quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

IMPULSOS & DETERMINAÇÃO



ORDEM, SENTIDO, LIBERDADE
Eu quero fazer umas observações. De um modo geral, a criatividade na vossa sociedade possui conotações femininas, enquanto o poder possui conotações masculinas, e é amplamente encarado como destrutivo.
Os vossos cientistas, no geral, estão voltados para o intelecto e crêem na razão acima das intuições, e dão como certo que tais qualidades sejam opostos. Não conseguem imaginar a fonte criativa inicial que a vida constitui, por nos seus termos isso lhes recordar a base feminina da criatividade.
No âmbito desta discussão somente, vocês possuem um universo masculino. É um universo dotado de características masculinas conforme elas se evidencia, nas orientações macho e fêmea da vossa história. O universo parece não ter sentido por o “intelecto” masculino por si só não conseguir discernir o sentido, já que não deve tomar nada como certo. Muito embora certas características do universo sejam por demais evidentes, elas devem ser ignoradas.
Precisam entender, eu sei, que os termos “masculino” e “feminino,” são aqui empregues conforme geralmente são compreendidos, mas nada têm que ver com a característica básica de cada sexo. Nesses termos, o intelecto voltado para o masculino pretende ordenar o universo, nomear as suas partes, etc. Pretende, contudo, ignorar os aspectos criativos do universo, que se evidenciam por toda a parte, e antes de mais crê que deva divorciar-se de toda a evidência do sentimento.
Vocês têm, pois, na vossa história um deus masculino feito de poder e de vingança, que lhes matava os inimigos por vós. Dispõem de um deus preconceituoso que chacinava, por exemplo, os Egípcios e metade dos Judeus a fim de retaliar contra a crueldade Egípcia anterior. O deus masculino constitui um deus de poder; não um deus de criatividade.
Bom; a criatividade sempre foi o elo de ligação mais estreito que a espécie teve com a sua própria origem, junto com a natureza do seu próprio ser. Através da criatividade a espécie compreende Tudo Quanto Existe. A criatividade, porém, segue um conjunto diferente de regras. Ela desafia as categorias e insiste na evidência do sentir. Constitui uma fonte de revelação e de inspiração – contudo, inicialmente a revelação e a inspiração não têm que ver com poder, mas com saber.
Assim, o que tanta vez sucede na vossa sociedade quando homens e mulheres possuem uma inclinação criativa e mentes excelentes?
A Igreja Católica pregou que a revelação era perigosa. Que a obediência intelectual e psíquica constituíam uma via muito mais segura, e até mesmo os santos eram ligeiramente suspeitos. As mulheres eram inferiores, e em questões de religião e de filosofia acima de tudo, por aí a sua criatividade poder ser mais perturbadora. As mulheres eram consideradas histéricas e estranhas para o mundo do pensamento intelectual, seduzidas em vez disso pelas emoções efeminadas incompreensíveis. As mulheres precisavam ser dominadas por meio do desgaste das suas energias pelo parto. (...)
Vocês deparam-se com muitas contradições. Deus é suposto ser masculino. A alma por vezes é considerada feminina. Os anjos são masculinos. Agora vejamos o Jardim do Edem. A história narra que Eva tentou o macho, levando-o a comer da árvore do bem e do mal, ou da árvore do conhecimento. Isso representa um estado de consciência, o ponto em que a espécie começou a pensar e a sentir por si mesma, quando se acercou de determinado estado de consciência em que se atreveu a exercer a sua própria criatividade.
Torna-se difícil contextualizar devidamente isto. Foi um estado em que a espécie tomou consciência dos seus próprios pensamentos como seus, e tomou consciência do ser pensante. Esse ponto libertou a criatividade humana. Nos vossos termos, representou o produto das intuições femininas (embora, conforme estão cientes, tais intuições pertençam a ambos os sexos). Quando as passagens Bíblicas foram redigidas, a espécie tinha atingido diversos estados de ordem, alcançando determinados aspectos de poder e de organização, e queria manter o seu status quo. Não queria mais visões intuitivas, não queria mais mudanças. A criatividade devia seguir determinadas vidas definidas, de modo que a mulher se tornou na vilã. (...)
Basicamente, um fanático crê ser impotente. Ele não acredita na sua própria estrutura pessoal, ou na capacidade de agir de modo eficaz. A acção conjunta parece a única maldição, mas uma acção conjunta em que o indivíduo deva efectivamente ser forçado a agir, levado pelo frenesim ou pelo medo, pelo rancor, inflamado u provocado, porque caso contrário o fanático receia que nenhum acto venha a ser considerado me prol do “ideal.”
Com tais métodos e com tal histeria de grupo, a responsabilidade por actos separados divorcia-se do indivíduo e recai sobre o grupo, onde se generaliza e dispersa. A causa, qualquer que seja, pode então encobrir quantos crimes quiserem, e nenhum indivíduo em particular precisa arcar com as culpas sozinho. Os fanáticos possuem uma visão afunilada, de modo que todas as crenças que não se ajustem aos seus propósitos são ignoradas. Contudo, aquelas que lhe desafiam os próprios objectivos tornam-se ao invés alvos imediatos do desprezo e do ataque.
No geral, e na vossa sociedade, o poder é considerado um atributo masculino. Líderes de cultos são mais frequentemente do sexo masculino que do feminino, e o mais das vezes os do sexo feminino são seguidores, por lhes terem ensinado que é errado fazer uso do poder, e que é correcto que sigam os poderosos. Eu afirmei que vocês possuem cultos religiosos e científicos e que a comunidade voltada para o masculino utiliza o seu poder da mesma forma que o Jeová masculino usou o seu poder numa área diferente, para proteger os amigos e destruir os inimigos. Falei detalhadamente sobre a sexualidade da vossa espécie, mas aqui pretendo mencionar a forma coo certas dessas crenças sexuais lhes afectam o comportamento.
O cientista do sexo masculino considera o seu foguetão o seu símbolo privado de poder sexual. Ele sente possuir a prerrogativa de usar o poder da forma que escolhe. Agora muitos cientistas são “idealistas.” Contudo, acreditam que a busca que empreendem por respostas, justifica praticamente todos os fins, ou sacrifícios, não só da sua parte como da parte dos outros. Quando ignoram os direitos dos outros, porém, tornam-se fanáticos, e quando profanam a vida numa tentativa extraviada por a compreender.
As mulheres cometem um grave erro quando tentam provar a sua “igualdade” junto dos homens ao demonstrarem que podem ingressar as forças armadas ou ir combater como qualquer homem. A guerra sempre lhes reduz a espécie mais do que a espécie poderia tornar-se. As mulheres mostraram um invulgar bom senso ao não irem para a guerra, e um mau senso invulgar ao enviarem os seus filhos e amados para a guerra. Uma vez mais, matar me prol da paz só os torna melhores assassinos, e nada alterará isso. Em toda a guerra, qualquer facção é fanática na medida em que se envolve. Estou perfeitamente ciente de que muita vez parece que a guerra seja o único recurso prático, devido aos conjuntos de crenças que, relativamente falando, prevalecem. Até que alterem as crenças que têm, a guerra parecerá ter algum valor prático – um valor que é altamente enganador e bastante falso.
Os fanáticos sempre utilizam a retórica ressoante e falam nos mais elevados termos da verdade, do bem e do mal, e em particular do castigo. Até certo ponto, a pena capital constitui o acto da sociedade fanática. O acto de tirar a vida de um assassino não restitui a vítima, nem impede que outros cometam tais crimes. Estou ciente de que a pena de morte muitas vezes pareça ser solução prática – e de facto muitos assassinos têm vontade de morrer, e são apanhados por causa da necessidade que têm de castigo. Já na generalidade, muitos encontram-se na posição em que se encontram por acreditarem piamente em tudo o que vocês acreditam em grande medida: que são criaturas imperfeitas e falhas desovadas por um universo sem sentido, ou criadas por um Deus vingativo e degradadas pelo pecado original.
Os criminosos representam essas crenças na perfeição e as “tendências” que evidenciam são aquelas que todos vós receais possuir. Tanto a ciência como a religião lhes dizem que, deixadas ao vosso próprio cuidado, se tornarão espontaneamente criaturas primitivas, repletas de incontrolável concupiscência e avareza. Tanto Freud como Jeová lhes passaram essa mensagem. O pobre Darwin procurou fazer sentido disso tudo, mas fracassou miseravelmente. Os fanáticos não suportam a tolerância. Eles esperam obediência. Uma sociedade democrática oferece os maiores desafios e possibilidades para o indivíduo e a espécie, por conceder o livre intercurso de ideias. Exige muito mais da sua população, porém, por de um modo amplo cada um precisar escolher por entre uma multiplicidade de estilos de vida e crenças a sua própria plataforma para a vida e a acção diária.
Períodos há em que certamente parecerá a alguns que todas os padrões se desvanecem, de modo que anseiam pelas velhas autoridades. Mas sempre há fanáticos para defender a verdade final, e para furtar ao indivíduo o desafio e o “fardo” da conquista e da responsabilidade pessoal. Os indivíduos podem – conseguem efectivamente – sobreviver sem as organizações. Já estas, não podem sobreviver sem indivíduos, e as organizações mais eficazes são assembleias de indivíduos que afirmam o seu próprio poder privado num grupo, e que não procuram esconde-lo nele.
A acção organizada constitui um excelente método de exercer influência, mas somente quando cada membro se activa a si próprio, somente quando ele ou ela estende a individualidade por meio da acção de grupo e não procura sem pensar seguir os ditames dos outros. Os fanáticos existem por causa do enorme fosso cavado entre o bem idealizado e a versão exagerada do seu oposto. O bem idealizado é projectado no futuro, enquanto o seu oposto exagerado é visto a permear o presente. O indivíduo é percebido como impotente para trabalhar sozinho em prol do ideal com qualquer certeza de sucesso. Devido á crença que tem na própria impotência o fanático sente que todos os meios justificam os fins. Por traz de tudo isso está a crença de que a espontaneidade o ideal nunca será alcançado, e que, de facto, por si só o homem se está a tornar cada vez pior em todos os aspectos: Como poderão seres falhos alguma vez esperar espontaneamente alcançar algum bem? (...)
O universo constitui – e vocês podem escolher os vossos termos – uma manifestação espiritual ou mental ou psicológica, e não, conforme no vosso vocabulário usual, uma manifestação objectiva. Não existe presentemente qualquer religião ou psicologia que se aproxime da abordagem sequer de um âmbito conceptual que possa explicar, ou mesmo descrever indirectamente, as dimensões desse tipo de universo. As suas propriedades são psicológicas, e acompanham a lógica da psique, e todas as propriedades físicas que vocês entendem são reflexos dessas questões mais profundas. Uma vez mais, todos os átomos e moléculas – e toda partícula que consigam imaginar – possuem e teriam que possuir, uma consciência. A menos que aceitem esta afirmação pelo menos enquanto teoria em que possam edificar, muito do material parecerá destituído de sentido.
Essa afirmação, pois, deve ser base de toda teoria científica que espere realizar qualquer desempeno que conduza à aquisição de conhecimento. (...) O universo expande-se, conforme afirmei antes, do mesmo modo que uma ideia; e como as frases são construídas por palavras, e os parágrafos são constituídos de frases, sem que nada perca a sua lógica nem continuidade e evidência nesse âmbito, também todas as porções do universo também lhes surgem com a mesma coesão – ou seja, continuidade e ordem. Toda a frase é significativa e parece por si só enquadrar-se na ordem, conforme vocês a proferem. A ordem que tem é evidente. Essa frase é significativa por causa da organização das letras que apresenta ou, caso seja verbalizada, devido à organização das vogais e das sílabas. Porém, faz sentido, não só por causa das letras ou das vogais ou sílabas que são usadas no seu contexto, mas por causa de todas as letras ou vogais ou sílabas que exclua.
O mesmo se aplica ao vosso universo, já que ele apresenta coerência, significado e ordem não só por causa dessas realidades que se lhes tornam óbvias e evidentes, mas também por causa das realidades interiores que não “são ditas,” ou que são encobertas. Não me refiro meramente às variáveis ocultas, em termos específicos, nem tão pouco estou a dizer que o universo seja uma ilusão da criatividade psicológica.
Não é só que a percepção que têm da realidade seja relativa diante da posição que ocupam no universo, mas que o próprio universo é diferente de acordo com a posição que ocupam nele, e que regras espirituais ou psicológicas se aplicam. O universo lida com diferentes tipos de ordem, percepções e organizações, cada uma dependente das demais, mas ainda assim separada no seu próprio domínio. No vosso domínio não existe verdadeira liberdade mas a liberdade das ideias, e não existe uma verdadeira sujeição excepto a sujeição das ideias, por as vossas ideias moldarem a vossa realidade privada e de massas. Pretendem examinar o universo a partir do exterior, examinar as vossas sociedades de fora. Ainda acham que o mundo interior seja de algum modo simbólico e que o exterior seja o real – que as guerras, por exemplo, sejam travadas por si mesmas ou com bombas. Mas durante esse tempo todo, a realidade psicológica é a principal, que forma todos os vossos acontecimentos.
Não quer dizer que em certa medida não possam compreender a natureza do universo, mas as respostas residem nas naturezas das vossas próprias mentes, nos processos da criatividade individual, e em estudos que propõem questões tipo: “De onde veio esta ideia? Para onde aponta? Que efeito terá em mim e os outros? Como saberei como sonhar, quando isso nunca me foi ensinado? Como conseguirei falar se não compreender dos mecanismos? Porque sentirei possuir uma realidade eterna, quando é óbvio que tive um nascimento físico e que fisicamente perecerei?”
Perguntas não científicas? Eu afirmo-lhes que essas são as mais científicas de todas. Em certa medida, a tentativa feita por parte da ciência por considerar tal material poderá possivelmente produzir aquelas qualidades da verdadeira intuição científica que ajudarão a estabelecer a ponte entre pontos de vista divergentes tais como os seus e os nossos. (...)
Quando é que um idealista se torna fanático, e como? (...) Ninguém é mais fanático e ninguém consegue ser mais cruel que o hipócrita. Torna-se muito fácil para essa gente “tornar-se num convertido” após episódios em que alinham uma vez mais pelo lado do bem, e buscam o “poder da amizade,” e se voltam para a igreja em vez do governo, e dão ouvidos, de um ou de outro modo, à voz de Deus. Assim, como poderá o idealista bem-intencionado saber se a sua boa intenção conduz a alguma realização? Como poderá saber se tal boa-intenção poderá de facto conduzir a condições desastrosas? Quando é que o idealista vira um fanático? Encaremos isso do seguinte modo: Se alguém lhes disser que o prazer seja errado e que a tolerância seja uma fraqueza, e que devem seguir este ou aquele dogma às cegas e obedientemente, e se lhes disserem que essa seja a única maneira correcta para o bem ideal, então com toda a probabilidade estarão a lidar com um fanático. Se lhes encorajarem a morte em prol da paz, estão a lidar com alguém que não compreende a paz nem a justiça. Se lhes disserem para abrirem mão do vosso livre-arbítrio, estão a fazer frente a um fanático.
IMPULSOS E DETERMINAÇÃO
Tanto o homem como as moléculas residem num campo de probabilidades e os seus percursos não são determinados. A vasta realidade das probabilidades torna a existência do livre-arbítrio possível. Se as probabilidades não existissem, e se não estivessem até certo ponto cientes de acções e de acontecimentos prováveis, não só estariam impossibilitados de escolher entre eles, mas não teriam evidentemente qualquer sensação de escolha. Não teriam consciência de toda a questão.
Através das vossas escolhas conscientes mundanas que estabelecem vocês influenciam todos os acontecimentos do vosso mundo, tanto que o mundo da massa resulta das inúmeras escolhas individuais. Mas não conseguiriam definir escolhas se não fossem acometidos por impulsos para fazer isto ou aquilo, de modo que geralmente as escolhas envolvem-nos na definição de escolhas entre diversos impulsos. Os impulsos são formas de instigação à acção. Alguns são conscientes e outros não. Cada célula do vosso corpo sente o impulso para a acção, para a resposta e para a comunicação. Mas foi-lhes incutido que não se deve confiar nos impulsos. Porém, os impulsos ajudam-nos a desenvolver eventos de poder natural. Os impulsos nas crianças ensinam-lhes a desenvolver os seus músculos e mentes, ao seu jeito privado. E conforme verão, esses impulsos de natureza privada também se baseiam na situação maior da espécie e do planeta, de modo que “idealmente” a realização do indivíduo conduziria automaticamente ao melhor dos bens da espécie.
Os impulsos, pois, fornecem um ímpeto para o movimento, persuadindo o corpo físico e a pessoa mental para a utilização do poder mental e físico. Eles ajudam o indivíduo a marcar o mundo, ou seja, a agir sobre ele e nele de forma eficaz. Os impulsos também abrem escolhas que poderão não ter estado conscientemente ao dispor anteriormente. Eu tenho muita vez dito que as células são precognitivas, e que a esse nível o corpo tem consciência de uma vasta informação, informação essa não conhecida ou apreendida conscientemente. O universo e tudo quanto comporta é composto de “informação,” mas essa informação relativa a todo o universo está sempre latente em cada parte dele.
O poder motriz do universo e de cada partícula ou vaga ou pessoa nele traduz-se pelo magnífico impulso para probabilidades criativas e a tensão que existe, a tensão exuberante que existe entre escolhas prováveis e eventos prováveis. Isso aplica-se tanto aos homens quanto às moléculas, assim como a todas aquelas divisões menores hipotéticas com que os cientistas gostam de se surpreender. Divisões ou unidades.
Em termos mais mundanos, os impulsos geralmente decorrem, pois, de um conhecimento inconsciente. Esse conhecimento é espontaneamente e automaticamente recebido pela energia que compõe o vosso corpo, e de seguida é processado de modo que possam tirar partido da informação pertinente que se lhes aplique. Idealmente, os vossos impulsos são sempre em resposta aos vossos melhores interesses – assim como, uma vez mais, no melhor dos interesses do vosso mundo. Obviamente gera-se uma enorme desconfiança prejudicial dos impulsos no mundo contemporâneo, conforme nos vossos termos se gerou ao longo da história que vocês seguem. Os impulsos são espontâneos, mas foi-lhes dito que não devem confiar nas partes espontâneas do vosso ser, mas para confiarem na razão e no vosso intelecto – que, curiosamente, operam de forma espontânea.
Quando se entregam ao abandono, vocês são espontaneamente sensatos, mas por causa das crenças que têm parece que essa razão e a espontaneidade perfazem maus companheiros. Psicologicamente, os vossos impulsos são de tão grande importância para o vosso ser quanto os vossos órgãos físicos. São tão altruístas, ou desinteressados quanto os vossos órgãos físicos, e gostaria de ver esta frase lida diversas vezes. No entanto cada impulso é adequado e adaptado directamente ao indivíduo que o sente. Idealmente, se seguissem os vossos impulsos, sentiriam a forma, a forma impulsiva da vossa vida. Não gastariam tempo a interrogar-se quanto ao propósito que tenham, por ele se lhes dar a conhecer, ao perceberem o sentido em que os vossos impulsos naturais os conduziam, e sentirem que exercem poder no mundo por meio de tais acções. Uma vez mais, os impulsos constituem portas para a acção, para a satisfação, para o empenho de poder mental e físico natural, a via para a vossa expressão privada – a maneira por que a vossa expressão privada intersecta o mundo físico e o marca.
Muitos cultos de um género ou de outro, e muitos fanáticos, procuram dividi-los dos vossos impulsos naturais, a fim de lhes impedir a expressão. Procuram sabotar a vossa crença no vosso ser espontâneo, de modo que o enorme poder dos impulsos é barrado. Vias prováveis são cerradas pouco a pouco até que efectivamente vivam – se seguirem tais preceitos – um ambiente mental cerrado, em que parecerão estar impotentes. Parecerá que não conseguem marcar o mundo conforme desejam, e que as vossas ideias devam sempre ser nado-mortas.
Há muitos mal-entendidos em relação à natureza dos impulsos, pelo que vamos discuti-la por completo. Eu sempre quis enfatizar a importância da acção individual, por apenas o individual poder ajudar a formar organizações que se tornam veículos físicos para a expressão efectiva dos ideais. Somente aqueles que confiam no seu ser espontâneo e na natureza altruísta dos seus impulsos podem ser conscientemente sensatos o suficiente para formar uma miríade para escolher de futuros prováveis os acontecimentos mais prometedores – por, uma vez mais, os impulsos levarem em consideração não só o melhor interesse das pessoas como o de todas as outras espécies.
Eu uso o termo “impulsos” para o entendimento do público em geral, e nesses termos moléculas e protões têm impulsos. Nenhuma consciência simplesmente reage a estímulos mas possui o seu próprio impulso votado ao crescimento e ao cumprimento de valor. Parece a muitos de vós que os impulsos sejam imprevisíveis, contraditórios, destituídos de razão, o resultado de misturas erráticas de químicos corporais e que devam ser esmagados com tanta intenção mortal quanto alguns de vocês poderão quando matam um mosquito com insecticida. Muita vez o insecticida mata mais do que o mosquito, e os efeitos que tem podem ser muito abrangentes, e possivelmente ter consequências desastrosas. Contudo, considerar os impulsos caóticos e destituídos de sentido – ou pior, prejudiciais a uma vida ordenada – representa uma atitude bastante perigosa; uma tentativa que origina muitos dos outros problemas que têm, uma tentativa que frequentemente distorce na natureza dos impulsos. Cada um é animado pelo desejo de agir, e para agir de forma benéfica, altruísta, para praticamente colocar o seu selo no mundo. Quando esses impulsos para a acção são constantemente negados al longo de um período de tempo, quando são receados, quando uma pessoa se sente em pé de guerra com os seus impulsos e cerra as portas das acções prováveis, então a intensidade poderá explodir uma via qualquer de escape que ainda permaneça aberta.
Não estou a abordar nada do estilo da “repressão,” conforme é usado pelos psicólogos, mas uma questão muito mais profunda: uma em que o próprio ser é de tal modo receado que os impulsos naturais de todo tipo se tornam suspeitos. Procuram inocular-se contra vós próprios – uma situação quase impossível, claro está. Esperam que os vossos motivos sejam egoístas por lhes ter sido dito que o sejam, e assim quando se apanham com motivos rudes quase se confortam, por pensarem que pelo menos estejam a comportar-se normalmente. Quando dão por vós com motivos bons, desconfiam deles. “Decerto,” pensam vocês, “por debaixo deste aparente altruísmo, deve de facto existir algum motivo nefasto ou, quando muito, egoísta que me está a escapar.” Enquanto povo vocês sempre examinam os vossos impulsos, no entanto raramente examinam os frutos dos vossos intelectos.
Poderá parecer que acções impulsivas corram desenfreadas pela sociedade, em comportamentos de culto, por exemplo, ou no comportamento dos criminosos, ou da parte da juventude, mas tais actividades em vez disso mostram o poder que os impulsos que vêem as suas expressões negadas têm, intensificados e focados por um lado em padrões altamente ritualizados de comportamento, e noutras áreas na negação da expressão.
Um idealista em particular acredita que o mundo esteja a caminhar para o desastre, e que se sinta impotente para o impedir. Ao negar os seus próprios impulsos, acreditando que sejam errados, e ao ter dificultado a expressão do seu próprio poder de influenciar os outros, ele poderá, por exemplo, “escutar a voz de Deus.” Essa voz poderá dizer-lhe para cometer qualquer acto nefasto – assassinar os inimigos que se interpõem no caminho do seu enorme ideal – pelo que lhe poderá parecer a ele e a outros que ele possua um impulso natural para matar, e de facto uma ordem interna de Deus para o fazer. De acordo com as condições, tal pessoa podia ser membro de um pequeno culto ou o chefe de uma nação, um criminoso ou um herói nacional, que alegue agir com a autoridade de Deus. Uma vez mais, o desejo e a motivação para agir é tão forte em cada um que não será negado, e quando é negado então poderá ser expressado de uma forma pervertida. O homem precisa não só de agir, mas precisa fazê-lo construtivamente, e precisa sentir que age com fins positivos.
Somente quando a natureza do impulso é negada de uma forma consistente é que o idealista se torna num fanático. Cada um é a seu modo um idealista. O poder é natural, o poder do músculo de se mover, ou o poder que o olho tem de ver, ou da mente para pensar, o poder de sentir emoções – isso representa um verdadeiro poder, e nenhum acúmulo de riquezas ou de aclamação poderá substituir esse sentido natural de poder caso esteja em falta. O poder sempre repousa no indivíduo, e do indivíduo todo o poder político deve advir. Uma democracia constitui uma forma de governo altamente interessante, altamente significativa por exigir tanto mais da consciência do indivíduo, e por precisar antes de mais repousar numa crença nos poderes do indivíduo. Representa uma homenagem àquela crença que tem prevalecido no vosso país, e que operou com tal vitalidade em face a crenças bastante contrárias oficialmente mantidas tanto pela ciência com pela religião.
A ideia da democracia expressa a existência de um alto individualismo – um que exige organizações políticas e sociais eficazes até certo ponto me prover alguma expressão prática desses ideais. Quando tais organizações falham e um foso entre o idealismo e o bem real se torna tão grande, então tais condições ajudam a transformar alguns idealistas em fanáticos. Aqueles que seguem de forma altamente estrita os ditames da ciência e da religião, podem mudar de facção num instante. O cientista começa a derrubar a mesa, e de súbito, aborrecido pelos limites do conhecimento científico, volta todo o seu ditado para aquilo que pensa ser o seu contrário, ou o puro conhecimento intuitivo. Desse modo, bloqueia a sua razão de modo tão fanático quanto anteriormente bloqueava as suas intuições. O negociante que antes acreditava nos princípios de Darwin e na luta dos mais aptos, que justificava a injustiça e talvez o roubo com o seu ideal da sobrevivência num mundo de competição – ele de repente transforma-se um fundamentalista em termos religiosos, e procura ganhar um sentido de poder no momento, porventura distribuindo a riqueza que tenha juntado, tudo numa tentativa confusa por expressar um idealismo natural num mundo prático.
(continua)
Seth, Sessão 853 a 858
Traduzido por Amadeu Duarte

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