terça-feira, 24 de janeiro de 2017

QUERIDO RAYMOND - Sir Oliver Lodge



Excertos da história de Sir Oliver Lodge, da vida depois da morte e da espiritualidade após a II Grande Guerra.

Da Introdução



Esta obra leva o nome do meu filho morto na guerra. Jamais ocultei minha crença de que a personalidade não só persiste, como ainda continua mais entrosada ao nosso viver diário do que geralmente o supomos; de que não há nenhuma solução de continuidade entre os vivos e os mortos; e de que existem processos de intercomunicação bastante efetivos quando o afeto intervém. Como disse Sócrates a Diotima, “o amor vence o abismo” (Symposium, 202 e 203).

Mas não é somente a afeição que controla e fortalece o intercâmbio supranormal: o interesse científico e o zelo do missionário também se revelam eficazes; e foi sobretudo graças a esforços desse gênero que eu e outros gradualmente nos convencemos, através de experiências diretas, dum fato que de há muito se tornou evidente para o gênero humano.

Até aqui vim sendo testemunha de ocorrências e mensagens de caráter mais intelectual do que sentimental; e embora muito dessa evidência permaneça inacessível ao público, parte, entretanto, aparece de tempos em tempos nos Proceedings of Society for Psychical Research e na minha coleção intitulada A Sobrevivência do Homem. Ninguém, portanto, se surpreenderá se agora surjo testemunhando comunicações que me sobrevieram dum modo especial – comunicações de que o sentimento não está excluído, conquanto apareçam como guiadas e dirigidas por um propósito inteligente, interessado em reunir provas. É a razão que me induziu a publicar este livro.

Mensagens inteligíveis e de caráter um tanto misterioso – de “Myers” – chegaram ao meu conhecimento uma semana ou duas antes da morte de meu filho; e quase todas as recebidas depois de sua morte diferem em caráter das que anteriormente recebi por intermédio de vários médiuns. Até essa época nenhuma criatura se me apresentara ansiosa de comunicação; e embora surgissem amigos promotores de mensagens, eram mensagens de gente da velha geração, diretores da Society for Psychical Research e antigos
conhecimentos meus. Já agora, entretanto, sempre que eu ou alguém da minha família recorremos anonimamente a um médium, a mesma criatura se apresenta, sempre ansiosa de dar provas da sua identidade e sobrevivência.

E tenho que o conseguiu. O cepticismo da família, que nos primeiros meses foi muito forte, acabou vencido pelos fatos. Ignoro em que extensão esses fatos possam ser compreendidos por estranhos. Mas reclamo uma atenção paciente; e se incido em erros, já no que incluo, já no que omito, ou se minhas notas e comentários carecem de clareza, aos leitores peço, em todas as hipóteses, uma interpretação amiga: porque em matéria tão pessoal não ignoro que fico exposto à crueldade e ao cinismo da crítica.

Poderão alegar: por que motivo atribuir tanta importância a um caso individual? Na realidade não lhe atribuí nenhuma importância especial; mas acontece que cada caso individual é de interesse, porque tem plena aplicação nesta matéria a máxima Ex uno disce omnes. Se posso estabelecer a sobrevivência de um só indivíduo, ipso facto tê-la-ei estabelecido para todos.

Eu já tinha a sobrevivência como provada, graças aos esforços de Myers e de outros da Society; mas nunca são demais as provas, e a discussão de um novo caso não enfraquece a evidência já conseguida. Cada vara do feixe deve ser testada, e, a não ser que defeituosa, aumenta a força do feixe.
Basear tão importante conclusão, como seja a prova científica da sobrevivência humana, num fato apenas, sem o apoio lateral de grande número de casos similares, não seria judicioso; porque uma explicação diferente desse caso único poderia surgir. Mas plenamente se justificam o exame da força probante de cada caso cujos detalhes sejam bem conhecidos e a dedução, do modo mais completo e leal possível, da verdade que por ventura nele se contenha.
Extratos de algumas sessões
Foi a 17 de setembro que tivemos notícia da morte de Raymond; a 25 desse mês sua mãe, Lady Lodge, que estava em sessão com Mrs. Leonard, por esse tempo ainda não nossa conhecida, recebeu a seguinte comunicação por intermédio da mesinha, aparentemente vinda de Raymond:

– “Diga a papai que encontrei alguns amigos seus aqui.”
Mrs. Lodge – Pode dar algum nome?
O comunicante – Sim. Myers.
(Foi só o que a respeito ocorreu nessa sessão).
A 27 de setembro fui a Londres e tive, entre meio dia e uma hora, minha primeira sessão com Mrs. Leonard. Entrei em seu apartamento sozinho, como um estranho para o qual um encontro fora anonimamente marcado. Antes de começarmos, Mrs. Leonard informou-se que o seu “guia” era uma jovem de nome “Feda”.

Logo depois que a médium caiu em transe, um moço foi descrito em termos que claramente lembravam Raymond, e “Feda” transmitiu mensagens. O “Paul” nelas referido é o filho morto do casal Kennedy, a quem seus pais pediram que ajudasse a Raymond, caso pudesse. Paul já por diversas vezes comunicara-se com sua mãe por intermédio de Feda. Do relato dessa sessão cito o seguinte:
Feda – Há alguém aqui ainda em dificuldades; não plenamente refeito; aspecto juvenil; de forma como um lineamento; ainda não aprendeu como equilibrar-se.

É um moço de altura um tanto acima da mediana; bem construído, nada espesso ou pesado; bem construído. Mantém-se bem. Não está aqui de muito tempo. Cabelo entre cores. Não me é fácil descrevê-lo, porque ainda não se construiu solidamente como outros o fazem. Tem olhos pardos; cabelos castanhos e curtos; cabeça bem modelada; sobrancelhas também castanhas, não muito arqueadas; nariz bem feito, reto, um pouco mais largo nas narinas; boca bem desenhada e grande, mas não parece grande porque ele traz os lábios apertados; mento não muito forte; rosto oval. Não está ainda completamente construído, mas é como se Feda o conhecesse. Deve estar aqui à vossa espera. Neste momento olha para Feda e sorri; dá uma larga risada como que brincando, e Paul ri também. Diz Paul que ele já esteve aqui, que ele, Paul, o trouxe. Mas Feda vê centenas de pessoas que me dizem que este veio muito recentemente. Sim, já o vi antes. Feda liga a ele uma letra. A letra R.

Ela já veio ver-vos antes, e diz que pensou que sabíeis que ele estava aqui. Feda o apreende por impressão; não é sempre o que ele diz, mas o que ela sente; mas Feda diz que “ele sabe”, porque ela apanhou isso dele.
Ele acha-o difícil (diz), mas encontrou muitos amigos que o ajudam. Quando despertou não supôs que fosse ser feliz, mas sente-se feliz agora e diz que o vai ser mais ainda. Sabe que logo que esteja pronto terá muito trabalho a realizar.
“Eu queria saber, diz ele, se serei capaz de executá-lo. Dizem-me que serei”.
“Tenho comigo instrutores e professores”.

Agora está procurando construir uma letra de alguém. Mostrou-me um M.
Parece conhecer os trabalhos a fazer. O primeiro será cooperar no Front; não acudindo aos feridos, mas ajudando aos que a guerra faz passar. Sabe que quando eles passam e despertam, ainda sentem um certo medo e... outra palavra que Feda perdeu. Feda ouve qualquer coisa como “medo”. Muitos continuam lutando, ou pelo menos querem continuar; não acreditam que tenham passado. De modo que vários são requeridos onde ele agora está, para explicar a situação aos “passados” e ampará-los. Não sabem onde estão, nem para que estão aqui.
“Pensam que digo que sou feliz apenas para fazê-los felizes, mas não é assim”.[1][1]

Tenho encontrado centenas de amigos. Não os conheço a todos. Tenho encontrado muitos que me dizem isto e mais tarde me explicarão por que estão me ajudando. Tenho dois pais agora, mas não é como se houvesse perdido um e ganho outro. Tenho-os a ambos. O meu velho pai e outro – um pai pro tem. (Mais tarde “Myers” declarou que o havia “adotado”).

Um peso saiu da sua cabeça há um ou dois dias; sente-se mais vivo, mais leve, mais feliz ultimamente. Houve confusão a princípio. Ele estava desorientado, não sabia onde se encontrava. “Mas não demorou muito, e penso que fui afortunado; não demorou muito para que me explicassem onde estou”.
Feda sente como que uma risca em redor da cabeça dele; sente-lhe uma forte sensação na cabeça e também uma espécie de sensação vazia, como se algo houvesse saído. Uma sensação de vazio ali; também uma sensação quente na cabeça. Mas ele não sabe que está dando essa impressão. Não faz de propósito; eles têm procurado fazê-lo esquecer, mas Feda percebe. Há também nele um barulho, um terrível barulho que corre.

Ele agora perdeu tudo isto, mas não sabe que Feda o sente. “Estou ótimo, diz, sinto-me ótimo! Mas sofri no começo, porque queria tornar claro aos que deixei que tudo ia bem e que eles não deviam sofrer por minha causa”.
Acaba de retirar-se, mas Feda vê alguma coisa simbólica; vê uma cruz caindo sobre vós; muito escura, caindo sobre vós; escura e feia; e à medida que cai retorce-se e aparece toda luz, a luz brilha sobre vós. É uma espécie de azul pálido, mas fica completamente branco quando vos toca. Sim, é o que Feda vê. A cruz parecia escura, mas subitamente se retorceu e ficou uma bela luz. A cruz é um meio de esconder a luz real. Vai ajudar muito... Vosso filho é a cruz de luz, e vai ser uma luz que vos ajudará; vai ajudar-vos a provar a Verdade ao mundo. Por isso é que eles constroem a cruz escura que vira luz. Vós sabeis, mas outros também querem saber. Feda está desaparecendo. Adeu

~~~~~~~~~~~~~~~~

L.L. – Lembra-se duma sessão em casa, quando me disse que tinha muita coisa a transmitir?
F. – Sim. O que ele queria era dizer sobre o lugar em que se encontra. Mas não pôde soletrar; muito trabalhoso. E sentiu-se abatido no começo. Você não se sente tão real como a gente daqui, e as paredes agora, para ele, aparecem transparentes. A grande coisa que o fez reconciliar-se com o novo ambiente foi que tudo parece sólido e substancial. A primeira idéia que teve depois de despertar (diz ele) foi de “estar passando”. Um segundo ou dois com tudo em sombras, tudo vaporoso e vago. É como sentiu.
A primeira pessoa que o procurou cá foi o vovô. E depois outras; sobre algumas apenas ouvira falar. Todas pareceram-lhe tão sólidas que dificilmente podia admitir tivessem passado.
Eu vivo numa morada (diz ele) construída de tijolos – e há árvores e flores, e o chão é sólido. Se a gente ajoelhar-se na lama, aparentemente suja a roupa. O que ainda não compreendo é que a noite não siga o dia, como no plano terrestre. Parece algumas vezes ficar escuro, quando ele quer que seja escuro, mas o tempo entre a luz e a treva não é sempre o mesmo. Não sei se está achando isto maçante.
(Eu estava a pensar se meus lápis durariam. Tinha dois e já agarrara o segundo).
O que me preocupa, diz ele, é como a coisa é feita, como é composta. Não descobri ainda, mas já tenho uma teoria. Não é idéia original minha – foi formada com palavras colhidas aqui e ali.
Ele diz algo assim: Há qualquer coisa que está sempre subindo do plano da terra – qualquer coisa de forma química.
À medida que se ergue até nós, sofre várias mudanças e solidifica-se em nosso plano.
Ele sente que é qualquer coisa emanada da terra que faz as árvores e flores sólidas, etc.
Não sabe mais nada. Está estudando, mas leva tempo.
L.L. – Quero saber se ele pode entrar em contato com alguém na terra.
F. – Nem sempre. Só com os que querem vê-lo, e os que é bom que ele veja. então ele os vê, assim que pensa. Não deseja ver ninguém a não ser que trazidos a ele.
E diz: Informaram-me de que posso encontrar qualquer pessoa a qualquer momento – não há dificuldades. É o que faz isto aqui ser tão bom lugar de viver.
L.L. – Pode Raymond ajudar alguém aí?
F. – Isso é parte da sua tarefa, mas há outros que a estão realizando; a maior parte do seu trabalho se relaciona à guerra. Ele diz: Estive em casa, mas meu trabalho real é na guerra. Tenho algo a fazer com meu pai, embora meu trabalho seja na guerra, a ajudar os violentamente arremessados ao mundo do espírito.
L.L. – Pode predizer ou ver o que vem?
F. – Às vezes penso que sim, mas não é fácil. Não creio que eu hoje saiba mais do que quando na terra.
L.L. – Pode dizer alguma coisa sobre a guerra?
F. – Há melhores perspectivas. De todos os lados há mais coisas satisfatórias do que antes. Isto não é aparente no plano terrestre, mas eu me sinto mais satisfeito do que antes.
Não posso deixar de sentir-me intensamente interessado. Creio que perdemos a Grécia – e não estou certo se não foi por culpa nossa. Só agora fizemos o que devíamos fazer meses antes.
Não concordo no que diz respeito à Sérvia. O tê-la deixado tanto tempo só produziu mau efeito sobre a Rumânia. A Rumânia pensa que entrará no mesmo bote, se se juntar a nós.
Todos concordam que a Rússia andará direito durante o inverno. Vai mostrar o que pode fazer. Os russos acostumados ao seu terreno e ao inverno. Penso que alguma coisa está emergindo. Algumas das coisas triviais que me interessavam já as esqueci. Há mais coisas a preocupar-me cá. Compreendo às vezes a seriedade da guerra... É como observar uma interessantíssima corrida ou jogo, que gradualmente se desenvolva diante de nós. Estou trabalhando nela, o que é menos interessante do que observar.
L.L. – Tem alguma mensagem lá para casa?
F. – Saudades para minha mãe e todos, mas especialmente para minha mãe. H. está agindo muito bem.
[H. quer dizer sua irmã Honor].
L.L. – Em que sentido?
F. – Está ajudando dum modo psíquico; torna-me as coisas mais fáceis. Temos de separar o bom do mau e não procurar mais que uma forma – e não o jig, jig...
F. – Não gosto do jig, jig. Penso que posso operar na mesa. [Ver capítulo XV].
L.L. – Quer dizer-me de que modo poderei ajudar?
F. – Vá devagar, só deixe uma pessoa falar, como já disse. Pode ser H. ou L.L. Escolha uma pessoa para propor perguntas, porque diferentes sons de vozes confundem-me e misturam-me o pensamento. Não quero abandonar isso; gosto. Não experimente mais de duas vezes por semana; ou, melhor, uma. Procure levar o mesmo tempo sempre e, se possível, operar nos mesmos dias.
Apresente minhas saudades a todos. Diga-lhes que estou muito feliz. Muito, muito, e com muito trabalho a fazer, e intensamente interessado. No começo sofri do choque; mas sinto-me extremamente feliz agora. Estou livre.
Feda – Ele não disse até logo.
Uma mulher chegou: jovem, de meia altura, esguia, mas não magra; rosto oval; olhos azuis; cabelo castanho claro.
L.L. – Pode dar o nome? Pela descrição não consigo fazer idéia de ninguém.
F. – Ela constrói um L.
Quando estava na terra não se parecia com a minha descrição. Muito pequena foi a sua estadia na terra. Aparentada com você. Cresceu neste plano.
Oh, é sua irmã! É linda; não tão alta como você; belo rosto, olhos azuis.
L.L. – Sei o seu nome agora.
[Em outra sessão esta irmã de Raymond foi descrita].[2][2]
F. – Dê-lhe suas saudades aos de casa, mas sobretudo a minha mãe. E diga-lhe que ela e seu irmão (não Raymond) têm assistido às sessões caseiras.
L. traz lírios nas mãos; está cantando – zumbindo. Feda não percebe as palavras.
Afasta-se. A força está no fim.
L.L. – Minhas saudações a essa moça.
F. – Feda também envia as suas.
Raymond estava brincando, ao esconder o rosto a Feda. Até logo…

~~~~~~~~~~~~~~~~~~
              
Feda – Oh, é interessante, diz ele, muito mais do que no velho plano terrestre! Eu jamais quereria deixar você, minha mãe, e os outros; mas isto aqui é interessante. Eu só desejava que você viesse estar comigo por um dia.
Há ocasiões em que o senhor vai lá, mas não se lembra. Todos têm estado lá com ele, à noite, e o senhor também, mas ele pensa que será muito difícil lembrar-se disso. Se se lembrassem, diz ele (ele não sabe disso, mas foi informado que é assim), o cérebro não suportaria a carga da dupla existência e tornar-se-ia incapaz das obrigações diárias; por essa razão a memória conserva-se trancada. Foi a explicação que lhe deram.

Diz ele: Meu corpo é muito semelhante ao que eu tinha na terra. Belisco-me às vezes para verificar se é um corpo real, e vejo que é; mas o beliscão não dói como doeria no corpo de carne. Os órgãos internos não parecem constituídos nas mesmas linhas do corpo de carne. Não podem ser completamente os mesmos. Mas segundo todas as aparências externas, é o mesmo. Só que posso mover-me mais livremente.

Oh, há uma coisa que não vi ainda: sangrar.
Conheci um homem que tinha perdido o braço, mas adquiriu outro. Sim, conseguiu os dois braços agora. Logo que penetrou no astral parecia incompleto, sem um membro do corpo, mas foi ficando e está completo. Falo de pessoas que perderam membros do corpo há muitos anos.

Lodge – E sobre membros do corpo perdido nas batalhas?
Feda – Oh, isso não faz diferença, ficam perfeitos quando vêm para cá. Foi informado (ele não sabe por si mesmo, mas sim porque lhe disseram) de que quando alguém é reduzido a pedaços, o espírito-corpo leva tempo para completar-se, para unificar-se novamente. Dissipa-se uma certa soma de substância indubitavelmente etérica, a qual tem de concentrar-se de novo. O espírito está claro que não se despedaça, mas é afetado pelo despedaçamento do corpo. Ele não viu nada disso, mas como está interessado, indagou e soube.
Há homens e mulheres aqui. Não creio que se comportem em relação uns aos outros como na terra, mas parecem ter os mesmos sentimentos, embora expressáveis de maneira diversa. Não parece haver crianças nascidas cá. As criaturas são enviadas ao plano terrestre para terem filhos; não os têm neste. O sentimento de amor entre homens e mulheres parece comportar-se diferentemente de mãe e filho, de pai e filha.

Ele diz que agora não tem necessidade de comer. Mas vê pessoas que a têm; diz que a essas é dado alguma coisa com as aparências dos alimentos terrestres. As criaturas daqui procuram prover-se de tudo que é preciso. Um camarada chegou outro dia e quis um charuto. Julgou que eles jamais poderiam fornecer-lhe isso. Mas há aqui laboratórios que manufaturam todo tipo de coisas. Não como fazem na terra, com a matéria sólida, mas com essências, éteres, gases. Não é o mesmo que no plano terrestre, mas fizeram algo que parecia charuto. Ele (Raymond) não experimentou nenhum, porque não pensa nisso, o senhor sabe. Mas o camarada lançou-se ao charuto. Ao começar a fumá-lo, fartou-se logo; teve quatro, e agora não olha nem para um. Parece que não tiram mais nenhum gosto disso, e gradualmente vão largando.

Logo que chegam querem coisas. Alguns querem carne; outros bebidas fortes; pedem whisky com soda. Não pense que estou exagerando, quando digo que aqui podem manufaturar estas coisas. Ele ouviu falar de bêbados que por meses e anos querem beber, mas não viu nenhum. Os que tenho visto, diz ele, não querem mais beber – como aconteceu com sua roupa, que nas novas condições em que está ele, dispensa.

Lodge – Raymond, precisa dar-me algumas provas. Quais pensa que sejam as melhores? Já falou sobre isto com Myers, sobre o tipo de prova mais evidencial?
Feda – Não sei ainda. Sinto-me numa encruzilhada: dar provas objetivas, como simples materializações de voz direta, que você possa atestar; ou dar informações a respeito das minhas experiências aqui, algo como o que estou fazendo agora, por meio da mesa ou do que seja. Mas ignoro se poderei fazer conjuntamente as duas coisas.
Lodge – Ao mesmo tempo, provavelmente não. Mas pode dizer mais da sua vida aí.
Feda – Sim, e para isso estou colhendo informações. Quero animar as pessoas desse plano a encararem a vida em que terão de entrar e compreenderem que é uma vida racional. Tudo que venho dizendo, e disse a Lionel, você deve pôr em ordem, porque vou falando fragmentariamente. Preciso estudar as coisas daqui. Acha que seja egoísmo dizer que não tenho desejos de voltar à terra? Não abandonarei isto aqui por coisa nenhuma. Não me julgue egoísta, ou que quero manter-me separado de vocês todos. Se ainda o procuro, é porque o sinto muito perto, mais perto do que antes. Mas por coisa alguma que me pudesse ser dada eu voltaria.

(Feda) Dificilmente ele diria isso à sua mãe.
(Feda olha em redor) Alec está aí?
Lodge – Não, mas espero que virá.
Feda – Avise-o para não dizer quem é. Gostei muito da primeira vez que Lionel veio – pude conversar durante horas.
(Lodge consulta o relógio).
Pude conversar durante horas – não vá ainda!
(Feda) Ele diz que teve sorte quando “passou”, porque havia muitos para recebê-lo aqui. Isso aconteceu (veio ele a saber) pelo fato do senhor andar há muito tempo metido nestes assuntos. Ele quer que os leitores dos seus livros saibam que tudo se torna, para eles e seus amigos, muito mais fácil, se tiverem conhecimento disto antes do “passamento”, porque é horrível quando “passam” sem o saber, e levam semanas ignorando que “passaram”, supondo que é sonho, que estão sonhando. E às vezes não o percebem nunca.

Ele diz que quando despertou deste lado sentiu uma pequena depressão, que não durou muito. Correu os olhos em redor e acomodou-se. Foi como encontrar-se numa cidade estranha, num lugar estranho rodeado de pessoas que nunca tinha visto, ou não tinha visto de muito tempo. Vovô veio logo. E uma chamada Jane veio ter com ele, a qual se deu como sua tia. Jane – Jennie. Ele lhe chama tia; foi informado de que era a “Tia Jennie”. É ela a minha tia Jenny? pergunta ele.

Lodge – Não, mas sua mãe costumava tratá-la assim.
Feda – Ele trouxe outra vez aquele cachorro, lindo cachorro. Um cachorro que faz assim (Feda imita movimentos de cão). Conseguiu uma bela cauda, não um toquinho; uma cauda com belos pelos. Senta-se assim, às vezes, e deita-se, e põe a língua.

Tigres e leões ele não viu ainda; mas vê cavalos, cães, gatos e aves. Diz que o senhor conhece este cachorro. Que belo pelo! Ondulado. Está agora pulando por aqui. Não tem o focinho longo, mas não parece “pug-dog”. Ao contrário, é comprido. Orelhas caídas, peludas. Cor escura, parece-me.
Lodge – Que nome dá a ele?
Feda – “Ele, não”, diz Raymond. (a meia voz): Que significa com esse “ele, não”? É um “ele”, sim.
Não. Raymond não explica. Não dá nome. O cão salta.
(Tudo isto se refere a uma cachorra de nome Curly, cuja morte foi há alguns anos atrás especialmente mencionada por “Myers” através de outro médium – um incidente comunicado à S. P. R. As referências de Feda estão certas.
(Feda continuando): É surpreendente o número de pessoas que vêm apertar a mão e falar-me. Não as conheço desde Adão. Mas muito me honram aqui. Algumas são bastante finas. Não as conheço, mas todas parecem interessadas no senhor e dizem “Oh, é filho dele? Como passa?”
Feda começa a perder o controle.
Lodge – Bem, até logo, Raymond, e que Deus o abençoe.
Feda – Deus abençoe a você. Só quero que saiba que sou muito feliz. E abençoe a todos. Não sei dizer o que sinto, mas você pode adivinhar. Difícil pô-lo em palavras. Deus os abençoe a todos. Adeus, pai.
Lodge – Adeus, Raymond, adeus, Feda!
Feda dá uma sacudidela e repete “Adeus. Saudades à que lhe pertence e a Lionel. Feda sabe o seu nome, Soliver, sim.”
As sessões raramente apresentam caráter evidencial e muita gente não as registra; mas às vezes o melhor é fixá-las na íntegra, como o fiz acima, como exemplo do que pode ser chamado a “maneira” duma sessão. Alguma coisa que neste capítulo parece especialmente absurda relaciona-se com a matéria do capítulo XX.

            ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Sessão de Lady Lodge com Mrs. Leonard
em casa desta, a 4 de fevereiro de 1916
Feda – Oh, é Miss Olive!
Lady Lodge – Muito prazer em encontrá-la, Feda!
Feda – Feda quer a você e Soliver mais que a todos. Também muito quer a SLionel e a SAlec. Raymond está aqui. Tem andado de médium em médium com Paulie, experimentando pôr pobres rapazes em contato com suas mães. Alguns estão muito ciosos daqueles que o conseguiram. Esses procuram chegar às suas mães e não o conseguem – estão trancados. O vê-los é coisa de fazer-me chorar. A explicação está em que suas mães e pais nada sabem a respeito de comunicações.

Raymond conta de uma vez em que foi a uma esfera muito alta, a mais celestial possível. Sua irmã, diz ele, não pôde dizer onde era. (Refere-se a Lily, provavelmente). Diz que William também foi até muito longe, mas não tão longe a ponto de desligar-se dele. (William, irmão de Raymond).
Os que amam uma pessoa não vão até ponto donde não possam voltar a essa pessoa – onde seja muito longe para haver comunicação e de onde não possam vir encontrá-la por ocasião do seu passamento.
Lady Lodge – Isto é reconfortante, querida. De mim não quero que você se atrase.

Feda – Gravitamos aqui em redor dos entes amados. Aos não amados, se os encontramos na rua, não damos nem um “como vai?”.
Lady Lodge – Ha aí ruas, então?
Feda – Sim. Raymond gostou de ver ruas e casas.
Em certo tempo pensei que podiam ser criações do nosso pensamento. Todos gravitam para um lugar que lhes é adequado. Mãe, não há juiz nem tribunal – só gravitação.

Tenho visto chegar rapazes cheios de más idéias e vícios. Vão para um lugar em que eu não quero ir – mas não é exatamente o inferno. Mais parecido a um reformatório. Lugar onde lhes é dado ensejo de melhoria; quando almejais algo melhor, tendes oportunidade de o conseguir. Eles gravitam juntos, mas ficam tão enfastiados... Aprendei a ajudar-vos a vós mesmos e imediatamente sereis ajudados. Muito igual ao vosso mundo aí; só que não há deslealdade nem injustiça; uma lei comum age para todos e para cada um.
Lady Lodge – São todos iguais?

Feda – A hierarquia não é virtude. A alta hierarquia decorre da vida virtuosa. Os que foram virtuosos têm que passar pelos degraus mais baixos a fim de compreender as coisas. E vão primeiro para o astral, por algum tempo.

Raymond não se lembra de ter estado no astral. Está agora na terceira esfera. Summerland – Homeland, dizem alguns. É um ambiente muito feliz. Os mais altos vêm aí visitar-vos, e é lugar ainda bem perto da terra para que haja contato com os da terra. Ele pensa que tendes aqui o que há de melhor.
Mãe, eu fui a um maravilhoso lugar outro dia.
Lady Lodge – Onde é?
Feda – Deus sabe!
Tive permissão de ver o que se passa na Esfera Suprema. Comumente são os Altos Espíritos que vêm a nós.
Oh, eu queria poder dizer o que aquilo parece!

[Até que o fato da sobrevivência esteja completamente líquido, considero desassisado relatar experiências que podem provir da imaginação, num livro como este, adstrito à coleta de provas. Por esse motivo suprimo a descrição dada por Feda. Mas acho-me no dever de citar a parte que se refere aos sentimentos dos dois, porque de outro modo o quadro pareceria incompleto, unilateral – e frívolo].

Sinto-me exaltado, purificado, levantado. Ajoelho-me. Não pude manter-me de pé, quis ajoelhar-me. Mãe, eu vibro da cabeça aos pés. Ele não se aproxima de mim e eu não sinto ser preciso aproximar-me dele. Não sinto que devo. A voz era como a de um sino. Não posso dizer das roupagens. Tudo parecia uma mistura de cores brilhantes.

Podereis imaginar o que senti quando sobre mim ele pôs aqueles belos raios? Não sei o que fiz para merecer tão maravilhosa experiência. Nunca a imaginei possível, nem em séculos e séculos e séculos. Ninguém pode imaginar o que senti, nem posso eu explicá-lo.

Entender-me-ão?
Sei que mãe e pai me entenderão, mas eu queria que os outros experimentassem. Não posso reduzi-lo a palavras.
Não posso mover-me, tenho de ser levado a Summerland; não sei que aconteceu comigo. Se pudésseis desmaiar de deleite! Não são bonitas palavras?
Indaguei se Cristo vai ser contemplado por todos e responderam-me: “Não como tu o viste”. Disseram-me que Jesus está sempre na terra – uma espécie de projeção, alguma coisa como aqueles raios, alguma coisa dele em cada um.
Pensam que ele é um Espírito residindo num certo lugar. Cristo está em toda parte, não como personalidade. Há um Cristo, e Ele vive no plano mais elevado – e foi onde me permitiram vê-lo.
Foi-me dado mais nesta formosa mensagem; não posso lembrar-me de tudo. Ele disse tudo, palavra por palavra, do que vos transmiti. Disto vedes que eu tenho uma missão a realizar junto ao plano da terra...
Devo dizer-vos que me sinto feliz que isto seja meu trabalho, designado pela Autoridade mais alta de todas!
Lady Lodge – Se nós fôssemos dignos!
Feda – Os dois estão fazendo tudo quanto podem.
Lady Lodge – Vou desabrochar-me em amor mais do que até aqui.
Feda – Aprendi que há distinção a fazer. Quem não tiver afinidade, que se vá; estai com os de quem gostais.
Mãe, pensarão eles que estou delirando ou inventando? É tão admirável! Poderão compreender que é Raymond quem fala? Não se trata de prédica religiosa.

Eu o entesourei para dar-vo-lo esta noite. Expandi-me porque ignorava se podia dá-lo nas palavras exatas que os fizessem sentir o que senti. Não pedi trabalho só para manter-me perto do plano terreno! As coisas viriam direitas. Mas pense que me foi dado o trabalho pelo qual eu ardia!
Lady Lodge – então está mais perto?
Feda – Muito mais! Belo de pensar! Posso agora, honestamente, permanecer próximo ao plano terrestre. Em vez de ir por graus, posso, como a Feda foi prometido, dar um salto. E quando vierdes, mãe e pai, mãe ficará de um lado e pai de outro. Permaneceremos uns tempos na Summerland até à adaptação às condições. Ver-nos-emos uns aos outros. Irmãos e irmãs. Não posso dizer como me sinto satisfeito – “satisfeito” é uma bem pobre palavra”
Lady Lodge – A propósito de que, meu caro?
Feda – A propósito de estar bem perto do plano em que viveis. Estou afeito às condições daqui, mas senti-me tímido quando fui levado à Sua presença.
Como podem as gentes...

Quis, em poucos segundos, ser capaz de pensar em qualquer coisa – que eu tinha levado uma das mais puras vidas imagináveis. Se eu tivesse feito alguma coisa, isso erguer-se-ia qual montanha. Não tive tempo para pensar, mas senti-o em poucos segundos...
De volta a Summerland vi que estava carregado de alguma coisa – algum maravilhoso poder. Como se eu pudesse deter rios, mover montanhas – e tão alegre!

Ele diz: Não procurarei gostar de pessoas que vos são antipáticas, porque é perder tempo. Conservai o amor para os que dele precisam, não o deitai fora com os que não precisam. Será o mesmo que dar comida aos refartos quando há famintos em redor.

Sabei que de alguma forma sinto alteração nas minhas idéias. Sinto-me mais naturalmente entonado a condições muito afastadas do plano terrestre; não obstante, gosto de sair com Paul e divertir-me.
Depois da minha admirável experiência perguntei se não era tolice divertir-me e andar com alguém. Responderam-me que se temos um trabalho a fazer na terra não devemos ver só o lado escuro e sim também o lado claro – sol e sombra. Há lugares na minha esfera em que eles podem ouvir bela música, quando querem. Nem todos aqui cuidam de música – não é compulsória.

Ele gosta de música, e de cantar, mas não gosta de viver sempre mergulhado na música; pode ir e ouvi-la quando quer, e gosta mais de música do que gostava.

Mr. Myers ficou muito contente. Diz que nem sempre é o sacerdote o que vai mais alto. O que vale não é o que professais, sim o que fazeis. Se não houverdes crido na vida depois da morte mas se tiverdes levado um viver honesto, nada mais vos será pedido. Tão simples, e poucos o fazem. Neste nosso lado esperamos que em poucos anos as condições na terra façam grande diferença.
Em cinco anos inúmeros estarão querendo saber o que é a vida no além e como poderão viver na terra para que tenham vida feliz depois de passados. E, por simples precaução, melhorarão de vida. Mas por mais que saiba, a gente importante continuará na mesma.
Alguns perguntam-me se me preocupo com o corpo que deixei. Respondo que não penso nisso; não tenho o menor interesse pelo meu corpo antigo. É como roupa já fora de uso – outro que a aproveite. Não quero flores sobre o meu corpo. Quero-as em casa – na casa de Raymond.
A força está acabando. Boa noite.
Lady Lodge – Dormis aí?
Feda – Cochilamos.
Lady Lodge – E chove?
Feda – A chuva não atrapalha.
Lady Lodge – Sabe que seu pai está reunindo todas as sessões num livro?
Feda – Será interessante observar como vou mudando à medida que o tempo corre.
Nota de O. L.
Cumpre-me relembrar que tudo isto, embora falado na primeira pessoa, realmente chega através de Feda; e embora o estilo e a gramática de Feda hajam melhorado, os devidos descontos devem ser feitos.

A seguinte comunicação de Myers, através de Feda, tivemo-la a 24 de março de 1917 e parece-me instrutiva:
Lodge – Não poderá Myers fazer que alguns dos meus amigos, homens de ciência, mandem-me qualquer coisa nova e importante? Até aqui só temos tido as coisas clássicas. Por que não as termos científicas?
Myers – Os homens de ciência (disse Myers sorrindo) acham mais difícil comunicar-se por meio dos métodos extremamente limitados de que ainda dispomos, do que as pessoas que desenvolveram suas faculdades em outros setores.

Feda – Raymond diz “isto é com você, pai”. E o gentleman que falou diz “Espero que compreenda esta dificuldade”.
Lodge – Sim, certamente que compreendo.
Myers – É mais difícil apanhar fatos do que simples manifestações poéticas ou literárias. Estas acodem mais livremente, como coisa que flutua à tona das vagas (e sua mão fez um gesto sinuoso). Mas a produção de fatos científicos é dura, é difícil. Teríamos de criar novos meios e métodos... (Feda não apanha bem isto). Sim, vou explicar-me melhor. Teríamos de estabelecer os meios, ou um código, para melhor entendimento mútuo, de modo que a expressão de termos científicos, através dos médiuns, não apresente dificuldade, como hoje acontece. Temos de tomar a cabeça do médium como um crivo. Poucos têm esse crivo nas condições de coar o que desejamos. O médium absorve e transmite com grande dificuldade.
Lodge – Sim, mas quando os assistentes são pessoas de cultura, podem interpretar qualquer sugestão.
Myers – É o que penso (refere-se ao código que lembrou), e tenho esperanças de que por meio de você consigamos alguma coisa.

Na mesma sessão que tivemos com Mrs. Leonard, em Datshet, a 2 de abril de 1918, depois de referir-se com intuitos evidenciais, a diversas pessoas, Raymond abordou matéria inverificável; falou de coisas do “além”, das quais não havia tratado ultimamente. Lady Lodge tinha consigo um estenógrafo, de modo que o que Feda diz aparece mais completo do que usualmente – e com isto rematarei este já muito dilatado capítulo.
Aqui vai o que foi estenografado – e o dou pelo que vale. Raymond já havia falado de diversas pessoas quando Lady Lodge o interrompeu, dizendo:

Lady Lodge – Raymond, diga-me algo da sua vida.
Feda – (à meia voz) Parece falar dessa gente. Ele gosta de falar sobre essas pessoas porque surgem coisas que a senhora pode verificar.
Lady Lodge – Julguei que gostasse de questões-teste.
Feda – É necessário, embora ele muito deseje falar da vida que leva. Sabe que será bom para outras pessoas que a senhora tome nota disto.
Ele – espere um instante – ele está aprendendo muito ultimamente. Aprendendo, Miss Olive. Está aprendendo tanto que ganhou fúria de aprender.

Lady Lodge – Em livros?
Feda – Não; em preleções. E depois de demonstrações. O de que mais gosta é de ir para as outras esferas. Gosta disso. Lembre-se da experiência nesse sentido que já foi contada?
Lady Lodge – Perfeitamente (ver cap. XVI).
Feda – Lá esteve ele muitas vezes, depois daquela. Muitas, muitas vezes.
Lady Lodge – Vai lá agora mais facilmente?
Feda – “Já disse que da primeira vez não pude coordenar completamente minhas idéias. Da segunda vez foi melhor; senti mais dominação sobre mim mesmo. Aprendi melhor. Mas na terceira vez eu estava muito confiante e senti-me tão confuso como da primeira. Para ir lá precisamos preparar-nos, e manter-nos em estado de timidez, sem nenhuma confiança da nossa capacidade de suportar coisas. Recebi muitas lições. Lições.”

Ele diz que aprendeu muito, mas não pode encontrar palavras que o comuniquem através dum médium. Tudo se lhe tornou claro – tudo que se passa no plano terrestre a propósito de religiões, do justo e do injusto e da escolha entre um e outro. Muitas vezes ele pensa que se pudesse voltar ao plano terrestre, voaria através da vida. E crê que se de vez em quando as pessoas pudessem auscultar-se a si mesmas, poderiam aprender boa parte do que ele aprendeu. Mas quando essas pessoas agem na terra, não entram dentro de si mesmas, porque receiam chegar a decisões contrárias aos seus desejos. Essa é a razão dos homens não poderem escolher entre o justo e o injusto.

Encontrou muitos amigos seus na esfera em que se encontra, e acha admirável como tais amigos lhe aparecem, observados de diferentes pontos de vista. Uns pensam uma coisa; outros pensam outra. Diz estar certo de que quando ele lhes fala é como Raymond pensou a princípio. Ele não lhes fala com palavras, mas de alma a alma, de mente a mente. Se fosse com palavras, milhares de nós não andaríamos a dar mensagens diferentes.

Raymond diz: “Sei que muitos procuram provar que existem outros grandes mestres; e pode ser que sim; mas quando entrais no mundo do espírito, compreendeis por que não há outro senão Ele.[3]
Raymond foi um dia levado ao... Não pode dizer com palavras para onde foi levado, porque as palavras não expressam o que ele quer.
A senhora lembra-se do que ele disse da sua ida através das esferas até à sétima. Avançou por uma abertura da quarta, da quinta e da sexta. A atmosfera da sétima era diferente a ponto de não poder suportá-la. Sentia-se pouco seguro e perdeu a dominação de si próprio. Gentes na terra falam em outras dimensões. Ele se sentiu em outras dimensões, com tudo mudado.

(Feda continua):
Há pouco tempo, antes da última sessão com Soliver (ele nada disse a respeito porque nunca está seguro de que o possa explicar), Raymond formulou esta pergunta: “Se há a sétima esfera, que existe além?” E responderam-lhe: “Deus apenas”. E ele perguntou: “Que significais com Deus apenas?” Queria saber se era Jesus ou o que podemos chamar a corporificação de Deus. E eles disseram: “Como te foi ensinado no plano terrestre, Jesus é o Filho de Deus, e o espírito de Deus está com Ele; não é o próprio Deus, mas o que nele cabe de Deus. Por isso Jesus chamou-se Filho de Deus, e não Deus. “Eu quis apanhar o sentido disso; estava ansioso por isso; disseram-me que antes de ir ver, aguardasse preleções especiais a respeito. Muito poucos vão, disseram-me.
Mas quando na minha esfera foi às preleções, percebi que certos conhecimentos materiais e certas coisas mecânicas, que me haviam interessado no plano terrestre, ajudavam-me a compreender o que eu ia ver nas outras esferas. Meus irmãos podem compreender alguma coisa disto; os demais, não.

Assim, levaram-me além da sétima esfera. Não pararam na sétima, foram além, e mandaram-me concentrar e pensar em mim como mente apenas, não como espírito. Que experimentasse fazer isso. E que quanto mais eu o experimentasse, mais fácil se me tornaria pensar de mim como um gérmen.

“Por que não posso ser eu mesmo?” perguntei.
Resposta: “Nada de perguntas, pensa de ti mesmo como algo muito pequeno. Como mente, só; como poder de percepção apenas.” De fato disseram-me para pensar de mim como um óvulo! Eu não sabia de que modo o julgar-me óvulo me trouxesse facilitação; mas ao pensar assim comecei a ver que o momento, o vôo, se me tornava mais fácil. E lá cheguei ao – não sei como dizer. Cheguei ao que pode ser chamado uma esquina – como a da Land’s End na Inglaterra. Compreendo porque me mandaram pensar em mim mesmo como algo pequeníssimo; porque era uma maravilha que eu não fosse soprado para norte, sul, leste e oeste ao mesmo tempo. O ar parecia como formado de rios elétricos – se é que era um rio. Um rio de eletricidade ou força, fluindo ao mesmo tempo em todas as direções. Por um segundo, fluía deste lado; por outro segundo, fluía daquele.

Minhas sensações eram extraordinárias; eu não me afligia, mas alcancei aquela grande luz a que já me referi, quando na sétima esfera estive na presença de algo que não podia apreender, mas minha alma via e compreendia que eu estava na presença do Infinito. Aquilo não tinha forma, nem tamanho; não era quente, nem frio. Não era nada que a mente finita possa apreender. Senti assim enquanto lá – mas não o sinto agora.

Estava comigo um dos guias – não sei se já contei – o qual avisou: “Conserve-se mínimo”, e vi que tinha de contrair-me ainda mais.
Não perguntei ao guia: “Que força é esta?” mas ele apanhou meu pensamento e respondeu: “Estás na presença do Infinito. O que sentes é a Vida-Força, que vai de Deus a todas as esferas e alimenta o plano terrestre. Sem ela, nada haveria vivo na face do globo. Nem animal, nem planta – sem esta Força que agora sentis.”
Eu queria que fosse algo definível, algo que tivesse forma.
O guia disse: “Não compreendes que só no plano terrestre as coisas possuem formas definidas, de modo que vossas mentes finitas possam apreender alguma coisa? Talvez que no futuro muito mais seja apreendido. Mas é algo além de vós mesmos. É o Infinito. Por isso não percebes.”

Minha mente não apreendeu isso, mas minha alma apreendeu; e o guia me disse, sem que eu nada perguntasse: “Tua alma apreende porque tua alma faz parte disto. Só com tua alma poderás compreender isto. A mente não necessita incomodar-se com formas. Deixa tua alma desenvolver-se que tua mente a seguirá passo a passo.
Lady Lodge – É essa Força toda-poderosa? O Mal não a está combatendo?
Raymond – Não aqui.

Mãe, todos aqui sabemos, todos os espíritos sabem, que o mal é próprio do plano terrestre e de outros planos inferiores – os astrais.
O Deus Infinito está lutando contra o Mal no plano terrestre e no astral. E o Deus Infinito tem de vencer. O Mal persiste na terra porque é de lá. Foi o baixo eu físico dos homens que o criou; e mais as almas se desenvolvem, mais se bastarão a si mesmas. Esta Força assiste às almas. Vai conquistá-las, mas não miraculosamente. Se o homem não vê a luta, não pode compreender a importância de desenvolver o Bem no plano físico.

Eis a razão de a guerra estar sendo tão longa. Se a guerra houvesse acabado nos primeiros meses, os homens estariam novamente prontos para o mal; a Inglaterra em dois anos estaria de novo pronta, e todos os demais países igualmente.
A Inglaterra aprendeu uma lição espiritual de que não se esquecerá nunca. Meu pai sabe disso – e o saberá ainda mais. Eu e meu pai não teríamos feito o que fizemos se não fora a guerra. A guerra é a alavanca que está a abrir a porta entre os dois mundos, combatendo o mal e fomentando o bem. Parece horrível; mas se você tivesse visto o que eu vi, compreenderia que o mal não passa de pequena mancha em imensa superfície de brancuras.
Feda – Ele está perdendo a força.
Isto é apenas uma das coisas: ele já aprendeu muito. Tem aprendido muito sobre essa Força e sobre o como é empregada. “É uma força tão real como a eletricidade, diga a meu pai.”


Tradução de Monteiro Lobato


Sem comentários:

Enviar um comentário