos no caso desta sala. Até agora não obtiveram qualquer resultado bem-sucedido com a fotografia. Mas lá na minha cela existe um poder tremendo. Essa é a razão porque não quero que vás a Maiorca, por ter sido usada durante muitos séculos para fins de devoção, por parte de homens de boa crença cuja aspiração e pensamento no seu todo se encontravam no auge, para ser subsequentemente usado por diversas pessoas desde então, mas que deixaram para trás uma força espantosa, que, devido à elevada altitude, a natureza goza de uma condição de clareza e consegue-se retirar uma grande força dos arredores, para além da beleza real do mosteiro (NT: Possivelmente trata-se do mosteiro de LLuc, em Maiorca, Espanha) assim como da música, que eu compus como o meu melhor trabalho, que se deve em parte, não só ao meu estado de espírito emotivo da altura, como também tirando proveito da força psíquica que é muito forte e poderosa.
Foi isso que me tornou possível, a curto prazo, o experimento com a praia. Da próxima vez que fores (desta vez) espero que consigas alguma coisa em termos de fotografia, além de outras coisas que tenho em mente, espero bem, mas quando a da praia foi tirada não foi numa forma completa, mas seja como for mostra a quantidade da cor que foi gerada em particular na zona do umbigo, e que pode ser utilizada em certas alturas em especial para construir... Infelizmente desde a última vez que lá foste, a atmosfera tem sido muita vez perturbada por muita gente estranha, naquela cabana... e esse é o grande problema.
Quando sugeri que lá fosses na Primavera, pensei para comigo que talvez fosses perturbada por menos gente, mas precisamos de o conseguir pelo melhor que pudermos e o facto é que eu ter-te arranjado maneira de ires é algo que... normalmente ter-te-ia sido impossível ir lá este ano, a menos que o fizéssemos da forma que fizemos. Mas seja como for, vamos ter - espero bem - oportunidade assim que as pessoas saírem, e desaparecerem, sabes.
Eu tenho planos, coisas estranhas como querer que tentes, no jardim... não sei como encontrar palavras... as pessoas, no máximo... para além de um certo número de pessoas, é claro, com que suponho devemos contar, são muito materialistas, mas a vasta maioria é simples e assemelha-se bastante a crianças naturais, sabes. E existe lá uma grande força da parte de espíritos elementais... Não sei como colocar isto. Sabes, algumas pessoas no vosso mundo acham que isso seja tudo uma tolice, mas precisamos ter em mente que o criador, ou que na criação, existem muitas formas de vida. Se existe vida conforme a conhecemos, nos mais diversos aspectos da natureza, tal como (...) nas flores, nas árvores, na formação rochosa, se existir vida conforme a concebemos em toda a natureza, existe toda a razão para acreditar que exista o que eu sei ser um pequeno reino formado por de gente pequenina que é pouco desenvolvida mas que são almas da natureza e que fazem parte do plano da natureza - eu sei que certas pessoas não compreenderão isto - mas no meu pequeno jardim existem espíritos desses, muito pequenos, suponho que lhes chamarão espíritos, mas não são travessos nem perigosos. São aquilo a que chamam de reino das fadas. A minha música atraiu-os há muito tempo atrás, mas... isto poderá parecer-te uma tolice.
Rose: Não, não, não é tolice, é maravilhoso. Eu vejo fadas desde que...
Chopin: Não sei se as terás visto, mas elas exercem um grande poder na natureza. Sabes, elas trabalham sob instrução, e podem ser usadas por almas deste lado, para fazer determinado trabalho, mas... creio que tudo isto te pareça uma rematada tolice...
Rose: Não, Frédérique, não me parece tolice de todo.
Rose: Quando sobes aos montes, que é que sentes quando chegas ao mais (...) penso eu; se não o sentires isso deixar-me-ia surpreendido, por ser uma parte do mundo que é muito abençoada e infelizmente está a ficar estragada, e torna-se difícil dizer por quanto tempo ela reterá essa naturalidade e esse poder. Mas eu quero... ah, tanta coisa... mas eu quero fixar esse local. Foi por isso que te disse no ano passado para lá ires este ano. Eu quero que vás breve, rápido, e não daqui a vários anos, porque agora que está a tornar-se tão popular o poder poderá diminuir, estás a entender?
Leslie Flint
Transcrito e traduzido por Amadeu António









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