quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

COMUNICAÇÃO COM O MUNDO DOS ESPÍRITOS DE DEUS - 1ª PARTE

                                                 Saul  consultando a "bruxa" de Endor

 PRIMEIRA PARTE

AS SUAS LEIS E OBJETIVOS
AS EXPERIÊNCIAS PESSOAIS DE UM SACERDOTE CATÓLICO
JOHANNES GREBER
(Excertos)

introdução

“Essa gente zomba de tudo o que não entende.” (Judas: 10)

Existirá para a humanidade uma vida após a morte? Existirá algum Além? Existirá um mundo
de espíritos, em que os espíritos dos seres humanos sejam recebidos depois de deixarem o corpo? E como devemos imaginar a vida nesse outro mundo? Que destino nos estará reservado? Ou será que tudo termina entre os muros do cemitério? Quando lá enterramos o corpo, também sepultaremos o espírito, e nada sobra do homem, de todas as suas esperanças e medos, de todas as suas lutas e cuidados, de todas as suas alegrias e tristezas, de todas as suas boas e más obras, além de um crânio ou de um punhado de cinzas?
Somos repetidamente assaltados por perguntas destas. Nas horas silenciosas de uma doença grave elas sobrecarregam fortemente o coração humano cansado. Em todo leito de morte em que compareçamos, atrás de cada caixão que sigamos, elas primem-nos a alma. Elas pairam sobre cada túmulo, e dilaceram profundamente cada lápide.

Quem irá resolver-nos o grande enigma do Além? A quem recorreremos nós com as nossas dúvidas para podermos chegar a conhecer a verdade real? Deveremos indagar junto das várias religiões e dos seus ministros? Eles ensinam-nos a acreditar numa vida futura e na sobrevivência do espírito do homem, é verdade, mas enfraquecem a força das suas próprias doutrinas, ao negarem a continuidade da vida dos espíritos dos animais. Pois que, se os animais não sobrevivem, por que motivo particular deverá a raça humana sobreviver? O género humano e o animal têm o mesmo destino. Ambos são concebidos e nascem do mesmo jeito. Ambos experimentam prazer e dor, certo e errado, e um acha-se sujeito à morte do mesmo modo que o outro. Isto é confirmado pela Bíblia nas palavras:

“O destino do homem e o destino dos animais é um e o mesmo. Assim como um morre, também o outro; Todos possuem o mesmo alento. O homem não é melhor que os animais. Ambos encontram-se destinados ao mesmo fim; Ambos vieram do pó, e ambos retornam ao pó. Quem pode afirmar que o sopro vital do homem vá para cima, enquanto o sopro vital de um animal vá para a terra?” (Eclesiastes 3: 19-21)

Além disso, as várias igrejas defendem pontos de vista conflituosos sobre as questões mais importantes da religião. Podemos, pois, deixar de procurar uma resposta conclusiva nelas. O homem, falível como é, não é guia fiável nessas questões. Para alcançar a verdade com respeito a essas questões há um só caminho: se existir um Além, povoado por um mundo de espíritos, poderemos obter provas conclusivas se esses mesmos espíritos nos visitarem e nos esclarecerem, porquanto só eles nos poderão revelar a verdade sobre as grandes questões relativas a uma vida após a morte. Enquanto o fosso existente entre o mundo espiritual e o nosso próprio permanecer por colmatar, permaneceremos nas trevas da incerteza e suportaremos as dores da dúvida corrosiva.

Mas hoje, as pessoas riem daqueles que mencionam a mera possibilidade da comunicação entre os espíritos e o mundo do homem; elas riem e ridicularizam, do mesmo modo que sempre ridicularizaram qualquer visão que entrasse em choque com as crenças populares do seu tempo.

Quando Galileu ensinou que a Terra gira e que o Sol permanece imóvel, os seus contemporâneos o consideraram mentalmente perturbado. A Igreja encarou-o como um herege e excomungou-o. Ele foi lançado na prisão, e só foi capaz de pôr fim ao seu sofrimento e perseguição apenas retractando-se e retirando o que havia proclamado.
Quando o primeiro telefone foi demonstrado à Academia de Ciências em Paris, um dos mais eminentes professores dessa instituição chamou a coisa toda de uma farsa, realizada por meio de ventriloquia. Aconteceu o mesmo com todos quantos proclamaram uma nova verdade. Os seus contemporâneos ridicularizaram-nos, desprezaram-nos, insultaram-nos, queimaram-nos ou crucificaram-nos. Assim, o mundo hoje ri daqueles que procuram provar à humanidade que existe um mundo espiritual que não está vedado à humanidade, mas com o qual podemos comunicar-nos se o fizermos da maneira correta e se observarmos os requisitos necessários. Pois existem leis que governam o mundo espiritual, tão imutáveis quanto qualquer em vigor no mundo da matéria.

À doutrina sobre a comunicação entre o mundo espiritual e homem foi dado o nome de “espiritualismo.” Hoje essa palavra goza de pobre reputação entre as massas, embora muito poucas pessoas realmente saibam o que significa. O “espiritualismo” é considerado uma fantasia ridícula de mentes desequilibradas.

As pessoas falam de "aqueles espíritas idiotas " com desprezo.
“Essa gente zomba qualquer coisa que lhe escape ao entendimento.” (Judas: 10)
Nesta batalha contra o espiritualismo, as igrejas estão lutando linhas da frente. Isto é realmente difícil de explicar, porquanto essas mesmas igrejas ensinam que receberam as suas verdades religiosas através da comunicação com o mundo espiritual. O Judaísmo e o Cristianismo baseiam-se no testemunho do Antigo e do Novo Testamento e, portanto, repousam inteiramente no espiritualismo, pois que, a maior parte do conteúdo de todas as obras espíritas, cuja maior é a Bíblia, depende de mensagens enviadas do Além. A cada passagem das Escrituras lemos sobre a comunicação estabelecida entre o mundo espiritual e nosso.

Portanto, as igrejas não estão em posição de negar a comunicação com o mundo espiritual que é relatada na Bíblia, a menos que estejam preparadas para cortar o galho sobre o qual elas próprias se encontram. Elas procuram defender a luta que empreendem contra o espiritualismo afirmando que as tentativas de se comunicar com o mundo dos espíritos são proibidas pela Bíblia, e citam a injunção: “Não questionarão os mortos." Mas que quererá a Bíblia quer dizer com "questionar os mortos"? Quando a Bíblia se refere aos "mortos", não significa aqueles espíritos que foram separada do corpo pela morte do corpo, mas aqueles que se encontram num estado de “morte” espiritual.

(NT: Tal prescrição destinada ao desencorajamento das massas sem preparo nem compreensão espiritual, no sentido de levar as pessoas a entender que se atrai, nessa comunicação, na justa medida do preparo espiritual, ou falta dele, que se tenha desenvolvido, que geralmente era nula)

“Morte,” de acordo com as Escrituras, consta da separação do espírito de Deus.
Os "mortos" são, pois, aqueles que se separaram de Deus devido à incredulidade e à deserção. Eles são os espíritos das trevas. O "Reino dos mortos" é o reino de Lúcifer, o reino dos adversários De Deus, o reino das mentiras e do desastre.

De acordo com as Escrituras existe um reino dos "mortos" e um reino dos “vivos.” Está no nosso poder comunicar com espíritos de qualquer desses reinos. Podemos procurar o conselho dos "espiritualmente mortos" – o que equivalerá a consultar espíritos trapaceiros, ou, como nos termos bíblicos, "a questionar os mortos". Assim como podemos voltar-nos para os "vivos" do Além, que seria buscar conselho do bom mundo espiritual, ou, como a Bíblia o coloca: “inquirir a Deus.”

Buscar o conselho dos "mortos," vale dizer, do mundo dos espíritos separado de Deus, seria a maior afronta possível que faríamos a Deus. Representaria idolatria, que consiste em comunicar com espíritos trapaceiros.

Os necromantes da antiguidade eram geralmente reconhecidos como estando, consciente e deliberadamente, em comunhão com os Poderes das Trevas - os demônios. Daí a ordem estrita que Deus expresso no Antigo Testamento, de extirparem os necromantes do meio do povo.

Existe, pois, apenas um tipo de comunicação com os espíritos claramente definido que as Escrituras proíbem, a saber: a comunicação com os maus espíritos Por outro lado, é dever da humanidade procurar a comunhão com Deus e com o bom mundo espiritual. "Quando alguém lhe disser para consultar 'Necromantes,' perguntem-lhes se as pessoas não deverão preferir consultar o seu Deus.

“Por que eles devem consultar os mortos em favor dos vivos.” (Isaías 8:19)?  
"Pergunta-me sobre coisas que estão por vir!" (Isaías 45:11)

O convite a “inquirir a Deus” foi aceito com entusiasmo pelos fiéis de todas as eras. Entre os israelitas era uma questão de ocorrência diária. “Todo aquele que quisesse consultar o Senhor, devia ir ao tabernáculo da congregação.” (Êxodo 33: 7) Deus dava a sua resposta por uma infinita variedade de maneiras. Os seus mensageiros espirituais estavam em constante contacto com os fiéis. Encontramos referências a eles por todo o Antigo e Novo Testamentos.

Se nós, fiéis servos de Deus, ou, pelo menos, honestos buscadores da verdade, tentarmos entrar em contato com o mundo dos bons espíritos, não estamos a cometer nenhum pecado, mas sim a obedecer a um dos mandamentos de Deus.

É um mandamento importante, porquanto somente através do contacto com o bom mundo do espírito podemos chegar à verdade. Não há outro caminho.

(NT: Isto constitui uma distorção que brota de uma tendência compreensível, mas que não foge à ideia do que o autor pretende defender, porquanto a comunicação não se achar sujeita à acção de agentes externos, o que colocaria o indivíduo no dilema da separação, uma vez que podemos e devemos procurar o esclarecimento, ou compreensão espiritual, antes de mais em nós mesmos, que concorrerá para a “comunhão” com o divino inerente à alma)

Por esta razão, em parte alguma de todas as Escrituras é dito aos buscadores da verdade para procurarem a orientação dos seus pares, mas sempre junto a Deus e dos Seus espíritos. Isso vale também com relação ao Novo Testamento. Por altura da sua a partir da terra, havia muita coisa que Cristo ainda queria dizer aos seus seguidores, que eles ainda não entendiam. Essas questões ser-lhes-iam explicadas mais detalhadamente mais tarde, porém, não por qualquer agente humano, mas através dos espíritos de Deus, que Cristo lhes enviaria como mensageiros da verdade, cujas ações seriam discerníveis pelos sentidos humanos.

“Vocês verão espíritos de Deus a subir e a descer.” (João 1:51)

Esta ascensão e descida dos mensageiros de Deus foi testemunhada pelos primeiros cristãos nas suas reuniões, de onde vem a exortação que o Apóstolo Paulo fez a todos os cristãos: “Esforcem-se por comunicar com os espíritos.” (I Coríntios 14:12)

É fundamental para a vida religiosa da humanidade que a verdade sobre as grandes questões da vida e do Além sejam buscadas não junto dos homens ou das suas interpretações, mas por via da comunicação direta com o reino espiritual de Deus, que é a fonte de toda a verdade.

Assim, Deus ensina-nos no Antigo Testamento, e Cristo no Novo. Assim, também, nos é ensinado pelos Apóstolos, e esses ensinamentos foram obedecidos pelo povo de Deus antes do nascimento de Cristo e pelos cristãos dos primeiros séculos.

Com o passar do tempo, essa doutrina fundamental foi ficado desbotada. Homens pecadores usurparam o lugar de Deus e o dos Seus mensageiros espirituais como profetas da verdade. A pregação da Palavra de Deus tornou-se num "comércio," para usar expressão do apóstolo Paulo. A religião foi transmitida por professores humanos, como qualquer conhecimento mundano. E assim permaneceu até o presente.

Os líderes espirituais do povo tornaram-se senhores absolutos em todos os assuntos pertencentes à religião, e desse modo acumularam um crescente poder mundano. Cada vez mais numerosas se propagaram as ordenanças humanas colocadas sobre os ombros dos crentes em nome da religião. A liberdade dos Filhos de Deus de outrora foi convertida em servidão religiosa. Quem se tenha rebelado e tentado viver segundo as próprias convicções foi punido com a morte. O sangue de milhões correu em nome da religião.

Os textos genuínos do Novo Testamento desapareceram e foram sucedidos por cópias que diferiam em pontos fundamentais dos originais. Recorreu-se à falsificação intencional de modo a emprestar a autoridade da Bíblia às opiniões e às restrições criadas pelo homem que tinham sido introduzidas no decurso de tempo. Foi uma repetição daquele estado de coisas de que Deus (…) se queixa tão amargamente no Antigo Testamento por intermédio dos Seus profetas, quando diz:

“Como poderão dizer: Somos sábios; Estamos na posse da lei de Deus? Olhai, a caneta dos copistas falsificadores converteram isso numa mentira. Os sábios devem, pois, sentir-se envergonhados e consternados. Destruíram a palavra do Senhor. Que sabedoria é que eles possuem, pois?” (Jeremias 8:9)

A pesquisa científica moderna revelou o facto de que essas falsificações se estenderam qual praga devastadora a todos os documentos antigos. A Bíblia, os Pais da Igreja, os escritos de autores Judeus e Pagãos, todos eles foram alterados para apoiar as falsas doutrinas religiosas que eram actuais no momento.

Tudo isso fora do alcance das pessoas comuns, que aceitaram inquestionavelmente as assim chamadas "verdades" religiosas e interpretações apresentadas pelos seus líderes espirituais, e as legaram a seus filhos e aos filhos dos seus filhos. E assim continua até os dias actuais. A religião é um legado que todos nós herdamos dos nossos pais e professores, sem nos determos e usarmos o nosso próprio julgamento quanto à verdade que encerre. A maioria das pessoas, poderemos acrescentar, não está em condições de o fazer. Por tal razão, a maioria de nós que hoje somos cristãos teríamos sido igualmente zelosos seguidores da fé Judia ou Muçulmana, caso tivéssemos nascido de pais Hebreus ou Muçulmanos.

Não era assim nos dias em que os homens estavam em comunicação com o bom mundo espiritual. Então podiam perguntar: “O que é a verdade?” e recebiam uma resposta. Foi por essa razão que Paulo exortou os primeiros cristãos a buscar o conselho de Deus, se os Seus pontos de vista diferissem em qualquer aspecto com o seu próprio.

“E se, em qualquer assunto vocês forem de opinião diferente, Deus vo-lo deixará claro.” (Filipenses 3:15).

Referência tão singela à única (…) maneira de chegar à verdade como a dada na passagem precedente pelo maior apóstolo cristão teria sido impossível alguns séculos depois. Quem quer que não acreditasse nas doutrinas ensinadas pela "Igreja", ou quem tentasse chegar à verdade inquirindo Deus segundo o costume dos antigos Israelitas ou dos primeiros Cristãos, sujeitava-se à proibição da Igreja e não raro morria na estaca. É verdade que os não ortodoxos não mais são conduzidos às chamas, porque hoje o "Igreja" perdeu o poder de as acender, mas a proibição permanece, e cairia sobre o maior dos primeiros Padres da Igreja se ele se encontrasse vivo hoje, e ensinasse as doutrinas que pregava no seu tempo aos Cristãos.

O caminho que levava ao mundo espiritual de Deus foi bloqueado com escombros, e com ela o caminho que conduz à verdade. As opiniões e as regras dos homens foram empregues para erigir estruturas religiosas em que a humanidade é convidada a ter assento. Centenas de credos alegam ser os senhores da verdade, uns destruindo o que os outros adoram, uns proclamando como verdade sincera o que o outros condenam como heresia abominável. A humanidade só pode ser libertada desses grilhões de erro se Deus hoje nos enviar os seus espíritos como arautos da verdade, como fez nos primeiros milénios. Não são os "mortos" nem o "Reino das Trevas" nem os homens falíveis para quem devemos nos voltar, mas para Deus.

Ele é o mesmo Deus hoje que era então. Ele não respeita a pessoa, e ama tanto o povo de hoje como amava o de eras passadas.

E como, então, Ele se revelou à humanidade por meio de Seus mensageiros, assim fará Ele hoje. É de esperar que as "Igrejas" façam o máximo para obstruir este caminho para a verdade. Isso é de esperar, já que eles estão a lutar pela sua própria existência. Eles consideram que são os propagadores infalíveis da verdade. Cada uma delas tem o seu papa, quer ele use ou não uma tiara. Qualquer instrução analisada pelos mensageiros de Deus seria vista como competição destrutiva que põe em perigo a continuidade da existência da igreja, uma vez que ela teme que as verdades reveladas pelos espíritos de Deus não estejam de acordo com os princípios sustentados pelas igrejas.

Evidentemente, só pode haver apenas uma verdade.* Ou se encontre na posse de um dos muitos credos, caso em que todos os outros credos radicarão no erro, ou então a verdade não pode ser encontrada em nenhum deles. Quando tudo é dito, estas palavras do Fausto de Goethe aplicam-se a todas as religiões, sem exceção: “Retractos berrantes denotam muito pouca clareza, uma riqueza de erro e apenas um grão de verdade.”

*(NT: Nesta passagem o autor distorce o sentido implícito à “Verdade Una” ao cair na cilada implícita à expressão vigente na aparente dicotomia que compromete a relação singularidade versus diversidade ou pluralidade, por que essa “verdade Una” se traduz)

Durante vinte e cinco anos eu fui um padre católico. Eu acreditei que a minha era a verdadeira religião; Não seria, de facto, a fé dos meus pais, dos meus professores e dos meus conselheiros espirituais? Apesar das provas da sua veracidade não me tenham convencido por completo, não tinha motivos para recusar aceitar o que fora aceite como verdade por todos os meus companheiros católicos. Além disso, qualquer dúvida voluntária quanto à verdade dos princípios defendidos pela minha igreja teria sido um pecado mortal de acordo com os seus ensinamentos.

Eu nada sabia nada da possibilidade de comunicar com o mundo do espírito. O conhecimento que tinha do "espiritualismo" limitava-se à leitura dos jornais diários. Eu o considerava uma fraude e uma ilusão por que nos enganávamos a nós mesmos.

Então, veio um dia em que eu dei, involuntariamente, o meu primeiro passo rumo ao contacto com o mundo espiritual. Experimentei coisas que me levaram a mudar até às profundezas da minha alma. Uma vez que esse passo tinha sido tomado, eu não podia, não ousava parar. Senti-me compelido a prosseguir a minha busca de clareza. Cautelosamente avancei, mantendo na ideia as palavras do Apóstolo Paulo:

“Ponham à prova toda a comunicação do espírito; apeguem-se apenas ao que procede do bem.” (I Tessalonicenses 5:21)

Era apenas “o que procede do bem” que eu queria. Eu estava procurando a verdade, e pronto para a aceitar, qualquer que fosse o custo. Eu sabia que Deus não deserta o buscador sincero e altruísta, e que, como Cristo disse, Ele não dá uma pedra àqueles que humildemente Lhe pedem pão. Eu também estava claramente consciente das graves consequências de minhas ações. Eu via a posição de ministro ordenado que assumira, toda a minha existência material, o meu futuro aqui na terra destruído, caso eu persistisse. Eu sabia que insultos, perseguição e sofrimento em abundância seria o destino que teria. Mas a verdade valia do que a pena. E eu encontrei a verdade na nova estrada que eu tinha trilhado. E isso trouxe-me liberdade e felicidade. Os problemas externos que eu sofri em consequência e que persistem até hoje não podem perturbar a paz interior que eu ganhei.
Este livro tem o propósito de descrever o caminho que me conduziu à comunicação com o mundo espiritual e me abriu a verdade aberta. O livro foi escrito num espírito de amor para os meus companheiros, independentemente do credo ou visão da vida que tenham.
Destina-se a todos os que buscam a verdade, como guia para todos aqueles que desejo de se comuniquem com o benevolente mundo do espírito, a fim de alcançar a verdade e Deus pelo caminho mais curto.

Os roteiros para quem viaja pela Terra são escritos por pessoas que tenham visitado os lugares que descrevem nos textos dos seus trabalhos. Esses livros não são escritos para pessoas que esperam ficar em casa, mas para aqueles que querem conhecer lugares até então desconhecidos para eles.

Este meu livro destina-se a servir de roteiro desses. Foi concebido para dirigir o leitor para aquela ponte sobre em que mensageiros espirituais do Além veem ao nosso encontro. Quem quer que, à luz do que fica aqui estabelecido, pisa essa ponte do espírito irá ver todas as declarações que aqui aparecem neste livro plenamente confirmadas.

Não espero, pois, que nenhum dos meus leitores aceite as declarações contidas neste livro pelo que afirmam ser, sem submetê-las à prova. Se o fizessem, estariam a basear as suas crenças concernentes a questões importantes da vida no parecer de um ser humano falível. Isso eles não devem fazer, por a afirmação de que as verdades que registei no meu livro, que não derivam de mim nem de meu próprio pensamento, mas da comunicação com o benévolo mundo espiritual do Além poder ser deliberadamente enganoso ou decepção da minha parte. Eu, como homem fraco, falível e pecador, não posso reivindicar maior fiabilidade do que qualquer um de meus companheiros. Portanto, não peço que creiam em mim cegamente.

Mas uma coisa eu peço: Que a verdade que me foi revelada seja verificada pela mesma via pela qual veio ao meu encontro. Esta via foi precisamente descrita por mim para que ninguém possa deixar de a encontrar. Os instruídos e os iletrados, tanto ricos como pobres, todos podem percorre-la. Sem preparo, não é necessário qualquer treino especial. Nenhuma portagem é exigida. Só uma coisa é indispensável: o desejo da verdade. Aqueles que procuram devem estar prontos para aceitar a verdade no momento em que lhes é apresentada de uma maneira convincente, e devem estar dispostos a moldar as suas vidas de acordo. Este livro não foi escrito para aqueles que não aceitarem esses termos. Para eles, nenhuma via conduz à verdade, por Deus só manifestar a Sua verdade àqueles que dotados de boa-fé.

Aqueles que não têm o desejo da verdade, que não estão prontos para explorar a via que aponto, perdem assim o direito de criticar o meu livro. Se, por exemplo, um químico anunciasse ao mundo que havia encontrado um método de fazer ouro através da combinação de certas substâncias, e se descrevesse minuciosamente o seu processo, apenas aqueles capazes de expressar uma opinião inteligente quanto às suas alegações e que tivessem seguido fielmente todas as suas instruções, teriam percebido as experiências descritas por esse químico. Estou certo de que este livro contém a verdade.

“Porque eu sei em quem eu acreditei.” (II Timóteo 1:12)

Não receio que aqueles que sigam o caminho indicado por mim não venham a encontrar qualquer coisa que entre em conflito com o que eu descobri. Todos que até agora seguiram o meu conselho e procuraram entrar em comunicação com o benévolo mundo espiritual tiveram experiências exatamente iguais às minhas. No entanto, é certo que este meu livro irá encontrar muitos adversários amargos.

Não tanto entre a grande massa do povo como naqueles círculos para quem a aceitação da verdade significaria pesados sacrifícios materiais, a clero das várias denominações religiosas. O credo que eles têm vindo a pregar para as suas congregações proporcionou-lhes um meio de subsistência. E se, agora, em consequência de uma mudança da sua maneira de ver a verdade, eles se virem compelidos a fazer alterações naquilo que professam, deixarão de ser o clero dos seus respectivos credos e perderão o pão de cada dia, até agora garantido. E abrir mão de uma posição de vida e sair pelas incertezas do mundo, pobre e ser assediado por inimigos, é um dos maiores sacrifícios que uma pessoa pode fazer. Não são muitos os que virão a consegui-lo. Em breve eles ficariam sem a verdade.

Foi por esta razão que os sacerdotes judeus travaram uma guerra tão amarga contra Cristo e as suas doutrinas. Seu sustento ficou em perigo. Eles não estudaram os ensinamentos de Cristo de modo a serem capazes de dizer se estes estavam certos ou errados, mas soltaram o seu ódio mortal sobre aquele cujas palavras ameaçavam alienar as pessoas deles e assim minar a influência que exerciam nas massas. Foi por isso que ele teve que morrer. A maldição de ser o mais implacável adversário da verdade - daqueles que a procuraram e daqueles que a proclamaram - persiste até aos dias atuais sobre o sacerdócio de todas as religiões. Com fogo e espada, o sacerdócio matou milhões sob o estandarte externo da batalha contra a heresia, tal como os sacerdotes judeus que condenaram Cristo se esconderam atrás da acusação: "Ele blasfemou contra Deus." Mas a verdadeira razão, então, como mais tarde, foi o medo da perda total ou parcial da influência temporal, das honras mundanas, postos e receitas. Claro que tem havido e ainda há exceções. E hoje talvez mais do que antes. Mas estes Nicodemos dos últimos dias não estão mais capacitados a impedir os líderes espirituais de hoje de sentenciar a verdade de morte, do que os primeiros Nicodemos.

Portanto, o clero de hoje não só repudiará o meu livro, mas recusar-se-á a testar a veracidade das declarações que contém no modo aqui descrito. No entanto, é um caminho que todos podem percorrer com consciência. Ou será porventura repreensível um clérigo ou leigo sentar-se sozinho ou em companhia de outros, a fim de adorar a Deus na privacidade do seu lar, voltando-se para Ele com numa oração cantada, e implorando o cumprimento da promessa de Cristo:

“Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso o vosso Pai Celestial não dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?" (Lucas 11:13)

Haverá alguma possibilidade de ser um pecado estudar as verdades das Sagradas Escrituras em tal serviço, discuti-las com os outros e orar por uma verdadeira percepção? Será pecado juntar as mãos em tal ocasião à maneira dos primeiros cristãos e com tranquilidade interior concentrar os pensamentos no arrependimento dos erros humanos, perdoar uns aos outros e suplicar a Deus para nos ajudar e para nos enviar o Espírito da Verdade que Cristo prometeu aos seus seguidores? Existirá alguém que não possa fazer essas coisas com clareza de consciência? Mais do que isso eu não peço, por este caminho, e nenhum outro, ter sido o que eu percorri ao experimentar o que meu livro relata. Nenhuns privilégios especiais me foram dados; recebi apenas o que qualquer pesquisador sincero receberá. Na verdade, muitos dos que me seguem o rastro podem receber revelações maiores do que as minhas.

O facto de as coisas que aprendemos desta maneira parecem tão incríveis não é razão para se recusar a percorrer o caminho indicado, por Deus prometer expressamente mostrar-nos o inacreditável nas palavras:

“Pergunta-me, e eu te responderei, e te mostrarei coisas grandiosas e incríveis que não conheces.” (Jeremias 33:3)

O autor.  
Páscoa, 1932.

Experiências Pessoais no Campo das Manifestações Espirituais
O primeiro passo na comunicação com o mundo espiritual

Então eu pensei sobre isso, tentando entender, mas foi muito difícil, até que entrei em comunicação com o mundo do espírito de Deus. (Salmo 73: 16-17)

Era tarde no verão de 1923. Naquela época, eu era o padre católico de uma pequena comunidade rural. Além dos meus deveres clericais, eu estava ao comando de uma associação de caridade, cuja sede ficava numa cidade próxima. Eu fazia duas viagens por semana para o escritório dessa associação a fim de atender às actividades caritativas.
Aconteceu certo dia que, enquanto eu estava no escritório, um homem entrou e perguntou-me: “Que opinião tem do espiritualismo?”

Antes que eu pudesse responder, ele começou a contar-me as suas próprias experiências, relatando que tinha criado o hábito de assistir a uma espécie de serviço divino realizado uma vez por semana por um pequeno grupo, cujos membros oravam, liam as Escrituras e depois debatiam as passagens que tinham lido. Entre os participantes desses encontros encontrava-se um rapaz de 16 ou 17 anos, de uma família despretensiosa, possuidor apenas de uma educação média, e aprendiz em uma empresa privada. Nas sessões esse rapaz frequentemente caia para a frente como se estivesse morto, mas era imediatamente empurrado de volta para a posição vertical numa série de empurrões como que por uma força invisível, depois do que ele se sentava de olhos fechado, e transmitia ensinamentos maravilhosos para os seus ouvintes. Ele também respondia às perguntas que lhe eram dirigidas, recusando responder, todavia, a todas as de natureza puramente materialista. A concluir os seus ensinamentos ele voltava a cair para a frente e imediatamente recuperava plena consciência. Do que tinha aconteceu e do que ele tinha falado ele não tinha a menor lembrança.

O menino, disse o meu informante, encontrava-se saudável e brilhante e não sentia qualquer desconforto, cefaleia ou quaisquer sintomas semelhantes em resultado dessas ocorrências.
O homem terminou a sua história com as palavras: “Agora, fico ansioso para ouvir o que você pensa de tudo isto. Mas antes de expressar qualquer opinião, por favor venha assistir a uma das nossas reuniões, para que você possa ver por si mesmo o que acontece há. Você terá oportunidade de endereçar suas próprias perguntas ao garoto.”

Eu escutava-o com a maior atenção. Que haveria de dizer? Eu nada sabia nem entendia nada sobre o chamado "espiritualismo." É verdade que ocasionalmente lia relatos nos jornais diários sobre a exposição de médiuns e sobre fraudes espiritistas semelhantes, nada favoráveis. Mas agora, era-me solicitado, a mim que era um homem de mente séria e um clérigo, que entrasse nesse terreno e corresse o risco de ser ridiculizado. Isso estava fora de questão. Eu sentia-me, é verdade, tentado pela ideia de testar, do ponto de vista científico, os fenómenos que estavam relacionados comigo, se isso fosse possível e quando eu estivesse sozinho e na privacidade do meu próprio estudo. Mas visitar as casas dos outros e expor-me à bisbilhotice, nisso eu não queria incorrer.

Por isso, disse com toda a franqueza ao meu visitante que não tinha tido qualquer experiência com o "espiritualismo" e que não me encontrava em condições de expressar opinião sobre as coisas que ele tinha testemunhado. Disse-lhe, além disso, que eu tinha graves dúvidas quanto à conveniência de aceitar o convite para participar numa das reuniões que ele havia descrito, pela consideração que devia à minha batina e por não poder correr o risco de ser marcado ostensivamente como um "espírita," por em breve a minha presença nesses encontros se tornaria, sem dúvida, do conhecimento geral.

O homem não aceitou estas razões, e respondeu: “Este é um assunto importante, sobre o qual você, enquanto clérigo e homem público, devia estar informado. De qualquer modo, considero que tem o dever de investigar o assunto e, depois de o ter feito de forma cuidadosa e imparcial, formar uma opinião. Esta provavelmente não será a única vez que você é interrogado sobre estas questões na sua vida, pois para quem deverão voltar-se os leigos em busca do esclarecimento, senão para os nossos líderes espirituais, aos quais confiamos a capacidade de nos informar da verdade? Esta questão não pode mais ser descartada, ignorando-a. Bem aqui na Alemanha o número de círculos espíritas cresce de dia para dia. Podemos vê-los em quase todas as cidades de dimensões variáveis. Estou bem ciente de que as igrejas querem esconder o espiritualismo como uma fraude ou como o trabalho do Diabo, mas a questão não será resolvida dessa forma.

“Se são consequências desagradáveis ​​que você teme, não precisa preocupar-se quanto a isso. O público não vai chegar a saber da sua presença nas nossas reuniões, por os poucos participantes que nos frequentam serem pessoas de discrição que evitarão fazer qualquer coisa que possa prejudicá-lo. Pelo que você não precisa preocupar-se por concordar em vir!”

“Eu não podia negar a força dos seus argumentos: ele estava certo. Se nós, clérigos, que aspiramos a ensinar e a orientar as pessoas nos recusarmos a investigar pessoalmente a verdade de tais manifestações conforme descrito, quem mais o fará? Quem poderia ter um maior interesse vital nessas questões do que o clero de todos os credos? Porquanto, se o espiritualismo fosse considerado verdade, isso seria de extrema importância para todos os religiosos da comunidade.

Consequentemente, após alguma hesitação, concordei em comparecer na reunião que estava para se realizar no domingo seguinte à noite.
Nos dias seguintes tinha a mente constantemente ocupada com a questão. Às vezes eu lamentava ter aceitado o convite, por as desagradáveis consequências que a minha acção poderiam acarretar se agigantarem na minha imaginação, quanto mais pensava sobre elas.
Ansiosamente, aguardava o próximo domingo. Depois da conclusão do serviço divino da tarde, fui à cidade, com a intenção de cuidar de algumas questões prementes no escritório, antes de ir à reunião. No bolso do casaco, eu levava um pedaço de papel no qual tinha anotado as perguntas que pretendia colocar ao rapaz nessa noite; que, de cariz teológico, exigiriam respostas elaboradas. Eu mesmo não as conseguia responder e queria saber qual a explicação que o menino teria a dar.

Ao chegar ao escritório, encontrei uma carta do homem que me convidara para a reunião. Nela, ele disse que a reunião seria realizada, não, como originalmente planeado, em sua casa, mas na de outra família cujo endereço que ele dava. Tinha sido ordenado assim.
Tal mudança inesperada surpreendeu-me e despertou suspeitas da minha parte.
Estariam a brincar comigo? A família para cuja residência a reunião tinha sido transferida eu não conhecia nem mesmo pelo nome. Deveria arriscar-me a ficar embaraçado diante de estranhos? Talvez, afinal, tudo não passasse de uma armadilha que me faziam. E decidi-me a não comparecer.

A fim de não manter a reunião em vão à minha espera, enviei um mensageiro ao homem com uma nota afirmando que eu não iria participar na reunião. Não demorou muito para que aparecesse no escritório pessoalmente, pedindo-me para reconsiderar. Ele disse que a mudança no lugar da reunião não tinha sido coisa sua, mas tinha sido ordenada por uma fonte que devia ser obedecida, e que talvez a razão para a mudança residisse no facto de ser menos provável que a reunião atraísse a atenção na outra casa do que na sua própria. No final, lá fui.

Eram sete e meia quando chegamos. Fui cordialmente recebido pela família e podia ver que eles estavam satisfeitos com a minha comparência. Dado que a reunião só começava às oito, tive ampla oportunidade de conversar com o menino, que também tinha chegado antecipadamente. Eu fiz-lhe uma série de perguntas que me permitisse avaliar a extensão da aprendizagem que tinha, e descobri que, a esse respeito ele não diferia da juventude média da sua idade. A sessão começou às oito horas. Havia muito poucos de nós, e eu surpreendi-me ao descobrir que a reunião não devesse ser realizada no escuro, como eu tinha suposto que era habitual nessas sessões, mas que o quarto fosse deixado amplamente iluminado. A abertura consistiu numa breve oração oferecida com reverência por um dos presentes. De facto, todos os participantes pareciam estar profundamente sérios e possuir serenidade interior. Tão logo a oração terminou, o menino caiu para frente num súbito frémito com uma exalação que me deixou assustado. Se não tivesse sido apoiado pelos braços da cadeira na qual se sentava, ele teria caído no chão. Depois de apenas alguns segundos, ele foi empurrado por uma série de sacudidelas como que por uma mão invisível, e permaneceu sentado de olhos fechados. Eu podia sentir o coração a acelerar em antecipação do que estava prestes a acontecer.

“Saudações” começou, e imediatamente virou-se para mim com a pergunta: “Por que razão vieste aqui?” Ele usou a forma de tratamento familiar "tu", o que me deixou surpreso, já que em circunstâncias normais o menino nunca teria ousado tomar tal liberdade.
“Vim à procura da verdade,” respondi. “Ouvi falar do que acontece nestas reuniões e quero satisfazer a curiosidade pessoal que sinto por estas coisas, se são verdadeiras ou falsas.”

“Acreditas em Deus?”, prosseguiu, acrescentando, sem esperar qualquer resposta: “Eu sei o que tu fazes, mas eu quero fazer-te uma outra pergunta: Por que acreditas em Deus?”
Esta pergunta era tão inesperada que mal sabia o que dizer. Eu tinha também a sensação de estar confuso em consequência do que respondera de forma tão inadequada que eu próprio me sentia completamente insatisfeito com a resposta que dera. “Eu esperava algo melhor da tua parte,” respondeu ele calmamente, uma observação que me ofendeu como uma bofetada na cara. Eu viera com a ideia de expor uma demonstração de charlatanismo, mas nos primeiros minutos fui vergonhado.

“À pergunta que respondeste de modo tão insatisfatório voltaremos mais tarde,” disse ele gentilmente, “agora é a tua vez de me fazer perguntas. Eu respondê-las-ei tanto quanto me for permitido. Tu trazes contigo uma lista com as perguntas que me queres colocar anotadas. Retira a folha de papel na qual as anotaste, do bolso!” Os outros olharam para mim com espanto, pois ninguém tinha conhecimento dessa minha lista. A primeira pergunta era a seguinte: “Por que é que o Cristianismo parece não mais exercer qualquer influência sobre o povo de hoje?”

Sem um momento de reflexão ou hesitação, começou a dar uma resposta. Às questões fortuitas que lhe fossem colocadas ou objeções levantadas por algum dos seus ouvintes ele respondia com incrível simplicidade e clareza. De acordo com as anotações abreviadas que fiz, a resposta que deu foi a seguinte:

“Os ensinamentos de Cristo nos documentos que chegaram até vós não se encontram mais completos nem na sua pureza e clareza originais. No que é chamado de Novo Testamento, uma série de seções dignas de nota foram omitidas; Na verdade, foram removidos capítulos inteiros. Aquilo que têm agora não passa de cópias mutiladas. E, sem conhecimento dos originais, vocês são incapazes de determinar que mutilações são essas. Aqueles que foram culpados por tais mutilações foram severamente punidos por Deus.”

Um dos presentes perguntou quem havia assim mutilado as Sagradas Escrituras.
“Isso não lhe interessa,” veio a resposta brusca. “É suficiente que saibam que isso ocorreu e que Deus puniu os culpados. Que proveito teriam se ficassem a conhecer os seus nomes? Vocês usariam a informação apenas para julgá-los, e vocês sabem que não deve julgar os vossos semelhantes. É Deus quem julga. É suficiente!

"Até mesmo uma carta escrita pelo Apóstolo Paulo a todas as congregações Cristãs foi destruída. Nela vinham cuidadosamente explicadas passagens dos seus escritos anteriores que deram origem a mal-entendidos. Mas as explicações dele não estavam de acordo com muitas doutrinas erróneas que tinham subsequentemente penetraram na fé cristã.”

A esta altura, perguntei-lhe quando foi que as primeiras perspectivas que tinham gerado atrito com os verdadeiros ensinamentos tinham entrado na religião cristã, ao que ele respondeu:

“Em certa medida, logo no século I dC. Como tu sabes, mesmo durante a vida dos apóstolos havia mais do que algumas diferenças de opinião entre as congregações cristãs. Mais tarde, muitas opiniões humanas erróneas e dogmas que não estavam de acordo com os ensinamentos foram introduzidos. Se vocês dispusessem do texto completo e não adulterado das doutrinas de Cristo, muitas das cargas impostas pelo homem em nome da religião e do cristianismo ser-lhes-iam tiradas dos ombros. Muita doutrina em que esperam que vocês acreditem, mesmo que pareça completamente desarrazoada, seria descartada porque ser reconhecida como errado, e vocês, como Filhos de Deus, poderiam respirar novamente me liberdade. Como está, milhões de pessoas sentem que muito do que hoje se ensina como parte da fé cristã não pode ser verdade. Por força do hábito, elas podem conformar-se externamente, mas falta-lhes a verdadeira convicção.

“Hoje em dia, há muitos que não professam nem uma adesão externa à cristandade. Em vez de rejeitarem apenas as partes que não são verdadeiras, descartam por completo a sua crença no cristianismo e em Deus, por pensarem que essas coisas sejam todas da mesma peça. E isso é terrível.
"Mas chegará tempo em que os ensinamentos de Cristo serão restaurados para a humanidade, em toda a sua pureza e verdade. De que maneira isso vai acontecer, tu não precisas saber presentemente.

“Além disso, os originais dos documentos do Novo Testamento, mesmo nos aspectos que foram preservados, foram alterados em mais do que algumas passagens. Os copistas (e tradutores) substituíram palavras e frases inteiras, deixando de fora uma palavra aqui ou inserindo outra acolá, alterando assim o sentido do texto para o ajustar aos fins que tinham. Na maioria dos casos eles tentavam criar passagens na Bíblia que apoiasse os pontos de vista religiosos do seu tempo, e para isso falsificaram o seu texto. Nem sempre tinham consciência da magnitude da ofensa que cometiam, acreditando, ao contrário, que estavam a servir a causa da religião. Desse modo foi o povo enganado, e muitos deles sentem no seu íntimo não estar no caminho certo, mesmo não tendo a oportunidade de ser esclarecidos. A consequência necessária é que uma religião tão privada das suas raízes já não pode exercer qualquer influência frutífera. Toda dúvida quanto à verdade reduz o seu efeito.”

“Posso perguntar-lhe,” interpus com um sentimento de apreensão, “para apontar um ponto no Novo Testamento em que a palavra tenha sido alterada ou omitida, assim falsificando o sentido do texto?”

“Conquanto este não seja o momento adequado,” ele respondeu, “para entrar nessa questão das falsificações - farei isso mais tarde quando vier a explicar a Bíblia como um todo – vou-te conceder uma resposta ao pedido e apontar-te dois sítios: um em que uma palavra foi substituída por outra, e outro onde uma palavra foi omitida por completo.

“Tu estás familiarizado com a exclamação feita pelo Apóstolo Tomé, conforme apresentada pela vossa Bíblia moderna: "Meu Senhor e meu Deus!" (João 20:28) De facto, porém, Tomé usou a forma de tratamento sempre empregadas pelos apóstolos para com Cristo: "Meu Senhor e Mestre!" A palavra "Mestre" foi posteriormente alterado para "Deus." Por que isso foi feito, explicarei numa ocasião posterior.

“Uma frase na qual uma palavra foi omitida, em consequência do que, todo o seu significado mudado, deve ser de enorme interesse para ti pessoalmente, já que você és um padre Católico e eu acreditar que, enquanto tal, detenhas poder, de perdoar os pecados. Que passagem do Novo Testamento citarias que apoie a reivindicação de que esse poder tenha sido conferido aos sacerdotes?”

Eu recitei a seguinte passagem: “A quem perdoarem os pecados, eles ser-lhes-ão perdoados.” (João 20:23) Ele corrigiu-me, citando textualmente a passagem: “Se perdoarem os pecados dos outros, os vossos pecados ser-vos-ão perdoados,” e prosseguiu:
“A palavra grega que você traduz como 'eles' também tem o significado de 'vós'. Agora, no texto original a palavra "vós" vem antes da palavra 'vossos'. O que hoje é apresentado como "eles" era na verdade "vós próprios." Então no original da passagem lê-se: “Se vocês perdoarem os pecados dos outros, eles ser-lhes-ão perdoados a vós próprios. Já podes ver ver como o sentido desta passagem foi distorcido pela omissão da palavra "vossos.” Cristo aqui não disse nada, além do que tinha dito repetidamente noutro lugar, nomeadamente: "Vocês devem nos vossos corações perdoar aos vossos semelhantes as falhas e os pecados que eles cometeram contra vós, para que possam obter o perdão de Deus para os vossos próprios pecados." "Perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofendem!' O perdão é a tarefa mais difícil da vossa vida, e é por essa razão que Deus lhes estende a Sua ajuda especial para tal propósito. Cristo, como tu sabes, diz no mesmo lugar: "Recebei espírito santo! Se vocês perdoarem os pecados dos outros, os vossos pecados serão perdoados. Se, no entanto, vocês os conservarem – quer dizer, no vosso íntimo - então os vossos pecados serão retidos por Deus. Compreendes?”

Muito envergonhado e pensativo, eu respondi com um "Sim" silencioso, adicionando imediatamente: "Então você acha que não tenha qualquer nenhum valor para mim, enquanto padre, receber as confissões dos outros, visto que eu não posso conceder-lhes a absolvição? Está a dizer que eu deveria interromper a prática por completo?”

“Isso não é necessário,” ele respondeu. “Como os cristãos da tua Igreja acreditam que precisam confessar-se a um padre para que os seus pecados lhes possam ser perdoados, podes continuar a confessar, em boa consciência, como a tua função assim o exige. Não é mau nem proibido por Deus revelar os vossos pecados ao semelhante. Mas não penses que podes perdoar os pecados dos teus confessandos no lugar de Deus. O teu dever cinge-te a remover pensamentos pecaminosos dos seus corações através de conselhos, advertência e palavras de conforto e de encorajamento, para que possam voltar a casa como homens e mulheres melhores, e deem evidência da sua mudança de índole pela sua conduta.

A confissão e a absolvição superficiais não são apenas inúteis, mas profanam a ideia de uma reconciliação com Deus. “Essas perguntas que tu aventaste desviaram-me da questão que eu levantara, à qual agora voltarei.
“Embora partes dos ensinamentos de Cristo estejam contidas nas cópias dos manuscritos antigos que chegaram até vós tenham sido propositadamente omitidas ou falsificadas para distorcer o seu significado, parte suficiente do verdadeiro material ainda permanece para permitir que as pessoas, que a utilizem como guia, se aproximem do seu Deus.

Infelizmente, eles não conseguem distinguir o verdadeiro do falso.
"O fundamento dos ensinamentos de Cristo é, nas suas próprias palavras: 'Amem a Deus acima de todas as coisas e amem o próximo como a vós mesmos. "Quem quer que obedeça a este mandamento, cumpre toda a lei cristã. Todas as outras verdades apenas complementam esta verdade fundamental, além de orientações úteis para a observância da lei na vida de cada indivíduo.

“E agora chego à última, mas não menos importante razão pela qual o Cristianismo parece ter tão pouca influência sobre o povo de hoje.
“Não encontram nos vossos líderes espirituais grande observância, prática, dos ensinamentos do Cristianismo ou do que os próprios líderes pregam. Isso é verdade para o clero de todos os credos cristãos. Há excepções, mas essas são comparativamente raras. Onde poderás encontrar clérigos quem conseguissem ficar ao lado de Cristo sem corar? Quantos há que compartilhem o sofrimento, a pobreza e a carência com os seus irmãos e irmãs, pois não será o que os membros das suas congregações são? Será que eles os servem como Cristo manda, ou não, na verdade, mas os dominam e exploram? Farão eles alguma coisa a troco de nada? Não haverá clérigos que até aceitem pagamentos pelas orações que oferecem?

“Quanto às vidas que eles levam, disso eu não direi nada por ora. É uma questão que eu gostaria de falar contigo um dia destes, em particular.” Com estas palavras ele virou-se para mim e continuou: “Tu planeias visitar a tua família amanhã. Não há necessidade de pressa. Vai num outro dia e volta aqui amanhã s sete e meia. Então nós dois poderemos conversar em privado. Então, diz a este garoto por intermédio de quem eu estou a falar, assim que ele voltar a si mesmo, para estar aqui a essa hora.”

Em conclusão, ele ofereceu uma oração numa língua que me era estranha e, erguendo as mãos numa atitude de bênção, proferiu as seguintes palavras: "Bendito sejas em nome de Deus! Adeus!"

Depois desta saudação, o rapaz caiu de novo, como início da reunião, abriu os olhos e olhou com assombro. Ele não conseguia entender por que era tão tarde. Do que tinha acontecido, ele nada sabia. Ele disse que sentiu como se tivesse dormido sossegadamente por muito tempo e que se sentia refrescado e perfeitamente bem. Quando lhe pedi para regressar na noite seguinte às 7:30, ele declarou que isso era impossível. Eles tinham algum trabalho urgente para terminar na sua loja, disse, e muito provavelmente não iria para casa antes das nove horas da noite. Disso o patrão já o tinha notificado.

No entanto, decidi adiar a minha viagem e voltar na noite seguinte na hora que tinha sido especificado. Ao voltar ao meu alojamento após a reunião, senti como se tivesse despertado de um pesado sonho. A lua derramava a sua luz prateada nos telhados e as estrelas brilhavam pacificamente no claro céu nocturno, mas em mim as chamas dos meus pensamentos ardiam ferozmente, e eu sabia que essas chamas estavam já a tomar as vigas em que toda a estrutura da minha fé até agora assentara.

Qual diria a verdade: o credo de que eu era sacerdote, ou a voz que tinha falado através desse menino? Ou teria ele inventado tudo da sua própria cabeça e encenado uma farsa às nossas custas? Isso viera da sua própria cabeça? Daquele garoto? Não, isso era impossível. Eu aceitaria qualquer outra explicação, por mais improvável que fosse. Eu tinha, naturalmente, lido por aqui e por ali qualquer coisa sobre "clarividência," "o subconsciente" e "Telepatia," mas nada disso parecia ter cabimento no caso em questão. Portanto, decidi continuar a minha investigação. Achei o assunto demasiado importante para ignorar. Para mim, não havia volta; Eu tinha que conseguir um completo esclarecimento. Talvez a próxima reunião me trouxesse mais um passo em frente.

A decisão

“Escolhi o caminho da verdade; Os Teus julgamentos coloquei eu diante de mim. (Salmo 119:30)
Depois de uma noite de pouco descanso eu tentei no dia seguinte aliviar os meus pensamentos torturados por meio de uma aplicação extenuante ao trabalho no serviço da associação de caridade. Pouco antes das sete e meia daquela noite eu estava de volta ao apartamento em que a reunião da noite anterior se tinha realizado. Para minha grande surpresa, o menino chegara lá antes de mim. Ele disse-me que às quatro horas daquela tarde, o patrão dele viera até ele com o anúncio de que tinha mudado de ideia, e que o trabalho que tinha pretendido terminar em horário extra naquela noite seria adiado até à manhã seguinte.

Encontrava-me sozinho com o rapaz. À medida que o relógio tocava as sete e meia ele caiu para a frente como tinha feito no dia anterior naquele estado inexplicável para mim, de novo, e cumprimentou-me com a saudação:

“!Saudações.” Pegou-me pela mão e disse: “Eu estou contente por teres ficado, pois tenho muito a dizer-te. Contudo, em primeiro lugar, devo terminar o último aspecto que mencionei ontem. Lembras-te que eu disse que falaríamos disso quando estivéssemos a sós.”
Ele então traçou um retracto das vidas conduzidas por uma grande parte do clero. Eu escutei, abalado e dolorosamente empolgado. Contudo, ele disse-me na mais gentil das maneiras: “Agora fala comigo abertamente e com total confiança, pois sei que desde ontem tens estado estado em tumulto e que te sentes perdido.”
Numa voz tremendo de emoção interior, eu respondi: “Você está certo, tenho os pensamentos num turbilhão. Eu não sei o que pensar de tudo isto. Por favor
Instrua-me sobre tudo, mas acima de tudo diga-me quem você é, e como você é capaz de falar comigo através deste menino. "

Tens razão de me perguntar primeiro quem eu sou, pois é vosso dever testar os espíritos que falam convosco até para se assegurarem que eles foram enviados por Deus, caso contrário vocês pode tornar-se vítimas de espíritos malignos que irão arruiná-los, de corpo e alma, e que não lhes diria a verdade, mas guiá-los-iam com mentiras para o caminho que conduz à borda do precipício. Juro-te diante de Deus que eu sou um dos Seus bons espíritos, de facto, um dos Seus mais elevados espíritos, mas reserva o meu nome para ti próprio.”

Então revelou-me o seu nome. “Eu sou aquele que trouxe você aqui. Por ordem de de Deus, desejo ensinar-te para que tu, por tua vez, possas ensinar o teu semelhante.”
Durante todo aquele tempo eu mal sabia como me sentia ou o que estava a acontecer comigo.

“Começarei agora - continuou ele - a instruir-te naquelas coisas que estão aqui a ocorrer. Podes pensar que aquilo que vês seja algo novo e inédito. É tão antigo quanto a humanidade. O mundo espiritual comunica com a humanidade desde os dias dos primeiros seres humanos até ao presente. Isso é verdade tanto em relação ao bom mundo espiritual quanto ao mau. Tu tens, é claro, lido com frequência nos textos antigos que vocês chamam de Antigo Testamento que Deus falou ao povo. Deus falou a Adão, Caim, Abraão, Isaque e Jacó, a Moisés e a muitos outros. Como achas que Ele fez isso?
Tu sabes que Deus é espírito e que os espíritos não têm lábios de carne nem voz
Nem cordas vocais que permitam que eles falem à maneira dos homens. Como, então, Deus
Terá falado a essa gente?”

“Eu não sei dizer,” era toda a resposta que eu podia dar. “E como explicarás tu a aparição dos três homens diante de Abraão? Ele sabia que não eram seres humanos, mas mensageiros enviados por Deus. Ainda assim, ele colocou comida diante deles e negociou com eles a destruição de Sodoma e Gomorra. Como explicas isso?”
Eu não nada tinha a dizer em resposta. Tudo isso eu tinha lido centenas de vezes e até mesmo ensinado às crianças na catequese, mas com respeito à maneira como a comunicação dos espíritos com o homem era efectuada, conforme relatado na Bíblia, eu não tinha ouvido nada nem reflectido nisso.

Embora ele continuasse a examinar-me sobre essas questões, não havia uma única pergunta que eu conseguisse responder corretamente.
“Como sabes, vocês humanos têm vários meios de comunicação com aqueles que estão à distância. Vocês escrevem-lhes cartas, telefonam-lhes ou telegrafam-lhes, e ultimamente vocês chegam mesmo a fazer uso das ondas do éter, com o rádio. Da mesma forma, o mundo dos espíritos, que se encontra separado de vós pela matéria, tem várias maneiras de se comunicar convosco por meios perceptíveis aos vossos sentidos.

“Mas vocês, homens de hoje, não pensam nestas coisas. Tudo o que vocês fazem é ler sobre elas e deixar a questão em repouso. Considera a grande história de Moisés! Aí encontrarás que o "anjo do Senhor" lhe falava da sarça-ardente; Que Deus diariamente enviava ordens a Moisés para ele obedecer; Que o "anjo do Senhor" surgia diante das pessoas numa coluna de nuvem da qual fala; Que Moisés pedia orientação a Deus com tanta regularidade quanta a que ele desejava, e que Deus sempre respondia. O povo também poderia buscar o conselho de Deus. Eles iam para a tenda (NT: Tabernáculo?) das reuniões fora do acampamento, em que a presença de Josué, o servo de Moisés, sempre se fazia necessária e da qual ele não estava autorizado a abandonar. Agora pare e pense: por que foi que o jovem Josué recebeu a ordem de permanecer constantemente na tenda? Haveria alguma ligação entre este e os apelos dirigidos a Deus me busca de conselho?”

Qual relâmpago a resposta veio à mente e eu respondi rapidamente:
“Eu suponho que Joshua fosse como este menino aqui. Assim como você está a fazer uso do seu corpo para falar comigo, também naqueles dias o mundo espiritual falava através de Josué.”

“Estás certo," disse ele. “Mas lembra-te que quando a Bíblia diz: “Deus falou,” muito raramente era o próprio Deus que falava, porque, por regra, Deus fala somente através dos Seus mensageiros espirituais. E sabe, além disso, que o mundo espiritual nem sempre fala através de um ser humano quando quer falar com a humanidade. Há muitas maneiras pelas quais os espíritos se podem fazer entender a vocês. Assim verás que Deus falava através da 'coluna de nuvem'. Em muitos, muitos casos, a comunicação com os espíritos foi tornada possível pelos dons da "clarividência" e da "clariaudiência" que eram concedidos a certos indivíduos. O facto de Deus ter falado a Adão e Eva e a outros mais tarde, foi efectivado por meio da clariaudiência. Havia ainda um outro canal que os israelitas costumavam usar para consultar Deus, ou seja, o peitoral ou escudo usado na túnica do Sumo-sacerdote e, portanto, também chamado de "peitoral de julgamento". Numa ocasião posterior eu descreverei em detalhe os procedimentos seguidos quando Deus era consultado por meio desse canal.

"Não é somente no Antigo Testamento que encontrarás referências à comunicação com o mundo espiritual, mas no Novo Testamento, em idêntica medida. Cada um dos evangelhos, em especial os Actos dos Apóstolos, contêm muitos relatos de revelações feitas por espíritos. O próprio Cristo prometeu solenemente a todos que acreditassem que ele lhes enviaria os espíritos de Deus. Os fenômenos testemunhados durante o serviço Divino dos primeiros cristãos, para os quais vocês hoje não conseguem encontrar nenhuma explicação, não passava da vinda e ida dos espíritos. Eles falavam através de um dos crentes numa língua estrangeira e por intermédio de um segundo na língua materna da congregação; Eles deram a um terceiro o poder de curar os doentes e outros dons, de acordo com a aptidão dos presentes a quem tais dons eram concedidos como instrumentos do mundo espiritual. Naqueles dias, esses as coisas tinham uma ocorrência diária e eram encaradas como matéria de facto.

“Não penses que a comunicação com os espíritos tenha cessado depois dos primeiros dias da era cristã, como muitas das "igrejas" pedem para vocês acreditarem. Pelo contrário, deverá e continua sempre, por ser a única maneira por que vocês podem conhecer a verdade.
“É verdade que cabe às pessoas obter ou não comunicação com os espíritos de Deus. Mesmo nos dias do Antigo Testamento, houve alturas em que esta comunicação cessou quase que por completo. Esses foram os tempos da alienação de Deus.

“Também hoje, as pessoas, apesar dos muitos templos que eles erigiram, em grande parte afastaram-se de Deus e submeteram-se ao poder do mal. Quando o povo de hoje interiormente se aproximar tanto de Deus, como no caso de muitos períodos no Antigo Testamento e dos primeiros tempos da era cristã, todas aquelas coisas que lhes parecem tão miraculosas nos relatórios daqueles tempos terão lugar novamente. Pois é o mesmo Deusa gora, como era então. Ele ama as Suas criaturas com o mesmo carinho agora como as amava então, diante de Quem somos todos iguais.

“Estes ensinamentos gerais devem ser suficientes por hoje. Os detalhes da comunicação que se estabelecia entre os espíritos e a humanidade, ser-te-ão dados no devido tempo, se estiveres disposto a receber as instruções e a empreender a tarefa que te foi reservada. Não és obrigado a fazer isso. És livre para escolher. Podes aceitar o que te está a ser oferecido para testemunhares a verdade, ou podes decliná-lo e continuar no caminho que tens percorrido até agora. Se estiveres disposto a aceitar, com toda a probabilidade serás chamado a fazer grandes sacrifícios mundanos. Irás sofrem perseguição por causa da verdade e da justiça. Mas irás encontrar paz. Se rejeitares este dom de Deus que eu te ofereço a você, a responsabilidade é tua. Cabe-te a ti decidir.

“Não és convidado a aceitar qualquer coisa cegamente. É de esperar que testes se é verdade ou simplesmente engano da parte do maligno. Não te deves contentar em ficar satisfeito por ouvires estas coisas de mim somente; Deves, por observação própria, reunir experiências neste campo, independentemente do que aprenderes aqui. Assim, e para conclusão, peço-te que procures em tua paróquia rural pessoas que nada tenham a ver com essas questões. Mantém reuniões semanais com eles a uma hora conveniente, oferecendo oração e explicação das Escrituras, como fizeram os primeiros cristãos. Em seguida, presta muita atenção ao que ocorrer. Dessa forma, ver-te-ás em condições de comparar aquilo que experimentas nelas com o que aqui vês e ouves.

“Além disso, organiza as coisas para que possas comparecer aqui neste círculo todos os
Domingos à noite às oito horas, para que eu possa continuar com os meus ensinamentos.”
“Estou pronto,” disse eu, “para vir aqui todos os domingos sempre que possível, mas não consigo decidir-me a pedir aos camponeses de entre os meus paroquianos rurais para assistirem a reuniões deste tipo. Na pequena aldeia em que vivo isso atrairia tanta atenção, que as consequências que isso geraria não se poderiam prever. Além disso, não consigo pensar em ninguém que eu considero adequado para o propósito.”

“Se se te decidires a agir, o resto será tratado,” ele respondeu à minha objeção. “Não estás a ser forçado a isso. A decisão fica inteiramente contigo. Mas eu aconselho-te a aceitar. E agora preciso concluir. Levantando as mãos num gesto de bênção como tinha feito no dia anterior, ele pronunciou as palavras: “Que Deus te proteja. Ele pode dar-te forças para realizar a Sua vontade. Ámen. Adeus!”

Novamente, o rapaz se inclinou para frente e, depois de alguns instantes, ele recobrou os sentidos, completamente inconsciente do que tinha ocorrido. Todas as explicações que me fossem dadas sobre qualquer motivo natural do que me tenha acontecido eu via-me forçado a rejeitar como inadequadas. Eles não contam nem mesmo uma pequena fração do que eu tinha testemunhado.

O que mais me cativou e, se me é permitido dizer, o mais irresistível foi a clareza e a lógica convincente do que eu tinha ouvido aqui pela primeira vez na minha vida. Somente a verdade poderia exercer tanta influência, uma influência de que eu não tinha o poder de afastar, mesmo que eu tivesse tido tendência para isso.

Tanto da Bíblia, que até então tinha permanecido obscuro para mim, eu agora compreendia com clareza. O que era mais, eu estava apenas no começo. Eu tinha-me sido proporcionada instrução completa em tudo relacionado com o assunto, e tive apenas para aceitar a oferta. Além disso, eu não estava satisfeito com o que eu tinha ouvido ou aqui ouviria, mas fui instado a recorrer a outra fonte independente, de modo a não poder restar qualquer erro. Eu tinha sido aconselhado a sentar-se com camponeses inexperientes e simples, que não tinham a mais remota ideia de "espiritualismo," para adorar à maneira dos primeiros cristãos, longe de toda influência externa, na minha própria paróquia.

Deveria assumir o risco? O que diriam as pessoas? Senti o medo da opinião dos meus companheiros a crescer dentro de mim. Os meus próprios paroquianos não me considerariam mentalmente insano se eu realizasse qualquer coisa desse tipo?

E se os meus superiores eclesiásticos soubessem disso, eu não perderia a minha posição?
Travou-se uma luta desesperada dentro de mim. Que alternativa deveria escolher? Pois eu sabia que eu precisava decidir, agora ou nunca. Em nenhum momento da minha vida eu orei mais fervorosamente a Deus do que fiz então. No final, resolvi seguir as instruções que eu tinha recebido, mesmo que isso significasse os maiores sacrifícios, incluindo a perda da minha posição e dos meus meios de sustento. Essa foi a minha decisão. Logo que eu a tomei senti-me completamente calmo interiormente, e capaz de confrontar o futuro com a máxima confiança.

A Corroboração da Verdade

“Vós entretanto, encontrais-vos entre aqueles que receberam a unção espiritual da verdade da parte do Sagrado e fostes pois, iniciados em toda a verdade.” (I João 2:20)

Decidi, independentemente das consequências, seleccionar alguns indivíduos da minha própria paróquia e organizar encontros com eles, como aqueles a que eu tinha ido na cidade vizinha. Como ainda não tivesse ideia de quem escolher, por me ter dito que tudo seria tratado tão logo eu estivesse preparado para agir. E assim aconteceu. Eu não precisava escolher as pessoas; Elas foram-me trazidos por uma estranha cadeia de circunstâncias, sem qualquer esforço da minha parte.

Havia na minha paróquia uma mulher inválida que estava parcialmente paralisada, e a quem eu costumava ligar várias vezes por semana. Uma irmã dela era casada com um homem da minha paróquia; Ela teve quatro filhos, que iam dos 20 aos 28 anos de idade: três filhos e uma filha.

Certa noite, enquanto eu conversava com a inválida, um dos filhos de sua irmã entrou e perguntou se a sua mãe estava em casa. Foi-lhe dito que ela tinha estado lá, mas tinha deixado alguns recados por atender e que estaria logo de volta, ao que o menino se sentou a fim de esperar por ela. Pouco tempo depois, a mãe chegou, e passados uns instantes os seus outros dois filhos, que tinham ido buscar o irmão. Eles tinham combinado com alguns dos seus companheiros encontrar-se naquela noite na casa de uma certa família. Depois de um outro curto intervalo a filha apareceu; Ela era enfermeira, e tinha-me vindo perguntar se um dos doentes da paróquia teria de ser assistido durante a noite. Isso fez com que sete de nós estivéssemos presentes.

De repente, um dos filhos começou a falar do sermão que eu tinha ouvido no domingo anterior, em que eu havia citado uma passagem do Bíblia com que eles desconheciam completamente. Expliquei essa passagem das Sagradas Escritura aos meus ouvintes, que me escutaram com a maior atenção. Quando terminei, um dos filhos comentou que desejaria poder ter a oportunidade de ver várias partes das Escrituras explicadas com uma maior frequência.

Eu disse-lhe que ficaria encantado por me encontrar com todos eles em casa da sua tia inválida e de responder a quaisquer perguntas que me pudessem colocar, da mesma forma que os primeiros cristãos se haviam reunido em casa uns dos outros para discutir assuntos de religião. Todos os presentes acolheram bem a minha sugestão, e imediatamente fixamos as noites em que combinamos encontrar-nos.

As primeiras reuniões nocturnas tiveram lugar sem qualquer incidente. Nós sempre as abrimos com uma oração, depois da qual, de mãos dadas, ficávamos sentados por alguns minutos em silêncio, e concentrávamos os nossos pensamentos. Seguia-se uma leitura das Sagradas Escrituras, a interpretação e a discussão do conteúdo, e quaisquer perguntas feitas pelos presentes eram respondidas. Também deliberáramos sobre a melhor maneira de ajudar os necessitados de nosso bairro e dos arredores.

Fiquei muito impressionado com a seriedade com que, especialmente os três irmãos acolheram a questão, e não apenas eu, mas também a sua mãe, que observou algo peculiar: os rostos de todos os três assumiam um aspecto muito mais refinado e nobre. Até mesmo estranhos comentaram isso. Além disso, um deles confidenciou-me que algo de inexplicável estava a acontecer com ele. Quando ele se encontrava a trabalhar no campo, uma voz interior exortou-o a louvar a Deus e a dar-Lhe graças. Esses pensamentos nunca tinham vindo a ele antes. E agora, sempre que, irritadiço como ele era, ele dava lugar a um ataque de raiva, ponderava tão fortemente sobre a sua alma que se sentia compelido a parar o trabalho até que ele tivesse pedido a Deus que lhe perdoasse a ofensa. Só então ele poderia retomar feliz o seu trabalho. Anteriormente ele ofender-se-ia dessa maneira dezenas de vezes ao dia sem qualquer remorso.

Era a mesma coisa que também eu tinha experimentado desde o dia que assistira à reunião inicial na cidade vizinha. Ofensas e descuido de comportamento, ao qual eu nunca tinha dado qualquer atenção, agora ardiam como fogo na minha alma.

Aconteceu, na nossa quarta reunião, que eu estava interpretando uma determinada passagem da Bíblia, interpretação essa que era a mesma hoje dada por todas as autoridades cristãs sobre as Escrituras, por na época eu não conhecer mais nenhuma. Eu ainda não tinha concluído o que eu tinha começado a dizer, quando um dos garotos ficou inexplicavelmente excitado, e me olhou com um estranho brilho nos olhos. Eu podia ver que ele se debatia fortemente com alguma comoção interior. De repente, virou-se para mim, a tremer de corpo inteiro, e disse: “Eu não consigo evitar. Devo dizer-lhe que a interpretação que faz está incorreta. Vejo-me obrigado a dar-lhe a interpretação correta.”

Com isso, ele pronunciou as frases que lhe tinham inspirado a interpretação dessa passagem da Bíblia. O que ele disse foi tão claro e convincente que nem eu nem nenhum dos outros podíamos ter dúvidas quanto à correção que apresentava.

Ainda não nos recuperamos do espanto, quando o mesmo menino exclamou: “Preciso escrever.” “Porquê, o que é que queres escrever?” Perguntei-lhe.
“Isso, eu não sei, mas estou a sentir-me compelido por um irresistível poder. Dê-me um lápis e uma folha de papel. Nós demos-lhe ambas, e imediatamente ele começou a escrever com rapidez, continuando até ter coberto a folha de papel. Cada letra junta à seguinte, de modo que não havia espaço entre as palavras ou frases. No final aparecia a palavra “Celsior.” O documento continha um ensinamento de grande valor para nós.
O rapaz perguntou-me o significado da palavra “Celsior,” e eu disse-lhe que era termo latino, que significava “O Superior,” ou “Um Superior.”

Perguntei-lhe de seguida quais as sensações que teve durante a experiência. Ele respondeu que não conseguia encontrar as palavras certas para a descrever; Que ele estava sob a influência de um poder tão grande que não podia resistir, apesar de ter feito todo o possível para lutar contra o impulso para me dizer que a minha interpretação da Bíblia estava errada, por ele estar naturalmente convencido de que a minha explicação estava correcta. Mas no final ele tinha-se sentido obrigado, primeiro a falar e depois a escrever. Ele sentira como se os seus pensamentos tivessem sido afastados e substituídos por outros. Ele sabia que estava a escrever e tinha conhecimento do conteúdo de cada frase, mas somente ao proferir ou escrever essa frase particular. Assim que uma frase era completada, ele perdia toda a lembrança dela, e a sua mente ocupava-se da seguinte, e via-se obrigado a pronunciar ou a escrever as palavras exatas que recebera. Ele tinha sido incapaz de prestar qualquer atenção às letras, ortografia ou pontuação durante a escrita. Depois de concluída a sua interpretação da passagem bíblica mencionada e a sua redacção, ele tinha esquecido completamente o que tinha dito e escrito, pelo que se via completamente incapaz de repetir qualquer dessas palavras.

Ainda estávamos a discutir o sucedido, quando um dos seus irmãos anunciou que não poderia mais participar nas nossas reuniões por descobrir que ele não podia manter a cabeça parada e que estava continuamente a girar de um lado para o outro contra a sua vontade. Ele tinha dado o seu melhor para controlar essa tendência, mas sem sucesso.
Eu também tinha notado esse movimento da cabeça, assim como a sua mãe, que me olhou interrogativamente e alarmada. Eu tranquilizei-a e ao jovem dizendo-lhes que nada tinham a recear, porquanto o que estávamos a fazer nada tinha de possivelmente errado. Era verdade, acrescentei, que não entendíamos tudo o que se estava a passar ali, mas que, sem dúvida, isso logo nos seria esclarecido. Fenômenos semelhantes ocorreram nas reuniões dos primeiros cristãos, uma declaração que confirmei ao ler em voz alta o capítulo da Primeira Epístola aos Coríntios, que eu expliquei pelo melhor que pude nessa altura.

O que aconteceu naquela noite era tão novo para mim quanto para os restantes. Nas reuniões na cidade eu tinha testemunhado a manifestação de um espírito por intermédio de uma pessoa completamente inconsciente. O facto de os espíritos poderem tomar os seres humanos como instrumentos e de assumir plena posse das suas faculdades, e em especial, de poderem fazer com que eles falassem e escrevessem, não tinha cabimento na minha experiência anterior. Eu estava completamente confuso para entender o que estava a acontecer ao menino cuja cabeça estava a mover-se para a frente e para trás.

Fiquei, pois, muito feliz por ter a oportunidade de pedir esclarecimentos sobre estas questões por ocasião da minha sessão seguinte de domingo, na cidade. Lá me foi dito:
"Não te preocupes se cada aspecto não for completamente claro no início. O assunto ainda é completamente novo para ti, e há muitos aspectos pelos quais tu ainda não têm dispões dos conceitos correctos. Mas pouco a pouco tu virá a entendê-los todos. Ocorre o mesmo com as vossas invenções e descobertas humanas: a princípio, um facto recentemente descoberto é considerado impossível e aquele que o descobre é considerado mentalmente anormal. Anos mais tarde, a mesma descoberta é universalmente reconhecida e considerada óbvia. Quantas pessoas há cem anos atrás poderiam ter concebido os vossos aviões modernos, o vosso telégrafo, o vosso telefone, para não falar no vosso rádio? Alguém que houvesse então predito que viria tempo em que as pessoas poderiam voar pelo ar, falar com lugares distantes e ouvir, nas suas próprias casas, um concerto que estivesse a ser dado a centenas de quilômetros de distância, e essa pessoa não teria sido levada a sério. E teriam sido precisamente os cientistas que mais teria zombado em qualquer dessas possibilidades.

"Tu foste informado, e estás a ver por ti mesmo, que o mundo espiritual pode comunicar com a humanidade, assim que as condições necessárias tiverem sido cumpridas. A maioria das pessoas não acredita nisso e considera-o impossível, tal como antigamente as pessoas não acreditavam na possibilidade de muito do que é realidade hoje.

"Assim também, os vossos académicos agora se recusam a aceitar que o mundo espiritual é capaz de entrar nas suas vidas de uma forma perceptível aos seus sentidos. E ainda assim, mesmo nos vossos dias, há milhares de ocorrências que esses mesmos académicos podem verificar como factos indiscutíveis, e, o que é mais, como factos que podem ser atribuídos apenas à intervenção do mundo espiritual. Mas os vossos académicos procuram outras causas para essas ocorrências, e pedem-lhes para aceitarem as explicações mais insensatas e incríveis em explicação desses fatos de uma maneira "humana," para que eles não precisem reconhecer a existência de um mundo espiritual e de um Além.

Alguns deles adoptam essa posição por negarem uma vida após a morte; outros, porque carecerem da coragem, enquanto cientistas que são, para falarem a favor da intervenção dos espíritos, embora interiormente estejam convencidos de que existam. Eles temem que as suas reputações profissionais possam sofrer em consequência.

"Mas está chegar o tempo em que também as vossas ciências, serão forçadas a admitir que o mundo espiritual, tanto o bom quanto o mau, intervém de forma visível e perceptível nas vossas vidas e na vossa sorte, e que o faz por uma grande variedade de maneiras.

"Não deves ficar, pois, surpreendido, se hoje és considerado como não muito normal quando afirmares ter falado com um espírito. Fico, todavia, espantado com o facto as vossas diversas denominações religiosas se recusarem a admitir a possibilidade da intervenção do mundo do espírito e da comunicação que tem com a humanidade de hoje, ou da razão, caso o admitam, deles afirmarem que possa ser apenas o mundo do espírito maligno que se manifesta hoje.

"Tal posição é totalmente insustentável, pois que se for impossível que os espíritos os alcançam hoje, seria igualmente impossível no passado, e todos os relatos da Bíblia a dar conta da comunicação com os espíritos deviam ser relegados para o mito. Se, por outro lado, se apenas os espíritos malignos lhes podem tornar a sua presença conhecida hoje, então o mesmo seria verdade anteriormente. Isto significa que todas as religiões baseadas no Antigo ou no Novo Testamento cairiam em colapso como uma casa de cartas, por ser certo que alegam ter recebido as suas verdades e leis religiosas por intermédio dos espíritos. Assim, pois, se eram os bons espíritos que visitavam a humanidade no passado, então não há razão para duvidar que eles sejam capazes de também o fazer hoje, pois ter sido o mesmo Deus que enviava os espíritos então, que os envia hoje. Assim como Ele tentava, então, guiar a humanidade no caminho correcto, assim Ele o faz hoje. Ou achas que vocês não têm mais necessidade de ensino e da orientação dos espíritos de Deus? Por acaso pensarás que sejam melhores e mais sábios que o povo de antigamente, e que vocês possuem toda a verdade?

"O que experimentaste em tua paróquia é uma confirmação do que estás a aprender comigo. Tu vais testemunhar muito mais. Não receies pelo garoto que não consegue manter a cabeça parada; Estamos a trabalhá-lo e tu verás com os teus próprios olhos como os diferentes "médiuns" são desenvolvidos.

"A palavra 'médium' significa 'instrumento'. Os médiuns são seres humanos utilizados pelo mundo espiritual como instrumentos, para lhe possibilitar que comunique com a humanidade. Os animais também podem ser empregues com tal propósito, mas por enquanto não vamos falar sobre isso.

"Se os seres humanos devem servir ao mundo espiritual como instrumentos, por seu turno isso requer um desenvolvimento que é realizado pelo mundo espiritual e que leva mais ou menos tempo, dependendo do indivíduo, mas em particular da finalidade para a qual o médium deve ser empregue.

"Quando chegar a hora, vou instruir-te minuciosamente com respeito aos diferentes tipos de médiuns e aos detalhes do seu desenvolvimento. Hoje eu apenas te direi o suficiente para permitir que compreendas o que irá acontecer nas próximas reuniões que irão decorrer na tua paróquia.
"Presentemente tens lá dois tipos de médiuns em desenvolvimento nas mãos do mundo espiritual. Um é um chamado "médium de inspiração." Um espírito instila certos pensamentos nele com tal força que os próprios pensamentos do médium são completamente expulsos, deixando-o completamente sob o poder desse espírito. O médium não só recebe os pensamentos do espírito, como se vê compelido a pronunciá-los ou a anotá-los, enquanto mantém as plenas faculdades da consciência. O teu "médio de inspiração" exige um desenvolvimento adicional para aperfeiçoar a receptividade que tem das mensagens do mundo espiritual. Ainda é necessário remover dele muito que agora obstrui o processo. O que isso seja ainda não o podes entender por ora, mas ser-te-á esclarecido mais tarde.

"O outro médium, que ainda não se encontra activo, encontra-se na fase inicial do desenvolvimento. Refiro-me ao rapaz que não conseguia manter a cabeça quieta e que se sentia assustado com isso. Ele tornar-se-á um “médium de transe;” O seu próprio espírito será conduzido para fora do seu corpo, e outro espírito irá ocupá-lo e falar através dele. Esse estado é chamado de "transe". Existem diferentes graus de transe, dependendo do próprio espírito do médium se encontrar completa ou apenas parcialmente separado do corpo.

"A maneira pela qual essa separação é realizada é algo que tu irás achar difícil de entender, mas que te será explicado em detalhes numa ocasião posterior.
"O desenvolvimento de um 'transe total' ou um 'trance profundo' não é coisa agradável de ver, mas é necessário e procede de acordo com as leis eternas.
"Para que a mãe do médium não se sinta desnecessariamente assustada com o que acontece, será melhor que por enquanto ela fique longe das reuniões.

"O desenvolvimento dos médiuns é uma matéria importante e sagrada, e tu deves, por conseguinte, em vossas sessões, rezar muito pelos médiuns, e pedir a Deus por ajuda e força, para que tudo possa ser feito de acordo com a Sua vontade e os médiuns possam tornar-se ferramentas úteis para o bem e permanecer fieis a Deus.
"O que te disse hoje é necessário para que possas ter alguma compreensão do que acontece durante o desenvolvimento do teus médiuns, e para que não se sinta alarmado com as coisas que possas testemunhar com eles."

Tudo o que me tinha sido dito sobre o treinamento dos dois médiuns na minha paróquia tornou-se literalmente realidade. O menino que fora descrito como "médium de inspiração" progrediu rapidamente. Ele foi inspirado com ensinamentos detalhados sobre as verdades mais importantes e os comprometeu-se a anotá-los. Eles continham coisas inteiramente novas para mim e eram, em grande medida, contrários àquilo em que o rapaz até então tinha acreditado e ao que eu próprio proclamara nos meus sermões como a verdade. Não havia, portanto, possibilidade de tentar explicar os fenômenos com base no funcionamento do subconsciente ou da transmissão do pensamento, como as pessoas costumam fazer. A transmissão de pensamento estava totalmente fora de questão, por tudo o que o médium de inspiração anotou a partir desse momento ficou comprometido com a escrita, não nas nossas reuniões, mas na sua própria casa e sem que alguém estivesse presente.

O rapaz não se sentava a escrever por vontade própria, mas toda vez que fosse obrigado a fazê-lo por aquela mesma força irresistível que tomou posse dele pela primeira vez na reunião que descrevi.

Até mesmo o momento preciso seria determinado por essa força. Assim que acordava muito cedo pela manhã, muito antes do tempo habitual de se levantar, e era convocado para se levantar e escrever. Ele não obedecia às convocações, pensando ser muito cedo para se levantar, quando de repente ele se sentiu forçado a sair da cama e pôr-se de pé. Completamente assustado, ele ergueu-se e sentou-se a escrever. Redigiu observações notáveis sobre a "Redenção," que não concordam nem num único aspecto com o que ele, enquanto católico, tinha aprendido sobre a questão, e que não se assemelham nem mesmo remotamente a qualquer coisa que possa ser encontrada noutro lugar. Da mesma forma, ele, um rapaz de campo sem instrução, redigiu um tratado sobre as "Sagradas Escrituras," que continha verdades que eram inteiramente novas. Não apenas o conteúdo, mas também a fraseologia desses escritos eram tais que o menino jamais poderia tê-lo criado a partir da sua imaginação. Redigiu tratados em prosa sobre os seguintes temas: "A Espiritualização da Alma," "A Misericórdia de Deus," "O que tem o teu Redentor feito por ti?" "Primavera, Verão, Outono e Inverno," "A Colheita," "A noite," "Rogai ao Senhor," "A Escritura Sagrada," "O Amor de uma Criança," e "A Morte de um Mortal."

Como o tema único de todos os seus escritos em prosa era as verdades de Deus, também eram os seus poemas: "O Chamado dos Heróis", "A Linguagem da Criação", "Salve e Hosana," "Nos Caminhos de Deus," "O Pastor de Deus e o Seu Rebanho," "O mais forte", e "Assim Trabalha o teu Criador." O desenvolvimento do seu irmão como um "médium de transe" levou mais tempo, e a aparência da condição física por que passava nessas ocasiões era muitas vezes alarmante. Eu fiquei feliz por ter sido advertido de antemão, pois caso contrário eu poderia não ter tido a coragem de persistir até ao fim. Quanto à mãe dos meninos, eu tinha-lhe pedido para ficar longe das reuniões, de momento.

Após o seu desenvolvimento ter sido concluído, ele passava para o chamado estado de transe, da mesma forma que eu tinha inicialmente observado no caso do médium de transe na cidade. O primeiro espírito que falou através dele inicialmente chegou com a saudação: "Gott mit uns!" (Deus esteja connosco), jurando que era um dos bons espíritos de Deus e revelou o seu nome.

Por intermédio deste espírito, recebi uma fartura de instrução e de ensinamentos, todos dos quais estava em harmonia com o que eu tinha aprendido a partir do médium de inspiração da minha própria paróquia e, em especial, a partir do médium da cidade.

Neste contexto, havia duas coisas que me surpreendiam: em primeiro lugar, pude detectar uma diferença de categoria entre o espírito que falava através do médium da minha paróquia e o espírito usado pelo médium da cidade, por diversas vezes, quando eu lhe colocava algumas questões muito importantes do anterior espírito, ele se recusava-se a responder, com a observação: "Eu não estou autorizado a responder a essa questão. Pergunta-lhe a ele!”

Com "ele," ele referia-se ao espírito que falara por intermédio do médio na cidade. Sempre que ele pronunciou a palavra "ele," em referência a esse espírito, o médium baixava a cabeça em sinal de reverência. A primeira vez que ele se referiu a esse espírito, eu perguntou ao espírito que se encontrava diante de mim se ele conhecia o outro. "Eu conheço-o," foi a resposta que deu, mais uma vez pronunciada com uma profundo gesto de reverência.

No começo eu não conseguia entender por que o espírito que falava através do menino agricultor não deveria ser autorizado a responder a perguntas tão livremente quanto aquele para quem o menino na cidade agia como médium, e um dia eu perguntei a este último espírito a razão disso. Ele me informou que os costumes do mundo espiritual eram semelhantes àqueles da Terra na medida em que, quando um mensageiro é enviado numa incumbência definida, espera-se que ele transmita apenas a mensagem confiada a ele e nada mais.

Assim, estando ele próprio devidamente autorizado por Deus, ele tinha o direito de responder a qualquer pergunta da minha parte se ele considerasse tal resposta necessária ou útil, mas ao espírito que falava através do menino na minha paróquia, acrescentou, não era permitida tal amplitude, estava obrigado a remeter-me ao seu superior com relação a quaisquer perguntas que, na sua qualidade de subordinado, não tinha permissão para responder por si mesmo.

A outra diferença que eu notei foi que era sempre um e o mesmo espírito que falava através do menino na cidade, ao passo que vários espíritos diferentes falavam por meio do médium da minha paróquia, embora o maior deles continuasse a ser o líder. Ele sempre vinha até nós com a saudação "Gott mit uns! " e era reconhecido pela sua voz suave e o seu discurso. Também era sempre o primeiro a falar nas reuniões realizadas na minha paróquia.

Um dia perguntei-lhe como acontecia que apenas um espírito iria falasse por intermédio do médium da cidade, enquanto o médium que ele empregava também servia diversos outros espíritos. A resposta foi a seguinte: "Uma tarefa definida tinha sido atribuída ao outro espírito, e para tal finalidade o médium da cidade foi nomeado para seu uso exclusivo. Por tal razão, nenhum outro ser espiritual podia entrar nesse médium. Por outro lado, o médium por meio de quem falo, embora tenha sido desenvolvido para meu uso, pode, pela vontade de Deus, ser empregado por outros espíritos, bons e maus, elevados e baixos, à mesma. Dessa forma estás autorizado a familiarizar-te com os diferentes tipos de espíritos e a aprender com o que dizem e as acções que praticam, acerca do estado em que se encontram no Além.

Acima de tudo, vais aprender alguma coisa sobre o caminho que os espíritos inferiores precisam seguir a fim de atingir a perfeição. É da maior importância que reúnas tal conhecimento pessoal do mundo espiritual por meio das suas manifestações através de médiuns, pois assim aprenderás muito mais sobre o assunto do que você poderias por qualquer volume de instrução oral. No entanto, quaisquer espíritos que possam manifestar-se através deste médium aqui não virão nem partirão como querem. Eles estão sujeitos a um espírito controlador nomeado para determinar que espíritos podem entrar no médium e quanto tempo eles podem permanecer nele. Tal controlador existe no caso de todos os médiuns que servem de instrumentos do bem, e o mesmo é verdade para todas as sessões em que se realize qualquer comunicação com os espíritos pela forma desejada por Deus. Na ausência de tal controlador, nada verdadeiramente bom ou bonito pode ser realizado, por os bons espíritos e os espíritos elevados não aparecerem. Eles vêm apenas àqueles lugares em que tudo é feito conforme dirigido por Deus, e em que um dos Seus Espíritos mantém a ordem. Na maioria dos encontros espíritas de hoje esse controlador encontra-se em falta, e em resultado eles se tornam numa recreação do mundo espiritual inferior.

"Durante as primeiras fases dir-te-ei de antemão que espíritos deverão entrar no médium e que conduta deves adoptar em relação a eles. Mais tarde serás capaz de distinguir entre eles por ti próprio, e irás saber o que fazer em cada caso individual." Isso foi precisamente o que aconteceu. Um grande número de espíritos fez uso do "médium de transe" da minha freguesia. Entre eles encontravam-se os espíritos elevados, que entravam dando louvores e elogios a Deus, nos ensinavam assuntos de grande importância, e partiam depois de nos conceder bênçãos a bênção de Deus. Havia também espíritos submetidos a um enorme sofrimento, que muitas vezes imploravam pela nossa ajuda com palavras comoventes, e nos suplicavam que rezássemos por eles.

Às vezes eles falaram numa língua qualquer estrangeira e, achando que não podíamos entendê-los, retiravam-se desconsolados. Além disso, havia espíritos inferiores, que se amaldiçoavam e ao seu destino, injuriando-nos e zombando de tudo que fosse elevado e sagrado no termos mais imoderados. Quando os exortava-mos a juntar-se a nós em oração a Deus, eles recusavam-se com expressões de desprezo ou de ódio. Se insistíssemos que proferissem o nome de Deus, eles imediatamente abandonavam o médium.

Muito numerosos, de facto, eram os espíritos que não percebiam de todo que haviam sido separados dos seus corpos terrestres pela morte. Eles acreditaram que ainda estavam na Terra envolvidos nas ocupações que tinham seguido em vida. Estes eram os chamados "espíritos ligados à terra."

As experiências mais terríveis por que passamos foram aqueles com os espíritos dos criminosos. Eles viam-se constantemente a assombrar a cena do crime e uma e outra vez testemunhavam o que tinha ocorrido durante o que tinham perpetrado, como um filme que se repete uma e outra vez. Os espíritos dos assassinos encontravam-se sempre envolvidos nos planos e na execução dos assassinatos em todos os seus detalhes e descreviam os pensamentos e sentimentos que tinham durante essas horas terríveis, por palavras que nos faziam estremecer. Eles viam as vítimas a olhá-los fixamente com um olhar que levava ao desespero. Um destino semelhante tinham os espíritos dos usurários e de outros malfeitores que tinham levado os seus semelhantes à carência e à infelicidade.

Para onde quer que eles se pudessem virar, eles eram confrontados com as figuras das suas vítimas. O espírito dos suicidas reexperimentavam incessantemente as sensações, as explosões de desespero e os eventos que tinham assistido ao seu suicídio. Nenhum actor na Terra poderia desempenhar o seu papel de forma tão realista quanto a forma como esses espíritos descreviam a experiência dos momentos mais difíceis das suas vidas por meio dos órgãos destes médiuns, que eram completamente inexperientes, não possuíam instrução e eram inocentes em tais questões. Muitas vezes o que vimos e ouvimos foi o suficiente para nos deixar a tremer.

Vez por outra éramos visitados pelos chamados "espíritos zombeteiros," que nos tentavam divertir com as suas partidas e mentiras. Como não mostrássemos qualquer desejo pela sua companhia, eles viam-se obrigados a sair tão rapidamente quanto tinham surgido.
O aparecimento desses diferentes tipos de espíritos e os incidentes a eles ligados eram de extrema importância.

Os espíritos elevados trouxeram-nos valiosa instrução e por vezes sérias advertências e repreensões, e assim não raro um ou outro dos participantes caia num pranto. Mais de uma vez os pensamentos mais secretos de alguém presente eram descobertos, embora isso sempre fosse feito de tal forma a não humilhar a pessoa aos olhos do resto. É, de facto, característica do bom mundo do espírito sempre administrar a sua censura e reprovação de tal forma que nunca chega a magoar, e sempre faz acompanha as suas advertências e repreensões com expressões de consolo, encorajamento e amor. Os “bom caniço” não quebrará, (NT: Alusão a Isaías 42:3 Os bons espíritos não quebrarão a cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega; com verdade trará justiça) nem extinguem a centelha que brilha, mas com mãos suaves ata as feridas nos corações daqueles entregues aos seus cuidados.

Por regra, não repetem muitas vezes os seus avisos ou conselhos relativos às mesmas questões. Se nenhuma atenção é dada às suas palavras, eles poderão, talvez, lembrá-las uma ou duas vezes, mas não mais, ou então, apenas em casos raros. Mas se alguém se empenhasse diligentemente por seguir os seus conselhos ou para obedecer aos avisos, eles voltavam ao assunto uma e outra vez a ajudar com os seus conselhos carinhosos e encorajamento, até que esse alguém tivesse alcançado o seu objetivo. Sempre que o mortal mostra genuína boa vontade, o seu amor e misericórdia não conhecem limites, nem mesmo naqueles casos em que a fragilidade humana o leva a tropeçar repetidamente. Se, no entanto, alguém nem sequer tentar fazer como um desses mensageiros de Deus ordenar e depois pedir orientação noutro assunto, geralmente ser-lhe-á dito: "Por que não me consultas quando fizeres o que te digo?"

O aparecimento até mesmo dos mais baixos espíritos foi ainda mais instrutivo. Eu nunca esquecerei a noite em que o médium de transe foi visitado numa rápida sucessão pelos espíritos de três suicidas, o que nos forneceu a mais terrível visão que se pode testemunhar nesse campo. Quando o último desses espíritos se tinha retirado do médium e enquanto ainda estávamos sentados lá a tremer, o espírito-guia - também conhecido como "o líder" - entrou e dirigiu-se-nos nas seguintes palavras:

"Há uma razão profunda para lhes terem sido mostradas as horríveis coisas que viram esta noite. Em primeiro lugar vocês testemunharam o tipo de "descanso" espera algumas pessoas após a morte. Vocês muitas vezes dizem quando se encontram numa sepultura: " Por fim ele encontra-se em repouso.' Hoje à noite vocês viram algo desse "descanso."

Vocês não podem nem fazer ideia do que esses espíritos infelizes têm que sofrer antes que possam ser levados a compreender a condição em que se encontram e a voltar-se para Deus. Vós não fostes autorizados a esclarecê-los.

Até agora eles não mereceram isso. Eles precisam continuar a sofrer até o seu sofrimento
os capacitar a receber tal esclarecimento. Hoje, tal esclarecimento teria sido em vão. Mas havia também uma outra razão pela qual a sua condição lhes foi mostrada."

Com isso, o espírito ergueu o tom de voz e disse solenemente: "Um de vocês tem vindo a abrigar pensamentos suicidas hoje, e estava prestes a se preparar para cometer o acto."
Ao ouvir estas palavras, um membro do nosso círculo soltou um brado de surpresa e exclamou: "Fui eu, oh Deus, fui eu!"

"Sim, foste tu," respondeu o espírito num tom suave de voz. "Tu esperavas escapar de um fardo que suportaste durante anos, matando-te a ti próprio e assim encontrar descanso. Hoje viste que tipo de "descanso" terias encontrado. Agora, tenho a certeza de que vais ficar curado de vez de tais pensamentos. Por isso, esta noite foi de um grande benefício para ti."

Eu prestei especial atenção à forma como as coisas ditas ou previstas pelos médiuns foram facto ou se tornaram realidade, porque se pudéssemos verificar as afirmações suscetíveis de prova, não teríamos razão para duvidar da verdade daquelas que não eram.
Das muitas afirmações que os espíritos fizeram que eu tenha verificado, vou citar algumas que devem convencer qualquer pessoa sem preconceitos.

1. Uma caminhada com um médium através pela minha igreja paroquial. Um dia, o médium da cidade veio ver-me à minha casa paroquial. Estávamos sentados juntos no meu escritório, a falar de assuntos casuais, quando a minha governanta, que estava a trabalhar na cozinha, começou a entrar espaçadamente no aposento. Durante uma das suas ausências, o menino de repente caiu num transe, e o espírito dirigiu-se a mim nas seguintes palavras: "A tua governanta acaba de sair para se ocupar do jardim. Quero fazer uso desta oportunidade para falar contigo. Por favor, mostre-ma a vossa Igreja."

O facto de a minha empregada ter ido para o jardim não poderia ter sido do meu conhecimento nem ter cabimento nas capacidades humanas do menino, para a jardim se situar atrás da reitoria e poder ser alcançado unicamente a partir da cozinha apenas passando pelo corredor de trás, a partir do qual uma porta dava acesso a ele. Ambos encontrávamo-nos sentados num aposento no lado oposto da casa e não podíamos ver nem ouvir o que estava a acontecer na cozinha ou no jardim.
Em resposta ao pedido que me fez para lhe mostrar a igreja, ergui-me; o menino, ainda em transe e com os olhos fechados, seguiu-me com passos pesados. A igreja situava-se junto à reitoria e era acessível a partir dela, sem atravessar a rua. A igreja poderia ser acedida por uma porta lateral do meu Jardim da frente. Quando fiz isso, o espírito disse-me: "Vejo que o altar está situado directamente por cima de um esqueleto humano que se encontra enterrada no solo, e existem outros esqueletos enterrados sob a nave principal. Certa vez existiu aqui um cemitério."

Eu respondi que não nada sabia sobre isso. Eu também não achava que fosse possível, por a Igreja estar situada sobre uma pequena colina, e não haver espaço em torno dela para cemitérios. "Pergunta aos moradores mais antigos," respondeu ele, "eles podem ser capazes de dizer-te algo acerca disso." Então ele voltou os olhos fechados para a galeria do órgão e disse: "Sabes que eu raramente dou conselhos sobre questões puramente materiais, mas hoje eu devo abrir uma exceção. Vocês compraram um órgão. Diz ao organista que depois de acabar de tocar, deve sempre fechar os tampões que ficarem por fechar, o que possibilita que o pó e a humidade penetrem nos tubos. Com o tempo, isso poderá afectar a pureza do tom. Falo disto porque a boa música, a música pura, contribuir para a beleza de um serviço divino, e assim, para a glória de Deus."

A consola do órgão estava trancada, de modo que nem as chaves nem os tampões poderiam ser vistos, mesmo que nos encontrássemos parados bem diante do instrumento e certamente não o eram de onde estávamos de pé junto do altar. A essa distância não poderíamos ter visto nada, mesmo que o órgão estivesse aberto. A chave dele estava pendurada num armário na sacristia. A seguir, fomos a um dos altares laterais. O retábulo descrevia a morte de José, com Jesus e Maria em pé ao lado da cama.
"Este quadro não é fiel à verdade," disse ele. "Jesus não se encontrava presente quando José morreu." Tínhamos agora passado diversas imagens mostrando as imagens da Via Sacra.
Quando chegamos a uma que representava Verónica a receber de volta o seu lenço, no qual aparecia a imagem do rosto ensanguentado de Jesus, perguntei-lhe se isso realmente tinha acontecido ou se foi apenas uma lenda. "Foi verdade e não lenda," foi a resposta que me deu
Diante da imagem da crucificação, o espírito de repente perguntou-me: "O que achas que causou maior agonia a Cristo?"
"Ser pregado na cruz," respondi eu.

"Não," respondeu o espírito," não foi ser pregado na cruz, mas a sede. O pregos foram pregados nas mãos e nos pés pela brutalidade dos verdugos assistentes com alguns golpes rápidos, causando uma dormência que não foi excessivamente dolorosa, tal como ocorre na guerra, quando muitos dos vossos feridos no primeiro instante não sentem as feridas das balas ou dos estilhaços das granadas, mesmo as mais graves. O pior é a sede que segue a perda de sangue, como os vossos feridos descobriram. Ela pode deixá-los loucos. Nenhuma dor corporal se pode comparar à agonia da morte pela sede."

À medida que caminhávamos chegamos a uma capela lateral em que havia uma antiga escultura de madeira de Maria, que séculos atrás tinha estado num convento situado nas proximidades cujas ruínas ainda podiam ser vistas por perto.
"Esta talha," disse o espírito, "tem sido procurada pelos espíritos em sofrimento obrigados a permanecer perto do convento em ruínas que se encontra no vale abaixo."
Com espanto, perguntei: "Por que é que esses espíritos não foram capazes, durante todo esse tempo, de encontrar esta talha de Maria, quando é tão fácil encontrá-la aqui? E, além disso, que bem isso lhes poderia fazer?"

"Não entendes? Então eu vou-to explicar. Espíritos que são punidos pelos seus delitos ao serem restringidos a um determinado local não podem ultrapassar os limites estabelecidos para eles. Por essa razão os espíritos vinculados a esse vale perto das ruínas do convento não podem vir tão longe quanto a esta igreja. Eles podem procurar a escultura de Maria apenas dentro de sua área restrita, mas eles não a conseguem encontrar lá. Quanto ao bem que o acto de a encontrar lhes trouxesse, é verdade que a própria escultura não pode ajudá-los, mas foi algo ligado à escultura que anteriormente lhes trouxe alívio.

"Enquanto a escultura ainda estava no convento, muitas pessoas foram orar diante dela. Nessas ocasiões, foram igualmente feitas orações pelas "pobres almas," como vocês chamam aos espíritos sofredores. Tais orações não podem, na verdade, diminuir a culpa dos espíritos ou reduzir a sua punição, mas eles escutam as orações, e os seus pensamentos são, assim, voltados para Deus. Isto alivia-lhes a agonia. Desde que a escultura foi tirada do convento, ninguém lá vai mais rezar, e os espíritos sentem a falta do alívio que as orações lhes traziam. Eles sabem que elas estavam associadas à presença da imagem de Maria, e assim estão ansiosos por recuperá-la."

Por esta altura, tínhamos chegado à escada que levava à galeria do órgão. Eu estava curioso com respeito às tampas que não tinham sido empurradas de volta para o seu lugar, mas de momento a minha mente estava ocupada com uma outra ideia. Eu queria saber se este espírito poderia tocar o órgão; que o menino não podia, eu sabia de facto. Eu tinha apenas uma dúvida: será que o espírito terá controlo suficiente sobre o corpo de menino para mover as mãos e os pés tão rapidamente quanto é requerido para se tocar o órgão? Foi com alguma hesitação, portanto, que lhe pedi para tocar.

"Com prazer," respondeu o espírito," se isso te trouxer prazer." Corri de volta para a sacristia me busca da chave do órgão, e subimos as escadas que levavam à galeria do órgão. Desbloqueando o teclado, olhei de imediato para as tampas; com efeito, três delas estavam meio fora. O espírito reiterou a prescrição de fazer notar isso ao organista. O menino sentou-se no órgão, tirou as tampas e começou a tocar, primeiro suave e delicadamente, por acordes harmoniosos e melodiosos. Em seguida, um pouco mais alto - quanto mais ele tocava, mais alto e intensificadas se tornavam as notas.

No clímax, o órgão sofreu um aumento e trovejou e rugiu com todas as tampas abertas, como um furacão que puxa as árvores pelas raízes. Então, lentamente, a música diminuiu de intensidade até que pareceu morrer em sons maravilhosamente suaves e pacíficos. Não poderia restar qualquer dúvida: sentado ao órgão encontrava-se um mestre organista.
Quando terminou de tocar, ele empurrou todas as tampas de volta para o lugar e ergueu-se do assento. Eu tranquei o órgão novamente. Andando à minha frente, ele perguntou: "Sabes o que foi que eu toquei?"
"Não," respondi.

"Aquilo foi a tua vida," disse o espírito calmamente.
Olhei para ele com espanto, por não conseguir imaginar que a vida de uma pessoa pudesse ser tocada num instrumento musical. Como se me lesse meus pensamentos, ele instruiu-me da seguinte maneira: "A vida de uma pessoa é como uma pintura; ela pode ser pintada em cores assim como por notas musicais. Cada cor representa uma nota, e cada nota uma cor. Há clarividentes que vêem todos os tons nas suas cores, e que não distinguem a harmonia da dissonância de ouvido, mas olhando para as cores dos tons. Por conseguinte, é possível, pelo menos para os espíritos, reproduzir cada pintura por som, como se alguém estivesse tocar a partir de uma pauta de música."

Eu era incapaz de compreender essa explicação. O pensamento era demasiado novo para mim. Silenciosamente descemos a escada para a nave da igreja e fomos até à porta pela qual tínhamos entrado. Aqui, o meu companheiro parou e disse:
"Agora tenho de te deixar. Eu não posso ir contigo até à reitoria por a tua governanta estar a ponto de deixar o jardim e ir para casa, e eu não quero que ela veja o menino em transe. Vou agora ficar junto da parede; tu suporta o corpo do menino, para que ele não caia quando eu me afastar dele."

Eu fiz como me foi ordenado e descobri que era necessário toda a minha força para impedir que o garoto de cair para a frente quando o espírito o deixou. Ele imediatamente recuperou as suas faculdades e ficou bastante surpreendido por se encontrar na igreja comigo, ao se lembrar apenas que se tinha sentado comigo na reitoria. Do que tinha acontecido entretanto, ele nada sabia. Quando eu lhe disse que ele tinha tocado tão bem o órgão, ele sacudiu a cabeça, incrédulo.

No instante em que abriu a porta da reitoria a minha empregada deu passou do jardim para a parte traseira do corredor. Não tivesse o espírito deixado a menino quando o fez e ela não poderia ter deixado de ver o menino no seu estado transe.

Mais tarde, quando falei com o menino sobre os eventos que ocorreram, ele negou qualquer conhecimento de esqueletos, tampas de órgãos, a morte de Joseph, lenço de Verónica, a agonia da crucificação, a imagem de Maria e a sua história, os espíritos restringidos às vizinhanças das ruínas do convento e o efeito da oração sobre eles, ou do recital de órgão e o que me tinha sido dito nessa ocasião.
Nessa mesma noite eu fiquei a saber por inquérito que o local agora ocupado pela igreja tinha há muito tempo sido realmente um cemitério.

2. Um membro de uma ordem monástica frequenta reuniões espíritas. Uma mensagem, entregue certa noite através do menino do fazendeiro da minha paróquia enquanto médium de transe, pareceu-nos muito improvável. Fazia valer que um monge do mosteiro Beneditino vizinho estava a participar em " sessões espíritas," realizadas numa cidade não muito distante. Nós mal podíamos acreditar que um monge, vestindo o hábito da sua ordem, ia participar numa reunião espírita, dada a forte oposição que a Igreja Católica movia ao espiritualismo. Não tínhamos qualquer maneira de verificar essa comunicação, mas a sua exatidão iria logo ser demonstrada através de um canal imprevisto.

Eu tinha sido delatado às minhas autoridades eclesiásticas como um frequentador de reuniões espíritas, e uma comissão foi enviada para me questionar sobre o assunto. A audiência devia realizar-se no mosteiro Beneditino em questão, e foi-me ordenado que comparecesse lá.

Na audiência eu admiti francamente ter assistido a reuniões espíritas e ter instituído na minha paróquia. Foi-me recordado que todos os Católicos tinham sido proibidos de participar de quaisquer reuniões dessas por uma ordem emitida por Roma. Eu reclamei que não tinha ouvido nada sobre tal proibição, mas que, se os factos fossem conforme alegados, eu não conseguia entender por que um padre desse mesmo mosteiro também devia assistir a reuniões desse tipo. Eu disse isso, não para me defender, mas apenas para apurar dessa forma se seria realmente verdade que um padre desse mosteiro ia assistir a reuniões espíritas, conforme o médium tinha afirmado.

O chefe da comissão de investigação indignado negou a verdade da minha afirmação de que um padre do mosteiro estivesse a participar em reuniões espíritas e enfaticamente afirmou que isso era impossível. Só o seu hábito o impediria disso. Ele acrescentou que devia, portanto, rejeitar minha afirmação como altamente caluniosa.

Eu respondi calmamente que eu não tinha suscitado o assunto para criar problemas ao monge do mosteiro, mas que eu tinha ouvido isso de uma certa fonte e que adoptava essa forma para verificar a veracidade da história. Devesse a minha declaração provar-se falsa, e eu procuraria que meu o informante tivesse uma correcção.
O chefe da comissão de inquérito, em seguida, interrompeu aminha audição e foi, presumo, ver o abade do mosteiro. Depois de uma curta ausência, ele voltou com uma expressão constrangida, e admitiu que eu estava certo. Em sua defesa, acrescentou que o monge em questão havia recebido permissão do abade para frequentar reuniões espíritas. A verdade do que o médium me tinha dito estava assim estabelecida.

3. No decurso dos processos instaurados contra mim recebi confirmação após confirmação dos relatórios e previsões feitas pelos médiuns sobre as minhas questões.
Certo dia eu fui convocado para comparecer perante o bispo. Mal a sua carta me chegou às mãos, quando o menino fazendeiro da minha paróquia, o médium de transe, veio à minha casa paroquial e disse: "Eu fui obrigado a vir vê-lo. Você recebeu uma carta do seu superior episcopal, ordenando que comparecesse perante ele…"

Perguntei ao menino quantas linhas tinha a carta; até mesmo isso ele sabia com exactidão. Então ele passou para o estado de transe, e o espírito que falava por encorajou-me com as seguintes palavras: "Não precisas ter medo. Confia em Deus e não tenhas medo! Que te poderão as pessoas fazer?"
Eu respondi que eu pretendia admitir diante do bispo as convicções que tinha adquirido em resultado das comunicações que tinha tido com o mundo espiritual, e que esperava perder a minha posição como ministro do Igreja Católica em consequência.

"O bispo não irá fazer-te qualquer pergunta sobre o espiritualismo, ou sobre qualquer convicção que dele possas ter colhido," disse o espírito. "Em algum momento futuro, ser-te-á concedida a saída. A separação da tua paróquia ocorrerá em paz entre ti e a tua igreja, e não por meio de demissão."

Eu mal conseguia imaginar que o bispo deixaria de me interrogar sobre os encontros espíritas e as verdades aí reveladas, mas aconteceu exactamente como o médium previra. O bispo leu-me o édito emitido pelo Congregação de Roma em 1917, em que afirmava que os Católicos não estavam autorizados a assistir a reuniões espíritas, fez-me assinar um papel a reconhecer que tinha trazido a sansão ao meu conhecimento, e impôs-me uma penitência pelas violações que eu cometera em relação à proibição. Mas do espiritualismo propriamente ele não disse nem uma palavra.

Um pouco mais tarde eu tive a experiência dolorosa de ver uma certa previsão, que tinha sido comunicada pelo médium da cidade, tornar-se realidade. Tinha-me sido dito numa sessão que um membro do círculo naquela cidade ia-me trair. Não acreditamos que houvesse entre nós alguém capaz de tal traição, no entanto, o que parecia impossível aconteceu: uma mulher do nosso círculo denunciou-me às autoridades episcopais pela minha contínua participação em sessões espíritas.

Isso pareceu tornar a minha demissão uma conclusão precipitada. Eu tinha, conforme aconteceu, solicitado uma licença que me permitisse dedicar-me ao trabalho de caridade, mas o vicariato episcopal havia rejeitado o meu pedido tão bruscamente que humanamente falando parecia não restar nenhuma esperança de o ver concedido. O caso contra mim nos tribunais eclesiásticos seguiu o seu curso, e foi marcada uma data para a audiência principal, para a qual recebi uma intimação. Faltavam alguns dias para essa audiência, que resultaria, eu tinha certeza, na minha demissão. No entanto, eu ainda tinha fé na previsão que me tinha sido feita, de que eu deveria ser autorizado a deixar a minha paróquia em paz para com a minha igreja, por meio da concessão de uma licença. Então, à última da hora, eu recebi um telegrama do conselho eclesiástico a notificar-me que o processo contra mim tinha sido abandonado por enquanto, por directiva do bispo. Pouco depois ele escreveu-me, a conceder-me uma licença de ausência e quando e a perguntar-me quando eu gostaria de deixar a minha paróquia. Eu respondi, dando-lhe uma data, Dezembro 31, 1925, o dia em que tinha antes sido previsto como aquele em a ligação que tinha com a minha paróquia terminaria.


(continua)
Traduzido por Amadeu António


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