sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

LAO TZU - EDIÇÃO COMENTADA





                                                    
Tao Te Ching
de   Lao Tzu
(EDIÇÃO COMENTADA)

Tradução, apresentação e comentários da autoria de
Amadeu António

Tratado da Virtude, do Caminho e da Vida

Um  Clássico de Ética e Excelência
Um código de Conduta Subordinado
À Arte de Viver


  “Uma enorme mudança na nossa atitude psicológica revela-se iminente. Isso é um dado adquirido. Porque  precisamos de mais psicologia; necessitamos de mais compreensão com relação à natureza humana porquanto o único perigo real que existe reside no próprio Homem. O Homem constitui o maior perigo, porém,  lamentavelmente permanecemos inconscientes desse facto. E o que conhecemos do Homem é muito pouco ou nada. A nossa psique deve ser estudada porque nós somos a origem de todo o mal que pode suceder...”
                                                                                                                                                                                                          
                                                                                            Carl Gustav Jung

Apresentação
                
  Esta é uma obra de extraordinária importância e actualidade, tanto do ponto de vista cultural como humano, portadora como é duma exuberante psicologia, bastante anterior à eclosão do cristianismo, facto esse que é denunciado, desde logo, pela ausência de conceitos teístas, e por isso pretende superar o terreno escorregadio da subjectividade e da suposição. Mas, justamente por isso, dá prova da perfeição de todo um conhecimento cosmológico e metafísico que se propõe alargar horizontes rumo a um entendimento mais amplo e consistente do homem, sem deixar de apontar (por entre a denúncia dos valores vigentes, subjacentes aos preceitos doutrinários do dogma religioso e científico, de um certo puritanismo, da mera representatividade e da institucionalização e de toda uma moralidade gratificante ao ego)  razões dum  mal-estar dominante, tanto ao nível social como individual, de que de resto é um reflexo.  Um tratado pois, que se mantém actual, exacto e imperecível, tanto pelo seu carácter intemporal como pelo contexto cosmogónico em que se insere.

   Contudo, trata-se também e essencialmente de um ensaio sobre sabedoria e arte de viver, imbuído que está dum inestimável cunho singular assente na autodescoberta e na abertura de espírito, indispensável para o desenvolvimento de todo aquele que nutra um profundo sentimento de  reverência e sensibilidade pela vida, tanto no seu todo como no particular. Não se trata de nenhum tratado moral, como poderá parecer à primeira vista - é fundamental realçá-lo - porquanto não tem a preocupação de veicular qualquer noção de dever, juízos de valor nem preceito doutrinário, mas tão só realçar, em traços um tanto ímpares, uma ética intrínseca à realização da consciência pela atenção plena.

   Assim, se o leitor pensa aqui encontrar encorajamento moral, ao estilo das correntes espiritualistas inerentes a toda a religião ou culto - “pensamento positivo”, prática da virtude, do “amor fraternal, encorajamento da observação de preceito, etc..” - desengane-se. Do mesmo modo se notará a ausência de qualquer apologia favorável à sobrevivência à morte física, à preexistência da alma, a Deus, à reincarnação, etc., porquanto tudo isso, para além de se enquadrar num contexto cultural e religioso algo distinto e mesmo peculiar de cada época,  se favorece a especulação e a disputa de quantos se inclinam contra ou a favor, resultando da tendência para a defesa com base na lógica, para além de espiritualmente ser pueril por primar essencialmente pela argumentação  (assente na convergência e na divergência das ideias) -  inserida como ainda está no campo do relativo, pois do mesmo modo que a palavra não é a coisa (exactamente como o descrito não se acha na descrição) também a explicação falha em substituir a experiência directa ou a compreensão intuitiva instantânea (revelação).  O que não quer dizer que o produto dessa subjectividade possa ser considerado menos real – em absoluto! Não obstante isso configurar-se-á sempre à crença, (algo cuja veracidade jamais poderá tornar-se objecto de prova nem tampouco de imposição).

   Pretende-se, ao contrário, numa sociedade rendida em extremo ao cálculo e satisfeita com suas conquistas e superstições, em que nos é dado assistir a uma confusão e perversa interpretação arbitrária dos valores (embora permeada duma crescente inquietação e mesmo de uma inquirição), suscitar mais interrogações do que fornecer respostas porquanto se torna imperativo que aprendamos a pensar por nós próprios (o que não significa ter opiniões definidas, convenhamos) – e sobretudo a considerar de maneira diferente, coisa que as religiões, com os seus apelos à fé cega e à rejeição da dúvida (que têm por objectivo unicamente o controle das massas, junto com a ciência e a política) não estimulam. Mas para tal fim temos que aprender COMO pensar - ao invés DO QUE PENSAR - sem o que sempre seguiremos os que se investem de autoridade, e se arvoram em nossos intermediários e representantes. E no terreno da verdade (subentenda-se por isto espiritualidade, consciência, conhecimento) não existe autoridade alguma para além da que auferimos pelo esclarecimento; ninguém tem qualquer supremacia e como tal toda a noção de superioridade será redundante!

   O conteúdo não se presta a eufemismos, como à primeira vista poderá parecer, nem estabelece qualquer premissa, porquanto não parece preocupar-se com a fútil e inconsequente acção moralista do juízo de valor gratuito; por isso mesmo não faz o menor apelo a uma saída fácil dos problemas com que nos debatemos - nem à negação ou sublimação implícitas que parecem caracterizar, de forma sub-reptícia, a corrente do pensamento positivista, constituindo antes uma afirmação absoluta e categórica do carácter libérrimo, pleno, perfeito e equilibrado do Ser, ou Natureza, carácter esse que circunscreve a um só tempo Homem, Consciência, Mente, Universo, Ordem, Globalidade e Vida, e que – somos levados a crer – exprime, senão o sentido último, pelo menos a glória da criação.

   Gostaria de procurar realçar que o seu escopo primordial tem por objectivo a realização da suprema liberdade, que reside em nos tornarmos a própria “lei” (sermos uma luz em nós próprios) e não em submeter-nos, quer pela sujeição quer pela mera reacção à falsa autoridade, que pavimentam os caminhos de toda a realização parcial e menos crível.  Mas, consciente de não se poder alcançar o esclarecimento partindo do ponto de vista de uma qualquer assunção positivista, filiando-se num partido, ou seguindo um culto qualquer (presunção dogmática,  opinião formada, preconceito ou  encorajamento da crença que tais sistemas comportam) isso requer todo um trabalho de desconstrução de toda a estrutura idealista, lógica e supersticiosa atrás do que o “eu” negativo e mesquinho  se oculta e com o que se mascara, em meio às metamorfoses subjacentes ao temor e à  desconfiança. Constitui, portanto, como que um grito de dignificação do homem perfeitamente comum e anónimo, e em favor da maximização da condição de abertura para com o sentido real da vida e da consciência na sua inteireza. Afinal, nós somos maiores do que a vida, ou não sejamos nós os seus arquitectos!

    No plano literário, este trabalho constitui, antes de mais, uma tentativa livre e despretensiosa de elaboração da síntese.
   Ao longo dos últimos anos tem surgido uma panóplia de traduções populares desta obra no ocidente, tanto em idioma francês como, mais predominantemente em inglês, que na sua globalidade representam um modelo daquilo que podemos depreender como representações dum suposto “original."

Pessoalmente, todavia, não tive o cuidado de seguir essa orientação dita “original.” E se, por um lado, de algum modo omiti pela falta duma exposição mais concisa - pelo menos na forma afecta aos moldes que todos os autores procurariam preservar (porquanto é sinal de génio tratar ou expor assuntos difíceis com a máxima simplicidade) tendo-o alargado, de forma talvez até mesmo desmesurada em determinadas passagens, ficará isso a dever-se ao facto de pensar que, por mais elegante e sinóptica  ou resumida que essa brevidade possa ser jamais poderá, pela natureza das coisas, levar em conta a complexidade intrínseca à sua natureza, além do que, tratando-se de um tema com tal profundidade de carácter, só se pode ser breve à custa da omissão e do excesso da simplificação. E, se por um lado, a omissão e a simplificação nos ajudam a compreender, a compreensão daí resultante poderá resultar defeituosa (justamente por ser uma compreensão de noções nitidamente demarcadas, ao invés da realidade vasta e intricada  a partir da qual tais noções são, por assim dizer, abstraídas). Depois, essencialmente porque destino este trabalho ao leitor principiante e menos culto (à imagem da minha própria condição, de resto), destituído de uma desenvoltura psicológica ou filosófica cabal, mas igualmente capaz de apreender todo um sentido que infere na natureza do seu ser.

   Não obstante, procurei sempre escolher o exemplo adequado e a comparação esclarecedora a fim de procurar suscitar tal efeito junto do leitor. Por outro lado achei tornar-se necessária a combinação de todas as traduções já realizadas a fim de revelar a riqueza latente do Lao Tzu.
 
   Por tais razões, não o posso sugerir como uma cópia exacta do texto original - além do mais, volto a frisar, por ser impossível determinar com precisão e absoluta certeza que alguma vez tenha existido um formato original, por entre o emaranhado de transcrições de textos anteriores, reinterpretações, interpolações, etc. Ainda assim, talvez possa referi-lo em termos mais exactos como uma tradução elaborada de forma a apurar uma versão fiel ao espírito que deixa implícito, que procuro aqui tornar tão inteligível quanto possível e que possibilite reavivar o  seu conteúdo a par das referências culturais actuais, sem com isso deixar de corresponder ao escopo primordial de sentido que se depreende de cada uma das variadas traduções. A obra, em si mesma  monumental, tanto pelo conteúdo quanto pelo cunho singular que a caracteriza ao longo de toda a sua extensão, exige desde logo um profundo trabalho de reflexão, de forma a nos tornarmos capazes de intuir a sua essência viva,  sem o que correrá o risco de parecer  dotada de um sentido hermético e obscuro.

  Ressalta também deste estudo o facto de o pensamento não poder expressar a totalidade daquilo que nós somos, bem como a particularidade da harmonia interior constituir o único garante do equilíbrio a todos os níveis do ser e do viver. Todavia, a sua realização - que se constitui na razão central de tudo quanto é aqui tratado - escapa às formulações de toda a motivação ou esforço, que se traduz pelo móbil do desejo, por não circunscrever à partida quaisquer traços de acção exclusivistas ou sectárias (uma vez que a natureza da verdade, tão cara ao autor, é incriada e não se cinge ao campo do tempo nem do espaço mas traduz uma grandeza transcendental e impessoal) passando antes pela reeducação do indivíduo sob a premência de uma busca vital e sentida de significado para toda uma vida finalmente apreendida nos exactos limites do contraste e do paradoxo.

   O sentido primordial do autor focaliza-se no “Tao”, que significava, originalmente “Caminho”;  Tao é o caminho, ou processo do universo, a ordem cíclica da natureza, a realidade última e indefinível; é o processo cósmico, a dinâmico no qual todas as coisas se acham envolvidas e pelo que se tornam indissociáveis; tal processo alcança especial relevo, no aspecto da realização dessa consciência “original”, por meio do “não-saber” -  da descoberta e da consequente negação de todo propósito separatista ou elitista (o “não-pensamento”, desconhecimento ou autenticidade isento da afectação do juízo, ou da duplicidade assente em bem e mal, certo e errado) que constitui um estado de virtude por excelência, anterior que é à consciência  (e por isso  Inconsciente) também caracterizado por uma anulação das distinções dos contrários psicológicos, bem como da subjectividade primordial inerente ao eu e tu - nós e eles. A essência da sua mensagem consiste em fazer-nos perceber que só podemos colher de verdade por meio de uma abertura total da atenção não linear - que comporta todo o tempo, por nenhum outro existir - e jamais em função de uma objectivo ou fim, enquanto projecção dos opostos psicológicos. E isso faz toda a diferença. A via do apego, a via da imagem, da sensação, são condutoras ao reforço da ilusão e do sofrimento. Por tudo isso consiste numa mensagem que aponta para uma atitude de questionamento geral e de indagação sobre os fundamentos da separação que conduzirá finalmente ao silêncio interior onde o sentido da unidade e do sagrado se fazem ouvir.

   Contrariamente ao que se instituiu tanto pela prática duma tradição secular, como mesmo da cerimónia  religiosa, o sistema vigente debruça-se sobre si próprio, ou seja, peca pela excessiva ênfase que confere à desordem e à dicotomia, para completa subversão de uma ordem cujo carácter se adivinha indiscutivelmente superior a toda a elaboração meramente mental, empírica e fortuita, tendo-se tornado, por isso mesmo,  dessacralizado. Contudo, a realização do “Princípio” aqui enunciado não deve brotar do exercício da vontade nem da arquitectura da imagem, mas eclodir, ao invés, de uma qualidade singular  de discernimento, de uma percepção  não diferenciada e responsável mas dotada de um carácter absoluto; da Ideia, que não se circunscreve ao terreno do pensamento por si só mas existe para lá de toda a atrapalhação e anseio fútil por soluções, aquilo que, em última análise, constitui um simples produto da criação subjectiva do temor e do hábito conformista, ou seja, é anterior à projecção e assertivo por ser o que é (veículo da transcendência).

   Tal facto resume - sem precisarmos deixar-nos resvalar para os declives do niilismo -  uma certa preocupação por salientar a importância da transformação pessoal bem como fazer ver a total ausência de função que a aparência pode desempenhar nesse processo de transformação da consciência, e o quanto o factor "vontade" isoladamente, não concorre para a mudança daquilo que É tal como É -- íntegro em si mesmo -- e que, qual espéculo da nossa condição original e eterna, requer somente que desenvolvamos uma apurada sensibilidade para com a sua totalidade de sentido e amplitude fenomenológica.

   A verdade do nosso caminho é, sob variadíssimos aspectos, única, porquanto se reporta à nós mesmos: nós que o criamos de modo consciente ou complacente com a distracção; nós que o trilhamos melhor ou pior; nós que temos que optar e proceder a escolhas, que tanto mais difíceis se anunciam quanto mais tendemos a abordá-las de forma frívola, etc. Contudo, engloba ela um conjunto de disposições que cumpre ter bem presentes a fim de não incorrermos no risco de a tomarmos pelo que não é, caindo desse modo num devaneio ingénuo, ou de cedermos às garras da ambição cega e insensata. E nisso somos constantemente postos à prova no que de mais inconsistente nos caracteriza, sob o peso das nossas ânsias de realização (quer sejam melhor ou pior fundamentadas)  aspecto crucial esse que nos conferirá “têmpera” ao carácter e determinará a firmeza interior, sem os quais não poderemos suplantar os estágios superficiais como a vaidade e o temor por meio dos quais somos levados a vacilar ao longo da jornada. Trata-se assim de uma verdade tão intemporal quanto é certo sermos nós a ter que (mais tarde ou mais cedo) aprender a resolver os nossos próprios problemas e a responder aos nossos dilemas e paradoxos, desenvolvendo para o efeito a necessária intensidade de aplicação, de abertura e de entrega que eles requerem, tanto sob o ponto de vista moral como ético.

Essa provação, repito,  constitui um desafio imbuído do mais elevado propósito: o de nos levar a encontrar “respostas” que a um só tempo compreendam a magnanimidade da inteligência e da sensatez presentes em toda a questão que requerem equilíbrio e a atitude correcta, respostas que devem brotar de um espírito de desprendimento, de espontaneidade e aceitação de si próprio, na sua condição natural desafetada, e que requerem unicamente uma atitude de elegância e de recusa da violência e do esforço.

   É um tanto mais fácil (e nem por isso menos legítimo, diga-se de passagem) seguir a via do ajustamento ao séquito, às massas, por a noção de pertença nos garantir sensação de alívio e segurança, e nos satisfazer a complacência com as suas promessas de reconhecimento e de louvor. Muito poucos se sentem inclinados a deixar-se assaltar pela dúvida, a deixar-se ficar aparte, em silêncio, já que nada disso garante qualquer das anteriores prerrogativas. No entanto, é nesse terreno que toda a semente de descoberta  deve germinar, em que nós nos capacitamos de igual modo a abraçar um mais pleno sentido de ser e de viver. Por outras palavras, a vida - que em coisa nenhuma tende a ser estática nem permanente - sempre nos empurra, por obra de contingências múltiplas, eleitas no fulgor do propósito pessoal, para um despertar do adormecimento deste doce embalo que é a letargia dos sentidos, rumo a uma condição cristalina, qual gema rara e sem jaça que só reflecte a luz uma vez perfeitamente polida.
Muitos podem ser os caminhos conquanto um só seja o processo do viver;  esse somos nós que temos de apurar, por uma “resposta” adequada, dada no nosso próprio ritmo e segundo a nossa capacidade.

  Não pode subsistir sabedoria sem virtude (e o oposto é passível de ser válido); do mesmo modo, porém,  também não se pode esperar criar harmonia se não usarmos de uma atitude equilibrada; o que infere no facto de ambos os aspectos poderem somente ser sustentados numa postura sensata e concisa, isenta de arrogância e presunção e sobretudo desse veneno tão comum da incoerência – que consta de dizer uma coisa e praticar outra totalmente contrária! Efectivamente o desejo que brota da percepção dos sentidos não pode, de modo algum, concorrer para o processo de florescimento do que emerge basicamente do desenvolvimento da integridade da maturidade. O conhecimento a que me refiro não é o conhecimento que vem nos compêndios. Contudo, o conhecimento está onde depositarmos a nossa obstinada persistência a fim de o descobrirmos, na exacta medida dos nossos propósitos e objectivos!

  Valendo-nos do paradoxo - esse estilo tão característico ao pensamento oriental milenar (os sábios da antiguidade evitavam expor os seus ensinamentos de forma sistemática, preferindo falar por paradoxos, temendo poder desse modo proferir meias-verdades) - realça-se ainda a noção do quanto a virtude decorre (contrariamente ao recurso à observação de regras e à fidelidade a preceitos, que não passam de meros artifícios em meio à magnanimidade do carácter “original” e “incriado” do que é uno em si mesmo), da reciprocidade, da complementaridade e da transcendência subscritas na sua própria dinâmica. A mente sã resulta da atenção para com o pensamento, equilibrada pela acção livre e espontânea, o que não significa uma acção distinta e discriminativa mas tão só natural.

   Torna-se claro que isso endereça o leitor para a necessidade de investigação sobre aquilo com que aqui se depara, a fim de poder intuir o sentido correcto implícito à palavra impressa, confrontando-o abertamente com o exercício diário das suas convicções, dúvidas, incertezas, temores e opiniões preestabelecidas, tanto no plano da realidade pessoal como colectiva - assim como o endereça para a necessidade de uma abordagem  equidistante e experimental que, em todo o processo cognitivo responde pela descoberta da natureza real de todo um  significado situado para lá das noções edificadas sobre o terreno empírico dos pressupostos, da credulidade e do obscurantismo caprichoso.

Talvez, para sermos mais exactos, enuncie uma necessidade que passa comummente despercebida: a de que a felicidade e o bem-estar interior assentam na base duma disciplina  ou higiene sóbria e natural, (destituída de artifícios  e de compulsão), presente no equilíbrio entre a acção, a reflexão e a meditação, mais concretamente entre o natural exercício do raciocínio e a atenção incondicional, disciplina essa sem a qual não poderão jamais resultar uma mente e um corpo sãos, e em que unicamente deve alicerçar-se toda a conduta correcta e  sentido de plenitude. Acima de tudo, ressalta o ditado, que refere: “Não importa o quanto o mundo clame pela transformação ou a despreze; homem, transforma-te a ti mesmo. Desse modo descobrirás teres transformado o mundo!”

  Desde logo  pretendo deixar o leitor de sobreaviso para o facto de que os conceitos empregues, não obstante pretenderem visar o arquétipo e a essência,  não traduzem, de modo algum a verdade que se pretende que veiculem; nunca será demais realçá-lo, porquanto pretendemos evitar toda a artificialidade e  pretensão gratificantes,  tão  caros a todos os modelos de vaidade e autoridade, mais ou menos inconsistentes.
  
  Segundo uma velha máxima, todo o conteúdo profícuo que alcançarmos sem termos despendido um esforço justo para a sua obtenção, não denuncia eficácia, além de dificilmente propiciar o resultado esperado, por não ter sido verdadeiramente conquistado (talvez pela natural e compreensível ausência da correcta intensidade ou motivação, que só pode brotar de um interesse inato, quiçá irreprimível e inadiável). Esse princípio ou lei aplica-se a todas as esferas do nosso viver. Para podermos colher faz-se necessário, antes de mais, que devamos dar - dedicação, entrega, paixão, seja o que for que essa dádiva represente; uma coisa não existe sem a outra, em absoluto. Conseguimos apenas aquilo em que concentramos as nossas energias.

Goethe justificava o dispêndio da sua fortuna da seguinte forma: “Cada predicado que possuo custou-me uma bolsa de ouro. Meio milhão do meu próprio dinheiro, a fortuna que herdei, o meu salário e a enorme renda proveniente duma publicação de cinquenta anos das minhas obras foram gastos para instruir-me naquilo que agora sei. Além disso, observei bastante.”

E no que toca à descoberta do nosso caminho, devemos empenhar todas as nossas energias no uso da atenção a fim de chegarmos a um esclarecimento lúcido da realidade do que nos permeia e cerca; temos de semear para podermos “colher;” precisamos empreender o simples movimento de buscar o novo, estabelecendo as bases do interesse correcto, bem como a compreensão das prerrogativas do sistema, sem o que tal jamais poderemos superá-lo.

   A exposição desta matéria corre, obviamente, sempre riscos de variada ordem, para além do de uma interpretação fortuita e deformada (porque desde logo o é toda aquela que tanto se torna objecto da racionalização que se torna redundante) quando não mesmo o de concorrer para o contrassenso de mover certa propensão para o romantismo. Não é minha intenção competir nem desonrar qualquer outro sistema de crença, estabelecido por seu próprio direito, pois não cabe nos meus horizontes estabelecer qualquer filosofia nem manifestar o menor traço de sobranceria. Não obstante, este testemunho brota, em larga medida, da experiência directa, singular, autêntica e inalienável  de estados de epifania e transcendência que me propiciaram  a base de uma conhecimento directo e de propriedade que, de outro modo, talvez não tivessem eclodido deste modo.

   Por último, mas não menos importante, devo ressalvar que jamais se deve seguir ou aceitar o que vem escrito - neste como em qualquer outro tratado - sem que se desenvolva um bem alicerçado espírito crítico e sem se incorporar uma certa inclinação para um cepticismo saudável e inquiridor, sobretudo por meio duma percepção aguda do sentido de que se reveste. É justamente com base numa disposição desse tipo que se pretende justificar esta alusão; requer-se uma boa dose de interesse aliada a uma não menor capacidade de bom senso para que se possa desenvolver a atitude harmoniosa de compreensão e reeducação pessoal, bem como uma vivência interior íntegra, sem o que não poderemos evoluir em nenhuma esfera do conhecimento ou da experiência humanos.  

                                                                                                                                                                                          
                                                                                                                 Amadeu António
                                                                                                                           2008 
          

Prólogo

   A totalidade inconsciente parece-me ser o verdadeiro spiritus rector de todos os fenómenos biológicos e psíquicos. Ela tende para a realização total e, no que concerne ao homem, à tomada de consciência total. A tomada de consciência é cultura no sentido mais vasto do termo, e por conseguinte, o conhecimento de si-mesmo  é a essência e  o coração desse processo. É indubitável que o Oriente atribuiu ao Si-Mesmo um valor divino e segundo a velha concepção do cristianismo o autoconhecimento é o caminho que conduz à Cognitio Dei.

   Para o homem a questão decisiva resume-se a isto: a coisa toda refere-se ou não ao infinito? Tal é o critério da sua vida. Se eu souber que o ilimitado  é essencial então não me deixarei prender a futilidades e a coisas não fundamentais. Se o ignorar, insistirei para que o mundo reconheça em mim certo valor, por esta ou aquela qualidade considerada como propriedade pessoal: os meus dons, a minha beleza, etc.
Quanto mais o homem acentua um falso sentido de posse, menos poderá sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a vida. Sentir-se-á limitado devido a que as suas intenções sejam cerceadas e disso resulta inveja e ciúme. Se compreendermos e sentirmos que já nesta vida estamos relacionados com o infinito, os nossos desejos e atitudes modificar-se-ão. No fim, só valemos pelo essencial, e se não tivermos acedido a ele, a vida terá sido verdadeiramente desperdiçada. Nas nossas relações com os demais é igualmente decisivo que tenhamos consciência de o infinito se exprimir ou não.

Porém, só alcanço o sentimento do ilimitado se me limitar ao extremo ( remete-se o leitor para o verso 22). A maior limitação do homem reside em si mesmo, pelo que se manifesta na constatação vívida do: “Sou apenas isto!”. Somente a consciência da minha estreita limitação no meu Si-Mesmo me vincula ao ilimitado do inconsciente. É quando me torno consciente disso que me sinto ao mesmo tempo limitado e eterno. Ao tomar consciência do quanto a minha combinação pessoal comporta de unicidade - i.é., em definitivo, de limitação - abre-se para mim a possibilidade de conscientizar também o infinito. Mas somente desta maneira.

   Numa época exclusivamente orientada para o alargamento do espaço vital, assim como para o aumento do saber racional a qualquer preço, a suprema exigência consiste em ter consciência da própria unicidade e limitação. Ora, unicidade e limitação são sinónimos. Sem tal consciência, não poderá resultar percepção do ilimitado - e, portanto, nenhuma tomada de consciência do infinito - mas tão só uma identificação completamente ilusória com o ilimitado, que se manifesta na embriaguez dos grandes algarismos e na reivindicação sem limites dos poderes políticos.

   A nossa época colocou a tónica no aspecto humano visível, suscitando desse modo uma impregnação demoníaca do homem e de todo o seu mundo. O surgimento dos ditadores e de toda a miséria que trouxeram provém do facto dos homens terem sido despojados de todo o sentido do além, pela estreiteza de visão de seres que se acreditavam muito inteligentes. Desse modo, o homem tornou-se presa do inconsciente. A sua maior tarefa, porém, deveria ser a de tomar consciência daquilo que, provindo do inconsciente, urge e se impõe a ele, em vez de permanecer inconsciente ou de com isso se identificar. Porque em ambos os casos permanecerá ele infiel à sua vocação, que é a de criar consciência. À medida que vamos sendo capazes de discernir, o único sentido da existência consiste em acendermos nas trevas a luz do ser puro e simples. Pode-se mesmo supor que, da mesma forma que o inconsciente age sobre nós, o aumento da nossa consciência tem, por sua vez, uma acção de ricochete sobre o inconsciente...

   O significado da vida terrestre e o valor considerável daquilo que o homem leva daqui “para o outro lado”  no momento da morte reside, em parte, no facto de somente aqui, na vida terrena, se chocarem os contrários, razão porque o nível de consciência pode elevar-se. Essa parece ser a tarefa metafísica do homem - embora sem mitologizar ele apenas a possa cumprir parcialmente. O mito é um degrau intermediário inevitável entre o inconsciente e o consciente. Está estabelecido que o inconsciente sabe mais do que o consciente, porém, o seu saber é de uma essência particular, um saber eterno que, frequentemente, não tem qualquer ligação com o “aqui e  agora”, e não leva absolutamente em conta a linguagem que o nosso intelecto fala...

   Quando Lao Tzu diz: "Todos os seres possuem clareza de entendimento; só eu permaneço obscuro e indiferente", exprime o que sinto na minha idade avançada. Lao Tzu é o exemplo do homem de sabedoria superior que viu e fez a experiência do valor e da ausência de valor, e que no fim da vida deseja voltar ao próprio ser, no sentido eterno e incognoscível. O arquétipo do homem religioso que contemplou suficientemente a vida é eternamente verdadeiro: idêntico tipo aparece em todos os níveis da inteligência, quer se trate de um velho camponês ou de um grande filósofo como Lao Tzu.
A idade avançada é... uma limitação, um estreitamento. No entanto, a mim acrescentou tantas coisas: as plantas, os animais, as nuvens, o dia e a noite e o eterno no homem. Quanto mais se acentuou a incerteza com relação a mim próprio, mais aumentou o meu sentimento de parentesco com as coisas.  Sim, é como se essa estranheza que há tanto tempo me separava do mundo se tivesse agora interiorizado, revelando-me uma dimensão desconhecida e inesperada de mim mesmo.           
                                                                                                                                                                                                                                       
                                                                                                         Carl Gustav Jung
   
Introdução

   “Em nenhuma outra coisa na vida creio tão profundamente, nenhuma outra imagem do mundo me é tão sagrada quanto a da unidade, a ideia de que a totalidade do mundo consiste numa unidade divina e de que todo o sofrimento, todo o mal que nela existe reside apenas no facto de já não nos sentirmos individualmente como partes indissolúveis desse todo, do eu se conferir demasiada importância.

   A unidade que venero por detrás da multiplicidade não é uma unidade aborrecida, triste, pensativa, uma figura de retórica. Consiste antes na própria vida cheia de acção, cheia de dor e riso. Podemos aceder a ela em qualquer momento porquanto sempre que deixamos de ter consciência do tempo,  do espaço e da ignorância ela pertence-nos; quer pela sabedoria, ou então quando nos afastamos do convencional e escutamos com veneração e dedicação todos os deuses e a humanidade inteira, todas as eras do mundo. Pois é exclusivamente nisso que, para mim, consiste a vida – num meio termo entre os dois polos, entre as duas colunas mestras do mundo.

   Enlevado pelo seu doce encanto gostaria constantemente de chamar a atenção para o bem aventurado colorido do mundo e lembrar como se baseia na unidade; gostaria de mostrar de que modo o belo e o feio, o claro e o escuro, o pecado e a santidade só por momentos constituem uma contradição - constantemente em transformação, como se acham,  uns nos outros. Para mim, as mais elevadas palavras da humanidade são aquelas poucas em que essa duplicidade se manifesta por meio sinais mágicos - aqueles poucos provérbios e parábolas em que as grandes contradições do mundo são, ao mesmo tempo, reconhecidas como necessidade e ilusão. Lao Tsé elaborou vários desses provérbios em que, pelo espaço dum instante, ambos os polos da vida parecem tocar-se. O mesmo milagre opera-se de forma ainda mais nobre, mais simples e cordial em muitas das palavras de Cristo. Não conheço nada mais emocionante na vida do que o facto de uma doutrina, uma religião ou escola da alma ter elaborado através dos milénios uma formulação sobre o bem e o mal, o justo e o injusto, sempre com maior propriedade e exactidão, sempre a impor exigências mais elevadas com relação à justiça e à obediência, para atingir finalmente o seu ápice no conhecimento mágico de que noventa e nove justos valem menos perante Deus do que um único pecador, no momento da conversão.

   Mas talvez seja um erro, um pecado que cometa, pensar que tenha que servir à promulgação dessas intuições mais elevadas. Talvez a infelicidade do mundo actual resida justamente no facto de essa mais elevada sabedoria se achar sujeita à maior banalização, encontrando-se à venda em todos os becos; no facto de, em toda a igreja do Estado ser pregada, juntamente com a crença na autoridade, na bolsa e na futilidade nacional, a crença no milagre (...)

Talvez essas expressões do mais elevado discernimento e intuição inauditos, subtis e mesmo espantosos, devessem ser cuidadosamente guardados e cercados contra os intrusos. Talvez fosse preferível que o indivíduo, para poder experimentar uma dessas palavras poderosas, devesse arriscar a vida durante anos, do mesmo modo como tem de fazer com relação a outros valores importantes. Este é o meu dilema. Muito se diz com relação a tal questão, porém, não se soluciona o problema.

Para os pensadores asiáticos, mestres que são da síntese, o facto de utilizarmos de forma alternada critérios opostos, confirmando-os ambos e com eles concordando, constitui um jogo habitual de máximo aperfeiçoamento do espírito.

   A religião e a filosofia representam, para as necessidades humanas mais profundas, o mesmo que a moralidade representa para a forma externa de vida, o viver satisfatório e cómodo no seio das regras da tradição e da convenção. Não basta ao homem deixar-se reger pelos usos e costumes, pelo modo de vestir e de se divertir, seguindo uma forma/padrão válida, ou qualquer outro ideal. Nas camadas mais profundas do seu ser ele tem necessidade de ver um sentido estabelecido para toda a sua obra e realização; para a sua existência, vida e inevitabilidade da morte.

   Nos nossos dias podemos observar uma impaciência e decepção generalizadas tanto em relação aos conhecimentos religiosos tradicionais como às filosofias dos sábios; é extremo o carácter da demanda por novas formulações, novas interpretações e justificações. A vida espiritual do nosso tempo é caracterizada pelo enfraquecimento dos sistemas convencionais, por uma busca selvagem de novos significados para a vida humana, pelo florescimento de inúmeras seitas com hordas de seguidores, profetas, fundadores de comunidades e êxito total das mais absurdas superstições (...)

   Mas a nossa vida é um tecido ininterrupto de altos e baixos, declínio e reformulação, decadência e ressurreição, e a todos esses sinais tristes e lamentáveis do colapso da nossa cultura se opõem sinais mais claros, que indicam um novo despertar das necessidades metafísicas, a formação de uma nova espiritualidade, um esforço apaixonado por um novo sentido de vida. E tanto a moderna poesia como a arte contemporânea se acham prenhes desse tipo de sinais. Mas predomina principalmente a necessidade de substituição dos valores desaparecidos da cultura por novas formas de religiosidade e comunhão entre os homens.

   Não devemos subestimar a importância e o valor desse movimento pelo simples facto de, a ladear essa torrente da alma e enlevada por uma sincera aspiração, surgir toda uma panóplia de propostas de mau gosto, artificiais e grotescas, perigosas e nocivas, em que fervilham os videntes e fundadores de seitas; charlatães e impostores são confundidos com santos, a vaidade e a cupidez. Não ousaria traçar os limites entre o francamente grotesco e o quiçá discutível, mas, ao lado das instituições sempre um pouco duvidosas das ordens secretas, das lojas maçónicas, das irmandades, da superficialidade impávida das novas religiões americanas, da inconsciência dos inabaláveis espíritas, encontram-se outras manifestações elevadas, extremamente elevadas como a tradução dos textos sagrados budistas e a ampla divulgação das traduções dos chineses de Richard Wilhelm; o estonteante acontecimento do súbito regresso de Lao Tsé, que, desconhecido na Europa durante séculos, em três décadas apareceu em inúmeras traduções em quase todas as línguas europeias, e arrebatou o pensamento europeu (...)

   Ainda é muito pouco conhecido o facto de terem existido na China grandes filósofos  e especialistas em ética, cujo conhecimento não tem para nós menos valor do que o dos gregos, de um Buda ou dum Cristo. No entanto, o maior sábio da China não foi realmente popular no seu próprio país e ao lado de Confúcio, seu contemporâneo um pouco mais jovem, sempre ficou um pouco relegado à margem. Refiro-me a Lao Tsé, cuja doutrina nos foi legada através do seu livro Tao-Te-Ching. A sua doutrina, proveniente do Tao ( o princípio original do Ser ), poderia deixar-nos indiferentes como princípio filosófico, ou no máximo atrair apreciadores interessados, se não comportasse uma ética possuidora de tal força pessoal,  tão grande e bela que o último estudioso alemão dessa doutrina, para além de ser professor de teologia, colocou Lao Tsé em paralelo com Cristo (...)

   Comparado à imagem que o europeu médio mantém da cultura chinesa, e superficialmente considerado, Lao Tsé quase não parece chinês pela sua vivacidade. De qualquer modo, não existe de facto, entre os pensadores mais conhecidos do Extremo Oriente, outro cujos ideais éticos se achem mais próximos e ligados a nós, arianos ocidentais, do que os dele. Ao lado da filosofia da Índia, distanciada do mundo e muitas vezes excessiva e subtilmente inquiridora, que nestes últimos tempos está a ser de novo tão estudada entre nós, essa sabedoria chinesa parece-nos absolutamente prática e simples. Podemos mesmo adquirir a impressão envergonhada de que este chinês secular reconheceu melhor os valores elementares e laborou, com  maior grandeza e propriedade, para o desenvolvimento da humanidade do que muitos ocidentais entregues aos instintos em meio às suas anárquicas filosofias especializadas e das muitas ramificações degeneradas da acrobacia ocidental do pensamento(...)


“A persuasão não é eficiente; a eficiência não persuade.
O sábio não é erudito; mas, do mesmo modo, o erudito não é sábio.
Não são belas as palavras verdadeiras, nem tampouco são verdadeiras as palavras belas.
Aquele que é chamado não acumula bens; quanto mais para os outros realiza, tanto mais possui;
quanto mais dá, mais tem para dar.
O sentido do Céu consiste em abençoar sem prejuízo;
o do que foi chamado consiste em agir evitando toda a oposição e contenda.”


   Este ideal chinês é de tal forma oposto aos nossos ideais ocidentais modernos, que deveríamos regozijar-nos por possuirmos no outro lado do globo um pólo tão firme e digno. Ridículo seria se, com o tempo, toda a gente viesse a ser educada à europeia ou segundo a moda chinesa. Mas, diante desse espírito que nos é estranho devíamos ter todo o respeito, sem o qual nada se aprende nem se poderá absorver. Lao Tsé tem o mérito de nos fazer ver que, a despeito da divisão do homem sob a forma de raças e culturas, a humanidade constitui uma unidade, dotada como é de potenciais, possibilidades ideais e objectivos comuns.”

                                                                                                                                                          
                                                                                                         Hermann Hesse

       
Prefácio

              O Tao Te King consiste num conjunto de sentenças  sobre  a vida e o ser, escrito na aurora da civilização. Este tratado exibe-nos numa linguagem em torrente, num arrojo e numa exuberância de expressão tais que só podem tomar a forma do paradoxo e da dicotomia como meios mais adequados. Isso porque para os antigos Taoístas  o Real situa-se para lá de toda a medida e expressão, sendo acessível unicamente pela apreensão da mente que permanece em silencio. O maior dom deste trabalho consiste, a meu ver, na qualidade de alongamento da mente que proporciona, que nos desafia a cada passo a expandir as nossas perspectivas acerca da vida.

           Três heranças moldaram o pensamento não só da China como de toda a vasta porção da Ásia antiga; a primeira ajusta o homem ao seu semelhante, a segunda situa-o em meio à natureza e a terceira coloca-o em paralelo com o Absoluto. O Confucionismo e o Taoismo completaram-se mutuamente apesar de, à primeira vista poderem conter aspectos  incompatíveis; e se por um lado o Confucionismo situa o homem em relação  com o seu semelhante, o Taoismo coloca-o numa posição adequada  face à natureza. Uma terceira influência, conhecida como Budismo, apesar de importada da Índia para a China, lidou com a questão do sofrimento humano e a questão do seu destino final.  O ditado popular que reza que "todo o chinês  usa um gorro Confuciano, um robe Taoista e umas sandálias Budistas", contém, portanto, uma  certa verdade.

           Se Confúcio aconselhava as pessoas a trabalhar infatigavelmente pelo bem e pela dignidade do homem em sociedade, Lao Tzu e Chuang Tzu por seu turno acautelavam-nas com relação a toda a interferência excessiva. Na sua perspectiva o ímpeto para mudar aquilo que por natureza é já bom, só aumenta a soma da infelicidade do homem. O impulso por "fazer alguma coisa"  sempre rivalizará em contenda - na nossa natureza - com o  "não fazer demasiado", porém, aquele que conseguir manter um correcto equilíbrio entre ambos, estará no caminho da maturidade social  intelectual e espiritual. O Tao Te King é o primeiro protesto articulado contra a mecanização e a organização excessiva do homem, e, se abriga incorrectas noções acerca da noção do progresso inevitável, não deixa de relembrar que todas as coisas regressam à sua origem; que "ir longe significa voltar para trás".  O Taoísmo refere que vulgarmente o pronunciamento exacerbado da palavra falha onde somente o toque da luz pode ser bem sucedido. O mundo possui lugar à expressão da humildade, da cedência, da gentileza e da serenidade, porém para se poder tirar proveito do seu benefício devemos: Aprender a desaprender aquilo que aprendemos.
                                                                                
                                                                                                                   A. W. Hummel
                                                                         Libraria do Congresso, Washington, D. C


                                                                                                   
     
    
Tao Te Ching

1
Realização da Verdade


Nenhuma verdade passível de ser enunciada constitui a Verdade Eterna!
Nenhuma descrição dela pode revelar-se duradoura ou inalterável.
Inominável, torna-se origem da totalidade de "céu e terra"; 
Pela designação se dá lugar à dualidade
De contrários e acção inesgotável;
Desprovidos de anseios e de intenções apreendemos a sua essência;
Por meio do conhecimento,  do intelecto e  da palavra
Chegamos a apreender as suas manifestações.
Ambos os aspectos derivam de fonte idêntica,
E só se diferenciam pelo nome;
Quando tal mistério se intensifica,
Torna-se portal para o subtil e o maravilhoso.

Comentário

   Toda a problemática da verdade  resume-se, desde logo, ao seguinte: a verdade não precisa de ser proclamada nem publicitada. Se o for será tudo menos verdade, por se encontrar comprometida com a projecção subjectiva. Por outro lado, a palavra, a intenção, a imagem, jamais substituem a coisa! A palavra presta-se ao uso gratuito, pelo que se torna instrumento fácil da demagogia e da retórica, além de ser instrumento precioso para a manipulação e o encobrimento. Para além disso, na eloquência da expressão, a intenção não possui qualquer função; os actos falam por si só.

 Portanto, a natureza última dos fenómenos – ou vacuidade – está para além de todo o conceito e escapa a toda a descrição; nenhuma descrição da verdade poderá vingar. Todos os conceitos que empregamos na descrição da natureza são limitados pelo binómio observador/coisa observada, subjacente ao condicionamento de uma realidade separada do sujeito. Tal condicionalismo assenta (culturalmente) no determinismo filosófico cartesiano, que descreve a divisão fundamental entre o “eu” e o mundo, e que posteriormente veio a tornar-se no ideal da ciência.
   Desse modo, compreender que todas as coisas são, em si mesmas, destituídas de uma independente de “ser”, e não existem por si só, em separado, mas são aspectos de grandezas constitui objecto de um conhecimento supremo.

   A “Filosofia Perene” (designação cunhada por Leibniz) sustenta que o mundo material pode ser apreendido pelos cinco sentidos e pela mente racional, porém, a sua essência – ou conforme nós designamos, Deus - é imaterial e está para além de toda a forma, possibilidade e imagem (imaginação), podendo ser apreendida unicamente pela intuição ou conhecimento directo (sentidos subtis). O Tao, que no contexto da nossa cultura pode grosso modo ser traduzido pelo conceito da totalidade inefável, representa a fonte de toda a manifestação. Não obstante e a despeito dos nossos maiores esforço essa fonte jamais poderá ser completamente expressada ou assimilada nos moldes restritos  das nossas crenças ou linguagem sem ser distorcida, precisando ser directamente experimentada por todo aquele que adoptar a harmonia com as vistas alargadas, por meio do silêncio e da atenção (êxtase, sonhos, etc.), o que completa o ciclo de realização da Consciência Eu.

   Outorgando a nossa autoridade e poder a outros - quer entidades externas quer conceitos subjectivos e abstractos - fazemo-lo numa base constante de desatenção para com o significado de tal acto. Todavia nós somos aquilo que projectamos, o que infere necessariamente em que nos achamos investidos das mesmas faculdades criativas, poder e responsabilidade. Dentro de nós, bem nos recessos do nosso ser, se acha todo o poder que habitualmente (e de forma condicionada) outorgamos quer à imagem quer ao líder ou à divindade da nossa veneração – facto tanto mais passível de se tornar controverso quanto mais formos dados a crer nas múltiplas interpretações deste singular fenómeno da existência, em exclusivo. A Consciência é una e indissociável mas estabelecer diferenciações até ao infinito é uma propriedade que em nada desvirtua ou destitui a sua natureza essencial e que mais se assemelha a um jogo.

 Nos recessos da nossa consciência acha-se a porta para toda a compaixão, desenvolvimento e esclarecimento. Essa porta abre-se a partir de dentro e os seus caminhos conduzem não para longe mas, ao invés para NÓS próprios. Este enunciado nada tem de original pois existem passagens nos evangelhos que o podem corroborar como aquela em que se afirma: “Vós sois deuses” João 10:34  e “Pedi e ser-vos-á dado;” “Procurai e encontrareis;” “Batei e a porta se vos abrirá, pois quem pede recebe, e quem procura encontra, e àquele que bate hão de abrir-lhe a porta” Mateus 7:7. No entanto o seu profundo sentido e o apelo que lança passa, o mais das vezes, despercebido, quando não mesmo convenientemente relegado à exegese de quantos professam doutrinas depuradas e deturpadas de mal e pecado e atributos afins. Na verdade, porém, estamos a abrir-nos cada vez mais a dimensões do ser que nos dão conta de que somos (não co-criadores mas sim) criadores da nossa realidade. Tais conceitos foram infundidos ao tempo do Jesus dos evangelhos, numa tentativa de substituição da velha noção de um “Deus hierárquico, movimentador e sacudidor” pelo conceito de fraternidade – o que deu lugar à noção de “Filhos de Deus,” muito mais acessível à mentalidade dotada de profundas convicções religiosas da época.

   A consciência é altamente proficiente, em todos os aspectos intrincados do seu espectro criativo. A ilustrá-lo temos o fenómeno da cura, que assenta em bases tão mal compreendidas quanto controversas; toda a problemática que rodeia o campo da saúde  começa por assentar na ênfase que a medicina empresta à doença, (que se alça ao exagero) acentuando-a de uma forma quase neurótica, esquecendo desse modo os fundamentos holísticos (refiro-me ao alinhamento, com base numa postura de equilíbrio entre as diferentes expressões do ser; corpo, mente e espírito; pensamento, intenção, acção) em que começou por se firmar. Não importa qual o “agente” a que as pessoas se entreguem na sua crença – o que conta é a convicção e a determinação que consigam (fé). Podem acreditar que é Deus, Jesus Cristo, o dr. Sousa Martins, este ou aquele santo do seu fervor que opera a cura; podem ter confiança no médico (da medicina alopata ou convencional), na homeopatia, na quiropráctica, num regime alimentar macrobiótico, enfim... Na realidade são elas próprias que “movem” ou impelem a própria cura, a despeito duma vasta consideração dos factores envolvidos, que não caberia nesta curta exposição. Ninguém cura ninguém mas  pode tão só propiciar ou influenciar essa cura, e o amor, a expressão da verdadeira aceitação, constituir a pedra basilar da cura. E a fé e a dinâmica inconsciente que põe em marcha dá conta desse exacto mecanismo. Depois, é claro, é considerado como se de um “embuste” ou de um “milagre” se tratasse, consoante a tendência de cada intérprete; todas as variações se tornam possíveis ad infinitum...


   No campo científico, mais concretamente o da física quântica - termo cujo significado etimológico deriva do latim “quantus” (ou quanto, quantificação) e que refere uma entidade indivisível de energia -  (ramo da Física que investiga todo o movimento subatómico em termos de níveis de energia electromagnética, onde se pensa que todas as coisas da vida sejam fundamentalmente não sólidas e existam num campo unificado, ramo esse que veio deitar por terra o determinismo absoluto, introduzindo a noção de probabilidade nas leis de causa e efeito) parece vir provar - não especular mas provar matematicamente, ao nível das ondas e partículas subatómicas - que a realidade é produto da criação da mente - e constitui uma ilusão, portanto, uma ilusão alicerçada no campo das possibilidades, segundo a interpretação do Instituto de Copenhaga. Experimentos levados a cabo segundo o método “duplamente às cegas” (ou dupla revisão por partes às cegas)* vêm por si mesmo provar, de forma  conclusiva embora indirecta, que nós criamos a nossa própria realidade e que esta é um produto da consciência, porque se um experimento só é aceite mediante as rígidas condições que visam afastar a influência do experimentador (razão porque não deve ter consciência do que procura) então deixa perceber implicitamente a dinâmica da sua acção. Os cientistas da física quântica, que podem com maior precisão ser considerados os xamanes da ciência, ao apontarem os factores do desconhecido inerentes à realidade em busca de um sentido, começam finalmente a descortinar a possibilidade deste mundo ser constituído por dois aspectos inalienáveis – o actual, por um lado, e aquele que se acha o tempo todo em estado de potência, pelo outro.

A física quântica tem que ver com o acto de medir ou a atribuição de números e valores em aproximação a escalas convencionais de grandeza-padrão; medição essa que desde logo infere no campo da observação e interpretação humana, e serve de modelo para a acção da criação, uma vez que na justa medida do que queremos e esperamos ou pedimos ou desejamos realizar também vemos implementado, talvez para nosso contentamento, surpresa ou mesmo consternação. Isso forma toda a lei e verdade, porquanto a realidade começa por ser a ilusão do que percebemos e imaginamos – que difere de indivíduo para indivíduo, porque nenhuma perspectiva é partilhada exactamente nos mesmos moldes nem tampouco uma mesma coisa é vista exactamente da mesma forma por dois indivíduos que a observam – o que infere por seu turno indirectamente na existência de “realidades” paralelas e na existência multidimensional de uma ordem infinita de possibilidades e de disposições. Isto vem igualmente derrubar o absolutismo de filosofias e teologias que defendem a inelutável autoridade de leis como a da Causa e Efeito, por meio do que somos confrontados com noções de Carma ou punição e a do merecimento. Não que isso seja completamente distorcido no seu sentido pois que acaba por encontrar eco num fundo de verdade que obtém da parte da interpretação colectiva, expressões culturais, religiosas, etc., mas de uma consideração mal orientada.

   Por outro lado, Deus, ou a veracidade de qualquer questão que transcenda a análise jamais poderão ser comprovados em laboratório, essencialmente porque precisam ser “interpretados” por meio da “estrutura” da concepção.
Por um lado, isso constitui a “ponte” que toda a crença estabelece. A observação é de importância crítica para a definição da realidade e da acção. As “ondas” de luz são convertidas por meio da interacção do observador (quando as frequências atingem os instrumentos) instantaneamente e em simultâneo em partículas, frequências vibratórias que podem de seguida ser amplificadas. Com o observador o processo de “conversão” é análogo. Tanto pode tratar-se do inspirado, ou do crente nas imagens de uma fé particular, como do iconoclasta iluminado; ambos estabelecem a ponte com as frequências incorpóreas do nada em existência, e nesse processo convertem a própria “massa” numa gama de vibrações mais refinada – o crente converte a inspiração em termos de uma “estrutura” da concepção inteligível, (ícone, imagem) e o iluminado em termos de experiência directa pura.
  
   Num outro nível, a noção que sustentamos do divino radica em grande medida na condição da dor e angústia inerentes à nossa condição humana, no afastamento que promove de si mesma. Não decorre necessária nem directamente da alegria, da ausência de temor e de confusão mas seguramente de noções de erro, de culpa, da falta de mérito e da imperfeição, tão profusamente arraigadas na psique que corroboram a sujeição e o sofrimento. Da mesma forma, o conceito da Criação (bem como o da Evolução das Espécies, aliás) permanecerá para sempre um mito, uma teoria não comprovada, e em alguns casos, objecto de falsa corroboração. Nesse sentido, toda a manifestação poderia constituir Deus em busca de si próprio, pois que enquanto totalidade necessita da relatividade que o tempo /espaço facultam a fim de poder conhecer-se em todo o seu esplendor e magnificência. Nesse âmbito, a divisão e a separação têm por objectivo o realce da relatividade e a singularidade da experiência.

   Mas numa perspectiva mais terra a terra, conforme referi atrás, Deus constitui mais um lugar-comum, um cliché, uma projecção dos nossos temores e esperanças, à imagem, portanto, da nossa condição. Nessa medida somos nós que o criamos e não o oposto porquanto a evolução dos deuses representa fielmente a evolução da consciência humana projectada para o exterior. Não se trata de cinismo nem de negação tampouco, mas de uma constatação equidistante com relação a toda a paixão e crença irracional. Na mesma medida assume, entre outras,  a projecção de aspectos de uma ambivalência paternalista e chauvinista a encabeçar noções como a tutela,  o juízo e as noções de castigo e de recompensa - binómios que propiciam tanto o recurso à autoridade de quem diz saber, como a desresponsabilização e o desencorajamento e também a consequente fuga aos problemas, pela parte dos acólitos. Paradoxalmente, porém, ** assume também a representação do nosso potencial, uma vez que pode ser tudo aquilo de que dermos testemunho na nossa vivência pessoal. Todavia creio que nada daquilo que foi referido anteriormente sofrerá qualquer corroboração fora dessa dicotomia. A Consciência existe num todo e não comporta qualquer evolução (que compreenderia tempo). Como tal, devíamos tornar-nos “uma luz em nós mesmos” ao invés de penhorarmos as nossas energias  no líder religioso ou no político, no salvador, no governante, na autoridade - que, escolhidos e eleitos por nós, devem necessariamente elevar-se à estatura da nossa confusão.  Abrindo-nos desse modo a um entendimento mais amplo e profundo de nós próprios.

   Assim, a verdade está igualmente estritamente associada a factos, a condições, situações e sentimentos ao invés de conceitos abstractos.  Se formos honestos para connosco próprios haveremos de dar-nos conta do quanto geralmente nos iludimos justificando procedimentos e juízos sob a premissa de que os meios justificam os fins; porém, se detivermos o fluxo interior e prestarmos um pouco de atenção podemos surpreender-nos com as divergências evidentes. Numa palavra, prende-se mais com a abertura para com a Mente (subentenda-se Vida) do que com a actividade do intelecto, e de modo bastante particular, com o alargamento da percepção de nós próprios e do mundo, por meio dum exercício de atenção para com o sentido e verdade dos próprios pensamentos, palavras e actos. O conhecimento da verdade provém de dentro. A obediência a ritos estéreis, a recitação de máximas e textos como prova inequívoca e “superior” de fé mais não fazem que atentar contra a inteligência e desvirtuar o propósito.

   Portanto, e para clarificar  o exposto, o conceito de criador, segundo a distinta abordagem com relação à criação, só faz sentido segundo os velhos paradigmas da religião; ou seja, o próprio carácter de distinção é ambíguo por assentar numa dicotomia. Ora, isso infere automaticamente - não na negação do princípio enunciado - mas na qualidade do que é imanente, inerente à manifestação.

   A aproximação mais exacta que fazemos desse conceito de Totalidade - de forma implicitamente sujeita à estrutura da ideia e da palavra, inscreve-se na singularidade do sentido de presença: “Eu Sou” ou o Si-mesmo, o Self, a Talidade ***- que nos aproxima do legado dos Gnósticos e das Religiões dos Mistérios, sustentadas pelos antigos Caldeus, Sumérios, Egípcios, pelos Gregos órficos e pitagóricos (2) uma vez que a natureza subordinada á nossa concepção geral, formulada nas bases dos actuais paradigmas, se apresenta controversa e mesmo alvo de polémica (a saber, p. ex., a questão da plausibilidade da tolerância divina para com as tremendas injustiça e iniquidade praticadas pela humanidade, imperfeições aberrantes e bizarras e questões afins assentes numa base racionalista) senão mesmo um conduto para a contrapartida da crença, como é expressão inequívoca disso mesmo - a dúvida.
   “Eu Sou” ou sentido de presença esse que representa a nossa Verdade, o nosso caminho, a nossa vida e perfeita liberdade (cuja expressão máxima infere no livre-arbítrio). “Eu Sou” que brota do abandono momentâneo do pensamento errático e da paz e do fulgor que o antecedem, ausência de desejo; a paz perfeita que nada pede, que não abriga desejo de ser nem se agarra à ilusão. “Eu Sou”, por fim, que é referido como sentido nuclear no Salmo 46:10, bem como em Isaías 43:10 onde se alude à Consciência como sendo Una - ou Deus – “...sem que exista outro deus antes ou depois de Mim”.

   Num tempo em que se torna tanto  mais difícil saber onde reside a verdade ou o que será Real quanto mais se desdobram as vozes  a proclamar certezas e “verdades”, requer-se enorme perspicácia a fim de se não deixar conduzir por nenhuma. Pode ser que aqueles mesmos que apregoam “O Verdadeiro” o não tomem por aquilo que representa mas unicamente pelo conceito que dele fazem. E o facto de se repetir sentenças não nos torna argutos. Aqueles que apontam o engano e a ilusão fazem-no do ponto de vista da sua posição e convicção, como única e verdadeira. Ora, a singularidade é a qualidade do que tem por hábito ser uma coisa só, em si e por si mesma, destituída de separação e fragmentação. E que singularidade comporta a afirmação discriminatória? Estarão eles certos de se acharem ao abrigo de seguir “falsos Cristos” contra os quais tão veementemente apregoam?

   Não existe “um só caminho” que seja válido, do mesmo modo que não existe uma só maneira de olhar as coisas,  mas tantas quantas as exigências da nossa experiência o exigirem. O mesmo vale dizer quanto às religiões, porquanto temos a tendência para nos afirmarmos como detentores da mais perfeita e verdadeira expressão religiosa. Bom, o que dizer quanto a isso? Quando vejo menções à superioridade de certos “caminhos” de realização, religião, aprendizagem e valor isso suscita em mim um misto de desconfiança e riso. Se alguém vos disser que só existe um caminho verdadeiro não acrediteis; também deveis poder examinar o que aqui é referido de forma crítica e profunda, sem o aceitar com leviandade. Se isto contiver alguma verdade - e para o poderdes apurar deveis apreender o alcance de cada proposição - então seguramente será capaz de resistir aos abalos da inquirição e da dúvida.

Temos o péssimo vício de acreditar que a ideia, o intelecto,  constitua sinal máximo de distinção e conhecimento, mas tal só evidencia a profunda credulidade e ingenuidade  (quando não mera pretensão mesmo) com que abordamos a complexidade da existência. Por outro lado, não é errado sustentar crenças e práticas religiosos sectárias, em absoluto, se com isso estamos a atender a um ímpeto interior inolvidável de aperfeiçoamento – segundo a óptica daquilo em que acreditamos e o nosso próprio ritmo; muitos elevam-se verdadeiramente pela via da observação do culto dos mais variados arquétipos e mitos conseguindo desse modo a realização dos mais perfeitos padrões (tanto de conduta como de equilíbrio) de moderação, firmeza de carácter e de saúde, quer mental, quer mesmo física. De resto, não é possível existirmos sem acreditarmos; tal caracteriza de forma singular a nossa existência. Mas, basicamente, não existe uma única “crença verdadeira” que seja superior às demais. Isso corresponde à mais crassa distorção e estreiteza de vistas que conduz invariavelmente ao ódio, à segregação, à violência e a formas análogas daí decorrentes. Todas essas formas de crença, todavia,  expressam um corpo mínimo fundamental de verdade e se prestam a servir de reflexo à unidade implícita à diversidade.

   A consciência repousa na sua inteireza em nós; é isso precisamente o que os textos litúrgicos dos diferentes credos atestam, ainda que por meio de metáforas. Assim, devemos abrir-nos  a todo um sentido novo disso mesmo pela noção de que a separação é ilusão que aponta para uma realidade de implicações infinitamente mais vastas. Do mesmo modo podemos inferir que a crença numa figura tutelar (que a corresponder à imagem, deveria parecer demasiado estúpida, obviamente, mediante as vastas contradições manifestas) que controla as nossas vidas de forma caprichosa e irada não passa de mera projecção da nossa psique, repito, e não existe em absoluto enquanto tal. Somos nós os únicos responsáveis pela criação da nossa realidade e experiência; isso é facto inequívoco e incontroverso, muito embora nos possa passar inteiramente despercebido, pois nós somos essencialmente consciência e a consciência não comporta divisões nem qualquer separação. Tampouco existe qualquer elemento que seja exterior à consciência nem bem que lhe seja superior pois todo o bem refere nós próprios. Não somos nem sequer co-criadores, pois isso inferiria na limitação de se conceber a existência dum agente externo que responderia pela outra parte, e equivaleria à imposição dum tremendo bloqueio na nossa liberdade original!  Em termos de consciência não existe co-criação alguma; a consciência É Tudo (e é anterior mesmo à essência ou espírito). Ao ser Tudo não comporta qualquer separação entre acção e essência. Também não inclui nenhuma expressão que seja mais elevada ou melhor do que outra, pois tal discriminação é uma fabricação dos sentidos, que se presta à possibilidade duma experiência mais pura. A consciência assume variadíssimos aspectos e estende-se por inúmeras áreas, porém, em si mesma não constitui coisa nenhuma propriamente. No entanto, toda a manifestação brota a partir dessa “Coisa Nenhuma”. Sendo assim, (ou seja, se não existe separação) então nós e a consciência somos uma só coisa, que anula as noções de Deus pai ou mãe; um EU SOU, sem limites, porquanto a liberdade é intrínseca à consciência.

   Nesta imensa rota pela busca da nossa verdadeira identidade, em que tudo acontece por ciclos, escolhemos esquecer a “condição original” a fim de encetarmos “caminhos” de auto-descoberta, de forma tão apurada quanto possível, com o claro objectivo de alargarmos os horizontes da percepção,  de modo que nós  formamos o “palco”, os actos e as representações que escolhemos a fim de experimentar a grandeza infinita num mais vasto e variado grau, fazendo-o com base nas perspectivas, expectativas, impressões, anseios e convicções que alimentamos e sustentamos.

   Atrever-me-ia a declarar, em termos mais poéticos, que o universo é obra da Inteligência Cósmica ou Consciência Infinita, e constitui como que um pensamento, numa extensão do estado de sonho, uma espécie de projecto de arquitectura multidimensional;  objecto, em simultâneo,  da beatífica acção de infinitas expressões da Essência (Espírito) em perpétua expansão, obra do afeiçoamento de entidades de consciência que o moldam e formam, e depois cindem em divisões menores de consciência, representam roteiros, fundem, separam e recriam ad infinitum sem jamais perderem as propriedades originais, do que resultam supernovas e outras formações estelares visíveis como pálidos reflexos.

   A Totalidade permanece, pois, um mistério inapreensível no que toca àquilo que ultrapassa a estrutura das nossas concepções antropológicas e antropomórficas (3) e potencial alvo de especulação infrutífera, e deve-se isso ao facto de não comportar paralelo, i. é., não ser duas coisas distintas, mas uma só grandeza – intemporal! Tal realização implicaria a intrusão de uma dualidade empírica: a da coisa apreendida e daquele que a apreende como distintas. Mas a realidade não é distinta da mente. Nada existe em separado; aliás, tudo o que se tem provado cair na separação mais tarde ou mais cedo se torna factor de degeneração e fragmentação! Seja ao nível biológico, ecológico, social ou individual. A ciência está a começar a comprovar que até a mais pequena partícula de matéria é portadora de consciência (denunciada pela manifestação de um padrão de comportamento específico).

   Todavia, a intenção do autor desta obra centra-se em fazer referência ao princípio que se regula a si mesmo, emana de si mesmo e se regenera como totalidade e fonte de toda a Verdade, a que chama Tao.

   Mas, do mesmo modo que a Verdade não reside na palavra nem no conceito criado pela mente, também a liberdade que dela decorre não advém por nenhuma forma unilateral de representação porquanto o pensamento (que prevalece na base da nossa consciência dialética) não é capaz de a realizar, sem projectar um contrário para o que é, por acção da dualidade psicológica; o sentido que lhe confere há de ser sempre proporcional à “medida” que emprega como bitola na conceptualização; de certa forma isso também  não deixa de tornar a Verdade como matéria inquestionavelmente pertencente ao foro do transcendente.

   Nenhuma descrição poderá, portanto,  traduzir a verdade inefável e absoluta sem a trair. A palavra - que tanto pode prestar-se a transmitir a sinceridade quanto o embuste - serve para distinguir e para clarificar determinada exposição, porém, facilmente pode dar origem à abstracção e à complexidade, pelo que não a devemos tomar como fonte de autoridade, antes duvidando dela enquanto procuramos perscrutar para além da estrutura em que assenta, sem  aceitarmos  aquilo que se propõe representar.

   Diante desta demasiado extensa exposição ressalta que de nada vale especular a respeito do intangível, se com isso nos desviarmos da nossa responsabilidade de auscultarmos  as razões  da ilusão, da dor e do sofrimento.
   Se adoptarmos os meios adequados jamais experimentaremos o arrependimento e poderemos ser conduzidos à realização desse potencial que beneficiará todos e cada um.


* Um tipo de pesquisa que tem por objectivo impedir que o experimentador tenha conhecimento directo de qualquer informação crítica para a experiência, a fim de evitar a deturpação da mesma, segundo o conceito de que uma vez presente qualquer expectativa de resultados, por parte do experimentador, devido a que tenha eleito e tomado determinadas escolhas e decisões, não mais seja capaz de usar da objectividade necessária com relação aos resultados. Com tal propósito pretende-se proteger o experimento do efeito placebo, e como o experimentador é parte activa na sua criação, deve imperar uma circunstância de não manipulação

** Realce-se o paradoxo porquanto para respondermos de forma  cabal a todo o dilema precisamos aceder à dinâmica de ambos os dois aspectos aparentemente contraditórios referidos no paradoxo, sem o que qualquer resposta deixará de ter qualquer eficácia, mais constituindo uma continuidade diferenciada.

*** Talidade, ou a verdadeira natureza dos fenómenos; tal como são, decorrente do Budismo.

2
A Origem dos Contrastes

Quando a beleza é ostentada,
Torna-se  origem de fealdade.
Quando se  reconhece o bem
Como aquilo que é subjacente ao bom e ao agradável,
Isso torna-se causa de padecimento de um mal.
Ser e "não-ser" complementam-se um ao outro,
E alternam entre si;
O fácil e o difícil definem-se entre si;
Alto e baixo acompanham e contrastam com o oposto;
A existência dá lugar à não-existência;
Acima e abaixo formam consciência relativa;
"Cumprido" e "curto" são relativos;
Tom e  ressonância  criam a harmonia;
Situar-se adiante ou atrás dá a ideia de posições distintas.
Por isso é sábio aquele que se atém à não-acção,
 E trata as questões sem interferir no seu curso.
Não conduz nem prescreve orientações,
Mas ensina por meio da acção e do silêncio.
Aceita a corrente natural das coisas, bem como o seu declínio
E nutre-as sem delas se apossar,
Pela compreensão de que todas as coisas mudam
E eclodem de modo natural, no seu devido tempo.
Sem que uma única deixe de se revelar e desenvolver.
Age sem intenção e não sustenta expectativas,
Nem noção alguma de pertença ou de alcance de resultados.
Uma vez empreendida a tarefa, abandona a questão.
Justamente por não reclamar qualquer crédito,
Não é desacreditado.
 Desse modo o seu ensino perdurará e será tido em elevada estima.


Comentário

  Duas observações distintas faz este versículo: Uma, que é tratar a natureza relativa da abordagem mantida na base do espírito crítico – a subjectividade com que abordamos o viver e dos aspectos do ser, de que decorre toda o sentido de separação, sofrimento e dor. Outra, que é subjacente, é a de traçar todo um quadro para o espírito de unidade acedido por uma abordagem holística, ou seja, não sectária nem parcial mas abrangente por circunscrever todo o acto numa criatividade caracterizada pelo não-restrito. A primeira inteiramente legítima e natural e a segunda a circunscrever a anterior e conferindo-lhe um sentido de grandeza e valor inato.

Não se pode simplesmente abrigar noções de arbitrariedade e dispor-se paralelamente a buscar a verdade porquanto não a realizaremos como uma coisa distinta e separada, enquanto conceito abstracto - que, com a busca sempre nos mostrará o dorso (porquanto a busca se apoia primordialmente na dicotomia formada pelo pensamento e pela imagem). Munidos da afirmação e da negação dos opostos só poderemos deparar-nos com o reflexo das nossas projecções que brotam da insatisfação, do temor e da fantasia.
   Unicamente pela realização “directa” e intuída da unidade por detrás dos contrários psicológicos e do pensamento poderemos perceber o Real e as suas qualidades; não por meio da categorização nem da sistematização mas unicamente por meio da união dos contrários psicológicos, e da consequente negação da aparência.

   O conhecimento procede, em grande medida,  da comparação psicológica; esta, por sua vez, consta de um processo  subjectivo (relativo ao sujeito às diferentes circunstâncias em que se acha bem como à sua situação num tempo e espaço definidos) que conduz à abstracção, à dualidade, à contradição. Se pudermos suplantar toda a intenção ingénua através da compreensão da natureza de todas as coisas, sujeita que se acha às leis causais da mudança, designadamente, aquilo que, aparentando liderar, que sob uma outra perspectiva pode também seguir atrás - então, o que fizermos não será fácil nem difícil,  maior nem menor, mas acção total, livre, empenhada, criativa.


3
Causalidade

Se não se  lhe exaltar o mérito,
O povo alhear-se-á da rivalidade e da contenda.
Não valorizando as coisas preciosas,
Manter-se-ão os homens alheios à cobiça e ao roubo.
Não expor considerações sobre o desejável,
Poderá conduzir as pessoas a manter-se alheias à confusão.
Assim, o sábio domina enfraquecendo no homem o desejo
E assegurando-lhe a subsistência.
Enfraquecendo as suas ambições,
E robustecendo-lhes a firmeza de carácter.
(pureza de sentimentos)
Desse modo chega-se a possibilitar
Que prescindam do conhecimento e do desejo de ser.
(inocência)
Se ensinarem os espíritos sagazes a ousar agir sem esforço,
 (decorrente do conhecimento dualista)
E praticarem a não-afirmação em meio à acção, 
(deixar ser)
A ordem poderá ser restabelecida.


Comentário

   “Não exaltar noções de mérito” pretende realçar a tendência para a orientação positivista com as tão falaciosas distinções de superioridade intelectual que tanto inebriam como embaraçam a sociedade nas suas diferentes expressões de filosofia e de regência, condicionando desse modo as consciências a os padrões de avaliação, interacção e comportamento e distorcendo e viciando-os. Contrariamente, é encarecedor enaltecer as qualidades do indivíduo ao invés de lhe apontarem defeitos e soluções (ao jeito da dialética de Hegel,* que se traduz, grosso modo, pelo postulado da tese, antítese e síntese) sem jamais se escavar suficientemente fundo até às causas ou razões subjacentes a condutas e inclinações. Assim, de nada adianta punir ou condenar, se não se descobrirem essas raízes. Porquanto aquilo que somos é, em certa medida, um produto das circunstâncias; mas o bem e o mal dependem dos factores da nossa compreensão ou desordem, tanto individual quanto colectiva.

*Curiosamente, contrariamente a Hegel, para quem se traduzia pela síntese dos opostos, a dialética em Platão tem um sentido de método de divisão, um diálogo entre pessoas comprometidas com a busca da verdade, enquanto em Aristóteles assenta na lógica do provável, quer dizer, é constituída por um raciocínio não demonstrativo, propenso ao silogismo, que em vez de partir de premissas fidedignas, tem como orientação premissas prováveis, ou o que é admitido e parece ser aceite pela maioria ou pelos “académicos.” Ora, a finalidade desta visava não a verdade mas a demonstração, a argumentação.

   Se não adulterarmos o sentido de valor, subvertendo-o como o fazemos ao da utilidade, da função e das premissas consensuais mas preservarmos a humildade, reduziremos o risco de rivalidade e conflito. Se formos  flexíveis sempre poderemos reter um sentido de dignidade, fortalecer o carácter e obter a compreensão da relatividade de todo o conhecimento, em meio a qualquer situação. Não agiremos com base na reacção mas, com atenção, preservaremos a harmonia interior e a satisfação. O cultivo do discernimento robustece a firmeza interior e leva ao esmorecimento da volúpia e da puerilidade. Refiro-me não à atenção sobre o exterior em concreto mas mais para com o nosso íntimo – sobre os nossos próprios processos de pensar e sentir que se acham na base de toda a identificação. É claro que ambos podem achar-se contaminados pelo preconceito mas este em particular visa a fonte da ilusão primordial. Assim, chega a exercer verdadeira influência aquele que procura esclarecer os demais, ao invés de os tentar convencer ou persuadir.


4
Abertura de Espírito

O cultivo do caminho da virtude  brota do vazio interior.
No entanto, torna-se causa de acção inesgotável.
Através do seu uso cuidamos de nos resguardar
De tudo quanto alcance a demasia.
Conquanto insondável e profundo,
Tal estado revela-se como essência de toda a acção perfeita.
Por meio da sua prática poderemos:
Chegar a suavizar toda a aspereza,
(esforço, resultante do conflito)
Desatar todo o emaranhado,
(confusão)
Harmonizar todo o esplendor,
(entusiasmo, euforia)
Empregar  compreensão  para com os outros,
E reunir o mundo  num todo.
Oculto no subtil e imperceptível,
O Sentido prevalece na pureza.
Ignora-se quando ou como surge
Mas assemelha-se à Existência Original.


Comentário

   O vazio da abertura interior significa aqui justamente a plenitude do sentido de presença (ou transcendência do pensamento, o centro a partir do qual sempre consideramos ou atendemos a periferia), decorrente da negação natural e sadia, isenta de motivo, de toda a afectação do conhecimento dualista e separativo, e que resulta da profunda inquirição sobre a nossa natureza (embora não da acção da vontade nem do desejo, todavia). Somente a pureza desse estado, que basicamente assenta na atenção não discriminativa nem direccionada,  poderá suplantar a cadeia da causa e efeito sediada no pensamento primordial "eu".

   Um recipiente vazio sempre se presta à utilização; quanto mais ao uso se prestar mais  disponível será. Uma vez cheio, será de relativa valia. Do mesmo modo, só aquele que permanece "inculto" e "vazio"  (a saber, com relação ao conhecimento psicológico fragmentado e  da dicotomia resultante da acção do pensamento) pode prestar-se ao esclarecimento e ao verdadeiro auxílio. Uma outra analogia dá-nos conta de que o que se acha vazio pode sempre receber (o novo), ao  contrário daquele que permanece cheio! (Veja-se nisto uma analogia idêntica à do dito evangélico de quantos alcançaram a sua medida)

Só a percepção procedente da higiene mental pode revelar a natureza prístina original e a beleza subtil destituída da afectação do conhecimento separativo - a percepção do falso como falso e da verdade em meio ao falso.  Não permitir que as impressões alicerçadas na dicotomia do eu ganhe raízes é um processo que exige toda uma corrente de atenção destituída de sentido e esforço. Se cultivarmos o vazio interior  pela compreensão (da relatividade concernente a todo a categorização positiva) obteremos clareza de entendimento e preservaremos a liberdade original.   O mecanismo da acção desse estado não é causal e não faz fronteira com nenhum outro, sendo, portanto, destituído de princípio e fim.

   No plano científico, com os novos paradigmas que surgem, designadamente no campo da biologia e da cibernética, podemos traçar um paralelo empírico, com o enunciado pela Teoria de Santiago por exemplo, que, ao identificar o processo cognitivo com o processo duma visão unificada da mente,  matéria e  vida, refere não ser o cérebro imprescindível para que a mente se ache presente. Qualquer bactéria ou planta, a despeito de não possuir  cérebro dispõe de mente. Os organismos mais simples são capazes de percepção e, portanto, cognição. Muito embora não sejam capazes de ver, ainda assim podem perceber mudanças no seu meio ambiente, como diferenças entre luz e sombra, quente e frio, concentrações mais ou menos elevadas de substâncias químicas e coisas semelhantes. Na nova concepção da cognição o processo do conhecer é, pois, muito mais alargado que o do pensar, envolvendo percepção, emoção e acção, o que constitui todo um processo de vida. No domínio humano a cognição envolve igualmente a linguagem, o pensamento conceptual e os demais atributos da consciência.

   O cérebro não é, naturalmente, a única estrutura por meio da qual o processo da cognição se processa; toda a estrutura dissipativa do organismo participa desse processo - quer o organismo possua ou não cérebro e sistema nervoso superior. Diz-se existirem casos de indivíduos que apesar de possuírem as cavidades cranianas cheias unicamente de líquido, levam uma vida normal - muito embora subsistam como excepções...  Além disso, recentes investigações dão-nos conta de que o sistema nervoso, o sistema imunológico e o endócrino, tradicionalmente concebidos como distintos, formam, na verdade, uma única rede cognitiva – inteiramente centrada e comandada pela nossa consciência. Outro aspecto passa pela sede das memórias, que não se cinge ao cérebro, mas nas células dos órgãos; senão veja-se os casos dos efeitos que surgem nos sujeitos a transplantes de órgãos, que passam a carregar traços da personalidade dos dadores que por vezes lhes alteram diametralmente a personalidade. A interdependência entre matéria, processo e estrutura permite-nos curar a ferida aberta entre mente e matéria, que tem assombrado a nossa era moderna desde Descartes. Mas nada – nenhuma entidade, nenhum objecto nem nenhum conceito - pode existir em si mesmo e por si mesmo mas unicamente sob o aspecto duma “grandeza superior” à qual está ligado por uma sinergia, e sem cuja interpenetração não se poderia manifestar.


5
Espírito de Imparcialidade

O Caminho do Céu age sem parcialidade,
Pelo que não se poderá referir que o faça com benevolência ou falta dela,
Porém,  trata as coisas sem favor nem intenção
De modo idêntico o sábio,
Ainda que pareça agir com generosidade e benevolência,
Fá-lo de modo imparcial e destituído de intenção,
Pois é amoral e permanece indiferente.
(a toda a discriminação)
A essência do Caminho assemelha-se a um fole de ferreiro
 Vazio e inesgotável;
Quanto mais se desdobra, mais dele brota.
Demasiado discurso conduz à exaustão do sentido;
Melhor será preservar a essência.


Comentário

    Os procedimentos do Céu são misteriosos, justamente por lhes desconhecermos a natureza e os propósitos. Naturalmente, não podem ter qualquer peso no nosso sistema de medidas, pelo que podemos unicamente presumir que os “caminhos dos homens” melhor servem o seu propósito quando mais se ajustam ao sacrifício pela Verdade.

  Humilde é a comum condição de todo o homem nos estágios iniciais da sua vida, antes de conjurar noções de poder e atributos de significado. Tal ilustra o sentido da pessoa em oposição ao da diferenciação individualista. Valor e ausência de valor complementam-se na expressão de um significado que apenas perpassa a percepção fugaz, não obstante poder ser tão palpável quanto rocha sólida.

   O indivíduo sensato detém-se na serenidade da compreensão e não se deixa perturbar de modo infundado.  A afirmação constitui um precursor da negação; demasiado discurso trai a eloquência. Melhor é meditar sobre cada questão, de modo a realizar a justiça e a equanimidade inerentes.

   Faz-se necessário que aprendamos a abeirar-nos das ocorrências despojados do imperativo intencional de as modificar (tendência tão cara a todo o neófito) pois tal instinto representa uma tendência superficial condicionada e uma deformação adquirida pela cultura e pela educação que não corresponde necessariamente aos mais caros anseios da alma, que anela pela descoberta da liberdade e do Real. Nesse ínterim, o requisito primordial constitui a observação, a atenção, que congrega a um só tempo o estado de “aprender” (o desnudar da ignorância inerente a todo o saber empírico) e o silêncio do estado de vazio, em que tudo pode ocorrer. Isso é essencial para que não se detenha nos limites do conhecimento adquirido mas prossiga rumo à descoberta do absoluto.

   Não é sensato idealizar a acção mas agir espontaneamente segundo os parâmetros que a situação permite ou impõe. Se não preservarmos a energia primordial, não poderemos sustentar o vigor para esclarecermos os que de nós se acercam em busca de orientação. Justamente por preservarmos o vazio é que nos revelaremos inexauríveis no auxílio.


6
 Serenidade

O espírito da fonte não perece jamais, mas
Permanece idêntico e age em concordância com a sua natureza,
Sem diminuir nem se deter.
Chama-se-lhe o Princípio Feminino em todos os seres;
O portal desse misterioso Princípio é a origem do céu e da terra.
Se penetrardes o estado de serenidade,
Livres de todo acervo da dor sereis
E o seu poder prevalecerá de forma íntegra e duradoura.


Comentário

   À semelhança do vale abrigado e fértil, o estado de vazio é sereno e desse modo preserva a sua energia. Desde que vigor e serenidade não possuem um padrão definido nem traços contrastantes, não poderão ser descortinados por meio do uso dos sentidos. Se nos recolhermos ao estado meditativo, a mente deixará de reforçar a diferença entre estados de existência análogos ou dissemelhantes e assim não se verá extenuada. O acesso para o conhecimento do coração reside exactamente na raiz da dualidade; no que é – só que por uma abordagem assente na atenção, no discernimento do sentido de presença.



7
Abnegação

O Céu é eterno e a Terra permanente.
Qual será o segredo da sua durabilidade?
Deve ser por não viverem para si mesmos que prevalecem.
Assim também o sábio prefere considerar-se por último
Permanecendo, desse modo, adiante.
Não leva em consideração a sua pessoa
E desse modo prevalece são e salvo.
Não será devido ao desinteresse que nutre por si mesmo
Que  os seus propósitos se realizam?


Comentário

   Este capítulo serve de transição entre a exposição puramente cosmológica e referente à criatividade universal do Princípio ( referidos nos versículos 4,5 e 6) e a questão da ética (nos dois capítulos subsequentes).

  Em última instância, viver em função de si próprio radica na contradição, pois ninguém é uma ilha em si mesmo e se tal condição circunscrever a separação então também falha no objectivo pretendido de considerar o sujeito. Por outro lado, a via da ausência de esforço e conflito traduz-se na mais directa via para a consecução de tal realização; a via da atenção para com o íntimo revela-se verdadeiramente eficaz onde a compreensão impera como a ponta angular, o cerne da efectiva acção.

   O homem sensato não precisa imitar posturas, mostrar-se compassivo, empreender grandes façanhas, ritos, cerimoniais, nem idealizar métodos a fim de se desenvolver espiritualmente, pois sabe que tudo o que é capaz de apurar sobre a sua natureza e se manifesta através do pensamento e dos sentidos - a par da sua inteireza de ser – se reduz a zero. Contudo isto refere precisamente um paradoxo porquanto se pode inferir na dicotomia entre “integridade ” e “ser íntegro”; ora, o aspecto central reside na percepção. Por não considerar as coisas em função de si próprias, mas de forma impessoal é que o homem sensato permanece como reflexo daquilo por que se interessa. Desapegado, permanece íntegro; por ser destituído de interesse próprio, realiza-se e perdura.


8
 Pureza Original

A Justiça Superior assemelha-se à água corrente,
Que tudo beneficia sem exclusão nem rivalidade.
A água aloja-se nos baixios desprezados pelos homens
E por isso situa-se próximo à Essência.
O melhor dos homens encontra no viver a felicidade da vida
E o lado bom das coisas.
A Excelência da mente reside na consolidação da paz e da serenidade.
Para cultivar a aprendizagem mergulhai nos recessos do coração.
Nas associações com os outros  procurai as pessoas dotadas de virtude.
No falar sede sinceros e honestos.
No governar preservai a ordem.
Nos negócios privilegiai a competência.
Nas acções escolhei o momento oportuno.
Desse modo evitareis rivalidades com os outros
E não entrareis em confrontos.
E quando dessa forma um indivíduo não questiona
A humildade da sua posição,
Permanece livre da contradição e da acusação.

Comentário

   Característica de “bem” superior, é aqui referida segundo a ideia da atenção, da abnegação e da pacificação. Atenção indiscriminada que constitui a verdadeira medida dessa abnegação (sem o que não passará de pau de cabeleira para o cultivo  da vaidade) e espontaneidade. Não voluntariedade nem tampouco discriminatória em termos morais.

   Justiça é sinónimo de sensibilidade, capacidade de pensar no outro como em si mesmo com inteireza e carácter; num todo! Tudo o que, em larga medida reside na abnegação e na aceitação de si próprio, tal qual se é. Não deve ser apontada na sociedade (como tudo o mais, aliás) enquanto factor absoluto se não brotar de um posicionamento e de uma relação individual correctas. A justiça, à semelhança da compaixão, da ordem e da verdade, é mais um aspecto que refere a compreensão, a atitude do indivíduo; só depois é um direito social (a sociedade é o conjunto dos indivíduos que a formam e permanece pois uma entidade mais ou menos abstracta enquanto unicamente o indivíduo é real). Assim, onde começará a justiça que se almeja implementar fora senão dentro de cada um – na sua atenção e compreensão, ao invés da reivindicação e da revolução?

   Na verdade, porém, quando os valores sociais tendem a ser afirmados em detrimento do indivíduo, distorce-se o seu espírito e implanta-se  o despotismo – seja no tipo de regime político que for. Por outro lado, quando a ordem social e a norma se tornam primordiais assistimos ao declínio da cultura e da educação; o indivíduo passa a ser encorajado a confiar no sistema, na sociedade, ao invés de confiar em si mesmo e a tornar-se responsável. Mas o indivíduo não aprende a confiar meramente por o instigarem a confiar em si... È preciso implementar o terreno adequado e não somente dizer para confiar e depois actuar em prole do sistema. A confiança é mais importante do que as habilitações e do que a conquista porquanto nada há que não se consiga com profunda confiança – aí reside o elevado sentido do valor que lhe associamos. Consequentemente, as instituições proliferam junto com o acto representativo e tendem a substituir a acção espontânea individual e a fortalecer a dependência externa, o que decididamente contribui para o empobrecimento do próprio bem como da comunidade no seu todo.

   Aspecto igualmente fulcral referido neste versículo é o de empenharmos o viver sempre que o adiamos em nome do “melhor”, do “mais nobre”, da segurança futura, etc... Isso não é o viver referido, absolutamente, mas apenas aspectos diferenciados de carência. Tal segurança não passa duma miragem, e não existe em absoluto.  A virtude da vida está em vivermos no momento, com profundidade de sentir e de experimentar – com presença de espírito; está em aproveitarmos a vida agora e não em empenharmos esta rica herança e potencial criativo em nome de ilusões que podem não pertencer-nos, não obstante podermos acreditar nelas. Simplesmente não existem pontos de chegada ou términos. A vida é movimento contínuo, sem fim á vista. O mais das vezes somos levados a crer no resultado de uma vida de empenho e de disciplina, esforço, impelidos pelo zelo de alcançar ou conquistar, e isso comummente faz-nos desconsiderar os demais estágios de evolução de quantos nos rodeiam, quando não desonrar a própria natureza do pensar e sentir, enlevados, como digo, por sentimentos de respeitosa superioridade. Porém, como é frequente descobrirmos por própria iniciativa, cedemos lugar unicamente a uma depressão da motivação. No viver não existe o que se possa considerar em si mesmo como o propósito mais nobre ou a posição privilegiada; isso não passa da extensão da nossa projecção subjectiva. Na realidade existe unicamente uma experiência diferenciada, que não assume aspectos de “melhor” nem “pior” mas é tão só aquilo que é.

   O homem sensato assume posição humilde e cultiva o recolhimento e a atenção pelo momento como único meio para a consolidação da confiança e da paz. Na reflexão deixa-se orientar pela honestidade, no discurso acolhe a sinceridade, nos seus relacionamentos segue a gentileza, nos negócios vale-se da correcção e sentido de oportunidade.
   Justamente por não actuar com vista à satisfação dos próprios fins nem causar conflitos desnecessários é tido na conta de justo em todas as acções que empreende junto dos demais.
   A mente sã não se detém em nenhuma forma de cultivo particular mas expõe-se na sua inteireza; não segue os caminhos da estultícia mas mantém-se una diante do que é, sem formular juízos parciais de certo e errado, bem e mal nem tampouco se queixar nem vitimizar; tal constitui a mais elevada forma de ética. Não permanece nos meandros da simulação nem se ocupa de interesses superficiais mas mantém-se penetrante e acutilante, e não obstante a alteração nada empreende de "profundo". Tal é a condição propícia à eclosão da inteligência.

9
O Meio Termo

É preferível deter a opulência antes que conduza à desgraça.
É impossível manter uma taça completamente cheia
Sem nada derramar.
O melhor é não buscarmos os extremos;
Uma lâmina demasiado afiada
Não pode preservar o gume;
Uma casa cheia de ouro e jade
Não poderá achar-se segura.
Reclamai mérito e honra e facilmente vos arriscareis a perdê-los.
Uma vez terminada a tarefa e realizado o mérito,
Oportuno é retirar-se.
Isto é o que o Caminho do Céu ensina.

Comentário

    A natureza dinâmica de toda esta filosofia depõe maior ênfase no processo através do qual se procura a perfeição do que na própria perfeição em si enquanto tornada objectivo em si mesma, exactamente do mesmo modo como a verdadeira beleza só pode ser vislumbrada por quem complete mentalmente o incompleto.

   Assim, à semelhança de uma vasilha que se torna mais fácil de transportar quando não está demasiado cheia, ou uma lâmina cujo poder de corte se torna mais efectivo se não for demasiado temperada, o melhor é evitarmos o elogio e a má fama a fim de podermos consolidar a firmeza e a estabilidade interior. Orgulhamo-nos de ter conquistado a matéria, e esquecemo-nos de que foi ela que nos agrilhoou. Quantas atrocidades não perpetramos em nome do ideal e do bem!

   Nesta nossa época, os homens clamam pelo que é comummente considerado o melhor, pagando pela indiferença para com os seus próprios sentimentos. Almejam aquilo que é mais refinado, ao contrário do que é nobre; o que está em voga, ao contrário do que é significativo. Certo dito antigo cita que as gentes apreciam pelo ouvido, o que denota falta de apreciação genuína de sentido e por isso nos inclinamos tanto a deixar de perceber o indivíduo em função do colectivo.

   A temperança alude não ao mero domínio da adversidade mas à realização da firmeza interior. É demasiado fácil acomodar-nos se evitarmos tudo o que nos espicace o conforto e a conveniência. Por outro lado, é demasiado tentador devotarmos as nossas energias a uma causa que por essa justa via pode bem tornar-se segregadora de toda a riqueza interior.   
   A “Via Média” é a medida mais eficaz como garante da justiça e da formação interior e a medida indispensável para a realização do Insondável.


10
Harmonia

Não podereis assegurar a unidade de "corpo e  espírito"
Preservando a sua integridade original?
Se puderdes preservar a energia vital mantendo-vos  flexíveis,
Atingirão o estado de inocência próprio da criança.
Ao clareardes a vossa percepção interior
Podereis percebê-la livre de toda a impureza?
Podereis amar o povo e governar o Estado prescindindo do conhecimento?
Podereis permanecer imperturbáveis,
Diante das portas do céu a abrirem-se e a fecharem-se perante vós?
Conquanto pelo uso da inteligência vos possais esclarecer
Na compreensão de todas as coisas,
Não conseguireis permanecer  desafeiçoados e desconhecedores?
O Caminho produz e nutre todas as coisas
E age desse modo sem  reclamar mérito nem possessão.
Sobre tudo preside sem exercer qualquer controle
A isso se chama  "Qualidade da Virtude Suprema".

Comentário

   A criança procura respostas para mil questões que coloca num natural afã de curiosidade. Nós, todavia, acomodámo-nos aos limites estreitos do nosso conhecimento, aceitando-o como um dado adquirido, o que limita um desenvolvimento para “fora da corrente”.
   A noção de harmonia brota da concepção do Todo representado pelas partes, mas que, todavia, é mais do que o seu produto. Sem tal grandeza, qualquer delas, por acção da sua própria natureza, incorre no contrário. O equilíbrio é primordial em todos os aspectos do viver.
   Preservar a harmonia, em qualquer prática de autoconhecimento, é fundamental pois o interior é um com o exterior da acção e das coisas; unilateralidade equivale a risco. 

  Somos aquilo que pensamos, obviamente, mas não só! De igual modo, tornamo-nos potencialmente naquilo a que entregamos a nossa atenção; conseguimos aquilo em que nos concentramos. Mas pela desatenção para com esse facto, perdemos a oportunidade de perceber o quanto somos deformados na nossa integridade por acção da inveja, da cobiça e do ódio. Do mesmo modo passamos à margem da realização do enorme poder que o pensamento contém, porquanto é o instrumento responsável pela realização mais elevada - ou mais ridícula! O homem sensato evita a dicotomia que os contrários psicológicos imprimem. Através da aceitação do mundo expõe-se à Totalidade; por meio  da serenidade torna-se sereno; através da preservação da clareza de pensamento obtém lucidez de espírito; devido à  sua abertura torna-se aceite; por adoptar o benefício incondicional, chega a prestar verdadeiro auxílio.
   No cultivo da serenidade, o melhor é preservar a perfeição do estado original. Para obtermos o insight o melhor é prescindirmos de todo o conhecimento psicológico racionalista. Realizar a excelência sem exercer qualquer cargo de autoridade psicológica é expor-se a sublime virtude.       

11
  Justa Avaliação

Trinta raios convergem para a abertura no centro da roda,
Mas é devido a essa abertura que ela pode ser utilizada;
A argila pode ser moldada numa vasilha,
Porém, é do espaço vazio que depende o seu uso;
Construímos portas e janelas nos compartimentos de uma casa
Contudo, são esses espaços que as tornam habitáveis.
Desse modo, conquanto o tangível possua vantagens,
É o intangível que confere  utilidade e eficácia.

Comentário

          A harmonia de linhas de uma obra de arte reside no equilíbrio entre o que se retira e acrescenta. Desse modo, aquilo que permanece visível e confere sentido de indução é conjugado com a ausência de definições, assegurando-lhe assim a subtileza. Nesse sentido, a parte possui mais valor do que o todo.
Hesíodo dizia precisamente a esse respeito: “Como são tolos por não perceberem o quanto a metade tem mais valor do que o todo”! 

   Eficácia sem compaixão conduz à crueldade e à frieza. Do mesmo modo, conhecimento sem aplicação prática leva à ilusão e ao desperdício.  Definição e sentido são aspectos  irreconciliáveis; porém, na corrente assunção do sentido de valor são habitualmente pouco considerados na sua complementaridade. Considerar o aparente como primordial conduz à perda de equilíbrio e harmonia. A prática do vazio assegura a existência do homem e confere-lhe profundidade, perspectiva e sentido real.

12
Desejo

A combinação das cinco cores cega;
A mistura das cinco notas musicais ensurdece o ouvido;
A mistura dos cinco sabores corrompe o paladar;
A ambição e a competição entorpecem o coração
E podem desencadear paixões incontroláveis;
A procura de bens preciosos incita à cobiça e à loucura.
Assim, o sábio cuida do íntimo
Ao invés de se deixar incitar pelo externo
E prefere aquilo que conserva, ao que provoca corrosão e desgaste.


Comentário

    Os primeiros três versículos aludem à preservação da singularidade da natureza de ser.
A utilidade das coisas, bem como o valor da vida, não é atingida pela realização nem pela abundância ou magnificência, mas pela manifestação de algumas partes e pela omissão de outras; pela moderada e discreta eliminação de todo o excedente. Uma mistura de todas as cores obscurece os contornos; uma mistura de sons pode tornar-se uma cacofonia, etc.

   A apetência da uniformidade aliena do “natural” por deformar a observação; a ânsia pela diversidade corrompe a pureza. Como explicar tal dicotomia?
A busca do refinamento não cegará e não conduzirá ao exagero – bem como à subsequente necessidade de reforma? A ânsia pelo requinte não entorpecerá os sentidos? A implementação da uniformidade (sob a forma de regulamento) não corromperá a singularidade do carácter original? A busca da diversidade também não nos desviará dessa mesma singularidade? Como resolveremos o paradoxo?

   Não quererá tudo isso dizer que a justa medida provém do exercício da atenção focada em nós próprios? É como olhar a floresta e não ver as árvores.  Todavia,  a vida é tal qual se processa.
   Todo o exagero comporta a própria negação do almejado e possibilita que cheguemos a encaminhar-nos para a perda da simplicidade e da autenticidade do sentir. A ânsia pela diversidade comporta a cegueira da semelhança e a perda de todo o sentido  do puro e genuíno. O cultivo do aperfeiçoamento pessoal conduz tanto ao desvio quanto o do prazer gratuito, pelo prenúncio dos contrários psicológicos; comporta a premeditação ao invés do não-saber espontâneo e inquiridor, da honestidade e da pureza de intenção. Demasiado saber (psicológico; relativo a bem e mal; certo e errado) reforça a ignorância básica (da separação do sujeito e da sua qualidade intrínseca de ser) e constitui a prisão da dicotomia presente na escolha, sujeita à aceitação e à rejeição.
O homem sensato atende à flor ao invés do fruto.


13
Firmeza Interior

Devemos  evitar o favor e temer  a honra
Do mesmo modo que a calamidade.
Porque devemos evitá-los?
Porque a condição humilde é um benefício.
Devemos acolher a desgraça com assombro
E estimar a calamidade como a integridade do nosso ser.
Porque devemos acolhê-los desse modo?
Porque uma posição humilde constitui uma dádiva;
Acolhê-la é tão assombroso quanto perdê-la.
A conquista do favor causa apreensão
E a sua perda provoca anseio por mal maior
Mas porque inquietam da mesma forma
É que nós os devemos evitar.
Que queremos dizer com:
"Honra e favor devem ser encaradas como condições a evitar"?
Aquilo a que chamo "eu"-  sede da identidade pelos sentidos,
Torna-se causa de sujeição.
Se não possuíssemos um "eu", que infortúnio nos acometeria?
Por isso, só àquele que honra o mundo como o seu corpo
Se poderá confiar  a custódia do  governo.
Somente aquele que ama o mundo como a si mesmo
É merecedor de ser  seu timoneiro.

Comentário

   Tanto o favor como a desgraça brotam ambos do medo e podem tornar-se causa de humilhação. Que significará isso? Que podemos subverter a ordem ou a justiça mas nem por isso aplacaremos os nossos mais caros anseios, uma vez subvertidos ao temor.
   Devemos aceitar de bom grado a desgraça e o infortúnio, como uma oportunidade incomparável de cumprir um desígnio superior; o de vencermos a inércia da matéria cristalizada pela corroboração do “conhecido”. Os obstáculos servem para desencadear uma resistência natural à reacção condicionada, de modo a que possamos transmutá-los. Se nos esquivarmos à natureza de “ser” e “não-ser” da realidade objectiva, por uma via de menor resistência,   mais difícil tornaremos a eclosão apoteótica da luz da unidade em meio aos opostos; esta é inata e não depende de factor nenhum nem de nenhum agente externo; tampouco de alteração ou modificação, apontando justamente o Si-Mesmo ( o que é como É) Então, poderemos descobrir a sua vertente subjectiva e transcendê-la.

   Todavia, se não aplicarmos o princípio da indução (análogo ao da metáfora do filamento na lâmpada) a um dado desafio e consequente reacção, preferindo ao invés assegurar uma saída fácil e confortável, também não realizaremos o potencial de transformação, crescimento e felicidade que encerra. Esse é o sentido do “abraçar” os obstáculos e as dificuldades. Quanto maior o desafio, mais resistência se requer para fazermos frente à reacção – que pode sobrepujar as nossas capacidades. A supressão de emoções conduz, a longo prazo,  ao estresse; a emoção suprimida é robustecida, a pressão cresce e a situação explode. A reacção produz uma luta momentânea, mas quase instantaneamente acabamos por nos ver livres do que nos assaltava. Ainda consta dum princípio de desatenção e fuga. A resistência (no sentido de uma indução) propicia o efeito penetrante da percepção não-direccionada.

   Aquilo que valorizamos e o que tememos são relativos à estreiteza dos anseios. Ambos procedem de idêntica fonte de preocupação (e comprometimento no terreno da dualidade) pois são igualmente passíveis de provocar esperança e medo.

  O homem comum busca a honra e o sucesso e repudia os seus  contrários; preza a vida  na mesma proporção com que teme a morte. O sábio não considera isso do mesmo modo, pelo que vive com simplicidade. Aceita a falta de importância pessoal e não se preocupa com ganho nem perda. Honra e calamidade procedem da mesma fonte de encadeamento do desejo, mas sucedem-se numa ordem invariável, idênticos  pelas cadeias da separação. Sabe que o bom e o mau são idênticos, no sentido de que tanto o repúdio como o elogio dependem das tendências originadas nas convenções; que as acções são iguais, no sentido de que a oposição e a harmonia dependem do tempo exacto de cada uma. Quando conhece isto, conhece a o modo segundo o que as pessoas e a natureza agem, desse modo dispondo dos meios necessários para atravessar o mundo. Se conhecer a natureza  mas não as pessoas, deixará de dispor de meios para interagir com a sociedade. Se conhecer as pessoas mas não conhecer a natureza, não disporá dos meios para atravessar o mundo.
Se dispusermos de um controle interno estável e formos capazes de nos expandir externamente, movendo-nos juntamente com as coisas, então poderemos evitar o fracasso em todos os nossos empreendimentos.

   Por outro lado, o benefício e o prejuízo procedem de fonte idêntica; tanto a calamidade como a fortuna se acham na mesma vizinhança, no entanto só os sábios e os santos são capazes de os distinguir. Por isso se afirma que a boa sorte depende da calamidade e esta governa aquela; quem poderá avaliar o desfecho de ambas?

   O homem comum, não obstante,  procura tornar-se alvo de atenções; o sábio toma o seu centro no que é; porque ama, permanece insensível às fontes de preocupação comuns. Toma a riqueza pela profusão da vivência interior ao contrário do anelo pela propriedade que a abundância pressupõe, por apurar que nutrir muitos desejos conduz a demasiada carência.

   Por último, se tratarmos os outros como a nós próprios,  seremos dignos de confiança. Contudo, porque podemos tratar-nos de formas que nem suspeitamos, convirá defini-lo nos seguintes termos: se formos verdadeiros connosco próprios, jamais seremos falsos com os demais.

   A melhor política, em qualquer situação,  é a da contenção e da calma. O homem sensato não recorre à reacção mas procura preservar o recolhimento e a paz. Todavia, uma vez impelido a defender-se é inteiramente capaz de dar prova de destemor, ao apontar o verdadeiro adversário.

14
Essência Inefável

Apontado não o conseguimos perceber; 
Por ser destituído de forma é tido na conta de  "invisível".
Escutando-o não o podemos  entender;
Por não ser parcial o chamam "inexprimível".
Procurando-o não o podemos captar;
Por não ter forma nem conteúdo o chamam intangível.
Esses três atributos permanecem insondáveis
E combinados formam a unidade.
Uma vez revelado, não resultará claro;
Por passar despercebido não quer dizer que seja obscuro.
Eterno e inominável, remonta além do reino da existência;
Provido e desprovido de forma é ele,
Ao mesmo tempo, indistinto e indecifrável.
Confrontando-o não lhe percebereis a face;
Uma vez perseguido não lhe notareis o dorso.
Contudo aquele que apreende o Sentido Intemporal,
Dominará sobre as contingências presentes.
Conhecer tais Origens significa iniciar-se no Caminho da Vida!


Comentário

    A primeira parte deste versículo faz recordar indirectamente a alusão de Isaías, em que refere: “ouvindo, ouvireis, porém não compreendereis; E vendo, vereis, mas não percebereis...” e transmite um sentimento idêntico de inacessibilidade pelos sentidos.

   O Incriado, a verdade absoluta, está além de toda a descrição e apreensão dos sentidos exteriores. Ele não pode ser percebido nem escutado; tampouco tocado. Contudo, permanece idêntico por toda a parte, na qualidade de inominável, a lei cósmica, a ordem do mundo que molda todas as coisas visíveis. Kant referia-se à forma do sem-forma como a “Forma Pura” o que significa a forma do que carece de contornos perceptíveis e se assemelha ao que os budistas chamam de “Arupa”, “Sunyata” ou Subjectividade Pura.
A Mente não pode ter um vislumbre directo desdobrado de si própria do mesmo modo que o dedo não pode tocar a própria ponta,  porque não é duas coisas distintas – facto que a percepção dita directa teima em fazer valer e que implicaria na divisão entre observador e observado.

   Será de estranhar que a descrição que Lao Tzu faz do Tao encontre ressonância no Fédro de Platão (3), onde ele descreve a presença de um ser puro num local celestial, um ser imperceptível aos sentidos e unicamente apreensível pela mente; esse “piloto da alma”? Tal presença é descrita enquanto essência real, destituída de tez e forma. Refere ele o seguinte:
“Nenhum poeta compôs ainda um hino em louvor desta região supra-celeste. Ela é como passarei a descrever, pois se há ensejo de dizer a verdade esse é, mais do que nunca, aquele em que falamos da própria verdade”...

   Aí reside a verdade que não tem tom, nem rosto, e se mantém intangível; aquela visão que só é proporcionada ao condutor da alma que é a razão.
   Só a poderemos incorporar se não nos movermos com base em parcialidade de intenção alguma. As mais profundas questões da filosofia são, no geral, bastante simples, conquanto as suas aplicações superficiais tendam a obscurecê-las pela complexidade. Aquele que afirma saber, não sabe. Mas se nos abrirmos pela vulnerabilidade poderemos vencer as dificuldades e conhecer o sentido primordial do Amor. Desse modo não seremos desamparados mas descobriremos  o sentido da força na fraqueza.

15
Acção da Virtude

Os sábios da antiguidade eram dotados de subtileza de acção,
Versatilidade e  perspicaz  compreensão
E possuíam uma mente de tal modo insondável
Que só podiam ser descritos pela aparência
Como se situavam além do entendimento comum
Descrevê-los-ei da seguinte forma :
Eram hesitantes como quem atravessa;
Uma corrente de água gelada no Inverno;
Prudentes como aquele que se precaveu dos vizinhos;
Reservados, possuíam a dignidade e a cortesia de um convidado;
Evanescentes como o gelo que se derrete;
Simples e directos como um bloco de madeira por  talhar;
Possuíam uma aparência tão vaga como uma caverna,
E obscura como águas turvas.
Contudo, quem à semelhança deles,
Será capaz de passar serena e gradualmente do turvo à clareza?
Deixemos repousar  aquilo que está turvo  e assim resultará claro.
Quem, à semelhança deles poderá assegurar tal condição de serenidade?
Aquele que preza a pureza
Não procura o autopreenchimento nem a satisfação.
Deixemos que o movimento prossiga
E gradual e naturalmente resultará no repouso.
Aquele que conserva esse princípio não desejará realizar-se
Nem terá pressa de amadurecer antes do tempo.

Comentário

  O filósofo pode pensar ter realizado o significado do “mistério” em todo o seu significado, unicamente para perceber a seguir que aquilo que realizou não passa de um aspecto num conglomerado de aspectos sem fim. Assim, a busca jamais pode atingir o estado completo do ser.

  Mas se velarmos pela serenidade poderemos manter presença de espírito, de modo que não sofreremos anseios nem temores pessoais fúteis. Se permanecermos despertos não incorreremos em situações de perigo; se formos dóceis não seremos acometidos pela contradição; se preservarmos a pureza do coração clarearemos toda a perturbação - deixando-a passar! Não podemos preservar uma quietude  apartada da acção. Se preservarmos a serenidade em meio à actividade não desperdiçaremos as energias mas renová-las-emos.

   Aquele que mantém a serenidade permite-se conquistar a lucidez.; aquele que sabe quando deve deter-se, pode avançar com firmeza, no momento justo. Aquele que deseja menos do que aquilo que pode consumir resguardar-se-á da presunção; esse poderá envelhecer mas não se tornará decadente. Aquele que observa tais princípios não busca a satisfação gratuita; desse modo não sofrerá a influência do desejo de mudança.


16
Benefícios do Silêncio

Devemos elevar o estado de "fazer nada"
(não intervir)
Ao mais apurado grau
E perseguir a imobilidade de espírito com incansável vigor.
Se alcançarmos o Vazio Absoluto
Chegaremos à Paz interior.
Ainda que todos andem permanentemente atarefados,
Contempla a essência das  coisas.
Todas elas adquirem expressão e desenvoltura,
Mas pela passividade da atenção percebereis como se diluem.
Retornar à origem é reencontrar a imobilidade de espírito;
Reencontrar a imobilidade de espírito significa 
Cumprir fielmente o próprio destino.
Alcançar o Eterno é tornar-se sábio,
Ignorá-lo é incorrer em dano;
Conhecer a Ordem que governa todos os seres,
Significa  tornar-se justo e tratá-los com equanimidade,
Segundo a sua natureza. 
Da comunhão com todas as coisas,
Procede a generosidade de carácter.
Aquele que, pela consideração que revela, se assemelha a um rei,
Será endossado com a posse dum reino.
Esse assemelhar-se-á ao Céu, que é uno e fiel ao Todo
E será exempto de toda a decadência.
Assim, ainda que perca a sua vida não perecerá.

Comentário

   O silêncio é o verdadeiro precursor da alegria. A presença de espírito (ou consciência de presença) e a espontaneidade radicam na observação do silêncio. O silêncio é a verdadeira afirmação superior (não afirmação) de que se fala no texto. Pode não se tratar dum silêncio separado da acção, absolutamente, consoante o momento.

   Consolidai o vazio do espírito e preservai a mobilidade como uma só coisa indissociável (Quer dizer, não deveis empregar uma  como trampolim para a outra). Se não insistirmos no jejum do pensamento (higiene mental efectiva que nada tem que ver com a negação do pensar) não poderemos implementar a condição que propicia a clareza de espírito; se reagirmos de forma extemporânea e gratuita a todo o pensamento não poderemos preservar o distanciamento saudável e indispensável para possibilitarmos o discernimento. Pela serenidade nos manteremos livres do desejo de ser (outra coisa além do que somos) e seremos capazes de auxiliar no retorno ao caminho da paz e da simplicidade. Preservar a quietude significa retornar à essência. Quando alcançarem a consolidação da paz a mente tornar-se-á receptiva aos estados de mudança. Se a preservarmos, não abrigaremos nenhum preconceito com relação aos demais. Desse modo livrai-vos do vosso próprio ego e abraçai a paz. Ainda que o mundo prossiga sem se deter jamais, retornai à serenidade. Isto traduz o ciclo eterno da decadência e da renovação.

   A aceitação disso produzirá esclarecimento; a sua ignorância produzirá infelicidade. A natureza é inalterável; conhecendo-lhe a constância obter-se-á insight e abertura de espírito. Desse modo obter-se-á um carácter franco e sincero e poderemos agir com suma sabedoria. Assim também nos ateremos ao divino, e seremos um com o Todo eterno da Vida.

Creio definitivamente existir um propósito tão vasto e incomensuravelmente abrangente de sentido que engloba a vida e a morte que uma sem a outra não fazem sentido, o que à luz da totalidade que subscreve assume um significado verdadeiramente transcendente que somente por alusão reflecte o conceito de Deus - que em si mesmo tem por função servir de metáfora para a realidade que engloba todos os contrastes numa dinâmica de inimaginável grandeza e glória.

17
Subtileza

Os diferentes níveis de confiança seguem-se por esta ordem:
O governante mais digno e competente
Passa despercebido e dirige pela própria integridade do ser.
Em seguida vem aquele que o povo ama e louva
E que dirige pela justiça e bondade.
Depois vem o que se faz temer pelo povo,
E dirige pela eficácia e pelo saber.
Por último vem aquele que o povo despreza e desobedece
Por dirigir pela imposição e pela injustiça.
Quando não se revela confiança,
Não se pode exigir confiança dos demais;
 Consequentemente, eles são infiéis para connosco.
O sábio mostra-se irresoluto e apaga-se a si mesmo
E escassas são as palavras de que faz uso.
 Quando a sua obra é realizada e todas as coisas são completadas
As pessoas afirmam terem sido elas a alcançá-lo, por si mesmas!

Comentário

   Se não formos sinceros podemos ser desacreditados. Se não usarmos de confiança nos outros eles também não poderão ter confiança em nós; se não liderarmos pela confiança não seremos dignos dela. O homem "superior" não impõe o seu critério, nem espera que os demais o utilizem. A acção de um instrutor sábio dificilmente será mal sucedida junto daqueles que instrui, pois actua sem recorrer a comparações nem a reprimendas, de modo que as pessoas acharão que conquistaram as coisas por sua própria acção.

À partida isto tudo denuncia uma acção bastante exacta porquanto se estrutura justamente sobre uma “lei” tanto mais inexorável quanto resulta da acção directa da nossa consciência. É frequente exigirmos confiança dos demais a fim de validarmos a própria realização e sentido mas justamente nessa medida é que não “avançamos” pois a confiança não se exige, por não ser passível de se estruturar fora da rede da percepção. A ideia “ver para crer” constitui uma deformação originada pelas mais diversas razões, todavia é uma impressão distorcida, porque na realidade só podemos “ver” aquilo que “acreditarmos”; jamais o contrário. A percepção, uma vez mais, é a chave para a compreensão disto. A menos que acreditemos em nós - nas nossas capacidades, no nosso merecimento, ou na plausibilidade do nosso “sonho”, e o sintamos em toda a integridade do seu sentir, não poderemos exigir a sua validação o aplicabilidade.

Mas, em que assentará a diferença, perguntar-se-á? Bom, na razão porque repito frequentemente não precisarmos alterar circunstâncias nem  reconfigurar padrões de pensamento porque na verdade o sucesso não depende em absoluto de quaisquer condições específicas, como parecemos inclinados a acreditar pela experiência (tenhamos em mente que a experiência por si só não educa). Se as condições apontadas se acharem reunidas, tudo o que precisaremos  será começar a implementar a acção, pelo lado que se mostrar mais favorável, com a certeza inequívoca do resultado, por mais que na aparência geral as condições se afiancem inadequadas.

Na verdade nós somos continuamente “bem sucedidos” em meio a cada acto da criação do que “esperamos”, do que acreditamos, e do que sentimos com todas as fibras do nosso ser, a despeito de tal acção poder manifestar aquilo que menos nos agradará. Afirmo-o positivamente! Podemos não gostar do resultado que colhemos com determinada acção, mas isso não invalida a possibilidade de termos concorrido positivamente  para tal fim, quer directa quer indirectamente, por meio duma atitude de admissão passiva.

O método do “Pensamento Positivo”, da repetição da afirmações positivas e construtivas, etc., revelam-se tão pouco consistentes (conquanto possam justamente revelar alguma eficácia) pela razão de que, por meio do seu uso a maior parte das vezes mais não fazemos do que reforçar o contrário do almejado, devido a que basicamente não percebamos no quê assenta a “acção directa” de toda a intenção, bem como nos revelemos falhos na percepção do que manifestamos. E como basicamente isso perfaz uma coisa só, torna-se demasiado tentador apurar o carácter de qualquer coisa pela fímbria, ou seja, pela aparência, sem atender aos laços profundos em que se estruturam. Por outro lado, o pensamento não é mais do que a tradução duma dinâmica existente entre componentes como a expectativa, o sentir e a percepção que, esses sim, operam a acção num todo. Por si só o pensamento não cria mas unicamente traduz movimentos interiores que denunciam todo um potencial.

A percepção constitui, assim, a fundação em que assenta o potencial da eleição de todas as possibilidades, porquanto toda a probabilidade assenta unicamente na escolha e esta brota da clareza daquilo em que acreditamos. E nós tornamo-nos naquilo em que concentrarmos a nossa atenção, e recebemos exactamente o que transparecemos e termos de convicção. Portanto, a pedra angular da concretização da realidade que almejamos reside naquilo que esperamos conseguir, à partida, sem quaisquer condicionalismos, pois isso responderá pela verdade do “coisa” na sua inteireza (os velhos paradigmas distorcidos da religião que assentam na esperança e na fé, e que embora deturpados na sua orientação não deixam de referir, com alguma exactidão, o quadro da realidade). Assim, em que é que acreditamos? Ou seja, importa que enderecemos a atenção para as disposições da nossa inclinação ou tendência que respondem pela criação do campo actual da manifestação, sem o que de nada adiantará culpar situações, os demais  nem a nós próprios pela efectivação do que nos desagrada.


18
 Sinais de Decadência

Quando o Caminho, a bondade espontânea
E o espírito de equanimidade se perdem,
Surge a benevolência e a justiça.
Quando se enleva a moral e o saber,
Surge a dissimulação e a hipocrisia.
Quando no relacionamento e na família se perde a harmonia,
Surge a respeitabilidade e o favor; a lealdade e o dever filial.
Quando os homens são isentos destas qualidades
Fazem alarde delas.
E singram os clãs e a desordem.


Comentário

   A falta de consciência do “natural” revela-se superior à consciência da virtude. Nós só tomamos consciência efectiva e nos votamos a qualquer coisa quando nos separamos dela. Todavia, a virtude brota da mesma origem do “natural”; quando se revela na sua perfeição enraizada no Tao  chamamos-lhe  “natureza”, quando se evidencia torna-se “virtude”.
O natural, sendo inconsciente, não comporta qualquer esforço e revela-se bem-sucedido; a “virtude”, sendo consciente, esforça-se e fracassa. Deste ponto de vista a chamada progressão do natural rumo à virtude, pela conscientização, estabelece a tendência incontornável para a sublimação, a supressão ao contrário da paz.. Uma vez  “conscientes” das virtudes encorajadas, estas  logo se tornam objecto do desejo e da ambição à semelhança de qualquer outro objecto, e assim deixam de ser “virtudes” pois  que se reportam ao sujeito que passa a assumir um valor central em meio à questão.. Este torna-se consciente de ser o agente dessa virtude e aí tem início justamente a vaidade (vazio) Mas a virtude não refere qualquer sujeito mas uma verdade.

   Chuang Tzu dizia que os homens perfeitos da antiguidade não tinham consciência do mal nem da imperfeição, razão porque não precisavam cultivar o humanismo nem a virtude. Não abrigavam qualquer noção de moral e eram naturalmente bons. Actualmente, torna-se mais difícil distinguir, por entre os povos ditos “primitivos” sinais dessa magnânimo generosidade e simplicidade que ilustraria esse retracto, devido a que a civilização e os seus meios de comunicação tenham  massificado as consciências,  nivelando-as segundo os padrões dominantes.

   Quando passamos a considerar o valor das coisas por si mesmos, certo será que se tornarão dignas e meritórias e a sua conquista alcançar-se-á mediante a atribuição de um preço. Do ponto de vista da honestidade e da harmonia, contudo, se as considerarmos em função da comunidade elas deixarão de possuir o carácter preponderante que exercem sobre a identidade e não serão objecto do apego.

   Em tempos de carência, tanto material quanto ética, é comum aparecerem lado a lado a moralidade e a hipocrisia; a eficácia a par com a desarmonia; a lealdade e a hipocrisia. Porém, a palavra gratuita não expressa necessariamente a coisa, e como tal cumpre  perceber a grandiloquência e a demagogia, e evitar a pretensão da auto-importância. Quando impera o carácter, nada disso se faz necessário.
   Nenhuma expressão singular de desenvolvimento poderá ser considerada como superior ou inferior a qualquer outra. Somente a mente racional poderá arbitrar tal distinção unicamente com o propósito de estabelecer a referência. Agora, quando a referência concorre como regra, através da qual todas as outras são medidas, então é natural e compreensível que passem a surgir níveis comuns de complicação, ao estabelecer-se níveis de dualidade como correcto e incorrecto; autêntico e falso.
   Cumpre ter presente todo um vasto universo de possibilidades como a matriz a partir da qual simplesmente elegemos a experiência singular como válida e autêntica, por se firmar no terreno da totalidade. Nesse sentido, a dignidade pessoal e a auto-estima não deverão ser forjadas com base nas construções do dever porquanto somos muito mais do que a soma de todas as partes constitutivas do nosso ser ( do mesmo modo que Somos mais do que a totalidade das partes do nosso organismo corporal - pois somos uma pessoa completa) .
   Se refrearmos a tendência para a vitimização e expandirmos os horizontes da percepção talvez possamos aperceber-nos de que somos quem modela a própria realidade a uma escala que simplesmente não comporta qualquer estupidez obtusa mas que assume traços de verdadeira mestria dum criador, no uso da diversidade da experiência humana.


19
Retorno à Simplicidade

Rejeitai a sagacidade e abandonai a astúcia
E o povo colherá múltiplos benefícios;
Abandonai a piedade e a moralidade
E o povo retornará à sua tranquilidade
E à afeição natural pelo semelhante;
Renunciai á perspicácia e ao artifício;
Rejeitai o espírito utilitário e a gratuidade
E deixará de haver ladrões e bandidos.
Estas são três coisas em que a cultura é insuficiente
Contudo, não passam de preceitos.
A ética e a moral só se destinam a curar os sintomas;
É importante agarrarmo-nos ao que suporta
Ser-se simples e autêntico,
Ter mão no egoísmo próprio e refrear o desejo.


Comentário

  É preferível vivermos a nossa vida e realizar o próprio potencial de forma natural a procurar uma realização extrema. Aquele que vive com atenção e compreensão não necessita de adoptar códigos de ética moral nem angariar predicados.
   Se a sagacidade da exclusividade do interesse e do proveito pessoal deixarem de ser estimados, desaparecerão o roubo e a fraude.
   Melhor é de longe preservar a simplicidade e ser-se natural. É preferível a beleza do que é tosco e manter-nos íntegros para com o outro. O melhor mesmo é sermos um com a Vida!

   O trabalho de edificação do ser passa pela penetração ou abertura ao Inconsciente – àqueles 99% que excedem o perímetro da nossa consciência dita desperta - e opera-se de modo vinculativo por um reforço dum sentido de visão, alegria, determinação, dum poder de ser cuidadoso e compassivo, responsável, livre e ainda assim humilde; duma coragem de ser vulnerável e amável,  de encontrar o esplendor da nossa beleza; duma compreensão (que constitui inegavelmente um aspecto do poder) e da sabedoria. As “ferramentas” para modelar tais grandezas são o sentido de elegância, de escolha, de vontade, de elegância e de excelência. Também pode operar-se por meio da imaginação activa e dos sonhos e da intuição. Mas para desenvolver a intuição há que confiar nos impulsos e na espontaneidade.

   Podem sempre desenvolver um outro tipo de qualidades que se circunscrevem num propósito idêntico e que responde por uma consciência: de si e da realização do impacto que exercemos; do valor pessoal e da compreensão que não temos que obter mas trazer à luz da percepção; da auto-estima ou o valor que se conquista por meio da honestidade, da responsabilidade e da auto-confiança;
do amor-próprio, do amor que também não se obtém mas que nos é conferido por meio do estabelecimento dum sentido constante de amor por nós próprios; da auto-confiança, a habilidade de se achar à altura, uma combinação de humildade e confiança, esperança e coragem na criação duma energia confiante de nos acharmos à altura de lidar com a nossa realidade;
do respeito por nós próprios – que, à semelhança do sentido de valor pessoal, não se obtém mas tem de ser descoberto, e que se centra no honrar das nossas emoções; da auto-realização, ou sentido de impacto que podemos dirigir em qualquer direcção que desejemos, e que resulta do processo quase alquímico de desenvolvimento das qualidades anteriores.
À medida que desenvolvemos a harmonia, o equilíbrio, a graça, a alegria, a criatividade e o amor, a que os antigos gregos chamavam de musas, também nos tornamos capacitados para nos valorizarmos devidamente com a segurança que tem origem no amor-próprio bem como no conhecimento da nossa verdadeira natureza – o que contribuirá para nos tornarmos mais naquilo que somos.

20
Liberdade Primordial

Eliminai a instrução e livres vos tornareis de todo o cuidado!
Entre o sim e o não,
Pouca diferença deverá existir.
Mas estabelecei os parâmetros
Em termos de  bem e mal; certo e errado,
E  enorme abismo os apartará, pelo resultado!
A presunção do saber circunscreve a ignorância.
Sem dúvida alguma, aquilo que os homens temem é um facto.
Contudo, por que deverá ser temido?
Como é vasto e interminável o leque de questões a ser abrangido.
E quão longe vem, ainda, o raiar da aurora.
Todavia, os homens andam radiantes e alegres
Como se vivessem em festa ou subissem a um ermo
E contemplassem vistas primaveris.
Somente eu permaneço indiferente e tranquilo,
Sem possuir qualquer objectivo concreto na vida.
Como uma criança que ainda não aprendeu a sorrir
Permaneço indeciso e desamparado,
Como quem não tem para onde se dirigir.
Todo o homem possui mais do que o suficiente
Somente eu pareço nada possuir;
Desfazendo-me de toda a inutilidade e assemelho-me a um idiota,
Tal o modo como procuro tornar-me sensível.
O povo parece culto, esclarecido e sagaz
E só eu permaneço completamente embotado e ignorante.
Vagueio ao sabor da corrente sem parecer ter para onde ir,
Como brisa passageira, sem propósito definido.
Todos possuem as suas aptidões, só eu pareço obstinado e desajeitado;
Assim permaneço; contudo, distinto dos demais!
Pois defendo que devemos procurar esclarecimento  junto à Fonte!

Comentário

   “Demasiado saber comporta demasiado cuidado; aquele que aumenta o seu saber aumenta o seu sofrimento.” (Ecle.)
Na verdade a aprendizagem traz o saber e este conduz a preocupação e o cuidado. Tal qual na analogia do avarento, que vê os seus cuidados elevados à medida dos bens amealhados, nós também nos recusamos a despojar das cadeias do saber que nos inibe a liberdade original.
O saber aqui realçado reporta-se ao conhecimento psicológico do “mal” (implícito à dualidade dos contrários) a duplicidade do juízo que reside na origem da condição humana, e que toma assento em toda a forma superficial de preconceito e juízo. Esse saber tende a complicar ao invés de resolver os problemas. Na verdade este saber constitui a base dos nossos problemas!  Não substitui o desconhecimento franco nem o arrojo de afrontar os desafios de forma profundamente inquiridora, alicerçada na dúvida, sem se contentar com as respostas dum conhecimento de segunda. É claro, ele está na base das concepções escatológicas do pecado e é assumido automaticamente pela educação e condicionamento social. Mas desde que toda a oposição e diferença brota de um terreno comum e são desde a origem idênticas, quanto poderão distar entre si?   

Sejam as vossas palavras “Sim, sim; Não, não”. Tudo o que for além disso...

Este versículo presta-se a representar o retracto do sábio e ilustra a natureza do dito que  popularizou Sócrates: “Só sei que nada sei”. Trata-se da ilustração da condição de sereno deslumbramento que serve de ante-porta para o despertar do sentido do Real e do Sagrado.

  Se o conhecimento não for alicerçado numa base de compreensão abrangente conduzirá à complexidade e à contradição. Devemos abordar as diferentes condições de forma desnudada e com a pureza  dum coração aberto ao invés de investir com o peso morto da autoridade do saber alheio, a fim de podermos implementar as bases da liberdade e da justiça. Isso é o que implica a atitude do Não-saber.

   "Ser" e "não-ser" são aspectos que, cindidos pela dicotomia do dilema da escolha ( e todo o dilema indicia uma paradoxal e efectiva falta de escolha espontânea, cerceados que nos encontramos na nossa liberdade),  comportam uma infinidade de possibilidades que não conduzem a um conhecimento de primeira mão, pela fragmentação inerente que circunscrevem. A presunção do saber (juízo formado, opinião, preconceito) regra geral esbarra com as implicações do imprevisto, devido a que a nossa educação se veja condicionada a partir do berço, e se requeira um desaprender antes da possibilidade da eclosão de qualquer saber real. A menos que neguemos todo o saber psicológico gratificante à imagem separativa com que nos identificamos e  nos tornemos debutantes no terreno da aprendizagem – coisa pouco provável enquanto se revelar processo gratuito -  jamais qualquer forma de conhecimento ou princípio estabelecido nos responderá à questão: "Quem sou eu?".

   A experiência, feliz ou infelizmente, não educa; trata-se de um facto comprovado que não carece de confirmação porquanto refere um conhecimento essencialmente alheio! Baseados nas constatações e "instruções" dos outros poderemos, quando muito, ser conduzidos rumo à constatação dos mesmos princípios que os orientam e cerceiam na acção - todavia, isso circunscreve-se justamente no "terreno comum" do condicionamento básico: a distinção entre o pensador e o pensamento! Isto resume a primeira parte do versículo, a par com a implícita alusão à negação da autoridade do saber (que pertence sempre ao passado, e jamais é actual, novo) como via de abertura ao “que é”, ao facto, inextricavelmente ligado como se acha ao real.

   Todo o indivíduo se deixa guiar pelo brilho do que reluz e se esforça por conseguir um lugar ao sol; precipitamo-nos desenfreadamente para o “novo” impelidos por um sentimento de crescente de mal-estar, de descontentamento e de agitação batendo-nos numa luta de gigantes pela ânsia de poder e de riqueza, enquanto o mundo permanece às cegas na sombra do egoísmo e da vulgaridade. O conhecimento e a vantagem obtêm-se com uma má consciência, enquanto que a benevolência se pratica por amor ao utilitário.  Não vivemos mais daquilo que possuímos mas de promessas; não vemos mais a luz do dia presente, mas perscrutamos as sombras do futuro, esperando a verdadeira alvorada. Não constituirá isso um verdadeiro padecimento?

   É desarrazoado pensar que a sabedoria se encontre nos compêndios ou entre os que cortejam o saber e detêm vasto espólio de conhecimentos; a sabedoria alcança-se alicerçando-se com firme e inabalável determinação no estudo de nós próprios, por meio da atenção, sem pré-requisitos. A presunção do saber sempre constitui sinónimo de ignorância porquanto radica na convicção pura e simples oriunda do pressuposto, facto que não deixa de ser amplamente notável por parte de todo o bom observador. Se não sabemos e nos sentimos perdidos, não devemos procurar afastar tal condição, como o fazem os hipócritas, mas simplesmente constatar essa inclinação momentânea. Numa hora incerta é sensato reconhecer a incerteza. Ocultar uma verdade humana equivale a dar-lhe força para além da resistência. Negar a natureza humana é negar a particularidade de sermos homens.
Conhecer a natureza é situar-se em perfeita harmonia com o universo. Nós somos a fonte misteriosa referida no final do versículo.

   Não existe tal coisa como " liberdade de pensamento" . Paradoxalmente, a opinião, o parecer, são responsáveis pela maior parte da confusão e radicam no hábito e na repetição.
   Na inocência reside o maior tesouro a que podemos aceder. Contudo o mundo passa ao largo, sem  considerar o sentido do conhecimento. Ao invés de aprisionar, a inocência é dotada de carácter libérrimo. Com isto não se pretende dar azo a interpretações do cunho da sublimação, porquanto se formos inocentes poderemos alcançar qualquer estado, ao passo que por intermédio da ambição e do conhecimento podemos quiçá confirmar e reforçar os laços de separação e dualidade que caracterizam toda a experiência.

   Há sabedoria na humildade; humildade é a capacidade de não-afirmação, ou seja, não acatar resultados nem grandezas ou pessoas em tom definitivo e categórico mas considerar num todo. Se não formos humildes não podemos alcançar o cerne do "que é" por si mesmo, sem carência de suporte nem agente (fonte de Conhecimento), nem tampouco  liberdade dos constrangimentos do ego. Por mais paradoxal que pareça a linearidade dos processos de autonomia do pensamento impede a clareza de entendimento daquilo que é real e imediato. Tal conquista da liberdade não pode ser conseguida pela acção da vontade. É natural que, quando somos novos tenhamos a pretensão do saber e nos comparemos com os demais, todavia tal acção incorre invariavelmente na pena de criação de complexos, que constituem uma forma de autolimitação. 

   A real evolução infere no “retrocesso”. Rumo ao quê? Trata-se do processo de interrogação e inquirição pessoal acerca dos “como” e “porquê” do ser e da existência que caracterizam  a segunda fase do processo de tornar-se (individuação). Na verdade, quanto mais avançado o nível do desenvolvimento íntimo da pessoa mais ela retrocede aos níveis da simplicidade, do serviço ao semelhante; tal é a implicação da evolução autêntica, que refere uma condição de ser ao invés da mera distinção pelas noções de identificação com a propriedade. O que distingue o indivíduo não é o saber mas a atitude (orientada por um propósito)! E a humildade constitui a actividade da sede de conhecimento - que não compreende limites nem barreiras! Cada coisa vale pelo que é. A quem importará que saibamos muito ou pouco, isto ou aquilo? O que ressalta, isso sim, é a atitude - que é o que justamente dá prova daquilo que somos. Se, como factor determinante prevalecesse a conquista, então jamais teríamos tempo para conquistar o devido reconhecimento porquanto outros mais hábeis já deram prova de inatingível saber, antes de nós, e outros, que ainda não nasceram, o deverão fazer muito melhor que nós!

   Existirá, pois, alguma diferença entre a afirmação e a negação, a confirmação do conhecido, se ignorarmos a credulidade e a ingenuidade implícita à presunção do saber? Deveremos temer o que é usual só porque é comum ser temido? Ou será que devemos iniciar todo processo de compreensão pela “negação”, pela atenção para o significado de toda a presunção? Quanto contrassenso!
Aquele que busca a sabedoria deve apreçar-se a abandonar os preceitos doutrinários, os métodos comuns e a sagacidade. Só então poderemos entender a verdadeira diferença entre o saber e o conhecimento; a experiência e a ignorância. Assim se deixará de temer o vulgar e julgar com espírito parcial. Afirmar significa a aceitação da nossa própria complexidade milagrosa; significa dizer “Sim” ao nosso próprio ser e a aceitação da nossa realidade. Enquadrado nessa nossa complexidade possuímos o direito de dizer “Não” a certas situações e de expressar os nossos desejos e comunicar os nossos sentimentos. E se o fizermos em sintonia com a nossa condição eterna isso haverá de dinamizar uma corrente de amor e de criatividade. A afirmação “superior” consiste na aceitação do nosso próprio presente como a pessoa que somos. Tal aceitação torna-se magnânima ao não rejeitar características nem hábitos indesejáveis. Não devemos albergar noções de perfeição distanciada no tempo nem no espaço de outras circunstâncias porquanto tal noção de perfeição consiste num estado de realização que se acha para lá da qual deixa de haver possibilidade de crescimento, além duma espécie de negação da dinâmica gestalt da consciência em fluxo, coisa que simplesmente não existe.

Se formos sensatos seremos despojados de artifícios e de aparências; aos olhos do mundo, contudo, sempre pareceremos mais como perfeitos idiotas destituídos de razão e confusos. Conquanto o mundo gire num corrupio sem parar haveremos de preferir preservar a sensatez e a distinção de buscar o equilíbrio entre acção e inação e o sentido pleno que só ele pode conferir!

   Se fossemos dotados de sabedoria... Mas se não é o caso,  devemos ser capazes de o reconhecer. O "saber" que é aludido neste trecho é o dos limites da convicção imatura, das opiniões e formulações gratuitas de juízo.
    É bastante improvável (porque basicamente inconcebível para a mente racional) que experimentemos o sentido de completa ausência de utilidade associado à nossa existência, bem como do "espírito" de que parece imbuído (conforme este versículo parece sugerir). Utilidade é termo que se acha imbuído de má conotação – como se devêssemos alinhar todos pelas linhas pré-estabelecidas pela convenção doutrinária, o que trai por si só todo autêntico espírito de apreciação e aceitação
A experiência da completa exposição ou total nudez da condição do vazio - conquanto aparentemente terrífica e niilista como na prática se nos possa afigurar - na verdade constitui um dos mais elevados estágios de transformação: o da transposição do pensamento discursivo, nas suas limitações, interesses mesquinhos, temores, esperanças e anseios vãos.

   Atrever-me-ia a afirmar que somente nesse estágio está finalmente o homem pronto a largar mão das "bóias de salvação" inerentes ao domínio do ilusório de que se vale desesperadamente e por todos os meios, a fim de abandonar o campo da prisão a que se sujeita - por acção do pavor e do sofrimento proporcional á sua acção de apego. Só aí nos elevamos para o estado de verdadeiro deslumbramento por que podemos dar graças pela bênção e riqueza, sentido da existência. Trata-se de algo completamente intransmissível de tão inefável e pessoal que é, não obstante ser uma coisa perfeitamente exequível com que todos teremos, numa ou noutra altura de nos confrontar, ao longo do percurso do nosso desenvolvimento.

   Não vos afasteis da vossa condição natural de desconhecedores porquanto aí reside o "centro" do verdadeiro conhecimento em potencial. Por maior que seja o nosso desconhecimento, se nos apossarmos da condição que nos impõe possuirá maior valor do que todo o conhecimento que pela imitação obtivermos, pois será nosso e como tal será uma pedra basilar no desenvolvimento da nossa percepção. A presunção do conhecimento é ignorância, porquanto o conhecimento autêntico não pressupõe conhecimento prévio mas atenção e presença de espírito apenas, porquanto tudo o que importa é já conhecido e se resume apenas a um processo de relembrar.

21
Essência da Vacuidade

É próprio da Suprema Virtude dar livre curso à sua natureza,
Todavia, a sua natureza é indistinta e indeterminada,
De tanto parecer difusa e ilusória.
Mas assim mesmo como é, possui uma forma:
"Difusa e indeterminada".
Possui em si mesmo uma substância:
"Sombria e turva".
Contém em si uma essência de vitalidade
Que se expressa através da realidade.
Dotada de inabalável autenticidade
O seu nome foi preservado por eras
A fim de fazer lembrar a origem de todas as coisas.
Como poderei saber que essa seja a sua origem?
Pela compreensão do que é oriundo do Absoluto!


Comentário

   A suprema virtude está em incorporar a Verdade. Só ela alcança a realização sem idealizar! A sua essência não possui forma específica nem se circunscreve na imagem; através do não-ser encontramos-lhe tanto a forma como a imagem. Esta pode chegar a ser conhecida apenas se não tentarmos conhecê-la - apesar de indistinta e indeterminável nos moldes conceptuais e através da abstracção intelectual - abrindo-nos ao "que é". Os antigos gregos encaravam a intuição como a mais elevada forma de expressão da verdade; verdade que nos liberta na justa medida em que abrimos para o conhecimento interior. A verdade emana de si mesma e permanece oculta à percepção  dos sentidos, porém, exprime-se em toda a natureza. Ela é imutável, contudo deixa perceber todo um sentido de movimento. Para lá das sensações e da memória, a verdade é a fonte do mundo. Só pela aceitação do mundo podemos alcançá-la.
O nível mais profundo da verdade abrangido (quer pela filosofia quer pela ciência) consiste na realização fundamental da unidade. Tanto ao nível subatómico das partículas como da estrutura do “eu”, somos indistintos, e, portanto, um só. É a esse noção ou consciência de unidade que vamos colher o sentido verdadeiro da espiritualidade.

   A verdade assume a grandeza do eterno presente, à luz da qual adquire uma miríade de possibilidades e expressões que a maior parte das vezes nos confundem. Porém, nós somos tudo, e a um só tempo somos tanto o recém-nascido quanto o velho. Tudo aquilo que é dual e não-dual coexiste neste presente eterno; o imaginável bem como o inimaginável, o pai e o filho, aquele que está para nascer e o que acabou de falecer - tudo isso existe na simultaneidade do instante presente; a semente e o carvalho têm ambos uma existência simultânea. É claro que tal asserção desafia as noções de evolução e do progressivo desenvolvimento através de estados sucessivos. Mas tal é a natureza do Todo que só se pode aferir através dos murmúrios do silêncio da mente tranquila.


22
O Incremento da Humildade

Dobra-te e permanecerás erecto.
Deixa que torça e manter-te-ás firme.
Sê humilde e permanecerás íntegro.
E desse modo o que estiver desordenado poderá conhecer a ordem.
E o que se achar incompleto será repleto;
Assim, se te tornares flexível conseguirás manter a postura.
Esvazia o espírito e permanecerás repleto;
Desenvolve a compreensão  e renovar-te-ás.
Aquele que nutre menos desejos é o que os verá cumpridos;
O que comporta demasiados, desvia-se do principal.
A simplicidade comporta  sabedoria;
Demasiado saber conduz à dúvida e ao embaraço.
Procedendo assim, o sábio abraça a Unidade,
E torna-se modelo do mundo.
Evita expor-se e por isso resplandece;
Não se afirma e por essa razão sobressai.
Não ostenta mérito e desse modo ele lhe é creditado.
Não se exalta brandindo o sucesso;
Dessa forma resiste e torna-se respeitado
Não condescende na auto-indulgência;
Desse modo alcança superioridade.
Não compete com ninguém;
Desse modo ninguém rivaliza com ele.
Reza verdade o seguinte ditado:
Sê humilde e manter-te-ás íntegro! (coeso)
Conservando a integridade, tudo fluirá espontaneamente.


Comentário


   Os primeiros três versos do poema aludem, de forma abrangente, a um princípio dotado da idêntica e singular magnanimidade de carácter, enunciado num outro contexto, da seguinte forma:
  “Felizes os que choram, porque serão consolados; felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados...” ...” (Mat. v.4)  “não há-de quebrar a cana fendida” Mat. XII 20) “e o que permanece torto será endireitado” ( Is.)

   Aquilo que se achar em falta, será incrementado; em contrapartida, o que for em demasia conduzirá à perplexidade!

    Contudo, devo chamar a atenção para o facto de este enunciado ser demasiadamente fácil de ser subvertido na sua essência, e não denotar o sentido nuclear do poema. Na verdade, a preocupação do autor não se centra na esperança ( que em boa verdade representa o espírito do mesmo princípio, a par com a confiança que a caracteriza) mas na dinâmica da unidade, operação essa que é intemporal e ultrapassa toda a medida. Seria demasiada condescendência aquiescer ao mero cultivo do inverso (fazendo da esperança e da paciência meio para o fim objectivado, que por essa via não opera de modo satisfatório); tal revela-se insuficiente. Não é que seja uma atitude errada mas primordialmente por ser uma espécie de factor condutor a uma letargia fatal para a alma: a da condescendência na dor e no incumprimento dos mais elevados desígnios da realização espiritual, a saber, a realização da unidade implícita a toda a manifestação da vida. A diferença é substancial, porquanto impele o indivíduo, não para a resignação - nem para a aceitação passiva – mas para o imediato; a própria negação do tempo na consecução da verdade. Nesse sentido não conta se poderemos ou não satisfazer os nossos anseios de plenitude e felicidade, se com isso pudermos trilhar a via da compreensão mais ampla (espiritual), atrever-me-ia a dizer.

   Entretanto, é próprio da Lei que se cumpra todo o desígnio segundo os seus parâmetros naturais, movidos na cadeia da causalidade. A psicologia analítica (não confundir com a psicanálise) estabeleceu um paralelo incontornável ao formular alguns princípios básicos inerentes ao funcionamento da Psique como princípios que regem a Energia Psíquica: o Princípio da Equivalência, (similar à primeira clausula das Leis da Termodinâmica), que refere que todo o acréscimo de energia numa determinada área se faz acompanhar de um decréscimo da mesma numa área oposta, e vice-versa. O Princípio da Entropia (também similar à segunda clausula das Lei da Termodinâmica), que refere que a distribuição de toda a energia busca sempre, e de forma inevitável, o equilíbrio. E o Princípio dos Contrários, que pode ser melhor formulado com a declaração de Hegel de que “ tudo comporta a própria negação” e que a única forma pela qual podemos chegar a conhecer alguma coisa só se pode fazer por intermédio do contraste (e assimilação) com ou do seu oposto - tal como consciente/inconsciente; bom/mau, luz e sombra, etc. Se compreendermos tal natureza poderemos ter confiança suficiente para deixar que actue - com a certeza inegável de assentar em bases duma efectividade inexorável.

   Pela aceitação podemos nos tornar íntegros; se cedermos poderemos transpor os obstáculos - no exacto ponto que a sua natureza o determina; se nos esvaziarmos de todo o bulício e confusão, renovar-nos-emos certamente.
   Aqueles que pouco possuem (conhecimento) muito terão a ganhar; aqueles que conquistam demasiado, muito podem deixar-se enganar pela identidade oriunda do sentido de propriedade (como a saber, por ex., sobre a dicotomia entre dominar e ser dominado). O indivíduo sensato chega à aceitação do mundo por meio da compaixão e da unidade de espírito e desse modo estabelece-se como um exemplo. Não procura justificar-se e desse modo pode chegar a ser distinguido; não se vangloria e assim pode atingir a excelência; sendo o que é chega a receber reconhecimento; não se gaba nem vangloria e jamais chega a ficar em falta. Sê um com a vida (...) e todas as coisas virão a ti.
A humildade constitui a essência de toda a virtude e consiste mais exactamente na aprendizagem, aprendizagem essa que não inclui qualquer hierarquia e que toda a autoridade não só nega como garante que todo o seguidor jamais chegue a aprender.
Muitas pessoas que se consideram verdadeiros buscadores espirituais acham-se cheios dum sentimento de falsa humildade. Amiúde utilizam termos como: “Eu por mim próprio não sou ninguém – mas o Espírito de deus repousa em mim e se algum bem faço é por obra desse espírito Divino e não por mim”, ou por exemplo, “Não possuo talento próprio, só o poder de Deus possui talento”. Mas a esse respeito somos o poder manifesto de “Deus”. Ele é parte intrínseca nossa e ao negarmos a própria valia também o negamos a Ele.


23
Não Interferência

Falar pouco e agir sem esforço é o natural;
Só as palavras simples e serenas frutificarão.
Uma ventania não pode durar toda uma manhã;
Uma tempestade não dura  um dia inteiro.
Qual será a razão disso?
Deve-se isso à harmonia de "Céu e Terra".
E se nem mesmo  Céu e Terra
Podem produzir tais coisas de forma compulsiva
Quanto mais os homens com os seus  esforços conjurados!
Assim, aquele que se conforma ao Princípio vive de acordo com ele;
Aquele que pratica a virtude,  possuidor de virtude se torna;
Aquele que corteja a ignomínia sujeitar-se-á à sua acção.
Conformar-se a qualquer destes preceitos é criar-lhe  franco acesso.


Comentário

   Exprimir o que sentimos sem artifícios nem dissimulação é desde logo um empreendimento e tanto, mas pode ser um caminho para a realização do objectivo mais nobre: o do contacto e o da comunicação (comunhão). Abandonar a pretensão  e a justificação constitui um meio para a virtude da unidade. Através do desenvolvimento de um carácter aberto e franco, não haverá por onde não possamos passar. Se nos abrirmos à verdade, seremos por ela acolhidos. E aquele que acolhe a harmonia torna-se por seu turno harmonioso.

   Os antigos diziam que o homem não esconde. Talvez o facto de nos revelarmos demasiado nas pequenas coisas se deva a que tenhamos tão pouco de grandioso a ocultar. Os pequenos incidentes da nossa rotina diária falam tão alto quando os elevados voos da poesia ou da filosofia.

   Enquanto não desenvolvermos confiança como poderemos comandar a confiança dos demais? Se, por nosso lado formos incapazes de fazer melhor; se não formos diligentes na consciencialização pessoal bem como da dos demais, como poderemos exigir isso deles, se a sua conduta não nos satisfaz? Por meio da contradição?
Se a nossa humilde experiência pessoal de vida não pode permitir-nos que nos situemos acima de quem quer que seja, dada a condição comum que partilhamos, como poderemos esperar que a exclusividade, a autoridade, a crítica e a não-aceitação nos tragam prestígio?    Se espalharmos a infâmia, a ignomínia, certamente isso nos acolherá ao longo dos percursos do nosso caminho.
   Aquilo que somos expressa-se naquilo em que centramos a nossa atenção e preocupação, bem como no modo como o fazemos... Mas teremos consciência do quanto isso significa de proporcional a uma ordem limitada e finita - quando subordinado ao auto interesse - e do quanto isso representa  "uma má escolha", por  denotar  tão pouco?


24
Esforço

Permanecer na ponta dos pés conduz à perda de equilíbrio.
Se esticardes demasiado ao passos
Não podereis avançar muito longe.
Aquele que se ostenta não encontra reconhecimento;
Aquele que se justifica não possui mérito.
Pois ao impor-se, perde a influência;
Aquele que se vangloria não alcança superioridade.
Na verdade esses modos constituem um abominável  desperdício.
Assim, o indivíduo que busca o Caminho  da virtude
Não confia neles, nem tampouco os adopta.


Comentário

  Este versículo dá como que seguimento á anterior noção de realização da harmonia como máxima expressão de fé e equilíbrio e realça aspectos comummente despercebidos que em muito respondem por uma certa disfuncionalidade - quando não mesmo patologia, como se torna cada vez mais frequente no actual estágio da presente civilização – aparentemente com origem na contradição e no conflito, que nos condicionam a percepção e a expressão das nossas mais elevadas pulsões criativas.

   É perfeitamente comum alimentarmos ideais e apreciar o objecto das nossas mais variadas crenças e noções morais como únicos. Contudo, a despeito da elevada noção pessoal que alimentamos, de sagacidade, capacidade e merecimento, é frequente não nos darmos conta do quanto a desatenção para com aspectos sub-reptícios que decorrem da consciência exacerbada desse significado e acção pode contribuir para a crise e o reforço do conflito. Consequentemente, podemos ser surpreendidos e quedar-nos perfeitamente consternados por todo um quadro de aparente falta de sentido e incompreensão para com tais resultados, questionando-nos de forma inusitada sobre as razões de ser disso mesmo. Estarão os nossos valores errados justamente quando acreditávamos de forma tão fervorosa e apologética na sua vigência? Tratar-se-á, de algum modo, de falta de honestidade da nossa parte, ou o que é que estará mal?

   Com efeito, a questão central não indicia de forma directa as crenças nem os valores morais nem noções de juízo mas se ao formularmos e sustentarmos tais noções o faremos com uma efectividade que fale por uma consonância e harmonia que traduzam simultaneamente a realização duma postura profunda e autêntica, não assente em empirismo algum nem qualquer duplicidade de propósito mas na qualidade da abertura de espírito e consciência. Tal efectividade  (ou falta dela) é o que poderá permitir-nos apurar a verdade do que defendemos e vivemos, cientes de que o insucesso e a luta denunciam sempre contradição separação e conflito, o que se revela constantemente um pretexto para darmos mais atenção para connosco próprios. Afinal, somos nós quem, seguros de que tomar um atalho é preferível a seguir a via ampla, não? Por obra das múltiplas e distorcidas crenças somos nós quem toma nas nossas próprias mãos o insucesso dos objectivos propostos, não seremos? Como? Pois, tratando o tema de forma genérica, diria que, deixando-nos guiar pela ânsia apressada, pelo fervor desmedido ou fé cega podemos, o mais das vezes, propiciar condição que quereríamos ver arredadas à distância porque indesejadas ou tornadas alvo da nossa aversão. Mas, impõe-se uma apreciação de todas as forças em concurso se quisermos chegar a um entendimento cabal da ordem essencial que tudo rege (e porque dotamos tudo o que criamos distinto).

   Como actuaremos em face da consciência que albergamos? Limitar-nos-emos a emitir apreciações gratuitas baseadas numa mera consciência formada na opinião, no juízo moral e no consequente escamotear da verdade relativa à confusão e incerteza íntimos, ou indagar-nos-emos sobre o significado profundo da consciência, da acção e das suas implicações? Não da efectividade de nos tornarmos naquilo que tememos, porque isso é imaturo, mas da responsabilidade que exercemos  na condução consciente dos nossos destinos, e do potencial que nos assiste na sua criação.

   Essencialmente não existem absolutos. Além disso, os desafios denunciam uma ordem tal que, ao contrário de parecer votar-nos à vitimização  e à completa subjugação, nos parece reforçar todo um sentido de intrínseco de inelutável significado e acção, de que queixar-nos não parece fazer contribuir em nada para a nossa felicidade. O potencial que denunciam refere-se-nos por em cheio; a nós que acreditamos nas forças grandiosas das divindades e do universo (ou da matéria) e que, de forma perfeitamente díspar e contraditória nos arrastamos pelos vales da impotência, da violência e do sofrimento num contra-senso sem par.

   Curiosamente, fala-se de consciência e distingue-se diferentes graus dessa mesma consciência no que toca à problemática dos estados patológicos, porém, muito haveria a referir que, a ser dissecado dentro do contexto, muito haveria de contribuir, de forma inequívoca, para uma noção mais avantajada da problemática. Basicamente, devo referir que a tomada de consciência tem assento de modo mais efectivo na abertura espontânea da mente para com conteúdos de outro modo inadvertidos e do carácter da sua acção sobre a personalidade,  quando, p. ex. nos damos conta da manifestação de determinados padrões de comportamento e reacção inconsequentes ou atípicos e do efeito que geram sobre o humor. Tal percepção pode dar origem a um desenvolvimento salutar da atenção que cria as fundações da compreensão.

    O significado das posições antagónicas afirma-se pela relatividade que assumem entre si.
    O pé há de ser a verdadeira medida de todo o chinelo! A verdadeira medida do homem  revela-se na temperança e no equilíbrio, na moderação. O indivíduo que procura exceder a sua natureza perde o centro.
   Do mesmo modo, também a serenidade interior é o estado que permite apurar o “nível” de domínio das dificuldades.
   Através da gabarolice e da hipocrisia se alcança falso respeito. A moderação é regra e  naturalidade em tudo; a chave da harmonia e a firmeza do carácter.


25
Criativo

Existe algo indefinido, e ainda assim perfeito em si mesmo,
 Desde muito antes da existência de Céu e  Terra.
(dualidade)
Silencioso e sem limites; singular e inalterável,
Que deve ser considerado como a mãe de tudo.
Desconhecendo-lhe o nome chamo-lhe Caminho;
Na falta de melhor termo poder-se-ia chamar-lhe Infinito.
Sendo infinito pode avançar; avançar é chegar longe;
Chegar longe significa retornar.
(ao vazio)
Assim, o Céu é grande; a Terra é grande;
Aquele que domina a si mesmo é igualmente grande;
Ele deve a sua grandeza à Terra,
 (que o sustenta)
A Terra deve-a ao Céu,
(que a fecunda)
O Céu deve a sua grandeza ao Caminho;
(que é a sua essência)
O Caminho da virtude segue a sua própria via.


Comentário

   O caminho de retorno ao vazio expressa um movimento rumo a si mesmo, agora expresso não através da diferenciação mas do alargamento do campo da identificação, rumo à individuação plena. Significa a observância da serenidade e da compreensão do eu, que precede toda a harmonia e criatividade. Mas também pode muito bem ser entendido como a morte, pois Lao Tzu numa versão chinesa refere o Caminho como “esse grande Além, que é o nosso lar”. Os seres humanos seguem os princípios da terra; a terra segue os princípios do céu; o céu segue o princípio da unidade; a unidade está no modo de ser de todas as coisas. O caminho da criatividade une os mundos interno e externo e origina o aparecimento e o desaparecimento de todas as coisas. As suas marés estendem-se pelo infinito. Paralelamente, progredir significa retroceder, ideia que envolve o aspecto  em que todos os desenvolvimentos na natureza, tanto do mundo físico como das situações humanas, exibem características  cíclicas mutáveis, ao invés  da linearidade aleatória com que tendemos a reger-nos. “Olhar para a frente” não é distinto de “olhar para trás”, mas um complemento temporal inalienável. Conceber um percurso sem se ter noção dos antecedentes, parece-nos a mais imprópria das atitudes.

26
A Dignidade de uma
Postura Equilibrada

A gravidade é a raiz da  alegria;
O pesado é a raiz do leve.
A serenidade domina a inquietação,
E governa sobre todo o movimento.
Desse modo, ainda que o sábio viaje para longe
Não se afastará da sua origem!
Conquanto rodeado de promissoras perspectivas de vida fácil,
Permanece  na paz da sua casa e não abdica da sua maneira de ser.
Poderá o homem de bem menosprezar o que é importante e pleno de sentido,
Sendo mais precipitado do que precavido?
A irreflexão conduz à perda da serenidade;
Agitar-se implica perder o autodomínio e a dignidade.


Comentário

   Psicologicamente, ambos os aspectos acham-se encadeados, manifestando-se justamente com base na dinâmica dos contrários. Porém, na verdade referem uma realidade transcendental.
Se não conhecêssemos o pesar não poderíamos falar da alegria, pois esta seria totalmente inconsciente. Através da fuga à dor, por meio do preenchimento pessoal jamais colmataremos o abismo que separa aquela do prazer, e os contrários psicológicos. O sofrimento prevalecerá inexpugnável. Por meio da dualidade psicológica e da consequente comparação reforçamos a ordem de alternância da causação, e a consequente ilusão da separação. Ambos os extremos, no cadinho do desejo, gravitam entre os seus  contrários.

   Assim, realça-se todo um sentido de honrarmos as disposições da nossa natureza, por mais díspares e tal qual se apresentam, porquanto tal acção adquire vasta ressonância no plano da integridade do ser, ao assumir o verdadeiro aspecto do afecto e do respeito por si mesmo (i.e. do outro). As disfunções - primordialmente psicológicas – passam muitas vezes por aspectos de profunda rejeição, negação e ambivalência no campo da auto-estima, supressão indelével de conteúdos, e o afecto constitui verdadeiramente o factor de alívio por excelência. Muitas vezes faz-se mister criar todo um campo de indução em que essa afectividade opere e faça ressoar determinados timbres no indivíduo, que, de outro modo permanece fora de alcance aparente.

   O Amor, o afecto, a atenção autêntica, são a melhor terapia! Mas... de que modo viveremos? Focando a atenção em que alvos ou objectivos, que nos obliteram a percepção? Enquanto argumentarmos a favor da mudança irreflectida não actuaremos de forma perceptiva, e assim também sustentaremos os pressupostos do dever e do vir-a-ser, baseados que estamos na ideia do “melhor” e do “bem”; conquanto sejam inoperacionais por si mesmas. Toda a acção de transformação interior deve processar-se na justa medida, pois do contrário podemos incorrer em que a exacta intensidade de energia que empregarmos pode assomar-se na exacta medida do obstáculo a vencer; assim, subjacente a todo o espírito de transformação pessoal deve alicerçar-se o justo propósito, que se traduz por um exercício activo de percepção não direccionado.

   O sobrepujar do condicionamento  da dualidade subjectiva, representa o término - ou compreensão - do conceito, enquanto criação dessa subjectividade, assente essencialmente numa atitude unidireccional para a critica e o pré-conceito. Somente pela expressão equilibrada dos “dois pólos”, inerente ao perfeito equilíbrio da dualidade de factores psicológicos, poderá a energia da unidade ser realizada.
  A actuação do sábio, contudo, é equilibrada e não dada ao cultivo bipolar de estados de excitação nem de tristeza. Ainda que se desloque para o reino da abundância sempre manterá a própria postura e recolhimento, plenamente conscientes de assim conservar as suas raízes. Desse modo não se inquieta nem perde a compostura natural.
   O bom líder não deve agir com leveza nem entusiasmo; se actuar com frivolidade perderá contacto com o facto (mundo); se agir com precipitação perderá o domínio de si. A calma é mestra sobre a pressa. A compostura domina sobre toda a instabilidade.


27
A Luz da Harmonia

Avançar correctamente significa não deixar rasto;
Ser eloquente equivale a não deixar o que possa ser refutado
Nem causar mágoa a ninguém;
Calcular adequadamente assemelha-se a não ter que recorrer a cálculos;
Fechar bem quer dizer prescindir de chave e de ferrolho;
Não obstante, ninguém o abrirá.
Boas amarras não necessitam de corda nem laço;
Não obstante, ninguém as desata.
Por isso o sábio sempre é prestável no auxílio que a todos estende;
Exímio no aproveitar, nada deixa que se desperdice.
A isto se chama Abraçar a Luz!
Logo, o homem de bem é mestre do homem vulgar;
Mas este constitui a lição daquele.
Pois não revelar deferência pelos outros,
Nem reverencia pela instrução,
É não tirar proveito da sua lição,
Mas percorrer a via errada,
Sem que importe o quanto se possa parecer inteligente.
A isto se chama subtileza essencial; os caminhos cruzados do Mistério!


Comentário

   O bom mestre não distingue com superficialidade; desse modo sempre será escrupuloso no trato com os alunos, sem usar de crítica mas tendo sempre enorme apreço pela clareza. Se não considerarmos o aluno como sendo um com o professor, (porquanto reunimos efectivamente a um só tempo, e na mesma pessoa, aluno e mestre) por mais inteligentes que sejamos, cairemos no logro da distinção subjectiva de perceber os defeitos do outro sem distinguir os próprios (o que conduz à hipocrisia). Mestre e discípulo existem em igualdade de circunstância em cada um. Daí procederá a autêntica compreensão e empenho.
   A virtude está em seguir o caminho natural, sem se opor nem obstruir o seu fluxo com particularidades, segundo o que nos é requerido para atingir a raiz da questão, e tudo considerando na seu devida proporção. Se preservarmos tal virtude poderemos dar o exemplo. Se soubermos pronunciar-nos quando tal for requerido e manter-nos discretamente em silêncio quando for o caso, seremos capazes de ser um exemplo para o mundo.

   Fundamentalmente, porém, o tema central deste versículo alude á diferença entre a razão e a certeza absoluta, o conhecimento directo; a diferença que se estabelece entre o raciocínio calculista e a confiança intrínseca a determinadas “características” (na falta de palavra mais adequada) que respondem por uma efectivação de resultados com total abertura e sem esforço algum. Aquilo que responde por um razoável equilíbrio tanto emocional e racional como também um sentido espiritual e que assenta na percepção e desenvolvimento de qualidades tais como a auto motivação, a confiabilidade, a iniciativa própria, a capacidade de escutar a “voz interior” seja por que meios for, ser aberto à exploração do novo, persistência, a facilidade de canalizar emoções para situações positivas, a clareza de comunicação, a auto valorização, o entusiasmo, o dom de interpretar impulsos, a imaginação,  a superação de limites, a capacidade de se deixar arrebatar pelo belo, a bondade de carácter, carisma, etc., etc., etc. Tudo isso são “ferramentas úteis que “fecham” e “amarram” com uma firmeza e eloquência que dispensam a dúvida. Mas precisam ser reconhecidas e fortalecidas até se tornarem na pedra basilar em que faremos assentar o edifício da criatividade consciente.
  

28
Equilíbrio

Ter consciência do principio masculino
(virilidade e afirmação intelectual ou física)
E ainda assim conservar o principio feminino
(receptividade e intuição)
É tornar-se ravina profunda para o que tudo o mais fluirá
E mover-se constantemente no caminho da excelência,
Reforçando, assim, a simplicidade original.
(participando desse princípio inefável)
Ser esclarecido e ainda assim conservar a modéstia
É converter-se numa referência para o mundo.
Proceder dessa forma é afirmar a virtude original
Sem vacilar num único movimento,
Retornando, desse modo, ao infinito.
Conhecer aquilo que é digno de glória
E ainda assim permanecer na modéstia,
Preservando assim a humildade,
É tornar-se  fonte para o mundo;
Viver a vida abundante da virtude
E retornar à simplicidade natural.

Comentário

   As primeiras duas estrofes deste versículo encerram um sentido inquestionável de ligação com a preservação da energia vital pelo domínio da ejaculação sexual, tão caro aos iogues taoístas, sempre contrária à supressão dos fluxos do erotismo, expressões da mais potente força do universo. Contudo passa, o mais das vezes,  despercebido nas interpretações actuais. Devido a isso, e mesmo porque tal menção é muitas vezes suprimida nas interpretações da maioria, desenvolvi uma outra abordagem não menos actual e significativa: desenvolver a criatividade sem deixar de preservar a receptividade representa a preservação da mente da criança, que flui como a água corrente.
 
   A expressão do feminino comporta as características da imaginação, do sentimento, da concepção e da percepção. A percepção não significa tanto o desenvolvimento unilateral do intelecto e da compreensão que ele nos proporciona, porquanto não é mais válido pensar do que sentir, como, de resto, o inverso. Na verdade, necessitamos desenvolver ambas as expressões num equilibrado sentido que nos permita alçar-nos além da compreensão e do significado  da intelectualização e do emocionalismo. Depois, devemos lidar com as emoções de forma indistinta, se quisermos chegar a conhecer-nos efectivamente, de forma independente do género. É comum atribuir-se a expressão da raiva ao homem e da mágoa à mulher; na verdade porém, o homem expressa a mágoa não por meio das lágrimas, como a mulher,  todavia também precisa lidar com a expressão da mágoa sem negar o seu lado ferido e sem receio de denotar fraqueza, porque de outro modo não sanará satisfatoriamente a raiva.

   Perceber  é dar um passo atrás e contemplar sob perspectivas de um todo; é deixar que o sentido e a compreensão nos acolham ao invés de corrermos atrás deles. É perceber e obter compreensão de reinos onde a palavra não pode penetrar, para lá das imagens, dos sentimentos e das concepções.

   Os padrões religiosos que se revestem dum carácter paternalista habituaram-nos a uma imagem do divino sob traços de um chauvinismo machista. Tal tem vindo a satisfazer o homem na medida em que este se tem contentado com os resultados da atribuição do seu próprio conceito de poder ao guru, ao sacerdote, ao mestre, ao ministro e ao psiquiatra. A partir de certa altura, a Igreja estabelecida (dita cristã) passou a alienar, anatematizar e a diabolizar todas as imagens que visassem o feminino associada à religiosidade e à espiritualidade, por achar que esta estaria a ameaçar a sua estrutura e ascensão, predominantemente masculinas, do que resultariam inúmeras  práticas de iniquidade como a caça às “bruxas”, a completa aniquilação e destruição de culturas e povos que desafiavam e contradiziam o seu poder temporal e espiritual, a inquisição, em nome de Deus, da Verdade, etc., etc. A história está repleta de ultraje, distorções e enganos. (4)

   Mas vejamos, a orientação específica de género, no que toca às questões da identidade pela sexualidade, por exemplo, nas mais diversas épocas e culturas, reflecte uma divisão básica da consciência que não só separa, em larga extensão, o homem das suas intuições e emoções, como também a mulher que tende a ser separada do seu intelecto. Tal unilateralidade de distinção tende a propiciar uma civilização em que a mente e o coração – sede do facto e da revelação - resultam completamente divorciados, como se todo o indivíduo se achasse em estado de guerra com a psique, uma vez que neste esforço todas as características humanas do indivíduo precisam ser negadas a fim de se ajustarem àquelas que são consideradas “normais” pela identidade sexual. Mas tal acto de sublimação provoca um verdadeiro padecimento a nível social, ao dividir os impulsos criativos do intelecto e da intuição por alturas da puberdade, precisamente quando mais necessárias são. Tal tipo de especificidade tem início quando o menino é ensinado a identificar-se exclusivamente com a imagem do pai, e a menina com a imagem da mãe - processo que instila uma noção insidiosa e indirecta de culpa, que se reflecte por todo o crescimento e leva a fazer crescer o sentimento íntimo de rebeldia.

   Considerar cada coisa sem perder de vista o seu contrário (vale dizer, o finito, sem perder de vista o infinito) significa preservar a integridade e a abundância no campo do ensino; mover-se num estado isento de precedentes.
   A afirmação do "ser" de cada condição sem a consciência da sua contrapartida, em termos de negação (num todo indissociável) comporta de forma inelutável uma condição de simplismo!
   Se formos íntegros conheceremos a honra mas preservaremos a humildade. Se a constância na integridade for completa, retornaremos ao estado original de consciência indiscriminada e honestidade - isenta da afectação do eu - e preservaremos o vazio; uma vez vazios preservaremos a abundância de recursos. Por tudo isso se diz que o bom alfaiate é aquele que corta pouco, e o bom escultor não o que acrescenta mas o que retira somente o que está a mais.
Aquele que não volta as costas à própria ignorância de si mesmo pode alcançar a luz do esclarecimento e tornar-se modelo do mundo.


29
Expressão do Sagrado

Esperais tomar o mundo de feição e transformá-lo?
Não vejo como possais ser bem sucedidos;
O mundo é um recipiente sagrado
Em que nem o desejo nem a vontade devem intrometer-se!
Intrometer-se, procurar dominá-lo,
Significa deformá-lo,  deitá-lo a perder.
O que estava na frente passa para trás;
Aquilo que é beneficiado a seu tempo será abandonado
E o que foi amealhado ridicularizará o esforço empregue;
Frequentes vezes a força procede da fraqueza e do infortúnio.
Em verdade há um tempo para cada coisa
Seguir adiante ou permanecer atrás;
(agilidade, lentidão)
Um tempo para a passividade e um tempo para a euforia;
(entusiasmo,  apatia)
Um tempo para o crescimento e um tempo para a decadência;
Um tempo para estar em cima e um tempo para estar por baixo.
Assim, o sábio deixa todas as coisas seguir o seu curso,
Procura evitar o excesso e a arrogância
E afasta de si os extremos e a extravagância.


Comentário

   O mundo é um receptáculo sagrado porquanto é a representação de manifestações do Desígnio Perfeito Original.
O que, sob o véu aparente da ilusão e da multiplicidade, percebemos como pluralidade de forças em confronto e negação mútua, esconde o carácter sem par da singularidade e da unidade, condição em que, situada para além de toda a divergência e contraste, reside a essência do inefável. Tudo constitui uma só dinâmica: a da mutação - inimaginável fonte de bênção, alegria imorredoura e de júbilo sem limites.

   Impelidos pela subjectividade de uma "realidade" moldada pelos sentidos, deparamos com um mundo ajustado ao que fomos preparados para encarar.  E nessa medida nós somos seus criadores passivos. Mas o mundo é, antes de mais, aquilo que nós formos!  Contudo, não será a vida verdadeiramente sagrada? A mudança só refere o seu aspecto superficial. Se quisermos realizar a sua unidade temos de reaprender a abrir mão de tudo o que julgávamos saber com relação ao que não se revelou tão eficaz quanto as expectativas. Não se pode simplesmente correr sobre chão de vidro sem esperar causar danos irreparáveis. A natureza é frágil, sensível, e dispensa atropelos; intrometer-se com a natureza do que é delicado equivalerá a arriscar-se a deitá-la a perder. Não será isso assim devido ao facto de a subvertermos com a intervenção de meros subprodutos da distorção como a intenção e o desejo?

   Não devemos negar as verdades que nos preenchem o caminho, próprias do nosso ritmo e percepção.
Dominar equivale a ser dominado. A alteração que as coisas podem sofrer, no curso do restabelecimento da ordem original, há de ser natural porquanto o sagrado assenta no Incriado, e na integridade do que é sem suportes, exactamente “tal qual é” . Não há razão para sentirmos medo infundado. Há forças em movimento às quais nada poderemos acrescentar e às quais também nada poderemos subtrair. Só há um caminho a seguir para o homem sensato; a via do correcto não-interferir. O homem sensato não procurará deter as manifestações tal qual se apresentam mas percebe-as como elos indissociáveis de uma cadeia vasta em termos de valor e sentido; tampouco procurará mudar a sua natureza por meio do desejo ou da supressão pois sabe que isso só reforçará o antagonismo e a agitação e por isso evita os extremos, o excesso e a complacência por meio do desenvolvimento da compreensão e da compaixão.
Não interferir e deixar seguir o curso natural do desenvolvimento de cada coisa, dentro da ordem manifesta, é o que empreende aquele que desenvolve a sensibilidade.


30
Descartar o Uso da Força

Aquele que sabe conduzir o governo pela via da Justiça
Ignora o uso de armas,
Pois é próprio da sua utilização sair-mos  feridos.
Onde estacionarem exércitos  crescerão somente cardos e espinhos;
Após uma grande batalha seguir-se-ão anos de fome;
O homem de bem cuida de servir à protecção do seu povo,
Todavia, procura vencer sem auto-engrandecimento.
Após atingir a vitória não exibe sucesso,
Nem se orgulha da habilidade empregue
Arrependendo-se sim da incapacidade de impedir o conflito.
Não deves pensar em conquistar os demais pela força
Porquanto isso é contrário à natureza!
Ao apogeu de poder sucede invariável e inevitavelmente a decadência.
Tudo o que  é contrário à vida caminha para o seu fim!


Comentário


   Abandonai o uso da violência pois ela só gera antagonismo e resistência. A compreensão do natural e infinito equivale à sensatez e inibe a vaidade da identificação gratuita. Todo o indivíduo que procurar mudar o mundo pela força, será responsabilizado em consciência.

   A aceitação, pelo contrário, não significa resignação diante das disposições do inconsciente mas, ao invés, acção positiva e ser-se resoluto. A aceitação construtiva não é fácil nem difícil mas decorre naturalmente da abertura meditativa conseguida. Não se trata de disposição deliberada para acolher as coisas pelo que são, antes representando um exercício de flexibilidade e exposição ao “que é”, uma disciplina do inconformismo e da atenção básicos inerentes a todo processo de auto-conhecimento, indispensável à transformação pessoal. Tal aceitação significa uma quebra no padrão repetitivo e limitativo da identificação pessoal inerente ao processo do pensar.


31
Preservação da Paz

Armas de guerra são instrumentos do mal;
O homem de bem não confia nelas.
Em tempo de paz, o governante confia a esquerda
Como lugar de honra para ministros.
Em tempo de guerra, confia a direita
Como lugar reservado para generais. 
Sendo as armas instrumentos nefastos
Não são próprios para o homem de bem;
Só quando forçado deverá ele recorrer a elas.
Àquele para quem a paz e a serenidade são caros ao coração
Mesmo uma vitória não constitui causa de júbilo;
Esse regozijo diz respeito ao morticínio.
Assim, aquele que se regozija com a matança
Não pode esperar evoluir no domínio do mundo. (si mesmo)
Deve reservar-se sempre o lado esquerdo para os momentos  propícios 
E o lado direito para as ocasiões de pesar.
No exército, o lugar de Tenente permanece à esquerda
E o de Capitão à direita;
Isso significa que a guerra é tratada em paralelo com o serviço fúnebre!
Aquele que muito matou cumpre ser chorado com tristeza e desgosto
Por isso mesmo se assemelha a vitoria  a um funeral.

Comentário

   A meditação propõe-nos a paz interior da aceitação, de forma a podermos alargar as portas da percepção e da sensibilidade, que conduzem à unidade do Amor. Somente por meio do amor poderá ocorrer a transformação e o desenvolvimento pessoal que, não obstante, mais nenhuma via consegue.
A meditação não refere nada de extraordinário, além de constituir uma  dimensão extra da observação do carácter pessoal reflectido no relacionamento, obtido por meio da atenção focalizada, dimensão essa indispensável ao desdobramento criativo bem como ao desabrochar da compreensão. Sem meditação não podemos desdobrar-nos na compreensão/resolução dos conflitos que nos atormentam e que  encontram sede no terreno da dualidade psicológicas, nem tampouco transcender os limites do “eu” e a identificação com o pensamento.

32
Espírito Crítico

A Verdade é eterna;
O Caminho da Vida é destituído de atributos.
Porém, insignificante como é na sua simplicidade original,
Não fica abaixo de coisa nenhuma neste mundo.
Se os governantes pudessem cingir-se a ele,
Céu e Terra resultariam em harmonia
E reinaria a paz entre os homens
Sem que se sentissem constrangidos.
Quando se perdeu a Simplicidade Original
 Houve necessidade de dar nome às coisas,
Porém, a diversidade de nomes não refere o inominável.
É apropriado suster a discriminação;
A verdade está para o mundo como o mar para os rios.


Comentário

   Desde logo, o Caminho da Vida refere a singularidade implícita ao QUE È – isento de julgamento e como tal destituído de atributos.
  Depois, a contrapartida indispensável da confiança reside justamente no discernimento; na faculdade de discernir em quem se deve confiar e, ou, que tipo de situações deve tomar como certas. Avaliamos segundo a óptica de uma duplicidade de bem e mal, de certo e errado, e nessa exacta medida também restringimos a nossa confiança pessoal, liberdade e integridade. A diferença do autêntico discernimento responde pela disparidade patente entre o homem livre que considera antes de mais segundo uma perspectiva humana (o homem e a sua verdade intrínseca em primeiro lugar) e só depois os princípios e as noções de valor moral - e o tacanho que usa e abusa da arbitrariedade lógica para justificar a sua estreiteza.

  A preservação da autenticidade não conduz à fama; o seu valor, aos olhos dos demais, insignificante parecerá. Contudo, a sua eficácia transcende toda a medida e ilusão decorrente do tempo.
   Se fosse passível de ser definida poderia prestar-se à utilidade. Talhai um bloco tosco e ele resultará vistoso; educai o homem simples e ele poderá perder a simplicidade. A utilidade conduz ao desgaste; a inutilidade ao crescimento. Todavia, ambos são aspectos inseparáveis de uma dinâmica, cujo rompimento somente movido pela acção irreflectida e gratuita do homem, alicerçada no seu desejo separatista e exclusivista pode assumir tal carácter isolador de gravidade e dano. Quando se subverte o significado ao sentido de utilidade perdemos a sua essência. Procurar obter demasiado saber, conduz à perda de perspicácia.


33
Sabedoria

Aquele que conhece os outros é sagaz
Mas quem conhece a si mesmo possui sabedoria.
Aquele que consegue prevalecer sobre os outros é poderoso
Mas quem conquista a si mesmo, possui força.
Todo aquele que sabe contentar-se é rico;
Aquele que for capaz de perseverar no Caminho da Virtude,
Sem perder o seu “norte”, possuirá firmeza de carácter.
Aquele que preservar a sua integridade
Sem perder o equilíbrio, perdurará.
Poderá ter de enfrentar a morte, porém, não perecerá
Mas gozará de verdadeira longevidade.


Comentário

   A fronteira que separa o conhecimento da ignorância é subtil. Que conhecimento se referirá? Sem percepção do "eu" não se pode falar em discernimento. A capacidade de discriminação, por si só,  não denota conhecimento nem formação; a eloquência não se traduz pela oratória mas através da condição de simplicidade e abertura de espírito. Falar, é próprio do domínio do saber; escutar, é um privilégio da sabedoria.

   O conhecimento, qual jóia em bruto, se não for “polida” com esmero e refinado cuidado pode constituir uma lâmina de dois gumes e ferir aquele que o utiliza de forma indiscriminada. Assim como somos aquilo que pensamos e proferimos também aquilo que por via do conhecimento cultivado passamos a acreditar tende a moldar a nossa própria realidade. Isso é inegável, muito embora o leitor possa não se dar conta do facto.
   Em contrapartida, o desconhecimento não significa ignorância!
   O poder da vontade pode conduzir-nos à fama, todavia sem moderação e equilíbrio nada poderá perdurar. Aquele que alcançar o cerne da paz, alcançará também influência no ensino.
   Quem se contenta é verdadeiramente abastado; aquele que se concentra na conquista de posses habilita-se a ser por elas “apossado”. Perseverança equivale a verdadeiro poder, quando não se identifica com obstinação e voluntariedade.

   Contudo, em que pilares, no quê exactamente, encontraremos o centro dessa firmeza de carácter? Bom, cumpre perceber que a firmeza a que se alude deve resultar de um intercâmbio entre o ser interior e o exterior, numa simbiose que responde por uma unidade que passa habitualmente percebida como conceitos e entidades distintas. Para tal apresentam-se várias vias de comunicação, bastante expressivas que precisamos aprender a observar com uma sensibilidade que dispensa requisitos prévios tais como o conhecimento de outros, de condições, etc., mas tão só da atenção e de alguma determinação da vontade. São eles: a imagética contida na linguagem dos sonhos; as emoções; o sentido interior da empatia e da conceptualização; os impulsos, as impressões e a própria imaginação. Quanto mais aprendermos a abordarmos estas “vias de comunicação”, tanto mais facilmente entraremos em sintonia com o ser interior, que dispõe de informações úteis tanto ao nosso desempenho e realização do potencial (definição da vocação, descoberta de recursos, sentidos anteriormente despercebidos, et.) que nos auxiliarão a resolver os problemas com que nos deparamos, porque esses problemas, - que somos nós que criamos – resultam da perda dessa comunicação com a “fonte” interior.

34
Magnanimidade

A Virtude Sublime é universal e assemelha-se a um dilúvio.
Como poderá  voltar-se  para a direita ou para a esquerda?
Todas as criaturas dependem dela
Sem que  lhes recuse coisa nenhuma.
Realiza a sua obra sem reclamar posse sobre ela;
Sustenta todas as coisas e nutre-as
Sem dominar sobre elas;
Por isso é  tido na conta de Humilde.
Todas as coisas retornam a ela e a aceitam como um refúgio
E ela nada lhes exige;
 Por isso o chamam Grandioso.
E justamente por não esperar  nenhum reconhecimento
É que a sua grandeza é plenamente realizada.

Comentário

   Todas as coisas, pela sua ordem, se cumprem sem excepção nem exclusão, de acordo com a sua natureza de ser, e assim satisfazem o seu propósito em silêncio, sem exigências. Sendo um aspecto dessa ordem natural não exercem domínio sobre quem quer que seja nem coisa alguma, prevalecendo antes como fonte irrestrita e incondicional de nutrição. Se o seu princípio não inclui qualquer reserva nem excepção, deverá ser de importância primordial; na medida em que não favorece nenhuma parcialidade revela-se infinito.


35
Fidelidade de Espírito

Aquele que se conserva fiel à Virtude Sublime atrai o mundo para si.
E se todos acorrem a ele, não encontram qualquer dano
Mas paz e harmonia.
Musica e petiscos podem constituir uma pausa para o viajante,
Porém, as palavras expressas com verdade possuem efeito duradouro.
Embora ténues e carentes de sabor,
Não podem ser percebidas com os olhos
Nem escutadas com o ouvido.
Mas o seu uso prevalece inesgotável.

Comentário

   Aquele que possui sensatez age de acordo com a natureza, e nunca vai de encontro a ela, conhecedor que é de que desse modo encontrará paz de espírito e realização; esse, procura a compreensão do coração e assim avança sem risco de injúria. Por tal será procurado pelos demais.
   Se oferecerdes bom alimento ou musica, os viandantes pararão á vossa porta; contudo, se agirdes com justiça e virtude, poderá ser que ninguém dê por isso, mas seguramente todos sairão bem mais beneficiados. A vida age sem favor nem benevolência; todavia, se praticarmos a virtude, o seu benefício tornar-se-á inexaurível.

   A única paz que o mundo conhece é a da distracção e do desinteresse, a da ocultação dos factores de perturbação. À medida que aprendemos a encarar a nossa impotência e temores de modo mais consciente e afável também nos desdobramos na paz da aceitação criativa, e isso afectará os sentimentos e as preferências de quantos preferem a ilusão à paz. Aquilo que a paz exige vale bem pelo que tem a dar.

   Cultivai o ócio e a meditação e procurai a compreensão e nessa medida podereis causar, àqueles que vos rodeiam, a percepção da diferença dos vossos actos. Uma boa parte dessa paz reside em sermos prestáveis; a cada passo podemos deparar-nos com situações que se prestam ao auxílio, através das quais podemos plantar sementes de compreensão, de gentileza e serenidade.
Ainda assim, e apesar de não podermos evitar ser levados na conta de tolos, ao procurar empreender o que ninguém parece apreciar (mais do que justificar as suas convicções e opiniões de juízo formado) é como se buscássemos visualizar o vento, que é invisível e infindo, e corre por onde lhe apraz. É justamente em tornar-nos como ele, e não em persegui-lo, que reside a paz. Estendei as asas e voai no seu amor e na sua luz que nos advém da vontade de o fazer, e do desejo de a manifestar em toda a sua glória.

36
Superação

Para que algo se contraia,
 Deve-se, antes de mais, permitir que se expanda;
Por forma a enfraquecer algo,
Deve-se, certamente, deixar que se fortaleça primeiro.
Se quisermos derrotar, devemos primeiro exultar;
Para podermos despojar devemos primeiro,
Deixar que alcance a opulência;
Nisto reside a subtil sabedoria.
O brando e o fraco levam a melhor sobre o duro e o forte.
Toda a força e superioridade anteriores
Se expiam na debilidade  e inferioridade subsequentes.
O mais evoca o menos;
 O excesso conduz à carência.
Assim como o peixe não pode ser pescado 
Se permanecer nas profundezas
Também o homem de bem não deve tomar posição.

Comentário

   A tendência comum aponta para a tomada de posição e o endurecimento da acção, em face das contrariedades e das contingências da vida, mas aqui o sábio aponta-nos o caminho da flexibilidade e da confiança.

   A coerência do sentido da analogia empregue remete-nos para a compreensão de que sem uma realização equilibrada dos contrários psicológicos, não poderá resultar qualquer acção ou experiência positiva porquanto o livre arbítrio em que assenta torna-se o factor central de todo o processo. E, ao contrário das doutrinas puristas, que defendem medidas de nobreza de carácter mais ou menos intransigente, destituídas de liberdade total, jamais poderá tal equilíbrio resultar de forma salutar.

   O conteúdo nuclear deste verso remete-nos para o trabalho com os aspectos da “sombra” (da personalidade), no sentido em que nos indicam um caminho para trabalharmos com os nódulos emocionais, bloqueios, e dificuldades aparentemente intransponíveis que tais, tudo o que reflecte disposições pessoais relacionadas com a percepção (e a crença) que temos de nós próprios. Nesse sentido indicam-nos três passos em concreto indispensáveis a fim de transpormos condições negativas e as substituirmos por outras mais aceitáveis. São eles: Um RECONHECIMENTO da situação, DIRIGIRMOS a ATENÇÂO para a compreensão das causas ou fundamentos que propiciem padrões negativos ou hábitos destrutivos; que tipo de expectativas ou percepções podemos cultivar a fim de transferirmos a atenção de um padrão para outro num modo mais produtivo e saudável e, por fim, a ACEITAÇÂO – quer do passado, que significa a ausência de necessidade de juízo com relação tanto a nós próprios como aos outros, por quaisquer padrões destrutivos ou inadequados que tenhamos desenvolvido (necessários à altura) que deixaram de nos servir – quer a consideração dos novos desenvolvimentos em nós próprios, as novas formas de antecipação e expectativa conducentes a novos resultados.

   Atendamos à expressão da natureza - diz-nos este versículo - contra a qual nenhuma força de sublimação ou repressão prevalecerá. Pois toda a formulação do dever durará com a justa intensidade da sua preservação apenas, e não resultará natural. Se soubermos aliar a atenção à expressão natural, e a sensibilidade a essa atenção, poderemos vencer sem esforço contra a adversidade.
   Se quiserdes que algo enfraqueça, deixai, antes, que seja fortalecido; se pretenderdes eliminar um hábito profundamente enraizado, deixai que a vossa atenção se concentre nele e lhe “compreenda” as raízes. Se pretenderdes reduzir o poder ameaçador do vosso inimigo, deixai que se revele primeiro (pelos seus contornos e actuação) no campo de batalha.

   Antes de podermos colher temos que semear primeiro; para podermos receber temos de dar.
Tudo na vida ocorre em ciclos; há um tempo para que cada coisa ocorra, dentro dessa lei.  
O Caminho do Meio alude a uma compreensão que evita todo o excesso e posição extrema.  
Na preservação da tranquilidade de espírito está o verdadeiro resguardo de toda a inquietação. Através de tal subtileza é que podemos superar as dificuldades da vida, e vencer o mundo. A suavidade e a candura sobrepujam o rigor da rudeza e da agressividade.

37
Transformar pela Virtude

O Caminho não produz qualquer bulício
No entanto não ocorre nada sem a sua acção.
Se o soberano puder ater-se a ele
Todas as coisas se desenvolverão por si mesmas.
Quando tentamos desenvolvê-las através do esforço
Ou transformá-las pelo emprego da vontade,
Isso faz brotar a afectação do desejo.
É altura de as dominar pelo uso da simplicidade original.
A simplicidade original é destituída de desejo e ambição,
Livre de todo propósito, e consolida-se na serenidade e na paz.
Mas todas as coisas se ordenam por sua vontade.

Comentário

   A virtude está em nada fazer pelo uso da força; contudo nada permanece inalterado mas é modificado pela sua acção. Nada na vida acontece por acaso; no entanto, não nos falta nada do que é exigido para o superar...
   Se observardes a (vossa) natureza com sensatez, tomareis consciência disso e distanciar-vos-eis de toda a paixão, através do emprego da mente original - sem desperdiçardes energias em vão, com o esforço. Desse modo as nossas acções não devem ser forçadas mas naturais e despretensiosas, e devemos agir sem intenção formada no campo do conhecimento afectado. Assim, todas as coisas florescerão com naturalidade, garantindo desse modo a sua submissão. Agir desse modo é agir em harmonia com a natureza. Se os homens abandonassem o desejo egoísta, o mundo alcançaria a paz.
   Se pararmos de implicar com o que nos incomoda isso transformar-se-á, perdendo a sua qualidade rude e agressividade.

38
Isento de Segundas Intenções

A Virtude superior não está em seguir preceitos nem princípios;
Justamente por não possuir consciência de si,
É que chega a implementar a diferença.
Assim também chegamos a ser isentos de consciência de nós próprios.
Os nossos actos podem chegar a alcançar virtude.
A virtude inferior preocupa-se com as normas e exibe-se,
Por essa razão é igualmente falha em criar resultados;
A virtude superior não se agita nem segue objectivos parciais,
Todavia, nada deixa inacabado.
A virtude mundana não só disputa e interfere 
Como também logra atingir o seu móbil.
A benevolência superior age sem intenções;
A moralidade inquieta-se
E actua de acordo com motivos estreitos e mesquinhos;
O grande poder não convence
 Mas abeira-se da persuasão para se fazer cumprir.
Assim, pela perda do Caminho advém a virtude;
Quando nos afastamos do Caminho, recorremos à benevolência;
Após a perda da bondade passa a prevalecer a moral;
Quando a justiça se perde sobrevém o poder.
O poder não passa duma aparência de confiança e lealdade
O começo da confusão e da desordem.
Previsibilidade  e  conhecimento,
Tanto podem representar a flor do Caminho
 Como o começo do erro.
Assim, o homem precavido depõe o coração no altar da essência
E, ao invés da aparência, colhe  o “fruto” em vez da  flor.
Na verdade, prefere o recolhimento à exteriorização.


Comentário

   Das convenções e normas de hierarquia e credos estabelecidos não se abre mão, nem nos libertamos com facilidade; todo culto exclusivo e exacerbado do “eu” representa a falência do amor e da honestidade e o início da confusão. A esperança representa um aspecto colorido pelo temor.
   Aquele que é verdadeiramente justo não permanece pela rama mas vai ao fundo das questões. Cada um deve decidir-se sobre o que procurar, e parar de se arrastar na ilusão. O homem sensato guia-se pela razão e não pela experiência adquirida; guia-se pela essência e não pela aparência; guia-se pelo coração e não pelo desejo.

   Quando o ideal brota da abstracção e não encontra paralelo com a expressão; quando a intenção brota da perda de virtude, do auto-interesse e do desejo, florescem o ritual e o cerimonial; imperam as boas intenções e proliferam o embuste e o engano. Quando a moralidade e o dogma são enaltecidos, perde-se a compaixão e a simplicidade. O homem de carácter não tem consciência de importância pessoal- é justamente por isso que possui carácter; já aquele que não o possui, preocupa-se em alcançá-lo. Será por isso que não chega a consegui-lo satisfatoriamente? Se o primeiro age sem motivo de interesse o outro já o faz com segundas intenções.

   O maior bem reside não em procurar agir em consonância com o dever mas em facultar a sua acção. O indivíduo comum procura cometer boas acções e descobre-se incapaz de o fazer com a constância ou o espírito desejado. O indivíduo de carácter não força os outros a agir no enquadramento da virtude; não obstante, chega a conseguir os seus intentos. O homem meramente bem intencionado não só força modelos de conduta e princípios de moral como também não consegue ser bem sucedido no estabelecimento dos mesmos. O indivíduo generoso age por compaixão e alcança uma imensidade  de resultados; o justo age por piedade mas ainda assim muito deixa por fazer. O moralista age pelo sentido de dever e quando não encontra correspondência não hesita em subscrever a imposição e a força. Cuidem-se da hipocrisia; permanecei nas fileiras de trás; cuidai do que é natural e desprezado porquanto é aí que se oculta o valor e a prístina simplicidade.

39
 Confiança

Nada existe que, desde o início não tivesse atingido a Unidade.
O Céu, pela consolidação da Unidade atingiu a claridade;
Em consonância com a Unidade a Terra estabeleceu sua firmeza;
Os humores, consolidaram o seu poder na Unidade;
Por intermédio da Unidade as fontes atingiram a plenitude,
E todas as criaturas a atingiram e se reproduziram.
Pela Unidade, príncipes e governantes, reinaram sobre a Terra.
Todas as coisas são o que são pela Virtude da Unidade.
Se o Céu carecesse de pureza, deixaria de ser Uno;
Se a terra não possuísse estabilidade desagregar-se-ia;
Se os humores  não possuíssem poder e eficiência,
Deixariam de ser o que são.
Se as fontes não possuíssem aquilo por que se enchem, secariam;
Se todas as criaturas deixassem de se reproduzir, extinguir-se-iam;
Se os príncipes deixassem de ser soberanos seriam depostos.
Em verdade, a humildade é a base da nobreza;
 O Sublime deve firmar-se no que é humilde.
É por falta disso que os governantes são habitualmente
Designados como incapazes e indignos.
Talvez necessitem  ter consciência do quanto dependem do "humilde".
Na verdade honra em demasia é sinal de carência;
Não é sensato resplandecermos como o jade,
Nem mostrar-nos  rudes como seixos duros.


Comentário

   À semelhança da analogia da carruagem, em que se refere não consistir nas partes que a compõem, mas na combinação dessas partes (refira-se, para que se não crie confusão, que a Totalidade não consiste meramente na soma de todas as partes cindidas ou dispersas mas na subtil singularidade de ser que as permeia).

   A nobreza de carácter há de ter raiz no que é aparentemente ínfimo; o "superior" encontra a sua fundação no "inferior"... Certas passagens dos evangelhos aludem a isso de forma inequívoca ao referirem: “O maior entre vós será vosso servo”, e “Aquele que for exaltado será humilhado, e quem for humilhado será exaltado.” (Mat.23-11,12)

   Confiar é apoiar-se, contar com o poder, a força, a integridade, o carácter e a responsabilidade duma coisa ou pessoa com esperança e antecipação. À maior parte das pessoas é dito para confiarem porém, não ensinado a fazê-lo. A perfeição, p. ex., constitui a antítese da confiança. Muitas vezes permanece na base da busca da confiança, como única realidade, por vezes a autoconfiança revela-se comummente difícil devido à falta dum sentido de honradez, fidelidade e credibilidade. Quer devido a que a consciência dessa honradez passe despercebida, ou então não tenha sido desenvolvida nem o seu potencial exercitado; e se não fizer parte do ambiente de crescimento e não for utilizado então tornar-se-á difícil ter auto-confiança.

   O alvo da nossa confiança não deve ser o objecto de fé cega nem da manipulação nem da perfeição. Deve sim, ser alguém que dê prova de carácter e integridade – não só ideais e princípios – o indivíduo de carácter não é essa mas sobretudo a que vive de acordo com esses princípios e ideais. E o indivíduo  que não possui carácter, não importa que ideais pregue, princípios de esquerda ou direita, riqueza, etc., se não vive de acordo com eles não merece confiança. Pode defender a honestidade, a verdade, não dizer mentiras, mas... se não regular a sua vida por esse prumo, não hesitará em mentir quando lhe convier. Naturalmente que não merece que se confie nele.

   No caso dum indivíduo que carece de integridade, ele não possui atenção para com o seu lado restritivo e negativo, a sua negatividade potencial, assim como para com o positivo. Pode ter integridade, porém, falha na sua aplicação. E um indivíduo destituído de integridade e de carácter, não merece confiança. Para se ser honrado precisamos exercitar o carácter e a integridade e a firmeza íntima. O indivíduo digno de confiança é aquele que se preza; se não se valoriza, no extremo, pode sucumbir num sociopata, e não sentir escrúpulos em cometer qualquer atrocidade que resulte em dano para o outro, por não perceber qualquer outro valor nele além do objecto da sua cobiça. Se não tivermos sentido de valor não poderemos valorizar quem quer que seja; tampouco seremos capazes de avaliar uma situação ou circunstância. Por isso a própria valorização é um componente da honradez tanto do outro como de nós próprios.

   Os governantes autênticos hão de considerar-se como possuidores de pouca importância. Eles dependem da confiança do povo comum a fim de poderem preservar as suas posições. Não devem permanecer nos seus gabinetes mas ir ao encontro das realidades e necessidades do povo. Quando tal não acontece e se tornam assumidamente importantes em si mesmos, tornam-se um estorvo.
   Assim, todos e cada um depende da humildade. Demasiado sucesso não é sinal de proveito; sem humildade não podemos alcançar a clareza de compreensão, estabilidade nem firmeza de carácter; tampouco a unidade. Sem esse suporte facilmente nos tornamos corruptos.


40
Retorno

O retorno  é o movimento do Caminho da Unidade;
A suavidade é a sua função.
Do mesmo modo, o efeito resulta da sua acção.
Todas as coisas provêm da existência;
Esta, é originária do não-existência.
(do que é coisa nenhuma)
Diminuindo-se  incessantemente pela compreensão
Chega-se a dar lugar à simplicidade primordial.



Comentário

   Tudo o que se manifesta brota do ser; o ser brota do não-ser.  O nada de que todas as coisas procedem, que vem a tornar-se divino bem. Débil é a chama da vela, todavia, tem todas as propriedades da luz.
Este versículo encerra um duplo significado; aquele que traduz o retorno à fonte e o do retorno da fonte ao mundo. No I-Ching o retorno é caracterizado pelo regresso da vida, na primavera, que se segue aos desafios, ao rigor e às tribulações do inverno. Para os antigos chineses tal retorno representava o âmago  do céu e da terra e jamais falhava. Por isso, mesmo no meio da morte e do desespero há esperança de vida renovada. É como o retorno iminente do Messias, tão esperançosamente aguardado pelos cristãos primitivos, que consistia na fonte de toda a manifestação. Tal resumia-se à expectativa ou esperança do devoto pela tão proclamada vinda do Cristo (Interno).

   Consagra este versículo a função do desdobramento psíquico e da sensibilidade, que se traduzem por uma multiplicidade de estados caracterizados por um refinamento da percepção, tais como o estado de sonho, da meditação, estados alterados de consciência, da intuição, etc., que representam como que uma passagem dos instintos básicos aos mais elevados níveis de consciência, em que se revela o elevado significado do Eu, em nós.
A intuição é o impulso que nos motiva na direcção daquela força que designamos como Deus. As impressões relativas à nossa natureza original de alma (dotada dos atributos de corpo, mente e espírito bem como da de omnipotência de se manifestar em todos os quadrantes do tempo e do espaço), um fenómeno da Mente, levam-nos a estruturar suportes de desdobramento a que chamamos “filosofia”,” intuição”, “espírito”, “aquela pequena voz interior”.

   O maior impedimento ao desabrochar da intuição consiste no estresse, que por sua vez radica numa fraca auto-estima. O estresse, que assenta nos padrões da supressão, torna-se num bloqueio à recordação, e se não for devidamente atendido pode conduzir à paranóia e à ansiedade. Pelo relaxamento da agitação interior podemos gerar ondas de vibração cerebral alfa e teta que nos permitem recobrar a sobriedade duma percepção alargada.
A auto-estima, que consiste na integração da experiência ou acção com o instinto, no agora, assente numa elevada capacidade de recordação do eu, permite tanto o desabrochar da intuição quanto a transferência dos (insights) lampejos de clareza que proporciona.
Intuição é sinónimo de recordação, que consiste no fluxo da energia ao longo dos corredores neurológicos do cérebro, fluxo esse demonstrável por diversas reacções químicas ao longo da condutividade dos acessos neurológicos. O estresse interfere com a condutividade desse fluxo. A redução do estresse possibilita a intuição. A chave da intuição reside no Nada, no Vazio, esse todo que é coisa nenhuma; quando aprendemos a serenar e a abrir-nos a tal vazio, recordamos, ou, por outras palavras, encontramos “soluções”. Porque esse nada é o berço de intuições a que damos o nome de: criatividade, resolução de problemas, sonhos, lógica, etc., etc. Daí podemos avançar directamente para o estado de Conhecer, que é o estado do verdadeiro conhecimento e desdobramento psíquico. Nós brotamos da alma e a ela retornamos.

   Tudo o que existe tem suporte na ordem da vida; essa ordem perfaz um círculo eterno de vir-a-ser em que tudo floresce e se volta de novo para a sua origem. Nessa acção de retornar ao vazio interior centra-se a eficácia da purificação. A unidade brota da acção dos contrários e é justamente pela receptividade ou vulnerabilidade (que assiste na negação salutar do saber)  que pode aflorar. O Retorno exprime um comedimento necessário a toda a correcção; é melhor não fazer certas coisas do que exceder certos limites, porque, apesar de por este meio não ser possível alcançar suficientemente longe, tem-se pelo menos a certeza de se seguir na direcção e no ritmo adequados. Do mesmo modo que, se quisermos avançar mais e mais em direcção ao Este acabaremos por alcançar o Oeste, também aqueles que acumulam mais e mais, por forma a aumentarem a sua riqueza, acabarão por ficar mais pobres. A sôfrega tentativa pela elevação do nível de vida do Ocidente é um exemplo ilustrativo do facto da diminuição da sua qualidade.

É irracional pensar que a origem terá tido início com uma explosão de proporções cósmicas – o que subscreve a noção de que a vida – a consciência, para ser mais exacto – tenha sido originada  de elementos de consciência! O Big Bang está, portanto, prenhe de incoerências. O mundo ter-se-á formado de um caldo de poeiras cósmicas e gazes, elementos que no nosso conceito resultaram do puro acaso e não possuem consciência, e miraculosamente, como que procedente do nada, essa mesma propriedade terá sido inculcada de forma puramente acidental. Tal noção não contém qualquer lógica! A matéria não foi formada a partir dessa explosão para subsequentemente formar a consciência... A consciência já existia – existe! Anterior á orquestração do nosso universo, conforme nos é dado percebe-lo, está a consciência. Antes mesmo da essência – conforme também nos inclinamos a admiti-la -  estava o Todo. Podemos recorrer ao termo que quisermos para descrever tal movimento ou acção porque, nenhum o descreverá; contudo a totalidade da consciência não é um ser mas o Todo. Portanto, o termo ou a designação que geralmente mais concorre para a tradução do presente conceito talvez posa ser mais fielmente traduzido como uma gestalt ou uma sinergia, que descrevem a qualidade do que não é a parte nem a soma das partes mas mais além disso.
Torna-se muito mais crível a noção da preexistência da alma (consciência) porquanto apesar de poder conter algumas distorções, ainda assim se encontra melhor apetrechado para fazer face à especulação dita “científica”.


41
Aparência e Autenticidade

Quando um espírito superior escuta falar do Caminho 
Aplica-se com zelo e diligência;
Quando um espírito médio ouve falar do Caminho 
Torna-se  indeciso;
Quando o espírito vulgar ouve falar do Caminho 
Ri às gargalhadas;
Se não o fizesse, não se trataria do Caminho!
Assim reza o provérbio:
O Caminho numinoso parece indistinto
E aqueles  que o realizam assemelham-se a  cegos,
O seu progresso parece retrógrado
E aqueles que o percorrem parecem desorientados.
A sua suavidade aparenta ser acidentada
 E aqueles que a atingiram parecem ordinários e vulgares.
É que a virtude superior, de tão profunda, parece vazia,
A claridade superior parece maculada,
A virtude perfeita mostra-se deficiente,
A  mais sólida parece desmembrada,
A mais recta parece difusa,
A pureza genuína parece deformada,
Mas a quadratura perfeita não tem ângulos nem esquinas.
Grandes talentos tardam a revelar-se,
A harmonia superior procede do silêncio,
A Forma superior não possui traço,
A virtude é imanente e não tem nome.
Contudo só Ele sabe como prestar auxílio e realizar a "Obra"!


Comentário

   A melhor conduta, quando forçada, resulta pouco correcta; a mais justa rectidão, quando incutida à força, tem de resultar incorrecta. A melhor vontade do mundo, quando imposta à força, nada consegue. Se o “homem errado” procurar fazer uso do meio correcto, este actuará de modo errado. O sentido mais exacto reside na diferença de atitude.
   Alturas há em que uma conduta de progresso mais se assemelha a um retrocesso e o fácil  parece difícil; quando o claro parece obscuro e a virtude inadequada e vazia; alturas há em que a pureza parece conspurcada.
   Por isso se diz que aquele que é capaz de perceber a verdade, parece ser um simplório detentor duma compreensão lenta. Aquele que progride no caminho da verdade parece andar para trás. Aquele que a segue mais perecerá vaguear à deriva. Assim, a força mais efectiva parece vulnerável e o carácter mais simples parece inconstante.


42
O Segredo do Crescimento

O Caminho conduz à evolução
Que se expressa na harmonia entre os contrários.
A designação e a classificação geram a dualidade;
A dualidade dá lugar ao "ser" e  "não-ser",
E às divisões sem fim que levam à confusão.
Todos os indivíduos carregam o potencial latente
De se tornarem receptivos,
E de alcançarem a harmonia entre os contrários.
Quem desejará mostrar-se insignificante e indigno?
Todavia os homens superiores designam-se a si mesmos
Pelo emprego de tais epítetos!
Ao pretenderem alçar-se a posições cimeiras
Os homens diminuem-se;
Porém, diminuindo-se, com certeza que se engrandecem!
Certo é que podemos ganhar muito com a perda
E perder sem conta, com o ganho.
Eu preconizo aquilo que foi ensinado assim:
Fim violento sobrevirá àquele que da violência fizer uso
Aquele que  agir de acordo com essa verdade
Eu o tomarei como meu mestre.


Comentário


   O segredo do crescimento está em não ter pressa em afirmar carácter algum, mas na aceitação sem motivo resultante da compreensão. Depois, deixar que as coisas se desenvolvam por si só, sem alterar a natureza da sua expressão. A seu tempo, descobriremos que é justamente por ser como são que atingem a afirmação plena (perfeição). A felicidade está na liberdade de todo o incitamento do desejo de  ser livre e feliz - e no sentir pleno (do coração).

 Torna-se imperativo compreender o valor da integridade, porquanto se requer um desenvolvimento harmónico total e não só ao nível do intelecto ou da emoção ou até da acção, que, por si só, nos leva a incorrer em riscos de gravidade proporcional à ilusão dos nossos anseios desequilibrados.

   A verdade não reside na diferenciação, por mais nobre que esta seja, porquanto esta sempre resulta dum movimento gratuito ao ego (procedente do temor ou da vaidade do "eu") mas justamente na virtude de ser um só no pensar e no agir; na coerência entre o dizer o fazer. Se nos abrirmos à compreensão das razões da nossa desorientação poderemos alcançar a harmonia e a firmeza interior. A sinceridade do coração manifesta-se pela realização do sentido do valor pessoal (si mesmo). Perder a harmonia equivale a opor-se ao natural!


43
A Virtude da
Docilidade de Espírito

O suave excede a dureza
Pela cedência se alcança a paz.
Só aquilo que não é coisa alguma
Pode penetrar o infinito.
Portanto, vejo que na não-acção reside
A suprema vantagem do procedimento natural.
(deixar ser, não interferência)
Poucas coisas neste mundo
Conseguem ser tão instrutivas quanto as lições do silêncio
E tão benéficas quanto a vantagem da não-acção.


Comentário

      A flexibilidade e a docilidade suplantam a adversidade do mesmo modo que o movimento vence a inércia, enquanto que a rigidez conduz ao desgaste e à quebra.
   A fraqueza tornada consciente torna-se a base da nossa força. Se impossível for suportar a dor e conter as lágrimas, o seu franco acesso pode aliviar-nos e revelar-se fonte de auto-conhecimento. Se preservarmos as barreiras da resistência mais não faremos que adiar o confronto inevitável, ao tempo de alimentarmos a sombra, na justa proporção da força empregue (força da fuga e do temor).
   O fluxo ininterrupto do movimento desgasta a dureza e vence os obstáculos.
Se não comportarmos qualquer espírito de parcialidade poderemos desenvolver magnanimidade de espírito. Aquilo que não oferece oposição não sofre resistência nem se sujeita à corrosão. Contudo,  tal prática parece inalcançável.
   Grandes são os benefícios do desapego, porém, poucos são capazes de compreender a lição destituída de palavras e de entender o valor da eficácia da não-afirmação.


44
Sensatez

Não serão a saúde e a sensatez mais importantes que a reputação?
Acaso a vida não será mais digna de apreço que a propriedade?
Será sensato expor-se à perda movidos pela vantagem?
Assim, aquele que sustenta desejo em demasia
Consome-se demasiado;
Amontoar demais implica pesada perda
Ao passo que a modéstia não incorre em nenhuma desgraça,
A moderação não causa dano mas conduz á durabilidade.


Comentário

   Qual dos dois constitui maior mal: a perda da sensação de posse e de domínio ou do carácter? Todo aquele que possui sensatez sabe que a vida é mais preciosa do que a fama e por isso preserva o anonimato. Aquele que nutre maior apreço pela riqueza do que pela pessoa mais duramente sofrerá com a perda. Se for conhecedor dos limites do razoável e souber deter-se antes de cair no excesso, poderá perder, porém, conseguirá preservar a segurança interior.
   Grande paixão comporta grande dispêndio; o contentamento não abriga humilhação nem desapontamento.

45
Discernimento da Grandeza

A  Perfeição mais sublime parece imperfeita
No entanto o seu uso é inesgotável.
A Suprema Abundância parece austera
No entanto brota sem se esgotar.
A Suprema Rectidão parece tortuosa,
A Suprema Habilidade parece desajeitada,
A Suprema Eloquência parece balbuciar,
Assim, eis o Sábio:
Perfeito, sob aparências desapropriadas,
Dando de si sem se exaurir,
Completo sem que o pareça
Desdobrando-se sem se esgotar,
Recto sob traços curvos, sem deixar de ser flexível;
Hábil e perspicaz sob aspectos desajeitados,
Como que atrapalhado.
O movimento vence o frio,
 O repouso permite-nos suplantar o calor.
A paz e a tranquilidade são as normas do sábio,
Por elas pode ele dirigir a si mesmo e ao mundo.


Comentário

   Resume este versículo que o ideal, a perfeição, a marca de eleição que assiste à elaboração da preferência e da aversão, brotam da fragmentação e da distorção elementar da dualidade, ou melhor da duplicidade de bem e mal, certo e errado, e na maior parte das vezes só pelo desengano e pela análise distanciada no tempo e no espaço as realizações que pareciam perfeitas, podem revelar o quanto de mal formadas e deficientes possuíam.
Ao agirmos ou amarmos segundo um contexto idealizado de ser e perfeição colocamos o amor num tal plano que nos distanciamos dos nossos sentimentos reais e deixamos de reconhecer o afecto que reside nas emoções básicas do nosso descontentamento.

      Cumpre desenvolver o discernimento, porém em justa medida. Quando esperamos ser capazes de reconhecer a verdade através dos padrões estabelecidos pelo senso comum, podemos deparar-nos com a frustração e a confusão.

Contudo, o amor permanece como potencial em cada oportunidade. Todas as dificuldades constituem um teste à perfeição atingida. Numa altura de dificuldades é confortador determo-nos e lembrarmos o quanto a nossa vida é completa e constitui um Todo, tal e qual é, e que as dificuldades desses momentos de ilusão têm o propósito de nos incitar a descobrir essa totalidade, esse equilíbrio, esse amor, tanto no nosso ser como em cada um. Não vos deixeis desencorajar pelas dificuldades da lição mas procurai a essência do vosso ser na vontade e na fé do caminho.


46
Autodomínio

Quando o mundo seguia a ordem e o Caminho
Os cavalos eram usados para arar os campos;
Quando a virtude foi esquecida
Os cavalos passaram a ser levados a pastar além  fronteira. (guerra)
Não há maior mal do que deixar-se guiar pela ambição
E ceder à cobiça;
Calamidade maior não há que a de perder a noção dos limites,
Só quem conhece moderação terá sempre o quanto baste!

Comentário

   Quando se observa a ordem, todas as coisas se prestam à sua função, e as pessoas ocupam-se de meios criativos. Quando se despreza a ordem e a harmonia, grassam a violência e a discórdia e isso é causador de conflitos e de guerra.
   Aquele que conhece suficientemente isto mais facilmente alcança as suas necessidades pois mais facilmente as compreende pelo que elas não são.


47
Perspicácia

Sem precisarmos transpor a porta
Podemos conhecer os caminhos do mundo,
Sem necessitarmos assomar à janela
Podemos dar-nos conta dos caminhos do Céu.
Quanto mais longe o saber alcança, menos conhecemos!
O sábio alcança a sua meta sem precisar encaminhar-se para ela,
Compreende sem  saber e realiza sem interferir.


Comentário

   É o ser, em meio ao sentir, e o agir consequente - e não o saber - que nos transforma. Ninguém poderá considerar-se ditoso por ser sumamente conhecedor. Quando apreendemos a necessidade de não darmos passos em vão, e de nos sentirmos vivos em meio ao todo, também começaremos a perceber o verdadeiro e o característico e comum em vez de perseguirmos a causalidade. Por outro lado, conhecimento não significa sabedoria; a sabedoria adquire-se por meio da atenção e da experiência e não da informação.

   Todo o conhecimento se reporta, em última instância, a nós mesmos. Todo o restante é acessório. O saber deve ceder lugar ao ser, à atenção, para que se possa experimentar o conhecimento essencial. Conhecimento torna-se vulgarmente sinónimo de responsabilidade!
Por outro lado, o conhecimento implica transformação, razão porque não é surpreendente depararmo-nos frequentemente com a mudança.

   O quanto este versículo não incorpora, de forma excelsa e concisa, a verdade relativa a um aspecto primordial que tanto se pode prestar a uma interpretação distorcida. A falta de congruência sempre produz confusão e reforça os laços da ilusão. Todavia, a essência da questão fundamental da correcta consideração, passa sempre pelo cerne de toda a consideração, o ponto fraco da nossa natureza, ou “eu”, a tendência mais imediata e gratuita que move o significado das questões pela rama e sustenta a comparação e todos os seus derivados - frustração, ansiedade, temor, etc. E tudo se reduz ao “eu” e às suas mistificações e dissimulações; se formos capazes de um simples esforço de atenção direccionado para esse impostor poderemos inverter todo o sentido de orientação da nossa carência e dor, sofrimento e descontentamento, de forma a alargarmos o campo da verdadeira alegria, que é tão plausível quanto o sol de todas as manhãs.

   A sabedoria não consiste no acumular de conhecimentos pela experiência ou aquisição  intelectual, mas no saber que nasce do auto-conhecimento; Não é o alcance do conhecimento mas o estado de aprender que nunca chega a presumir nem a "alcançar" posição.
   Quanto mais experimentamos menos aprendemos. O saber procede da dúvida e conduz à confusão; o não saber é o princípio do conhecimento e o garante da compreensão e da mudança.
   Quanto mais o nosso saber se estende menos conhecimento objectivo alcançamos. Se nos aplicarmos com zelo a descobrir o sentido, sem sentimento de proveito pessoal, poderemos descobrir a ordem natural e primordial da vida, na sua inteireza. O indivíduo sensato preocupa-se por observar ao invés do "ver"; procura transcender o conhecimento que conduz toda a acção de modo a encontrar a essência da realização e a possibilidade de agir. A estreiteza do saber psicológico confina-nos à medida da dualidade de difícil e fácil, bom e mau, inerentes à sua natureza. Contudo o conhecimento constitui a mais elevada função da existência humana e justamente o factor que nos libertará das amarras da ignorância de nós próprios.


48
Conquista do Conhecimento

O saber consiste em acumular diariamente;
A sabedoria consiste em desaprender!
Pela  constante diminuição do saber
Se alcança a liberdade da não-acção
E da acção natural, isenta de esforço e de vontade;
Apesar disso, nada há que não possa ser alcançado.
Para vencermos o mundo devemos renunciar à vã agitação e ao conflito;
Se sustentarmos proveito pessoal gratificante
Jamais conseguiremos obter tal conquista.
Quando nos apressamos a viver encaminhámo-nos para a morte;
Bem e mal dependem da justa medida.
As causas de vida  são proporcionais às causas de morte;
Quando se vive com ansiedade servimo-nos das mesmas causas
Ainda que pelo pressuposto inverso,
Por se apegar aos recursos da vida com demasiada intensidade.

Comentário

   Desaprender, neste contexto, significa não considerar as coisas em função de si mesmas, mas com uma atenção não direccionada, para não dizer centrada num acto de propósito interior.
Os pressupostos do saber formam as cadeias que nos agrilhoam. Que saber? O conhecimento psicológico que desencadeia o bem e o mal, o certo e o errado. Não será através da confirmação do saber presumido que nos libertaremos. Daqui podem resultar ilações. Antes de tratarmos as coisas pelo seu nome cumpre saber de que tipo de liberdade se tratará. Para podermos ir longe, cumpre que comecemos com o que está perto. O que está perto é, de longe, mais importante. O verdadeiro desenvolvimento consiste em aprender a pensar; e não o que pensar. Que transformação, que salvação? Não liberdade com relação a um determinado estado nem transformação de uma dada coisa noutra oposta. Porém, nós não nos libertamos! Somente por meio da percepção ( por parte da percepção do próprio pensamento e de mais nenhum outro factor) da natureza do tempo e do espaço (que é sua consequente negação) poderemos visualizar a ilusão da separação associada ao eu.

   O conhecimento não muda o homem nem o mundo; pela experiência jamais conquistaremos o "eu". E se não o conseguirmos não nos livramos do sentimento de fracasso. A manipulação do conhecimento não traduz factor de libertação nenhum nem tampouco de inocência. Se quisermos recuperar a condição de inocência original temos de descartar toda a dicotomia subjectiva. Tudo na vida se rege pela ordem de seguir o seu curso natural e não pela idealização da mudança. Quando somos compelidos à mudança, o seu móbil escapa-se ao nosso alcance. Se pretendermos vencer o mundo e conquistar todo o processo de causação (dos factores que governam os padrões da consciência), precisamos "agir" de forma negativa e avançar no sentido contrário ao da progressão - que, não obstante, não significa necessariamente retrocesso - e dar atenção aos pressupostos do ser. Nisto consiste a verdadeira doutrina. Neste domínio toda a voluntariedade se fica pelo primário, e unicamente o empenho em perceber poderá referir acção real. Compreender é agir! Nada permanecerá o mesmo.

   A educação, nos moldes em que é implementada, assentes essencialmente no cultivo da memória como técnica didática ( que torna tanto o docente como também o discente sujeitos acríticos), deixa bastante a desejar pois negligencia completamente as potencialidades do aluno, limitada que está ao ajustamento da máquina social (formando para o Estado ou para a ciência e do mercado) pela potenciação de características comuns, visando o interesse de pequenas minorias. Tal sistema levou à perda de uma visão crítica do mundo, da acção e da criação e, consequentemente, da vida, condições fundamentais para a formação do homem.
Temos muito o vício de considerar que os povos primitivos eram ignorantes por não saberem ler nem escrever, mas isso é uma perspectiva completamente subvertida, porquanto as comunidades tribais ditas “primitivas” não conheciam os venenos nem a dependência antes do homem moderno as “converter”.

   A civilização ocidental, após Platão, fundamentou os seus valores a partir de uma visão dualista que cindia o homem e o mundo, numa visão em que o homem estaria condicionado por uma série de dicotomias, como corpo/alma, essência/aparência, razão/instinto, enquanto que o mundo estaria cindido em mundo inteligível/mundo sensível. Nessa perspectiva dicotómica, um dos polos haveria de sofrer constante primazia m detrimento do outro: corpo, aparência, instinto, mundo sensível, respectivamente. Ao estruturar-se em tais valores, a civilização ocidental afastou-se paulatinamente da vida, ao negar os critérios vitais para o valor duma cultura: a afirmação do corpo, da terra, dos instintos, bem como a exaltação da força plástica do homem. Tal tendência influenciou todas as esferas da cultura, do mesmo modo que todos os seus monumentos e instituições, dentre os quais, o Estado, a religião e os estabelecimentos de ensino. O resultado dessa tendência uniformista foi não só a separação entre o homem e a vida como também o empobrecimento da existência.
 
   De resto, o êxito no ensino não depende do método. De acordo com a verdadeira finalidade da escola, o mais importante não é abarrotar de conhecimentos a cabeça das crianças mas contribuir para que possam tornar-se adultos de verdade. Vale mais uma orientação vocacionada para a consciência da própria vocação do que o nivelamento cultural que se implanta com o intuito de ajustar o educando ao modelo-padrão que podem muito bem nada ter que ver com sua natural inclinação e gosto, o que na maior parte das vezes o condiciona fortemente ao classificá-lo injustamente por não se enquadrar ou não revelar faculdades idênticas.
Porque, afinal não é o grau de saber com que a criança termina a escola que importa mas se esta conseguiu ou não libertar o ser humano da sua identidade com a família e torná-lo consciente de si próprio. Sem esta consciência de si a pessoa jamais saberá o que deseja de verdade, e continuará sempre na dependência da família, procurando apenas imitar os outros, ao mesmo tempo que experimenta o sentimento de ser desconhecida e oprimida pelos demais.

   Muitas vezes, a educação que os pais transmitem ao jovem resulta somente de um prolongamento dos seus próprios anelos, dos seus valores da vida e dos valores que apreciam ao seu redor, e isso é tudo o se esforçam por transmitir ao garoto, ao tentar criar uma identidade para ele; através das suas próprias desilusões, os pais procuram o mais das vezes exercer um impacto, uma influência sobre o seu educando, a fim de que eles próprios se possam realizar por intermédio deles: “O meu filho não passará aquilo que eu passei. O meu filho vai estudar. O meu filho há de ser isto ou aquilo...” Ainda que a intenção seja excelente, ela negligencia o desejo do jovem, que assumirá um papel secundário. Aí surgem os papeis que passará a representar na vida, a máscara, a persona, os papeis que tanto os pais como a realidade consensual impõem ao jovem, que impedem que a personalidade básica se faça ouvir para se desenvolver de forma livre. A escola, os familiares e os amigos contribuem a seu modo para o reforço de tais papeis e acabam por determinar a noção de separação do indivíduo. O homem aprende a representar esses papeis para poder sobreviver, segundo o seu ponto de vista subjectivo, mas tal situação acaba por reverter em prejuízo próprio porquanto deixa de viver a sua vida e tende a viver uma vida de mentira, a que os seus  pais e familiares esperam que ele viva.

   Ninguém fica com a educação terminada ao deixar a escola, ainda que conclua curso superior. As pessoas são educadas até ao ponto de poderem ganhar a vida e casar-se, e assim se dá por terminada a educação, como se ficassem completamente prontas e preparadas para a vida, de forma que se abandona ao critério e à ignorância do indivíduo a solução de todos os problemas futuros e complicados da vida. Claro que cabe única e exclusivamente à falta de educação dos adultos a culpa de tantos casamentos desajustados e infelizes, de tantos divórcios prematuros, assim como inúmeras decepções na vida profissional; todos esses adultos vivem na mais completa ignorância das coisas primordiais da vida.
O adulto já terá perdido a plasticidade extraordinária da psique infantil e não pode mais ser atingido por influências externas mas dispõe de vontade própria, de convicções próprias e de um auto consciência mais ou menos pronta e orientada... O melhor método para o adulto deve ser o indirecto, que consiste em fornecer-lhe conhecimentos psicológicos que lhe possibilitem educar-se a si próprio (autodidata). O educador não deve contentar-se em ser um portador  passivo da cultura, mas deve desenvolvê-la de forma activa, por meio da educação de si próprio. A sua cultura não deverá jamais estacionar, pois de outro modo começará a corrigir nas crianças os defeitos que não corrigiu em si mesmo...

   Para que  seja possível a educação de si mesmo, exige-se autoconhecimento  como fundamento indispensável. O conhecimento de si mesmo é conseguido tanto através da observação crítica e pelo julgamento dos próprios actos, como também pelo julgamento das nossas acções por parte dos outros. O julgamento de si mesmo, contudo, é facilmente sujeito aos próprios preconceitos, enquanto que o julgamento por parte dos outros pode estar errado, ou nem sequer ser aceite; o conhecimento aurido dessas duas fontes é cheio de falhas e confuso, como em geral todos os julgamentos humanos, os quais raramente são isentos de um falseamento provindo do desejo ou do temor.
Será que existe algum critério objectivo que nos diga como é que realmente somos?

O autoconhecimento consegue-se pelo emprego da atenção indirecta, isenta de motivo e de desvio pois nunca consiste num conhecimento directo nem assenta em estereótipos; isento de noções de culpa, de preconceito e de juízo. Somente uma constatação desafeiçoada dos factos se mostra uma mais valia na abordagem negativa que caracteriza o acto.


49
Reforço do Carácter

O sábio não possui interesse pessoal
Nem conceito inflexível,
Mas torna sua a vontade dos outros,
Admitindo o seu conceito.
Se a vontade for boa, aceita-a como boa
Se a vontade não for boa
Aceita-a igualmente como boa,
Isso, naturalmente, reflecte bondade.
Ele é generoso com o generoso
E generoso do mesmo modo com o indelicado,
Isso reflecte generosidade!
 Pois ser generoso é possuir virtude!
É sincero para com o que inspira confiança
E igualmente sincero para com o que desconfia,
Pois ter confiança é ser digno de virtude!
Entre os demais é o sábio tímido e apagado
Conservando a serenidade do coração
Em meio à confusão,
O povo aguça o ouvido e apura o olhar;
O sábio, todavia,  considera-os como a sua prole.

Comentário

    A melhor maneira de solucionar os próprios problemas consiste em tornar-se solícito, em desenvolver a atenção para com os demais.
Carácter não significa personalidade. O carácter é sinónimo de generosidade e autenticidade, ao invés da resistência que geralmente caracteriza certa postura de “personalidade”.   Ao contrário, a personalidade envolve o espectro completo da experiência humana, nos mais diversos tipos e manifestações; carácter responde pela ordenação ou processamento disso mesmo na totalidade que lhe é inerente.
   A “superioridade” do homem sensato reside não no proveito que possa colher de cada situação mas na receptividade para com o sentido ilimitado de totalidade da vida, razão porque as necessidades dos outros se tornam elo incontornável na sua sensibilidade  conhecedor que é de ser a confiança a sua máxima expressão.
   Dessa forma trata os semelhantes conforme as suas necessidades e preserva a atitude de humildade sem receio de confundir ninguém, pois não se distingue dos demais senão pelo bom tom de evitar a formalidade e o orgulho; evitando desse modo tudo o que é indigno e vulgar. E assim, revela-se bom tanto para com os justos como para com os injustos, porque a compaixão constitui o maior bem, e confia mesmo em quem não tem confiança. Justamente por isso encontra justiça e confiança. Assim, o homem sensato busca criar harmonia com todas as suas acções.


50
Pureza do Coração

Quando nos afastamos da vida incorremos na morte;
As causas de vida podem ser as mesmas que as da morte.
Porque será assim?
Devido a que queiramos obter as coisas com demasiada pressa.
 Diz-se que quem sabe viver correctamente não possui temor;
Ainda assim, não encontra fera no seu caminho.
 Sai para o campo de batalha sem couraça,
Mas não chega a ser tocado pelas armas.
Nele a investida não encontra resistência,
Nem o ataque onde se aplacar.
 Como poderá ser  que as armas
Não encontram nele onde aplicar o seu gume?
É assim, por não existir nele lugar para a morte!
(separação)

Comentário

   Vida e morte dependem de condições em grande medida análogas, comummente invertidas pela assunção. Se sustentarmos demasiado apego pela vida ela tende a fugir-nos e não colhemos real proveito; Se cultivarmos o discernimento e o desprendimento que ele faz brotar, cultivaremos a moderação e nossos dias não conhecerão limite. Só a mente inocente poderá vencer o temor e descobrir a essência do amor, sobrepujando desse modo a morte. O medo procede da consciência de agressão e defesa; da opressão e da  resistência e, em última instância, da separação de "eu" e "tu" imposta pelo pensamento. Se anularmos os pressupostos da identidade espaço/temporal e de circunstância, (factor central) por que nos demarcamos e chegamos a tomar posição, também anularemos as noções de separação e morte.


51
Perspectiva

O Absoluto confere  vida,
A virtude enobrece o carácter,
As condições moldam a forma e dão lugar ao desenvolvimento,
A moderação confere maturidade.
É por isso que todas as coisas sem excepção
Honram o Absoluto e a Virtude,
E  fazem-no sem qualquer incitamento
Mas  sempre com espontaneidade.
É o Caminho que lhes confere vida;
É a virtude que as nutre e fomenta, abriga e faz crescer.
Por isso, dar sem  reclamar,
Cumprir a sua tarefa sem se apropriar,
 Conquistar sem vencer,
Dirigir sem dominar,
A isso se chama Virtude Superior!


Comentário

   Conhecimento sem acção conduz ao engano; pensamento sem verdade e conduta sem virtude levam à contradição. A ignorância é, em boa medida, proporcional ao conhecimento que ostentamos. A confiança brota da realização do sagrado, de onde não surge disputa nem rivalidade.


52
Clareza de Espírito

Tudo na vida tem uma origem comum,
Tal origem tornou-se a fonte do mundo
Conhecendo-se a origem
Conhecem-se seguramente os seus efeitos,
Conhecendo os seus efeitos
Devemos correr a aderir à Origem!
Procedendo desse modo não se incorrerá em dano,
Ainda que possamos ser aniquilados.
Mantém teus lábios fechados e aplica o ouvido à escuta
E poderás chegar ao fim dos teus dias
Sem dar prova de desgaste nem decadência.
Fala livremente e de modo complacente,
Multiplica os teus cuidados e desse modo abreviarás a tua vida.
Limitar a atenção às pequenas coisas
É o segredo da detenção da clareza de espírito.
Ater-se à delicadeza e atender à própria fraqueza é o segredo da força.
Utilizai a inteligência e preservai o discernimento
E desse modo não atraireis  calamidade;
Esse é o caminho do cultivo do Eterno!

Comentário

   Devemos procurar orientação junto de quantos são detentores comprovada virtude. Mas como apuraremos isso se pela nossa parte não detivermos virtude? Pela conduta e acções se apura o âmago das pessoas. Se nos assemelharmos ao vulgo seremos por ele acolhidos...
   Devemos reservar-nos de emitir opiniões e de formular juízos e centrar-nos mais em examinar a própria consciência e desse modo não perderemos a influência. Se zelarmos pelo cuidado destes pormenores evitaremos o erro. Se obtivermos consciência dos próprios defeitos e tendências, evitaremos a contradição e a culpa e empenhar-nos-emos em aprender. Do mesmo modo que a observação do subtil desvela o despertar,  manter a flexibilidade conduz à constância. Devem manter a clareza de espírito e a atenção.

   Mas tudo isso se pode tornar letra morta ou disciplina destituída de vitalidade e graça se não considerarmos verdadeiramente o eu; quem somos e quais os propósitos que nos animam. Contudo, de que modo poderemos atender à questão do conhecimento de nós próprios? Considerando o que pensamos, como falamos e agimos pois que cada um desses indicadores traduzirá fielmente a imagem do verdadeiro “eu” – justo meio para uma investigação em profundidade de nós mesmos, sem embuste, falsas pretensões nem artificialidade alguma mas imbuídos de um sentido moderado de honestidade;  nenhuma disciplina moral nem ética poderá substituir tais indicadores.

53
Caminho Franco

Se tiverdes um pouco de sabedoria
Para percorrer o Caminho Supremo
Todo o vosso cuidado será o de não vos desviares dele.
O Caminho Supremo é amplo e abrangente
No entanto, os homens preferem os atalhos.
Quando nos palácios reina o esplendor
Abundam nos campos o mato e as ervas daninhas,
E a desolação nos celeiros!
As pessoas albergam trajes sumptuosos
E carregam armas cortantes à cintura.
Têm excesso de comida e bebida
E mais riqueza que a que podem utilizar.
Tudo isto constitui arauto do roubo
E nada tem que ver com o Caminho.


Comentário

   O caminho estreito conduz-nos finalmente à certeza de que nada sabemos. A razão de ser estreito reside no facto de assentar no desconhecido e na ausência de premissas, além de prometer um maior desconhecimento, coisa que é desconfortável e pouco deleitosa para a maioria. Mas, que coisa entendemos verdadeiramente? Se considerarmos e avaliarmos pelo que compreendemos da vida e depois olharmos ao redor, que coisa realçará em importância real, incontaminada pela contradição? Procuraremos conhecer-nos? Nobre e sublime é tal busca: contudo, devemos encetar esse descobrimento com integridade a fim de que as respostas não nos tornem convencidos, porquanto jamais alcançaremos o fim desse descobrir. E isso exige enorme coragem, ao contrário da segurança e certezas do caminho “largo”.
O ideal sempre constitui um forte apelo para o indivíduo dotado de orgulho espiritual; o perigo disso reside em podermos perder as justas proporções e o sentido natural do ser.

   A moderação e a atenção constituem as pedras basilares da conduta conducente ao despertar. Nisso deve centrar-se nosso único cuidado na vida. O abandono do natural conduz aos excessos da cultura e da "civilização"; quando se preza mais os padrões do convencional - como p. ex. "melhor", "bem", os homens desviam-se do essencial e do natural e deixam-se conduzir pelos caminhos da indulgência e do esbanjamento de recursos. Tal conduta constitui um mau governo  e certamente tudo isso é contrário ao caminho da moderação. Não é recomendável embrenhar-nos nos domínios do orgulho nem da vaidade, sem atender às carências elementares de educação para a liberdade e a felicidade. Não é natural seguir a via da abundância por nos arrastar para os corredores dos extremos. O orgulho constitui um impedimento à aprendizagem.
   Todo o excesso conduz à potencial exaustão e desolação.

54
Virtude

Aquilo que é bem plantado não será arrancado; 
O que é firmemente seguro, dificilmente se escapa das mãos.
Se fordes possuidores desta virtude
Os vossos descendentes poderão cultuar a vossa memória e exemplo.
Cultivai a virtude em vossa pessoa e virtuosos vos tornareis,
Cultivai-a na família e ela  subsistirá,
Cultivai-a na comunidade e ela poderá desenvolver-se,
Cultivai-a no Estado e ela florescerá com abundância,
Cultivai-a no mundo e ela tornar-se-á universal.
Assim, pela sua virtude haverá o homem de ser conhecido,
Podemos observar-nos a nós próprios através do outro.
Pela virtude da família conheceremos a família,
 Pela virtude da comunidade  conheceremos essa comunidade,
Pela virtude do Estado, conheceremos esse Estado,
Assim, também, falar com bondade suscita  confiança;
Pensar com bondade confere profundidade,
Presentear com bondade cria afecto,
Por tudo isso- que vós sois- se há de conhecer o mundo.

Comentário

   Não é satisfazendo os anseios de segurança mas perseverando na paz e na compreensão que obteremos a firmeza contra as dificuldades da vida.
   O produto do que é firmemente intuído torna-se factor de evolução e parte integrante do carácter. Se zelarmos pela compreensão dos meandros da vida mais facilmente realizaremos a transformação e consolidaremos a paz. Se cultivarmos os verdadeiros valores criaremos bases de reciprocidade - tanto seja na família como na comunidade - e serviremos de marco para a benevolência e a compreensão.
   Julgai um indivíduo pelo seu carácter; a família, pelas suas regras; a comunidade, pelas suas normas; avaliai a vossa integridade pela correspondência de verdade entre o que pensais, dizeis e fazeis.
   Se nos sacrificarmos por causas justas e pelo bem comum, os nossos esforços frutificarão e o seu fruto poderá perdurar por gerações. Devemos responsabilizar-nos pelo forma como educamos os nossos filhos, porquanto eles haverão de tornar-se num reflexo do nosso viver e pensar.
O educador consciencioso não impõe métodos de obediência mas encorajará a dedicação; executa acções empreendedoras e busca cativar para o empreendimento e a participação; no final, concede-lhe os méritos da acção, pois sabe que é preferível aprender pela motivação correcta que pelo dever. O exemplo a que se vota semeia fundo para além das tribulações do ser e não-ser, no terreno da inquebrantável confiança pessoal.


55
Inocência

Aquele que se deixa inundar de virtude
Assemelha-se a uma criança inocente,
Nem vespas nem serpentes venenosas  o morderão,
Tampouco as feras o atacarão.
Conquanto os  ossos do recém nascido sejam brandos e flexíveis
E os seus tendões maleáveis,
A sua mão pode apertar com firmeza.
Desconhecendo o apelo do sexo possui plena virilidade
Manifestando a perfeição da essência física.
Pode chorar por todo o dia sem enrouquecer,
 Pois pela  harmonia interior atinge essa totalidade.
Conhecer a harmonia é conhecer o Eterno,
Conhecer o Eterno é possuir discernimento,
Acelerar o crescimento da vida é arriscado,
Onde imperar a paixão ou a ansiedade, precária deverá ser a força.
Crescer depressa demais é envelhecer,
À virilidade intensa sucede inevitavelmente a decrepitude.
Tudo isso contrário ao Caminho da Vida é,
E o que é contrário à vida cedo ou tarde encontrará término!


Comentário

   A verdadeira beleza não se exibe nem se expõe. Aquilo que é singelo não nutre consciência de si nem tampouco comporta medida. Do mesmo modo, age com simplicidade e sem dissimulação nem disputa. O supérfluo é facilmente dispensável, porém, o frugal de que se adorna só tardiamente é apreciado.
   A virtude acha-se na inocência; se possuirmos um carácter generoso e inocente obteremos a maior segurança. Anulai o centro em meio à periferia e erradicareis a separação e o medo.
   Tudo o que evocar o "natural" e dele se abeirar é salutar; aquilo, todavia, que visar excedê-lo, só convida a calamidade. Muito se pode deitar a perder quando muito se pretende alcançar.

A luz que brilhar a dobrar só perdurará metade do tempo.

   A realização da harmonia equivale à realização da constância; conhecer constância significa atingir o esclarecimento; nutrir a vida é multiplicar bênçãos, controlar o sopro vital e durabilidade. Concorrer ao exponente é precipitar a decadência e isso não é natural. Deixar-se impelir pelas emoções e sentimentos é desastroso.

56
 Unidade Subjacente À Multiplicidade

Aquele que sabe, não fala;
Aquele que fala não sabe!
Mantém a boca fechada,
Retém os ânimos,
Elimina completamente a aspereza,
Desata toda a complicação,
Harmoniza os sentidos,
Reúne o mundo num todo, confundindo-te com o vulgo;
Eis aí a  Simplicidade Singular!
Um homem assim, não se poderá cortejar. 
Tampouco beneficiar nem prejudicar,
Honrar nem humilhar.
Esse homem mantém-se estimado e sai enobrecido!


Comentário

   A Unidade (expressa pela totalidade inerente aos contrastes) é a coisa mais sagrada da vida, porquanto regula o equilíbrio das partes e garante a harmonia de todo o nosso ser, tanto física e individual como colectivamente. A sua natureza constitui a essência do Amor. A sua realização não se alcança como um meio nem constitui um fim em si mesma. Ela simplesmente É. Sem a realização da Graça, decorrente da Unidade, de nada valerá esforçar-se pela razão de ser das disparidades da existência, porquanto o tempo/ pensamento constitui o factor negação da Verdade Suprema, limitativa como é, e procedente do reduto do passado com toda a carga de afectação e sofrimento que comporta. A Eternidade ainda está sujeita ás flutuações da dualidade; importa, compreender a verdade ou ilusão do tempo/ pensamento - porquanto isso muda completamente o esquema. Não que devamos aceitar as disparidades dos contrários, pois muito importa negar a pretensão, a hipocrisia e o preconceito que dividem e mutilam profundamente o tecido da consciência individual e colectiva.

    Buscai afirmar o conhecimento e reforçareis a ignorância. Conquanto o emprego conveniente dos termos “conhecimento” e “ignorância” encerre um trocadilho, a verdade do paradoxo repousa no sentido do exacto pressuposto de toda acção. Sede reservados no juízo e na formulação de pareceres; abandonai a idealização e simplificai os propósitos. Se vos preservardes a meio caminho entre a amizade e a inimizade, o proveito e a perda, estareis ao abrigo tanto da honra como da desgraça. A imparcialidade do coração é o bem mais caro; o esclarecimento, o bem supremo.

   A isso se chama alcançar a misteriosa unidade. Conquanto a não possamos possuir podemos sempre tornar-nos íntimos dos seus caminhos e expressões, e sair assim beneficiados pois a sua humildade zela pelos seus passos. Cultivai a meditação e libertai-vos das preocupações; temperai o vosso brilho e preservai os sentidos despertos e chegai-vos ao que é humilde.


57
Conduta de Simplicidade

No governa-se do estado deve-se implementar leis,
Numa batalha  deve-se combater com habilidade e destreza;
Porém, só dominamos o mundo, deixando-o de lado.
Como saberei se será assim?
Pelo seguinte:
Quanto mais proibições existirem no mundo,
Mais pobres as pessoas se tornarão.
Quanto mais evoluídas forem as armas do povo,
 Maior será a confusão reinante.
Quanto mais investidores e engenhosos os homens se tornarem
Com maior frequência sucederão  estranhas invenções.
Quanto mais ordens se decretarem
E leis forem promulgadas,
Mais bandidos e ladrões surgirão.
Assim, o homem sensato declara:
Nada afirmo e as pessoas transformam-se por si só.
Permaneço sereno e o povo emenda-se por si mesmo 
E de forma espontânea.
Não faço uso da força nem levanto dificuldades  e o povo enriquece
Não mantenho ambições e o povo retorna à simplicidade.

Comentário

   Conquanto interior e exterior sejam uma mesma coisa inseparável, somente pelo que é íntimo governareis as condições externas. Se vos livrardes de toda a compulsão da dualidade, vencereis o mundo. Para garantirmos a liberdade pessoal devemos agir sem astúcia. O homem sensato não idealiza a reforma mas observa a paz de espírito a fim de a ver instaurada na vida dos homens, de modo que assim se tornem esclarecidos nos caminhos da verdade. Se transcenderdes o desejo também sereis livres dos anseios do temor. Se praticardes esta autossuficiência as pessoas poderão tornar-se simples.

58
A Virtude da Adaptabilidade

Onde o governo for mais indulgente e justo
O povo será mais honesto e leal.
Onde a legislação for demasiado eficiente na intervenção
O povo torna-se astuto e insatisfeito.
O infortúnio decorre do excesso,
Na fortuna  se  oculta a desgraça.
Quem conhecerá o findar desse processo?
Não poderemos dispensar normas, se quisermos agir com correcção?
Aquilo que é norma e convenção
A breve tempo se tornará excepção.
O que é auspicioso cedo se torna ameaçador.
A regra cedo se torna ardil.
A justiça  dá rapidamente lugar à opressão.
A doutrina torna-se capricho.
O bem descamba na superstição.
Há longo tempo se encontra o povo diante desse dilema,
Por isso, o homem sensato torna-se escrupuloso sem ser indelicado,
Modela sem desfigurar,
Corrige  sem esforço,
E torna-se esclarecedor sem aturdir.


Comentário

   Muitos são os que correm pelo poder e revelam competência para governar e corrigir os demais, e, contudo, se mostram pouco eficazes do domínio de si mesmos.
   O bom mestre ensina sem suprimir nem excluir e quando aponta, fá-lo sem compelir; age com uma correcção destituída de artifício e parcialidade. Onde se instaura a pureza exacerbada se dá azo à perversão. Sem aprendizagem não pode haver transformação pessoal; tampouco proveito sem educação. Não poderemos acolher a singularidade de propósitos no trato da nossa vida diária? Manter-se disponível é o mais aconselhável.

59
A Virtude da Moderação

Para governar os homens e servir o Céu
Não há nada melhor do que a moderação.
Ser moderado é desviar-se antes de se extraviar,
Com dupla garantia de virtude.
Possuir esse atributo é ultrapassar todos os limites do constrangimento.
Ultrapassá-los,  significa alcançar uma estatura libérrima e espiritual.
Só aquele que alcança uma tal estatura pode ter o reino a seu cargo,
E só aquele que alcançou a fonte de tal reino, pode perdurar.
Esse é o procedimento para nos arraigarmos  no Caminho da Vida.
O segredo da vida longa e da visão duradoura!


Comentário

   Para ensinar os homens e servir o céu, nada há melhor do que a economia. Os pré-requisitos de uma boa liderança assentam na fundação da virtude e numa receptividade profundamente enraizada na essência. Aquele cuja vida não conhece limites de virtude, cujas raízes mergulham fundo na meditação, obtêm protecção através da prática, exactamente como a árvore obtém protecção da casca.
    Com perseverança e delicadeza se pode sobrepujar toda a resistência; quando a resistência é ultrapassada podemos atingir os propósitos. Aquele que é capaz de atingir os seus propósitos desse modo é talhado para dirigir e a sua influência perdura.
Ser moderado é estar prevenido; se formos prevenidos obteremos preparo e sairemos fortalecidos; desse modo poderemos sair vitoriosos. Sair vitorioso é deter infinita capacidade.

60
Preservar a Correcção

Governar um grande reino assemelha-se
À acção de assar um peixinho.
Quando o homem de bem governa o mundo,
(a si mesmo)
Os humores deixam de exercer poder exclusivo;
Não se trata de deixarmos de ter humores,
 Porém eles não causarão dano algum.
Não é que o não possam fazer,
Mas é que o homem sensato não se torna causa de dano.
Se ao menos os governantes e os governados
Se abstivessem de ofender uns aos outros,
O reino seria cumulado de todos os benefícios.


Comentário
  
   Requer-se enorme estabilidade e domínio de si - maturidade emocional, mental e física - para podermos realizar a percepção aprofundada do significado dos factos, para além da premência da realidade. De outro modo não poderemos obter a legitimidade necessária para tratarmos as coisas pelo nome. Se não tivermos bases para empreender uma compreensão avantajada da vida, não deixaremos de considerar as coisas pela rama, de forma inerente a toda a dualidade subjectiva. E para o empreendermos requer-se enorme contenção nervosa, porquanto não é fácil deixar-se assaltar pelos desafios que ela nos propõe pela resposta condicionada do “autómato” constituído pelo condicionamento recebido, com toda a agudeza, dicotomia de estados e separação que a abordagem subjectiva comporta. Isso implica seriedade e uma sensibilidade que não dista muito da vulnerabilidade.

   Se nos abeirarmos das situações com uma atitude desafeiçoada e distante, mas que brote naturalmente da atenção, reduziremos a possibilidade do confronto com a adversidade. Desse modo, tanto o governante como aquele que é governado saem igualmente protegidos, evitando todo o dano pessoal e assegurando a paz.
Se formos voluntariosos arriscámo-nos a “queimar o peixe, em vez de o grelhar”.

61
Espírito de Cooperação

Uma grande nação assemelha-se às terras baixas
Para onde convergem todos os riachos.
 Torna-se o centro de tudo e o aspecto feminino do mundo.
A mulher conquista o homem com a sua receptividade
Rebaixando-se por meio da discrição e da passividade.
Do mesmo modo:
Se uma grande nação puder tornar-se condescendente
Perante uma nação menor, conquistará.
E, se a mais pequena se deixar conquistar engrandecer-se-á.
Uma prevalece curvando-se; a outra, tornando-se submissa.
A aspiração de uma nação grande
Consiste em beneficiar as nações menores;
A aspiração de uma nação menor
É simplesmente a de poder servir o povo.
Assim, para que ambas 
Possam alcançar os seus desejos,
É apropriado a mais elevada baixar-se à menor.


Comentário

Se nos inclinarmos poderemos conquistar! Nisso reside a virtude da humildade.
Toda condição vantajosa deve resultar da flexibilidade. Se nos inclinarmos o suficiente sempre poderemos vencer; conquistando. Os que detêm menor poder podem conquistar vantagens por meio da submissão, sem recorrerem à supremacia da razão. Aquele que visar conquistar as graças do poderoso deve dispor-se a ceder. A cedência, que actua no mais perfeito domínio, vence adoptando o outro (...)

A grandeza reside em colocar-se abaixo. A suavidade vence a força através da imobilidade e da passividade; nenhum aspecto aleatório, enganador e ilusivo poderá perdurar por muito tempo!


62
Votar-se à Verdade

O Caminho constitui o refúgio de todas as coisas;
O tesouro do homem honesto,
E a salvaguarda de quem vive no erro.
Com belas palavras se pode conseguir honrarias.
Com belas façanhas se pode engrandecer.
Mas se um homem se desviar do caminho do bem,
Não há razão para que seja rejeitado.
Assim, na coroação do imperador, ou na nomeação dos ministros,
Deixai que os outros façam as oferendas, valendo-se dos seus meios,
Porquanto nada disso se compara àquele que,
Sem se mover  da sua posição, se vota à Verdade.
Porque razão os antigos honravam a Verdade?
Não será  pela sua virtude que todo aquele que a procura, encontra?
E que todo o culpado encontra redenção?
É por isso que a Verdade representa o tesouro do mundo!

Comentário

   Quando começamos a procurar entender o imediato e o factual, podemos chegar a perceber que os delitos pertencem ao passado. E se prosseguirmos podemos alcançar a felicidade de descobrir um tesouro.
   Ainda que os outros ascendam a lugares cimeiros, não deprecieis a vossa posição humilde; o prestígio não é tão bom quanto permanecer no nosso lugar, dando desse modo lugar à realização do Absoluto. Esse constitui o melhor exemplo que se pode estender aos demais.
As pessoas podem ser superficiais e mesmo mal-intencionadas, mas porque razão haveremos de rejeitá-las?  Acaso não aprendemos a aceitar tudo quanto percebemos como parte intrínseca de uma aprendizagem maior, um todo? Palavras sagazes adquirem-se por algumas moedas, bem como traços finos, mas, que valor têm se não promoverem a própria transformação?

63
 Pequenos Passos

Agi com naturalidade sem interferir com a ordem natural.
Esforçai-vos pelo estado de passividade interior.
Considerai o que é insípido
                  E exaltai o que é humilde como coisa nobre.
Considerai o pouco como muito,
Retribuí à injúria com a gentileza,
Tragai as preocupações no momento em que brotam
E semeai o "grande" com o "pequeno".
As coisas difíceis da vida devem ser enfrentadas enquanto são fáceis,
As grandes coisas do mundo só podem ser alcançadas
Atendendo aos seus insignificantes começos.
Assim, o sábio jamais empreende grandes feitos
E por via disso mesmo é capaz de realizar os maiores.
Quem facilmente promete pouco poderá cumprir,
Pois fá-lo irreflectidamente.
Quem tudo julga fácil, muitas dificuldades encontrará.
Assim, o sábio, que atende ao difícil de todas as coisas,
No final não encontra qualquer dificuldade.

Comentário

   Perseverai no caminho do anonimato e observai o curso da natureza, ainda que os outros considerem tal conduta como ridícula, porquanto múltiplos são os caminhos da ilusão inerentes ao sujeito, porém, pouco proveitosos em termos de autoconhecimento. Sempre podemos responder à ofensa com a virtude. Tornai-vos receptivos e aceitai o que não tem sabor. Enlevai o valor do pequeno e fomentai o "pouco". Procurai o simples e a grandeza das pequenas coisas. Tudo isto alude ao mandamento de Cristo que diz devermos amar os nossos inimigos, embora soe mais lógico e menos paradoxal.

É natural que as coisas difíceis sejam empreendidas de modo fácil, e grandes feitos sejam conseguidos se cuidarmos dos pequenos aspectos.
   Promessas fáceis são facilmente traídas. As acções destituídas de suficiente prudência costumam causar subsequente perturbação.
O indivíduo sensato confronta os problemas à medida que surgem, para que a ordem lhe garanta os resultados; Honra as próprias limitações e aceita as diferenças  e as fraquezas inerentes à sua incapacidade e desse modo cura o íntimo da dor da separação.

64
Antecipação

Deve empreender-se o difícil enquanto este for fácil,
As coisas maiores enquanto são menores.
Aquilo que está calmo, fácil é de conter,
O que ainda não foi manifesto é fácil de prevenir.
Aquilo que é frágil é fácil de quebrar,
O que é pequeno é facilmente dissipável.
Considerai as coisas antes que se manifestem,
Ordenai-as antes que se inicie a desordem.
Uma árvore grande brota de um rebento pequeno,
Um edifício de nove andares começa com um punhado de terra,
Uma viajem de mil léguas tem início num simples passo.
Aquele que se atribula na ansiedade prejudica o resultado,
 Aquele que detém para si mesmo, acabará por perdê-lo.
O homem sensato não exige coisa nenhuma
E desse modo nada danifica.
Não empreende  tarefas  difíceis,
Nem procura agarrar coisa alguma e assim nada se perde.
É comum as pessoas no culminar do sucesso deitarem tudo a perder,
A embriaguez faz perder a noção dos limites e leva-nos a cometer erros;
Com cautela no início e paciência no final, nada sofrerá dano.
Assim, o sábio procura ser desafeiçoado de paixões
E não valorizar objectos  raros.
Aprende com o que passa inadvertido aos outros
E com as faltas dos homens comuns.
De modo a induzir as massas a transpor aquilo em que  transgridem.
Ajuda simplesmente as criaturas
A reencontrarem a sua natureza e expressão,
 Mas não se aventura a intrometer-se no seu percurso.


Comentário

   O homem/mulher “superior” não nutre desejos nem presume resultados mas valoriza os aspectos destituídos de valor aparente e aprende através do não-saber. Ele põe cobro à acção que visa a vulgaridade e não procura provar nem convencer os demais de coisa alguma, pelo que não vive em função de resultados mas se firma na confiança e na boa-fé alicerça a realização serena, livre dos aspectos degladiantes de ganho e perda.
   Aquilo que é empreendido com dedicação e gosto, ainda que tenha começado por um movimento insignificante e irrisório, pode chegar a alcançar dimensão e o que é movido sem intentos rígidos pode crescer e frutificar. Se não idealizarmos a vitória não sairemos derrotados; na medida em que não procurarmos deter, também não perderemos.
   É completamente fútil perder tempo com idealizações no campo do crescimento pessoal; se nos agarrarmos a resultados podemos perder a oportunidade do momento!
Observe-se a ordem natural das coisas, em meio à sua evolução, e poderemos conseguir os proventos almejados. De outra forma pode bem tratar-se de um acto de usurpação e um equívoco. Considerem o significado de cada movimento e expressão da ordem na manifestação (I-Ching) e segui os oráculos que a vida disponibiliza e poderemos dar os passos necessários na altura certa.
Progredir no campo da ordem absoluta significa ser mestre sobre o desejo; se não percebermos isso seremos como trapalhões que tropeçamos nos próprios desejos.


65
O Cultivo da Receptividade

Nos dias de outrora,
Aqueles que versavam sobre a prática do Caminho
Não procuravam instruir os homens,
Mas preservar-lhes a  simplicidade.
Porque razão é o povo difícil de governar?
Por saber demais!
Aquele que governa a nação com esperteza torna-se um flagelo para ela.
Aquele que a governa a nação 
Sem recorrer à sagacidade nem ao ardil
Conduz a nação à prosperidade  e torna-se seu benfeitor.
Conhecer este princípio é possuir regra!
Saber tornar essa regra constante é deter a Virtude Suprema.
Essa Virtude é vasta e profunda e revela a distinção do seu possuidor
E conduz as coisas ao acordo e à harmonia primordial.


Comentário


   A idealização exacerbada costuma conduzir à decepção. Quanto mais eruditos nos tornarmos, mais dificuldades teremos em ser autênticos e agir sem dissimulação.
O conhecimento assenta no desenvolvimento da inteligência e não em moldes nem padrões exclusivistas, pois não se trata do "nosso" nem do "vosso" conhecimento, mas do conhecimento da totalidade. Ninguém pode ser mediador da própria realização.
A verdadeira aprendizagem foge aos tramites do saber, porque este não comporta o "segredo" para a realização do verdadeiro. Tal só sucede quando descobrimos o sentido inerente ao ser e não-ser, e transcendemos ambos (tempo e espaço).
Pode-se instruir os homens nos mais elementares caminhos da aprendizagem e a verdade, a simplicidade e o sagrado permanecerem por realizar, através da transformação da própria pessoa; esses são intransmissíveis e não se acham na descrição, na explicação nem no conceito. Nesse sentido, o saber constitui mais um obstáculo do que um auxiliar. A verdade não é uma abstracção nem o contrário da inverdade. Contudo, só ela liberta e não o desejo de nos libertarmos.
   Demasiado conhecimento conduz à confusão. O conhecimento anda de mãos dadas com a ignorância. A sabedoria colhe-se sem recorrer à explicação nem à palavra!


66
Liderar Pela Subordinação do Ego

O que fará com que o mar seja senhor sobre todas as correntes e rios?
É devido a que permaneça abaixo;
Por isso reina sobre eles.
Assim, também o sábio se mantém sobre os homens
Permanecendo humilde no discurso,
Conduz o povo colocando-se em último lugar.
(sem pensar em si)
Quando reina sobre o povo, este não lhe sente o peso,
E quando se coloca à sua frente, o povo não sente estorvo.
Eis porque todos se contentam em mantê-lo adiante
(o que  não deseja, todavia)
Sem dele se cansarem.

Comentário

   Se vos embrenhardes na compreensão da ordem não procurareis tornar-vos iguais nem diferentes, mas  esclarecer e fomentar a aceitação criativa e a liberdade.
   O verdadeiro mestre ensina sem recorrer ao exemplo nem à refutação; não compara mas repudia a competitividade. Se pretenderdes realizar a plena maturidade não vos coloqueis à frente; destacar-se não denuncia necessariamente valor, do mesmo modo que a vontade não garante obrigatoriamente o sucesso.

   Se nutrirdes o espírito de serviço e visardes antes de mais o bem comum, tanto mais facilmente conservareis a mente aberta; desse modo aprendereis; não por quererdes destacar-vos pela conquista de postos de chefia ou de poder mas por negardes a ilusão da subjectividade e do engano.
Aquele que se submete humildemente, sem constrangimentos, pela aceitação da existência, sem recorrer a queixumes, culpabilização nem remorso, esse dá a melhor lição de vida.


67
Compaixão

Toda a gente refere esta Verdade como sendo grande
Porém, parece tão estranha como mais nenhuma;
Todavia, é justamente por ser grande que parece inferior
Se fosse comparável, desde logo seria pequena.
Tenho três tesouros que conservo e cuido com zelo:
O primeiro é a compaixão
O segundo é a frugalidade
O terceiro é a humildade
Se for compassivo sempre posso viver sem medo,
Se for frugal  posso ser generoso,
Se não me atrever a tornar-me o primeiro,
Poderei ser mestre entre os escolhidos.
Se o homem pretender viver sem medo, 
Sem primeiro se tornar compassivo,
Ou generoso sem ser simples,
Líder, sem possuir orientação,
Esse homem  cortejará o desengano.
Só aquele que é compassivo
Poderá revelar verdadeira coragem;
 O Céu o socorrerá  e protegê-lo-á, através da compaixão.


Comentário

   Se visarmos a realização do sublime, procuraremos desenvolver a sensibilidade e a honestidade como aspectos essenciais. Demasiado pensamento ou intelectualidade constituem um impedimento ao esclarecimento. Se não tivermos compaixão não fará qualquer sentido falar de liberdade nem da consumada realização.
Somente pela transcendência do desejo e da vaidade do ego podemos tornar-nos simples. Se não tivermos pressa em fazer-nos notar, podemos tornar-nos exímios na arte de aprender sobre nós próprios e a vida.


68
Flexibilidade

O bom soldado não é agressivo
O guerreiro valente não é violento.
O melhor modo de conquistar o inimigo
É vencer sem  nos opormos a ele.
O melhor modo de conquistar um homem
É não antagonizando com ele.
Aquele que melhor quiser ver suas directrizes cumpridas
Deve tornar-se flexível e humilde;
A isso se chama a virtude da não-rivalidade
E igualmente a habilidade de mobilizar.
A vontade dos outros, vence  aquele
Que se estabelece no caminho da Perfeita Unidade.


Comentário


   Se não buscarmos meramente a vantagem pessoal poderemos conseguir os nossos intentos nos melhores moldes
Não crieis oponentes e a bom porto podereis conduzir o vosso barco.
Se tiverdes sentido de oportunidade e ausência de comoção, podereis triunfar.
Vencer sem derrotar; argumentar sem se opor; disputar sem ser levado ao confronto - eis no que reside a virtude de não competir.

69
Estratégias de Vitória

Os estrategas possuem um ditado:
É melhor ser hóspede do que ser anfitrião.
Não tomar a iniciativa, mas adoptar, ao invés, a defensiva,
Não se atrever a avançar uma polegada
Preferindo antes recuar dez passos,
A isso se chama avançar sem se mover.
Arregaçar as mangas sem ter de empunhar armas,
Capturar o inimigo sem ter de o confrontar,
Opor-lhe arma imperceptível;
Não há calamidade maior do que precipitar a guerra,
Pois isso implica a perda da compaixão.
Assim, quando dois exércitos se confrontam num campo de batalha
É vencedor aquele que acha a situação deplorável.


Comentário

   Num confronto deixai sempre a iniciativa ao inimigo e jamais ouseis dar o primeiro passo. Se não impusermos argumentos com assento autoritário e lhe concedermos tempo, ele poderá não se revelar vencedor. Se avançarmos com conhecimento de causa ao invés de pura argumentação, se não revelarmos sinais de força e preservarmos a coesão das nossas energias por meio da coerência, no final poderemos sair vencedores.


70
Apreensão do Sublime

As minhas palavras são fáceis de entender e de seguir
Porém ninguém parece  entendê-las  nem praticá-las.
Os meus preceitos  têm origem comum e ancestral
Mas, incapazes de o reconhecer,
As pessoas tornam-se  incapazes de me reconhecer.
Quanto menor o número das pessoas que me compreenderem
Mais enobrecido sairei, pois subtil é o ensinamento.
O sábio usa roupas grosseiras
E preserva tudo que é “preciosidade” no coração!





Comentário

A aprendizagem não tem limites mas refere toda a singularidade do desenvolvimento da sensibilidade e da compreensão. Todo o conhecimento é limitado, todavia a aprendizagem é infinita. Não obstante, muito poucos são capazes de agir com sensatez, ainda que pareça fácil fazê-lo. Geralmente só quando incitados somos dados a aprender. Todavia, se não dispusermos de uma boa razão, geralmente a resposta encontrada satisfaz-nos no momento, e continuamos na mesma, não logrando a realização profunda da compreensão. A sabedoria não é requisito de qualquer um.
É lei que só reconheçamos aquilo que fomos educados para ver; se não dispusermos de pureza do coração não poderemos perceber a pureza nem realizar a inocência.

71
Limites do Conhecimento

Ter consciência de que o saber é equivalente à ignorância:
Eis o conhecimento superior!
Ter consciência da própria ignorância
É o princípio do conhecimento.
Referir a própria ignorância como conhecimento:
Eis aí padecimento de grave mal!
Se levarem isso em conta, preservar-vos-eis desse mal.
O homem sensato, preservando-se dessa ridícula presunção
Não padece de tal desordem.
Eis o segredo da integridade de espírito:
"Conhecer" e "não conhecer" são disposições da mesma atitude 
De simplicidade e ausência de pretensão.


Comentário

   Diz-se que nas paredes do templo de Delfos constava a seguinte inscrição: “Homem, conhece-te a ti mesmo”; Emerson empregava o dito latino: ”Não te procures fora de ti mesmo, Ne te quaesiveris extra”. Lao Tzu faz aqui uma alusão clara à superioridade da atitude da investigação íntima com relação à compreensão intelectual, na apreensão do inefável.
A consciência da própria ignorância é poder real; a presunção denuncia a debilidade da ilusão.
A dúvida é, em todo processo cognitivo, factor salutar e depuradora. Contudo ela deve reverter para a auto-percepção. Não se trata de duvidar de nós próprios senão de atendermos aos fundamentos do pensamento, da palavra e da acção.

Devemos evitar a presunção porquanto isso constitui um impedimento à inteligência. Em salvaguarda da clareza deve-se referir que o “perigo” da vaidade do saber reflecte-se, o mais das vezes, não no conhecimento adquirido mas justo na limitação e na cessação motivada por certo grau de satisfação e pretensão que daí pode resultar. Neste caso refiro-me em concreto a uma paragem que se faz, que responde por um certo convencimento (de não se ter presente que não se sabe) do grau de realização atingido – quando se torna patente que deixamos de aprender. Porque na verdade quando aceitamos uma resposta em termos absolutos já paramos de aprender. É certo que o aprender não tem tempo e muito menos fim – exactamente porque nunca chegamos a alcançar um marco (que, obviamente denotaria um limite objectivo) que defina qualquer grau de conhecimento.
Exactamente da mesma forma, quando passamos a considerar o objecto da aprendizagem como primordial, já perdemos de vista o campo circundante em que se insere. De que adianta falar de conhecimento nesse caso, quando a existência se apoia não em sistemas lineares mas sistémicos?
A aprendizagem não tem fim; viver é relacionar-se e aprender por intermédio desse relacionamento, observando-se no espelho das próprias acções e comportamentos. Reconhecer os limites do conhecimento constitui uma forma de inteligência. Saber que coisas há que o pensamento não pode alcançar é sabedoria, e o começo da aprendizagem.

72
Auto-estima

Quando o povo não mais teme a acção do vosso poder,
Isso significa a detenção de um poder maior.
Não interfirais com espírito gratificante naquilo em que prevalecem
Nem oprimais o seu viver.
Só quando deixardes de o sobrecarregar de imposições e encargos
Ele deixará de se cansar de vós.
Por isso, o sábio conhece o próprio valor
Porém coíbe-se de se exibir.
Possui autoestima mas não se valoriza,
Despreza a vaidade e conserva o discernimento.
E  em meio a todas as coisas mantém preferência pela  essência.

Comentário

   Façamos como gostaríamos que nos fizessem. Isso constitui regra de ouro no caminho libérrimo da emancipação do sofrimento.
Evitamos o exibicionismo, a ostentação e o pronunciamento a menos que a tal sejamos chamados e mantenhamos a postura necessária para não constituirmos um peso sobre os demais. Se não formos arrogantes no nosso saber evitaremos perder a compostura.
Não oprimamos os que nos rodeiam nem exijamos honrarias que criem maior dicotomia; se respeitarmos seremos respeitados de igual modo. Se não manifestarmos desagrado também poderemos não receber desagrado.

Tudo isto apela à liberdade, sem contudo passar da simples alusão.
Em que consiste, na verdade, a liberdade? E de que liberdade falamos?
Em primeiro lugar, a liberdade não resulta do uso da palavra! Mas do emprego do bom senso no viver. A liberdade conquista-se com sabedoria - não de outro modo – pelo uso da percepção, momento a momento, da justa e equilibrada medida e significado de cada coisa.
A liberdade refere a atitude, antes de mais; tudo se centra na atitude com que abordamos as diferentes situações na vida – se o fazemos com equilíbrio e compreensão, o natural resultado, ainda que não concordante com os valores convencionados, deverá traduzir-se em termos de liberdade.

   Talvez que se abordarmos cada coisa com base no sagrado, aquilo que é referido nestes termos se traduza em deleite e realização máxima.

73
 Ousadia e Coragem

Aquele que for ousado no erro incorrerá no risco
Quem for ousado em não se atrever a errar sobreviverá;
Destas duas formas de ousadia  uma é benéfica e a outra nociva.
Certas coisas são detestadas pelo Céu
Sem que ninguém saiba referir porquê.
Até o sábio é confundido com tal questão
O caminho do céu conquista sem lutar, 
E responde sem se pronunciar,
Atrai a si sem convocar,
Age segundo os seus planos e sem pressa.
Extensa é a sua rede,
E vastas as suas malhas,
Todavia nada lhes escapa.

Comentário

   É próprio da natureza vencer sem chegar a lutar; responder sem a tal ser convidado; executar sem planificar. A natureza tudo conquista sem forçar coisa nenhuma; não chama e, não obstante, todas as coisas lhe respondem; não planeia, no entanto tudo é determinado por si.

Em que base deveremos considerar o sucesso sem incorrermos no risco de albergar frustração nem dar lugar a anseios fúteis? Comummente, procuramos o sucesso a qualquer preço, acalentados pela comparação e pela imitação, mas tal circunstância acarreta dividendos... Muito importa levar em atenção os condicionamentos que moldam a mente e estruturam a nossa caminhada de vida pois assim como somos preparados para ver, também nesses exactos moldes  veremos!

   Considere-se a luz bruxuleante da humilde vela, e como para a preservar acesa se requer enorme esforço de delicadeza. Em comparação com os “holofotes” do que para nós reluz - em termos de realização e sentido - essa modesta chama assemelha-se a coisa ínfima, todavia - como na metáfora a que fazíamos alusão - se não formos capazes de a fazer crescer e consolidar-se com a paciência, dedicação e o empenho que exige, a “luz” cintilante do “sol” que atrai os nossos anseios poderá não passar de mero encandeamento, que nos cega, motivado por certo fascínio ou deslumbramento, sem que estejamos preparados para os imensos desafios que comporta...

   É quase lugar comum referir que todos velam pela segurança material como um porto seguro em meio aos “mares revoltos” que compõem a vida na sua diversidade e inconstância. Contudo, essa mesma vida é tanto mais complexa e intricada quanto nela mais reduzimos à simplicidade. A riqueza de sentido de que se reveste assenta na particularidade de conferir liberdade  na exacta proporção em que aprendemos a conhecer as raízes do medo, e apreendemos a lei da compaixão.

   Qualquer um pode aspirar ao numinoso, ao mais elevado, ao mais belo, ao melhor(...) No entanto, que significado terá isso em termos de desenvolvimento pessoal e conhecimento real? Só se vive uma vida plena na medida em que se conquista o direito a essa vida, com intensidade, paixão, dedicação e infinita paciência. A plena aceitação pessoal, inteligente e criativa, é questão da mais alta esfera da dignidade. Afrontar o viver a fim de solucionar condições ou contornar a adversidade é de todo em todo procedimento inadequado, porquanto a vida é imbuída de todo um carácter dinâmico de tal modo absoluto que a simples intrusão da mera modificação constitui uma violação do propósito mais sublime da consciência – o da clareza de espírito, o da realização da sua unidade!

   Como avaliaremos o sucesso? Em que parâmetros - com que critério? Tal questão pretende introduzir um aspecto primordial a não descorar; muitos são os aspectos de uma vida a considerar, e parece-me que esta simples alusão pareceria suficiente para remeter o leitor a certa introversão a fim de poder constatar a pertinência de tal questão.
Como avaliaremos verdadeiramente o sucesso? Fá-lo-emos com base nos aspectos externos da medida, da ideia, da aparência externa, do desejo? Mas, definitivamente, porque o sucesso deve-se a vários factores, e, acima de tudo, não depende absolutamente de resultados - de que modo os avaliareis no seu todo, se desconheceis a sua inteireza, o seu propósito máximo, o carácter implícito da totalidade dos factores em causa, etc. ?

   Quem for audaz e confiante em demasia arrisca-se ao erro e ao dano. O uso discreto de precaução, nesta matéria, preservará a integridade. Se detivermos harmonia entre a acção e a serena confiança poderemos preservar a integridade. Mas, como determinaremos se é ou não melhor agir diante de uma dada situação? Quando se justificará a acção ou a oposição?  Como determinareis quando deveis ser confiantes ou discretos? Muito dependerá dos factores em consideração.  Se não competirmos poderemos vencer sem derrota; se não argumentarmos poderemos responder sem desgaste nem erro; se não formos autoritários mas ensinarmos, poderemos ver correspondidos nossos anelos.

   A virtude da acção está em não empregar a violência e evitar o esforço.  Jamais a luta conquista a obtenção de vantagens, e o que desse modo for conquistado torna-se factor de ambivalência. No entanto, aquele que usar de compreensão subtil sempre encontrará proveito onde os demais só acham perda.

A frase pertencente ao Sermão do Monte: “Os mansos possuirão a Terra” foi completamente distorcida. O seu sentido refere que nós criamos a nossa própria realidade. Aqueles que abrigam pensamentos pacíficos encontram-se a salvo de dissensões e de guerras pois livres delas se acham; escapando a tal infortúnio num certo sentido “herdam a Terra”. Pensamentos de paz, particularmente em meio ao caos, são capazes de acumular uma grande energia. Aqueles que forem capazes de fazer caso omisso das provas físicas da guerra e abrigarem pensamentos de paz triunfarão. Para nós, todavia, o termo “manso” chegou a significar débil, inadequado, falho em termos de energia. Nos tempos de Cristo, a frase sobre “Os mansos que haveriam de herdar a Terra” referia-se ao uso energético da afirmação, do amor e da paz.

74
Má Conduta de Governo

Quando o povo deixa de temer a morte
Porque ameaçá-los com o seu espectro?
Se a morte prematura grassar como epidemia,
E ainda assim a aplicardes como punição,
As pessoas não temerão infringir as leis.
Mas quem quererá tomar a seu cargo o lugar do Céu, na execução?
Aquele que mata em seu lugar,
Assemelha-se àquele que corta madeira na vez do carpinteiro.
Muita sorte terá se não se cortar!


Comentário

   Empregai a moderação nas relações e os outros não terão o que lamentar por relacionar-se convosco. Se fordes demasiado exigentes ou desconfiados eles não sentirão escrúpulos em afastar-se do vosso convívio. Se reagirdes intempestivamente não podereis fazer valer as vossas reivindicações. Se vos tornardes críticos por sistema, ninguém vos levará a sério. Se fordes exclusivistas e agirdes de modo gratuito encorajareis a excepção e o incumprimento dos deveres. Se evitardes tais defeitos podereis sair livres de contradição.

75
Perda e Dano

Quando os governantes sobrecarregam
O povo com impostos, este passa fome.
Quando  os dirigentes interferem em demasia
E visam o proveito próprio,
O povo torna-se difícil de governar.
É por tais razões que é ingovernável e passa fome.
O povo despreza a morte quando lhe fazem a vida demasiado dura,
Por isso deixa de a temer.
Só quando não têm com que se preocupar
Podem valorizar devidamente a vida.

Comentário

    Demasiadas restrições conduzem ao descontentamento; demasiada interferência conduz ao dano; demasiada exigência conduz ao anseio por afastamento.
Quando a vida dá lugar ao descontentamento e à infelicidade, as relações deixam de ser estáveis e as disposições iniciais perdem o sentido. O exagero conduz ao fracasso. Por outro lado, a preocupação exacerbada com o viver acarreta elevada perda.
Considerando isto evitaremos o infortúnio.

   A última parte do versículo, que fecha com chave de ouro e centraliza todo o seu sentido, encontra paralelo com a passagem do novo testamento que diz: “Aquele que prezar a sua vida perdê-la-á; e quem deitar a perder a sua vida neste mundo, alcançará a vida eterna” (J. 12.25).


76
Docilidade

Quando nasce, o homem é brando e flexível
Quando morre, torna-se hirto e rígido.
As plantas são tenras e suaves
Mas uma vez mortas murcham e tornam-se  secas.
Assim, a rigidez e a dureza são arautos da morte,
A brandura e a suavidade são representações da vida.
Também aquele que se apoia no poder das próprias forças
Não conquista!
Madeira seca não resiste ao golpe do machado.
O que é robusto e rígido situa-se numa posição inferior
O macio e o frágil assumem posição superior.


Comentário

   A intransigência de posições ou convicções e a rudeza de carácter são contrários à aprendizagem e mais se apropriam à derrota e ao fracasso. Por isso são considerados atributos menores na escala dos valores verdadeiros. O poder efectivo provém da paciência, mas a despeito disso insistimos na brevidade da acção – simplesmente para constatarmos a própria medida do fracasso; a água é a coisa mais flexível que pode existir, porém, uma vez congelada, é capaz de quebrar a rocha!


77
Acção Superior

Talvez o Caminho do Céu se assemelhe à flexibilidade do arco.
A sua parte superior abaixa-se e a superior ergue-se.
Se a corda da flecha for demasiado comprida
O arremesso será curto.
Se for curta, será aumentado.
O Caminho do Céu suprime todo o supérfluo
Para compensar toda a deficiência.
O modo de proceder do homem é diferente:
Retira ao indigente para aumentar ao opulento.
Que outro, à excepção do homem justo
Poderá colocar seu bem ao serviço do mundo?
Assim, o sábio executa o seu trabalho sem presumir resultados
Sem se prender nem se considerar superior aos demais.

Comentário

   Flexibilidade, harmonia, compensação, são atributos superiores na realização da virtude. O homem sensato conhece os limites da posse e do desejo e não se deixa enredar por eles mas abre o coração em generosidade; conquanto não possa negar a efectividade de qualquer desses aspectos, ele só será capaz de crescer verticalmente e jamais dentro da linearidade do ajustamento nem da compulsividade, pois o excessivo peso das evidências inconscientes conduzi-lo-iam ao esmorecimento e à errada noção de culpa e demérito.
É próprio da suavidade de conduta evitar tanto o entusiasmo e a euforia como as depressões e preocupações. Assim, evitai a fama e o elogio e preferi sempre o anonimato para desempenho da acção sem recompensa.

78
Persistência na Confiança

Não há nada  no mundo tão suave e fraco quanto a água
Porém, só ela é exímia em enfrentar o duro e forte.
Que o fraco vence o forte e o suave o duro
É algo de que todos ouvem falar
Mas que ninguém pratica!
Assim, o sábio diz: se aceitarmos as imundícies da aldeia
Podemos colher as novidades do solo.
Ser capaz de suportar as calamidades da província é reinar;
Na verdade estas palavras são verdadeiras ainda que paradoxais.


Comentário

   Curiosamente aquele que suporta as humilhações dos fracos, é suficientemente dotado de capacidade para ensinar; aquele que toma a desgraça dos outros como sua, é adequado para liderar. Em boa verdade a realidade parece contraditória e  assente em paradoxos.
Há quem pense dever o propósito mais elevado da sua vida e fé residir no benefício ou vantagem pessoal, e encare a falta disso como demérito diante das forças criativas... Mas ganho e perda acham-se tão intimamente interligados entre si que ninguém poderá dizer onde começa um ou acaba o outro. È próprio da suavidade de conduta evitar tanto o entusiasmo e a euforia como as depressões e preocupações. Assim, evitai a fama e o elogio e preferi sempre o anonimato para desempenho da acção sem recompensa.

79
Cumprimento

Um acordo desrespeitado é passível de provocar ressentimento
E sempre pode dar lugar ao rancor.
Que será, pois, aconselhável fazer?
O sábio toma a parte anterior do estabelecido
 E realiza a sua parte do trato,
Sem se queixar dos outros nem reclamar os seus direitos.
O homem de virtude cumpre com os seus deveres,
E mantém o estabelecido.
Se não possuir virtude
Só saberá arrecadar obrigações para si e para os outros
O Caminho do Céu não usa favores
E sempre estende o seu acordo ao homem de bem.


Comentário

   Conquanto se estabeleçam obrigações e convénios a fim de fazer valer o respeito e a ordem, ainda assim é comum deixarem de corresponder.
Quando se cumpre o estabelecido sem deixar que isso se torne obrigação, isso passa a ser uma virtude. Esperar que os outros cumpram a nossa parte no estabelecido é impróprio. No entanto, é sensato não culpar nem punir pois as leis da harmonia visam o acordo, ao passo que a justiça só alcança a retribuição.

80
Simplicidade

Deixai que a vossa comunidade seja pequena
E escassa a sua população.
Que disponha de engenhos mecânicos eficientes
Porém, que não lhe dê uso.
O povo deverá temer a morte e abster-se-á de viajar para longe.
Apesar de poderdes dispor de barcos, carruagens e armas
Não sentireis  razão para as empregar.
  Revertei antes à contabilidade primitiva
 Feita de cordas e nós
E contentai-vos com a vossa alimentação simples. 
Usai os melhores trajos que possuirdes
 Preferi o conforto da vossa casa
E alegrai-vos com o vosso modo simples de vida .
Se por perto existir um outro território
E tudo o que  escutardes for o cantar dos galos e o latido dos cães
Sem mais nenhum tipo de comunicação,
Os homens do vosso território não quererão abandoná-lo jamais.

Comentário

   Este penúltimo verso alude de forma ilustrativa à essência da simplicidade. O Homem tem investido debalde no progresso como forma de evasão e resolução dos  inúmeros problemas que o afligem, numa espécie de fuga para diante. Mas o progresso, conquanto necessário e inevitável (uma vez instalada a consciência dos factores que a ele conduzem) comporta implicações de uma tremenda enormidade. Contudo, o homem não acompanha a evolução que esse progresso  impõe, e permanece com a mesma tendência para começar do "mais elevado", do "mais nobre" ao invés de si mesmo; entretanto  o "íntimo" e o "imediato" não assumem qualquer preponderância na mudança levando a que o Homem permaneça no temor, conflito, dor, injustiça, sensação de insegurança, dependência e segregação dos valores elementares e do respeito pela vida. No entanto esse mesmo progresso acabará ele mesmo por imprimir mudanças para as quais não se preparou, e as consequências - conforme tento ilustrar - são de uma dimensão imprevisível tanto individual e socialmente como no seu aspecto ecológico, acompanhando, naturalmente, o seu desequilíbrio.

O progresso impele-nos com violência para um “futuro” que assenta, pois, numa desinserção das nossas raízes. Entretanto, se o ancestral irrompe é frequentemente anulado , o que torna de todo impossível deter o movimento em frente. E a perda de relação com o passado – do mesmo modo que com a natureza – cria um “mal-estar” generalizado. A pressa que imprime aos nossos modos de vida, destinada a economizar tempo, revela-se numa armadilha porquanto precipita os nossos ritmos e nos deixa sem tempo disponível. Pressa que nos faz viver mais no futuro, com suas promessas quiméricas duma idade de ouro, do que no presente; todavia, só presente é real, mas a falta de compreensão disso responde por todos os altos e baixos dum carrossel que geralmente se faz acompanhar de estertor, tumulto e assombro. Entretanto, a esperança de uma liberdade maior é comummente anulada por uma escravidão ao Estado, ou pelos terríveis avanços da técnica, com suas armas ameaçadoras. Quanto menos compreendemos a nós mesmos tanto mais contribuímos com todas as nossas forças para arrancar o indivíduo aos seus instintos e às suas raízes; transformando-o numa partícula da massa, que obedece somente ao espírito de gravidade, ao senso comum e à consciência de massa. Um outro aspecto da evolução retrógrada cinge-se ao actual parcelamento das áreas de exploração do mesmo modo como se fazia com a divisão das terras na Idade Média, o que constitui claramente um acto de apropriação.

   O consumismo desenfreado conduz à uma exaustão de recursos e ao desrespeito e violação da natureza. Além disso, quanto mais influências culturais recebemos menos civilizados tendemos a tornar-nos.
A globalização não deixa de se apresentar como uma possibilidade plausível, assente na exploração de realidades que começam por ser conceituais, todavia, a aceleração que imprime não contempla qualquer possibilidade de acomodação às novas formulações e o resultado assemelha-se a uma ceifa desapiedada e isenta de escrúpulos, às mãos dos oportunistas.

A civilização moderna só poderá sobreviver se educar o coração, fonte de sabedoria, porque os homens actualmente possuem demasiado conhecimento para conseguirem sobreviver sem sabedoria. A vida comporta limites, naturalmente, ao contrário do saber, que não comporta nenhuns; Chuang Tzu dizia que se empregarmos o que é limitado  para procurar o ilimitado, nos arriscaríamos a uma tarefa fútil, além de que, se insistirmos em agir de acordo com o conhecimento então poderemos não conseguir evitar o perigo.

 Permanecei intimamente ao abrigo das influências e mais facilmente encetareis o caminho natural da felicidade. Não procureis a imitação e preservareis a alegria natural. Permanecei no simples e no desconhecimento e não vereis vilões nem burlas.
Lao Tzu  não se mostra favorável ao progresso mas inclina-se a ensinar que a integridade pode mais facilmente ser instituída na simplicidade. O seu ideal não se centra no luxo da riqueza nem no poder da erudição mas no viver simples das pessoas simples. Claro que dificilmente encontrará adeptos para essa sua cruzada primitiva, contudo, mesmo aqui, onde ele se engana, podemos encontrar uma réstia de verdade; consiste no princípio de uma vida de simplicidade, tão pregada e tão pouco praticada hoje em dia. O progresso não só traz novos engenhos com aplicação na guerra como também deita a perder a simplicidade, pureza, honestidade e confiança. E no lugar da esperançosa tranquilidade das eras anteriores, as novas gerações deixam-se assaltar pelo desejo e tornam-se arrogantes. A exemplo disso mesmo, o mercado comum, essa expansão global cujo sentido se investe do mais vasto dos propósitos, neste estágio inicial mais se assemelha a uma busca de domínio económico por parte de alguns núcleos fortes de poder e influência, e uma ameaça para a livre iniciativa individual.

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O Essencial da Justiça

As palavras verdadeiras não são agradáveis,
As palavras agradáveis não são sinceras.
Aquele que é bom orador não argumenta,
Quem muito argumenta não diz boa coisa.
Aquele que conhece, não é erudito,
Aquele que é erudito não é sábio.
O indivíduo que possui sensatez não acumula,
Quanto mais vive para os outros  mais plena se torna a sua vida,
Quanto mais dá mais abundância gera.
O Caminho Celeste está em beneficiar e não em prejudicar.
A Via do sábio reside no cumprimento desse dever 
Sem se opor a ninguém.

Comentário

   Nem sempre a verdade corresponde ao que pensamos que seja. Ser natural é ser destituído de artifícios. O homem esclarecido não é culto. O contentamento não significa riqueza. Se não se der primeiro não se poderá receber; o receber é inalienável da dádiva e não está à parte, em absoluto. Da compreensão disso pode resultar enorme benefício. O homem sensato não argumenta; o erudito não empreende grandes feitos. Aquele que conhece demasiadas coisas não é sábio. O homem sensato não acumula conhecimento nem riqueza mas realiza sem contenda. Tal é a verdade, se a quisermos entender!
                                         
Este versículo final endereça-nos de volta para a performance do homem sensato traçando-lhe um perfil de comportamento que o enobrece pela não-acção.
O homem “superior” norteia-se pelos seguintes princípios: Não falar em demasia, com toda a futilidade de discurso irreflectido, sem afirmar o que quer que seja e auscultar cada questão nos seus detalhes mais ínfimos antes de avançar com certezas. Quando presta auxílio pelo esclarecimento e compreensão fá-lo com abertura total, autenticidade de carácter, instigando a compreensão de cada situação em separado e sem falsas assunções, não recorrendo à afirmação do saber nem repudiando o desconhecimento, e cortando pela raiz todos os estereótipos culturais e juízos de valor, antes predispondo-se a aprender em conjugação com os factos e as personagens.

   Tal é o seu comportamento: verdadeiramente comum, discernível somente pela perspicácia. De que outro modo o reconhecereis vós por entre a turba?
         A título de remate, este versículo sugere um tipo de cepticismo actuante que constitui como que um espírito crítico indispensável para uma introdução cabal no caminho da compreensão.                                

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