quarta-feira, 29 de março de 2017

ESTUDOS JUNGUIANOS



SOBRE A INDIVIDUAÇÃO

Individuação é conceito geral da psicologia analítica com o qual se entende genericamente o devir da personalidade, e em particular o processo da transformação contínua de uma individualidade que vem psiquicamente a constituir-se em referência a uma substância comum ou colectiva.


O termo foi tirado da filosofia em que foi usado para indicar a constituição da individualidade a partir de uma substância comum, motivo pelo qual a individuação atribui um caracter privilegiado à substância, que existiria de algum modo antes e para além dos próprios indivíduos. Na verdade, o termo surgiu para responder a um pergunta que soa mais ou menos assim: “O que torna uma substância comum esta substância específica?”

Antes que tal questão fosse superada e o problema originário fosse fundamentalmente negado, três foram as respostas fundamentais: a) a individualidade depende da matéria das coisas; b) a individualidade depende da forma; c) a individualidade depende da matéria, da forma e da sua composição.

A primeira solução para a qual o princípio da individuação é a matéria, foi dada pelo filósofo que viveu por volta do ano 1000 que, com o nome de Avicena ficou conhecido no Ocidente latino por ter conseguido coordenar os princípios médicos de Hipócrates e Galeno com as teorias biológicas de Aristóteles.

Para são Tomás o princípio da individuação é representado pela matéria comum quando ela é marcada, isto é, considerada, como ele diz, “sob determinadas dimensões,” isto é, o homem é este homem enquanto unido a um corpo que o determina no espaço e no tempo. Considerando a vontade como substância comum a todos os homens, a mesma resposta dará na era moderna Schopenhauer.

A segunda solução para a qual a individualidade depende não apenas da matéria das coisas mas também (e sobretudo) da sua forma, foi adoptada por Boaventura, o expoente máximo da escola filosófica franciscana. Este, considerando a forma como a essência que restringe e define a matéria a determinado ser, propunha que o princípio da individuação fosse buscado na comunicação que deve subsistir entre forma e matéria, razão pela qual na expressão “o indivíduo é este algo,” o “este” remete à matéria e o “algo” à forma.

A terceira solução é a do filósofo e teólogo inglês Duns Scoto, o qual afirma que entre indivíduos da mesma espécie intercorrem ligações que se exprimem na sua natureza comum composta de matéria e forma, justamente a partir das quais é possível chegar à singularidade (e, portanto, a esse “algo”) mas através de um incremento de tipo formal que ele denominou “essidade” ou “estidade.” Tal realidade última, ou seja, a que ele chama propriamente de “entidade positiva,” representa justamente a determinação, última e positiva tanto da matéria quanto da forma, quanto, finalmente da composição destas. Nesta perspectiva o indivíduo resulta portanto, caracterizado pela complexidade e pela riqueza das suas determinações e não tanto da sua simplicidade.

Jung utiliza esse termo exactamente para problematizar o antigo pressuposto de que a constituição da individualidade seja dada a partir dos elementos comuns. Destes ele não aceita uma prioridade ontológica da substância comum e fundamental, e busca para eles uma solução de tipo epistemológico. Em todo o caso, ele considera a natureza psíquica individual e a comum ou colectiva numa relação de mútua inclusão e de recíproca remitência, e para designar tudo isso utiliza a expressão “processo de individuação,” entendido como a articulação de dois subprocessos complementares que são chamados diferenciação e integração.

O primeiro subprocesso indica, em geral,  tanto a distinção de uma parte psíquica em relação a uma outra e a um todo (com o qual, por assim dizer, estavam inconscientemente identificados), quanto o desenvolvimento da parte, ou melhor, a ulterior diferenciação das diferenças que tinham sido obtidas no próprio acto distintivo. De um modo igualmente geral, o segundo subprocesso designa ao invés a conexão das partes psíquicas entre si e a sua conexão com um todo não sintético (isto é, com um todo que , por assim dizer,  relembre ou esteja consciente de ser constituído de partes diferentes que, em certo sentido, permitiram a sua composição).

Em particular o termo “diferenciação” remete ao problema psicológico fundamental da constituição do outro diferente de si próprio e da determinação qualitativa da alteridade* (Conceito que parte do pressuposto básico de que todo homem interage e interdepende do outro. Os antropólogos e cientistas sociais afirmam que a existência do eu individual só é permitida mediante um contacto com o outro, que redunda na premissa de que eu só existo a partir do outro, o que assenta numa redundância que procede da lógica, mas que não cumpre aqui esmiuçar).

O termo “integração” remete ao invés, a outro problema psicológico fundamental, que é o da relação entre dois elementos que, mesmo na sua interacção, permanecem essencialmente distintos. Além disso, uma vez que entre os dois subprocessos subsiste uma relação de complementaridade, o processo de individuação conduz ao problema da relação entre a “parte e o “todo,” e fundamentalmente trata parte e todo como se estivessem numa relação de mútua inclusão e de recíproca remitência, isto é, a diferenciação remete à integração e vice-versa, e isso porque duas “coisas” podem diferir entre si à medida que é possível que elas próprias se refiram a uma terceira que, transcendendo-as, contemporaneamente as associa e integra. Dessa forma, todo acto de determinação da alteridade tem sentido em referência a um acto simultâneo de determinação da identidade, isto é, diz-se que A é outro e, portanto, diferente de B enquanto foi determinado que têm em comum C, que é o outro algo ainda pelo qual podem também diferir.

Para além do caracter substancial, convencional e empírico de tais determinações complementares de identidade e de diferença, a individuação, por meio da diferenciação, representa a passagem do plano psíquico (e, portanto, não apenas do plano intelectual) à diferença de uma parte  singular tanto em relação a outra parte como em relação ao todo igualmente. E isso sucede quando uma parte tenha podido tomar literalmente “visão” da identidade inconsciente ou confusão em que se encontrava com a outra parte e com o todo, quando porém ela tenha igualmente podido tomar visão do seu isolamento inconsciente. Portanto, a diferenciação individuativa indica a passagem à independência e à autonomia da parte, quando se torna possível a referência representativa do estado originário de indiferenciação psíquica e à sua consequente ineficaz dependência e heteronomia** (Conceito básico relacionado com o Estado de Direito, em que todos se devem submeter à vontade da lei. Foi criado por Kant para denominar a sujeição do indivíduo à vontade de terceiros, ou à colectividade, e se opõe ao conceito de autonomia, onde o ente possui arbítrio e pode expressar sua vontade livremente) em relação a outro diferente de si próprio e ao todo.

A integração individuativa indica, ao invés, uma passagem à dependência e à heteronomia da parte, quando se tornar possível a referência, neste caso, ao estado originário de oposição e de conflito e, portanto, de ineficaz independência e autonomia em relação ao outro diferente de si próprio e ao todo.

Através da doutrina da individuação são fundamentalmente atribuídas à sique as seguintes características:

1) a característica da possibilidade no plano dos significados, que se entrelaça com a necessidade no plano biológico;
2) a característica da excepcionalidade no plano normativo, que deve ser mantido distinto do plano do elitismo;
3) a característica da individualidade e da colectividade, e não tanto do individualismo e do colectivismo;
4) a característica da criatividade, que é ao mesmo tempo evolutiva e involutiva (ou então constructiva e destructiva), e por isso diferente das características puramente evolutiva ou progressiva que for a veiculada pelas correntes evolucionistas. Além disso, a noção oscila entre a característica natural e a artificial.

A individuação tem a característica da excepcionalidade e não do elitismo, no sentido de que diz respeito a cada homem e não tanto apenas a alguns. Na concepção de Jung o processo de individuação assume mais precisamente a característica de lei excepcional, porque a lei psicológica concerne de vez em quando a pessoa única que é sua depositária e portadora. A este respeito é atribuído `à individuação o significado de lei ou caminho privilegiado, isto é, a individuação deve ser entendida como lei inderrogável, mas enquanto este assim chamado “destino” se refere ao encontro privado particular com a própria singularidade, deve também ser entendido como lei específica do indivíduo (excepcional no sentido de particular). Apesar disso, se a individuação assume a curvatura do privilégio, este não deve ser entendido no sentido corrente de tarefa aristocrática e elitista originário de lei que se refere a cada um e, portanto, diz respeito a todos enquanto indivíduos singulares.

Com a doutrina da individuação Jung critica o postulado da coincidência, de uma vez por todas, dos interesses do indivíduo com os interesses comuns ou colectivos e, portanto, propõe ao homem o problema de que a cada vez seja encontrada uma coincidência substancial dos seus interesses enquanto indivíduo com os de membro pertencente à comunidade social. Em relação a isso, Jung interpreta o individualismo como o resultado historicamente possível e uma reacção à originária e inconsciente identidade colectiva (de massa) ou universal (interna ou externa) e a um não-reconhecimento das determinações universais que constituem a natureza comum: “A individuação (…) significa precisamente e realização melhor e mais completa das qualidades colectivas do ser humano; é a consideração adequada e não o esquecimento determinante de um melhor rendimento social. A singularidade de um indivíduo não deve ser compreendida como estranheza de sua substância ou de suas componentes, mas sim como combinação única, ou como diferenciação gradual de funções e faculdades que em si e por si mesmas são universais.”

A individuação, com os seus subprocessos e as características das quais antes se falou, Jung a observa fundamentalmente a partir de dois níveis:

1) ao nível subjectivo (interior ou intrapsíquico) e, portanto, considerada em relação aos elementos, às funções e às estruturas da psique que chegam a diferenciar-se a ponto do Eu e da consciência poderem operar o fastidioso encontro – fastidioso mas indispensável para a integração do inconsciente – com as componentes inconscientes da personalidade
2) ao nível objectivo ou intersubjectivo (relacional ou interpsíquico) e, portanto, é considerada a diferenciação da individualidade em relação a um estado de identidade com o outro, e a consequente integração ou interacção entre indivíduo e indivíduo e entre indivíduo e grupo.

Em ambos os níveis, fala-se portanto de individuação como distinção e integração, e em particular se faz referência à diferenciação-integração, respectivamente entre Eu e Si-mesmo e entre Eu e o mundo. De outro ponto de vista, os dois níveis de individuação correspondem à diferenciação e ao desenvolvimento do lado espiritual e do moral.
Mas, uma vez que entre esses dois níveis e as duas diferentes acepções subsiste uma relação de contemporaneidade, e uma vez que a sua distinção resulta ser o produto da perspectiva com que são observados (Jung escreveu que um não pode subsistir sem o outro, embora seja um, ora o outro desses aspectos que prevalece)

A individuação observa-se ainda num outro nível:

3) ao nível sujeito-objecto, isto é, ao nível do que resulta ser o confim entre o primeiro e o segundo nível do qual se falou. Sobre este plano, a individuação chega a ser representada por um limiar que, de um lado, é intermédio entre o Si-mesmo e o mundo, e por outro, é aquele “algo” mediante o qual os dois objectos chegam a se constituir como separados e unidos ao mesmo tempo. mas, uma vez que não é considerada uma entidade metafísica e metapsicológica e, portanto, jamais e de nenhum modo, externa ao próprio processo  individuativo,

4) ao nível prospectivo, em que a individuação é mais o próprio olhar com que toda vez nós olhamos nós mesmos e o mundo, e assim fazendo os constituímos como elementos cognitivos e afectivos e, portanto, psiquicamente significativos.

(continua)


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