quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

TESTEMUNHO DE LUZ - 1ª PARTE




TESTEMUNHO DE
uma mensagem de triunfo da esperança, uma mensagem do sentido do homem, da vida e da verdade. um humilde testemunho da progressão do espírito pelas esferas da eternidade, que na Terra precisa ser "preparado."


 PRIMEIRA PARTE

O RETORNO



Frances Banks morreu da mesma maneira que viveu, plenamente consciente do que estava a fazer, e do lugar para onde esperava ir. Recusou-se a tomar drogas até ao último instante, suportando a dor com coragem. No final, disse que estava a ver entidades encarnadas e desencarnadas no seu quarto. Colocou os seus assuntos materiais em ordem e disse adeus aos amigos que se encontravam suficientemente próximo para a visitar. Deixou atônito o doutor escocês que a tratou no final, dizendo-lhe alegremente, um dia ou dois antes e entrar em coma:

“Até logo, doutor. Eu o verei no outro mundo!”

As corajosas palavras que me dirigiu: “Vocês sabe, eu estou com cancro. Não me vou refazer disto,” indicavam que tinha aceite e que se encontrava pronta para a fase seguinte. Ansiava mesmo por isso, porquanto aqueles que cuidavam dela me contaram que ela despertava pela manhã e suspirava:

“Ainda aqui estou? Tinha esperanças de já ter partido.”

No final a sua respiração tornou-se difícil e ela mergulhou na inconsciência. Contudo, pelo breve espaço de um segundo ela se arrastava de volta e então falava normalmente e de forma controlada. Isto foi ilustrado por um doloroso incidente ocorrido na véspera da sua morte, que demonstrou claramente a consciência que tinha de si mesmo como uma alma e também como uma mente e um corpo; mas uma alma e uma mente que continuariam a viver numa outra dimensão, depois que tivessem abandonado um corpo doente.

Creio que esta história tem aplicação na segunda parte do livro, na qual a mente de Frances é capaz de impressionar a minha e, desse modo, dar prosseguimento à mensagem que ela tão ansiosamente desejava transmitir, a mensagem da certeza da continuidade da vida e do progresso da alma.

Frances entrara e saíra do estado de coma por quase dois dias quando recebi, pelo correio da manhã, uma pequenina garrafa com água. A acompanhá-la vinha uma carta a revelar que esse pequeno frasco de água tinha sido trazido da Fonte de Lourdes. Seria eu capaz de ungir a Frances com ela? Poderia dar-se um milagre. Em todo o caso, isso ajudaria.

Pedi permissão para dar seguimento a tal desejo e ela me foi concedida. Apanhei a garrafinha e, tendo sido avisada de que a nossa paciente se encontrava em coma ou adormecida, entrei no quarto em bicos de pés. Frances estava apoiada sobre travesseiros, enferma e mirrada. Tinha os olhos fechados. Salvo pelo esforço que fazia para respirar ela estava absolutamente imóvel. Fiquei parada aos pés da cama durante alguns instantes, a observá-la. Lentamente, os seus olhos abriram-se e neles surgiu um clarão de reconhecimento. Depois as suas pálpebras voltaram a fechar-se.

Inclinando-me sobre ela, sussurrei:

“Frances, isto é água benta, vinda de Lourdes.” Com a água fiz o sinal da cruz na sua testa, nas almas e nas costas das suas mãos. Frances deixou apenas escapar um queixume. Fiquei a seu lado e silenciosamente orei para que ela pudesse partir em paz para aquela nova vida que esperava tão ansiosamente. Depois de um minuto, sem abrir os olhos, ela murmurou em voz indistinta:

“Está tudo bem, minha amiga. A mudança já começou.”

Depois, mergulhou de imediato na inconsciência. No dia seguinte, à hora do almoço, ela simplesmente parou de respirar. A sua alma se fora nessa sua nova peregrinação.

Durante o serviço de cremação, que foi oficiado pelo Reverendo Richard Hall, muitos dos que a pranteavam tiveram percepção da presença dela.
No serviço em sua memória, realizado em Londres, que foi conduzido pelo Reverendo Cônego J.D. Pierce-Higgins, M.A.: Hon. C.F., vice presidente da Associação das Igrejas para os Estudos Psíquicos e Espirituais, eu a “vi” o seu hábito de freira e acompanhada por sua querida Madre Florence, uma antiga Madre Superiora da Ordem. Isso foi posteriormente confirmado por outras pessoas presentes, que a tinham igualmente “visto” e que mencionaram o hábito da Ordem, na qual ela parecera estar vestida.

Depois da morte dela senti-me isolada de todo o contacto espiritual. Durante várias semanas achei muito difícil meditar, ou até mesmo refugiar-me na quietude da alma, por qualquer espaço de tempo. Então, certa noite, um domingo, cerca de três semanas depois da morte de Frances, enquanto me encontrava sentada sozinha junto à lareira, a ouvir música pelo rádio, pouco a pouco tomei consciência de uma presença. A atmosfera parecia estar impregnada de uma enorme quietude e reinava um silêncio de expectativa. Desliguei o rádio e relaxei, entregando-me a essa paz. Não me ocorreu qualquer pensamento de um possível comunicador vindo de um outro mundo. Nenhuma palavra foi pronunciada na minha mente. Eu estava muito calma e em repouso. Lentamente, tive a impressão de que todo o meu ser fora atraído para uma paz e uma beleza que não posso descrever. Essa beleza encontrava-se tanto ao meu redor quanto dentro de mim. Quase imperceptivelmente passei para um estado de meditação profunda na qual tive consciência de estar mergulhada na luz. Eu fazia parte da luz; contudo, a luz fluía de algum ponto além de mim. Senti unidade com tudo o que era mais elevado e perfeito e com o ser eterno que existia dentro de mim. Senti a proximidade de presenças espirituais. Fui velozmente arrastada para uma meditação na qual Frances e eu tínhamos participado alguns anos antes. Ouvi até mesmo a minha mente a repetir as invocações que tinham sido empregues nessa meditação.

Suavemente e com uma enorme reverência veio-me a compreensão de que não estava somente em contacto com a minha própria alma imortal, mas, também com a alma de Frances Banks.

Aquilo foi comunhão silenciosa, calma, inspiradora; uma comunhão desprovida de todos os desafios da personalidade, de todas as limitadoras concepções humanas. Aquilo foi comunhão ao nível da alma. Senti que era arrebatada para fora de mim mesma, elevada para o milagre, o amor e a luz.

Esta experiência durou cerca de meia hora. Depois, lentamente, desapareceu. Fiquei sentada numa paz absoluta, sem quaisquer pensamentos a atravessar-me o silêncio da minha mente. Nem sequer tentei analisar o que tinha acontecido neste momento imortal; sentia-me feliz por “existir.”

Foi somente mais tarde, quando já tinha ido para a cozinha e estava fazer café, que uma alegria tal como jamais sentira me inundou a mente. Dei por mim a dizer em voz alta, maio atônita, porém, mergulhada em contentamento:

“Aquilo foi a alma e Frances e não só a mente dela. Nós nos comunicamos ao nível da alma...”

Foi alguns dias mais tarde que senti a mente de Frances a invadir-me a minha, coo o fizera com frequência nos tempos em que estivéramos juntas. Escorreram palavras para dentro dos meus pensamentos, palavras que não vinham da minha consciência. Eu soube que a sua mente desencarnada e a minha mente encarnada tinham-se novamente unido, em comunicação telepática.

Frances tinha algo a dizer! Ela desejava transmitir a sua mensagem. Eu fora o seu “Telefone Celestial,” conforme ela dizia. Poderia haver algo mais natural do que ela agora querer falar, em vez de apenas ouvir? Ela agora encontrava-se numa posição em que poderia “ver um pouco mais além” – eu sabia por experiência pessoal adquirida no convívio com ela, que Frances nunca desperdiçava um minuto quando podia estar a tratar dos assuntos do seu Pai. Agora que ela evidentemente recuperara a consciência e a percepção, depois da mudança para a sua nova vida, o seu primeiro desejo ardente seria o de fazer com que todos soubessem do que estava a acontecer: mandar de volta, em primeira mão. Agora ela teria possibilidade de demonstrar a vida futura, sobre a qual tinha escrito e falado; podia fazer, com autoridade, comentários sobre o assunto que lhe fora tão caro; a realidade da Vida Eterna; o progresso contínuo do espírito...

Sentei-me, apanhei a minha caneta e comecei a escrever. Palavras, pensamentos, sentenças, precipitaram-se sobre o papel. Foi quase como se eu estivesse a escrever um ditado. Aquilo, porém, não era escrita automática, Eu tinha perfeito controlo de mim mesma e conseguia sentir que a mente dela estava a usar a minha. Aquele foi um esforço composto. A sua mente “inspirou” o assunto, as experiências e, mais tarde, as histórias dos seus companheiros de viagem na Vida do Além.

Ela explorou as potencialidades da minha mente e capacitou-me a empregar a arte de escrever, que eu tinha aprendido no meu trabalho jornalístico. A impressão que tenho é que essa parece ter sido a associação perfeita, de mente com mente, que jamais tínhamos alcançado verdadeiramente, quando ela se encontrava no corpo terreno. As reaccões do Reverendo Bertram E. Woods, Secretário Honorário da Associação das Igrejas para Estudos Psíquicos e Espirituais, que leu o manuscrito, tornaram esse facto ainda mais claro para mim.

Num período mais avançado da elaboração dos textos, Frances explicou que ela própria estava a trabalhar com um grupo, ou associação, e que estava a receber inspiração, desse grupo, para que esta transmissão das suas impressões acerca da Vida no Além fossem transportadas para um livro.

Posteriormente, quando me acostumei mais com o método, fui capaz de fazer uma pergunta e de receber uma resposta imediata. Escrevia durante uma hora, mal erguendo a caneta da página. Quando li o que escrevera, do início até ao fim, o espanto que sentia aumentou ainda mais diante dos assuntos sobre os quais tinha escrito. Sem esforço e sem pesquisar decididamente a minha imaginação limitada, eu não poderia ter inventado histórias tais como as que eram vertidas por meu intermédio

Uma e outra vez a minha caneta escreveu. Mal foi feita qualquer correcção em todas as centenas de palavras escritas, embora eu não tivesse nunca noção daquilo que ia escrever. Contudo, a minha vida prosseguiu com bastante normalidade. Continuei a visitar os meus amigos, diverti-me a assistir à televisão, li, fiz compras, passeei de automóvel pelo campo e não tive consciência de quaisquer comunicações pessoais vindas de Frances, entre as sessões. Em determinadas ocasiões foi apenas como se eu tivesse apenas registado e traduzido os seus pensamentos.

Contudo, quando li alguns dos textos, em voz alta, para uma amiga que morava nas proximidades, fiquei tão espantada quanto ela diante do facto das histórias perecerem tão novas e curiosas; como se eu nunca me tivesse ocupado em escrevê-las.

Durante esse período, porém, eu tinha perfeita consciência de que estava a “ser coagida” a prosseguir com o trabalho, até que ela tivesse comunicado tudo o que queria. A persistente dedicação de Frances ainda estava em evidência – e eu era a pessoa mais habilitada para fazer o que ela desejava e para realizar aquilo que, segundo eu podia perceber, ela sentia ser a coroação da sua missão terrena. Por conseguinte, a sua atenção tinha-se concentrado em mim. Devo admitir que me acovardei ao visualizar a publicidade que viria, pois sabia que a intenção dela era a publicação. Muitas vezes fiquei a imaginar de que modo iria encarar as críticas e o possível ridículo que um tal livro despertaria...

Mas a poderosa vontade de Frances persistiu; como sempre, a vontade ao serviço de Deus. Estas revelações poderiam ser publicadas no mesmo espírito de serviço com que tinham sido manifestadas. O seu dedicado Ser arredou para o lado todos os obstáculos que eu poderia colocar no meu caminho.

“Muitos poderão ridicularizar,” insistiu ela, “mas se ao menos uns quantos conseguirem fortalecer a mente e forem ajudados a viver próximos da Realidade, então a nossa parceria não terá sido em vão.” Com isto devia dar-me por satisfeita.

A experiência daquele domingo de comunhão de alma para alma não se repetiu; na verdade, esta deve ser uma ocorrência rara e eu fui deveras abençoada por tê-la conhecido ao menos uma vez. Mas as comunicações prosseguiram e agora encontram-se aqui, sobre a minha escrivaninha, dactilografadas para publicação.

Frances, porém, provou muito mais do que a comunicação. Mostrou a possibilidade daquilo que sempre advogara com tanto fervor, que a comunicação psíquica e a comunicação espiritual são apenas níveis diferentes de uma espiral; que a comunhão do espírito se situa, por conseguinte, num nível mais elevado do que o nível de interpenetração psíquica ou da percepção extrassensorial; que ambos os métodos serão demonstrados na Nova Era que agora se aproxima; e que a comunhão mais elevada será aberta por intermédio da meditação e do contacto com o centro profundo do homem.

Frances sempre acreditou nisso. Ela achava-se convencida do facto da comunhão com os mundos espirituais e da realidade do ser superior existente em cada um de nós. Confiava implicitamente na sobrevivência da mente e da personalidade após a morte, e tinha reverente percepção do espírito interior que a impelia a prosseguir – o “Cristo em nós,” da Cristandade.

Ela sempre lutara por uma brecha por onde pudesse chegar ao espírito, e com isto não me refiro unicamente à comunicação psíquica. Ela acreditava que através da meditação, do retiro no nosso centro profundo e do descobrimento do lugar de silêncio da alma, podíamos entrar em comunhão com almas avançadas; seres elevados, grandes seres a quem chamamos Santos. Esta é a verdadeira comunhão dos Santos; a União com a Divina Companhia dos Céus, resultando numa nova e intuitiva percepção da Unidade e em inspiração para uma vida radiante. Essa, segundo ela sentiu, era a mensagem para a Nova Era, dentro da qual estamos todos a emergir; uma extensão bem maior da consciência do homem de modo que até mesmo durante a limitação da vida terrena ele pode penetrar na beleza dos mundos espirituais e deles receber inspiração. Frances também realçou que o homem deveria compreender e aceitar o seu lugar no esquema divino. Acreditou fervorosamente, juntamente com o pensamento avançado de Pierre Teilhard de Chardin que, conforme ele expressou, “Coexistente com o exterior das coisas, existe um lado interior para elas.” Também acreditou que o último inimigo a ser destruído é a Morte.”

No depoimento que se segue, Frances continua a sua missão. Nele ela mostra a sua experiência da morte e a mudança para uma nova concepção de vida, ilustrando isso com pungente histórias sobre os efeitos da mudança da morte em outras pessoas com quem entrou em contacto. Ela nos concede, generosamente, os conhecimentos que tem do progresso da alma, para fora, para cima e para diante, rumo à Divindade.

OS TEXTOS

5 de Dezembro de 1965, 8:30

...Foi-me possível vir até você; o seu marido, que se encontra aqui, foi quem me trouxe. Sim, eu o conheço bem agora. Sempre senti que possuía uma semelhança com ele, mesmo quando eu ainda me encontrava na Terra. Vocês lembra-se? Gosto dele. Ele possui um enorme sentido de humor, uma espécie de graça irreprimível. Vocês dois devem ter apreciado a companhia uns do outro...

Agora encontro-me numa espécie de casa de repouso que é dirigida pelas irmãs da Comunidade a que pertenci quando encarnada. As irmãs são bondosas e gentis comigo. Agora estou deitada numa cama, num terraço bem alto que dá para uma vasta planície ensolarada. É um cenário tão lindo e repousante... Estou a recuperar-me da doença que provocou a desintegração do meu corpo físico. Sinto-me tranquila e em paz. Ficarei aqui... Na verdade já disse a Madre Florence que quando estiver preparada quero trabalhar aqui, com ela...

As almas são trazidas para cá, da terra e de outros lugares (Mas eu não sei muita coisa sobre esses lugares) – quando elas se encontra preparadas. Aqui elas são “nutridas” e tratadas, tal como eu estou a ser... depois que me tiver ajustado a esta vida creio que ficarei aqui e que ensinarei como as irmãs, se elas me quiserem! E se eu puder ser realmente útil... Veja bem, quando eu própria tiver aprendido mais, a minha “psicologia terrena,” juntamente com as explicações acerca dos estágios de progresso mais avançados, ela será muito proveitosa. Como irei gostar de relacionar as duas “psicologias” em quaisquer aulas particulares que tiver ou palestras individuais! Vai ser quase o mesmo que retornar para o trabalho que fiz entre os prisioneiros na Prisão de Maidstone, só que, naturalmente, num nível diferente... Aqui não existe confinamento compulsório nem castigo, excepto aquele que nós impusermos a nós mesmos! É claro que podemos entrar e sair... mas começo já a compreender que só podemos sair para um outro lugar quando estivermos prontos...

Estou tão contente por poder continuar a trabalhar. Gostamos de ser úteis, e como você muito bem sabe, sempre amei o meu trabalho. Sinto que aqui, mais tarde, poderei dar um bom uso a muito daquilo que experimentei. Isso será igualmente bom para mim...Sempre fui uma professora, por natureza e por inclinação, e torna-se numa enorme alegria saber que podemos exercitar as habilidades nesta nova vida. Também me fará bem fazer um trabalho, como tarefa, num lugar onde ninguém me notará. Cuide-se de não ser demasiado notada... Aí se oculta a tentação...

Encontrei o Padre Joseph, o nosso “Dominicano.” Ele é uma pessoa maravilhosa. Parece irradiar tanta bondade, amor e força. Logo que o vi lembrei-me imediatamente da descrição que você fez quando o viu pela primeira vez, por meio da clarividência... “pernilongo.” É verdade, o seu corpo é alto e descuidadamente estruturado. Estava a usar o mesmo hábito marrom com um cinto vermelho, exactamente como costumava usar quando entrei em contacto com ele pela primeira vez, na qualidade de Sacerdote do nosso retiro, na Comunidade.

Tentarei contar-lhe o que sucedeu.
Depois que a mudança tinha terminado e eu me encontrava livre do meu “envoltório” terreno, “Acordei” aqui, neste hospital da Casa de Repouso. O meu quarto não tinha paredes e a luz do sol parecia jorrar sobre nós durante o tempo todo. Abri os olhos... ou voltei à consciência... e ali estava Madre Florence, exactamente como fora e como eu a relembrara durante tantos anos.
Ela segurou-me a mão, e disse: Então você chegou bem?”
Mas eu devia estar muito, muito cansada, pois não consigo lembrar-me de quase mais nada. Creio que tornei a adormecer.

Muito tempo depois... a mim me pareceu que tenha sido muito tempo depois, encontrei-me aqui deitada, a olhar para este cenário calmo e lindo que me rodeia.
De repente “tive conhecimento” de que alguém se encontrava a meu lado. Olhei em torno e ei atenção a esta nova ideia. Ali estava o Padre Joseph, exactamente com eu sempre o recordara. Sentou-se junto a mim e pegou na minha mão entre as suas.
“Bom, irmã?”

Isso foi tudo. Apenas “Bom irmã?”, como se ambos estivéssemos de volta ao meu escritório no colégio, na África do Sul. Senti que irradiava um enorme poder e força. Creio que devo ter chorado... tudo era maravilhoso demais... Ele não falou muito, ou eu encontrava-me demasiado cansada para despertar atenção. Creio que tornei a mergulhar no sono. Quando reuni de novo os meus pensamentos para falar com ele – ele se fora...
Mas tornará a voltar. Agora, Madre Florence me diz que ele vem visitar os seus pacientes com muita frequência. Ah! Mas eu não serei uma paciente aqui por demasiado tempo, você sabe!

Tão logo me consiga reorientar o suficiente, estarei a leccionar ou a tutelar de novo. Esse é o serviço que posso prestar. Já estou a aprender tantas coisas. Descobri que posso usar telepatia nos dois sentidos, para receber e para transmitir. Aqui não existem as dificuldades que experimentamos da Terra, mas todo o tipo de possibilidades excitantes. De facto ou já capaz de entrar em contacto com a sua mente, e o que é mais importante, manter esse contacto de modo a derramar ideias sobre você! Isto apresenta possibilidades infinitas...

Tentarei vir ao seu grupo. Sei que vocês se estão a reunir... Parece que aqui se sabe de tudo... agora devo interromper... falarei consigo de novo... Começo a conhecê-la de uma forma absolutamente diferente... vejo a sua luz.

Mais tarde

Lembra-se do que eu disse certa vez, quando estava no corpo, para um preso, em Maidstone (a seguir a uma discussão sobre a possibilidade de vida após a morte)? “Um minuto após a sua morte você será exactamente o mesmo!” Lembra-se também, de que essa mesma afirmação foi a primeira mensagem psíquica que você me deu? Você disse o nome do prisioneiro – que morrera logo após a minha palestra, sem que tornássemos a encontrar-nos – e disse: “Ele quer que eu lhe diga que as últimas palavras que lhe dirigiu são absolutamente verdadeiras...”

Bom, torno a repetir essa declaração (agora que também completei a transição), concordando plenamente com tudo o que ela implicava. Porquanto o que sucede é isso mesmo. Tão logo pude recobrar um estado mental consciente, após ter deixado o meu corpo estropiado, reconheci que era a mesma em essência. De facto senti-me leve, e sentia uma nova sensação de liberdade que me deixou atordoada...

Eu era a mesma... contudo, não era a mesma! Num clarão de percepção decidi que devia estar surda que nem uma pedra, pois já não podia ouvir nenhum dos ruídos habituais da vida quotidiana, a conversa e o movimento dos seres humanos em torno de mim;o apito dos trens, o chilrear dos pássaros... nesta nova consciência não havia ruídos. Uma das minhas primeiras reminiscências foi: “Ainda estou consciente. A mudança aconteceu... mas eu não consigo ouvir, e também não posso ver!”

Durante um certo tempo pareceu que eu perdera a minha identidade... Lembro-me de ter empreendido esforços ansiosos para perfurar através deste novo estado a fim de fazer voltar as lembranças.

“Quem sou eu? Que foi que eu fiz?”

Foi uma experiência estranha, quase assustadora, pois o nome que eu tinha usado por mais de setenta anos agora me escapava... Finalmente, recordo ter dito a mim mesma para “desistir e dormir” e, de certo modo, devo ter feito isso mesmo. Por fim a consciência abandonou-me e não me lembrei de mais nada. Não tenho qualquer meio de saber quanto tempo terá isso durado... talvez um período bem curto, em termos de tempo terreno.

Quando, porém, recobrei a consciência, foi como se me estivesse a arrastar para fora de um tênue mar de prata... Estes são os únicos termos que posso usar na descrição da experiência. E o primeiro rosto que vi foi a face sorridente da minha Mãe na religião – Madre Florence. Fiquei tão emocionada que não consegui falar... Daí em diante recordo a impressão de ter alternado entre o estado consciente e o inconsciente... Mas agora descobrira que me encontrava deitada num pórtico aberto, com uma paisagem de azul e prata a espraiar-se diante de mim... Tal beleza, que estava para além das palavras, acalmou-me o espírito. A preocupação, a ansiedade e toda a sensação de perda desapareceram e fui envolvida por um enorme sentimento de paz.

“É isso,” afirmei a mim própria cheia de assombro: “Eu fiz A Mudança!” Logo percebi que conseguia ouvir e enxergar como antes, só que agora de uma forma mais intensa. No mesmo instante pensei: “Gostaria de saber se posso chegar ao outro lado.” Preciso contar à Helen sobre isto...”

Mais tarde, quando me acostumei mais a esta nova consciência, pude comungar (não posso explicar isto por meio de nenhum dos nossos antigos termos) com Madre Florence e com o Padre Joseph. Quão encantada fiquei ao me encontrar com eles, e por ver que o Padre Joseph ainda era a mesma alma esplêndida e sábia que eu conhecera nos meus dias na Comunidade... Ele estava, de certo modo, em condições de me ajudar muito... Ele me transmitiu confiança.

Senti-me como se estivesse a convalescer dos efeitos da dolorosa doença terminal que me vitimara. Nos meus pensamentos surgiu a percepção de uma “aura” de tristeza ao meu redor. “Eles estão a queimar o meu corpo,” disse para mim mesma. De imediato fui assaltada pelo intenso desejo de estar nessa cerimónia solene, com todos aqueles amigos que eu tinha amado e com todos os que me tinham amado.

De um modo inexplicável, e sem dúvida em consequência do desejo ardente que sentia, pude estar presente com todos vocês em mente e em consciência, ao mesmo tempo que permanecia aqui deitada, nesta luz prateada. Fiquei a imaginar se as viagens astrais se assemelhariam a isto... Foi uma experiência maravilhosa.

Eu vi-os a todos... Senti-me grata para com todos os que tinham viajado até Maidstone para estarem presentes nestas últimas cerimónias. Regozijei-me com a beleza das flores. Tive vontade de chorar diante da interpretação mística de Richards, da mudança que me separou (embora apenas temporariamente) de todos vocês. Senti uma imensa vontade de dizer “obrigado” a todos aqueles que tornaram confortáveis os meus últimos dias na Terra. “Li” os pensamentos de Bertram Woods, de que a Associação estava a perder uma incansável trabalhadora. Senti-me exaltada na mente e na alma, por estarem a sentir saudade de mim, por constatar tanta afeição, e por Richard, de uma forma sábia estar a fazer disso u adeus cheio de esperança, desprovido do peso sombrio da amargura e sem a mágoa que me teria entristecido e perturbado.

Então, do mesmo modo inexplicável com que eu me tornara parte destas duas cenas, tudo desapareceu. Eu encontrava-me aqui deitada em paz.
“Então, isto é a morte?” Lembro-me de ter dito para uma das irmãs que se encontrava a meu lado: “Vida separada por densidade – apenas isso!”

Senti-me cheia de entusiasmo. Agora sabia que podia “sintonizar-me” com o plano terreno e até mesmo vê-lo, caso o desejo fosse suficientemente forte para desagregar a barreira existente entre o vosso mundo e o meu novo mundo. A possibilidade dependia de mim... Compreendi que esta tinha sido a minha primeira lição... Agora eu habitava num reino de pensamento; e tal poder de pensamento, quando correctamente utilizado, pode penetrar o plano denso que é o mundo da habitação humana. Não tinha a impressão de que partira realmente para um país longínquo... Ainda conseguia manter contacto. Com essa abençoada sensação de consolo, devo ter flutuado novamente, ou mergulhado num estado de passividade.

A experiência seguinte veio com um forte pensamento – Exeter! Mais uma vez estava consigo em espírito, na imensa Catedral onde o pequeno grupo de pessoas reunidas para me relembrar quase fora engolido pelo enorme edifício vazio. Desta vez fui menos emocional. Fui capaz de participar de uma forma mais objectiva. A minha mente pôde apresentar a sequência do serviço religioso... Senti-me humilde como nunca diante da bondade das almas agrupadas naquela capela, da oração, excelentemente concebida, do Coronel Lester, da “aura” construtiva das formas de prece e também da fé que foi expressa naquele culto em minha memória.

Esta é uma mudança que vocês todos farão (alguns muito em breve) e então a Verdade se fará visível! lembro-me de ter pensado. Quanto desejei materializar-me diante de vós, para mostrar que não existe morte; mas isso estava além dos meus poderes...
Na ocasião em que o serviço religioso em Memória foi celebrado, em Londres, eu já havia progredido o bastante, neste método da extensão da consciência, para fazer com que a minha presença fosse conhecida por aqueles que podiam abrir as suas mentes para esta nova dimensão de pensamento. Senti que certos dos presentes me “viram” ou tiveram “percepção” da minha presença com as Irmãs. Para mim, isso foi enaltecedor e reconfortante...
Relaxei nesta paz. A minha existência agora prossegue, numa escala de vida mais plena e abundante...

12 de Dezembro

...Ainda permaneço na Casa de Repouso, embora agora esteja a ocupar um “chalé” que é só meu. É um lugarzinho adorável e tranquilo que tem um jardim muito bonito (dentro em breve falarei mais nele). Naturalmente, ainda pertenço à Casa e volto para lá com frequência. Tenho mantido longas conversas com a Madre Florence e com a irmã Hilda e a Irmã Mary. Elas dão-me explicações acerca desta nova aventura; porquanto isto é uma aventura; é o que sinto com respeito a esta nova vida que agora estou a viver. Ela é uma aventura... provavelmente, não permanente... pois nada é permanente, nem mesmo aqui! Mas é verdadeiramente estimulante e muito satisfatória. Posso descrever esta fase como um período de “prolongamento da mente.”

Você lembra-se de como, nos últimos anos, costumávamos conversar e conversar, debulhar aspectos da experiência, discutir e planear o trabalho futuro? Isso geralmente aconteceu, lembro-me, numa manhã de domingo com respeito ao “cozinhado” da nossa velha caldeira. Bom, naquela época encontrávamo-nos as duas na parte externa da experiência... a olhar para dentro. Agora o problema acha-se invertido. Eu encontro-me do lado de dentro, a olhar para fora.

Ainda tenho as mesmas experiências, os mesmos problemas, as mesmas esperanças, e tenho aspirações de trabalho muito maiores e mais amplas; só que agora posso vê-las de uma ângulo completamente diferente, e com uma compreensão muito mais esclarecida. Agora estou a começar a perceber o significado de muito daquilo que me aconteceu. Vejo tudo como um Desenho em segundo plano. De algum modo, estou a começar a compreender os efeitos dos meus pensamentos e a observar os acontecimentos que foram motivados por estes mesmos pensamentos e ideias.
Este, de facto, é um exercício que nos deixa sóbrios.

Quando nos encontramos no corpo somos tão limitados pelo ambiente, pelas emoções e pelas dificuldades, que se torna difícil julgar de forma acurada tais resultados como sendo uma possível consequência do planeamento, e quando tentamos estimar o seu valor, com muita frequência erramos porque nós mesmos (nossos pequeninos “eus” egoístas) nos interpomos no caminho e desviamos o Propósito. Aqui vivemos muito mais nos domínios da Mente. Conforme reflectimos sobre uma experiência ou um Objectivo, a mente alonga-se para ver todos os lados do problema. Esta é uma experiência nova e nem sempre agradável ou excitante. Parece-se mais com uma reacção e cadeia; muito mais poderosa e autêntica do que a velha associação de ideias da psicologia terrena. Aqui, conforme pensamos... assim somos. Tentarei tornar isto mais claro.

Naturalmente, não somos coagidos a fazer uma revisão da nossa vida terrena, tão logo aqui chegamos e a nova vida tem início. Alguns levam imenso tempo a atacar o problema, por receio de se confrontarem com os efeitos os seus erros e fracassos...
Alguns dos nossos pacientes, aqui, ficaram “emperrados.” É neste ponto que eu, que também estou a passar por esse tipo de “psiquiatria” mental e espiritual, posso ajudá-los. Em parte foi por isso que me escolheram para ficar aqui durante um certo período. Ficarei aqui até que a minha própria trajetória tenha ficado clara (tanto a do passado como a de um possível futuro) e até que eu tenha podido rectificar os aspectos, na cadeia, onde falhei. As minhas experiências como professora e como religiosa, como psicóloga e coo pesquisadora esforçada da vida espiritual, são agora de enorme valia. Disponho de alguns conhecimentos que poderão (e às vezes conseguem) ajudar aqueles que sorem de uma timidez exagerada, que estão assustados ou que são perseguidos por um sentimento de culpa a tentar empreender esse trabalho por si mesmos. Além do mais você conhece o velho provérbio (você é professora) que diz que aprendemos ensinando. Agora estou justamente a fazer isso.
O método usado aqui é interessante e estimulante.

De algum lugar nas profundezas da nossa mente, duas “fotocópias” são trazidas à minha consciência. São tão nítidas que posso literalmente retirá-las, materializá-las e estudá-las. Uma é a Ideia Perfeita com a qual o meu espírito penetrou com bravura na encarnação. A outra é o resultado de um plano apenas parcialmente compreendido... na verdade, a minha vida conforme ela foi vivida realmente.

Para mim foi um choque, e uma experiência muito salutar, descobrir como esses dois planos foram extraordinariamente diferentes. Contudo, aprendemos tanto encarando os resultados... De certo modo, as fotocópias assemelham-se a mapas, com lugares coloridos, manchas claras e escuras e uma espécie de “sol” brilhante, a criar os relevos. Primeiro que tudo fazemos as comparações todas e colocamos as fotocópias lado a lado. Este é o primeiro choque; é uma verdadeira humilhação para si que descobre que fez tão pouco onde poderia ter feito tanto; que errou com tanta frequência quando se sentiu segura de que estava certa.

No decorrer desta experiência, o ciclo inteiro do seu período de vida desenrola-se diante de si, numa caleidoscópica série de imagens. Durante esta crise parecemos estar completamente sozinhos. O julgamento é seu; você encontra-se diante da barra do seu próprio tribunal. Você toma as suas próprias decisões. Você assume a sua própria culpa... Você é o acusado, o juiz e o júri.

É neste ponto que um boa quantidade de almas, que se encontram nesta Casa de Repouso, ficaram imobilizadas. As suas imagens eram por demais causticantes nas suas exposições. Portanto, tentamos ajudá-los nessa tarefa, mas somente quando já tenham formulado o “desejo interior” de corrigir os seus erros. Não sei o que lhes acontece enquanto tal decisão não é tomada, mas devo crer que sejam “prisioneiros do eu.” Tão logo se encontram preparados para se encararem a si mesmos de novo, são conduzidos para estas Casas lindas e tranquilas. Aqui as Irmãs devotam o seu amor e o seu pensamento, a sua perícia e a sua experiência ao auxílio dos “hesitantes.”

O segundo estágio desta recapitulação começa quando a alma se sente bastante forte e suficientemente calma para reformar a sua vida terrena round a round (por assim dizer). Então, as fotocópias tornam a ser trazidas para a mente; ó que desta vez tudo começa a partir do momento em que nos separamos do corpo. A mente trabalha lentamente, oh tão lentamente, recuando através das nossas experiências. (Não estou a confessar até onde cheguei neste exercício!) O que lhe digo é que agora você já não parece estar sozinha. “Alguém” se encontra a seu lado. Se é o próprio Espírito Superior ou algum Auxiliador, isso ainda não descobri. Só que agora, enquanto reflecte, soluciona, repassa, classifica e julga aquilo que fez e os resultados mais a razão deles (bons ou maus) você está gloriosamente “consciente” desse grande Ser a seu lado, a dar força, paz e tranquilidade, e a auxiliar com crítica construtiva. Embora às vezes angustiante, esta é uma experiência maravilhosa. Muito purificante e portadora de novas esperanças.

Muitos daqueles que se encontram aqui ficaram “especados” com as suas imagens iniciais. Por isso nós (as Irmãs daqui da Casa), tentamos estabelecer uma ligação com estes grandes seres e trazer ajuda para o nível dos que tropeçaram. A Madre Florence é maravilhosa nisso. Ela possui uma verdadeira técnica e é essa técnica que eu estou a tentar, não exactamente copiar, mas adaptar aos meus métodos particulares de trabalho.

Preciso contar-lhe a respeito do meu jardim. Sim, ele é muito lindo. E ainda pratico jardinagem! Não do mesmo modo que costumava ver-me ajoelhada a esgravatar no chão, enquanto pensava para si própria: “Lá está ela de novo; ela não devia fazer isso!” Não. Ainda fico ajoelhada, mas de uma forma diferente, e não para esgravatar o chão! (Isto tem um duplo significado!...)

Há um canteiro pequenino, no meu jardim, que resplandece com flores cor de ouro. Lembra-se as papoulas amarelas que flamejavam por toda a borda do eu jardim em Addington?... Bom, tenho um canteiro de flores (não são papoulas) do mesmo tipo, douradas e resplandecentes. Quer dizer, elas nem sempre resplandecem. Tenho que as manter a brilhar por meio da “jardinagem.” Isto é, derramar Luz e Amor dentro delas e sobre elas, quase do mesmo modo como se as regasse e nutrisse; e elas reagem (ou respondem) crescendo profusamente e cobrindo-se de uma gloriosa cor de ouro.

Você lembra-se do “Lugar Secreto” onde costumávamos fazer as nossas meditações? Chamo este canteiro dourado de meu “jardim secreto,” e alguns dos pacientes (aqueles que estão a tentar descolar no seu primeiro exercício de recapitulação) vêm para me visitar. Conversamos e depois eu os conduzo até o meu jardim dourado, e ali deitamos, relaxamos e entramos em “sintonia” com s pensamentos mais elevados dos Grandes Seres... Fico emocionada quando vejo alguns dos resultados.

Havia um homem numa das enfermarias. Ele tinha sido brutal e rancoroso com a sua esposa e com a sua família. E agora encontra-se encalhado. Passou um longo período, do tempo terrestre que você conhece (embora por aqui não exista tempo como tal) desde a mudança que fez para esta vida, amarrado aos lugares e às pessoas onde e sobre as quais a sua crueldade e rancor tinham sido exercidos. E agora ele está aqui, e está a tentar prosseguir. Mas o “rolo” do filme da sua vida o deixa apavorado; e ele ficou completamente imobilizado. Visita-me e conversamos e conversamos (tal como eu fazia com alguns presos na Prisão de Maidstone). Na última visita que me fez eu o conduzi até ao meu jardim secreto. Ele começou a relaxar. Pude “ver” isso. Um pouco da aura de medo e de remorso, que o aprisionava, começou a dissolver-se. Ele ficou lá deitado durante muito tempo, no meio daquela luz dourada, e quando saí para o ver, ele sorriu. Era o primeiro sinal de iluminação que eu tinha visto nele. Ele disse: “Oh, Irmã, sinto-me muito melhor. Posso voltar ao seu jardim de novo?”

Veja como este trabalho é feito!

Isso ajuda-me e ajuda outros, Pelo facto de este plano ser apenas alguns poucos degraus mais elevado do que o plano terreno, aqui temos condições, hospitais e prisões iguais às que existem nas vossas civilizações, só que aqui elas são construídas por nós próprios.
Tornarei a voltar. Deus a abençoe.

18 de Dezembro

Não, eu não queria deixar a vida terrena. Achava que o meu trabalho não tinha sido terminado. Tentei, o mais possível, ignorar a deterioração do corpo e orei para que me permitissem ficar mais alguns anos a fim de realizar os planos de espalhar, entre outras pessoas, um conhecimento tal como aquele que obtivera. Mas agora estou contente.

Uma vez mais, estive a estudar a “Fotocópia” destes últimos anos, à luz desta nova compreensão com a qual estou a aprender a revisar o passado. Este novo ângulo de abordagem, que representa uma forma de compreensão mais profunda, foi criado na minha mente (ainda disponho de uma mente – graças a Deus!) em parte por eta nova libertação das exigências do corpo, das emoções e da pressão, dos outros, sobre a minha vontade; mas, em parte pelos sábios conselhos de Madre Florence, das minhas Irmãs e do Padre Joseph. Às vezes temos uma “mesa redonda,” aqui (igual a uma reunião do conselho) e aí eu coloco todas as perguntas que me preocupam, diante de mentes mais sábias do que a minha. Sempre recebo respostas que explicam plenamente, embora às vezes eu precise racionalizar os seus significados para minha própria concepção particular.

Este processo é lento. Eu progrido lentamente. Mas o caso é que você sabe que eu tive essa espécie de mente, que sempre precisou ler e ler, procurar e procurar, absorver e absorver; e, mesmo depois disso, racionalizar o conhecimento obtido, para minha própria satisfação. Creia-me, eu não “pulei fora” da comunidade, na qual tomei os votos, antes de joeirar e de digerir a evidência de estratos mais profundos das necessidades psíquicas e espirituais. Foram necessários meses de estudos, de leituras e de meditação, para que eu me decidisse a dar um passo tão drástico. Agora, olhando para trás, vejo o desenho com clareza. Não me arrependo disso. Aqui todas as coisas são compreendidas e julgadas numa base mais ampla. Esta já não é a comunidade acanhada e tiranizante. Este é um trabalho amplo e solícito... e tudo é compreendido e encarado com compaixão.

Agora sou exactamente a mesma pessoa. Ainda tenho que repassar e tornar a repassar, na minha mente e à luz desta nova maneira de abordar os problemas, as possibilidades que tive quando na Terra e as falhas e os enganos que cometi. Ainda me esquivo a admitir muito daquilo que foi, talvez, repreensível e que poderia ter sido resolvido sem a minha confusão humana...

Mas aqui nós não desperdiçamos esforços num arrependimento cego. Há muito que aprender, de uma forma positiva, e muito a pôr em prática para o nosso progresso futuro. E sempre há almas em transes muito piores, que se constituem em lições que podem ser aprendidas.

Falo dos pacientes que aqui se encontram.
Eu já disse que nós temos os graus e classes aqui, na Casa – analfabetos e ignorantes, educados e cultos, assim como aqueles que tive que ensinar quando trabalhei como orientadora-organizadora no experimento que foi feito na Prisão de Maidstone. Só que aqueles eram prisioneiros do estado; segregados por seus semelhantes, pelas leis e pela força. Aqui ninguém é conservado contra a sua vontade ou o seu desejo. Quase todos os pacientes são bastante felizes e desejam permanecer nesta segurança temporária. Não podem mudar-se até que tenham visto (literalmente) a Luz ou, pelo menos, o tanto de Luz que possam assimilar nos seus estágios actuais.

Há um médico aqui. Já faz um certo tempo que ele está com as Irmãs: um homem brilhante; infelizmente ele foi viciado em entorpecentes. (Mas voltaremos a falar dele mais tarde). Falando de um modo geral, os habitantes daqui são de todos os tipos; alguns avançados em muitos campos e que estão literalmente a “atravessar” as Esferas.

Talvez você se interesse pelo meu último contacto. (Mal posso chamá-lo de aluno porque na terra ele foi um cientista de renome!) Não faz muito tempo que este homem aqui chegou, vindo de uma outra esfera, e a Madre Florence sugeriu que nós dois conversássemos. Ele possui uma mente de elevada qualidade, exacta e lógica, como convém a um cientista, naturalmente. Para mim, conversar com ele constitui uma emoção mental. Na Terra, porém, ele foi um agnóstico consumado... até mesmo um ateu, embora ele me diga que as pesquisas que fazia sempre terminavam voltando ao ponto de que deveria haver um certo factor X que estava além da concepção do homem, o Factor Criativo Perfeito, uma Mente Suprema. Não obstante, em todo o seu trabalho ele se recusou a admitir que isto poderia ser um sinal de que a Vida era uma matéria que estava relacionada com a progressão da consciência. De facto, embora me tenha explicado a configuração maravilhosa e a energia intrínseca existente em todo o átomo de matéria, não obstante ele nunca aplicou isto ao próprio homem na questão da possibilidade de sobrevivência. A sua tese era a de que tal consciência era inerente às partículas de matéria e permanecia como tal, de conformidade com os vários tipos de trabalho para os quais estes átomos se agrupavam. A sua teoria era (e ainda é) a de que o agrupamento de átomos e de células determinava o seu efeito. A sua rotação em determinadas velocidades vibratórias determinava a densidade. Por conseguinte, mudando as configurações e variando as vibrações, o homem podia produzir resultados diferentes. E era isso que ele estava a fazer; estava a explorar as possibilidades de mudar as configurações e produzir tipos mais finos (ou menos densos) de matéria.

Isto, já se vê, é exactamente o que o progresso significa para a vida na Terra, iluminando as partículas de matéria e levando-as para uma densidade menor. Só que agora nós dois temos conversado e concordamos em que o factor X é, real e imutavelmente, a Luz da Força Criativa; e chegamos à emocionante conclusão de que a tentativa dos cientistas, de mudar a velocidade vibratória da matéria atómica, é um equivalente de toda a antiga doutrina da Luz a permear a densidade da imersão do homem na matéria. Se o homem puder ter em mente a Luz Divina (que podemos compreender como Vida Permanente quando estamos fora da prisão do corpo) ele terá o poder de transformar estas partículas, conduzindo-as a uma vibração mais elevada. A dificuldade está em que, quando somos bombardeados pela consciência das vibrações mais densas que configuram o nosso corpo, e por toda a chamada matéria do mundo material, a Luz Eterna fica imersa e obscurecida, sendo às vezes totalmente extinta.

Debater com este homem tem sido uma experiência magnífica. Ele agora vê que a consciência é o factor X em expansão, que vai se tornando cada vez mais forte e mais capaz de iluminar a matéria; e que à sua frente se estende uma gloriosa concepção e, por conseguinte, matéria cada vez mais iluminada com a qual experimentar. Agora ele acha-se mergulhado em surpresa, não apenas pelo facto de ele próprio ser uma unidade de consciência, mas também porque, em virtude da transição para fora do corpo, o padrão do seu próprio índice de energia ter mudado, se ter tornado menos denso, de modo que ele agora é capaz de trabalhar com uma intensidade ampliada, usando um campo de força magnética muito mais amplo.
Quanta coisa aprendi com ele!

Aqui estamos nós os dois a conferenciar; ele com o enorme acervo de conhecimento de que dispõe das reacções atómicas na matéria, e eu com a convicção intrínseca que tenho de que o Espírito é a Luz (o factor X) que é o foco, o poder e o motivo de tudo e para tudo. Você pode entender o quanto isso é emocionante e excitante. O meu amigo (eu o chamarei de Sr. M) não ficará muito tempo aqui, nesta Casa de Repouso... (eu poderia dizer “infelizmente,” pois vou sentir falta das nossas reuniões). Ele irá juntar-se a um grupo de cientistas que estão a trabalhar nos Planos mais elevados. Contudo, ele diz que continuará a manter contacto comigo, mesmo que eu resolva ficar aqui durante algum tempo. Mas, naturalmente, existe a telepatia mental, para irradiarmos ideias um para o outro.

Enquanto passa pela purificação da sua mente concreta, ele tem saboreado muito a paz do meu jardim e nós temos feito emocionantes experiências com meditação e também com transmissão de luz para as minhas plantas e as minhas flores, cujos resultados pudemos observar de imediato.

“Eis aqui o seu Factor X,” disse-lhe eu certa vez, com o meu velho entusiasmo. “Veja como a luz do Amor e da Beleza transformaram estas flores, dando-lhes o fulgor que elas possuem agora. “Sim,” concordou ele com o leve aceno característico de cabeça que sempre fazia quando tinha tabulado um resultado.
“Sim. Se ao menos pudéssemos compreender essa Causa e Efeito durante a nossa permanência na Terra.”
“Mas poderemos.” De repente, senti-me iluminada. “As suas pesquisas, no Plano para onde irá a seguir, poderão ajudar os habitantes da Terra a adquirir esse conhecimento.
“Você quer dizer, por telepatia?”
“Por telepatia,” concordei.

E aqui estou eu, já alcançando você na Terra, por meio dela! Mas isto é apenas uma amostra daquilo que ele e os cientistas com quem está prestes a se reunir poderão transmitir por intermédio de mentes avançadas, que agora estão encarnando no plano terreno, para a Era que se aproxima.

O trabalho aqui é emocionante e satisfaz a alma. Compreendo o quanto sou abençoada por poder entrar em contacto com tais mentes avançadas, e por estar autorizada a transmitir as minhas experiências e aventuras para serem lidas por aqueles que se encontram na Terra, a fim de que possam antecipar, com alegria espiritual, a plenitude da vida futura.

Uma hora mais tarde, mais ou menos

Percebi que você andou a analisar tudo isto em sua mente e eis aqui a resposta parcial para as perguntas que tem formulado. Depois de um fascinante discurso sobre protons, electrons, pontos de bombardeamento, padrões raciais, etc., eu disse para o Sr. M: “Então agora você vê que a consciência está sobre uma espiral que se dirige para cima e progride para a frente… até mesmo a sua. Como se sente a respeito disso, agora?”

Ele esboçou um sorriso aberto: “Sempre aceitei os factos,” respondeu, “e isto é um facto, não é? Eu penso. Eu raciocino. Eu aprendo… na verdade, ainda existo. Não podemos contestar factos…”
“Algumas pessoas disseram que a vida terrena é uma grande ilusão,” insisti. “Esta também poderia ser uma ilusão!”
Ele acenou a cabeça.

“Não posso aceitar que a vida na Terra tenha sido uma ilusão. Eu estava lá, suficientemente sólido para os nossos sentidos. Certamente que ela resultou de um valor vibratório específico. Portanto, se você quer dizer que esse valor vibratório foi apenas a percepção da substância pelo estado de consciência as nossas mentes-cérebro, eu concordo com isso. Talvez uma projecção das nossas mentes limitadas, mas não uma lusão. Nós criamos o ambiente que nos rodeia…”
“O que é que cria?” perguntei.
“O pensamento.”
“E o seu Factor X?”
“Ainda pensamento, Irmã. Porém, de vibração e densidade variadas.”
“De modo que usando mais Factor X você obterá uma velocidade vibratória muito mais acelerada?”
“E um tipo de criação do pensamento muito mais elevada.”
Ele abanou a cabeça no seu gesto habitual.
“É claro! Agora eu entendi isso a partir do seu ponto de vista. Mais Luz. Uma concepção muito mais vasta. Todos tivemos essa Luz durante todo o tempo… e tão poucos de nós soubemos disso!”
Eu protestei: “As Igrejas e todas as religiões do mundo souberam disso.”
“Talvez. Mas eu fui um cientista. Eles estavam a construir uma teoria que ninguém tinha provado.”
“E agora?”
“Agora provei uma coisa… eu sobrevivo como mente e com um corpo menos denso.”
“Todavia, você tinha provado, parcialmente, a característica do Factor X.”
De novo, ele hesitou.
“Eu não a provei… ainda, Irmã. Pareceu-me vê-la funcionar nos nossos experimentos. Mas sinto que estou no começo de uma investigação muito emocionante, em vez de estar no fim de todas as pesquisas que esperei fazer. E no momento esto é suficiente…”
Você vê como esta experiência purificadora funciona? Nós não passamos por qualquer alteração fundamental. Contudo, pouco a pouco nos afastamos das ideias e limitações terrenas e avançamos para mais perto da luz e da sabedoria.

1º Janeiro de 1966

Disse-lhe que lhe narraria as experiências por que passei com este brilhante cirurgião que aqui se encontra connosco e que, durante o seu tempo de vida se entregou ao uso de drogas até que isso se tornou num vício -  e disse que contaria a sua história. Este homem possui uma mente talentosa. Na Terra ele foi famoso pela habilidade das suas mãos e pelo conhecimento demonstrado em certas operações físicas. Não lhe direi qual foi a parte do corpo humano em que ele se especializou por isso poder revelar a sua identidade. E aqui nós preservamos, tanto quanto possível, o anonimato da nossa vida física. A perícia que alcançou tornou-se uma lenda em certos grupos médicos. Contudo, ele tornou-se num viciado em drogas, inseguro e falível. A sua saúde não resistiu e aqui se encontra connosco, na nova Vida.

É um homem de aparência impressionante, pois agora está a recuperar o entusiasmo e a dedicação da sua juventude e, consequentemente, o seu corpo modelou-se com toda a força e vigor de um jovem. Tem os olhos profundamente assentados, uma bela cabeça leonina (diria você, nos seus termos astrológicos) e dedos longos e sensíveis. Ter assistido a esses dedos e mãos a operar o bisturi deve ter sido uma experiência emocionante e maravilhosa.

Mas quanto à sua história - conforme ele a contou para mim:

"Tudo começou com um lamentável caso amoroso que se deu num certo período da minha vida... nos meus quarenta e poucos anos. Os meus assuntos domésticos tinham sofrido perturbações e eu me apaixonara por uma mulher muito linda, mas sem coração, que pretendia destruir-me a vida doméstica - e conseguiu!

"Durante esse período de agitação e de perturbação emocional  tive a terrível infelicidade de perder um paciente no decorrer de uma operação. Para ser absolutamente franco (e aqui não podemos ser outra coisa) o bisturi escorregou e cortou uma veia. A operação teve que ser suspensa enquanto tratávamos disso e  o coração do paciente falhou. Nos círculos leigos isso foi considerado um acidente infeliz; nos círculos médicos, os meus colegas me asseveraram que,  de qualquer modo  o coração do homem morto não teria suportado a extensão e a severidade da operação.

"Eu, porém, sabia mais. Eu não tinha operado no meu estado verdadeiro... naquele estado no qual realizara todas as minhas operações...

"Desde rapazinho que sempre soubera que o cirurgião se encontrava dentro de mim...
 não eu, mas este alguém que tudo sabe, que é todo-poderoso e que, quando eu ficava de lado e deixava que Ele assumisse, realizava milagres de cirurgia por intermédio das minhas mãos e do meu cérebro. No decurso do meu trabalho, eu tinha adquirido o hábito de ficar em silêncio e sozinho durante algum tempo, nos dias em que tal perícia era requisitada, a fim de entrar em contacto com Ele. Nunca fui um homem religioso. Não creio que O tenha encarado como Cristo ou Deus. Ele, porém, era a força e a destreza das minhas mãos. A inspiração que me guiava e governava o cérebro era Sua. Eu estava perfeitamente certo e seguro disso, embora nunca falasse nisso a outras pessoas. Sem Ele e o Seu discernimento, perícia e serenidade eu era igual a nada. E cada vez que uma operação terminava e eu me dirigia para a torneira para me lavar, costumava sentir-me fisicamente doente ante a possibilidade de perder contacto com Ele, um dia... Lembro-me de sempre ter dito obrigado após cada sessão prolongada, no anfiteatro de operações.

"Contudo, neste dia em particular, quando ocorreu o acidente, eu tinha seguido apressadamente para o hospital, depois de um tumulto emocional com a mulher que julgava amar. Não tinha tido tempo para permanecer tranquilo ou para relembrar o meu Cirurgião Celestial, se é que o posso chamar assim. Atravessava um turbilhão emocional.

"Depois do paciente morrer e ter sido levado, fui para o escritório das Irmãs e fiquei prostrado. Não importava o que dissessem, eu sabia. Tinha perdido o contacto com o Ser interior. Fiquei desolado. Lembro-me que os dirigentes do hospital insistiram para que eu tirasse umas férias. Fui para a Sicília onde fiquei três semanas, e regressei com a mente calma e com uma esperança renovada.

"Contudo, de volta à correria e à tensão da vida de um cirurgião, surgia-me uma coisa nova na mente. Passei a ter medo. Torturei-me a pensar que talvez o Cirurgião Interior não estivesse mais lá, para me guiar e ajudar. Transformei-me numa alma despedaçada, torturada, aterrorizada e quase impotente por causa do medo e do temor de que aquilo que tinha ocorrido uma vez pudesse ocorrer de novo...

"A senhora vê, Irmã, eu não tinha conhecimento ou experiência de como me sintonizar para alcançar esse grande Espírito Interior, como me estão agora a ensinar. Se então eu tivesse compreendido que Ele está (conforme Cristo nos instruiu) sempre pronto para ser alcançado, poderia ter tido forças para continuar sem armar a confusão que armei, da minha vida...

"Contudo, para resumir: Eu podia ver (e outros me preveniram) que estava a rumar para o colapso nervoso. Comecei a tomar drogas para dormir, a fim de anular aquelas longas e terríveis horas da noite em que o medo se apossa do cérebro. E então foi-me apresentada uma operação semelhante. Aprendi que a vida é sempre assim, que a corda do nosso carácter precisa ser testada no seu ponto mais fraco.

"Quando examinei o homem que ia ser meu paciente, o reconhecimento foi como um choque eléctrico a percorrer-me de ponta a ponta. Esta era uma réplica exacta da operação que realizara apenas seis meses antes e que tinha sido tão desastrosa, o trabalho muito especializado e muito delicado de extirpar o tecido doente de uma das partes mais vitais do corpo humano

"Perdi completamente o controlo dos meus nervos. Para evitar algumas explicações dolorosas, tomei uma droga que eu sabia me iria clarear o cérebro e paralisar os terrores insistentes que me perturbavam, aos quais eu me permitia sucumbir. A droga funcionou. Fiquei calmo e eficiente. Pensei que tivesse entrado em contacto com o Cirurgião. A operação foi um sucesso absoluto. Mas este iria ser o meu Calcanhar de Aquiles. Comecei a confiar no efeito da droga, que parecia isolar o meu eu pessoal, com todos os seus temores de fracasso e de insuficiência, a fim de que o Ser interior se tornasse no cirurgião de antes. Fui caindo mais e mais neste pântano de tranquilidade. Mergulhei mais e mais fundo até que não pude operar sem a droga.

"Essa era a debilidade de que eu padecia. Só que agora tinha o tormento adicional de perceber essa debilidade, de saber que a força me abandonara. Eu estava cada vez mais habituado a esse estímulo exterior para acalmar o eu pessoal e, Deus me ajude, não me atrevia a desistir por causa do medo de ficar completamente sozinho. Continuei com isso durante quase dez anos. Oh, sim, realizei algumas operações notáveis, é verdade. Mas elas foram triunfos do Cirurgião Interior, não meus. Eu estava a transformar-me apenas numa pobre casca de ser humano, e sem os remédios, nem o meu cérebro nem o meu corpo me obedeceriam.Se existe um inferno na Terra terá sido esse. Progressivamente, tornei-me escravo das drogas (agora mais que uma) que estava a tomar. A minha mente viva em agonia; o meu corpo encontrava-se atacado pela doença e a minha alma estava perdida, sozinha e assustada.

“A senhora sabe o resto, Irmã. A minha mente desintegrou-se. Fui considerado insano, isolado num sanatório e lá. Finalmente, fui aliviado do corpo doente e das ilusões do cérebro terreno.
“E agora…?”

(Frances fala)
Fiquei muito comovida com a história dele, como todos ficariam. Ele tem tido longas conversas com Madre Florence e com o Padre Joseph, e tem-se sentado aqui comigo, em silenciosa meditação, no meu jardim dourado.
Agora, porém, preciso contar-lhe acerca da maravilhosa experiência que o “libertou” do seu julgamento errado, da culpa e do seu remorso. Tive permissão para participar desta experiência…

Com a Madre Florence e a Irmã Hilda, fui ao anfiteatro de operações, como nós aqui o chamamos. (Naturalmente não tem a mesma conotação que na Terra). O doutor X já lá se encontrava, entregue aos cuidados do Padre Joseph. A “sala,” se é que se lhe pode chamar tal coisa, era composta por um longo rectângulo com uma espécie de teto abobadado que dá a impressão de espaço ilimitado. Sentamo-nos a olhar para uma vista de um azul que parecia cintilar. Não havia paredes, somente um espaço de um profundo azul cerúleo. Parecia-me ouvir cânticos, embora lá não houvesse órgão nem coro; mas reinava uma música indistinta, das esferas, absolutamente indescritível; tão calmante que o nosso espírito se erguia para flutuar e participar dos sons.

Subitamente, sem aviso prévio, aquela vista azul dispersou-se e transformou-se numa tela de cinema ou de televisão, sobre a qual começaram a surgir imagens. Não eram sobrepostas, como num cinema, mas pareciam brotar da própria tela, vindas do próprio éter. Essas imagens pareciam formar-se sozinhas. Elas mostravam momentos de tensão, momentos de triunfo e momentos de fracasso na vida terrena do Dr. X. Vimos pacientes, e observámo-lo nos seus diagnósticos; nós o seguimos até o anfiteatro e testemunhamos as operações feitas por ele, e enquanto observávamos, tivemos consciência (da mesma forma que ele) da grandiosa luz que o envolvia enquanto trabalhava.

Luz! Quanto estou a aprender acerca do significado desta palavra, aqui! Quão intensamente estou a começar a perceber a profundidade daquelas palavras: “Luz que ilumina todo o homem que vem para o mundo!” Quão mesquinha é a concepção e compreensão que temos dessa luz!... Mas tornaremos a conversar sobre isto quando eu tiver aprendido e experimentado mais.

As imagens na “tela” continuaram e continuaram. Fomos levados para dentro de lares, de vidas, de famílias daqueles em quem o doutor tinha realizado as suas operações bem-sucedidas. Constatamos o benefício para a humanidade, as curas, o reinício de vidas úteis e felizes, que resultaram da perícia deste homem. Tivemos permissão para apreciar os resultados daquilo que ele realizara até mesmo quando estava a trabalhar sob a influência de drogas (conforme ele disse).

Fiquei mais do que comovida; fiquei cheia de compaixão e de uma nova compreensão. Aqui estava um homem de pé diante do tribunal do seu próprio julgamento, e os pratos da balança mostravam a pesagem das suas acções e os efeitos resultantes dos seus serviços prestados. E quando nos mostraram a habilidade e o êxito com que ele devolveu a saúde e o vigor a um grane músico, os pratos pareceram quase equilibrar-se. Aquele músico (agora nos Salões de Música, nas Esferas) teve a possibilidade de continuar e de deixar o mundo mais rico e mais engrandecido com as suas execuções, de somar a sua parte à beleza que penetra o materialismo do pensamento terreno; teve a possibilidade de iluminar, com sons gloriosos, a escuridão em que os homens se encontram mergulhados e de elevar os seus espíritos em agradecimento ao Criador.

Conforme o filme da sua vida se desenrolava diante de nós, o Doutor viu (embora mal pudesse acreditar) que tinha realmente feito a sua parte. Tinha seguido o seu Modelo, tinha tornado realidade o seu Diagrama, mesmo que o tivesse manchado gravemente, ao executá-lo.

No final ele viu e compreendeu!

A sua falha tinha sido uma debilidade no contacto da alma com a personalidade, debilidade que ele permitiria que se ampliasse até que ela ameaçasse romper completamente esse contacto. Todavia, tinha sido libertado antes que isso acontecesse. O seu erro tinha sido a sua recusa de pesquisar dentro daquele Alguém interior que conhecia; de entrar em contacto com Ele deliberadamente e com reverência, em outras ocasiões que não aquelas em que a perícia do “Cirurgião Celestial” se fazia necessária. A Luz tinha estado com ele e ao redor dele, e ele não a compreendera…

Se eu dissesse que havia lágrimas nos olhos dele, quando a revelação terminou, estaria parcialmente correcta. Havia lágrimas na sua alma; lágrimas pelas oportunidades perdidas. Mas, também, lágrimas de alívio.

Estou a aprender, deveras, que não devemos julgar com base na nossa compreensão parcial. Este homem, o fracasso que parecera ser, tinha realizado muito. Tinha sido um “Canal de Luz,” mesmo ao tentar ignorar as implicações disso e até mesmo a despeito do facto de que a sua personalidade tinha mergulhado num lamaçal de ilusões.

O Dr. X é uma alma detentora de uma qualidade dedicada. Ele continuará seguindo rumo à Luz maior, para, talvez ali ter uma percepção mais completa, mais potente e mais íntima do seu “Cirurgião Celestial” e para se unir a Ele para trabalhos futuros. Não condena… mas avalia com um critério apropriado.

De que modo, porém, podemos aprender a ter uma compreensão maior, não só das pessoas, mas do grande Plano e do Modelo existentes para cada um de nós e para a humanidade? Como tenho permissão para observar e prestar assistência a estas almas que se reúnem aqui por um certo espaço de tempo, obtenho conhecimentos e uma compreensão muito parcial deste Plano, e isso me traz uma profunda humildade., juntamento com um sentimento de reverência pelo milagre e pela maravilha do Pensamento Criativo Divino.

Em silêncio, voltamos para as nossas tarefas, deixando o Dr. X entregue aos competentes cuidados do Padre Joseph. Aqui quase que poderia ter sido um serviço religioso de Natal, como na Terra, porque, verdadeiramente, tinha nascido uma nova criança junto àqueles que tomaram parte na cerimónia. Uma nova compreensão e compaixão brotou em mim… e uma nova força no Dr. X. Conforme a nossa consciência se expande, também deixamos entrar mais luz. Portanto, agora posso realmente dizer, com uma compreensão muito mais profunda: “Que a Luz desça sobre a Terra!”

3 de Janeiro – O Sonho

Helen Greaves

Duas noites após ter escrito esta última passagem, sonhei com Frances. O sonho foi estranhamente perturbador, porém, vago e indefinido, de modo que, quando despertei para a consciência, sabia o que tinha acontecido mas os detalhes me escapavam. Eu tinha num jardim que parecia estar situado bem no alto, na encosta de uma colina. O que achei estranho a respeito desse jardim é que ele dava a impressão de estar-me “gravado” na mente, qual pintura chinesa, com um comedimento de linhas bem característico da arte oriental. Recordo que havia uma macieira com galhos bifurcados, sozinha a um dos cantos do jardim, mas isso era tudo… excepto uma impressão de espaço e de perspectiva. Todavia, o facto de tudo se achar banhado por uma suave luz dourada permaneceu comigo, de maneira obsessiva. Eu sabia que Frances se encontrava a meu lado, e apesar de ela me dar a impressão de ter uma aparência leve e insubstancial, nós conversamos. Contudo, quando despertei não consegui recordar nada da conversa que tivéramos, excepto o que estava relacionado com as palavras finais (“Daqui prosseguirei”) que me lembro de ter dito.

Todavia, a minha mente consciente não pôde, ou não quis, formular o que isso exactamente pretendia transmitir-me. (Tenho plena certeza, porém, de que o Eu verdadeiro sabe e cumprirá a promessa.)

3 de Janeiro

Frances

Fiz uma grande amizade com o Dr. X. Temos tido longas conversas sobre toda a espécie de assuntos. Estamos ambos certos de termos tido ligações em vidas passadas. Sim, ele aceita a reincarnação. Diz que no seu trabalho médico, reconheceu o quanto a natureza era prodigiosa na sua precisão, recapitulação e aplicação; que a própria vida devia ser em série. Ele confessa que a convicção de que tinha falhado nesta etapa lhe assombrara os últimos anos de tempo na Terra.

Agora, conforme você poderá compreender e avaliar, ele encontra-se mesmo ansioso por continuar. Deseja aprender, tornar-se forte, absorver a Luz, para depois retornar à Terra com a sua habilidade inata, só que com uma ligação e uma recordação mais forte do Espírito e com uma verdadeira união com a sua alma. Ele tem uma grande alma. Acho-o esplêndido e estimulante. É o tipo de personalidade que me teria deixado intrigada, caso o tivesse conhecido quando era moça. Ele teve percepção do seu Eu interior. Ele soube! Agora, porém, ele geme sempre que assinalo isso, por achar que o seu fracasso foi muito maior do que o pecado da ignorância: ele não foi suficientemente forte para manter o contacto que sabia existir. Este é um ponto interessante – para mim. Ele é uma alma velha, um ego avançado: e ele soube.

Muitas e muitas pessoas nem sequer têm aquele consolo de reconhecer o Poder interior, mas apesar de tudo ele não conseguiu, no seu pequenino eu, manter o contacto. Que técnica poderia ter empregadoque o ajudasse a conservar e a fortalecer esse contacto?
A resposta está naquela técnica e naquele método que têm sido do conhecimento de uns poucos, ao longo de todas as eras; a técnica da comunhão com o Divino; de usar um acto de vontade para afastar as ilusões da Terra e abrir um canal para a Fonte Suprema, para a luz do conhecimento consciente.

À minha modesta maneira e, possivelmente, de um modo pouco convincente, tentei ensinar, na Terra, o valor dos períodos de meditação, quando a personalidade gravita em direcção à luz da alma e do espírito. Também eu fracassei, porque, de certo modo, não consegui superar as minhas próprias barreiras pessoais. Aqui estou a aprender muito, muito mais. Mais tarde tornarei a falar sobre a meditação e a contemplação e sobre os métodos referentes a isso. Falarei também (uma vez que estou a começar a compreender) da maneira como essas técnicas funcionam realmente. Asseguro-lhe que não há nada de vago ou confuso. É um processo inteiramente científico, como diria o Dr. X.
Mas, continuando:

Com o Dr. X, fui visitar alguns dos seus contemporâneos e amigos, numa outra parte desta nova vida. Suponho que chamaria a isso de Planos mais Elevados.Não posso dizer com certeza. De qualquer modo, nós encontramo-nos num “círculo médico,” formado por almas. Havia muitas almas e elas irradiavam uma concentração jubilosa que era cativante. Logo nos reunimos em grupos numa conversa amigável e cheia de entusiasmo. Um dos que ali se encontravam tinha sido um grande médico, um médico muito estimado, quando na Terra; uma alma cujo semblante era de uma formusura além que qualquer descrição que eu possa dar. Ele irradiava beleza e amor espiritual. Parecia ser um líder deste grupo. Falou com o Dr. X e ficou ao lado dele, tão elevado em pensamento e em inspiração que eu me senti quase glorificada. Contudo, sabia que não poderia suportar a elevada frequência da vibração dele durante muito tempo. Esse líder disse que em breve teria o prazer de receber o Dr. X como membro do seu “pessoal.” Emocionei-me pelo meu novo (não obstante velho) amigo. Fiquei feliz por ele. Foi um momento – sinto eu – de suprema realização.

Depois encontramos o músico cuja vida, na terra, o Dr. X tinha sido capaz de prolongar por meio da sua perícia médica e cirúrgica. O músico prometeu levar-nos aos Salões de Música. Ele não correspondeu, de modo algum, à ideia que eu tinha de como deveria ser um músico... Mostrou-se alegre, quase folgazão, e mexeu com o Dr. X.
“Então, o senhor trouxe a sua enfermeira?” perguntou ele. (Ainda estou a usar o hábito).
“Minha enfermeira não, minha mestra: a irmã e eu temos esmiuçado, juntos, muitos problemas e enigmas,” respondeu o Dr.
“O senhor irá sair logo?” perguntou o músico.
“Não antes de ter terminado o Primeiro Grau,” interpus, sem perceber muito bem o que estava a dizer. Depois, fiquei com vontade de sair dali, achando que tinha cometido uma gafe. Mas eles não levaram a mal o que eu dissera.
“A irmã está absolutamente certa,” disse o Dr. X, “e se o trabalho da escola secundária é este, só posso esperar, com grande ansiedade, pelos cursos superiores.”

Esta foi a experiência mais maravilhosa que tive, deste ovo aspecto de Vida. Foi como se me enchessem de luz… esta é a única maneira de expressar a minha impressão. Todavia, nenhum de nós estava em condições de suportar por muito tempo esta enorme intensidade de vibração. Sentimo-nos esgotados, por assim dizer, por esta Elevada Frequência, de modo que, pelo que me toca, logo senti a estranha sensação de estar a minguar. E então estávamos ambos de volta, novamente ao meu jardim, e a Irmã Hilda estava ali para me dizer que acabara de surgir uma situação urgente, na Casa.

Todavia, nós dois tínhamos tido uma amostra da beleza das esferas Superiores e da comunhão com almas evoluídas… Senti-me como se estivesse a resplandecer. A luz ficou comigo. Isto é vida… Vida mais abundante.

No mesmo dia (3 Janeiro) – mais tarde

A Irmã Hilda e eu retornamos à Casa. Madre Florence encontrava-se à nossa espera. Conduziu-nos a um canto e disse que um “paciente” novo, e muito difícil, acabara de ser trazido para cá. Discretamente contou-nos os factos referentes a este recém-chegado. O homem tinha sido um líder nazista muito conhecido e extremamente poderoso durante a última guerra. Depois da queda da Alemanha, ele cometera suicídio. (Não posso dar o seu nome, mas não é Hitler). Desde então ele estivera “alojado nas sombras.” Madre Florence explicou que ele tinha estado “perambulando pelos lugares inferiores.” Sem dúvida você se referiria a esses lugares sombrios como “baixo astral.” De qualquer modo, durante vinte anos terrestres ele tinha sido prisioneiro da sua própria perversidade.

Agora, fora resgatado. Encontrava-se consciente da terrível crueldade que o caracterizara e estava cheio de remorsos. A Madre Florence preveniu-nos de que ele iria precisar de cuidados muito especiais e de atenção, compreensão e ajuda. Avisou-nos, também, de que poderíamos ficar chocadas pela sua aparência, que, eu prometi, devia ser um espectáculo tal como eu jamais vira.

A Madre avisou-nos igualmente para traçarmos uma “teia de protecção” ao nosso redor e para nos agarrarmos firmemente à Luz.

Enquanto nos dirigíamos para uma enfermaria isolada, na ponta extrema da Casa, eu senti-me apreensiva. Todavia, não me encontrava preparada para a visão que se nos ofereceu.

A enfermaria era escura a triste, muito diferente dos nossos aposentos habitualmente claros e ensolarados. Uma mortalha de tenebrosa penumbra parecia suspensa sobre aquele lugar. Foi somente aos pouquinhos que pudemos ver que “alguma coisa” jazia deitada na cama. Rapidamente, desviei o solhos daquela visão repulsiva. O corpo da pobre criatura estava coberto de chagas e cicatrizes; os olhos estavam fechados.
“Ele pensa que está cego,” sussurrou Madre Florence. “Não está, naturalmente. Todavia, a Luz aqui é por demais brilhante e penetrante para ele, por enquanto; e ele chora, dizendo que isso o deixou cego.”

O homem era uma visão terrível e comovedora. Quando de novo desviei os olhos, tornei-me consciente da presença do Padre Joseph, que se encontrava sentado à cabeceira da cama, atrás do paciente.

“Bem,” ouvi o Padre Joseph dizer, embora não houvesse, aparentemente qualquer som no aposento, “Esta pobre e infeliz criatura necessita de toda a atenção e compaixão. Ele veio a nós a fim de ser curado e preparado para se enfrentar a si mesmo e julgar as acções que cometeu, quando despertar da sua terrível provação nas trevas. Juntos vamos concentrar os nossos pensamentos e bênçãos sobre ele. Vamos sentir uma suave e gentil Luz curativa, para que a Força curativa de Deus, da mais extrema suavidade e doçura, seja vertida das nossas almas para a dele. Vamos pedir que a Luz possa entrar neste lugar: que ela possa tocá-lo, confortá-lo, e dar-lhe um sono agradável…”

Olhei ligeiramente ao meu redor. Ali estavam o Padre Joseph, Madre Florence, Irmã Arminda, Irmã Cecília e eu própria. Todos eles pareciam absolutamente calmos. Devagar, enquanto mergulhava cada vez mais fundo na concentração, senti-me arrebatada por uma grande alegria, força e poder.

A pobre criatura gemeu; porém, mal cheguei a ouvi-la. A enfermaria estivera às escuras. Gradualmente a Luz brotou dentro dela; num canto, um intenso tremeluzir tornou-se visível; uma Luz que se condensou numa Chama Incandescente, como um pilar de fogo.

Então, eu soube que um Ser Celestial adicionara o seu Raio de Força Espiritual. Dei por mim a rezar, não somente por esta alma atormentada, como também pelas almas das suas vítimas.

Subitamente, no meio das minhas preces, fui “levada” de volta para a Capela da Comunidade, na África do Sul. Ouvi as Irmãs a cantar e juntei-me a elas:

Uma criança nasceu, para nós,
O Filho nos foi dado…

O hino avolumou-se. Eu estava lá com a Comunidade, a cantar; não obstante, estava ajoelhada aqui, ao lado da cama desta alma perdida e despedaçada. Tive um sobressalto por ter pensado que devia ter estado a cantar em voz alta; mas ninguém se moveu. Então, uma voz ecoou na minha mente… e as palavras foram semelhantes àquelas do Mestre Jesus:

“Pai, perdoa-o. Ele não sabia o que estava a fazer…”
Dei por mim de joelhos, a encarar fixamente a Luz que agora diminuía bem devagar. Essa percepção foi de tal modo maravilhosa e tão esmagadora que senti todo o meu ser estremecer.
Naquele momento eu tinha estado unida com as Irmãs, na terra, nas suas preces e intercepçõespor todas as espécies e condições da humanidade, assim como também tinha estado unida a este pequeno grupo de dedicados e devotados servidores da Luz; e, ao mesmo tempo, tinha estado unida com a luz, penetrante e pura, de um grande anjo curador.
Não existe separação. Encontrámo-nos todos unidos
“Nem o céu, nem a Terra e nem o Inferno podem separar-nos do amor de deus,” murmurei para mim mesma enquanto era inundada pela compreensão de que o paciente viera, literalmente, do inferno para nós…

A grande Luz desapareceu lentamente, mas agora a penumbra abandonara a enfermaria. O nosso paciente jazia imóvel. A rigidez do seu corpo cessara. Ele parecia adormecido.

“Na enfermaria junto a esta,” – estava a dizer a Madre Florence – “encontra-se uma mulher que foi uma das suas vítimas, uma jovem mãe judia que chegou aqui com ele. Ela tem estado ligada a ele pelo profundo ódio que me move. Mas está a progrdir, por ter tido, no seu coração, um amor verdadeiro pelo marido e pela filha que lhe foram arrebatados. Ela tem o poder do Amor na sua alma. Ele, pobre criatura, não o tem… ainda…
“Mas quando ele for suficientemente curado,” prosseguiu Madre Florence, “ambos deverão ser postos frente a frente para aprenderem o perdão, a compreensão e a caridade.”

Percebi, então, que o Padre Joseph saíra sem ser notado. Madre Florence também nos deixou e nós as três ficamos ali, a velar.

Uma criança nos foi dada,
Um filho nasceu para nós…

…ecoou na minha mente. O hino de Natal parecia fugir ao texto. Contudo, na minha mente persistia o pensamento: “Isto é um começo, um nascimento. Isto é uma nova vida que está a nascer, uma alma que está a ser trazida para a Luz.” Lentamente, pareci dissolver-me numa contenplação total sobre a Paz e a Luz de deus; uma contemplação profunda, tal com jamais conhecera até então. Foi, de facto, a mais maravilhosa das experiências. Por fim, foi como se eu tivesse “atravessado” aquela barreira que tinha representado um obstáculo no meu caminho durante todo o período da minha vida terrena.

Não posso falar a respeito de tal paz porque as palavras não podem expressá-la. Todavia, basta que eu diga, com toda a sinceridade, que senti que finalmente compreendia de verdade, o significado daquelas palavras: “Eu vos dou a Minha Paz. Eu vos dou, mas não do mesmo modo que o mundo dá…”

Eu tinha encontrado uma nova medida, uma nova capacidade, e estava desperta na Luz. Naquela paz, fui transportada para o meu chalé, onde mais tarde dei por mim.
O nosso paciente dorme ainda…

5 de Janeiro

Estive de visita de novo, ao “grupo médico,” em companhia do Dr. X. É este que dou o nome que dou ao Grupo, embora esteja certa de que os seus componentes têm um título mais sublime. Não tornei a encontrar o Líder do Grupo. Por ser uma aluna bastante nova, para o encontrar talvez tenha que aprender a sintonizar as minhas vibrações. (Isto é mera suposição da minha parte, tendo como base a última experiência. Ninguém me informou a respeito.)

A ideia que você tem d’Ele está correcta. Ele é uma alma muito evoluída, um Mestre por seus próprios méritos e um discípulo do Senhor Jesus, que, segundo me contaram, vive num Plano muito distante deste. (Com respeito a este assunto devo enfatizar que grande parte da velha teologia das Igrejas Cristãs seja errada. Imagino que deva ser ocorrência muito rara, qualquer alma recém-chegada a este mundo encontrar-se a “descansar nos braços de Jesus.” Não por causa de qualquer falta de devoção nemporque Jesus ignore o discipulado da alma, mas porque, analisando de um ponto de vista mais prático, parecer lógico supor que as almas devam levar em conta as diferenças… e estas são vitais… existentes na frequência de vibração. Nenhuma alma, por mais elevada que seja, que tenha partido das limitações da Terra e tenha vindo para cá se encontra capacitada a suportar as vibrações diáfanas destes Planos mais elevados. Tomando-se como base as observações que fiz durante o tempo em que me encontro aqui, parece que temos que aprender para subir cada degrau de adiantamento.Pois o próprio Mestre não levou três dias até poder, conforme Ele disse, “Elevar-me até meu Pai”? Estas palavras enigmáticas são muito mais compreensíveis e passíveis de ser traduzidas quando nos encontramos no Astral, do que quando estamos na consciência do nível terreno.)

Talvez pelo facto de me ter sentido “esgotada” e com uma vibração por demais inadequada para elevar-me até ao penetrante poder da sua Luz durante a visita anterior, quando fora suficientemente venturosa para conhecer este grande médico – não foi permitido outro contacto. Não obstante, sempre relembrarei a beleza, o amor e a luz do seu rosto, assim como a roupagem de ofuscante luminosidade, que ele envergava.

Aqueles que fazem parte do Seu Grupo contaram-me que o seu Líder (é fácil perceber o respeito e a reverência que lhe dedicam) não está constantemente com eles. Segundo a nossa maneira terrena de pensar, que ainda não me abandonou, Ele desempenha o papel de Director dos estudos e do trabalho que realizam. Parece que só os visita quando há um novo impulso, nas pesquisas que eles fazem, que tem que ser estudado e posto à prova, ou quando, como no caso do Dr. X, um novo aluno, por assim dizer, tem que ser entrevistado e é necessário julgar se ele está preparado para ser admitido.

Ele habita nos planos que se encontram muito além de qualquer uma destas fraternidades médicas, no Grupo de Prioridade A… O Dr. X regalou-se conversando com os seus velhos amigos e com figuras lendárias, de grande importância na profissão médica. Lister encontrava-se entre essas. Pude trocar uma palavra ou duas com Pierre Curie, embora na terra ele tivesse sido um nativo da França e o meu Francês nunca tivesse sido fluente. Aqui a linguagem não oferece dificuldades; contudo, ainda não sei se fui eu que falei em Francês ou se terá sido ele que falou em Inglês. Ou mesmo se teremos chegado a “conversar,” no sentido terreno!

Ele referiu-se à lamentável prostituição da utilidade do átomo e do seu poder. A humanidade está a envenenar não somente a Terra, sobre a qual se acomodam essas partículas de poeira atômica, mas também a própria atmosfera; o envoltório da esfera terrestre, assim como também a vegetação e a vida dos seres humanos, dos animais e das aves.
Perguntei se ele agora nãolamentava o seu trabalho terreno. Ele sacudiu a cabeça.
“De modo algum. Para aqueles que vivem quase inteiramente mergulhados na penumbra de uma vibração lenta e inactiva, o progresso sempre deve apresentar um lado claro e um escuro. O nosso trabalho é o de tentar iluminar as vibrações do plano terreno, a fim de que essas oposições não possam continuar a agir negativamente. Como é natural, não pode haver comparação entre a mente ignorante que estava disposta a lutar pela crença de que o seu mundo era quadrado, e a mente parcialmente liberta que sabe, não só que a Terra é uma bola de matéria que está em constante movimento circular, mas que ela também é simplesmente um aglomerado de átomos que semantêm unidos por uma determinada velocidade vibratória.

O Doutor X interveio: “E o que me diz das doenças que o homem está a trazer para a sua espécie através dos abusos que comete? E a possibilidade de aniquilação total por meio da destruição desse próprio poder atómico que ele destruiu?”

Pierre Curie espalmou as mãos num gesto de resignação.

“A humanidade deve progredir. Ela prende vagarosamente e um progresso assim lento e cheio de inúmeros erros, gera dor. Mas se encararmos a vida a partir do ângulo de processo eterno, poderá adquirir um sentimento diferente a respeito disso. A Força Vital não é expandida somente sobre o globo terrestre. Nem termina quando é precipitada para fora desse globo, por acção daquilo a que a humanidade chama de morte. Aqui enxergamos mais além, ao longo da Estrada Eterna, porém somente até uma distância limitada. À medida que aprendemos a purificar as nossas vibrações e iluminamos os nossos “corpos,” e assim os refinamos para a realidade de recebermos mais luz proveniente da Mente Divina, assim também progredimos para a frente. Abrem-se-nos portas que antes permaneciam fechadas; a percepção torna-se mais clara e mais aguçada e somos capazes de entender mais plenamente o verdadeiro significado e propósito para que a Força Vital desceu até à vibração mais baixa e mais inactiva.”

“E o povo da Terra?” insistiu o Doutor.

“Retornará e voltará a retornar depois que tiver dotado as suas almas mais capazes de transmitir essa Força Vital, a fim de transmutar a densidade da vibração terrena, levando-a a uma vibração mais elevada.”

“E as doenças, a destruição?” perguntei.

“O homem morrerá como sempre tem feito. Enquanto ele acreditar que a morte é o fim, a doença e a destruição persistirão…”

De repente entendi o que ele queria dar a entender. A humanidade está a fazer uso de paliativos, quando a cura se encontra ao alcance das suas mãos. Mudem o ângulo da crença: despeçam o horror e o medo da morte e ensinem a eterna Unidade da vida. Isso equivale à redenção, tanto do homem como da Terra. Isso poderá levar milhares de anos, mas para trás de nós ficaram milhões de anos. O homem levou séculos para elevar a sua reacção inerte até tal distância, mas ele encontra-se numa trilha ascendente. Aqui está a velha resposta, mais uma vez. Luz e ainda mais luz. Luz de compreensão, de conhecimento, de sabedoria e de percepção verdadeira, para penetrar este nevoeiro de ilusão no qual a humanidade ainda vagueia

“E o senhor,” aventurei-me a perguntar a Curie, “trabalha para esse progresso?”

Ele sorriu. Talvez nós estejamos em actividade no lado paliativo; para aliviar e curar aquilo que a energia, a ignorância e o pensamento mal aplicado cristalizaram. Contudo, a seu modo, isso também é Luz.”

Fomos embora, muito inspirados. Mais do que nunca, percebemos a gritante necessidade de luz de que sofre a Terra. Jesus veio para mostrar e demonstrar que o homem continua a viver depois de deixar o plano terreno. Ele ensinou que esta Força Divina se encontra realmente dentro de cada um de nós, obscurecida, porém, inextinguível. Ele não foi recebido pelos seus compatriotas, não obstante a Sua luz, aquela Alta Frequência de vibração que foi capaz de transmitir à Terra, sobreviver. O Doutor e eu rememoramos aquela invocação que repeti frequentemente, quando no meu corpo:

“Que a luz possa descer sobre a Terra
Que Cristo possa retornar à Terra.”

Sinto que agora compreendi parcialmente o significado profundo daquela invocação.

8 de Janeiro

O nosso “paciente” ainda está a “dormir.” Ele não mudou e possivelmente continuará a repousar nesta pura luz de amor e de cura, até que a sua alma tenha readquirido paz e força suficiente para começar a sua longa marcha para a frente.

Tenho conversado com a moça judia que chegou junto com ele. Ela recobrou-se o bastante para começar a dar uma nova orientação ao seu pensamento; mudar a sua maneira de pensar. Ela foi uma “boa” mulher, ou seja, honrada, bondosa e carinhosa, mas antes que possa encarar de uma maneira objectiva o horror daquilo que lhe aconteceu, precisaremos instruí-la muito e solucionar com gentileza os seus problemas. A velha crença arraigada do “olho por olho e dente por dente,” precisa ser transmutada por intermédio desse novo ângulo de juízo, numa apreciação do Amor como instigador de vida.

Está a dissolver-se um pouco do ódio virulento, visto que ela agora compreende que o vingador, insistindo na sua compensação, nada recebe de construtivo ou que valha a pena.

Madre Florence falou-lhe a respeito da pobre alma que foi a instigadora das suas tragédias, e ela sabe até mesmo que ele se encontra a repousar e que está a ser curado. Por enquanto, ela dificilmente consegue suportar a ideia de que esse ser esteja a ser curado, mas virá a conseguir. Presentemente tudo o que ela pede é poder reunir-se ao marido e à filha que lhe foram arrebatados. Os próprios sofrimentos por que passou no campo para onde foi levada e onde mais tarde veio a morrer, estão a ser expurgados da sua consciência e ela está a prender a relaxar, a esquecer a vida terrena, com todo o terror e ódio que dela fizeram parte, e a viver na luz.

O seu marido, que fora um advogado alemão, foi arrebatado e transportado para um campo de trabalho, onde posteriormente também veio a morrer em resultado de ferimentos e de abandono. Ela nunca chegou a saber o que aconteceu à sua menininha. Madre Florence diz que o marido fora localizado. Como ele não guardou ódio na sua alma, de uma forma tão profunda e amarga, progrediu mais facilmente. Tem estado a aguardar a chegada da esposa que amou e tem-lhe endereçado amor e luz, mesmo quando ela residia temporariamente naqueles mundos obscurecidos do astral inferior, por culpa dos laços de ódio que a uniam ao homem que fora o causador das suas desgraças. Talvez essa mesma luz enviada para ela e para a alma do homem que fora responsável pelas crueldades, tenha sido o facto que a ajudou a libertá-los do mundo inferior, para que os mensageiros pudessem trazê-los para cá. Na natureza da consciência (que aqui é a maneira de dizer na plenitude do tempo) ele virá a encontrar-se com ela. Eles se reunirão e seguirão o seu caminho juntos. Sobre a criança nada sei.

O nosso cientista, o Doutor X deixou-nos. Segundo compreendi, ele ainda não se encontra preparado para trabalhar nas Esferas Superiores, ou mesmo para se reunir a um Grupo que esteja ligado Àqueles que trabalham em tais esferas. Mas ele recuperou-se e encontra-se mais preparado para aceitar as verdades que tinha rejeitado quando na Terra. Agora, porém, ele deve corrigir uma falha que existiu na sua vida passada, a falta de amor. Na Terra ele tinha estado de tal modo envolvido na mente lógica e racional que nem lhe sobrara tempo para os habituais sentimentos pelos seus semelhantes. Tivera medo de se deixar envolver pelo amor, de modo que nunca se casara ou chegara a sentir afeição por qualquer mulher. Vivera inteiramente para si mesmo e para o seu trabalho. Agora foi reunir-se com a sua mãe, o seu pai e as suas irmãs, por um período de tempo, para assim aprender a ser parte da unidade que é a família.

Você sabe que nós todos fazemos parte de uma Família ou de um Grupo, e se recusarmos aceitar isso, seja no cumprimento de uma vida familiar, de uma vida em grupo ou de uma vida comunitária quando estivermos no plano terreno, ou se nos recusarmos a cooperar desinteressadamente com tais grupos, quando temos oportunidade, somos retidos aqui e impedidos de progredir até termos corrigido essa falha. Por conseguinte, ele se reunirá, praticará a abnegação e colocará, generosamente, a sua solidariedade, o seu amor e a sua compaixão ao serviço dos seus semelhantes, antes que lhe seja dada permissão para prosseguir e juntar-se à pesquisa científica, como é o seu enorme desejo.

Quanto a mim, tenho passado por uma espécie de processo de limpeza, no que a querida Madre Florence tem sido tão prestimosa, gentil e compreensiva comigo quanto o foi nos meses que antecederam a minha profissão de fé definitiva, na carreira religiosa. Ela é uma alma maravilhosa, e no trabalho desta casa tem estendido a sua assistência de forma voluntária a estes seus semelhantes. Todavia, estou certa de que ela “visita” outras Esferas, embora nunca me tenha dito nada. Ela afasta-se de nós e quando retorna, tenho a certeza de que não está a usar o seu hábito do costume, que é a vestimenta que sempre usa. Certa vez encontrei-a justamente quando ela regressava para nós; o seu rosto apresentava-se refulgente. Estou certa de que ela se encontrava vestida com a roupagem do Espírito. Era uma veste de um azul profundo e de grande beleza. Mais tarde, sem qualquer explicação, ela retomou o hábito com o qual acolhe os nossos pacientes. Madre Cecília também está connosco ocasionalmente…

No que diz respeito à minha “vida” aqui, retiro-me cada vez mais e mais para a profunda alegria, paz e repouso do meu jardim, por entre as minhas flores. Lembra-se que nunca consegui sentar-me a saborear o repouso no meu jardim, quando me encontrava na Terra. Sentia-me sempre demasiado ansiosa por prosseguir com as minhas tarefas.

Aqui não existe tal pressa. Estou a aprender, cada vez mais, a abandonar a pressa e a deixar que a minha alma mergulhe, funda e confortavelmente, na contemplação da alegria do Espírito. Isso se desenvolve de uma forma a que você chamaria de “vida em sonho;” contudo, na realidade é um prolongamento da alma rumo a uma consciência mais ampla. Eu me rejubilo na luz, na paz e numa nova alegria. Não posso descrever, com maior clareza, o que acontece. Se eu disser que agora compreendo o significado da frase “Repousar no Senhor,”, isso poderá ajudar. Contudo, essa experiência não envolve qualquer individualidade. Para mim Deus é Luz, Energia e Júbilo.

Descanso nesta luz e sou curada de muitos dos meus erros, e vivo uma vida mais rica.

11 de Janeiro

Eu chamo-o de homem da bicicleta. É uma alma que se tem encontrdo aqui nesta Casa, há um longo período de tempo, segundo os padrões da Terra. Devo imaginar que ele tenha sido mnorto num acidente de cicicleta justamente antes ou bem no início da Primeira Guerra Mundial, pois, quando conversei com ele, não conseguia recordar-se de coisa nenhuma a respeito de qualquer guerra. Aqui ele está no que eu chamaria de minha enfermaria psiquiátrica. Ele foi um larápio que transformara o roubo numa arte e nunca fora a apanhado. Foi morto quando a sua bicicleta ficou fora de controlo por os travões não terem funcionado quando ele descia um morro íngreme. Ele bateu contra um carro (uma das primeiras safras) pertencente a uma mulher que ele roubara sistematicamente durante anos; verduras da horta e dinheiro da sua casa, que ele arrombara e invadira. Com ela possuía um negócio na cidade onde esse homem morava, ele sabia a que horas a mulher se ausentava de casa. Ela nunca chegara a suspeitar dele. Segundo parece, ele tinha sido um especialista a forçar trincos de janelas e em subir canos de escoamento. Trabalhava como operário, mas tinha ideias! Uma delas era que “todas as coisas eram gratuitas.” Naturalmente ele estava certo – em certa medida. Todas as coisas deveriam ser gratuitas, e se a humanidade tivesse alcançado um tal estágio de evolução elas seriam mesmo. Só que ainda não alcançou. Aqui todas as coisas são gratuitas, evidentemente. Este é um dos obstáculos que temos nas nossas longas e um tanto complicadas conversas que nós dois temos.

“Aqui é grátis! Porque é que lá as coisas não deveriam ser grátis para todos?” pergunta ele continuamente. Pode imaginar a dificuldae que tenho?

Temos que ensinar-lhe que moralmente ele estava errado, embora espiritualmente o mundo – e a absorção das riquezas que move – também estivesse errado. Acontece que ele ainda refuga a sugestão de que dora dominado pelo desejo de posse! Ele é uma estranha alma “trancada,” condescendente e prestimosa, mas parece que não consegue entender as crenças obstinadas que tinha nem adaptar-se à nova vida aqui. Ele anda a “trabalhar” pela casa. Até agora a sua inteligência limitada ainda não comprendeu que não é necessário ir chamar as irmãs ou cavar na terra para plantar as flores, pelo que continua a fazer como antigamente. Nós conversamos com ele e tentamos persuadi-lo a aceitar esta nova fase da Vida, em que entrou. Parece ter ficado estático, e assim permanecerá até que o seu Ser Superior seja despertado. Sente-se perfeitamente feliz por se encontrar onde está e não sente qualquer aspiração em relação a qualquer outra coisa mais Real.

Realidade? O que é isso?

Que ilusão é o pensamento! Quando eu estava na Terra, eu costumava pensar que era bastante real. Agora percebo que aquilo que parecia importante e substancial, que parecia valer o esforço, era somente a sombra de uma sombra! Aqui eu não sou verdadeiramente Real. Isto também representa simplesmente a sombra, a casca ou envoltório de uma outra coisa mais. Ainda me encontro numa jornada… talvez rumo ao Centro, e decerto que rumo a um ponto mais elevado, porém, mal me atrevo a imaginar qual possa ser. Por enquanto libertei-me somente da casca da sombra exterior, da pele exterior… mais ou menos como o descascar das cascas de uma cebola. Seguimos em frente perdendo as cascas, o que parece um processo eterno.

Nos meus longos momentos contemplativos, quando o Espírito em mim se eleva e parece alçar vôo em direcção ao próximo degrau, exalto-me e fico ansiosa, bem ansiosa por aquele estágio que virá a seguir. Contudo, sei que tenho que permanecer aqui onde estou a fazer exactamente o que estou a fazer, até que tenha desprendido algo mais do “envoltório de sombra…”

Você sabe, eu sempre desejei avançar em frente com demasiada rapidez. Com frequência visualizei acontecimentos que se encontravam uma encarnação à frente. Lembra-se do que costumávamos conversar? Eu imaginava grandiosos Seres a caminhar por entre os homens, na Terra. Tal tempo chegará, sem dúvida. Talevz isso já esteja a acontecer, mas os homens não têm visão para o enxergar. Naturalmente, agora reconheço os obstáculos; o homem não estaria pronto para os receber, ainda.

Até mesmo neste estágio, fora das limitaçoes físicas, os nossos pacientes não teriam capacidade para acreditar, quanto mais aceitar, a aparição de Seres Grandiosos. Fui deveras abençoada por ter tido permissão para conhecer um desses Grandes Seres no Amado Doutor do Grupo Médico… Mas acontece que vim para cá a contar com isso!

Os Planos do Espírito alongam-se em frente até ao infinito. Que grande alegria caminhar para o futuro, gravitando (mesmo que lentamente) para o nosso verdadeiro Lugar! Presumo que cada Plano parecerá real, terá mais realidade do que aquele que o tenha antecedido. Isto soa a paradoxo! Contudo, e a realidade? Ela situa-se absolutamente além da nossa compreensão.

Tenho conversado longamente sobre este assunto com a madre Florence, que se encontra muito mais avançada que eu; parece passar por entre os Planos à vontade. Todavia ela admite que há muito mais, infinitamente mais, além daqueles onde consegue penetrar. Desejo ardentemente prosseguir, ver esses Planos de Luz; tocar esses Grandes Seres; contudo, aqui sinto-me tão feliz e contente quanto qualquer um pode sentir. Mas não é possível penetrar à força nos céus que se encontram além de nós; a Lei do Progresso é rígida.

Todavia, estou a tentar livrar-me de umpouco da confusão da personalidade. Todos precisamos fazer isso… E aqui temos três maneiras de levar a cabo esse objectivo. Por meio da auto avaliação e da análise honesta das experiências; por meio do trabalho pelos nossos semelhantes; e por meio da aspiração.
Você diria que, afinal de contas, não defere assim tanto da vida terrena!
Oh, mas com tantas, tantas compensações!

Posso expressar isso com mais clareza por o seguinte pensamento: O “Subjectivo” da mente do plano terreno tornou-se o “Objectivo” neste novo estado de Existência. Começamos a compreender que esta é a lei da evolução. Por intermédio dela avançamos em frente, penetrando em reinos de incrível beleza e portento. Como poderia eu tornar isso mais claro?

O conteúdo “Subjectivo,” ou interior, dos mesu pensamentos, aspirações e desejos, aqui e agora, modelarão o lugar “Objectivo” para o qual passarei no próximo estágio da minha jornada, exactamente como a vida interior da alma, dentro do corpo-mente na Terra, determina o primeiro lar futuro, neste nível.
Por conseguinte, a vida interior de harmonização, de meditação e de contemplação da Verdade e da Beleza Divina é cada vez mais importante e inestimável. O provérbio que reza que na Terra: “Conforme o homem pensa, assim ele é,” é verdadeiro em essência, mais verdadeiro do que as nossas ideias conseguem conceber. Por meio dos seus pensamentos e inspirações, o homem cria, para si mesmo, o seu futuro lugar nesta dimensão. Está é uma lei lógica. Na vida terrena ele pode construir uma fachada para si mesmo, mas aqui ele não dispõe de tal máscara. Aqui ele é conhecido pelo que é e por aquilo que a sua vida interior subjectiva fez dele.

Veja, pois, a importância que a luz tem para a alma. A intensidade e a força com que a Luz ilumina a vida interior são objectivadas aqui; a alma recém-transportada sempre é encaminhada para o lugar a que tem direito, para o lugar que preparou e mereceu.
“Juntai para vós próprios tesouros nos céus,” pode ser aceite como tendo um significado concreto.

13 de Janeiro

Tivemos uma “recém-chegada” que não ficou connosco. Após ter repousado, prosseguiu com o seu caminho. Foi um caso interessante; era uma mulher que tinha sido enfermeira e missionária na África, durante muitos anos da sua vida, e que tinha vivido a religião cristã. Fora morta por altura de uma rebelião dos nativos e, com ela, um meninozinho nativo que estivera sob sua protecção. Ambos tinham aqui chegado juntos, pois parece que até mesmo no momento da transição para este plano ela se agarrara ao menino, com amor.

Esta é uma mulher a quem eu m epoderia er surpreendido invejando secretamente (caso não aprendido melhor). Ela é uma alma tão bela, com a Luz do Amor a cercá-la como um halo. Quando tomou consciência do ambiente que a rodeava, as primeiras palavras que proferiu foram: “Eu sabia que despertaria entre irmãs. Graças a deus! É maravilhoso!” Não tinha na sua mente qualquer dúvida com respeito a ter sobrevivido à terrível provação por meio da qual encontrara a morte; não abrigava recriminações, não sentia temor e o mais impressionante de tudo, não sentia rancor algum. Ela transpirava um amor desinteressado.

A sua primeira preocupação foi pelo meninozinho de pele escura. Quando soube que ele se encontrava aqui, junto dela, a “dormir” em segurança, quase chorou de alegria. “A senhora entende, prometi aos pais, que “partiram” algum tempo antes, que tomaria conta dele,” disse ela. “Agora posso realmente descansar uns momentos.” Ela constituiu uma grande alegria para todos nós que aqui nos encontramos – uma alma cheia de luz e de beleza. Tivemos grandes conversas, eu e ela. Falei-lhe da minha visita aos Doutores e ao Grande Médico que é o Líder deles.

Ela ficou emocionada e inspirada. Sei que logo se encontrará na Presença de alguma grande Alma.
“Porém, não antes que o pequeno Laki tenha sido devolvido aos pais,” insistiu ela.
Assim sendo, as irmãs puseram-se em campo para encontrar os pais do menino. Claro que não quero dizer que o tenham feito no sentido físico com que o teríamos feito na Terra. Elas “concentraram-se” e pediram a ajuda dos Grandes Seres que dirigem as almas recém-chegadas. Também enviaram os seus pensamentos para entrar em contacto com o “feixe luminoso” cujo raio essas almas habitavam. E o contacto foi estabelecido. Um mensageiro chegou com um guia e o pequeno Laki foi para o lugar a que tinha direito.

A sua mãe biológica ficou cheia de alegria por saber que poderia visitá-lo, conforme tinha feito quando se encontrava no corpo físico. A esta altura deveo dizer uma palavra a respeito do menino. Uma criança encontra-se muito mais prózima da vida da alma. Memso os curtos e poucos anos que esta alma passara na Terra – seis, creio eu – mal a tinham separado do seu contacto com o Amor Divino. Para o menino, esse amor tivera continuidade através da sua “mãe” missionária. Ele aceitou a nossa nova vida com um espanto mudo, mas não obstante, com alegria total. Amou-nos a todas e certa vez contou à Madre Florence de um grande anjo que, segundo disse, vira junto de nós, na casa.

Para mim, testemunhar aqui o renascimento de tal inocência fio uma experiência maravilhosa e inestimável; a lama desta criança, imaculada, livre da mácula do materialismo e da separação das crenças terrenas, estava assim pronta para o mundo celeste. Posso expressar isto melhor dizendo que aquela alma foi como um botão que se abriu numa flor. Por favor, escreva e sublinhe isto, por eu sentir que seja um conforto para aqueles pais e mães que possem ter sido separados dos seus queridos filhos, por aquilo que o mundo cahama de morte.

Laki reuniu-se à sua família; a nossa missionária descansou conosco. Para mim, el afoi uma lição sem palavras. Quanto aprendi com ela! Porquanto ela, sem dúvida, encontrava-se enrte os Escolhidos. A sua breve permanência connosco, aqui, ajudou-me a repassar os meus pensamentos com relação aos meus velhos conjunto de valores. Na vida terrena cometemos o erro de dar um valor demasiado elevado ao intelecto, e de escarnecer o simplório seguidor da Realidade. Esta mulher tinha inteligência, mas não possuia um intelecto bem desenvolvido ou treinado. Porém, viveu constantemente de acordo com o seu Centro Verdadeiro. Por outras palavras, o seu Espírito foi guia constante e ela entregou todos os problemas, todas as dificuldades e todas as alegrias a este Mestre Interior. Irradiava paz, amor e contentamento, e a morte tivera pouco significado para ela. Encontrava-se bastante familiarizada com a Voz interior e obedecera à Vontade Superior. Isso fizera-a passar por estranhas experiências; era evidente que, humilde como era, e bastante longe de ser talentosa, trouxera consigo para o mundo, um Raio Divino. Ela tinha vivido aquilo que muitos de nós tínhamos falado.

Na Terra os valores encontram-se enviezados. Intelecto e mente-cérebro treinados servem de grandes coadjuvantes, porém, frequentemente transformam-se em barreiras em relação à verdade e à expressão genuína do Amor Divino. A mente racional do homem precisa aprender a obedecer e a cooperar com o Eu Interior – o Cristo em cada homem, dos ensinamentos do Mestre Jesus - e a Luz Interna dos sábios orientais. Para mim isso foi demonstrado com muita clareza na “passagem” pela pela nossa estação, desta grande alma, tão simples porém, tão profunda na sua compreensão da reconciliação com a verdade.

A Madre Florence contou-me como foi a sua Partida.

Ela e a nossa missionária estavam a conversar no terraço que aqui temos, quando Madre Florence observou que a sua paciente parecia ter caído em profunda contemplação. Ficaram ambas quietas e caladas. Madre Florence sentiu uma Presença grandiosa, coo se um Anjo de Luz estivesse com elas; manteve a sua alma em silenciosa expectativa. Então, a Luz que as rodeava foi se tornando mais intensa, a atmosfera ficou mais potente e nela havia a “impressão” de música. Segundo diz a Madre, a sua amiga missionária fez um gesto impulsivo, estendeu a mão e tocou Madre Florence.

“Obrigada e que Deus abençoe a todas por me terem recebido com tanta bondade,” murmurou ela. “Quão esplêndido é o trabalho que aqui realizam! E eu percebo que ele é inteiramente voluntário. Mas o verdadeiro Lugar que lhes pertence está à espera de todas, quando tiverem terminado as vossas tarefas. Posso vir sempre aqui visitá-las?”

A Madre Florece sentiu que não tinha outras palavras a dizer a não ser “Deus a abençoe.” A Luz cresceu e multiplicou-se em torno delas e a Madre Florence disse que os seus olhos somente puderam perceber a Luz e nada mais. Ela sentiu-se arrebatada para cima, para a iluminação. Quando o seu “espírito retornou” (estas são palavras dela) a nossa missionária partira. Tinha ido o lugar que era seu por direito. Como você vê, o Amor tinha sido levado para as Esferas mais elevadas, muito antes que o intelecto – como no caso do cientista – ou a perícia – como no doutor X – estivessem preparados para ascender. Que lição, para nós aqui e para aqueles que se encontram na Terra. Por favor, anote isso.

13 de Janeiro – Mais tarde

O nosso paciente nazista ainda se encontra na mesma; inerte, imóvel, trancado na sua própria casaca. Na verdade, uma casca. O Padre Joseph diz-me que a pobre criatura poderá permanecer assim durante um espaço de tempo que na Terra equivaleria a muitos anos. Este homem já foi mantido no tenebroso cativeiro do inferno que ele próprio criou, desde o final da última guerra; e isso foi há mais de vinte anos atrás. (Estou rapidamente a perder a contagem do tempo conforme o conhecemos na Terra). Aqui “acontecem” coisas; almas e entidades, em todos os estágios mais inferiores da evolução, chegam e vão-se; partimos ou então ficamos; porém, não pensamos nestes eventos em termos de tempo. Vivemos, ou existimos, de acordo com o nível da nossa vida-pensamento; alguns sentem-se felizes por ficar, pensando, sem dúvida, que este seja o estágio final.

Naturalmente, deve chegar um momento, por altura do despertar da alma, em que a falsidade dessa crença é demonstrada, mas o Padre Joseph diz-me que algumas almas se acomodam a um estágio durante anos… até mesmo durante séculos! Enquanto outros persistem no seu antigo ambiente terreno durante eras!

O nosso nazista, nesse caso, poderá jazer deste modo até um longo tempo depois que muitos dos pacientes, auxiliares e servidores que aqui se encontram tenham recebido os seus diplomas e passado para Esferas Superiores. Contudo, ainda realizamos “sessões-pensamento,” para ele. Até mesmo a mulher judia veio visitá-lo! Ficou estarrecida diante desta alma até que, por fim murmurou: “Ele não parece tão perverso, não é?”

A maravilhosa lição referente a isto é que, na hora em que ele estiver pronto para um confronto com a Judia, ela terá progredido o suficiente para perdoar todas as mágoas pelas quais ele foi responsável: e estará preparado para o ajudar. E ele irá precisar de ajuda! Conversei sobre este assunto com o nosso sábio Director. O Padre Joseph disse que, embora estejamos a fazer tudo quanto podemos, é uma pena que não haja preces vindas dos habitantes do plano terreno, que podessem ser proferidas pela alma deste homem. Interessada por esta maneira de encarar a questão pedi explicações.

“Preces e bons pensamentos dirigidos àqueles que deixaram a vida terrena,” disse ele, “enviados pelos que ainda se encontram encarnados, representam um grande auxílio para o trabalhao que realizamos aqui. As formas de prece e a potência dos bons pensamentos provocam uma vibração acelerada que vai aoencontro daquele a quem tiverem sido enviadas. Geralmente o paciente encontra-se estreitamente ligado, por interesses, afectos e recordações, à sua vida anterior e, desse modo, pode reagir a essas vibrações; assim ele é imensamente ajudado. Para a alma recém-tranferida, tais petições e meditaç~eos poderiam assemelhar-se a um gole de água curativa.”

O nosso Conselheiro sacudiu a cabeça por algo que senti constituir uma tristeza infinita. “Mas, ai de mim, na Terra não há ninguém que reze até mesmo pelo repouso desta pobre alma…” Pensei profundamente sobre isto.

Ele é uma pobre alma… mas não uma “alma perdida.” Deve er havido algo de bom que os Grandes Seres tenham reconhecido, caso contrário o nosso paciente nazista não teria sido “resgatado.” O pecado que o acossou e que obliterou tudo o mais foi o amor ao poder; isso cresceu e transformou-se em rancor contra uma outra raça, induzindo-o até mesmo, a enviar para a morte homens, mulheres e crianças dessa raça. Contudo, a menos que sejamos divinamente sábios, como poderemos julgar o que ele fez? Sempre acreditei na reencarnação e até ao momento não tenho motivos para pensar de maneira diferente. Fico a imaginar, pois, com que espécie de estímulos e de amargas lembranças da alma esta pobre criatura se apressou a voltar para renascer! Através de toda a história existiram montros que queimaram, torturaram, pilharam e destruiram. Que foi que lhes aconteceu? Não podem ter ficado todos perdidos. Pobres criaturas, devem ter-se arrastado para fora do lamaçal das suas iniquidades, penetrado em alguma alma-luz num momento qualquer e então, talvez se tenham apressado a renascer com um conhecimento apenas parcialmente digerido.

Sempre tive a certeza de que aqueles que se encontram mais avançados devem ter estendido uma mão de auxílio ou enviado algum pensamento de amor, pois alma nenhuma é deixada ao abandono. Contudo, como cada alma deve ser julgada pelos seus actos terrenos e pelos resultados destes, a única coisa que podemos pedir é que sejam dadas forças as esta pobre criatura e iludida entidade quando ela também estiver na barra do tribunal. Nesta hora ninguém rezará pela sua alma, na Terra? Fomos ensinados a rezar por aqueles que nos exploram maldosamente. Aqui, por certo, está um exemplo vivo, para todos nós. Este talvez seja um caso notório. Mas, o que dizer dos outros milhões que durante o seu curto espaço de tempo, na Terra, pagaram pelos seus crimes (como tão presunçosamente dizemos) sendo executados e que depois foram esquecidos?

As preçes não têm sido modeladas pelo Amor, transformando-se em pensamentos de compaixão que podem alcançá-los na sua escuridão? Jamais nos lembramos deles e pedimos ajuda para que pudessem reconhecer as suas iniquidades? Este é um pensamento que nos traz à razão. Fazendo tal ligação, podemos descobrir que a negligência e o interesse próprio em que nos trancamos, talvez possam merecer uma retribuição quando alcançarmos este mundo.

Você pergunta sobre os Círculos e Salvamento?
Quando eu me encontrava no corpo conheci este método de auxílio e participei mesmo em tais grupos, quando estava a investigar. Contudo, os investigadores e os auxiliadores devem ter muita pureza do coração e devem estar bem seguros do Auxílio e da Força Divina quando tentam realizar tal trabalho. Agora que testemunhei, pessoalmente, o estado de uma alma desse tipo, vinda da escuridão exterior, tenho uma percepção muito maior dos perigos de tais grupos; por isso, aconselharia cautela.

Contudo, o envio de Luz emanada do Centro e emitida por grupos em momentos de meditação; a formação deliberada de um pensamento-oração, para alcançar e tocar essas pobres criaturas que se encontram nas trevas; um momento de recordação num lugar santificado e até mesmo o pronunciar dos nomes de tais infelizes, a enconmendá-los à Piedade Divina… todos estes actos são auxílios para a ressureição daqueles que habitam na treva.

Perdoe-me se lhe preguei um sermão; o desejo que tinha não era esse. Posso apenas confiar em que a descrição que fiz da importante experiência por que passei aqui possa trazer um eco de compaixão no coração daqueles que leem.

15 de Janeiro

Encontrei a minha família e visitei o meu pai, a minha mãe, a minha irmã e o meu irmão. Contudo, como este é um assunto privado, e sem relevância para o propósito destas comunicações, não escreverei a respeito…

O nosso paciente nazista ainda dorme. A sua vítima judia foi visitada pelo seu marido, uma alma bondosa e gentil, e ambos conversaram longa e apaixonadamente. Segundo parece, a menina que lhes foi arrebatada não se encontra neste mundo. O seu marido falou da longa busca que realizara. Por fim tinha sido informado de que a criança sobrevivera e se tornara adulta. E pobre alma amargurada e infeliz, vive afundada numa vida sórdida.

Ao receber esta informação, a princípio a mãe reverteu à sua amargura e ao seu ardente desejo de vingança, mas, conforme o Padre Joseph e o seu marido lhe fizeram ver, a vingança aqui não tem significado. Também não existe a vingança de uma mágoa, nem aqui nem nos reinos acima, imagino eu; existe apenas compreensão, perdão e amor desinteressado.

Depois de muita discussão (eu fui “chamada” para falar em uma das sessões), a nossa pobre mãe amargurada acalmou-se e foi capaz de ver o Propósito de todas as coisas. Agora encontra-se tão ansiosa quanto o seu marido para localizar a moça e entrar em contacto com ela por meio do pensamento, do amor e da prece concentrada. Ela própria precisa de uma limpeza muito maior no seu “etérico” antes de poder ter êxito na sua aventura. Mas ela já é uma alma diferente. A velha casca dura está a desaparecer. A bondade e o amor maternal brilham nela. Ela sente-se feliz por estar novamente com o marido que perdera e está a preparar-se para reunir-se a ela no lar que ele está a preparar para a receber. De início ficará com ele durante algum tempo, retornando para cá a fim de repousar e de se tornar mais forte na alma. Mais tarde, quando a cura se achar completa o caminho estará aberto para que estas duas almas possam ficar juntas e entrar em contacto com a filha… O que quero dizer é que as forças existentes, que operam estes contactos a partir deste lado, encontrarão um “canal” através do qual a moça possa ser alcançada; Luz e Amor serão derramados sobre ela…

O nosso Dr. X tem feito muitas visitas à nossa fraternidade médica. Ele volta para nós cheio de esperanças renovadas e de um entusiasmo renovado para prosseguir com a sua evolução e com o seu trabalho futuro. Ao voltar da última visita ele veio a mim, repleto de um fulgor de felicidade.

“É maravilhoso, irmã” irrompeu ele. “Aprendi tanto. Por que, oh, por que não pude ter conhecimento disto quando ainda vivia na Terra? Que maravilhoso Propósito e Plano existem para a Vida! E como agora parecem tão pequenas, quase insignificantes as lutas, os enganos e os fracassos da vida terrena, que findou.”

Insisti para que ele prosseguisse e me contasse mais acerca das suas descobertas. Ele admite estar emocionado com as perspectivas do trabalho e da pesquisa que fará no futuro. Agora ele pode ver como este devotado Grupo de médicos, sob a tutela do seu mestre e Líder, está a encontrar, bem depressa, os meios para aliviar a humanidade de alguns dos seus sofrimentos.

“Nós ainda estamos somente no lado paliativo, como disse Curie,” contou-me ele, “porquanto até que o homem aprenda a deixar de ser tolo, é preciso deixar que ele prossiga e use as suas descobertas para a destruição e para induzir o medo e a submissão nos seus semelhantes. Nesse meio tempo, porém, o Grupo está a ajudar a “transmitir” ideias acerca da origem e o tratamento de doenças…”

“Para o cancro?” perguntei, relembrando (agora somente com um leve estremecimento de desagrado) a destruição do meu próprio corpo físico?

“Sim, o cancro,” confirmou ele, com um aceno. “Estivemos a debater a causa dessa doença, em primeiro lugar, por uma célula que fica “frenética,” e que se transforma numa célula delinquente e fuge ao padrão e ao ritmo ordenado das funções corporais. Uma célula pode romper todo o ritmo de um determinado grupo de células. Por exemplo, se vocês colocar partículas de areia num prato de vidro e as dispuser conforme um determinado padrão e arranjo, depois dá o impulso a um grão de areia, fazendo-o passar, numa correria, por entre os outros, o padrão inteiro é perturbado. Rompe-se. E então, quando aquele determinado grão fica imóvel, o padrão já se encontra diferente.”

“Então, vocês têm que descobrir o que foi que fez com que aquela única célula ficasse furiosa?” Interroguei.

“Creio que nós já sabemos,” respondeu ele. “Isso poder ser provocado por duas causas; uma exterior, como uma força real que golpeia o padrão celular (conforme no exemplo que dei do grão de areia) e isso pode resultar de uma queda ou de uma pancada sofrida no corpo. E por uma causa interior: pressão e tensão desenvolvidas na mente e, portanto, reproduzidas nas células do corpo (que até certo ponto obedecem à mente) causando assim uma obstrução. Esta tensão muscular ou nervosa pode resultar no colapso de algumas células e na expulsão de outras. Tais tensões têm muitras causas – a preocupação, o ódio e o medo tingem a maioria das vidas na Terra; a frustração, a raiva, o ciúme, a inibição, e o “recalcamento” das emoções, talvez pelos mais elevados dos motivos, mas sempre contrários à liberdade da personalidade) são forças que se concentram numa tensão adicional, sobre um órgão e, por fim, sobre uma célula… a “delinquente,” que escapa e dá início a um sistema reprodutivo da sua própria autoria - de facto, a reprodução de um fungo. Você sabe, Irmã, se os cientistas e os pesquisadores médicos estudassem a causa e a produção de fungos em plantas, árvores e raízes, obteriam muitos conhecimentos a respeito da célula delinquente…”

Ele estava a falar comigo numa linguagem que eu conseguia entender. Esse seu entusiasmo era contagioso. Continuei a interrogá-lo. Contou-me muitas coisas que eu não consegui compreender, mas voltamos de novo à grande Verdade que eu estou a assimilar cada vez mais e mais, embora – como nós sabemos – o seu significado fosse visível em todos os nossos ensinamentos na Terra, se ao menos pudéssemos entendê-los. Luz! Luz! E ainda mais Luz! Luz para educar e enaltecer as mentes das pessoas, que traga serenidade e paz e que inspire uma tranquila confiança no Propósito da vida e no milagre da criação Divina. Luz nas suas almas e nas suas mentes, para elevá-las acima da ilusão dos temores da vida terrena; Luz nas suas mentes, para ensiná-las quanto ao modo de “sintonizar” qualquer frustração da vida ou da personalidade, com o randioso Raio de Amor Divino. Naturalmente esse é um facto que me interessa, nas revelações do Dr. X.

“O que o homem precisa descobrir,” prosseguiu o Dr. X, “é algum agente que possa (usando o exemplo do grão de areia a correr feito doido) atrair ou forçar esse grão isolado a voltar para o seu lugar correcto ou anulá-lo completamente, restaurando assim a forma e o padrão. No caso da primeira célula delinquente, no início de um temor canceroso, a ciência médica faria bem se concentrasse as suas pesquisas na descoberta de um agente poderoso que iria agir como um restaurador deste padrão-vida original. As drogas,” disse ele, “deveriam ser experimentadas, e os seus resultados seriam parcialmente favoráveis. Mas, para onde o homem deverá voltar os olhos, na busca de novas técnicas, novos tratamentos e novos reconstituintes, será para os excelsos benefícios da Luz; a luz,” assinalou ele, “do Raio Laser, recentemente descoberto porém apenas parcialmente compreendido e aplicado.”

O Dr. X falou da utilização de um Raio de Luz pura e eu entendi que se estava a referir ao Laser. No futuro, segundo ele afirma, um Raio desse tipo será utilizado mais extensivamente e poderá projectar a sua luz sobre essas células delinquentes. “Mais tarde,” disse ele, “o Grupo ajudará a imprimir, nas mentes dos pesquisadores, a compreensão de que, à parte do seu poder para cortar, este Raio – ou melhor, uma variação dele, numa forma modificada – poderá ser usado como uma espécie de catalisador, para reformar o padrão celular que se acha errado.”

Antes que o século actual tenha terminado, diz-me o Dr. X, este método de emprego da Luz ter-se-á transformado numa grande arte médica e num tratamento para aliviar e deter o sofrimento. Ao mesmo tempo, visando o pensamento criativo, o homem estará a aprender a governar-se a si mesmo, a governar a sua mente, as suas emoções e as suas reacções.

O Dr. X finalizou: “Nós ainda estamos no ramo paliativo, mas finalmente, num futuro que pode ser antevisto, os médicos estarão capacitados a controlar o furioso assalto do cancro, como já o fizeram com flagelos do passado, tais como a difteria, a febre tifóide e a peste bubônica. O diagnóstico dos estágios insipientes do cancro serão feitos por meio de uma adaptação do actual método do Raio-X e as células delinquentes serão isoladas. Depois estas serão tratadas pela Luz, a fim de anular a sua maligna perturbação da forma e do padrão. Assim como a inoculação e a vacinação operaram para eliminar antigos flagelos da humanidade, assim também o uso aperfeiçoado do Raio finalmente reduzirá o cancro a um valor mínimo, enquanto doença mortal… A pesquisa está a prosseguir activamente e as “sementes-pensamento” destas ideias revolucionárias estão actualmente a ser projectadas nas mentes de cientistas e de pesquisadores de todas as nações… Qual a nação que conseguirá ser penetrada primeiro,” disse ele sorrindo, “constitui uma especulação interessante, para nós.”

O Daily Telegraph, 31 de Outubro de 1968

CÉLULAS CANCEROSAS DETECTADAS PELO RAIO LASER

Uma nova e promissora forma de detectar células cancerosas, usando a luz laser para iluminá-las sob um microscópio está a ser investigada nos laboratórios da International Rsearch and development Company, em Newcastle-upon-Tyne.

Há evidências de que as células malignas assumem uma brilhante luminosidade vermelha, o que não acontece com as células normais. Isto foi observado pela primeira vez quando os cientistas de lá começaram a analisar células malignas retiradas do intestino. A técnica foi tentada, depois, em manchas cervicais, retiradas de mulheres, mas com sucesso limitado.

O daily Telegraph, 13 de Outubro de 1966
O NEUTRÃO USADO COMO TRATAMENTO DO CANCRO

Cientistas na Inglaterra, começaram a trabalhar num novo aparelho de radiação que utiliza neutrons, que poderá ser mais eficaz do que o Raio-x no tratamento de muitas formas de cancro.
O Sr, James Wood, encarregado do projecto no Electronics Research Laboratory, do Departamento de Serviços de Defesa, em Baldock, Hertfordshire, declarou ontem: “Ainda não podemos dizer definitivamente se isso será um remédio, mas parece que as probabilidades são de cinquenta por cento. Levaremos cerca de três anos a aperfeiçoar um tubo gerador de neutrões, com a alta potência do rendimento que é necessária. Depois de pronto, espera-se que o aparelho seja uma máquina suficientemente compacta para ser instalada numa sala comum de tratamento pela radioterapia. A produção de neutrões será protegida por catorze polegadas de aço, com uma pequena abertura para o feixe direccional dos neutrões. “O Sr. Wood disse que uma alta potência de rendimento era indispensável, para que o tempo de tratamento fosse reduzido a alguns minutos. Este era o máximo de tempo que um paciente consciente poderia suportar.

Seis semanas atrás foi instalado um tubo de alta potência para as primeiras experiências médicas, mas que ainda não alcança o elevado rendimento exigido para o tratamento rotineiro. Está a ser usado para o estudo de avarias nas células e das características da “medicação de profundidade.”

Nos dias em que o laboratório estiver aberto ao público, nas próximas sexta-feira, segunda e terça-feira, os visitantes poderão ver o tubo de neutrões. Estes dias de entrada franca comemoram o vigésimo segundo aniversário do laboratório.
A nossa Ordem dos Médicos escreve: É tudo inteiramente experimental. Ninguém ainda curou um cancro com neutrões, nem sequer o ciclotrão curou já o cancro. Nada foi provado.

(NT: Em 2008 foi publicada na página da Medical Physics Web, na internet, o seguinte resultado: A terapia de neutrões - a destruição de tumores por meio de irradiação com um feixe de neutrons - já foi anunciada como um novo tratamento de câncer altamente promissor. Infelizmente, a pesquisa baseada numa interpretação optimista da evidência experimental inicial produziu resultados clínicos decepcionantes. Como a sequência dos eventos ilustrou, o uso de conhecimento científico parcial na tentativa de melhorar o tratamento de uma condição biológica complexa, como o câncer, provou ser desaconselhado.
Matar células cancerosas em um ambiente laboratorial é consideravelmente mais fácil do que curar um tumor maligno situado dentro ou perto de órgãos e tecidos essenciais do corpo, que pode ser seriamente prejudicado por efeitos colaterais de radiação. No contexto dos futuros desenvolvimentos de radioterapia, particularmente o uso de prótons e terapia de feixes de íons, este conto é altamente relevante.)






In TESTIMONY OF LIGHT, de Helen Greaves


Frances Banks


Adição de Amadeu António

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