sexta-feira, 31 de março de 2017

VOZES XX



o doutor marshall faz a apologia de stephen ward
Dr. Marshall: (Dirigindo-se a Rose Creet) Esta noite também queria adiantar algo... por aqui este meu amigo Stephen ansiar muito por isso.... Por acaso ele até se encontra muito calmo e muito (...) com relação a isso. De certo modo não fico surpreendido que ele se tenha saído tão bem, por se ter adaptado às águas. Creio que em parte isso se deva ao facto de ele ainda se encontrar (num certo sentido) mentalmente próximo à terra, o que dadas as circunstâncias, creio que seja compreensível. Naturalmente que acho, pelo que me tem sido dado colher, que ele sente que devia ter continuado a lutar; penso que ele sente que preferiria jogar nas suas mãos; creio que isso ainda o preocupa um pouco...
Claro que na minha opinião não há razão para se preocupar indevidamente acerca desse aspecto que, num certo sentido, suponho naturalmente se alterará, ele mudará a percepção que tem das coisas. Penso que ele acha que devia ter permanecido no vosso lado e lutado como com efeito lutou tão bem e enfrentado aquilo, com base na possibilidade de virem a dar-se repercussões e uma recorrência... Na realidade eu penso que não teria parado, de facto estou certo de que todo esse negócio ter-se-ia prolongado, em seu benefício na verdade. Penso que teria ido preso, que era o que sem dúvida lhe teria sucedido... Ele teria visto a sentença alterada, por achar que teria metido um recurso, e a sentença teria sido muito reduzida.
Acho que ele percebe agora que eu acho que ele sentiu, e com o tipo de pessoa que ele era, altamente desenvolto e muito sensível, sinto que ele tenha sentido que tinha todo o peso contra si, por (...) tal como se mostrava, estar a ser muito alimentada contra ele, e todos os amigos, que ele achava que eram amigos, o terem abandonado. Acho que ele foi um homem que afundou a própria embarcação e ninguém lhe deu uma mão quando as águas se mostraram tão tempestuosas que achou que não teria nada porque prosseguir. Creio, com toda a franqueza, que ele foi conduzido ao suicídio por toda aquela situação que foi criada, em parte pelos seus amigos. Toda a situação se tornou tal que ele achou que não conseguia enfrentar mais toda aquela situação. E acho que possivelmente ele terá sentido em si mesmo que poderiam ter sido feitas certas declarações, e que ele poderia ter feito que e que outros poderiam ter feito que praticamente poderiam tê-lo desimpedido e indicar que certamente teria alterado o veredicto. E eu penso que ele recearia, por afinal ele ser um ser humano... recearia que ele próprio poderia ter dito certas coisas de que se poderia arrepender. Ele era um homem, por mais estranho que possa parecer... estou certo de que ele era um homem de integridade, um homem dotado de fraquezas, num certo sentido, sem dúvida, mas... ele manteve a boca calada quando poderia ter falado, para proteger aqueles mesmos (alguns deles) que foram a causa dele se ver em toda a situação em que se viu. Toda aquela situação, todo aquele negócio lhe pesou de tal modo na ideia, durante os últimos dias, que acho que ele terá sentido que não conseguia mais enfrentá-las.
É claro que basicamente não havia nada, quer se goste de admitir ou não, e mesmo agora ele não diz nada. Eu não sei, penso que se ele chegar a falar contigo com franqueza não acho que ele te conte nada que possa incriminar quem quer que seja... Se ele não disse isso no teu lado, estou absolutamente certo de que não o dirá deste, terás que aceitar isso. Estou certo de não ter dúvidas quanto ao facto, de que todo aquele julgamento teve basicamente um carácter político, e que fizeram dele um bode expiatório. Creio que ele percebeu isso, que ele percebeu muito bem durante todo o julgamento que tudo pesava contra ele e que ele não tinha hipótese alguma. Mas não resta dúvida de que algumas dessas moças mentiram deliberadamente, e gostaríamos de dizer que muita foi a pressão que foi posta nelas, porquanto na realidade uma delas, pelo que pude apurar, foi-lhes imposta uma pressão considerável para que dissessem certas coisas que obviamente não estavam em jogo... O que não quer dizer que tenha sido culpa das moças.
Não as estou a desculpar, mas (...) diz-me que, por detrás disso estava algo muito mais sinistro, que foi o sistema. Precisam enfrentar o facto de que não podem ir contra o sistema sem que o sistema, com todo o seu poder e a sua posição lhes enfie o calcanhar na cara. Penso que o Ward disse que foi vítima do sistema, e creio que todo o julgamento foi, pelo que consigo apurar, uma desgraça. Creio que já to disse antes, não quero que o Ward... mas gerar-se-á um tremendo volume de discussão, e virá a ser publicada muita coisa em artigos de jornal, que certamente nada farão em defesa da justiça, tudo quanto decerto não ajudou este país. As outras nações em certa medida, não viram mais ou menos nada de sinistro nem nada de particular invulgar no facto de alguém ter tido ou mantido um caso com uma prostituta. Qualquer outra nação tê-lo-ia silenciado e isso teria sido o fim da coisa, mas parece que neste pós-guerra isso serviu bode expiatório. Teriam ficado livres, e claro, saído de mansinho muito silenciosamente...
Rose Creet: Penso no que sucederá no caso do suicídio, doutor...
Marshall: Não sei porque te deverás preocupar com isso, Rose, eu penso que terás compreendido o suficiente sobre isso para saberes que mesmo nos piores casos de suicídio, ou seja, nos casos de suicídio em que a pessoa esteja plenamente consciente, quero dizer, no sentido correcto, para cometer tal coisa e adoptar uma saída dessas, mesmo nos piores casos de suicídio não existe (num certo sentido) qualquer condenação deste lado, não existe realmente nenhuma condenação. Mas aquilo que estou evidentemente a tentar dizer... mas talvez não acreditem muito bem nisto, é que em caso de guerra, acho que ele sente - e isto foi o que (...) sentiu – que ao passarem do vosso mundo para este, não se livram dos problemas. Por outras palavras veem-se sobrecarregados pelos problemas.
Rose: Doutor, não poderão ajudá-los de algum modo?
Marshall: Sim, creio que sim e estou certo de que o fazemos, ou seja, se ele vier, ocasionalmente, que eu sei que ele quer vir, e que virá conversar convosco esta noite, mas não... não lhes quero passar a impressão errada, mas estou certo de não seres do tipo de pessoa que o deprecie. Não me interpretes mal, refiro-me a um certo tipo de sentimento... mas o que quero dizer é que muitos destes círculos espirituais onde o suicídio é suscitado, ou uma alma qualquer vítima de suicídio é trazida necessitada de auxílio, os presentes (assistentes) tendem a menosprezar, como se estivessem a admoestar um garoto travesso. Com efeito não é bem isso, mas penso que o que quero é que entendas que este homem, Ward, tem orgulho – não se trata do tipo errado de orgulho. Creio que ele tenha sido um homem que, bom, foi um personagem extraordinário. De facto quanto mais começo a conhecê-lo mais começo a gostar dele. Eu preocupar-me-ia, evidentemente, por toda a gente necessitar de auxílio, mas aprendi a gostar de tal modo dele e realmente quero ajudá-lo quanto puder... Sinto que o podemos ajudar, mas não devemos nunca tornar isso demasiado óbvio.
Rose: Ah, não.
Marshall: A coisa passa pela maior naturalidade possível e debater o que quer que seja suscitado da forma mais natural. Se eu fosse a ti não lhe fazia nenhuma pergunta pertinente. Se ele quiser debater algum tema abertamente (...) Na realidade ele está a começar a assentar extremamente bem, mas creio que se sinta um pouco preocupado, do ponto de vista material, com respeito a certos escritos e a certas coisas que deixou para trás, por pensar que ele queira que isso seja publicado, e existe uma certa tensão com relação à publicação dessas coisas. Elas serão obviamente publicadas, mas o que eu quero dizer é, certas coisas pessoais por que ele está ansioso por publicar, e... não sei se deva dizer isto... quero dizer, para mim torna-se difícil, mas creio que ele sente que certas coisas que ele deliberadamente deixou para trás, para publicação, venha a ser suprimido, e que certas pessoas que envolve tenham motivos pessoais. Mas quer isso venha a ser suprimido nesta nação eu não penso que de algum modo venha a ser suprimido noutro, de modo que o provável é que venha a vazar.
Rose: Bom, eu acredito que as suas memórias, ou isso, venham a ser publicadas em França, numa outra altura, mas não em Inglaterra.
Marshall: Vai surgir muita discussão com respeito a este julgamento. Creio que venha surgir muita argumentação...
Rose: Espero que sim...
Marshall: E penso que todo o arraial que envolveu o Ward e as circunstâncias passem. Uma vez mais, irá suscitar muita controvérsia e muita discussão, mas creio que isso venha a fazer muito bem, porque decerto o quadro foi mais pintado de negro do que o que foi.
Ward: Boa noite, Sra. Creet.
Rose: Boa noite:
Ward: Foi óptimo ter podido vir.
Rose: Ah, fico satisfeita por ter voltado. O doutor Marshall esteve a falar bastante sobre si...
Ward: Acredito que sim.
Rose: Está muito melhor, não?
Ward: Oh, eu estou bem. Estou muito melhor do que da última vez que falei contigo... Encontro-me perfeitamente bem agora, e estou plenamente inteirado quanto a toda a situação, e muito mais capacitado a ver tudo por diferentes ângulos. Eu não era livre e talvez, não amargurado, mas com pena de mim próprio. Mas agora estou bem e espero que, à medida que me habituar a toda esta coisa seja capaz de conversar contigo sobre diversas coisas. Mas há certas coisas que não penso seja prudente discutirmos. Não que me faça diferença a mim falar nisso mas não desejo criar mais infelicidade aos outros...
Rose: Mas, se houver alguma coisa que possamos fazer por si que...
Ward: Obviamente nenhum de vocês poderá fazer nada por mim, tanto quanto posso apurá-lo, penso que não, entendes? Como iriam possivelmente consegui-lo, excepto pela oportunidade de vires e de conversares, por o achar muito agradável, por um lado. Acho que é óptimo ter uma amiga com quem falar e... bom, também há algo de que queria falar, e possivelmente corrigir uma ou duas coisas do que tem sido dito, que é bastante errado, e possivelmente... quem sabe, em algum momento posterior talvez me seja possível discutir certos aspectos dessas coisas que as pessoas do teu lado estiverem preparadas para ouvir... Não que traga qualquer benefício, mas por ser assaz prazenteiro, por haver certas pessoas que gostaria de eventualmente contactar, embora de momento isso esteja fora de questão.
Rose: (...) e verei o que pode ser feito.
Ward: Decerto que não desejo incriminar... (O contacto perde-se)
Rose: Está aí, doutor Ward? (Pausa)
Ward: Peço desculpa, perdi a ligação. Isto é muito difícil. Dizia eu que não tenho desejo de incriminar quem quer que seja. Mas a coisa extraordinário está em que eu não fiz absolutamente nada que incriminasse quem quer que fosse. Na realidade toda a incriminação foi feita pelas pessoas; eu não a procurei nem fiz nada que pudesse incriminar alguém. A coisa está em que todo este negócio me foi forçado. Eu procurei evitar a questão para bem de todos e na verdade não me preocupei comigo próprio como alguns poderão ter pensado. Preocupava-me muito mais com aqueles cujos nomes foram incomodados; quero dizer, as pessoas foram mesmo... eu tentei protegê-los no começo, mas no final elas deixaram-me ficar mal.
Rose: (Ininteligível)
Ward: Aposto que agora o farão. Gostaria que percebesses isso. Que não o farei. Não quero que ninguém sofra. Mas sinto que se certas pessoas tivessem falado em meu nome poderiam facilmente ter traçado um quadro completamente diferente, e isso teria criado um aspecto inteiramente diferente da coisa toda, só que essa gente, sabes, só pensava o tempo todo em si mesma e deliberadamente mantiveram fora do processo. De facto alguns... bom, não direi tanto, mas alguns deles foram forçados a manter-se de fora. Foi um negócio sujo, receio bem. O engraçado é que fiz tão pouco de real e fundamentalmente errado; cometi algumas tolices, claro que sim, não o contesto, mas ao mesmo tempo, não creio que tenha feito nada de terrivelmente errado.
Rose (Inaudível)
Ward: Isso acontece e é desafortunado na medida em que... eu gostava de estar na ribalta, gostava de estar com as pessoas que importavam. Agora vejo a tolice que isso era e paguei pelo erro que cometi nesse aspecto, asseguro-te.
Rose: (...) contou, mas afinal de contas vocês era artista e escritor.
Ward: Isso é bem verdade, deixa que to diga...
Rose: Eu penso que sim. E músico, ocasionalmente.
Ward: Sim, mais ou menos. Não propriamente, mas era aficcionado da música. E com toda a franqueza, isso dava-me muito mais prazer. Talvez olhando agora em retrospecto eu perceba que obtinha mais prazer das minhas capacidades artísticas do que qualquer outra coisa. Mas eu era susceptível a biscates com mulheres; não era nada de invulgar, afinal simplesmente aconteceu. Certas dessas raparigas... bom, misturaram-se com certa gente que eu introduzi. Quero dizer... com toda a franqueza, não tive qualquer proveito com aquilo. Eu só tinha um bom relacionamento.
Rose: Pois, estava a tentar ajudá-las...
Ward: Eu tentei ajudar tanto! Deus meu, eu consegui-o, eu fiz mais por uma ou outra delas do que mais alguém terá feito. Mas ainda não tenho vontade de o discutir.
Rose: Não, meu caro, não o discuta (...)
Ward: O doutor Marshall fez-me sorrir mesmo agora.
Rose: Porquê?
Ward: Por ter dito que querias uma fotografia minha.
Rose: (Ri) como diabo é que ele sabia disso?
Ward: Não sei. Ele disse-mo há instantes antes de interromper. Ele disse-me que tu querias uma fotografia minha. Para que quererias tu uma foto minha?
Rose: Ah, não sei. Eu admiro-o de uma forma espantosa.
Ward: Porquê, se eu fui uma pessoa vulgar, a sério. A parte engraçada é que se analisarmos todo esta tolice toda, eu fui uma pessoa extremamente comum, e o que mais me fascina é que nunca fiz nada nesse mesmo sentido. De facto parte das coisas de que fui acusado eu nem sequer sabia nada sobre elas e certamente não as cometi. O facto de os meus amigos homens terem tido interesse por certas raparigas que eu conhecia, o que fizeram em parte não teve que ver comigo, depois de tudo o que foi dito e feito... Porque me haveria de chatear? Eu não sou responsável. Mas eu fiz tudo quanto podia por aquilo tudo.
Rose: Pobre homem. Não tem importância (...) agora, não está?
Ward: Sim, claro que sim...
Rose (...) o trabalho que consegue fazer do seu lado, quando se habituar às vibrações e tudo o mais...
Ward: É estupendo, entendes...
Rose: E é bem verdade...
Ward: Pois, quando o descobrir faço-te saber. (Riso geral)
Rose: Eu queria uma foto sua para pôr...
Ward: Não me digas que vais vender a minha fotografia nas lojas. Onde a vais arranjar?
Rose: Não sei. Uma amiga minha conhece um Americano que a trouxe de Nova Iorque ou algo assim.
Ward: Meu Deus! (Rose: O quê?) Nada! Parece-me muito estranho. (Rose ri) Que ele tenha uma fotografia minha, por supor que os jornais Americanos...
Rose: (...) veja o quão espiritual se tornou.
Ward: Talvez não o consiga suportar por ela...
Rose: (Inaudível)
Ward: ...verei o que posso fazer por isso. (Rose: Maravilha!) Afinal foi o que o doutor Marshall fez. Ele é um bom companheiro, não? (Rose: Ah, ele é uma alma adorável.) Devo dizer que é muito amável, e que lhe agradeço imenso. (Rose: Ele é uma alma adorável e fez tanto por mim) Mas sabes, realmente é demasiado (...) para palavras. Com a reputação que tenho! Certas pessoas dizem ser muito arriscado entrar em contacto comigo. (Riso geral)
Rose: Ele aprecia-o muito, o doutor Marshall.
Ward: E eu aprecio-o igualmente; ele é muito amável...
Rose: Sabe que ele me foi de uma enorme ajuda, doutor. Olha só, dois médicos juntos.
Ward: Pois é. É um bocado à moda antiga mas é muito agradável. (Riso geral)
Rose: Li algo num outro jornal acerca de (...) e mais alguns que nos fizeram um chá. Foi muito interessante.
Ward: Serve de muito andar a falar das minhas boas obras agora que me encontro morto! (Riso geral) É um desperdício, não achas?
Rose: Não fale em estar morto por se encontrar muito vivo neste instante...
Ward: Mas tecnicamente encontro-me morto.
Rose: Olhe o que foi capaz de fazer, desde o seu lado.
Ward: Não paras de dizer o que eu fiz desde este lado, mas num certo sentido preferia ter passado mais uns anos no vosso, se tivesse podido gozar de paz e sossego para me divertir. Quero dizer, se não me foi permitido que me divertisse, por Deus, que se me for permitido divertir-me aqui espero consegui-lo. (Riso geral) Já que sou imoral (...) de qualquer modo.
Rose: De qualquer modo possui um grande sentido de humor.
Ward: É muito necessário, muito necessário. Sabes quão extravagante e estúpido te parecerá, aceitar uma boa chávena de café.
Rose: Aah! Eu li acerca disso!
Ward: Não sei por que haveria, pois com toda a franqueza, suponho que seja um espírito desencarnado, sem tripas onde meter o café. Mas o fantasma de que estou a falar vem cá abaixo ao que vocês chamam de nível material. Mas é engraçado.
Rose Um dos seus amigos falou muito bem de si nos jornais e disse (...) todo o dia e toda a noite.
Ward: O que tudo isso me trás à lembrança é que tudo quanto posso ter, suponho, é um tipo de percepção disso. Eu sei que isto soa estúpido, mas eu tinha tomado café aqui. Mas agora que vim conversar contigo já não sei se o tomei ou se terei imaginado que o tomei. Deve ter sido na minha imaginação. De qualquer modo falaremos de coisas mais importantes mais tarde, preciso ir-me agora.
Rose: Adeus.

DOUGLAS conacher FALA SOBRE O PECADO DA IGREJA
Douglas: ...Não te incomodes, querida, não te incomodes. Possivelmente não conheço algumas das almas que venham por se situarem num passado remoto em associação contigo e comigo. (NT: Alusão que faz à conversa que Eira estava a ter com Mickey, o controlo do médium) De modo que, das almas que vêm, o único companheiro que de modo quase ocasional, poder-se-ia dizer, que tu conheceste... Há uma coisa extraordinária, como as pessoas deste lado, que num certo sentido não têm qualquer pretensão ou ligação com gente particular que possa ter interesse pelo assunto, tem a oportunidade de surgir, na esperança de que qualquer mensagem (ou mensagens) possam ser passadas a amigos ou familiares seus... Entende, existe realmente tão pouca gente que se sinta suficientemente interessada por se dedicar seriamente ao assunto e investigá-lo; há todo o tipo de gente que é atraída com a ideia e a esperança de obter um tipo qualquer de mensagem da parte de uma alma ou outra, pessoa essa, ou pessoas, que não se interessarão em empreender qualquer tentativa de comunicar, estás a entender?
Eira: Sim, entendo a questão.
Douglas: De qualquer modo, embora haja montes de gente... de facto por vezes, se pudesses ver tudo ao redor, em ocasiões como esta há centenas de pessoas, a maioria das quais de facto não tem qualquer ligação mas que tem interesse e sente ansia em relação à possibilidade de poderem ter uma oportunidade de poderem obter uma chance algures numa data futura de conseguir mensagens dos seus entes queridos. Sentem interesse por tanto quererem dar aos seus as boas notícias de que estão conscientes e felizes e de que não há necessidade de se afligirem e transtornarem com eles.
Não creio que as pessoas do vosso lado percebam o quão cruel é, num certo sentido, que cerrem a porta... assim que o funeral termina, embora frequentemente pensem nos seus amados, mas pela parte que lhes toca, é tudo. Por eles os terem abandonado fisicamente,  não tem qualquer significado que os acusem e julguem, com a possibilidade de porventura os reencontrarem um belo dia, quando eles próprios passarem, caso existe um pós-vida.
Num certo sentido, será possivelmente por isso que eu mudei de uma forma tremenda a perspectiva que tinha sobre a Igreja, por na minha maneira de pensar, o maior pecado da Igreja está no facto de cerrar a porta, não só àqueles que pertencem à própria Igreja mas a quase todo o mundo, no que concerne a vida depois da morte. Eles não acreditam na vida após a morte e de um dia entrarem em contacto com os seus entes amados, e acham que seja errado comunicar - de facto eles erguem todas as barreiras... a própria base da crença religiosa consiste no facto da vida depois da morte, mas quando chegamos a algo de concreto e de sólido e  de real com respeito a isso, eles não fazem absolutamente nada, de facto fazem tudo quanto podem para impedir as pessoas de investigar e de procurar descobrir.
É tão irritante - eu não costumo ficar furioso - mas preciso admitir que alterei por completo toda a atitude e perspectiva que tinha em relação à Igreja e à sua doutrina.
Eira: Pois, eu compreendo-te muito bem; creio que muita gente...
Douglas: Se tu não fosses uma pessoa inteligente e dotada de ideias próprias, jamais terias feito qualquer tentativa de comunicar comigo...
Eira: Eu encontrei o livro de Arthur Findlay, sabes, há muitos anos atrás, e isso representou o começo da minha busca.
Douglas: Creio que foi depois disso, mas creio que se pertencesses à Igreja Cristã Ortodoxa e estivesses ligada a ela por anos de educação, jamais gozarias desta oportunidade.
Eira: Exactamente, querido.
Douglas: É por isso que culpo a Igreja, por negar a verdade, por se afirmar como uma barreira relativamente à verdade, apesar dos formidáveis ensinamentos do Cristo e de outras almas grandiosas. Ela cerra a porta e diz às pessoas que é errado investigar e dá toda a espécie de desculpas fundamentalmente para deter o próprio poder que exerce e detém. Não me posso furtar a pensar agora com mais clareza do que alguma vez o fiz na terra, em tantos incidentes e tantas experiências que tive com a Igreja, com membros da Igreja. Percebo agora mais e mais como se meteram no caminho do progresso.
Eira: É claro que existe a Associação de Igrejas de Pesquisas Psíquicas, querido...
Douglas: Esses estão a dar a volta...
Eira: Ah, sim, são muitos, e muitos (...) em Londres, despertaram para este facto...
Douglas: Quando me recordo nos anos da minha mocidade, quando penso de volta nos dias em que vivi neste mesmo distrito, não muito longe daqui, e percebo quantas pessoas foram oprimidas, no reinado da Vitória e na era de Eduardo, por exemplo, real e fundamentalmente oprimidas pela Igreja, mas as pessoas não o percebem. A verdade é que há não muito tempo os garotos trepavam às chaminés e (...) Na realidade podemos prosseguir sem parar, as igrejas vêm a suprimir isso há séculos. Agora as pessoas procuram romper as correntes e tomar um certo folgo...
Eira: Pois, é uma maneira adorável de colocar a coisa, querido...
Douglas: É verdade; têm vindo a respirar o mesmo ar fétido há séculos, pelo que agora têm necessidade de inalar algum ar fresco nos pulmões e começar a respirar com liberdade (Eira ri) existências mais sensatas e salutares.
Eira: Bem, querido, quando tiveres acabado de falar (...) não penso fazer-te nenhuma pergunta (...) Deixo-o inteiramente a teu cargo.
Douglas: Não me passa pela cabeça nem por um instante... (Eira interrompe)
Eira: Ah, não, és muito amável. Eu perturbo-te...
Douglas: A única coisa está em que... a questão toda está em que eu entrei numa linha de raciocínio e, se subitamente surgires com perguntas isso rompê-la-á...
Eira: Eu compreendo-te bem.
Douglas: Não basta, acredita-me, tentar superá-lo; tenho tanto a superar que quero transmitir com clareza tudo, que um pequeno congestionamento que não precisa passar necessariamente pelas perguntas que me faças porque qualquer nota de interferência que venha mesmo do nosso lado, de uma tentação de entre milhares de pessoas que sejam atraídas a um local como este, que por vezes se encontram próximo à terra, e possivelmente mais aptos a estabelecer contacto ou a impingir-se de alguma forma, pode romper o laço...
Eira: Pois, tu referiste certa vez que até o pequeno cachorro te incomodava, há muito tempo.
Douglas: Os animais, é claro... as pessoas não o percebem, é claro, mas os animais são muito, muito psíquicos. Muito mais psíquicos com efeito do que os seres humanos porque, ao não possuírem o poder de falar, eles possuem este sentido de conhecimento instintivo e intuitivo aquilo que estiver a ser dito ou o que estiver a ocorrer. E vêm numa faixa de vibração muito mais elevada. Eles visualizam e vêm coisas que nenhum ser humano consegue ver...
Eira: Pois, eu percebo isso.
Douglas. Os cavalos são coisas muito psíquicas...
Eira: Ai são?
Douglas: Não, querida, quando eu cavalgava não conseguia evitar... suponho que num certo sentido não devia, mas nós sabemos do passado, mas eu aprendi com tantos incidentes e tantas coisas que ocorreram na minha própria vida, talvez por altura... mas estou certo de que na altura não o compreendia bem, não o associava o psiquismo dos cães, mas percebo agora que eu o era em mim próprio (psíquico) sem que o percebesse.
Eira: Pois. Consigo imaginá-lo, e depois o elevado nível de ancestralidade poderá ter fomentado isso.
Douglas: Lembro-me de uma vez, oh, foi há tantos anos, numa noite, um rapaz do campo numa carruagem puxada por um cavalo, subitamente o cavalo estancou e não avançava (...) e o cavalo ergueu-se e fez um barulho terrível, e o rapaz saltou para cima para ver se conseguia continuar. Algumas semanas mais tarde nesse mesmo local uma beldade qualquer tinha sido morta. Estou certo de que o cavalo pressentiu e viu uma aparição.
Eira: Sim. Isso passou-se na Escócia? Interessante.
Douglas: Passou. Eu era muito novo. Lembro-me de que nesses dias eu costumava usar carroça puxada por pónei e por cavalos, para o meu pai e para a família. Quando penso de volta nesses dias o meu pai conta-me coisas interessantes que nos dias dele eram do conhecimento comum. Sabes, não resta dúvida de que quanto mais estivermos ligados à natureza, mais vivermos nos campos e arredores, a menos que estejamos associados à vida sofisticada, mais sensíveis se tornam para com estas coisas.
Eira: Ah, pois, sem dúvida.
Douglas: Creio que os médiuns se sairiam muito melhor se fosse prático viverem no campo rodeados de árvores e pássaros; toda a atmosfera do campo é mais condutiva a este tipo de coisa da vida inteira. Na realidade acho espantoso que os médiuns obtenham os resultados que obtêm sob as condições em que precisam situá-los actualmente.
Sabes, por vezes estou muito calmo e tranquilo e muito perto de ti. De facto, se pegasses em papel e lápis estou certo de que conseguiria escrever pela tua própria mão.
Eira: Pois, já tentei isso muitas vezes mas, mas penso que seja melhor conseguir este pequeno...
Douglas: Estou de acordo contigo em que seja melhor por possivelmente ser muito mais convincente para ti r por ir mais directo à questão, por ser mais pessoal e por ser mais definido. Suponho que seja por isso que por vezes penso escrever-te uma carta.
Eira: Ah, seria interessante, querido. Eu lembro-me disso...
Douglas: A questão está em que poderias tocá-lo e dizer: “...maquinações que certas pessoas fazem...”
Eira: Isso teria lugar na tua própria escrita?
Douglas: ...a propósito agrada-me a fotografia que mandaste copiar. Ficou muito bem.
Eira: Pois...
Douglas: Quando respondes “pois”...
Eira: Bom eu estava a pensar a qual te referirás, se à que foi alargada a partir da pequena do instantâneo ou se te referes à que está inclinada contra...
Douglas: Refiro-me à pequena que obtiveste do instantâneo. Na altura pensavas que gostarias dela num formato maior mas duvidavas que saísse tão bem...
Eira: Ah, saiu muito bem, saiu sim. Será essa que preferes como a tua fotografia, para o álbum? Só para que caso...
Douglas: Não é necessariamente uma por que tenha preferência, por poder não... mas como ficou bem suponho que deve figurar no álbum. Não, deixo isso inteiramente a teu cargo, porque num certo sentido não tem tanta importância.
Eira: Não, penso que possivelmente mandarei fazer um retracto psíquico mais tarde...
Douglas: Um retracto psíquico...
Eira: Sim. Por um desses artistas, Frank Leha... O outro indivíduo era muito bom. Ele desenvolveu vários esboços... como é que se chamava, McDonald...? Não... Esqueci. Vamos tentar o Frank Leah, sim?
Douglas: Se for a tempo. Uh?
Eira: Oh, porquê, querido?
Douglas: ...parece-me a mim que ele já morreu.
Eira: Não.
Douglas: Infelizmente sucedeu muito de súbito, aliás é estranho que menciones o nome desse homem por eu ter ouvido alguém outro dia ("outro dia") quando estive com alguém que o conhece muito bem, que me disse que pensava que não permaneceria no teu lado muito mais tempo. Da facto especificou que a qualquer hora o provável é que viesse a sofrer um ataque de convulsões de qualquer ordem, pelo que (...) assim que tenhas oportunidade de o obteres através dele.
Eira: Ah, não. Ele é um homem maravilhoso...
Douglas: (...) Por vezes agrada-me, penso que seja muito bom vir e conversar contigo sobre assuntos que poderás achar serem do interesse comum, mas às vezes é agradável conversar naturalmente sobre as coisas, além de achar que seja natural (...) as outras pessoas e a perceber o quão natural tudo isso é de qualquer modo.
Eira: Sim, não estás de todo imerso nas belezas da tua própria região.
Douglas: Não, sinto-me muito feliz e muito calmo por aqui estar, deus meu (...) pelo vosso pequeno mundo e interesso-me pelas coisas que acontecem ao teu redor e contigo. (...) Mas por vezes desejaria que arranjasses outro sítio melhor para viveres.
Eira: Ah, pois. Tu disseste que irias encontrar alguém...
Douglas: Bom, eu espero que sim, mais tarde, por não pensar que as escadas sejam muito altas (Eira dá uma risada) Não estou muito satisfeito em que tenhas que viver de modo tão apertado lá onde estás a habitar.
Eira: Pois é, na verdade ainda não tinha pensado dessa maneira.
Douglas: Quero dizer, eu não quero que faças aquilo que não quiseres fazer, mas parece-me a mim... não quero usar o termo "empobrecido," mas parece-me demasiado restrito...
Eira: Ah, sim, sim. Bom, espero que me arranjem a passar para Londres...
Douglas: (Fala ao mesmo tempo)
Eira: Não!
Douglas: Porque é que vives dessa maneira?
Eira: Bom, estou a viver com amigos com quem costumavas estar, e...
Douglas: E eu agradeço isso, mas...
Eira: Não consigo fazer o Escocês-Americano interessar-se por estas coisas, o sr. Wallace, querido. Ele não se revela antagónico mas eu queria que ele viesse ouvir as tuas gravações, mas creio que ele não vem.
Douglas: Porque é que pensas isso? Achas que seja preconceituoso?
Eira: De facto acho que seria demasiado bom para ser verdade.
Douglas: Ele não está interessado. Agora, tu evitas responder-me acerca do apartamento, não?
Eira: Sim, porquê?
Douglas: Não sei...
Eira: A questão está em que estou preparada para me mudar, entendes...
Douglas: A questão está em saber: És feliz lá?
Eira: Ah, sou, mas eu estou a tentar ir para o campo, mais próximo de Londres. Uma médium disse-me que disseras que me arranjarias alguma coisa algures ao sul de Londres.
Douglas: Tudo quanto espero é que não seja em (...) nada diferente em mente. Com toda a franqueza não sei bem se queres um apartamento ou uma casa ou uma bangalô... Do que é que realmente gostavas?
Eira: Ah, penso que seja um apartamento mesmo.
Douglas: Não queres ter muito que fazer, pois não querida?
Eira: Bom, eu já tenho muito que fazer com este trabalho, querido. Isto dá muito que fazer...
Douglas: Estava a pensar do ponto de vista doméstico...
Eira: Porque deverei gastar o meu tempo a cozinhar e tudo o mais quando as coisas até são comidas cruas? (Ri)
Douglas: Estava a gracejar contigo... Com que então estás feliz...
Eira: Exacto.
Douglas: E com relação à máquina de escrever?
Eira: Bom, estou a tentar aprender a escrever.
Douglas: Eu espero que venhas a escrever tudo isto à máquina.
Eira: Encontrei alguém, querido...
Douglas: Isso vai ser uma tarefa e tanto, não? Precisas aprender essa coisa já...
Eira: Gravei cada palavra do disseste que passaste. Quinze dias após o teu falecimento. Agora só tenho que o organizar.
Douglas: Eu acho que devias tratar de publicar este livro cedo.
Eira: Sim. Há tanta coisa de que falar, querido...
Douglas: É verdade, temos muita coisa de que falar. Na verdade podemos continuar e escrever muitos livros. Onde é que vais almoçar hoje?
Eira: Em Belgrave Square. Há uma pequena sessão de grupo e eu espero poder igualmente entrar. E depois, às cinco horas vai falar uma entidade numa sessão de transe que eu sempre apreciei e que acho tão estimulante. Ouviste falar dele?
Douglas: Ouvi.
Eira: Às cinco horas espero que que lá estejas.
Douglas: Eu estarei. Eles não estão a passar mensagens, estão?
Eira: Ah, não, são só umas maravilhosas horas de diálogo. E ele é um brilhante orador e na verdade tem uma dose de riso. (Pausa) Parece que ele se retirou Sr. Flint
Flint: Assim parece. Foi muito interessante, esta manhã.
(...)
Eira: Caramba, nem sequer o Mickey veio despedir-se!
Douglas: Parece que a trajetória nos foi cortada. Peço desculpa por isto.
Eira: Ai sim, querido? Que trajetória? A trajetória psíquica?
Douglas: Sim. Não tem importância. Foi agradável conversar contigo e da próxima vez tentarei falar sobre coisas de interesse para o livro. Envio-te todo o meu amor.
Eira: Sim, querido, espero encontrar-me aqui de segunda-feira a uma semana.
Douglas: Óptimo. Muitas vezes é melhor para mim. Adeus querida.
Eira: Adeus amor.
STEPHEN WARD
PROGRESSO, COMPAIXÃO, CONHECIMENTO, EXPERIÊNCIA 
Quando me perguntas até que ponto progredi, em certo sentido não se consegue realmente responder a isso. Tanto quanto sou capaz de dizer, posso dizer que realmente progredi bastante, do ponto de vista do facto de não mais pensar da mesma forma que pensava, e de toda a minha atitude ter mudado, e de me encontrar num esfera de vibração de luz completamente diferente onde vejo e testemunho e experimento coisas muito afastadas do velho mundo. Mas a questão está em que é muito difícil dizer o quanto a pessoa terá progredido pessoalmente. Suponho que se sabe em nós próprios que mudamos, temos consciência da mudança que se operou em nós, mas enquanto mudamos em nós próprios, também adoptamos novas ideias e teorias e experimentamos imensas coisas novas.
Também realizamos a imensidão da lei aqui, e possivelmente sentimo-la num certo sentido, embora não tenhamos porventura aprendido muito, o que suponho que de certo modo é uma alegria e uma beleza, por haver tanto mais a conhecer a cada instante e tanto mais a experimentar. Não existe tipo uma linha de demarcação nem podemos dizer a nós próprios: "Alcancei o máximo que conseguia alcançar." Parece ilimitado e não existe nenhum tipo de linha, nenhum tipo de separação; é algo que realmente não consigo expressar por palavras, mas é algo que se sente, em vez de sermos capazes de descrever ou de retractar.
Quero dizer, há todo o tipo de experiências e todo o tipo de gente interessante, todo o tipo de experiências interessantes, e eu vejo tanto que me deixa surpreendido, e que por vezes também me diverte. Estou a toda a hora a viver e a experimentar e digo a mim próprio a cada instante: "Isto é tão maravilhoso, isto é tão espectacular. Possivelmente não poderia ser mais maravilhoso e excitante do que isto." E no entanto no meu íntimo eu sei que num certo sentido estou somente a espigar qual criança, e sei que vou experimentar tanto mais e a prender tanto mais e penetrar em novos ambientes e novas condições. É a coisa mais entusiasmante e excitante por as coisas mudarem a cada passo. Não quero dizer com isso que num certo sentido percam o sentido de perspectiva ou a vossa liberdade ou toque, nem que subitamente se tornem em algo tão diferente que deixem de se reconhecer ou aos outros. É algo que não consigo definir, algo que suponho constitui a própria vida. Afinal a vida é aquele mistério que ainda existe, entendes, embora estejamos a aprender e a experimentar e a ter por todo o tipo de experiências, ainda constitui um mistério o tempo todo e há sempre coisas que se encontram como que por explorar e novas aventuras em que entrar e gente a conhecer, novas experiências muito para além da nossa imaginação. Além disso é empolgante.
Pergunta: Já conseguiu... lembra-se do desenho, de que era tão aficcionado?
Ainda não cheguei lá. Não, não sei muito bem o que se passa de errado comigo. De facto... num certo sentido, qualquer um poderá dizer o que se passa de errado comigo. Quando se percebe as tremendas possibilidades (...) que aí sentimos existirem. Temos tanto a fazer e tão rápido. Percebemos que não podemos pressionar nada; é algo que sucede dentro de nós próprios, e depois à medida que essas coisas sucedem em nós próprios também essas vistas se tornam visíveis. Por outras palavras, embora o invisível ou aquilo que parece nebuloso ou muito afastado e não tenhamos mínima ideia se o podemos alcançar, isso torna-se gradualmente visto. É algo que em nós próprios sabemos quando a altura é a apropriada e quando não o é. Se não conseguirmos alcançar determinado objectivo não nos sentimos deprimidos nem infelizes, e num certo sentido, embora isso pareça contraditório se quisermos, não existe objectivo nenhum e no entanto não deixa de existir. Trata-se de uma objectivo, algo que sentimos e sabemos no nosso íntimo.
Cada passo, toda a experiência, todo indivíduo que conhecemos, todas as conversas que temos, tudo significa alguma coisa; nada se perde, algo se obtém, e embora por ventura num certo sentido tu pareças talvez como eu me sinto, percebo que a vida terrena é importante – não creio que cheguemos a dizer a nós próprios. “Oh esta vida, de que terá servido se é tão sem sentido e tão inútil?” Frequentemente as pessoas aqui dizem isso, mas suponho – na verdade estou certo de que em certas alturas o dizem com toda a seriedade. Mas, a questão está em que realmente não é assim porque, embora possa ser curta na sua duração, se é que precisamos classifica-la em termos de tempo, cada instante trás qualquer coisa, toda a experiencia, qualquer que possa ser, boa, má ou indiferente, é individual e única. De facto tudo... afinal é a vida, um aspecto da vida, de que nós somos parte. Mas mesmo quando a deixamos para trás, como eu deixei, ainda é, num certo sentido, uma parte de nós, por não nos separarmos por completo.
Quero dizer, há pessoas que se encontram aqui há centenas de anos, suponho, e no entanto estou certo de que admitem que embora não possam entrar por completo no mundo material e pensem estar certas de se encontrarem muito afastadas das coisas materiais, elas não estão completamente separadas. Com isso refiro-me à existência desta compaixão, desta emoção formidável que constitui uma realidade maior em nós próprios, pela qual sabemos que fazemos parte de todo ser humano, independentemente do quão baixos possam ser, do quão pouco evoluídos ou inexperientes possam ser nas coisas espirituais. A questão toda está em que me vejo agora – claro que enquanto um indivíduo - porém, ao mesmo tempo – não diria insignificante, porque ninguém é insignificante, porquanto todos quanto respiram, todos quantos têm vida, seja no vosso mundo ou neste, toda a gente é significativa. Mas a questão está em que se sente a imensidão da vida e a tremenda maravilha de tisso tudo, e que fazemos parte desta realidade viva, pelo que quando uma pessoa sofre, num certo sentido também sofremos, então nós não estamos em sofrimento, porventura não do ponto de vista material, no sentido material somos influenciados por ela, somos parte dela. É este sentimento espantoso que sentimos dentro de nós, entendes, de desejo de sermos úteis, de desejo de instilarmos nas pessoas em particular as que se encontram na terra, com que não estamos de forma nenhuma ligados do ponto de vista do relacionamento mas com quem evidentemente permanecemos em contacto.
Por vezes sentimos se apenas lhes pudéssemos dizer algo que os ajude ou conforte ou os eleve, algo que lhes dê um incentivo, por exemplo, para ver a vida conforme ela realmente é, para perceber o propósito e o sentido, e para perceberem que esta presente situação em que possam encontrar-se, será, num certo sentido, boa para vós e não necessariamente má. Quando as pessoas sofrem é claro que nós também sofremos; não sofremos fisicamente, claro está, mas no sentido mental e espiritual. Não gostaria que alguém sentisse que eu deva ser em mim próprio (...) de que num certo sentido esteja separado de vós. Podemos não estar por completo convosco mas não os perdemos de vista, não nos afastamos tanto assim que não consigamos sentir por vós, ou que tenhamos perdido o desejo de os ajudar. Claro que sempre temos a intenção de fazer o que pudermos. Mas torna-se explicar determinadas coisas. Eu não acho que alguém consiga, não creio que o doutor Marshall ou eu próprio ou qualquer alma, independentemente do quão evoluída esteja, consiga alguma vez encontrar termos que exprimam a intensidade da vida. Penso que é a isso que a coisa se resume. A intensidade da vida que temos em cada um de nós. Mas claro que é natural que quanto mais evoluída a pessoa se tornar, quanto mais amplos forem os seus horizontes e o campo das experiências, maior será a sua realização e maior será a sua compreensão, e maior será a empatia que sentirá, e a humildade.
Penso que seja essa humildade que vem a nós que é a coisa mais impressionante. Por vezes inicialmente poderá parecer um tanto arrasador, suponho, em particular se na terra tivermos sido alguém de posição ou importante, ou se tivermos detido algum lugar de elevado padrão, ou se tivermos sido fadados a andar por toda a parte em toda a parte, ou porventura como que presos caso alguém tenha olhado para vós como um modelo, e no vosso íntimo saibam mesmo que tenham sido vistos como uma grande personalidade, o que quer que se tenham tornado na terra... mas no vosso íntimo creio que quanto mais alto se elevam... e se forem sinceros convosco próprios, na terra, perceberão que num certo sentido não são verdadeiramente nada daquilo que porventura as pessoas tenham pensado que eram.
Creio que com muita frequência sente-se - não propriamente vergonha, mas completamente como se... não estou certo mas colocamo-nos numa posição detestável, o que poderá parecer estranho. Mas aqui sentimos ainda com uma maior intensidade. Creio que toda a questão está em que, quanto mais alto nos elevamos, mais humildes nos tornamos, e mais dotados de sensibilidade nos tornamos em relação aos pensamentos dos outros. Quando as pessoas os louvam ou querem agradecer-lhes, ou lhes querem transmitir algo como estima, não é que o queiramos rejeitar ou não o valorizemos; nós apreciámo-lo, mas de qualquer jeito sentimos que não devia ser necessário e dizemos para nós próprios: "Afinal, faço aquilo que faço por ser o que devia fazer; por ser a coisa correcta que em mim acho que devo fazer. Não estou a fazer nada por querer agradecimentos ou apreciação; faço-o por o amor o exigir que o faça, por o amor mo ordenar." O que num certo sentido até mesmo isso é errado, por o amor não exigir nem ordenar nada. É que o amor incita-nos.
Entendes, eu não sinto... que tenha perdido a minha individualidade ou a minha personalidade, ou me tenha como que perdido, mas agora sinto-me tanto mais em sintonia, suponho que o termo seja esse, com tanta gente de todas as nações e de todos os tipos. Claro que é natural que me sinta mais atraído para aqueles que estejam menos bem informados, ou que num certo sentido sejam completamente diferentes de mim, mas não me sinto naturalmente atraído para elas do mesmo modo que me sinto atraído para pessoas de gostos idênticos aos meus, atraído para elas num outro sentido ou de outro modo.
Sinto: "Olha, esta pessoa não aprendeu a apreciar; porventura não teve oportunidade; circunstâncias que escapavam ao seu controlo tê-la-ão conduzido numa outra direcção. Talvez ela tenha sido uma vítima da sociedade ou vítima da sua própria carência no campo do sentir ou do entendimento." Se algo estiver errado, posso dizer: "Quero tentar fazer alguma coisa para a ajudar." O que por vezes não será porventura possível, e nunca chegamos a pensar tentá-lo.
Precisamos perceber que, só podemos ser ajudados... mas ao mesmo tempo nós próprios, em certa medida, devemos partilhar da iniciativa, precisamos partilhar do desejo de orientação em nós próprios. Quero dizer, talvez uma pessoa no vosso mundo se encontre num estado muito infeliz e em si mesma (talvez não o faça fora) mas em si mesma talvez apele a uma ajuda: "Ai, ajudai-me." Em ocasiões em que as pessoas se veem em apuros, em particular, as pessoas apelam - mesmo que não sejam religiosas ou que não aceitem Deus enquanto tal - dizem: "Deus, ajuda-me!" É um clamor humano automático procedente do coração que sempre acomete até mesmo às pessoas menos religiosas, quando algo de terrível lhes sucede. De certo modo é quando que a pessoa clama profundamente no seu íntimo que nós podemos em certa medida alcançá-las. Mas claro... a tragédia está em que o homem invariavelmente apela no seu íntimo quando se encontra em apuros, quando se vê em grande necessidade, quando sente que a ajuda seja essencial. A questão está em que naturalmente nós ajudamos, sempre que for possível ajudar qualquer alma humana, e em certas circunstâncias fazemos tudo o que podemos, porém... o homem... na terra... quando as coisas correm do jeito que quer que corram invariavelmente ele não se incomoda a pensar em algo que não seja material. E se alguma vez chegar a pensar em alguma coisa como Deus, ou nas coisas da mente e do espírito, nas coisas que sejam fundamentalmente boas, é quando se encontra sob enorme tensão. Quero dizer, se um homem estiver doente, o único remédio passará pelo doutor. Na maioria das vezes não terá muita fé no doutor, mas pelo menos tentá-lo-á. Mas mesmo no campo da religião, claro está. Muita gente poderá dizer: "Claro que eu sou cristão," ou "Eu vou à igreja com frequência." "Eu aceito, sabe, por ter sido criado assim ou assado." Mas quando algo de temível acontece, pensa: "Caramba, apelemos a Deus, ou apelemos à Igreja, ou apelemos ao passado.
A questão está em que, quando as pessoas se veem numa grande aflição, quando clamam querem encontrar auxílio, mas a questão está, evidentemente, em que se devia perceber que só se pode receber auxílio, só se pode receber alguma coisa de real valor quando em nós próprios tivermos, por iniciativa nossa e por meio do nosso próprio desejo e do nosso próprio esforço tivermos trazido à existência, a partir de nós próprios, a possível mudança que nos capacitará por completo a, não só receber ajuda, mas mais importante, a ajudar os outros. Infelizmente as pessoas são completamente egocêntricas, entendes? É claro que são apenas seres humanos, mas pensam a toda a hora em si mesmas e muito raramente pensam nos outros; toda a sua vida gira ao seu redor. Mas é somente quando nos esquecemos de nós próprios que começamos a viver, que começamos a perceber e a sentir, a compreender e a conhecer e que realmente nos tornamos num indivíduo útil, do ponto de vista da assistência e da genuína orientação dos outros.
Por outras palavras, todos os grandes mestres, por aquilo que me tem sido dado apurar, e já tive ocasião de me encontrar com alguns, e já estive em vastos templos e foi-me mostrado e foram-me apresentadas pessoas e locais e sons e vastas experiências de há séculos e séculos atrás. Pude desenrolar, poder-se-á dizer, diante dos meus olhos, incidentes que ocorreram há milhares e milhares de anos atrás. E alguém me contou... aqui não é necessário ler livros, embora se possa, por aqui se poder ver muito do que ocorreu. Na realidade suponho mesmo que seja tudo quanto tenha ocorrido que tenha valor para a raça humana. Podemos ficar a saber, podemos recuar no tempo, podemos voltar atrás três mil, quatro mil anos, podemos situar-nos nesse período de tempo, e num certo sentido podemos tomar consciência, não só... ver o que sucedeu, ou num certo sentido fazer parte disso. Não sei como descrever isso.
Eu já passei por essa experiência; fui muito afortunado neste estado, por ter sido capaz, junto com outros, muito mais evoluídos que eu próprio, que me capacitaram a entrar em eventos cruzados. Sabes, quem dera que o conseguisse explicar... por nada se perder. Se conseguirem pensar num mundo intemporal... Creio que seja a questão do tempo que dificulte tudo. Tudo tem lugar na mente, tudo é uma força do pensamento, e existem biliões e biliões de forças do pensamento de diferentes estratos ou de diferentes vibrações que, quando lhe conhecemos a arte, ou quando somos suficientemente afortunados para conhecermos gente que tenha estado aqui tempo suficiente para o compreender, torna-se possível penetrar em mundos da força do pensamento, que podem constituir forças do pensamento de há incontáveis séculos atrás, e essa força do pensamento ou esse mundo é a réplica, a reprodução, se preferirem, de incidentes e de locais intemporais.
Nada se perde; eu já expliquei este negócio de nada se perder. Por este ser o único jeito, claro, por que um ser humano pode esperar aprender e pode esperar obter conhecimento e experiência. Sabes, é completamente possível avançarmos o tempo, mas eu acho que seja terrivelmente importante perceber que do mesmo modo que podemos avançar no tempo também podemos recuar.
Precisam ter essa capacidade de avançar no tempo. Mas ao mesmo tempo, o único jeito de avançarem no tempo, é pelo conhecimento de terem obtido experiência por meio do movimento para trás ou de entrarem nas ideias e pensamentos do passado. Sabes, eu consigo aperceber-me de mim como consigo ver-te a ti ou ao Leslie ou como consigo ver outros que cheguei a conhecer razoavelmente bem, e por quem me tenha interessado, evidentemente, o que suponho só poderá ocorrer se sentirmos interesse pelas pessoas, porque se não sentirmos, então a nossa mente consciente não se envolverá. Mas a questão está em que te consigo ver (Dirigindo-se a Rose) noutros locais, consigo-te ver na pele de outros "personagens," do mesmo jeito que me consigo ver a mim próprio, e ao médium. Precisamos compreender que somos o produto de incontáveis experiências em diversos corpos e em condições diversas, em diversos períodos de tempo.
Quando conseguirmos conceber esta questão do tempo, quando percebermos que num certo sentido o tempo não passa de uma ilusão, e que a realidade da vida está no facto da vida nunca ter realmente começado, do mesmo modo que não tem fim. Por outras palavras, quando compreendermos que a vida sempre existiu, mas que poderá adoptar contornos em formas diferentes e em diferentes períodos, ou experiências. Mas sempre existiu; a alma, o espírito sempre existiram. Somente a sombra e a forma e os contornos - tudo quanto se poderá chamar corpos, se quisermos, por num certo sentido o serem. Mas ao entrarmos num corpo novo e nos tornarmos, num certo sentido, numa pessoa nova, embora não o sejamos propriamente; ainda fazemos parte da antiga. Por outras palavras, todas as diferentes entidades que tiverem sido, ou os diferentes corpos que tiverem habitado, embora esses corpos não existam no sentido material, existem no sentido mental, e o processo de nos capacitarmos a penetrar nas mentalidades e realizações - e acho que se poderá mesmo dizer, penetrar nas expectativas e receios, e no regozijo de vidas passadas e pensamentos passados, e experiências passadas... Todas essas são as coisas, tudo isso são as ocorrências, tudo isso é a parte do tempo ou as partes do tempo que fazem o que somos de momento, e em que mais nos tornaremos.
Por outras palavras, o passado, o presente e o futuro são um só. É uma coisa dotada de infinita variedade, um facto por que passamos incessantemente, embora não o percebamos na terra. Mas estamos incessante e lenta porém certamente a passar por essa evolução, estamos a evoluir. Suponho que estejamos gradualmente – oh, de forma muito gradual – a perceber, do ponto de vista da evolução gradual, e ninguém – não importa quem seja, estou certo quanto a isso – ninguém poderá dizer no que poderemos tornar-nos, ou quanto nos poderemos tornar, ou onde poderemos estar indo, não no sentido... por obviamente sermos já tudo isso. Num mundo intemporal onde nada é impossível e onde tudo se torna possível, de facto encontramo-nos entrelaçados em muitos mundos, e podemos como que andar para trás, e claro, gradualmente andar para a frente. Mas até que subsidiamos esse curso e essas experiências e nos tenhamos reajustado e até que nos avaliemos a nós próprios, e sejamos avaliados por outros também, suponho, não podemos evitar ir mais longe. Por outras palavras, nós estamos a evoluir unicamente em frente, mas também podemos andar para trás, e é esse andar para trás que nos dá um novo conhecimento, que embora num certo sentido seja um velho conhecimento, por constituir uma reavaliação. Por outras palavras, estamos a expressar e a aprender a toda a hora, e a conhecer e a transformar-nos; estamos sempre a abandonar e a lançar fora e a assimilar, como que em mudança, mas possuímos memória e temos recordações, e tanto em que podemos ancorar-nos, que se torna extraordinário – não encontro palavras que o expressem.
Rose: Então, suponho que não exista esquecimento, quando passamos desta vida. Existirá esquecimento?
Sim, existe esquecimento, claro que deve existir. Eu colocá-lo-ia da seguinte maneira: Existe esquecimento de determinadas coisas que não mais desempenham qualquer função importante. Por outras palavras, qualquer evolução, conforme o vejo, e conforme já o cheguei a compreender... temos que experimentar todo o tipo de coisas, e quando retirarmos disso uma certa existência ou uma certa vida ou uma certa encarnação - mesmo que isso signifique voltar a encarnar de novo na terra – temos que assimilar tudo quanto pudermos, bom, mau e indiferente... por outras palavras, tornamo-nos e evoluímos e gradualmente é quase como estar num balão (embora suponha que soe estúpido) mas quando vamos de balão, se quisermos subir mais alto precisamos lançar fora tudo quanto já não tenha qualquer valor, tudo quanto nos prender à terra. Se quisermos subir mais alto precisamos lançar borda fora o lastro. Ao aspirarmos, enquanto seres humanos, e desejarmos e passarmos para uma expressão mais elevada de nós próprios, então descartamos os nossos piores aspectos, descartamos as experiências que tiverem sido válidas, mas que ao mesmo tempo não mais podem ter valor para nós.
Teremos aprendido o que podíamos com essas experiências, poderá ter sido árduo ou difícil, e por vezes também terão sido materialmente muito afortunadas, mas a questão está em que com o tempo, teremos estado sem dúvida a experimentar. E com cada progressão, quanto mais alto subirmos, também temos que rejeitar grande parte do velho Eu e ultrapassar recordações porque quando essas recordações não mais tiverem serventia, essas mesmas recordações podem, prender-nos em baixo, em vez de nos ajudarem a subir. É um processo de eliminação, mas empreendemos essa eliminação por precisarmos conhecer-nos, precisamos saber como fomos, o que fomos, porque o fomos, onde cometemos erros, o que fizemos, porque o fizemos, com quem estivemos, precisamos conhecer gente com quem porventura consciente ou inconscientemente (...) entendes? Não podemos furtar-nos a nós próprios, precisamos descobrir-nos, precisamos ser humildes e abrir mão das falsas ideias, do falso orgulho, das falsas doutrinas, das falsas concepções.
Por outras palavras, e num certo sentido – por supor que seja o que vem escrito na Bíblia e o que certa gente religiosa interpretou de forma errada – precisamos com que lavar-nos, precisamos ser capazes de arremessar de nós próprios tudo quanto é mau e perverso. Precisamos aprender e ao mesmo tempo expressar, por outras palavras, aperfeiçoar-nos a nós próprios. E quando o conseguirmos, quando realmente compreendermos o sentido e o propósito e como ser uma pessoa verdadeira, quer dizer a melhorá-la. A intenção está em suprimir a eliminação, que é algo que precisamos fazer e a que não nos podemos furtar...
Não o estou a colocar muito bem... Não é coisa fácil, não é fácil; isso é bem patente que nenhuma organização religiosa, nenhum corpo religioso, nenhuma Igreja, nenhum templo, nenhum sacerdote, nenhum cardeal lhes pode realmente mostrar... quero dizer, poderão apontar-lhes o caminho, não quero dizer que na sua sinceridade não possam dar-lhes um indicador, mas ninguém poderá absolvê-los; ninguém possui o poder de os absolver de vós próprios, apenas vós próprios. Creio que exista uma boa quantidade de bem fundamental em todas as religiões, em todas as doutrinas, porque basicamente são exactamente as mesmas, só que o homem interpreta-as de forma errónea, o homem acrescentou-lhe aspectos materiais que não têm qualquer realidade.
O homem sempre procurou explicar as coisas no sentido material, mas não as podem explicar do mesmo modo, dificuldade em explicar as coisas do espírito em linguagem material embora a maior parte das coisas, com toda a franqueza. tenham que sentir, e tenham que conhecer intimamente... Suponho que seja aqui que se pode recuar ao velho termo "fé," mas a questão está em que é verdade dizer, que se tivermos fé na realização da verdade... por outras palavras, se compreenderem e se se conhecerem, vocês serão o único que poderá alcançar isso. As pessoas poderão guiá-los, as pessoas poderão ajudá-los, mas ninguém o poderá fazer por vós. Precisam ter fé em vós próprios para superarem, para que possam verdadeiramente tornar-se num certo sentido, por terem empreendido o esforço. Ninguém o poderá fazer por vós, por ser algo pessoal e inerente a cada indivíduo.
Da próxima vez falar-te-ei de algumas das experiências porque passei ao recuar de volta no tempo, por achar que seja uma coisa fascinante. Não é o que eu fui, isso é uma outra coisa... nem sequer um regresso a outros aspectos da minha própria vida em eras passadas. É um regresso aos tempos passados da vida das outras pessoas.

COSMO LANG  Arcebispo de Canterbury
(1864-1945)
Lor Lang morreu em 1945 e um ano mais tarde falou com o Padre Sharp no círculo familiar por intermédio da mediunidade de Leslie Flint. Eis aquilo que disse:
"Se ao menos pudesse ter de volta a minha vida e o conhecimento que actualmente possuo, quão diferentemente não teria agido! Eu podia ter feito tanto, mas tinha receio."
Prosseguiu falando dos milhares de almas que se precipitaram no além vitimados pela guerra que ainda carregavam ressentimento por a Igreja não lhes ter ensinado que a morte não é o fim e que uma ponte pode ser estabelecida entre os dois mundos. Numa outra ocasião Cosmo Lang falou no salão de sessões de Flint quando George Woods e Betty Greene se encontravam presentes como assistentes. Em 1959 ele referiu o seguinte:
"Eu senti profundamente que o Espiritualismo é de tal modo vital e importante que todos deveriam ter conhecimento disso, mas ao mesmo tempo sinto que pode ser perigoso, caso seja utilizado de forma errónea. Creio que seja importante que se organizem colégios ou sociedades onde os médiuns se possam ter abrigo e ser estimulados enquanto recebem treino de forma apropriada de modo a tornarem a mediunidade de que gozam numa vocação do mesmo modo que é feito com aqueles que vão para o sacerdócio, que renunciam a toda a sua vida para isso e se isolam aparte do mundo, sem que no entanto deixem de pertencer ao mundo, pelo serviço. Se quiserem contactar as forças superiores, as forças benignas, aquelas que podem elevar a humanidade, precisarão ter médiuns ou instrumentos afins e caracterizados por uma vibração espiritual elevada, e parece-me a mim que alguns dos vossos médiuns infelizmente são de uma ordem muito baixa. Não quero que pensem que o condeno, longe disso, por ter ânsia de ajudar. Mas acho que somente quando o Espiritualismo é utilizado de forma correcta com médiuns de nível mental e espiritual elevado que sejam abnegados em relação às coisas materiais em verdadeiro serviço a Deus, e que se considerem meros instrumentos do poder divino destinados a servir os filhos da Terra, chegará a resultar algum verdadeiro benefício para a humanidade.
"Parece-me a mim que enquanto estão apenas a arranhar a superfície dos mundos astrais, coisa que noventa por cento dos vossos instrumentos parecem estar a fazer, então o Espiritualismo é não só prejudicial, como pode chegar a ser perigoso, por o semelhante atrair o semelhante. Entidades inferiores que se agarram à vossa Terra podem utilizar os médiuns e por seu intermédio dizer às pessoas coisas que não são verdade e que podem ser causa de muita infelicidade e infortúnio. Mais perigoso ainda, o resultado de tais sessões podem resultar em obsessões por entidades inferiores que os deixarão desfigurados e que distorcerão a verdade.
"É importante que quando se reúnem escolham cuidadosamente o instrumento e se comportem de modo correcto. Que devam aproximar-se de Deus não só quando oram mas nas vossas vidas esforçando-se por as tornar numa oração viva tanto pelo pensamento como pela acção."
O ex Primado continuou dizendo que a Igreja de hoje se afastou muito da doutrina original e da força de que gozava para o bem e como se desviara tanto do caminho simples que Jesus tinha delineado. Afirmou que grande parte da doutrina do Espiritualismo constituía a essência da Igreja Primitiva, daqueles Cristãos que se reuniam e se deixavam possuir pelo poder do Senhor e que superavam a carne e se desapegavam de tudo para seguir a Jesus. Concluiu dizendo:
"Se a grande verdade da sobrevivência fosse demonstrada e tornada manifesta no sentido verdadeiro e excelente, o mundo mudaria todo para melhor."
As observações de cunho crítico que Lang fez sobre a mediunidade de hoje não carecem de fundamento. Recentemente, o Espiritualismo tem vindo a depender cada vez mais da mediunidade mental para se fazer provar, e embora no passado tenham surgido médiuns excelentes, clarividentes, médiuns clariaudientes e de transe, a mediunidade mental de hoje, com algumas excepções notáveis, não é de um nível elevado.
Em Agosto de 1967 Cosmo Lang voltou a falar, e disse:
"O estudo da raça humana desde eras imemoriais constitui em si mesmo uma lição para todos, no entanto não prestamos atenção às lições que aprendemos nem percebemos o presente no passado, mas que será o presente senão o resultado de eventos passados, de erros passados, de tolices passadas? O homem voltou durante séculos as costas à verdade e não percebe que dentro de si, no mais recôndito da sua alma está a verdade mais proeminente, a verdade indestrutível de que o homem é verdadeiramente Espírito e como tal, imortal.
"Muita vez reflicto nos meus primeiros anos devida e vejo com que entusiasmo entrei no caminho da instrução e da experiência religiosa. Com que frequência falei do púlpito aos muitos que se congregavam a fim de escutar a palavra de Deus, e me esforcei por enunciar a verdade conforme sentia entendê-la. Ao olhar para trás vejo que o que me faltava era simplicidade e conhecimento do poder do Espírito dentro de nós. Se ao menos pudesse ter visto o que existia subjacente aos ensinamentos não só de Jesus mas de muitos dos Profetas e grandes reformadores e mestres de eras anteriores! Se pudesse ter visto o fio dourado que corre desde os tempos mais antigos por meio de todas as grandes religiões e tivesse entendido que esse fio único constitui a base de toda a verdade, que todos os homens pertencem ao Espírito e fazem parte do grande plano, e que toda a matéria, independentemente da foram que adopte é indestrutível e que até mesmo a criatura mais inferior tem o seu lugar e o seu propósito não só no vosso mundo como também no nosso!
"Frequentemente o homem pensa no Espírito como dotado de forma ou contornos, ou como uma glória que vem após a morte, mas o Espírito não é nada disso. É a força que anima todos quantos vivem na forma humana, tudo na natureza e todas as manifestações da vida no universo. É a força, o poder, a vibração da vida, e por toda a vida fazer parte do mesmo Espírito é indestrutível.
"Enquanto vivem na Terra, encontram-se no mesmo comprimento de onda, vibração ou frequência, de tudo quanto os cerca, de modo que os vossos sentidos físicos percebem o vosso ambiente como real e sólido. Porém a ciência disse-lhes que nada na Terra é real ou sólido, que os objectos lhes parecem sólidos mas na realidade constituem redes abertas dotadas de cargas eléctricas que rodopiam em torno de um núcleo central numa frequência idêntica à vossa. Quando morrerem, continuarão a viver no vosso duplo espiritual mais subtil, que geralmente é chamado de corpo astral, que vibra numa frequência mais elevada do que a do vosso corpo físico. Esse corpo astral situa-se no mesmo comprimento de onda do plano de existência que passarão a habitar após a morte, e em razão disso tudo nesse plano lhes parecerá igualmente real e sólido quanto o ambiente terreno lhes terá parecido certa vez."
O Dr. Lang explica que as pessoas no além, no espírito, não são deuses, mas apenas pessoas que progrediram no caminho da realização espiritual. Ele explica que agora ele aceita as coisas que terá encarado como heresia na terra e diz que descobriu que algumas das coisas que ele pensava serem factuais não o são necessariamente e que descobriu que a ignorância de que padecia era terrível. Todas as formas de vida são indestrutíveis. O homem e toda a vida é espírito - todo espírito é a mesma força animadora - a vida material é apenas um pequeno episódio na grande cavalgada da progressão espiritual. Enquanto na terra, ele tinha uma ideia falsa da sua própria importância. Ele assegura aos seus ouvintes que ninguém assumirá a responsabilidade de salvá-los. É uma responsabilidade inteiramente nossa.
O Dr. Lang explica ainda o trabalho do espírito. Ele diz que é mais difícil para aqueles que se encontram nas esferas mais elevadas conduzirem a sua mensagem às esferas inferiores. Uma grande variedade de vibrações na atmosfera pode ser captada por instrumentos mediúnicos sensibilizados. Ele diz que o tempo constitui a maior ilusão de todas. Explica que é muito difícil encontrar canais por intermédio dos quais se possa comunicar com aqueles que se encontram na vida após a morte. As disposições dos que cercam o médium responde por uma contribuição muito importante. Ele explica que existe um grande poder que está subjacente a toda a vida, mas que está além até mesmo da sua compreensão. Entre aqueles na vida após a morte encontram-se aqueles que criam o seu próprio céu ilusório, mas tudo tem cabimento nas suas próprias concepções.
Explica que o poder do espírito pode manifestar-se em todo lugar. Ele diz que chegará o tempo em que toda a Igreja conseguirá ver através das suas trevas e conhecerá o poder do Espírito. Ele lamenta ter abafado os resultados da investigação da sua própria comissão sobre a comunicação espiritual. 
Leslie Flint
Transcrito e traduzido por Amadeu António