sábado, 29 de outubro de 2016

AMBIENTE PÓS-MORTE



O AMBIENTE PÓS-MORTE, “POSSESSÃO,” APARIÇÕES E ESTADOS DE ESPÍRITO
 
Agora, o vosso mundo, a mim, parece-se quase com o negativo de uma fotografia, descarnado e revelando contornos e definições só que de uma natureza transparente. Preciso de interpretar as perspectivas que lhes parecem tão realistas e coloridas, por os meus sentidos não se encontrarem tão em sintonia com essas soluções neurológicas que fazem com que o mundo brote com vida.

Vez por outra a lembrança e a imaginação provocam uma súbita conexão e eu percebo uma cena particular, sabendo porém, que de certa forma constitui uma réplica de um dado retracto do espaço-tempo, só que não o retracto em si mesmo, e não consigo entrar nele. Quer dizer, muito embora alucine criativamente um ambiente terreno numa certa extensão limitada, ele não satisfaz directamente o do vosso mundo em absoluto, não obstante a realidade que tenha para mim. A percepção do vosso mundo é possível, mas sob uma fraca visão geral, por agora essa realidade constituir uma realidade fantasma para mim, as suas margens serem incertas, os seus movimentos se encontrarem desfocados, e as suas massas mais sólidas se acharem dotadas de um matiz transparente.

Percebo-o como perceberão um filme obscuro em que as sequências do tempo se misturam, a velocidade se revela incerta, em que ocorrem trespasses de certas imagens para outras e os sons são duplicados, e decorrem por vezes antes e por vezes depois das falas dos actores.

Tenho mais consciência dos desenvolvimentos generalizados que se deram desde a minha época do que dos específicos. Contudo, o mundo físico em que certa vez desempenhei a minha parte ainda me interessa, por as minhas ideias ainda se encontrarem vivas nele; e embora a sua vitalidade se tenha esbatido desde a minha morte, ainda satisfazem respostas nos vivos e estimulam as minhas próprias reacções. As ideias que expressei em vida continuam em movimento, sem mim, e despertam-me o interesse. Formam um padrão de energia, de interesse, e de investigação ainda ligado à parte de mim que as deu à luz. Nessa medida, mesmo agora o interesse que sinto por esse mundo é vívido.

Um mundo estranho para os mortos utilizarem, porventura, no entanto as ideias que tenho a esse respeito gozam de uma maior liberdade do que gozaram em vida, e não mais são restringidas pelas experiências da vida diária. Se a agudeza dos detalhes se perdeu, estou bastante habilitado a seguir amplos padrões de pensamento e de emoção com facilidade, percebendo-os um tanto acima da dureza da realidade do mundo, e que se elevam dele como cores multicoloridas de várias formas, cores, e variedades. Apesar de tudo, pois, não consigo seguir as ideias do mundo nem o clima emocional muito bem. Realidades ligadas à vossa própria experiência, mas invisíveis para vós, tornam-se então bastante nítidas do meu ponto de vista, ao passo que os acontecimentos vulgares de natureza física se tornam incertos e sombrios.

Consigo seguir os pensamentos das massas à medida que se formam acima do mundo, ao se misturarem com outros, e flutuarem em padrões por vezes luminosos, por vezes escuros ou obscurecidos, e consigo perceber a intensidade das emoções que os impelem. Como uma nuvem de chuva seguramente trará um aguaceiro, do meu ponto de vista torna-se óbvio que certos padrões de pensamento produzirão acontecimentos físicos adequados à sua natureza, de modo que é com um interesse considerável que assisto a esses padrões emocionais e mentais que cercam o mundo.

O amanhecer tem um brilho que não mais percebo, por não acordar todas as manhãs em cama nenhuma e não assistir ao despertar do sol por entre cortinas de janela nenhuma; contudo percebo o despertar de novas ideias, o brilho da paz ou da fé ou do contentamento à medida que cercam o mundo, e se elevam por entre as formas escuras da dúvida e do medo. E enquanto descanso, não mais durmo nos velhos moldes, embora possa fazê-lo, em função da experiência. Imediatamente a seguir à minha morte eu dormia por uma questão de hábito, mas gradualmente fi-lo cada vez menos à medida que as sensações que tinha do tempo se alteravam.

Essa alteração também deve ter surgido gradualmente, mas com toda a sinceridade, não me consigo lembrar exactamente como ocorreu. Passei por alguns períodos fantasmagóricos muito agradáveis em que poderão ter ocorrido ajustamentos. Tão pouco para mim se torna fácil descrever exactamente a forma como a minha experiência do tempo difere da vossa. Se lhes perguntasse como conseguem manter separadas as lembranças que têm, por exemplo, enquanto vivem cada uma em separado hoje, não saberiam como responder, porventura dizendo simplesmente que isso era conseguido por algum modo, e sem muito esforço consciente, baseando-se em determinados processos de aprendizagem que deverão ter tido lugar na primeira e segunda infância. Distinguem muito facilmente o passado do presente, e, com muito pouco conhecimento do futuro, precisam proceder a muitas computações deliberadas nessa área excepto na formação de planos de acção futura.
Da mesma forma, torna-se-me difícil dizer de que modo a minha experiência do tempo foi alterada. Consigo “ver” os padrões do pensamento do mundo conforme os descrevi, e as formas emocionais “a um só tempo” conforme poderiam ver as nuvens se estivessem acima da terra. Posso igualmente “ver” a minha própria vida da mesma forma, na sua inteireza conforme a conheci, mas também por formas com que não estava familiarizado na altura. 

Os acontecimentos da minha vida parecem-me a mim estar em aberto; vejo aquilo que fiz, mas também o que poderia ter feito, e posso perceber a energia que emiti em direcções que não assumi de uma forma consciente. Consigo, pois, perseguir a influência que causei, ver os milhares – não, milhões – de pessoas que influenciei, tal como cada um de vocês influencia a terra e a sua população em termos muito mais vastos do que percebem.

Cada contacto, directo ou não, conta e propaga-se ao exterior de forma que a vida de cada pessoa emite linhas de contacto que vão intersectar outras a um nível psíquico, mas de forma muito prática em termos psicológicos. De modo que, após a morte, seguir as pistas da influência que exercemos será talvez o mais fascinante dos empreendimentos.

Os olhos dos mortos acham-se efectivamente abertos por meio de experiências dessas, e isso provavelmente representa as contas prestadas nos julgamentos privados que Deus empreende, “o saldo final de contas,” etc. Porém, isso não comporta qualquer juízo implícito nesses termos, embora cada pessoa venha, obviamente, a interpretar a sua experiência de acordo com as crenças e características que possua. Talvez os acontecimentos em si mesmos sejam mesmo percebidos de modos completamente diferentes.

É impossível dizer quanto tempo isso leva em termos de tempo terreno, mas as dimensões interiores da experiência situam-se igualmente para além da descrição, por não existir nada na vida que se compare com a profundeza, amplitude, complexidade, ou intensidade de um evento psicológico caracterizado por diversos eventos como esse. Poderia compará-lo ao rastreio de um milhão de luzes a entrecruzar-se simultaneamente num céu nocturno enquanto um observador espantado na terra assiste hipnotizado, deslumbrado, a seguir cada tremular distante da luz pelos confins do universo, enquanto ao mesmo tempo sabe que cada tremeluzir – e que o tremeluzir uns dos outros – terá tido origem nos seus próprios pensamentos e terá existido nele e no céu ao mesmo tempo.

Assim são as trilhas da vida projectadas para o exterior e assim se intersectam com as dos outros, formando padrões de energia, produzindo novos relacionamentos, e desencadeando acções que jamais terão surgido à percepção terrena. Agora, por exemplo, parece impossível que eu estivesse tão minuciosamente ciente da energia e da extensão, das vastas consequências da minha própria vida. Não creio que pudesse ter compreendido, e muito menos percebido, que as vidas de todas as outras pessoas tivessem a mesma assombrosa dimensão de grandiosidade.

O mais interessante de tudo, porventura, é que essas linhas de vida começam antes do nascimento e continuam além da morte. Os cursos da minha própria vida ainda intersectam e influenciam os daqueles que se encontram vivos; e por meio do próprio conhecimento que tenho dos meus contemporâneos, os seus cursos de vida misturam-se igualmente com os meus e com as dos vivos igualmente, por as suas ideias ainda estarem relacionadas com as minhas ou são usadas por qualquer forma pelos vossos contemporâneos. Por regra, do vosso ponto de vista, os percursos de vida dos vivos são mais brilhantes e de uma maior intensidade do que os dos mortos, mas isso aplica-se unicamente no geral. Os percursos de vida dos mortos podiam ser comparados, digamos, a galáxias distantes, enquanto os dos vivos representariam o mundo que experimentam. Mas na realidade muitas vezes a intensidade de certos pensamentos e emoções é tão forte que permanecem altamente voláteis.
Nos vossos termos, a divisão entre vivos e mortos após a morte física tem pouco significado. Existem gradações de consciência, sim; divisões, umas a misturar-se com as outras. E combinações psicológicas tanto de identidade como de percepção que se tornam possíveis fora do sistema físico, mas não nele. Algumas pessoas voltam à vida física muitas vezes. Outras vivem uma vida ou duas de uma enorme intensidade e de seguida dão seguimento a ideias deste lado, e assistem à distância ao brotar das sementes físicas dessa criatividade.
No meu caso, cutuco, por meio deste manuscrito, com os meus dedos na “torta” de alguém, embora a meu convite, e acrescento certos ingredientes exóticos que de outro modo estariam em falta numa preparação que deve, não obstante, ter assento no peitoril da janela do vosso tempo (não meu) e ser apresentada e comida à mesa de um mundo em que posso somente passar por um convidado irreal num banquete que terei preparado em parte.

As comunicações entre os vivos e os mortos deverão ser sempre, quando muito, traduções. Nós não podemos intrometer-nos directamente. O conhecimento, a experiência, e o discernimento dos mortos acham-se disponíveis por toda a parte, por fazerem parte de uma linha de consciência que se acha em constante mudança e que entrecruzam o universo. Existem, claro está, divisões, e aqui preciso de novo recorrer ao uso de analogias com que estejam familiarizados, por as minhas linhas de comunicação principais se encontrarem “acima” da vossa atmosfera mental – sem querer que isso implique superioridade da minha parte, mas sugerindo a necessária separação. Assim existe uma “distância” a ser atravessada em tais comunicações; uma que torna as aparições directas muito improváveis.

Tais aparições assemelham-se mais a imagens projectadas de uma natureza transitória que não conseguem “ocupar” tempo nem espaço por muito tempo – traços mentais que não foram preenchidas pela consciência nem carne – mas que esboçam padrões espaciais em resposta a um comunicador que naturalmente existe num tipo de meio psicologicamente diferente.

Esse tipo de encontro torna-se difícil para o comunicador, por ele precisar adoptar um personagem ou uma identidade mais reduzida do que a mais completa que adopta após a morte, e em que se tem que comprimir num contexto pessoal agora demasiado reduzido, e relacionar-se com os vivos por formas que lhes sejam familiares, mas que terá superado. Não que o amor tenha sido superado, apenas o contexto mais reduzido em que foi experimentado, e muitas vezes após os detalhes procurados pelos parentes enlutados terem perdido a sua agudeza para os mortos, enquanto os padrões dos relacionamentos foram experimentados de maneiras mais profundas do que aqueles que os vivos conseguirão compreender.

Os mortos podem sentir-se impacientes em tais casos, e desse modo podem preferir encontros oníricos informais em que os vivos não atravanquem o ambiente mental com exigências de provas e detalhes que, para os mortos, sejam irrelevantes e um desperdício de oportunidades. Por certas condições precisarem fazer-se presentes antes mesmo de encontros oníricos poderem ocorrer, e geralmente os mortos satisfazem-se com uma comunicação menos directa, mas também menos perturbadora. Isso é frequentemente conseguido por meio da manutenção de um interesse geral, distante, e vivo e por mensagens reais de conforto, apoio, ou de inspiração, endereçados de uma forma anónima, geralmente transmitidas quando o beneficiário menos as espera, durante o sono, ou quando a mente se acha ocupada de outro modo. De outro modo, o efeito alarmante de tais encontros muitas vezes apaga a mensagem, exagera-a, ou distorce-a de uma forma ou de outra.

Os mortos ainda amam aqueles que amaram em vida, só que compreendem a emoção muito melhor do que o faziam antes, e de certa forma ainda difícil de expressar, não sentem saudades dos vivos, não se sentem ausentes dos vivos, somente presentes de uma forma completamente diferente que os vivos não conseguem sondar. Nesse sentido, claro está que têm vantagem, e é em prole do alívio da solidão dos vivos que os mortos comunicam, mesmo sabendo que tais comunicações podem deixar os vivos ainda mais ansiosos.

Os mortos a seu modo têm ciúmes da liberdade de que gozam, e por vezes as suas comunicações adoptam a forma de uma apressada mensagem do tipo: “Sim, eu estou bem,” bradadas por cima de um ombro mental. Certas pessoas esquecem de enviar cartas quando viajam, ocupadas como se encontram nas suas novas experiências. De modo similar, encontram-se de tal modo envoltos nas suas próprias aventuras que ignoram a persistência dos vivos, cujos pensamentos se elevam como papagaios mentais com lembranças, a dizer: “Porque não escreveste?”

Mas as aventuras dos “mortos” podem ser muito concentradas. Após a morte, por exemplo, aprendi truques de percepção que agora tomo como dado adquirido. Posso experimentar todas as fases da minha vida de uma forma expandida, usar uma memória intensificada que é capaz de recriar activamente acontecimentos e de me conceder a percepção de um acontecimento conforme certa vez o tenha experimentado – só que expandida de modo a incluir todos os detalhes pessoais que na altura me terão escapado, e os acontecimentos percebidos a nível subconsciente que davam expressão aos eventos físicos. Assim como posso ampliar as mesmas fases e experimentar, digamos, um certo Outono que de súbito se torna num ponto de intervenção em que as acções de todos os outonos da minha vida se achem contidas. Tais “truques” de percepção ampliam-se somente aos acontecimentos de ordem privada e não à história terrena.

A minha posição, se é que tal termo se presta à descrição da presente posição psicológica que ocupo, resulta dos meus próprios interesses, idiossincrasias e tendências. Nos vossos termos, sou ainda erudito e dado aos meus estudos, ao passo que outros se interessam pelas relações de carácter emocional e se envolvem em diferentes tipos de encontros tanto com o próprio ambiente como com o vosso.

A morte não torna o covarde num herói, nem o idiota num sábio, é verdade; contudo, tais juízos são, desde logo, altamente limitativos, e a morte não conduz um homem ao seu próprio domínio. Quer dizer, ele percebe as próprias características e capacidades com uma maior clareza, e após um choque de surpresa inicial, geralmente ele passa a ver-se por meio de uma compaixão mais generosa e viva, do que a que terá conseguido antes.

Na Terra poucos são os que se acham imbuídos de um propósito maldoso. A maioria dos crimes é cometida por aqueles que pretendem “fazer justiça,” e constitui o resultado de ideias e de emoções confusas que sufocam o conhecimento que o homem tem de si mesmo e dos outros, de modo que age com base na ignorância ou se deixa conduzir por uma paixão que é a única que se permite sentir. Essa paixão comporta igualmente todo o poder inibido das demais emoções que clamam no seu íntimo por expressão, e que à semelhança de um rio represado em época de cheias, irrompem na sua energia de uma forma desenfreada. Poucos são aqueles que cometem um acto maldoso com a intenção do mal; todavia, a menos que confundam o mal com o bem, ou o justifiquem como um meio para atingirem um fim “bom.” Assim, também na morte não existem homens “maus,” e como o entendimento que têm passa por um esclarecimento, não há necessidade de actos ignóbeis.

Tão pouco os mortos possuem os vivos, seja de que modo for. Os mortos acham-se plenamente cientes dos seus benefícios – da consciência que têm num corpo mental que não envelhece nem sofre decadência – e os equívocos que os vivos abraçam com respeito à possessão assentam principalmente na crença paroquial que têm nas vantagens superiores do seu estado sobre o dos mortos. Contudo, morta ou viva, a existência tem lugar inicialmente nos domínios mentais mais do que nos físicos, o que implica antes de mais estados de espírito. Tais estados de espírito assemelham-se a habitações mentais construídas por cada um, que formam uma atmosfera real em que toda realidade é experimentada.

Conforme as habitações de um dado bairro podem assemelhar-se na construção, no estilo, e na idade; e conforme as pessoas numa dada localidade podem sentir-se atraídas para elas devido o facto das características se enquadrarem nas suas, também as pessoas formam “bairros” ou atmosferas mentais e fazem alianças a níveis psicológicos e psíquicos, encontram amigos e companheiros mentais, por exemplo, que poderão nunca ter conhecido fisicamente. Em vida, as relações pessoais que temos são mais vastas do que supomos. Para além dos familiares, amigos, camaradas de trabalho e outros com os quais lidamos mais ou menos directamente, fazemos amizades com escritores que nunca teremos conhecido – contemporâneos ou aqueles da história passada - e a nossa vida interior torna-se povoada por todos quantos nos tenham influenciado fortemente de um ou de outro modo, por meio da leitura que fazemos ou outras experiências por que passamos. Um verso furtuito escrito por um autor favorito pode exercer um efeito maior em nós e provocar transformações que nos alteram a vida, tão mais vastas em intensidade que quaisquer afirmações feitas por familiares ou amigos. Ainda assim, em vida, ignoramos em grande medida esse tipo de intercâmbio mental.

Essa atmosfera interior da mente possui as suas próprias características e atrai a si outras afins. Uma vez esses ambientes interiores se achem abertos tanto para vivos como para mortos, e não comportem qualquer tempo ou limites de espaço, então sob certas condições os vivos podem dar por si a perambular pelas cercanias mentais que se lhes enquadram na perfeição, o que lhes realça as crenças e os sentimentos que tenham a um grau superlativo, assim como, tal como parece, a uma força sobrenatural.

Em quase todos os casos a obsessão e uma forte repressão terão provocado tais condições. Por a possessão, de uma forma ou de outra ter sido questão relevante nas teorias da sobrevivência e devido ao interesse que nutria por tais matérias, pretendo discutir isso com alguma profundidade. Mas antes de mais, gostaria de fazer certas distinções.

Conforme mencionado anteriormente, não concordo com certas escolas de psicologia “normativa” nem tampouco subscrevo teorias que advogam a personalidade sã como objectivo final da realização individual ou social. Dado que as pessoas são comprovadamente distintas por múltiplas formas de ser – nos moldes mentais que adoptam, na reacção intelectual e emocional que tendem a ter, nos hábitos corporais e na constituição física que adoptam – assim pois, agora conforme em vida, mantenho a importância que dava às variantes do comportamento humano. O cultivo das diferenças individuais contribui por inúmeras formas para a resiliência da espécie, conforme será discutido mais à frente. Contribui para o bem-estar espiritual e físico.

Muita gente é unilateral e no meu tempo assim como no vosso, tanto a literatura quanto a conversa corrente falava quer pelo desportista quer pelo professor, pela costureira, pelo playboy, pela meretriz, etc. Cada um relacionado com ideias acerca de si próprio de uma forma individual. Um pai de cinquenta anos de idade pode ver-se essencialmente com um filho, por exemplo, enquanto um outro poderá achar ser O Pai de tudo quanto empreende com os demais, ainda que não possua descendência própria. Uma mulher pode relacionar-se primordialmente na base da imagem de mãe ou de filha, assim como, e em particular no vosso tempo, realçar a afiliação que tenha com uma profissão acima das demais considerações. Mas é uma idiotice exigir que o introvertido seja extrovertido ou vice-versa; ou exigir que o desportista tenha o amor pelos livros que o estudioso tem; ou que o erudito renuncie aos seus estudos em proveito do campo de desportos.

Cada pessoa é dotado de tendências e inclinações próprias de natureza idiossincrática e excêntrica a prosseguir e a desenvolver. Tais tendências muitas vezes conduzem aos maiores desenvolvimentos a que se assiste no campo das artes, das ciências e das religiões, tornando possíveis contribuições que não seriam conseguidas por pessoas mais sãs. Em tais casos, o senso-comum, a lógica e as emoções são todas usadas com devoção e carinho e postas ao serviço de um interesse ou propósito primordial, mesmo que tal propósito não seja claramente percebido mas somente pressentido. É seguido sem desvios mesmo que os seus trajectos possam parecer confusos ou intrincados.

No quadro do comportamento obsessivo, por outro lado, o senso-comum, a lógica e as emoções são todas em certa medida reprimidas, excluídas, sufocadas pelo interesse primordial, de modo que esse interesse se torna num beco sem saída e não admite quaisquer cruzamentos bilaterais. É evidente que ambos os casos comportam graus, mas no geral o excêntrico dotado é expansivo, expressivo e utiliza as habilidades que tem com vista ao fim em que acredita.

A pessoa obsessiva, contudo, segue uma ilusão que precisa proteger contra a razão, a lógica e a compreensão emocional, de modo que as nega, e segue um objectivo que é fechado em vez de ilimitado. Qualquer fanático perseguirá este último padrão, e tais pessoas possuem uma atitude de tal modo rígida que as deixa aterradas diante de toda a mudança. Além disso, as pessoas poderão ser fanáticas nas pequenas coisas, no que respeita a certas questões, e ser bastante imparciais e compreensivas noutras. Há quem se deixe orientar pelo desejo de um ou de outro tipo – pelo conhecimento, pela fama, pela conquista ou pela proficiência - os atributos mais requintados da razão, da discriminação e da emotividade, a fim de defender ou ocultar a finalidade que tenham. Tais pessoas usam, por conseguinte, as capacidades que têm em função dos objectivos próprios, enquanto seguem a tendência original das suas naturezas.

Há igualmente aqueles que se recusam a usar da discriminação, da razão, ou das emoções sinceras, e que reprimem a percepção e as intuições do mesmo modo na prossecução de um objectivo que não lhes pertence por natureza mas que lhes é impingido por outros. E depois, claro está, que há aqueles em quem um propósito natural se acha atravancado com outras obsessões subsidiárias. Nos casos de obsessão irracional, a pessoa acha-se já “possuída,” por assim dizer, por padrões adquiridos que outros, que não lhe são naturais, por aqueles adoptados por meio do medo. A vizinhança mental acha-se mentalmente carregada, volátil, pronta a explodir, e a pessoa forçada a percorrer uma linha estreita, uma corda fina, receosa de olhar para a esquerda ou para a direita, ou de se desviar da conduta padronizada minimamente que seja. Toda a vida que decorra “abaixo” precisará ser firmemente evitada, todas as demais inclinações naturais da personalidade e intentos precisam ser esquecidos, e devem manter os olhos da razão fortemente cerrados.

Assim, a pessoa obsessiva é muitas vezes espiritualmente cega, mas mesmo quando tem os olhos abertos, não reage aos demais com um olhar vivo mas brilha com a sua própria luz imóvel. Move-se até à periferia do intercâmbio humano, e não me refiro aqui à criança nem ao adulto que se delicia com a solidão, nem àqueles cujos modos naturais tendem para a contemplação, mas às personalidades obsessivas fortemente reprimidas que apagam as inclinações naturais que têm, e que seguem objectivos artificiais que não lhe pertencem. O seu mundo estreitece tanto interior como exteriormente, por lerem unicamente jornais e revistas que concorrem para os pontos de vista que têm, negam todas as contradições emocionais que sintam e censuram toda a evidência conflituosa do senso-comum.

Tais pessoas podem ser dotadas e brilhantes, assim como poderão ser uns patetas intelectuais esteticamente ignorantes. As características e métodos comportamentais que tenham são as questões de importância, em resultado do que o eu interior consegue somente uma triste solidão. A corda retesada é elevada ainda mais a fim de evitar a contaminação da vida diária: e mesmo que uma pessoa assim se veja rodeada por admiradores, não é capaz de permitir nenhuma conversa real.

A natureza opera contra o isolamento e a solidão, e até mesmo a mais inferior das criaturas sente curiosidade pelos assuntos dos outros. Os animais não são reclusos mas participantes animados na comunidade natural em que o isolamento e a relação desempenham cada um a sua parte. Assim, tais pessoas são levadas a buscar aqueles que esperam que venham a compreendê-los, ao se verem impedidas de o fazer, ao mesmo tempo com receio que a transparência possa arruinar-lhes as fachadas psicológicas elaboradas tão dolorosamente forjadas.
Por conseguinte, tais personalidades possuem caracteristicamente dois comportamentos padrão principais e seguem por vezes um em exclusivo durante prolongados períodos de tempo, que alternam outras vezes com o outro. São inclinadas a tais acções repetitivas de cunho compulsivo, mentais ou físicas; assim como a surtos explosivos de actividade violenta. O comportamento repetitivo é reconfortante e pode seguir-se a uma atenção servil pelo detalhe ou ser alvo da expressão da repetição compulsiva de certos pensamentos ou palavras. A compulsividade poderá parecer tão grave quanto uma actividade explosiva de natureza interior ou exterior que assuma os contornos de uma ruptura de apêndice, úlceras, ataques cardíacos e outros que tais, assim como, digamos, mau humor ou uma conduta belicosa.

A natureza repetitiva de certos actos, como o estalar dos nós dos dedos, a conversa incessante dotada de ritmos de pontuação, ou mesmo o ruidoso tamborilar dos dedos nos tampos das mesas, pode igualmente mascarar quaisquer características violentas. Tais actividades levadas a cabo de um modo habitual e irreflectido podem combinar tanto a violência como a repetição. Esses serão os que mais necessitam “sair de si mesmos.” Acham-se perdidos e em grande medida “possuídos” por objectivos e impulsos geralmente adoptados por temor numa idade jovem.

Muitas vezes um pai ou outra figura de autoridade é responsável em termos convencionais. Na verdade, uma pessoa dessas muitas vezes receia que a sua própria energia ultrapasse a do pai, e por outro lado, também teme o facto de o pai não ser suplantado. Em qualquer dos casos, os seus padrões de pensamento e linhas de consciência são particularmente intencionados, são relativamente insensíveis aos outros, de uma maneira peculiar e incompatível ao mesmo tempo; ergue-se sem uma fundação adequada nas características naturais da pessoa. Ao se isolarem a elas próprias por meio da censura das suas experiências, essas pessoas gravitam na direcção de certos ambientes mentais; demoram-se em estados mentais semelhantes aos seus, voláteis e carregados, presas entre a repetição do tédio e a libertação da violência.

Com respeito a isso, nada conseguem desses ambientes. Além disso captam e ampliam todas as outras correntes de consciência, quer da parte dos falecidos, quer dos vivos – daí que aparições assustadoras, fantasmas, actividades poltergeist muitas vezes se deem na sua presença – onde os mesmos elementos repetitivos mas ainda assim explosivos podem surgir separadamente ou combinados, e de uma maneira isolada (altiva) com relação à vida comum.

O comportamento incessantemente repetitivo de natureza mental ocasiona certas tensões, como se uma série de explosões de menor grau estivessem constantemente a decorrer numa dada área da consciência que leve a que por fim se dê uma ruptura, tal como um deslizamento de terra acompanhado de rochas, poeira, ramos de árvore quebrados e detritos. Só que neste caso nas barreiras profundas da consciência cindida recaem todos esses sentimentos, ideias e considerações que a personalidade tinha até então conseguido suportar. Em auto defesa a personalidade convoca todos os seus recursos – os seus modos característicos de conduta e a sua obsessão – para estar à altura, já que pensa encontrar-se, relativamente falando, no fundo da escada, em vez de em cima da corda retesada.

Essa intensificação de propósito produz uma sobrecarga de actividade psíquica que, por sua vez, busca outro reforço, e se a personalidade se encontrar próxima a uma atmosfera de um estado mental de características correspondentes, passa a atrair esse reservatório. O resultado pode passar pela activação de uma aparição, de um “fantasma” de conduta ameaçadora, que surge sempre que as condições se repetirem. Na maioria desses casos, o fantasma não constitui uma pessoa nem uma identidade nos termos usuais, mas a versão de uma reprodução – as linhas de consciência que conduzem a uma identidade tal como o fumo pode conduzir a um fogo – e a personalidade obsessiva amplia e foca-os por intermédio da intensidade momentânea que alcança para de seguida as projectar no espaço/tempo onde, todavia, elas pegam somente sob determinadas condições.

A personalidade terá atraído essas linhas de consciência que se acham em sintonia com as suas, num esforço por reforçar as suas defesas. O comportamento que a aparição adopta irá muitas vezes simbolicamente determinar a posição da pessoa obsessiva que inconscientemente se sente possuída ou morta por dentro. Por vezes uma aparição dessas poderá igualmente ser percebida pelos outros, e certas atmosferas há onde a natureza repetitiva constante dessas actividades pode ser activada em idênticas situações.

Da parte da personalidade obsessiva, esse é um procedimento terapêutico. Ver a própria situação difícil assim projectada (a sensação de se achar posta de parte e morta para si mesma) pode produzir um reconhecimento de choque do dilema, muito embora isso possa não ser reconhecido conscientemente como tal. O problema foca-se no fantasma aparentemente exteriorizado, em que a pessoa projecta agora a situação. Antes disso, comummente nenhum problema era sequer reconhecido - daí as medidas drásticas tomadas. A ajuda psicológica ou religiosa é geralmente buscada, por essa altura. A identificação produzida e a atenção prestada levam a personalidade a um contacto necessário com os seus contemporâneos, permite que o indivíduo clame por auxílio – não para si próprio, evidentemente, tanto quanto para o fantasma – e todo o assunto serve de catarse.

Isso não significa que apenas as pessoas obsessivas vejam um fantasma, mas os casos clássicos geralmente envolvem contradições que tais - e em particular quando a aparição não representa alguém conhecido para aquele que a percebe. A aparência de fantasmas amistosos e de aparições de membros da família ou de entes queridos podem ter uma base bem distinta, mas em todos os casos precisa haver uma coincidência entre estados de espírito.

A actividade poltergeist que geralmente envolve crianças, segue o mesmo padrão que o adulto obsessivo, à excepção de que a criança não se acha tão conformada na sua maneira de ser. Geralmente a raiva que a criança sente é dirigida a um adulto, que procura levar a criança a seguir outra que não a sua inclinação natural. Nesse caso impera a raiva ao invés do medo, e por vezes a criança pode chegar a ser quase consciente do seu comportamento; ao praticar a deslocação de objectos em segredo, ou ao fazer truques de manha com a própria energia. O padrão repetitivo também se aplica e em muitos desses casos a criança mostra-se excessivamente obediente, mas o comportamento uniforme irrompe espasmodicamente em actos violentos ou em mau-humor em relação aos quais a criança terá sido repreendida.

Mencionei antes presságios ou estados de ansiedade associados aos processos criativos, as fantasias oriundas da própria melancolia de que fui vítima e sonhos precognitivos de desastres. Quando mergulhava em depressões dessas, podiam desencadear-se associações desagradáveis do passado com base nos mais inocentes dos estímulos. Não só imagens de eventos pesarosos que também tivesse experimentado de modo efectivo, mas cenas lúgubres das novelas ou peças que recordasse vir-me-iam à mente, assim como as passagens mais melancólicas de filósofos ou poetas. Tais fantasias acumular-se-iam, povoadas de personagens da vida real e da ficção e aprofundar-se-iam em melancolia, até frequentemente irromperem em presságios desastrosos com respeito ao futuro – à minha própria morte ou à dos outros, à ruína eventual do mundo, ao fim de tudo.

Conforme mencionei, um artista pode pintar uma série de paisagens sombrias ou tristes ou livrar-se, de outra forma, dos receios emotivos que tenha, por intermédio das suas telas. Um poeta pode compor uma ode sombria à morte. Outros ainda, num passo de maior criatividade, poderão inconscientemente buscar a forma desconhecida do futuro, a ansiedade que sentem buscar uma causa, e consequentemente descobri-la através de um sonho que lhe permita prever um desastre futuro. Outros ainda, dotados de tendência mental diferente, irão procurar por meio dos omnipresentes campos da consciência aquelas linhas que se assemelhem à sua, e conectar-se a medos que antes se encontrariam inactivos, mas que se encontram latentes enquanto padrões, e aparentemente trazer à vida de novo eventos ou pessoas que na verdade terão terminado tais actividades. 
James

Tradução: Amadeu António