domingo, 8 de janeiro de 2017

A PSIQUE E A NATUREZA DA SEXUALIDADE



a psique e a natureza da sexualidade




os elementos inerentes à sexualidade


Bom, as ideias distorcidas que muitas pessoas têm sobre a sexualidade impedem-nas de alcançar qualquer vínculo estreito com a experiência interna que continuamente perturba, ao nível subliminar da consciência, pelo que é uma excelente ideia examinarmos a psique e as relações que ela tem com a identidade sexual.

A psique não é masculina nem feminina. No vosso sistema de crenças, todavia, geralmente é identificada como feminina, junto com as produções artísticas que emergem da vossa criatividade. Nesse contexto, as horas do dia e a consciência de vigília são encaradas como masculinas, junto com o sol – enquanto a noite, a lua e a consciência do estado de sonho são consideradas femininas ou passivas. Do mesmo jeito, geralmente entendem a agressão como uma acção de cariz violenta e assertiva, de orientação masculina, ao passo que os elementos femininos são identificados nos termos do princípio afectivo.

Falando em termos físicos, vocês não teriam homens nem mulheres a menos que tivessem indivíduos primeiro. Vocês são, pois, e antes de mais, pessoas, indivíduos. Depois, são indivíduos de um sexo específico, para o referir em termos biológicos. O tipo particular de enfoque que exercem é responsável pelo enorme significado que atribuem ao masculino e ao feminino. A mão e o pé têm funções distintas. Se quisessem focar-se nas diferenças das funções que têm, poderiam edificar toda uma cultura com base na diversidade de aptidões e características que apresentam. No entanto, mãos e pés são obviamente equipamento pertencente a ambos os sexos. Todavia, num outro nível, a analogia é bastante válida.

A psique é feminina e masculina, masculina e feminina; porém, quando afirmo isso percebo desde logo que recorrem às próprias definições que têm com base nesses termos.

Em termos biológicos, a orientação sexual constitui o método optado para a propagação das espécies. Ao contrário, porém, nenhuma característica específica de género se acha associada à função biológica. Mas estou bem ciente de que na vossa experiência existem diferenças físicas e psicológicas definidas. Aquelas que resultam da programação, e que não são inerentes - nem mesmo em termos biológicos - à própria espécie.

A vitalidade da espécie, de facto foi assegurada por não se ter especializado excessivamente nos termos da sexualidade. Nunca existiu um período fixo para o acasalamento, por exemplo, mas em vez disso, a espécie podia reproduzir-se com liberdade, pelo que em face de um acontecimento catastrófico de qualquer natureza, não se veria sujeita a padrões rígidos que pudessem resultar na extinção.

Os desafios e problemas da espécie diferiam dos desafios dos outros. Necessitavam de garantias adicionais. E uma passava por um padrão de acasalamento mais flexível. Com isso surgiu uma enorme diversidade em termos de características e padrões individuais, pelo que nenhum indivíduo se encontrava restringido a qualquer papel estritamente biológico. Se isso fosse verdade, a espécie nunca se teria preocupado senão com os problemas da sobrevivência física, e tal não foi o caso. A espécie poderia ter sobrevivido muito bem fisicamente sem a filosofia, sem as artes, sem a política, sem a religião, ou mesmo sem a estrutura da linguagem. Poderia ter enveredado por carreiros completamente diferentes, como aqueles associados estritamente à orientação biológica. Não teria surgido qualquer caso de homens que desempenhassem papéis ditos femininos, nem de mulheres que desempenhassem tarefas ditas masculinas, porquanto não teria havido margem para esse tipo de acção individual. Mas quanto a isso, não existe qualquer margem no comportamento de animais além daquele que entendem, por interpretarem o comportamento animal de acordo com as crenças que têm. Interpretam a história passada da vossa espécie do mesmo modo.

Parece-lhes que a mulher sempre tenha cuidado da prole, por exemplo, pelo que tenha sido forçada a ficar por casa enquanto o macho combatia os inimigos ou caçava para comer. Por conseguinte, parece que o macho abrangente tenha sido muito mais curioso e agressivo. Mas em vez disso existiu um tipo de situação diferente. Os filhos não surgem por ninhadas. A família do homem das cavernas constituía um grupo muito mais "democrático" do que podem supor - homens e mulheres que trabalhavam lado a lado, crianças que aprendiam a caçar com ambos os pais, mulheres que ao longo do percurso deixavam de cuidar dos filhos, espécie que se destacava das outras por não ritualizar os comportamentos sexuais.

À excepção do facto dos machos não conseguirem ter filhos, a capacidade de ambos os sexos era intercambiável. Geralmente o macho era mais corpulento, uma vantagem física que se revelava conveniente em determinadas áreas - porém as mulheres eram mais leves e conseguiam correr mais rápido. As mulheres também eram um tanto mais leves por virem a arcar com o peso adicional de uma cria. Mas mesmo assim, evidentemente, havia variações, por muitas mulheres serem maiores do que os homens mais pequenos. Mas as mulheres conseguiam caçar tão bem quanto os homens. Se compaixão, amabilidade e delicadeza eram tão só características femininas, então nenhum homem poderia ser bondoso nem compassivo, por tais sentimentos não serem biologicamente possíveis.

Se a vossa individualidade fosse programada pelo vosso sexo biológico, então ser-lhes-ia virtualmente impossível desempenhar qualquer acção que não tivesse sido sexualmente programada. Uma mulher não pode procriar uma criança, nem o homem pode dar à luz. Mas como vocês são livres para desempenhar outros tipos de actividade que creem ser sexualmente orientada, nessas áreas a orientação é de cariz cultural.

Contudo, imaginam que o macho seja agressivo, activo, que tenda para as ideias, que seja inventivo, voltado para o exterior, e que seja um criador de civilizações. Identificam o ego em termos masculinos; consequentemente, o inconsciente parecer-lhes-á feminino, e as características femininas geralmente são vistas como passivas, intuitivas, carinhosas, pouco inventivas, preocupadas com a preservação da situação presente, avessas à mudança. Ao mesmo tempo, consideram os elementos intuitivos ameaçadores, como se pudessem explodir por formas invulgares num rompimento dos padrões conhecidos.

Os homens dotados de criatividade veem-se confrontados com certos dilemas, devido ao facto de a rica criatividade que possuem entrar em choque com as ideias que têm da virilidade. Por outro lado, as mulheres que possuem características que são vistas como masculinas veem-se confrontadas com o mesmo problema. Nos vossos termos, a psique representa um repositório de características que operam em união, composto de elementos femininos e masculinos. A psique humana contém padrões tais que pode mobilizar por inúmeras formas. Vocês classificaram as capacidades humanas pelo que parece que sejam homens ou mulheres, ou mulheres e homens primordialmente, e pessoas num sentido secundário. Contudo, é a pessoa que existe primeiro em vós. A vossa individualidade empresta sentido ao sexo que têm, e não o contrário.

Bom; ao contrário das teorias existentes com relação ao passado, existiu de longe uma muito menor especialização, digamos, no tempo do homem da caverna, do que existe actualmente. A família constituía uma unidade assente numa enorme cooperação. A base da sociedade inicial consistia na cooperação, e não na competição. As famílias agrupavam-se. Havia sempre crianças de diversas idades em tais agrupamentos. Quando as mulheres se aproximavam do parto, desempenhavam aquelas tarefas que podiam desempenhar nas habitações das cavernas, ou pelos arredores, mas também olhavam pelos filhos; quando não se viam embaraçadas com a gravidez, as mulheres saiam a caçar ou a colectar alimento com os homens.

Caso uma mãe morresse, o pai assumia as responsabilidades, e as qualidades do carinho e do afecto ganhavam vida nele conforme na mulher. Após ter tido o filho, ela tratava dele, e levava-o com ela em excursões destinadas à recolha de alimento, ou por vezes deixava-o ao cuidado das outras mulheres do grupo. Muitas vezes, após o nascimento, a mulher juntava-se de imediato às expedições de caça, e os pais ficavam em "casa" a fazer as roupas, a tratar das peles animais, o que permitia que o macho repousasse após prolongada actividade de caça, e impedia que nenhum membro adulto da família se visse sobrecarregado de trabalho. O trabalho era, pois, passível de ser objecto de intercâmbio.

As crianças iniciavam a recolha de alimentos e a caça tão logo fossem capazes - as fêmeas, do mesmo modo que os machos - conduzidas pelas crianças mais velhas, e iam mesmo mais longe à medida que progrediam na resistência. Qualidades como a invenção, a curiosidade, o engenho não podiam ser delegadas unicamente a um sexo, porquanto a espécie não teria conseguido sobreviver a tal divisão.

Estão tão habituados a pensar em termos mecânicos, que chega a parecer-lhes que os iletrados não compreendam a ligação existente entre o acto sexual e a natalidade. Estão de tal modo habituados a um tipo de explicação para o parto, e de tal modo familiarizados com a moldura de uma abordagem específica que qualquer explicação alternativa se assemelhará ao cúmulo do absurdo. Assim está na moda crer que o homem primitivo não entendia a ligação existente o coito e o nascimento.

Mas até mesmo os animais entendem sem palavras, ou linguagem, a importância que o seu comportamento sexual tem. O homem primitivo dificilmente seria mais ignorante. O macho sabia o que estava a fazer sem precisar de livros que lhe descrevessem todo o acto. A fêmea compreendia o nexo de causalidade existente entre o nascimento e o acto sexual.
É uma completa idiotice imaginar que, devido ao tempo despendido na gravidez, a mulher não conseguisse compreender que a criança tinha origem no coito. O conhecimento corporal não necessitava de uma linguagem complicada. Nesse sentido, a interpretação literal que fazem do parto é, segundo certos padrões, bastante limitada. Mas, nos vossos termos, é tecnicamente correcto. Porém, uma criança nascida de dois progenitores também não deixa de representar um rebento da terra, já que os seus tecidos constituem parte da terra tal como qualquer flor, ou a erupção de borrifos de água do oceano. É uma criança humana - é verdade; mas um rebento que envolve a história inteira da terra - uma nova criação que resulta não só de dois progenitores, mas de toda uma gestalt da natureza, de que os próprios pais certa vez emergiram; um caso privado não obstante ser público em que os elementos físicos da terra são individualizados; em que psique e a terra cooperam num parto que é humano, e em termos que outros, divino.

Agora, historicamente falando, o homem primitivo a seu modo compreendia tais relações muito melhor do que vós, e usou a linguagem ao desenvolvê-la a fim de expressar antes de mais este tipo de milagre que é o nascimento. Por ele ver que renovava constantemente o seu género, e que todas as demais espécies eram renovadas do mesmo jeito. Havia sempre mais terra. Independentemente do quão rápido ele corresse ou do quão longe conseguisse chegar, o homem primitivo não conseguia ficar sem terra, nem sem árvores, florestas, ou alimento. Se ele chegasse a um deserto, ainda tinha a ideia de existirem terrenos férteis algures, mesmo que fosse uma questão de ir à sua procura. Mas o mundo em si mesmo parecia não ter fim, e era literalmente um mundo sem limites, de um jeito que para vós se torna difícil de compreender; por para vós, o mundo ter encolhido.

Tal mundo sem limites renovava-se constantemente. As crianças vinham dos ventres das mulheres. O homem achava-se familiarizado com a morte, e muitas crianças nasciam nado-mortas, ou eram naturalmente abortadas. Contudo, também isso constituía a ordem natural das coisas, e era feito com muito mais facilidade então do que agora. Nem todas as sementes caem em solo fértil e se reproduzem. Aquelas que não germinam voltam ao solo, e formam a base de uma outra vida. Em termos biológicos, os fetos crescem e desenvolvem-se -- aqui preciso ditar devagar por me estar a revelar complicado -- mas quando a consciência inata se funde com a forma apropriada, as condições revelam-se propícias para o nascimento de uma criança saudável. Quando as condições não se revelam propícias, a criança não se desenvolve adequadamente. A natureza aborta-a. Os elementos físicos retornam à terra e tornam-se na base de uma nova vida.

Somente aquelas crianças perfeitamente harmonizadas com o seu ambiente temporal e espacial sobreviviam. O que não quer dizer, por exemplo, que a consciência da criança fosse aniquilada caso fosse abortada naturalmente. Ela simplesmente não se desenvolvia. Conquanto não existisse qualquer período para o acasalamento, ainda existia um laço biológico estreito entre a espécie e a terra, de modo que as mulheres concebiam naturalmente sempre que as condições do clima, alimento e outros elementos se mostrassem benéficos.

Biologicamente, as espécies sabiam com antecedência quando enfrentariam secas, por exemplo, o que automaticamente lhe alterava a taxa de natalidade para compensar. Por si só, as espécies animais fazem o mesmo. Em termos mais abrangentes, o homem primitivo sentiu-se impressionado pelo facto de todas as coisas parecerem reproduzir-se por si sós, facto esse que foi o primeiro a captar-lhe a atenção. Posteriormente fez uso do que vocês acham que são mitos a fim de explicar essa abundância. Contudo, esses mitos continham um tipo de conhecimento que escapa às interpretações específicas que dão aos eventos sexuais. Porém, tal conhecimento reside na psique. Se tiverem alguma experiência directa com a vossa própria psique, então o mais provável é que se deparem com certos tipos de eventos que não se enquadrem com facilidade nas ideias que têm acerca da vossa natureza sexual.

As crenças que têm no campo da sexualidade, e daí, a experiência que obtêm nele, leva-os a considerá-la a uma luz muito limitada. O próprio conhecimento da psique, evidentemente, é de longe muito mais extenso. Alterações de consciência, ou tentativas promovidas pelo indivíduo no sentido de explorar o eu interno, poderão, pois, facilmente exibir vislumbres de um tipo de sexualidade que pode parecer depravado ou avesso à natureza.

Mesmo quando sociólogos ou biólogos exploram a sexualidade humana, eles fazem-no a partir de um quadro de sexualidade conforme o aspecto que ela assume no vosso mundo. Existiam variações de carácter sexual bastante naturais, mesmo no campo da reprodução, que agora não se evidenciam no comportamento humano em nenhuma cultura. Mas tais variações surgem no vosso mundo somente em níveis bastante microscópicos, ou no comportamento de outras espécies que não a vossa.

Sempre que as condições raciais o requerem, torna-se francamente possível a uma pessoa tanto dar à luz quanto gerar uma criança. (Nestas passagens, Seth refere-se a um fenómeno similar ao da partenogénese; a reprodução de um óvulo, espermatozoide, ou esporo não fertilizado, como no caso de certos polizoários, insectos, algas, etc. Também existe a partenogénese artificial, produzida a partir do desenvolvimento do estímulo do óvulo por meios mecânicos ou químicos)

Em tais casos, ocorre aquilo a que chamam de inversões sexuais espontâneas ou transformações. Tais processos tornam-se bastante possíveis a níveis microscópicos, e são inerentes à estrutura celular. Mesmo no vosso mundo, para o referir em termos correntes, certos indivíduos conhecidos como mulheres podiam gerar os seus próprios filhos Certos indivíduos conhecidos como homens podiam dar à luz um filho gerado por outra pessoa -- podiam. Tais capacidades têm lugar.

A orientação macho-fêmea, ou fêmea-macho não se aproxima nem um pouco daquilo com que se parece na vossa presente existência. Não se acha tão ligada a características psicológicas quanto supõem. Tão pouco se acha inerentemente focada no período de idade específico em que actualmente se revela. A puberdade chega, por assim dizer, só que a altura em que surge varia de acordo com as necessidades da espécie, as suas condições e crenças. Vocês são indivíduos para toda a vida. Mas em geral operam enquanto indivíduos reprodutores, apenas por uma porção desse tempo.

Durante esse período, muitos são os elementos que entram em jogo, e que se destinam a tornar o processo atraente aos envolvidos e às suas tribos, sociedades, ou civilizações. Uma identificação "sexual" relativamente marcada torna-se importante sob tais circunstâncias -- porém uma identificação excessiva com elas, antes ou depois, pode conduzir a um comportamento estereotipado, em que as necessidades e capacidades mais significativas do indivíduo não têm permissão para serem satisfeitas.

Tudo isto se torna deveras complicado devido aos juízos de valor, que por vezes parecem carecer -- se me perdoarem -- de todo senso comum natural. Vocês não podem separar a biologia das crenças que têm, por a interacção ser demasiado vital. Se todo acto do coito se destinasse à reprodução, teriam invadido o planeta antes de começarem. Por conseguinte, a actividade sexual destina-se ao deleite, enquanto expressão da pura exuberância que é. Uma mulher sentir-se-á muitas vezes no pico da actividade sexual em meio a um período menstrual, precisamente quando a concepção se acha menos apta a dar-se. Todos os tipos de tabus contra as relações sexuais foram aqui aplicados, em particular nas chamadas culturas nativas. Em tais culturas, tais tabus fazem todo o sentido. Essa gente, ao edificar o estoque humano, sabia intuitivamente que a população sofreria um aumento caso as relações fossem restringidas aos períodos em que a concepção ocorresse com maior probabilidade. O sangue constituía um sinal óbvio de que a mulher durante esse período se encontrava relativamente “estéril.” A sua abundância tinha-se dissipado. Na sua ideia parecia que ela tinha efectivamente sido “amaldiçoada” durante tal período.

Já falei sobre o desenvolvimento daquilo que designam por consciência do ego – o que, permitam que o reitere, tem as suas recompensas únicas. Essa orientação psicológica conduzirá a espécie a um outro igualmente tipo único de consciência. Contudo, quando o processo começou, o profundo poder da natureza precisou ser “controlado” de modo que a consciência em crescimento pudesse ver-se separada da sua fonte natural. Contudo, as crianças, tão necessárias à espécie, continuaram a brotar dos ventres das mulheres. Consequentemente, a fonte natural tornou-se flagrante, observável e inegável. Em função de tal razão, a espécie – e não o homem somente – atribuiu tantos tabus ao comportamento e à sexualidade da mulher. Ao “reprimir” os próprios elementos femininos, a espécie tentou alcançar uma certa distância psicológica da grandiosa fonte natural de que procurava, pelas suas próprias razões, emergir.

No mundo da vossa presente experiência, as diferenças sexuais tornam-se menos evidentes à medida que alcançam a idade avançada. Certas mulheres exibem aquilo que acham ser características masculinas, e cresce-lhes pelos no rosto, falam com vozes graves, ou adquirem traços angulares; ao passo que certos homens passam a falar com uma voz mais ligeira, em tons mais delicados do que antes, e os rostos tornam-se mais suaves e os contornos corporais atenuam-se.

Antes da puberdade gera-se o mesmo tipo de aparente ambiguidade. Vocês realçam a importância da identidade sexual, por lhes parecer que uma criança deva saber que vá crescer para se tornar num homem ou numa mulher -- no mais preciso dos termos. O menor desvio é encarado com consternação, de modo que a identidade pessoal e o valor (dignidade) são completamente vinculados à identificação com a feminilidade ou a masculinidade, de quem se espera características e desempenhos completamente diferentes, em cada categoria. Consequentemente, um homem que não se sinta completamente macho, não confia na própria identidade enquanto pessoa. Uma mulher que tenha dúvidas quanto à sua inteira feminilidade do mesmo modo não confia na integridade da sua pessoa.

Uma lésbica ou um homossexual situar-se-ão no mesmo tipo de terreno psicológico movediço, por os mesmos interesses e habilidades que acha serem pessoalmente seus serem precisamente aqueles que os marcam como excêntricos sexuais. Estes são exemplos bastante simples, mas o homem que possui interesses considerados femininos pela vossa cultura, e que naturalmente sente vontade de penetrar campos de interesse considerados femininos, experimentam conflitos drásticos entre o sentido que têm da pessoa e a identidade – e a sua sexualidade conforme é culturalmente definida. O mesmo, claro está, se aplica às mulheres.

Devido ao enfoque exagerado que geram, vocês tornam-se consequentemente relativamente cegos para com os outros aspectos da “sexualidade.” Antes de mais, a sexualidade em si mesma não conduz necessariamente ao coito. Pode conduzir a actos que não produzam filhos. O que vocês pensam que a actividade lésbica ou homossexual seja é expressão bastante natural, tanto biológica quanto psicologicamente. Em ambientes “ideais” tal actividade deveria em certa medida florescer, em particular antes e depois dos primeiros anos da reprodução.

Para os leitores inclinados para o demasiadamente literal, isso não quer dizer que tal actividade predominasse em tais épocas, mas antes que nem toda a actividade sexual se destina a terminar na concepção – o que constitui uma impossibilidade biológica, e representaria a catástrofe planetária. Assim, a espécie é abençoada, se quisermos, com as muitas formas de expressão a dar à sexualidade. O premente enfoque que actualmente predomina inibe a formação de certos tipos de amizade que não resultariam de todo em actividade sexual.

O lesbianismo e a homossexualidade, conforme são correntemente experimentadas também representam versões exageradas de inclinações naturais, tal como a versão que experimentam da heterossexualidade é exagerada.
A chamada Guerra dos Sexos, mais as suas ramificações, não é “natural” – nem tão pouco, nesse contexto, o é a luta entre membros do mesmo sexo. Até mesmo no reino animal, por exemplo, os machos não lutam até à morte por causa das fêmeas quando se encontram no seu estado natural.
Mais tarde esclarecerei o que quero dizer com o termo "natural.” No entanto, quando examinam o comportamento animal mesmo no seu meio aparentemente mais natural, por exemplo, vocês não estão a observar os padrões de comportamento básicos de tais criaturas, por essas áreas relativamente isoladas existirem no vosso mundo. Simplesmente não podem ter uma ou duas ou vinte regiões oficialmente designadas como naturais em que observem a actividade animal e esperem encontrar algo mais do que a adaptação efectiva dessas criaturas - uma adaptação que se sobrepõe às suas reações "naturais".
O equilíbrio dos recursos, padrões de movimentação animal, migrações, condições climáticas – tudo isso deve ser levado em consideração. Tais áreas de observação isoladas apenas lhes apresentam uma imagem distorcida do comportamento natural, por os animais também se encontrarem aprisionados nelas. A civilização vincula-os.
Outros animais são excluídos. A caça e as presas são altamente reguladas. Todas as áreas de comportamento natural se alteram tanto quanto possível a fim de se enquadrarem nas circunstâncias, o que inclui a actividade sexual. Em certa medida os animais foram condicionados a um mundo em mudança. Agora o homem faz obviamente parte da natureza, pelo que poderão dizer: “Mas aquelas mudanças provocadas por ele são naturais.” Contudo, quando ele estuda tais comportamentos animais, e quando por vezes utiliza os padrões sexuais dos animais para realçar determinados aspectos com respeito à sexualidade humana, então o homem não leva isso em consideração, mas fala como se o presente comportamento animal observado fosse uma indicação de uma natureza primordial própria da sua biologia.
Não é natural, pois, combater por causa de mulheres. Isso traduz um comportamento cultural puramente adquirido. Em termos de história conforme a entendem, a espécie não conseguiria suportar tal energia mal aplicada, nem teria podido suportar tal antagonismo constante.
Toda a espécie se acha envolvida num empreendimento de cooperação, em que em última análise toda a existência repousa. Vocês projectam as presentes crenças que têm de volta, na história, e interpretam de forma deformada muitas das condições que observam no mundo natural. Essa cooperação de que falo baseia-se no amor, e esse amor possui uma base biológica e espiritual. As vossas crenças, por exemplo, e quaisquer exemplos de amor entre si são atribuídos ao instinto “cego.”
Em certa medida, as igrejas assim como os cientistas são responsáveis, mas os padres e os cientistas não são estranhos, que lhes tenham sido impostos, mas representam diversos aspectos de vós próprios. A espécie desenvolveu o seu próprio tipo de consciência, ao achar necessário isolar-se até certo grau do seu meio e das demais criaturas que nele se encontram. Em resultado disso, as religiões pregaram que apenas o homem possui uma alma e que é dignificado por sentimentos de carácter emocional. A seu jeito a ciência deu-se muito bem ao defender o postular do homem num mundo mecanicista, em que cada criatura é governada pela máquina impecável do instinto, cega do mesmo modo para com a dor ou o desejo.
Contudo, o amor e a cooperação que formam a base de toda a vida, demonstram-se por diversos modos. A sexualidade representa um aspecto, porém, um aspecto importante. Em termos mais amplos, é tão natural ao homem amar o homem, e à mulher amar a mulher, quanto é demonstrar amor pelo sexo oposto. Com respeito a isso, é mais natural ser-se bissexual. Tal é o processo “natural” da espécie.
Em vez disso, vocês classificaram o amor em categorias definidas, de modo que a sua existência se adequa somente sob as mais estritas condições. O amor passa à clandestinidade, mas brota por formas distorcidas e tendências exageradas. Vocês seguiram este curso em diferentes épocas por diferentes razões. Tão pouco o sexo é de culpar. Em vez disso, a vossa situação sexual constitui simplesmente um outro reflexo do estado da vossa consciência. Enquanto espécie, pelo menos presentemente, e no mundo ocidental, equiparam o sexo ao amor. Imaginam que a expressão sexual seja a única expressão natural do amor. Por outras palavras, parece que, de um jeito ou de outro, o amor se expressa exclusivamente por intermédio da exploração das adoradas porções sexuais.
Contudo, dificilmente é a única expressão atribuída à expressão do amor. Existem inúmeros livros escritos com instruções, cada um dos quais proclama os ditos métodos como os correctos. Certos tipos de orgasmo são “os melhores.” Além disso, a expressão do amor é permitida unicamente entre membros do sexo oposto. De um modo geral, esses indivíduos precisam ser mais ou menos da mesma idade. Existem outros tabus que envolvem restrições raciais, ou culturais, sociais, e económicas. Como se isso não bastasse, vastos segmentos da população creem desde logo que o sexo seja errado – uma forma de aviltamento espiritual, permitido por Deus somente para que a espécie possa ter continuidade.
Dado que o amor e o sexo são equivalentes, isso suscita conflitos óbvios. O amor de mãe é a única categoria que é considerada sadia, e consequentemente assexual sob a maior parte das condições. Um pai pode sentir-se culpado acerca do amor que sente pelos filhos, por ter sido condicionado a acreditar que o amor seja expressado unicamente através do sexo ou será desumano, ao passo que o sexo com os filhos é tabu.
A criatividade comanda as marés do amor. Quando negam ao amor a sua expressão natural, a criatividade sai prejudicada. As vossas crenças levam-nos a supor que uma bissexualidade natural (androginia) resultaria na ameaça da família, na destruição da moral, na exaltação dos crimes sexuais, e na perda da identidade sexual. Contudo, eu diria que a minha última frase descreve adequadamente a vossa presente situação (com um humor seco). A aceitação da bissexualidade natural da espécie em última análise ajudaria não só a esses problemas como a muitos outros, inclusive os vastos exemplos de violência e os actos de homicídio. Contudo, nos vossos termos e nas vossas circunstâncias, não se mostra apta para uma transição fácil.
A relação progenitor-filho possui a sua própria estrutura emocional única, que sobrevive mesmo àquelas distorções que lhe atribuíram, e a sua ancestral integridade não sairiam enfraquecidas, mas robustecidas, caso uma maior tensão fosse colocada sobre a sua natureza bissexual.
As crianças ficariam muito melhor se as qualidades parentais ancestrais não se focassem com tanto vigor na mãe. Isso em si mesmo conduz a uma maior dependência da mãe do que é salutar, e forma uma aliança artificial entre mãe e filho contra o pai.
Bom; o amor heterossexual constitui uma expressão importante da bissexualidade, e sexualmente representa as capacidades reprodutoras. Contudo a heterossexualidade assenta sobre as bases bissexuais, e sem a natureza bissexual do homem, as estruturas mais vastas da família -- o clã, a tribo, o governo, a civilização -- seriam impossíveis.
Basicamente, pois, a natureza bissexual inerente fornece a base da cooperação que torna a sobrevivência física, bem como todo tipo de interacção cultural, possível. Se a "guerra dos sexos" fosse tão imperativa quanto suposto, e tão natural quanto demonstra ser feroz, então não existiria literalmente cooperação entre machos e fêmeas para qualquer finalidade que fosse. E tão pouco existiria qualquer cooperação entre os homens ou entre as mulheres, por estarem em constante pé de guerra uns com os outros.
No fluxo biológico natural da vida da pessoa, há períodos de intensidade variada, em que o amor e a sua expressão pairam, e tendem para diferentes cursos. Também se dão variações individuais que são de enorme importância. Contudo, esses ritmos naturais raramente são observados. As tendências para o lesbianismo ou a homossexualidade nas crianças são bastante naturais. Contudo, são tão temidas que geralmente até mesmo tendências naturais para a heterossexualidade são bloqueadas. Em vez disso, a pessoa na juventude é estereotipada.
Situações individuais para a criatividade muitas vez emergem de uma forma intensa na adolescência. Se esses factores em qualquer dos sexos não se conformarem na expressão àqueles das expectativas do macho ou da fêmea, então tais jovens ficam confusos. A expressão criativa parece estar em contradição directa com as normas sexuais esperadas.
Não estou a dizer que o lesbianismo e a homossexualidade sejam meros estados que conduzam à heterossexualidade. O que a dizer é que o lesbianismo, a homossexualidade e a heterossexualidade são expressões válidas da natureza bissexual do homem.
Também estou a salientar o facto do amor e da sexualidade não serem necessariamente a mesma coisa. O sexo é expressão do amor, só que é apenas UMA das suas expressões. Por vezes é bastante "natural" expressar amor por outra forma. Mas, devido às conotações que envolvem o termo "sexo," poderá ser que a alguns de vós pareça que esteja a advogar um relacionamento sexual promíscuo e totalmente irrestrito (a sorrir).
Em vez disso, estou a afirmar que profundos laços de amor biológico e espiritual estão na base de todas as relações culturais e pessoais, um amor que transcende as vossas ideias da sexualidade. O amor heterossexual, conforme pelo menos é compreendido, dá-lhes uma família de progenitores e de filhos -- uma coisa importante ao redor do que outros grupos se formam. Contudo, se só operassem ideias estereotipadas de fêmea-macho, não existiria qualquer laço ou estímulo suficientemente forte para forjar uma família numa outra. O antagonismo entre os machos seria enorme. A competição entre as fêmeas seria demasiado severo. Guerras aniquilariam tribos guerreiras antes que qualquer tradição fosse formada.
No mundo social do mesmo modo que no microscópico, a cooperação é, uma vez mais, primordial. Somente uma bissexualidade básica podia dar à espécie a margem de manobra necessária, e prevenir comportamento estereotipado de um tipo que impediria a criatividade e o comércio social. A natureza básica sexual permite-lhes a realização das capacidades individuais, de modo que a espécie não caia na extinção. O reconhecimento da natureza bissexual do homem é, por conseguinte, um imperativo no seu futuro.
Existem, uma vez mais, diferenças óbvias entre os sexos. Eles são insignificantes e parecem significativas unicamente por se concentrarem nelas. As grandiosas qualidades do amor, do vigor, da compaixão, do intelecto e da imaginação não pertencem a um nem ao outro sexo.
Somente uma compreensão desta natureza bissexual inerente libertará essas qualidades em cada indivíduo, independentemente do sexo. Essas mesmas habilidades constituem, evidentemente, características das pessoas de cada raça, contudo vocês fizeram consistentemente o mesmo tipo de distinções em termos raciais conforme fizeram em termos sexuais, pelo que certas raças parecem-lhes femininas ou masculinas. Vocês projectam, pois, as vossas próprias crenças sexuais fora, nas nações, e frequentemente a terminologia das nações e das guerras é a mesma que a usada na descrição do sexo.
Vocês falam, por exemplo, em domínio e submissão, mestre e escravo, da violação de uma nação -- termos empregues na guerra e no sexo do mesmo modo.
Macho e fêmea são ambos membros da raça humana -- ou espécie, caso prefiram -- pelo que essas divisões foram estabelecidas com base na própria espécie, por ela própria. Elas resultam das distinções que surgem, à medida que a espécie experimentava a sua linha de consciência, e trouxe à existência a aparência da separação entre si mesma e o resto do mundo natural.
A vossa identidade simplesmente não depende da vossa sexualidade psicológica ou biológica. As vossas características sexuais representam uma porção da vossa personalidade. Elas fornecem áreas vitais de expressão, e pontos de referência em torno dos quais podem agrupar a experiência. As vossas qualidades sexuais fazem parte da vossa natureza, mas não os definem. Contudo, as vossas crenças estruturam de tal modo a vossa experiência individual e de massa, que material de prova contrário a tais ideias se revela mas raramente, ou por forma distorcida ou exagerada. Torna-se bastante natural, operar biológica e psicologicamente de determinados modos que não são aceites na vossa sociedade, e que parecem ir contra o retracto que fazem da história da humanidade. Nos termos das definições que fazem, pois, é bastante natural que algumas pessoas se comportem sexualmente como homens e psicologicamente como mulheres. É bastante “natural” que outros operem de forma inversa.
Uma vez mais, isto poderá parecer difícil de entender, por atribuírem características psicológicas à afiliação sexual, quaisquer que sejam. Sempre existirá quem naturalmente busque a experiência da parentalidade, e a determinado momento nem todos serão necessariamente heterossexuais.
O padrão mais vasto da pessoa humana exige uma afiliação bissexual que lhe traga flexibilidade nos encontros sexuais, uma margem de manobra que lhe forneça um quadro em que os indivíduos possam expressar os sentimentos, os dons e características que sigam as predisposições naturais da psique pessoal em vez dos estereótipos sexuais. Não estou com isto a referir nada tão simples quanto conceder às mulheres uma maior liberdade, ou aliviar os homens do papel do sustento da família. Decerto que não me refiro ao “casamento aberto” conforme é comummente entendido, mas a questões bem mais significativas. Antes de as considerarmos, porém, há diversas questões que gostaria de levantar.
Há possibilidades biológicas, raramente activadas na vossa presente circunstância, que exercem um certo efeito na actual questão. A puberdade vem a determinada altura, desencadeada por profundos mecanismos que se acham relacionados com o estado do mundo natural, a condição da espécie, e aquelas crenças culturais que num certo sentido transpõem para o mundo natural. Noutros aspectos o vosso ambiente cultural é, evidentemente, natural. A altura em que a puberdade eclode varia, pois, mas depois torna-se possível dar à luz. Depois, vem uma altura em que esse período se esvai. Durante o período que é chamado de sexualidade activa; as vastas dimensões da pessoa estreitassem de forma estrita em papéis sexuais estereotipados – e todos os aspectos da identidade que não se enquadram são ignorados ou rejeitados. O facto é que poucas pessoas se enquadram nesses papéis. Eles resultam em larga escala das interpretações que fazem da religião conforme convencionalmente entendida. E os cientistas, por toda a sua aparente independência, muitas vezes acabam simplesmente por encontrar novas razões intelectuais aceitáveis para crenças emocionais inconscientemente acalentadas.
Biologicamente, há um período que é experimentado muito raramente, conforme foi sugerido na brincadeira com as “piadas sem graça” com respeito à senilidade e à segunda infância. Essa faculdade biológica particular latente revela-se apenas nos casos mais raros – por um lado, devido ao facto de representar uma proeza agora escassamente desejável. Fisicamente, porém, o corpo acha-se perfeitamente capacitado para se regenerar por completo à medida que se abeira da idade da velhice. De facto, uma segunda puberdade bastante legítima torna-se possível, em que a semente do macho se mostra jovialmente forte e vital, e o ventre da mulher se encontra flexível e capaz de conceber. Existem, creio bem, histórias Bíblicas relativas ao resultado de tais partos.
Em épocas de excesso demográfico, esse mecanismo dificilmente é objecto de desejo, mas faz parte da espécie que é assim mantida actualmente em suspenso, e que representa as capacidades da natureza. Em certas áreas do vosso mundo, indivíduos isolados viviam para além dos cem anos, com vitalidade e força, por permanecerem intocados pelas crenças que vocês sustentam, e por viverem em simpatia e acordo com o mundo conforme o conhecem e compreendem. Essas segundas puberdades ocorrem ocasionalmente, resultando numa nova concepção, quando um pequeno grupo tenta manter a sua posição biológica.
Geralmente, a segunda puberdade segue a mesma orientação que a primeira, mas nem sempre – por ser bastante possível que a nova afiliação se revele contrária à primeira. Isso é ainda mais raro – mas também a espécie se protege. Por intermédio de técnicas médicas alguns dos vossos velhos são mantidos vivos o suficiente para que tal processo tenha início, surgindo por formas distorcidas, por vezes psicologicamente evidentes mas biologicamente frustradas. A segunda puberdade não tem, pois, saída. Não tem onde ir. Actualmente não é pertinente ou necessária. Por si só, algumas dessas pessoas morreriam com uma sensação de satisfação. Mantidas vivas por intermédio de técnicas médicas levaria a que o mecanismo físico prosseguisse com as suas lutas por se revitalizar e por produzir uma segunda puberdade – que naturalmente só resultaria sob diferentes condições, com a mente muito mais alerta e a vontade intacta. Bom; em certa medida, existe uma ligação entre esta segunda puberdade inata raramente observada e o desenvolvimento do cancro, em que o crescimento se torna especificamente evidente de uma forma exagerada.
Em quase todos os casos em que envolve o cancro, o crescimento psíquico e espiritual está a ser negado, ou a pessoa sentirá que não mais pode crescer adequadamente em termos pessoais e psíquicos. Tal tentativa de crescimento activa então os mecanismos corporais que resultam na exuberância do crescimento de determinadas células. A pessoa insiste em crescer ou em morrer, e força uma situação artificial em que o próprio crescimento se torna num desastre físico. Isso deve-se à ocorrência de um bloqueio. O indivíduo quer crescer em termos da sua pessoa, mas receio fazê-lo. Sempre existem variações individuais que precisam ser levadas em consideração, mas muitas vezes uma pessoa dessas sente-se um mártir do sexo em que se enquadra, aprisionado por ele e incapaz de escapar. Isso pode obviamente aplicar-se aos cancros que afectam as áreas sexuais, mas tem lugar frequentemente nos bastidores de qualquer dessas condições. A energia está a ser bloqueada devido a problemas que tenham começado – nos vossos termos – com questões do foro sexual na puberdade. A energia é experimentada como sendo sexual.
Agora; as pessoas consideradas senis ou ingovernáveis por vezes experimentam novos surtos de actividade sexual a que nenhuma saída é dada. Para além disso, terão perdido os seus papéis sexuais convencionais, em que antes expressavam a sua energia. Normalmente encontram-se associadas mudanças hormonais que passam despercebidas. Muitas expressam um tipo de comportamento nervoso errático quando eles surgem – alguns não só ao nível sexual como intelectualmente também. A nova adolescência jamais chega. A nova puberdade morre de uma morte lenta, por a vossa sociedade não ter estrutura em cuja base a consiga compreender. E na realidade ela mostra-se de uma maneira distorcida que pode assumir traços grotescos.
Ora bem; o amor constitui uma necessidade biológica, uma força que opera num ou noutro grau em toda a vida biológica. Sem amor não existe força de viver – nenhum suporte psíquico. O amor existe quer seja ou não expressado sexualmente, embora seja natural que busque expressão. O amor implica lealdade. Implica compromisso. Isso aplica-se ao relacionamento lésbico e ao homossexual do mesmo modo que ao heterossexual. Na vossa sociedade, porém, a identidade acha-se de tal modo vinculada aos estereótipos sexuais que poucas são as pessoas que se conhecem bem para compreender a natureza do amor, e para darem qualquer passo no sentido desse compromisso.
Um período transitório está actualmente a ter lugar, em que as mulheres parecem buscar uma liberdade sexual promíscua que é mais geralmente mais atribuída aos homens. Crê-se que os homens sejam naturalmente promíscuos e mais incitados por estímulos completamente divorciados de qualquer resposta complementar “mais profunda.” Pensa-se, pois, que o macho deseje ter sexo quer dê ou não alguma resposta com base no amor à mulher em questão – ou por vezes a deseje precisamente por não a amar. Em tais casos, o sexo não se torna numa expressão de amor, mas numa expressão de escárnio ou de desprezo.
Assim, as mulheres, ao aceitarem muitas vezes tais ideias, buscam uma situação em que também se possam sentir livres para expressar os seus desejos de uma forma aberta, quer tal expressão envolva ou não amor. Contudo, a lealdade é parceira no amor, e os primatas exibem evidência disso em grau variado. Ao macho em particular foi ensinado a distinguir o amor do sexo, de modo que isso resulta numa condição esquizofrénica que dilacera a sua psique – em termos operativos – ao viver a sua vida.
A expressão da sexualidade é considerada masculina, ao passo que a expressão do amor não é considerada viril. Numa ou noutra medida, o macho sente-se forçado a dividir separando a expressão do seu amor da expressão da sexualidade. Se as mulheres seguissem o mesmo curso isso seria desastroso. Essa grande divisão tem conduzido às vossas grandes guerras. O que não quer dizer que apenas os homens tenham sido responsáveis pelas guerras, mas quer dizer que o macho se divorciou de tal modo da fonte comum do amor e do sexo que a energia represada emergiu nesses actos agressivos de estupro e de morte cultural, em vez de natalidade.
Quando vocês examinam o reino animal, supõem que o macho escolha de modo cego, levado pelo instinto “idiota,” de modo que em termos gerais uma fêmea serve tão bem quanto outra. Quando vocês descobrem que um certo químico ou aroma atrai um determinado insecto macho, por exemplo, assumem como dado adquirido que só esse elemento seja responsável pela atracção desse macho para a fêmea. Ou seja, aceitam como certo que as diferenças individuais não se aplicam em casos tão afastados da vossa realidade.
Vocês simplesmente não são capazes de compreender a natureza de tais consciências, pelo que interpretam o seu comportamento de acordo com as vossas crenças. Isso seria triste quanto baste se comummente não usassem tal informação distorcida para definir melhor a natureza do comportamento masculino e feminino. Ao distorcerem assim as ideias que têm do sexo, limitam mais as enormes faculdades da lealdade humana, o que sempre está ligado ao amor e à expressão do amor. As relações lésbicas ou homossexuais nesse caso são, quando muito tênues, esgotadas por emoções confusas, mas muito raramente capazes de manter uma estabilidade que possibilite o crescimento individual. Os relacionamentos de cariz heterossexual também são passiveis de sofrer ruptura, por a identidade de cada parceiro se basear nos papéis sexuais que podem ou não aplicar-se aos indivíduos envolvidos.
Já que sentem que o sexo seja o único método apropriado para a expressão do amor, e no entanto também creem que o amor e o sexo se achem separados, encontram-se num dilema. Essas crenças sexuais também têm muito mais importância nas relações nacionais do que percebem, por tentarem assumir o que pensam ser a posição masculina enquanto nação. Isso também faz, por exemplo, a Rússia. A Índia assume uma posição feminina – isto, nos termos das crenças que sustentam.
Uma observação particular: Um homem com caroços (tumores) de qualquer género, pedra nos rins, úlceras, por exemplo – tem tendência que considera femininas, razão porque vê-se “dependente,” coisa de que se envergonha. Numa simulação biológica cerimonial, ele dá lugar ao parto na medida em que produz no seu corpo um material que não tinha antes. No caso das úlceras, o estômago torna-se no ventre – ensanguentado, ao dar à luz chagas – a interpretação que faz da tentativa “grotesca” do macho de expressar características femininas.
Seth - Sessões 765 a 770 (Capítulo 4, do livro The Nature of Psyche)
A PSIQUE, O AMOR, A EXPRESSÃO SEXUAL E A CRIATIVIDADE
As ideias que fazem da sexualidade e as crenças que têm sobre a natureza da psique geralmente pintam um quadro de elementos contraditórios. A psique e a relação que tem com a sexualidade afecta as ideias que têm da saúde e da doença, da criatividade, e de todas as áreas habituais da vida individual. Neste capítulo, por conseguinte, vamos considerar algumas das implicações resultantes.
Nos vossos termos, uma vez mais, a psique comporta o que considerariam ser as características masculinas e femininas, sem que seja uma coisa nem a outra. Nesses termos, e com respeito a isso, a psique constitui um banco de que as afiliações sexuais derivam. Basicamente, porém, não existem características psicológicas claras, humanas, definidas que pertençam a um género ou ao outro. De novo, isso haveria de conduzir a um padrão demasiado rígido para ao desenvolvimento da espécie, e proporcionar-lhes padrões de comportamento demasiado especializados que não lhes permitiria que que superassem enquanto espécie – em particular com as muitas variedades de agrupamentos sociais possíveis.
Muitos testes psicológicos mostram-lhes apenas o retracto actual de machos e fêmeas, apresentadas desde a infância em particular quanto às crenças sexuais. Tais crenças programam a criança desde a infância, evidentemente, pelo que na idade adulta se comportam de determinado modo. O homem parece sair-se melhor nas matemáticas, assim como no campo das actividades mentais que se prendem com a lógica; ao passo que a mulher sai-se melhor no contexto social, no desenvolvimento do valor e dos relacionamentos pessoais. O macho revela-se melhor nas ciências, enquanto a fêmea é considerada intuitiva.
Deveria tornar-se óbvio para muitos dos meus leitores que isso traduz um comportamento adquirido. Não podem ensinar um catraio a ser do “tipo macho silencioso e forte” e depois esperar que ele se notabilize tanto verbalmente como nas relações sociais. Não podem esperar que uma rapariga demonstre “um forte desenvolvimento do pensamento lógico” quando lhe é incutido que a mulher é intuitiva – que as intuições se opõem à lógica, e que ela precisa ser feminina, ou irracional, a todo o custo. Isso é bastante óbvio.
A criança, contudo, não nasce uma esponja, vazia e pronta a absorver todo o conhecimento, mas já se acha embebida no conhecimento. Algum ele virá à superfície e será usado conscientemente. Outro, não. Estou a querer dizer que em certa medida a criança no ventre está ciente das crenças e da informação da mãe, e que até certo ponto, é programada para se comportar de certo modo, ou para crescer de certa forma, em resultado.
Basicamente, a espécie é relativamente tão independente e dotada de tantos potenciais, que se torna necessário que as crenças da mãe lhe forneçam um tipo de estrutura no começo, para permitir que a criança concentre as suas capacidades nas direcções desejadas. Ela conhece, pois, antecipadamente o ambiente biológico, espiritual e social em que nasce. Encontra-se um tanto preparada para crescer num certo sentido – um sentido que é aplicável e adequado às suas condições.
Crenças concernentes à natureza sexual da criança são evidentemente parte do seu programa avançado. Não estamos aqui a referir-nos a padrões forçados de crescimento, nem a instruções biológicas ou psíquicas, impressas nela, pelo que qualquer divergência posterior provoque inevitável tensão ou sofrimento. O facto mantém-se de que a criança recebe padrões comportamentais, que suavemente a incitam no sentido de crescer em determinadas direcções. No aprendizado normal, claro está, ambos os progenitores incitam a criança a comportar-se de determinadas maneiras. Além disso, porém, determinados padrões gerais cultivados são biologicamente transmitidos à criança por intermédio dos genes. Certos tipos de conhecimento são transmitidos por via dos genes para além dos geralmente conhecidos, que têm que ver com as formações celulares etc.
A sobrevivência da espécie humana, conforme se desenvolveu, constitui muito mais matéria de crença do que é compreendida – por certas crenças serem agora intrínsecas. Elas tornaram-se biologicamente pertinentes e transmissíveis. Quero dizer outra coisa aqui, para além disso; por exemplo, uma transmissão telepática; a tradução de crenças em códigos físicos que depois se tornam sugestões biológicas, em resultado do que então se torna fácil para um catraio agir biologicamente de determinado modo, em vez de outro.
Certa mulher sentiu que a sua sobrevivência biológica dependia do cultivo de certos atributos em favor de outros, por exemplo, e depois essa informação torna-se informação cromossômica, tão vital para o desenvolvimento de novos organismos quanto qualquer outra informação física que envolva estrutura celular. A mãe também fornece o mesmo tipo de informação a um rebento do sexo masculino. O pai contribui com a sua parte em cada um dos casos. Ao longo das gerações, pois, certas características parecem bastante naturalmente masculinas ou femininas, mas isso variará em certa medida de acordo com as civilizações e as condições do mundo. Mas como cada indivíduo é altamente singular, estes modelos destinados ao comportamento variam. Eles podem de facto ser alterados numa geração, por a experiência de cada pessoa alterar a informação original. Isso proporciona uma certa liberdade de acção que é importante.
A criança, além disso, utiliza essa informação somente como orientação; como uma premissa com base na qual baseia o comportamento inicial. À medida que a mente se desenvolve, a criança imediatamente começa a questionar as premissas iniciais. Esse questionamento de premissas básicas constitui uma das grandes divisões existentes entre vós e o mundo animal. A psique contém, pois, uma vez mais nos vossos termos, características femininas e masculinas. Elas são unidas, por assim dizer, na personalidade humana com uma enorme liberdade e em diversas proporções.
Tão simples quanto posso expô-lo, o amor constitui a força de que o ser procede, e iremos considerar esta afirmação de modo muito mais completo posteriormente. O amor busca a expressão e a criatividade. A expressão sexual é um dos meios por que o amor busca a criatividade. Contudo, dificilmente é o único. O amor descobre expressão por intermédio das artes, da religião, da diversão, e das acções de auxílio aos demais. Não pode ser confinado unicamente à expressão sexual, nem se poderá definir regras quanto à frequência com que adultos normais devam expressar-se sexualmente. Muitos homens rotulados de homossexuais por eles próprios ou pelos demais, têm desejo de ser pais. As suas crenças e as da vossa sociedade levam-nos a imaginar que devam ser sempre heterossexuais ou homossexuais. Muitos sentem o desejo por mulheres que também é inibido. A orientação masculina ou feminina que têm limita-os por formas que nem compreendem. Por exemplo, em muitos casos o pai “homossexual” amável tem uma ideia inata melhor da masculinidade do que um macho heterossexual que acredite que os homens devam ser cruéis, insensíveis e competitivos. Contudo, ambas essas imagens são estereótipos.
O amor pode ser legitimamente expressado por intermédio das artes. O que não quer dizer que uma pessoa assim esteja a reprimir a sexualidade em qualquer dos casos, e a furtar-se da sua energia destinada à produção criativa – embora, evidentemente esse possa ser o caso. Muitos artistas naturais em qualquer campo que seja normalmente expressam o amor por meio de tais empenhos criativos, em vez de actos de cariz sexual. Isso não quer dizer que tais pessoas jamais tenham encontros sexuais agradáveis, ou mesmo de natureza duradoura. Quer dizer que o impulso do seu amor é, no geral, expressado por intermédio da arte, através da qual busca uma afirmação que fale por outros que não os termos corporais.
Um grande artista em qualquer campo ou em qualquer época sentirá instintivamente uma natureza privada da pessoa que é mais elevada do que a identidade sexual particular. Enquanto equipararem a identidade à vossa sexualidade, limitarão os potenciais do indivíduo e da espécie. Cada um no geral achará mais fácil operar como macho ou fêmea, lésbica ou homossexual, mas cada um é principalmente bissexual. A bissexualidade implica tanto a parentalidade quanto implica as relações lésbicas ou homossexuais. Aqui mais uma vez, os encontros sexuais são parte natural da expressão do amor, mas não constituem o limite da expressão do amor.
Muitos relacionamentos excelentes de cariz não sexual são negados devido às conotações atribuídas ao lesbianismo ou à homossexualidade. Muitos relacionamentos heterossexuais são igualmente negados àqueles que são rotulados de não heterossexuais, quer por eles próprios quer pela sociedade. As pessoas assim rotuladas muitas vezes sentem-se impelidas com base na perfeita confusão a expressar o seu amor unicamente através de actos sexuais. Elas sentem-se forçadas a imitar aquilo que pensam ser o macho ou a fêmea natural e de vez em quando acabam com caricaturas ridículas. Estas criaturas enfurecem aqueles assim são imitados – por carregarem tais insinuações da verdade, e assinalarem com tanta esperteza os exageros do masculino e do feminino que muitos heterossexuais prenderam às suas próprias naturezas.
Em certos períodos históricos era desejável em termos práticos que um homem tivesse muitas mulheres para que, se ele perecesse na guerra, o seu germe pudesse ser plantado em muitos úteros – em particular em épocas em que doenças atingissem homens e mulheres muita vez no começo da idade adulta. Quando as condições físicas eram adversas, tais tradições sociais muitas vezes emergiam. Em épocas de excesso de população, as chamadas tendências homossexuais e lésbicas vinham à superfície, mas também tinham a tendência para expressar o amor por outras que não a via física, e o surgimento de amplas questões e desafios sociais a que os homens e as mulheres pudessem lançar as suas energias. Há porções da Bíblia que se “perderam” que têm que ver com a sexualidade e com as crenças que Cristo tinha com respeito a ela, que foram consideradas blasfemas e que não chegaram até vós através da história.
Uma vez mais, é natural expressar o amor pelo acto sexual – natural e bom. Porém, não é natural expressar o amor somente através do acto sexual. Muitas das ideias sexuais que Freud tinha não reflectiam a condição natural do homem. Os complexos e as neuroses esboçados e definidos são produto das vossas tradições e crenças. Iremos naturalmente encontrar certa comprovação deles no comportamento examinado. Muitas das tradições procedem dos Gregos, dos grandiosos dramaturgos Gregos, que de maneira muito bela e trágica apresentavam a qualidade da psique conforme se evidenciava à luz das tradições Gregas.
O filho não busca, naturalmente, “destronar” o pai. Busca imitá-lo; ele busca ser ele mesmo de forma tão plena quanto lhe parece que o seu pai tenha sido. Conta ir além dele próprio e das suas capacidades tanto por ele como pelo seu pai. Em criança (o seu pai) certa vez pensou que o seu pai era imortal, em termos humanos – e que não podia errar. O filho procura vingar o pai ao não cometer qualquer erro, e porventura conseguindo ser bem-sucedido onde pareça que o seu pai tenha fracassado. É muito mais natural o macho tentar vingar o pai em vez de o destruir, do que envejá-lo em termos negativos.
O filho é simplesmente a criança do sexo masculino. Ela não sente ciúme do pai por causa da mãe, como geralmente é suposto. A criança do sexo masculino não possui uma identidade tão focada na sua masculinidade. Não estou a dizer que as crianças não tenham uma natureza sexual desde que nascem. Elas simplesmente não se focam na sua masculinidade ou feminilidade do jeito que é suposto. Para a criança do sexo masculino o pénis é algo que lhe pertence pessoalmente do mesmo modo que um braço ou uma perna. Ela não o considera uma arma. Ela não tem ciúme do amor que o pai sente pela mãe, por compreender perfeitamente que o amor que ela sente por ele é igualmente intenso. Ela não deseja possuir sexualmente a mãe da forma que os adultos geralmente supõe. Ela não entende esses termos. Poderá por vezes sentir ciúme da atenção, mas isso não representa um ciúme sexual conforme é entendido nos termos convencionais. As crenças que vocês têm cegam-nos com respeito à natureza sexual da criança. Elas desfrutam dos seus corpos. Elas sentem estímulo sexual. Contudo, as conotações psicológicas, não são aquelas que lhes são atribuídas pelos adultos.
As crenças que envolvem a rivalidade inerente que o filho sente pelo pai, e a necessidade de o derrubar, seguem ao invés padrões de cultura e de tradição, económicos e sociais, em vez de biológicos ou psicológicos. Tais ideias servem de explicações convenientes para todo comportamento que não seja própria ou biologicamente pertinente.
De certo modo, a humanidade lida com diversas matérias que predominantes em diferentes alturas. Poderão haver algumas menores que se entrecruzem, mas a natureza da personalidade, da religião, da política, da família e das artes – tudo isso é considerado à luz da matéria predominante. Nos termos comuns da história, a humanidade tem vindo a experimentar o seu próprio tipo de consciência, e conforme eu já mencionei muita vez, isso necessitava de uma divisão artificial entre o sujeito e o observador – natureza e homem – e trouxe uma situação em que a espécie chegou a considerar-se aparte do resto da existência.
Aquilo que pensam ser características masculinas votadas para o ego são simplesmente aqueles atributos humanos que a espécie encorajou, trouxe a um primeiro plano, e enfatizou. Usando-os na verdade enquanto linhas de orientação, vocês viram o vosso mundo e formaram as vossas culturas nessa medida. Há algumas excepções dignas de nota, mas aqui falo historicamente do mundo Ocidental dotado da herança Romana e Grega que teve. Os vossos deuses tornaram-se, pois, masculinos; competitivos. Vocês viram a espécie em oposição à natureza, e o homem em oposição ao homem. Vocês consideram as tragédias Gregas grandiosas por elas representarem um firme eco das vossas crenças. O homem é visto em oposição na forma mais imediata, ao seu próprio pai. Os relacionamentos familiares tornam-se num espelho dessas crenças, que depois passam a ser, evidentemente, considerados declarações de facto respeitantes à condição humana. Por conseguinte, vocês possuem um conceito de masculino e feminino bastante polarizado.
Aquelas características que consideram femininas são, por conseguinte, aquelas que não predominaram por representarem a fonte da natureza de que a espécie procurava libertar-se. Em certo sentido esse foi um drama verdadeiro, criativo e sexual – uma vez mais de elevada pretensão, por a seu modo a consciência da espécie estar a apostar alto, e o drama precisar mostrar-se credível. Ela buscava a multiplicação da consciência, e formava novos rebentos a partir da sua própria fonte. Ela tinha que fingir não gostar e repudiar essa fonte do mesmo modo que um adolescente pode momentaneamente desviar-se dos seus pais a fim de encorajar a independência.
Antes do chamado florescimento das culturas Grega e Romana, a consciência ainda não tinha feito essa especialização. Existiam deuses e deusas em abundância, e divindades em cujas naturezas o feminino e o masculino se misturavam. Tratava-se de divindades parte humanas e parte animais. A espécie, pois, ainda não tinha assumido o tema que tem predominado na cultura Ocidental. Tais mudanças ocorreram inicialmente nas histórias que os homens compunham acerca das divindades. Ao se divorciar a espécie da natureza, também os deuses animais começaram a desaparecer. O homem primeiro mudou os seus mitos e depois alterou a realidade que os reflectiam.
Antes, procediam a diversos tipos de divisão do trabalho, mas tinham ampla liberdade para a expressão sexual. Os filhos eram parte necessária da família, por a família constituir um agrupamento de gente que tinha uma noção de pertença mútua, e que cooperava na busca de alimento e de abrigo. Relações homossexuais ou lésbicas, conforme vocês as designam, existiam livremente, e em simultâneo. Eram consideradas pertinentes quer dotadas ou não de expressão sexual, e serviam como fortes laços de fraternidade ou irmandade.
Quando vocês observam o reino animal, também o fazem por intermédio das crenças sexuais especializadas que têm, e estudam o comportamento do macho e da fêmea em busca de padrões de agressividade, de ciúme territorial, de passividade, de instintos maternais, etc. Essas formas de especialização do interesse deixam-nos cegos com respeito às vastas dimensões que o comportamento animal encerra. Até certo ponto, os chamados instintos maternais pertencem ao macho do mesmo modo que à fêmea em toda a espécie em que possam ser evidenciados. Os animais têm relações estreitas, quer dotadas de expressão sexual ou não, com membros do mesmo sexo. Amor e devoção não são prerrogativas de nenhum sexo ou espécie.
Em resultado, vocês vêm na natureza apenas aquilo que querem ver, e fornecem a vós próprios um padrão ou modelo da natureza que se ajuste às vossas crenças. O amor e a devoção são amplamente encarados como características femininas. Sociedades e organizações como Igreja e Estado são vistas como masculinas. Não é tanto que o masculino e o feminino sejam considerados iguais quanto o facto dos elementos masculino e feminino de cada um precisarem ser libertados e expressados. Alguns de vós sentir-se-ão de imediato aborrecidos ou alarmados ao pensar que eu esteja, evidentemente, a referir a expressão sexual. Mas isso é apenas uma porção de tal expressão. Mas o que estou a dizer é libertar em cada pessoa as grandiosas características e capacidades humanas que habitualmente veem a sua expressão negada, por serem atribuídas ao sexo oposto.
No vosso presente quadro, e devido à especialização vigente que se verifica entre macho-fêmea – a orientação masculina, a implicação de que o ego seja masculino e a psique seja feminina – vós forçais em vós próprios enormes divisões em que em termos operacionais o intelecto parece estar separado das intuições, e estabelecem uma situação em que os opostos parecem aplicar-se onde nenhum existe. Quando pensam num cientista, a maioria de vós pensará num homem intelectual, pensador, “objectivo” que se esforça por não se mostrar emotivo, ou por se identificar com o tema que examina ou estuda.
Parece haver uma divisão entre ciência e religião, por até mesmo a religião organizada possuir uma base intuitiva. O cientista masculino muita vez envergonha-se por usar as suas intuições, não só por elas parecerem ser contrárias ao que é científico, como também femininas. Aquilo com que tal indivíduo se preocupa é com o que pensam da sua masculinidade. Parecer “ilógico” constitui um “crime” científico – não tanto devido a ser um atributo não científico, mas por ser considerado um atributo feminino. A ciência seguiu a orientação masculina e tornou-se no seu epítome. Até ao presente, a ciência tentou de uma forma consistente passar sem as chamadas qualidades femininas. Divorciou o conhecimento da emoção, a compreensão da identificação, e realçou a sexualidade em prejuízo da pessoa. Em certa medida, alguns indivíduos na ciência conseguem misturar as chamadas características macho e fêmea. Quando o fazem, as aparentes oposições e contradições desaparecem. Seja em que grau for, mais do que os seus contemporâneos, não permitem que os seus papéis sexuais os ceguem psicologicamente. Por isso, encontram-se mais aptos a combinar razão e moção, intuições e intelecto, e assim a inventar teorias que reconciliem anteriores contradições. Unem, expandem e criam, em vez de diversificarem.
Einstein foi uma dessas pessoas no campo das ciências. Conquanto se achasse contaminado em certa medida pelas crenças de cariz sexual convencionais, ele ainda sentia a sua pessoa de tal modo que de boa vontade tirava proveito de características consideradas femininas. Em jovem, em particular, ele rebelara-se contra a aprendizagem e a orientação votadas ao masculino. Essa rebelião foi psicológica – ou seja, ele preservou uma orientação masculina aceitável em termos da actividade sexual, mas não restringiria a sua mente e alma com tal absurdo. O mundo sentiu o resultado das suas enormes capacidades intuitivas, e da sua devoção. Devido à situação em que o mundo se encontra, e à generalizada orientação masculina que a ciência assume, os resultados do seu trabalho foram amplamente postos ao serviço da manipulação e do controlo.
Geralmente, razão e intelecto são, pois, considerados qualidades masculinas, e as estruturas da civilização, da ciência, e de um mundo organizado. As intuições e os impulsos são considerados erráticos, duvidosos, femininos e algo a ser controlado. O mundo existe por causa da ordem espontânea. A civilização teve início por causa do impulso que as pessoas sentiam para estar juntas. Ela cresceu espontaneamente e chegou a traduzir-se pela ordem. Vocês só veem o exterior de muitos processos por o vosso ponto de vista objectivado não lhes permitir uma identificação que lhes revelaria mais. Parecer-lhes-á, pois, que todos os sistemas por vezes se desmembrem – percam a ordem ou caiam no caos. Vocês aplicam essa crença aos sistemas físicos e aos psicológicos. Em termos de sexo, vocês insistem num quadro que lhes mostra um crescimento numa identidade sexual, num enfoque claro, e depois na velhice, num decrescimento da clara identificação sexual que se torna numa “desordem sexual.” Não chega a ocorrer-lhes que a premissa ou enfoque original, a identificação da identidade com a natureza sexual, seja “desnaturada.” São, pois, vocês quem forma a estrutura de que brota o vosso julgamento. Em muitos casos a pessoa é mais verdadeira para com a sua identidade na infância ou na velhice, quando lhe é concedida uma maior liberdade individual, e os papéis sexuais se tornam mais flexíveis.
Qualquer exploração aprofundada do ser conduzirá a áreas que confundirão as crenças convencionais que têm sobre a sexualidade. Descobrirão uma identidade, uma identidade psicológica e psíquica, que é nos vossos termos masculina e feminina, uma em que aquelas capacidades de cada sexo são ampliadas, libertadas e expressadas. Elas poderão não ser assim largadas na vida normal, mas irão conhecer as dimensões mais significativas da vossa própria realidade, e pelo menos no estado dos sonhos captar um vislumbre do ser que transcende a orientação sexual unilateral. Um tal encontro com a psique é habitualmente satisfeito por grandes artistas ou escritores, ou por místicos. Esse tipo de realização é necessário se alguma vez transcenderem a estrutura dos aparentes opostos com que o vosso mundo se vê envolvido.
A orientação sexual excessivamente específica reflecte, pois, uma divisão básica na consciência. Ela não só separa o homem das suas próprias intuições e emoções em certa medida, ou a mulher do seu próprio intelecto, como efectivamente proporciona uma civilização em que mente e coração, facto e revelação, surgem completamente divorciados. Até certo ponto, toda a gente está em pé de guerra com a psique, por todas as características humanas de uma pessoa precisarem ser negadas a menos que se enquadrem junto daqueles que são considerados normais com respeito à identidade sexual. Num ou noutro grau na vida ordinária, vocês acabam na existência prática com caricaturas sexuais. Vocês não compreendem o que a verdadeira masculinidade ou feminilidade sejam. Veem-se, em vez disso, forçados a concentrar-se num tipo de diversidade superficial. E em resultado disso, os reflexos do cisma sexual contaminam todas as vossas actividades, mas acima de tudo, limita-lhes a realidade psicológica.
Dado que valorizam o desempenho sexual no mais limitado dos termos, e o usam amplamente como um foco de identidade, então tanto os vossos velhos quanto os vossos jovens sofrem consequências que não são tanto o resultado da idade quanto do preconceito sexual. Será interessante notar que tanto o velho quanto o jovem se encontram fora dos vossos quadros de organização. Os jovens são muito mais despreocupados nas suas ideias antes de aceitarem papéis sexuais, e os velhos são mais livres nos seus por terem descartado os seus papéis sexuais. Eu não disse que velhos e jovens não tenham expressão sexual – mas que ambos os grupos não se identificam com os seus papéis sexuais. Mas claro que existem excepções. Porém, se incutirem no homem ou na mulher que a identidade seja uma questão de desempenho sexual, e que esse desempenho deva cessar a determinada idade, então o sentido da identidade poderá igualmente começar a desintegrar-se. Se as crianças sentirem que a identidade dependa de tal desempenho, então começarão a representar tão rápido quanto possível. Elas comprimirão a sua identidade em vestes sexuais e a sociedade sofrerá por causa dos grandes impulsos criativos do intelecto crescente e as intuições serão divididas por altura da puberdade, precisamente quando serão necessárias.
O ideal seria que o macho ou fêmea adultos se regozijassem com a expressão sexual e encontrassem uma orientação generalizada, mas também se deleitassem com uma identidade psíquica e psicológica maior que experimentasse e expressasse todas as grandiosas capacidades humanas de mente e coração, que se esparramasse sobre quaisquer divisões artificiais.
Vocês atribuíram, pois, rótulos sexuais ao intelecto e às emoções, de modo que elas lhes parecem contrários. Tentaram dividir características mentais e emocionais entre os dois sexos, forçando um comportamento estereotipado. Uma vez mais, o macho que de determinada forma seja artisticamente ou intuitivamente dotado muitas vezes considerava-se comummente a ele próprio como homossexual, quer o fosse ou não, por as suas características emocionais ou mentais parecerem enquadrar-se no sexo feminino e não no sexo masculino.
A mulher que demonstrasse ter interesses que fossem além daqueles que fossem aceitáveis como femininos, encontrava-se frequentemente na mesma posição. Contudo, por o intelecto e as emoções serem considerados tão separadamente, as tentativas por expressar capacidades intuitivas habitualmente resultavam num comportamento “irracional.” Em determinados círculos está agora na moda negar as capacidades intelectuais em favor do sentimento, da sensação, ou dos actos intuitivos. Os interesses intelectuais tornam-se assim suspeitos, e o recurso à razão é considerado um fracasso. Em vez disso, claro está, o comportamento intelectual e intuitivo deviam misturar-se na perfeição. Do mesmo modo vocês procuraram forçar a expressão do amor numa pura – ou exclusiva – orientação sexual. Uma carícia afectiva ou beijo entre membros do mesmo sexo são geralmente considerados inadequados. Os tabus incluem a maior parte dos aspectos do sentido do toque associados ao corpo humano. O toque é de tal modo considerado basicamente sexual que o mais inócuo dos toques de qualquer porção do corpo é considerado potencialmente perigoso. Por um lado especificam demasiado no uso que fazem do termo “sexualidade”; No entanto, por outro lado, e nesse contexto, vocês sentem que todo tipo de afeição deva naturalmente conduzir à expressão sexual, se derem azo a isso. As vossas crenças fazem com que essa eventualidade sexual surja como facto da experiência.
Isso também os força a resguardar cuidadosamente a vossa vida emocional. Em resultado, qualquer demonstração de amor é em certa medida inibido a menos que possa legitimamente encontrar expressão sexual. Em muitos casos o próprio amor parece errado por implicar expressão sexual em alturas em que essa expressão não é possível, ou sequer desejada. Algumas pessoas têm uma enorme capacidade de afecto, devoção e lealdade que haveriam naturalmente de encontrar expressão por muitos modos diversificados – em amizades fortes e duradouras, devoção a causas em que acreditem, em vocações em que auxiliem os outros. Podem não se sentir particularmente orientados para o sexo, que isso não quer dizer que inibam a sua sexualidade. É patético e ridículo que eles creiam que devam ter relações sexuais com frequência na sua juventude, ou que devam definir padrões de normalidade contra os quais devam medir a sua experiência sexual.
De facto a sociedade ocidental tentou forçar toda a expressão do amor e da devoção na actividade sexual, ou então bani-la por completo. O desempenho sexual é considerado a única forma segura de usar o enorme potencial das emoções humanas. Quando lhes parece que a sociedade se torna licenciosa, em muitos aspectos acha-se mais contida e inibida. Isso significa que todas as opções à excepção da liberdade sexual lhe foram negadas. A enorme força do amor e da devoção afastam-se das áreas pessoais da criatividade individual por intermédio do trabalho intencional. São retiradas da expressão por meio do governo ou da lei. É-lhes negada a expressão por meio das relações pessoais significativas, e forçadas a uma expressão estreita através de uma sexualidade que então de facto se torna insignificante.
Tem sido referido por certas mulheres que trabalham por uma “igualdade de direitos” que a espécie só usa metade do seu potencial ao suprimir as capacidades das mulheres. Em termos mais amplos, porém, todo o indivíduo sofre quando a identidade é definida essencialmente como questão de orientação sexual. Geralmente, haverá uma orientação sexual generalizada específica de natureza biológica, mas as características mentais e emocionais humanas não são simplesmente atendidas de acordo com o sexo. Tal identificação corta o indivíduo pela metade, de modo que cada pessoa usa apenas uma metade do seu potencial. Isso provoca um cisma em todas as vossas actividades culturais.
Por um lado foi-lhes inculcado que a expressão sexual é errada, constitui um mal, ou é degradante. Também lhes disseram que, se não derem expressão à vossa sexualidade, estarão a exibir uma repressão antinatural, e mais serão levados a pensar que deverão acima de tudo forçar-se a desfrutar dessa natureza sexual ambígua. A velha ideia de que as boas mulheres não desfrutam do sexo dificilmente desapareceu. No entanto ensinam às mulheres que as expressões naturais do amor, as carícias festivas são inadequadas a menos que deem seguimento imediato ao clímax sexual. É inculcado nos homens que devem contar os méritos de acordo com o vigor do estímulo sexual que tenham e as suas conquistas. É-lhes ensinado que devem inibir a expressão do amor como fraqueza que é, e ainda assim, a desempenhar sexualmente com a máxima frequência possível. Num tal clima sexual, pouco será de admirar que não fiquem confusos.
O cisma sexual tem início quando ensinam ao menino a identificar-se exclusivamente com a imagem do pai, e quando à menina é ensinado a identificar-se com a imagem da mãe – porque aí vocês têm a culpa insidiosamente incorporada no processo de crescimento. As crianças de ambos os sexos identificam-se naturalmente com ambos os pais, e qualquer método forçado de orientar exclusivamente a criança para tal identificação unilateral é limitativa. Sob tais condições, sentimentos de culpa imediatamente começam a despertar sempre que tal criança sentir afiliações naturais pelo outro progenitor.
Quanto mais prementes forem essas inclinações, mais a criança será dirigida no sentido de as ignorar na vossa sociedade, dado que certas características, uma vez mais, são consideradas exclusivamente masculinas ou femininas. A criança também é coagida no sentido de ignorar ou de negar essas porções da personalidade que correspondem ao sexo com que não pode identificar-se. Essa compressão da personalidade num molde sexual começa, pois, cedo. A culpa continuada é gerada por a criança saber infalivelmente que a sua própria realidade transcende tal orientação simples. Quanto mais capaz for a criança de forçar tal identificação artificial, maior será o sentimento de rebelião interior que a assaltará. A falta de um pai ou mãe “adequados” terá “salvo” mais crianças do que terá prejudicado. A psique, com os seus grandiosos dons sempre se sente frustrada e tenta tomar medidas contrárias. Porém, as vossas escolas contribuem para o processo, de modo que as áreas de curiosidade e de aprendizado se tornam separadas para meninos e meninas. O “ela” que se acha incluso no menino na realidade representa porções da sua personalidade que não têm expressão – não devido a qualquer natural predominância de características mentais ou emocionais que se verifiquem acima de outras, mas devido às especializações. O mesmo se aplica ao “masculino” que se acha incluso na menina. Vocês aceitaram essa versão da natureza da pessoa, uma vez mais, em linha com as ideias que têm da natureza da consciência. Essas ideias estão a mudar, e à medida que isso sucede a espécie precisa aceitar a sua verdadeira pessoa. Quando isso suceder, o vosso entendimento permitir-lhes-á vislumbrar a natureza da realidade dos deuses que vocês identificaram ao longo das eras. Mas não mais precisarão revesti-los de formas sexuais limitadas.
Os vossos conceitos religiosos mudarão consideravelmente, assim como as imagens que se lhes acham associadas. Religião e governo tiveram uma aliança irrequieta. Os machos governaram ambas (ainda o fazem) contudo essas organizações religiosas principais pelo menos reconheceram a sua base intuitiva. Elas procuraram constantemente manipular a subestrutura da religião pelas mesmas formas aceitáveis masculinas com que os governantes dos governos sempre costumam inibir e usar as emoções.
A heresia foi considerada feminina e subversiva por poder ameaçar destruir as estruturas estabelecidas ao redor da expressão aceitável do fervor religioso. Os elementos femininos na Igreja são sempre considerados suspeitos, e nos primeiros tempos do Cristianismo viveu-se uma certa preocupação, não fora a Virgem ser considerada uma deusa. Houve rebentos do Cristianismo que não sobreviveram, em que isso se verificou. Desenvolvimentos paralelos na religião e nos governos sempre fazem eco do estado de consciência e dos seus objectivos. Práticas “pagãs,” que gozavam de uma maior liberdade de identificação e expressão sexual, continuaram bem até o décimo sexto século, e as chamadas doutrinas clandestinas heréticas do oculto tentaram encorajar o desenvolvimento da intuição pessoal.
Contudo, todo desenvolvimento psíquico verdadeiro está destinado a conduzir a uma compreensão da natureza da psique que é de longe mais vasta para tais confusões da identidade básica com a sexualidade. O próprio conceito da reincarnação mostra claramente a mudança de orientação sexual, e a existência de um aspecto do ser que se acha afastado da sua orientação sexual, mesmo enquanto é igualmente expressado através de uma dada posição sexual. Em boa medida, as crenças sexuais são responsáveis pelo bloqueio da percepção da reincarnação. Tal “memória” haveria de os familiarizar com as experiências mais difíceis de correlacionar com os vossos papéis sexuais actuais. Essas outras existências num outro sexo acham-se presentes para a psique, inconscientemente. Elas são uma porção da vossa personalidade. Assim sendo, ao se identificarem de forma tão específica com o vosso sexo, vocês também inibem memórias que poderão limitar ou destruir tal identificação.
A Igreja não restringiu tanto a sexualidade dos seus padres ou a expressão da sexualidade em séculos anteriores quanto procurou divorciar a expressão do amor e da devoção da sexualidade. Uma elevada percentagem de padres da Idade Média, por exemplo, tinha filhos legítimos. Eles eram considerados produto da carne fraca e lasciva – o que era suficientemente mau, mas considerando o estado da queda do homem, era aceite como lapsos compreensíveis. Tais situações eram negligenciadas, se não mesmo toleradas, conquanto o amor e a devoção do padre pertencessem ainda à Igreja e não fossem desperdiçados com a mãe de tais rebentos. As freiras eram mantidas em posições subservientes. No entanto, os conventos também serviam de refúgio para muitas mulheres, que conseguiam educar-se até mesmo sob tais condições. Um bom número de freiras carregava, evidentemente, a semente desses padres, e dava à luz filhos que agiam como servos em mosteiros, e por vezes até mesmo nos conventos. No entanto, deram-se inúmeras rebeliões da parte de freiras de vários conventos, por essas mulheres descobrirem que operavam com eficiência bem embora em ambientes de segregação. Elas começaram a questionar toda a estrutura da Igreja e a posição que assumiam nela. Algumas partiram em grupos, em particular em França e em Espanha, e formaram as suas próprias comunidades.
A Igreja, porém, nunca encontrou um método adequado para lidar com essas mulheres, ou com os elementos intuitivos das suas próprias crenças. O medo que tinha de que pudesse emergir uma deusa era renovado toda a vez que outra aparição da Virgem num ou noutro canto do mundo. Também havia mulheres que passavam por monges, que levavam vidas de natureza solitária e que aguentavam durante anos. Nenhum trabalho carrega os seus nomes femininos, por elas usarem nomes masculinos. Preciso não será dizer que relações lésbicas e homossexuais floresciam em tais ambientes. A Igreja fechava os olhos conquanto tais relações tivessem um carácter sexual. Somente quando o amor e a devoção se desviavam da Igreja chagava a ser motivo de preocupação real. Isso resultou, evidentemente, numa ênfase excessiva do dogma – nas regras e na ritualização que precisavam ser coloridas e ricas por ser a única saída permitida em que a criatividade poderia ser mantida.
A Igreja acreditava que a experiência sexual pertencia aos chamados instintos baixos ou animais, assim como o amor do costume. Por outro lado, o amor e a devoção espiritual não podiam ser manchados pela expressão sexual, e assim, todo relacionamento intenso se tornava numa ameaça para a expressão da piedade.
Vocês sentem-se obcecados com o comportamento sexual quando o proscrevem como um mal ou como coisa desagradável ou degradante, o encobrem, e fingem que seja primordialmente “animalista.” Também ficam obcecados com o comportamento sexual quando proclamam os seus méritos de forma exagerada da praça do mercado. Sentem-se obcecados com o comportamento sexual quando estabelecem proibições estritas irrealistas sobre a sua expressão, assim como quando estabelecem padrões igualmente irrealistas de desempenho activo para aos quais se espera que a pessoa normal obedeça. A liberdade sexual, não envolve, pois, nenhuma promiscuidade forçada em que os jovens, por exemplo, sejam levados a sentir-se anormais caso os seus encontros com o sexo oposto não os conduzam à cama.
Vocês começam a programar a actividade sexual quando a divorciam do amor e da devoção. Torna-se muito fácil, assim, para a Igreja ou para o estado reivindicar e atrair a vossa lealdade e amor não centrados, deixando-os na posse da expressão de uma sexualidade desprovida dos seus profundos sentidos. Não estou aqui a dizer que qualquer desempenho sexual seja “errado,” ou desprovido de sentido, ou degradado, caso não seja acompanhado pelos sentimentos do amor e da devoção. Contudo, durante um certo período de tempo a expressão do sexo seguirá as tendências do coração. Essas tendências tingirão, pois, a expressão sexual. Nessa medida, não será “natural” ter desejo sexual por alguém de quem não gostem ou que menosprezem.
As ideias sexuais de domínio e de submissão não têm qualquer parte na vida natural da vossa espécie, ou na dos animais. Uma vez mais, vocês interpretam o comportamento animal de acordo com as vossas próprias crenças. Domínio e submissão eram frequentemente usados na literatura religiosa em períodos em que o amor e a devoção se encontravam separados da sexualidade. Forma unificados somente por meio das visões ou experiências religiosas, pois somente o amor de deus era visto como “suficientemente bom” para justificar uma sexualidade que de outro modo sentiam ser animalista. Em vez disso, termos como “domínio” e “submissão” têm que ver com áreas da consciência e do seu desenvolvimento. Por causa da interpretação anteriormente mencionada neste livro, vocês adoptam uma linha proeminente de consciência que até determinado ponto se inclinava para o domínio da natureza. Vocês consideravam isso masculino em essência. O princípio masculino passou a estar ligado à terra e a todos os elementos da sua vida sobre os quais vocês enquanto espécie esperavam obter poder. Por conseguinte, Deus tornou-se masculino. O amor e a devoção que poderiam, noutro caso, estar associados às facetas da natureza e ao princípio feminino precisavam ser “afastados” de toda atracção natural para a sexualidade. Desse modo, a religião, fazendo eco do vosso estado de espírito, era capaz de tirar proveito dos poderes do amor e de os usar com propósitos de domínio. Eles foram orientados para o estado. A devoção e o amor de um homem representava um ganho político. O fervor era tão importante quanto o tesouro de um governo, por o estado poder contar com a devoção dos seus lugares tenente do mesmo modo que muitos fanáticos se esforçarão por uma causa sem receber qualquer paga.
Certas pessoas são naturalmente solitárias. Elas desejam levar vidas solitárias e sentem-se contentes. A maioria, contudo, têm necessidade de relações de proximidade que durem, por fornecerem tanto uma estrutura psíquica quanto social para o crescimento, a compreensão e o desenvolvimento pessoal. Bradar para os céus “Eu amo o próximo,” é coisa demasiado fácil, quando por outro lado não criam relacionamentos fortes e duráveis com os outros. É fácil reivindicar um amor idêntico por todos os membros da espécie, mas o amor requer uma compreensão que no vosso nível de actividade se baseia na experiência íntima. Não podem amar quem não conhecem – não a menos que diluam tanto a definição do amor que acabe por se tornar insignificante.
Para amarem alguém, precisam sentir apreço pela forma como essa pessoa difere de vós e dos outros. Precisam ter essa pessoa na ideia de modo que em certa medida se torne numa espécie de meditação – num enfoque amoroso sobre o outro. Quando experimentarem esse tipo de amor poderão traduzi-lo noutros termos. O próprio amor espalha-se, expande-se de modo que poderão ver os outros à luz do amor. O amor é naturalmente criativo e explorativo – quer dizer, vocês sentem vontade de explorar criativamente os aspectos do vosso amado. Até mesmo características que pareceriam de outro modo falhas alcançam um certo significado. Elas são aceites – são vistas, no entanto não fazem qualquer diferença. Por ainda serem atributos do amado, até mesmo as aparentes falhas são redimidas. O amado atinge proeminência acima de todos os outros.
O alcance do amor de um deus pode porventura conter na sua visão a existência de todos os indivíduos a uma só vez num olhar amoroso infinito que lance sobre toda a pessoa, e as veja a todas com as suas características e tendências peculiares. O olhar assim de um deus desses encantar-se-ia com a diferença que cada um apresentasse relativamente aos outros. Não seria como um amor generalizado, um olhar tipo papa de mingau, mas um amor baseado na plena compreensão de cada indivíduo. A emoção do amor leva-os mais para perto de uma compreensão da natureza de Tudo Quanto Existe (Deus). O amor incita à dedicação, ao compromisso. Ele especifica. Vocês não podem, por isso, insistir em que amam a humanidade e todas as pessoas por igual, se não amarem uma outra pessoa. Se não tiverem amor por vós, será igualmente difícil amar o outro.
Uma vez mais, o amor não está orientado para o sexo. Contudo, o amor naturalmente busca a expressão, e uma dessas expressões é através das actividades sexuais. Contudo, quando o amor e a sexualidade são artificialmente divididos, ou considerados antagonistas um em relação ao outro, surge toda a sorte de problemas. Os relacionamentos permanentes tornam-se mais difíceis de alcançar sob tais condições, e muita vez o amor encontra muito pouca expressão, enquanto um dos seus canais mais naturais se encerra. Muitas crianças dedicam a maior expressão do seu amor aos brinquedos, às bonecas, ou aos companheiros imaginários, por muitos padrões estereotipados já terem limitado outras expressões. O sentimento que nutrem pelos pais torna-se ambíguo em resultado dos procedimentos da identificação que lhes são impostos. Amor, sexualidade e recreação, curiosidade e características de exploração fudem-se na criança de uma maneira natural. Contudo cedo chega a conhecer que as áreas da exploração são limitadas, mesmo no que diz respeito ao seu próprio corpo. A criança não é livre de contemplar as suas próprias partes. O corpo cedo se torna território proibido, de modo que a criança sente que seja errado ter amor por si mesma, seja por que forma for. As ideias de amor tornam-se, pois, altamente distorcidas, assim como a sua expressão. Vocês não travam guerras pela causa da fraternidade do homem, por exemplo. Aqueles que se acham familiarizados com versões não distorcidas do amor achariam tal conceito impossível nas suas relações. Dos homens que são criados com vergonha dos lados “femininos” da sua natureza não se pode esperar que amem as mulheres, por eles verem nas mulheres, ao invés, os aspectos desprezados, temidos, e ainda assim os aspectos carregados da sua própria natureza, e se comportarem em concordância nos seus relacionamentos. Das mulheres a quem é ensinado a ter medo dos aspectos “masculinos” da sua natureza não se pode esperar que venham a amar os homens sequer, e o mesmo tipo de comportamentos acaba por resultar.
A chamada guerra dos sexos tem origem nas divisões artificiais que atribuem à natureza do ser. A realidade da psique vai além de tais mal-entendidos. A sua linguagem nativa geralmente escapa-lhes, mas acha-se estreitamente ligada ao que poderá ser livremente chamado de linguagem do amor.
Seth - Sessões 771 a 774 (Capítulos 4 e 5, do livro The Nature of Psyche)
Tradução: Amadeu António




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