sábado, 17 de dezembro de 2016

TESTEMUNHO DE LUZ - 2ª PARTE



17 de Janeiro

Agora você deve estar a perceber a tremenda importância e realidade associadas à Luz. Se é que pode lembrar-se, na Terra, nós trabalhamos (tanto quanto podíamos nas desajeitadas associações da Terra) tentando alcançar a Luz. Mas quão difícil é, aí, varar as forças inertes que parecem sujeitar-nos. No meu livro Fronteiras da Revelação, escrevi a respeito da experiência que tive com a luz etérica; tais experiências devem ser exploradas mais positivamente e com uma utilização muito maior dos poderes intuitivos, por aqueles que estão no mundo e que desejam elevar a vibração lenta do planeta… (Talvez voltemos a este assunto mais tarde.)

Não obstante, ensinar e aprender por meio da experiência é a razão principal das comunicações que temos consigo…
Cada vez mais e mais positivamente estou a estender-me para dentro da Luz. Neste estágio, pelo pensamento e pela vontade, a compreensão da Luz que me cerca, interpenetrando completamente cada estrato do meu ser, tornou-se no meu estudo, na minha concentração, na minha meditação.
Quando não estou “de serviço” junto às almas que aqui se encontram, na Casa, e que necessitam de cuidados e de auxílio (mas até mesmo então faço uso da Luz!) coloco-me dentro da Luz pelo uso da minha vontade, pedindo que a Luz me seja concedida e que a minha alma e o meu espírito possam vir a ser uma Luz inspiradora; que eu possa viver e movimentar-me dentro da Luz, que é a Vontade Criativa.

Esta é uma experiência maravilhosa e emocionante. Quando, na Terra, captei um simples lampejo de luz e ele me elevou e me modificou – assim como modificou o rumo da minha vida – esse lampejo transitório não foi nada comparado com a imersão na Luz que aqui se torna possível. Parece que me encontro deitada no meu jardim não obstante, no poder desta luz, a minha mente e o meu espírito se alongarem numa extensão gloriosa. Torno-me consciente (mesmo que apenas em parte) do mundo que existe além do mundo do pensamento, até mesmo além do pensamento enquanto Existência. Os psiquiatras chamariam a isto de “experiências subjectivas”. Todavia, o que é que qualquer um de nós realmente conhece das extensões subjectivas da mente?

Aqui nós somos mente (reduzida à nossa potência individual, concordo) porém, ainda se trata da mente, livre dos estorvos da realidade aparente e destrutiva da matéria… Por conseguinte, por meio do pensamento e da vontade podemos viajar até muito além daquilo que constitui as circunstâncias imediatas com que nos deparamos, se assim o desejarmos.

Conforme penso que já enfatizei antes, este alongamento para dentro da Luz e da Vida pode parecer-se com uma extensão-no-sonho. Contudo, inversamente, ele é verdadeiro e real para o sonhador! Talvez ele seja a própria Realidade… no estágio actual em que me encontro não o posso apurar.

Talvez eu consiga ilustrar o facto por meio de uma experiência e da explicação do que aconteceu comigo (ou pareceu acontecer, se o preferir!). Uso a palavra “pareceu” com muita cautela, por ainda estar a tentar sincronizar uma experiência interior, espiritual, com a expansão da mente subjectiva dos psiquiatras e com a mente inconsciente dos ocultistas, em termos terrenos.

Contudo, aquilo que ganhei ou aprendi por meio da minha “experiência,” além de possuir um valor inestimável, é emocionante e enche-me de novas esperanças e de alegria. A minha experiência aconteceu durante a última ocasião em que me coloquei dentro da luz, por intermédio da vontade e da oração. Fui transportada (não sei como) para um outro lugar, uma outra Esfera, uma outra “mansão” neste mundo… talvez para um outro planeta; mas quanto a isso não obtive qualquer conhecimento conclusivo. Bastará dizer que, súbita e imediatamente, me tornei consciente de me encontrar numa grandiosa “atmosfera” de erudição. Compreendi que me encontrava numa universidade; contudo, era muito mais do que isso, porquanto havia Salões de Estudo e uma penetrante atmosfera de Pensamento, me mo emocionou ao nível da alma e me satisfez um desejo profundo. Os “edifícios,” simétricos e de linhas puras, pareciam ter um carácter Grego. Foi como se eu pudesse imaginar, ou talvez relembrar, em alguma memória da alma profundamente enraizada, qual a aparência que tais edifícios deveriam ter tido.

Havia pátios internos e lindas vistas de jardins onde brincavam fontes de Luz. Havia muitas almas, grupos de estudantes, às vezes rodeando Alguém que parecia ser um Mestre, atentos à sua dissertação, ou quietos e em profunda meditação com Ele; às vezes reunidos, todos a discutir apaixonadamente; e às vezes um estudante isolado e solitário, em contemplação. Estes que aqui se encontravam eram de todos os tipos e de todas as nações. Eu tive “conhecimento” de que este homem tinha tido uma pele negra na sua última encarnação, no plano terreno. Aqui estava um Chinês, um hindu, um pele-vermelha. Agora não diferiam um do outro; todavia, interiormente podia-se reconhecer a raça a que tinham pertencido recentemente. Todos tinham um ar de concentrada clareza de pensamento e de propósito, que os envolvia como se fossem auras brilhantes e cintilantes, que todavia variavam na cor e na intensidade.

Eu encontrava-me emocionada. Olhei ao redor e vi as Salões interiores, talvez Templos. Notei que as portas desses salões se encontravam escancaradas, mas apesar disso nenhum dos estudantes que se encontravam nos pátios exteriores parecia penetrar nelas. Andei livremente por ali, entre os grupos e através das avenidas e arvoredos. Aqui está, disse eu para mim mesma, a minha Universidade do Espírito; e a recordação do meu ardente desejo de materialização de uma universidade desse tipo, na Terra, encheu-me de uma nova alegria, nesta realização celestial.

Juntei-me a um grupo e depois a outros. Enquanto vagueava, pensei identificar rostos que conhecera, ou figuras que eram familiares por causa da sua fama ou das realizações obtidas na Terra. Todavia, não podia ter a certeza. Pensei ver o seu marido num dos grupos que se encontrava neste pátio, atento, juntamente com outros, na dissertação de um Mestre. Por demais absorvido no assunto, Ele apenas demonstrou que me reconhecera virando rapidamente a cabeça, como se estivesse surpreendido por me ver. Continuei andando. Preciso encontrar o meu lugar nesta grande cidade de cultura – insistia comigo mesma. Sentia que me encontrava nalgum sonhos extático, tão enobrecida e transportada que me encontrava, na minha mente. “Isto é o céu, deveras.” Este sempre tinha sido o meu objectivo, semelhante a algumas visões, semiesquecidas, da realidade.

Agora exulto, por saber que tal universidade da Dissertação e de Estudo existe. E comparecerei às aulas, também, quando descobrir o Mestre cujo currículo contém o conhecimento que procuro. Subitamente veio-me um pensamento: “E os salões interiores?” E com a velocidade do pensamento à qual estou apenas a começar lentamente a acostumar-me, encontrei-me a subir as escadas, em direcção a uma das portas que se encontravam abertas. Senti que de facto a revelação estava aqui! Contudo, quando alcancei o último degrau, de cima, fui cega por uma luz. O choque impediu-me de prosseguir. Fiquei parada, ofuscada e com a mente em branco, incapaz de forçar o meu caminho dentro deste raio brilhante. Tive consciência de que o fulgor desta Luz era excessivo para a minha condição.

Imediatamente algo pareceu extinguir-se dentro de mim. A minha própria luz tinha sido obscurecida. Passei pela inexplicável sensação de estar a diminuir. Senti de novo a estranha e um tanto assustadora impressão de estra a minguar… a minguar…
E encontrava-me de volta ao meu jardim. Esta expansão de consciência tinha sido interrompida. Senti-me como um balão vazio; além de frustrada!
Qual o motivo – perguntei a mim própria?
O motivo estava no meu próprio egoísmo e na minha própria insuficiência. Eu, que ainda não tinha a capacidade para estar presente nos pátios exteriores, tinha-me atrevido a tentar entrar. Dizer que o meu espírito ficou abalado representa um escamotear da verdade… para conseguir enxergar esta experiência na clareza de uma compreensão desprovida de emoções, tive que passar muitos momentos a examinar-me profundamente e a solicitar Luz suficiente, com todo o fervor. Sempre fui por demais precipitada; sempre fui uma exploradora por demais ansiosa para prosseguir e avançar, para invadir, à força, as fronteiras da revelação. Na Terra (você se lembra?) eu tinha imaginado uma Universidade do espírito; eu tinha ansiado por participar de um tal movimento. Eu tinha trabalhado tendo na minha mente o lampejo desta visão.

A visão talvez tenha sido correcta, mas a maneira de a abordar teve o sabor do egoísmo; o egoísmo da mente humana limitada que tem que ser purificada e desnudada antes que os padrões mais elevados, do espírito, possam manifestar-se. Agora vejo que o padrão-pensamento, na terra, não se acha a par de uma velocidade (frequência) suficientemente elevada – acima do matéria e do pessoal – que lhe permita conter tal possibilidade. Tive que aprender, também, que ainda falta muito para que eu esteja preparada para participar, conforme esperara… Segundo parece, ainda não tenho autorização para ser admitida nos pátios externos destes Salões de Cultura… Por ocasião de uma outra encarnação, talvez… Quem sabe? Só podemos compreender os nossos erros e caminhar para a frente, para uma compreensão muito maior.

Mas agora estou contente. A visão ainda permanece comigo, completa e satisfatória; a esperança de novos ensinamentos e de novo progresso. Devo preparar-me por meio do trabalho contínuo, assim como pela análise de mim mesma e pela compreensão dos meus defeitos, aprestando-me para aquela transição para a esfera por que minha alma anseia ardentemente.

Nesse meio tempo, há tanto que fazer, tanto para aprender, tantas facetas novas desta vida, com as quais experimentar e, finalmente, com as quais ajustar-me; mas a Luz encontra-se sempre aqui, aquela Luz do Espírito, que precisa ser consolidada dentro de mim de modo que eu possa habitar Nela e Ela em mim. Quando, por fim, isso tiver sido conseguido, mesmo que em parte, sei que terei permissão para avançar em direcção ao desejo da minha alma; isto é, tornar-me uma aluna dos pátios exteriores, misturar-me com aqueles que possuem uma Mente grandiosa e exaltada, ouvir as Verdades expostas pelos Professores e Mestres da Sabedoria, absorver tais conhecimentos e abrir a minha alma às Realidades eternas. Aqui, nada nos impede de fazer aquilo que desejamos… excepto as nossas próprias insuficiências.

17 de Janeiro – Mais tarde

De facto, este é um mundo (composto) de pensamento! O plano terreno também é, dirá você – esse plano do qual apenas acabei de ser promovida. Só que aí o pensamento tem uma acção muito mais lenta porque todas as vibrações e, consequentemente, todos os resultados ou efeitos, são mais vagarosos; e porque temos uma fachada, uma personalidade com a qual mascarar o pensamento.

Aqui parecemos estar nus. Não há máscaras, nem mesmo para o pensamento, o nosso pensamento mais íntimo, e às vezes estremeço diante da percepção de que os nossos companheiros, que aqui se encontram, podem ler-nos do mesmo modo que lemos os livros, na Terra, que falam do carácter, do pensamento e da acção. Aqui, os nossos pensamentos voltam para nós como bumerangues, potentes e imediatos os efeitos que têm. Conforme o pensamento, negativo ou positivo vêm á mente, é cristalizado em acção imediata. Na mente humana, um pensamento negativo pode penetrar furtivamente e insinuar-se entre todas as nossas boas intenções, e ficar aparentemente adormecido. Depois ele transforma-se num núcleo que atrai para si os pensamentos de conteúdo similar, até tomar uma ilusória aparência de força, através das emoções; posteriormente, manifestam-se em resultados físicos, materiais ou espirituais.

Todavia, nesta nova vida a potência do pensamento é elevada para uma frequência que não permite fugas. Os efeitos são imediatos. Aqui, o padrão de pensamento determina a nossa prosperidade, o nosso progresso, a nossa felicidade e a nossa alegria. Conforme pensamos assim somos… em ambiente, aparência e companhia! Temos que aprender a viver nesta nova frequência; temos que aguardar as portas da nossa mente; e antecipar a acção do bumerangue das emoções negativas… Esta é a maneira de viver destes planos e cada alma deve assimilar a Maneira antes de começar o seu avanço para planos de frequência ainda mais elevados. Isto é luz e escuridão, conforme as conhecemos na Terra; é o dia e a noite da alma…

18 de Janeiro

Encontra-se aqui um antigo polícia; ele já se encontrava na casa há algum tempo, quero dizer, antes da minha chegada, e logo irá ser transferido para outro lugar, neste mesmo plano, por motivos que eu explicarei. Ele é um homem simples, que não teve educação mas que teve um grande senso de dever e que sempre ocupou, com o máximo da sua capacidade… “aquele posto na vida, para o qual deus houve por bem chamá-lo,” conforme costumávamos dizer. Segundo me é dado entender, ele estivera doente durante algum tempo antes que uma súbita paragem de funcionamento do coração pusesse um termo à sua vida e ele viesse para cá. Fora um homem honesto, que nunca “preocupara a sua cabeça” (palavras suas) com religião ou filosofia; e que acreditara, como todos ainda acreditam, que a morte significa o fim de tudo o que conhecemos. Para ele tinha sido um grande prodígio e espanto descobrir como a vida aqui é tão “normal.” Contudo, reagiu bem. Foi preciso tempo e muita ajuda dos devotados auxiliares que aqui se encontram; mas agora, que ele já pode ajustar-se a esta nova fase de vida, encontra-se ansioso para auxiliar a sua família, que ainda permanece na Terra.

Parece que ele tinha um filho e uma filha e que viva bastante feliz com a esposa. O filho agora está nas forças policiais, seguindo as pegadas do seu pai. Segundo ele, é a moça que necessita da sua ajuda. Ela era uma coisinha linda e caprichosa, disse-me ele, e aos dezoito anos de idade teve um filho ilegítimo. Ele admitiu, sem nenhum recalque que nessa ocasião ele e a sua esposa tinham sentido uma grande vergonha; apesar disso, aceitaram a criança e a criaram como se fosse sua própria filha. Após dois anos, a jovem mãe abandonou a sua família e o seu bebé e foi embora, para viver com outro homem. Surgiram brigas e recriminações. Contudo, ela seguiu o seu caminho e eles tinham pelo bebé um carinho grande demais para o enviar para um asilo. Passaram a ver a filha cada vez menos; o bebé cresceu e transformou-se numa menininha saudável, amorosamente tratada pelos avós.

Posteriormente, a filha brigou com o seu protector e foi embora com outro homem; a partir daí viveu aventuras intermitentes com marinheiros, num porto do sul, e desceu inabalavelmente a “escada da respeitabilidade e da moral,” conforme ele referiu.
Como é natural, os avós e o irmão ficaram transtornados, tendo ansiado e trabalhado para que a moça retornasse a uma vida decente. Mas cada vez que conseguiam arrumar um encontro, este terminava em cenas e acusações. O nosso polícia admite, com absoluta franqueza, que o gênio que tinha não era dos melhores e que invariavelmente perdia a calma durante tais encontros. Portanto, nenhum resultado construtivo foi obtido. Os avós ficaram com a criança e a filha continuou “de mal a pior” (a maneira que tem de tornear as frases é inconfundível e muito rememorativa da criação que teve) terminando por viver abertamente como prostituta, ou, de acordo com a expressão dele, “nas ruas.”

Pobre homem! Pobre pai, triste e zangado! Em virtude da tensão e da preocupação, a sua saúde saiu arruinada. Ele teve que ser dispensado do trabalho. A preocupação, o medo e a raiva e o sentimento de importância, com relação à sua filha, provocaram a tensão que causou o problema cardíaco. Ele acabou por sucumbir. Este polícia falou-me acerca dos “inexplicáveis acontecimentos que se deram à hora da sua morte.” Foi levado às pressas para o hospital; a filha foi informada e, para sua grande surpresa sua, veio vê-lo. Na verdade, ela estava ao lado da sua cama – segundo ele crê - quando ele “se apagou como uma luz” (expressão sua). Antes desse momento, porém, ele estava (como pude explicar-lhe) inconsciente para o mundo terreno, não obstante poder ouvir o que se passava ao seu redor. Conforme acontece com todas as pessoas que estão a morrer, ele conseguia ouvir, porém, não tinha forças para pensar com clareza nem para falar. Todavia, estava perfeitamente ciente do remorso da sua filha. Ela chorou amargamente e disse que, se ao menos pudesse, voltaria para casa de novo. Ele ansiava por dizer: “Volta para casa agora” mas a sua língua não queria obedecer.

A esposa disse: “O seu pai haveria de querer que você voltasse para casa e ficasse connosco e com a sua filhinha,” mas a moça apenas continuou a chorar e a dizer que agora era digna de voltar para casa. Depois ele recorda de que deve ter “conseguido,” por se recordar de ter sentido uma estranha espécie de ventania violenta a seguir ao que mais nada se seguiu, até que acordou aqui. Mas vocês deve poder ver coo os pensamentos dele e anseios se dirigem para a filha. Ele já não sente vergonha nem raiva, mas somente um grande desejo de expressar o amor que sente por ela e de a ajudar a redimir-se da vida que está a levar. Contaram-lhe da possibilidade de entrar em contacto com aqueles que se encontram no plano terreno, de modo que agora esse é o único desejo (desejo da alma) do nosso polícia. Ele nada quer para si mesmo; nem mesmo a perspectiva de evoluir e de trabalhar, em qualquer coisa que queira, o atrai.

“Preciso encontra-la,” insiste ele em repetir. “Se, como a senhora diz, existem caminhos que me podem levar a conversar com ela, então devo tomá-los. Tenho que dizer que lamento a severidade que manifestei. Tenho que fazer com que ela saiba que eu a amo; e tenho que dizer a ela que ainda estou vivo… e que habito aqui compos mentis (em são juízo) e tudo o mais… e que ela também viverá!”

“Mas, suponhamos que ela não queira ouvir?”

“Eu insistirei e insistirei até que ela ouça!” respondeu-me ele, deixando-me perceber um lampejo da sua velha personalidade inflexível. “Tenho que lhe provar isso, tanto para o meu bem como para o dela, entende? Por tudo isto ser tão estranho… e maravilhoso! E por eu agora pensar de maneira diferente,” aduziu ele, com mais calma.

Por essa razão, numa das nossas reuniões do Conselho discutimos o problema dele e foi tomada a decisão de ajudar este polícia a realizar o seu desejo. Neste plano existem Estações sonde a comunicação com o plano terreno se torna possível. (Sempre imaginei que existisse algo assim, mas agora sei que é um facto.) Nessas Estações existem servidores e auxiliares que dedicaram o seu conhecimento e o seu esforço a ajudar aqueles que almejam enviar mensagens aos entes queridos que ainda se encontram na Terra. Segundo entendo, a técnica empregue é absolutamente especial além de muito difícil de acompanhar, no princípio, até mesmo por aqueles que desejam usá-la. Mas existem Estações, Directores deste trabalho, administradores, e (num certo sentido) técnicos para fazê-las funcionar.

Vocês lembra-se de como, logo que a conheci, costumava chamá-la de “telefone celestial”? Bom, para diversão do Padre Joseph, agora eu imagino esta transmissão de mensagens, emitidas do nosso lado, como se fosse um “telefone dos mortais.” Intimamente, porém, penso nisso como sendo um telefone público. No princípio tive muita vontade de ver como esse trabalho era executado, até mesmo, talvez, de enviar as minhas próprias mensagens – até que se tornou claro, para mim, que isso não somente representaria um desperdício de esforços mas, além disso, uma demonstração de egoísmo da minha parte, por não necessitar realmente dessa espécie de ajuda.

Sempre tive a sorte de possuir uma mente inquiridora, como você sabe, e com ela pesquisei profundamente os temas da comunicação e da Percepção Extrassensorial. A telepatia estudamos nós as duas juntas, como vocês poderá confirmar, que eu pratiquei à minha modesta manira, obtendo algum grau de sucesso com experiências sem importância, tanto consigo como com outros. Contudo, esses métodos de comunicação – via astral - nunca me foram revelados (talvez para minha mortificação). E agora estou convencida de que não há razão para investigar.

Assim sendo, embora possa visitar o nosso “homem das forças policiais” no seu novo lar e até mesmo observá-lo na estação e tentar ajudá-lo, continuarei a praticar os métodos que parecem ser mais adequados para o trabalho que estou a tentar realizar…. Naturalmente que me quero referir ao contacto telepático que tenho consigo (e com outros), no qual a minha mente se encontra em sintonia com a sua e eu posso transmitir e receber sem que nenhum outro auxílio seja necessário… nem mesmo aquele prestado por uma técnica possivelmente fantástica.

Isto porque, utilizando esta onda telepática, posso “escrever” consigo estes fragmentos de informação sobre o tema altamente controverso da Vida após a Morte (embora nós apenas estejamos a tocar a fímbria de todas as maravilhas daqui e do além) com resultados – confio eu – satisfatórios… ou pelo menos suficientes para ajudar aqueles que possam ler o que foi escrito.

Isto é parte dos deveres que agora me cabem, e você, que me conheceu tão bem, sabia da minha característica, que cravo os meus dentes num assunto não largo dele até que tenha extraído conhecimentos suficientes que me satisfaçam… esta inclinação me é muito útil aqui! Agora, porém, gozo de liberdade para lhe dizer que não é proeza que executo sozinha. De modo algum! Há um Grupo que me ajuda e me guia na selecção dos incidentes que serão telepaticamente transmitidos a si. Em virtude de ter estabelecido contacto com a sua mente numa ocasião anterior, o Padre Joseph é de muita ajuda nisto; o seu marido também me auxiliou a abrir o caminho e serviu de instrumento para que você desse ouvidos à minha mente, da primeira vez.

Há outros no Grupo, e eu percebo que nós somos apenas instrumentos neste trabalho. O véu existente entre os mundos precisa ser descerrado (ou dissolvido, como você sugere) (NE: Aqui, numa aclara alusão ao título da primeira publicação da autora, The Dissolving Veil ou Além do Véu da Morte) Todas as pessoas que estão a viver na terra devem ser alcançadas, tanto as mentes inteligentes, eruditas e refinadas, como as mentes piedosas e religiosas e as mentes fechadas, desprovidas de refinamento e de cultura. Todas elas necessitam deste conhecimento para afastar o medo, que é uma das mais poderosas e sombrias emoções terrenas e que precisa ser combatido e vencido antes que a paz e o progresso possam chegar à Terra.

Todavia, o meu grande desejo e certeza é o de poder continuar a trabalhar convosco, na nossa Associação e, talvez, ampliar as crenças e as percepções de muitas almas, por intermédio do Trabalho que foi planeado neste nosso lado e em cooperação com os esforços feitos por vós, aí a Terra.

23 de Janeiro

O seu marido tem visitado a casa com frequência e nós os dois temos conversado bastante… Sinto que agora conheço e compreendo você muito melhor… As informações que ele me deu esclarecem muitas coisas que me intrigavam, nas reacções que você demonstrava à vida e às pessoas. Agora compreendo-a de um modo diferente daquele conforme pensara tê-la entendido quando trabalhamos juntas, na Terra… Ele sente um enorme respeito pelos seus dons que, segundo disse, nunca valorizou quando se encontrava no corpo...

Parece-me agora que nós só compreendemos de maneira correcta e sem preconceitos emocionais quando estamos separados da ida na Terra, o que parece bastante de lamentar, mas o seu marido concorda comigo. Aqui é inútil abrigar arrependimento... arrependimento por aquelas coisas que não fizemos assim como por as que tivermos feito - pelas nossas acções, quase todas elas resultantes do facto de que as nossas mentes - e, por conseguinte, as reacções às nossas circunstâncias - foram obscurecidas por um juízo parcial e por conclusões preconcebidas (e, com frequência, erradas). Aqui, lamentamos muito tais falhas, ainda mais porque as escamas que tínhamos nos olhos caíram, e nós contemplamos a Verdade (o talvez fosse mais seguro dizer "uma estágio mais amplo da Verdade," mais amplo do que aquele que as condições negativas do corpo e da mente poderiam penetrar e neutralizar.

Ele disse que aqui o remorso é inútil... mas tal declaração pode ter sido demasiado impetuosa. Saber de tudo é perdoar tudo; portanto, quanto  maior a soma de pensamentos construtivos que depositamos sobre tais arrependimentos, tanto melhor.

Você deveria saber muito bem que "prosseguir com o negócio" sempre foi um dos meus preceitos. Até mesmo tendo toda a eternidade diante de mim, parece-me um desperdício grotesco usar energia com lamentações. Remissão, sim! Compreensão do que estava em falta e do que saiu errado... e confissão, para nós próprios, dos pecados de acção e de omissão, juntamente com a aceitação da vergonha e do fracasso.

Depois, à medida que o conhecimento é transformado em sabedoria, um novo começo; um esforço por corrigir esses mesmos erros e de auxiliar por meio do amor e do pensamento directo, concentrado, a fim de ajudar onde a ajuda se faz necessária. Algumas das almas que vêm para o nosso lado, e que praticaram muitas perversidades, recebem uma grande quantidade de conselhos e de auxílio, neste ponto. O remorso as assoberba e elas escolhem viver na obscuridade do arrependimento. Isso é acertadamente chamado de "obscuridade" (e não me estou a referir ao lugar das Sombras) porque até mesmo aqui, por efeito da sua tristeza e do seu remorso, elas estão a isolar-se da Luz que poderia iluminar-lhes as mentes, dissolver-lhes as culpas e trazer um raio construtivo para ser projectado sobre os seus problemas...

Visitei as "regiões inferiores," embora - isso eu lhe asseguro - acompanhada por Condutores capacitados para nos guiar e proteger. Acredite-me, é uma região terrível (ou regiões) de semiobscuridade, de emoções doentias e "pegajosas," de absoluta distorção de tudo quanto é belo. Os nossos sentimentos são afligidos por visões dolorosas, a compaixão brota por essas pobres criaturas com semivida - na semi-escuridão em que se encontram. Nessas regiões acham-se presentes Auxiliares maravilhosos. Antes que sejam escolhidos para a realização de tal trabalho, precisam ser almas avançadas, fortes em si mesmas e firmes na Luz. Enquanto estava aqui a fazer uma visita, contemplei o rosto de um Ser de tal beleza que me vi detida na minha caminhada em frente e precisei parar por um tempo somente para me situar na aura desse Grande Ser.

Posteriormente fiquei a saber que na Terra ele tinha sido quase um santo; tinha sido um grandioso místico, embora um filósofo iletrado. Agora ele é o líder de um Grupo de Auxiliares que aqui se acham presentes; mas a luz do seu semblante, ainda que atenuada por causa dos seus pacientes, e reduzida a uma potência que eles podem suportar, é gloriosa. O meu Condutor contou-me que este é o seu último trabalho de treino, uma preparação para uma missão mais elevada que esta grande alma empreenderá. Não tenho certeza se isso pressagia um retorno às condições terrenas, como um Grande Mestre ou Profeta, ou se isso será um prelúdio para a passagem por mais uma iniciação, e para mistérios ainda maiores. Fiz tantas perguntas quantas podiam ser respondidas, com respeito a tal assunto, e fui informada de que ele realmente era um Mestre de Sabedoria, uma alma das mais santificadas - devotada ao Cristo - e um dos participantes de um grande grupo de potenciais Redentores do Mundo.

Ele tem estado nas Esferas há mais de três séculos, conforme o tempo é calculado na Terra, e tem "atravessado" muitos dos Planos Superiores, sendo Membro de uma Fraternidade de Luz. O trabalho altruísta que aqui tem realizado constitui uma lição sem palavras. As irmãs o reverenciam e algumas juntaram-se ao seu Grupo de Auxiliares e têm trabalhado aqui, sob a sua direcção, retornando à Casa para repousar e recuperar após as árduas tarefas. Sei que o Padre Joseph visita frequentemente este lugar e que trabalha com o Grupo.

Eu "voltei " para o meu chalé e o meu jardim dourado com um grande sentimento de alívio, acrescido de uma imensa alegria e admiração pela Luz que aqui reina. Pensei um bocado a respeito destas palavras... "Àqueles que jazem na escuridão e na treva da morte..." e um novo significado e conotação me foram acrescentados a nossa velha frase das escrituras. Aquele lugar era realmente a Escuridão, a escuridão da morte, não tão decisivamente a morte do corpo quanto a morte da mente, porquanto ali, a mente torna-se inerte na densidade criada pelo uso erróneo de faculdades dadas por Deus, o pensamento e o livre-arbítrio do homem. Esta densidade faz com que a alma definhe e seja reduzida a uma debilidade tal que acaba ficando "isolada" e com a sua luz obstruída. Certamente isso não representará a morte... ou melhor a escuridão da morte?

Para mim isso é muito mais assustador, nas implicações que comporta, do que a explicação que nós aceitamos para esta frase, na Terra. A morte do corpo constitui uma simples mudança. As "trevas da morte" é facto apavorante, mas graças a Deus, é u facto que nunca será experimentado por aqueles que procuram viver uma vida virtuosa e abrir as suas mentes à Verdade.

E não ligo a esta frase, “uma vida virtuosa,” nenhuma interpretação piegas, não. A Vida Virtuosa, conforme o conceito dos que aqui se encontram, não é um vago e sentimental sonho de virtude, e também não é a devoção e a caridade publicamente exibidas, que envaidecem o ego e que Jesus condenou nos fariseus. Conforme aqui estou a aprender, o seguir da verdadeira Luz interior, a obediência dessa Luz e o consequente trabalho e a acção prescritos pela sabedoria dessa Luz, constituem a Vida Virtuosa, a vida plena, a vida mais abundante – das escrituras de todas as religiões.

Lembra-se de que “uma personalidade inspirada pela alma” foi frase que eu usei muitas vezes, na Terra, mas provavelmente com uma falsa interpretação do seu verdadeiro significado? Agora que já vi esta grande Alma-Mestre em Sua humilde posição e trabalho, tive a impressionante percepção do que a Alma é; uma percepção que, estou certa, jamais esquecerei.

A Alma é Luz inspirada… ou Luz insuflada.
O isolamento da alma é a escuridão.

Assim como o sol é o portador de fachos de luz para a Terra, assim o Filho, a segunda Manifestação da Energia Divina, da Mente Criativa, é o transmissor dos raios luminosos do Filho e por isso mesmo estão na morte, na escuridão da morte.

Que a Luz possa descer sobre a Terra!
Então, as terríveis ilusões destes lugares de treva serão dissolvidas para sempre.

4 de Fevereiro

Você pergunta acerca da precognição e quer saber se é verdade que o futuro possa ser previsto. Até onde alcança a experiência que tenho, e até onde esta nova extensão da minha consciência revela factos sobre o tempo de vida terrena, estou a ter uma percepção, cada vez maior, de um Padrão e de um Plano. O Diagrama dos nossos esforços, dos nossos sucessos e dos nossos fracassos em todos os planos – físico, material, emocional, mental e espiritual – indica que uma linha definida de progresso é voluntariamente aceita pela alma antes de ela encarnar.

Indubitavelmente, quando eu estiver mais versada no estudo das vidas humanas e do resultado destas, juntamento com o curso da vida das nações e dos resultados, bons ou aparentemente maus, que tenham sido colocados em movimento pela Lei de Causa e Efeito, estarei mais habilitada a avaliar de que modo o Padrão divino – de desenvolvimento individual e de desenvolvimento de grupo – estabelece uma ligação de vida para vida e de era para era. É apenas lógico presumir que recomeçamos, por assim dizer, um teste de força e de fraqueza a partir do ponto em que o abandonamos numa existência anterior. Isto pressupõe uma corrente de vidas, de experiências, de reencarnação, na sua forma tão pouco compreendida. Contudo, à medida que observo histórias de esforços, sucessos e fracassos, mais me convenço de que a alma precisa “projectar” uma parte de si de volta para o ambiente mais denso da Terra, em repetidas tentativas de dominar as provações e as tensões destas vibrações. Mas qual parte de si ela projecta, e se é sempre a mesma parte, isso ainda constitui um mistério e deve permanecer como tal até que tenhamos progredido muito, em sabedoria e percepção.

Depois de conversar com sábios que tive o privilégio de conhecer aqui, não me parece haver qualquer razão para mudar a minha aceitação terrena das vidas repetidas e, por conseguinte, da possibilidade de prever o futuro que pode apresentar-se, mesmo quando ainda num corpo material. Quando uma alma reencarna (ou aquela parte da alma que busca a ampliação da experiência) ela encontra-se num determinado estágio do seu Esquema Divino. Em algumas experiências ela procurará uma prova de força, em outras procurará um papel de liderança em assuntos humanos, em outras uma compreensão emocional nos relacionamentos pessoais, e assim por diante. Por conseguinte, até que ponto ela determina os seus próprios “acontecimentos futuros,” porque eles trarão a necessária experiência que ela veio colher e esses acontecimentos coincidirão com o Padrão global associado ao seu progresso. De certa forma, ela deve reagir de u modo compatível com o seu estágio de desenvolvimento e, assim, na sua trilha e na sua esfera particular de influência, serão cartografados relevos de consecuções, modestas ou elevadas, juntamente com desalentos e fracassos, que podem ser previstos pelo Olho Interior.

Como aqui é possível passar em revista os incidentes da nossa vida na Terra, juntamente com as causas que levaram a esses incidentes, os efeitos que eles produziram e, também, as lições que proporcionaram, assim também é plausível presumir que o processo pode funcionar para a frente, tão bem quanto funciona para trás. Por outras palavras, como não existe coisa tal como o tempo, o começo, o fim e o acontecimento real são uma coisa só. Por conseguinte, numa alma que observou esta “negação do tempo” em sua consciência na Terra, o futuro possível pode ser divisado. Os erros que são cometidos e a promulgação de afirmações indiscriminadas e infundadas, ainda assim não negam a verdade do facto. A mente humana pode ser desviada pelas emoções humanas – egoísmo, egocentrismo, orgulho – e tais emoções obscurecem a questão da verdade. Contudo, permanece o facto de que a possibilidade existe, de que o futuro brota do passado. O facto de que certos videntes sempre puderam predizer não implica na obrigatoriedade de padrões de existência preordenados, num sentido rígido. Isso só ilustra a realidade da inexistência do tempo… mostra que cada momento contém, em si, todo o passado e todo o futuro.

Nas novas experiências realizadas na exploração do espaço, o facto da “inexistência de peso” provou-se por si mesmo. Num “futuro previsível,” (assim sou informada por aqueles que sabem mais a respeito do Padrão e do Plano) as almas que se encontram encarnadas na Terra poderão provar o facto da inexistência do tempo, e isto por meio de processos e experiências científicas (possivelmente naquele mesmo espaço que os cientistas começaram a explorar). Esta descoberta será tão excitante quanto este último avanço relativa à inexistência do peso e a tração não-gravitacional.

Através da verdade inerente neste conhecimento “novo” a humanidade dará um imenso pulo para a frente, para a Luz. Pois conforme o conhecimento é multiplicado por mil, assim também a responsabilidade, no seguimento do Modelo, se torna mil vezes maior. Este é um grande ponto que todas as almas encarnadas, e também desencarnadas, precisam compreender. Tenho certeza de que a prenderão.

7 de Fevereiro

Sim, eu sou uma professora e estou a receber ensino. Posso prestar serviços a outros que, em virtude de circunstâncias infelizes – de nascença ou de ambiente – ou por causa do preconceito, que frequentemente é um ingrediente da ignorância, não aprenderam nem mesmo os rudimentos da existência.

Muitos que chegam aqui estão completamente esmagados pelo facto de haver uma outra vida, ou então encontram-se desiludidos porque, na estreiteza das crenças que abrigavam, visualizaram um céu de absoluto deleite que inclui, para imaginações tão ignorantes, a jubilosa inferência de que a partir deste momento jamais terão que fazer qualquer esforço. Na verdade, um bem-aventurado estado de negatividade, de aceitação passiva, de paraíso, uma espécie de estado de uma óptima Felicidade onde eles ficarão a sonhar Eternidade afora. Certamente, porém, este não é um Estado de óptima Felicidade. Na verdade, é um estado de felicidade que possui um significado totalmente diferente; é óptima, de facto, se por meio deste objectivo nós queremos descrever uma existência onde a beleza é visível, onde os pensamentos grosseiros e negativos são proibitivos porque são visíveis e audíveis, onde o socorro e o amor estão sempre a postos para ajudar o viajante e onde cada circunstância aponta para uma vida mais grandiosa, para uma compreensão mais ampla e para a gloriosa certeza do progresso depois do esforço e da acção vigorosa.

Esta é uma existência numa outra dimensão do pensamento; a doença, a pobreza, a crueldade e o sofrimento, conforme conhecidos na Terra, aqui não têm possibilidade de existir por a Luz do Espírito nos abrir a visão e nós procurarmos o Caminho para Mundos Superiores, de beleza ainda ais gloriosa.

Sim, estou aqui a ensinar. Também estou a aprender a compadecer-me da consciência limitada que pertence àqueles que não tiveram as oportunidades que me foram concedidas, de estudar os mistérios da vida. O nosso trabalho é estar à mão quando estas entidades recém-chegadas despertam para a percepção. Às vezes os amigos e os entes queridos destas entidades, que chegaram antes a estes reinos, já terão sido “alertados.” Então, aguardamos em segundo plano, até que os cumprimentos de boas-vindas tenham terminado. Noutros casos, os primeiros “semblantes” que elas vêem são os nossos; são nossas as palavras de conforto, de confiança e de boas-vindas.

Os nossos “pacientes” ficam connosco até que se tenham ajustado a esta nova vida e estejam prontos para se reunir aos seus entes queridos ou aos seus Grupos especiais. Esta fase poderá ser uma breve passagem ou um “período” bem mais prolongado, em conformidade com o estado de desenvolvimento desses pacientes. De acordo com as reacções, depois do primeiro choque dos exames individuais das Fotocópias da vida terrena, assim e o sistema que empregamos na sua ajuda. Com compreensão, extrema bondade e, por certo, sem a mais leve demonstração de censura, as Irmãs dão explicações a respeito da Casa de Repouso e dos propósitos dela. Depois é apresentada, aos recém-chegados, a ideia de um progresso cada vez maior e eles são encorajados a corrigir, por meio de pensamentos concentrados de perdão e de compaixão, os erros que cometeram na sua vida terrena.

Suponho que você poderia chamar isto de hospital, de casa de repouso no Caminho e de centro de ensino tipo jardim-de-infância. Todos esses termos seriam correctos. As almas deprimidas, as almas amedrontadas, as almas “caídas” e as ignorantes, juntamente com aquelas que foram resgatadas da “Terra das Sombras,” precisam de compreensão e de uma explicação acerca do estado doloroso em que se encontram; e há algumas para as quais a Sobrevivência precisa ser explicada e até mesmo demonstrada. Muitas recusam-se a aceitar a morte, ou preferem julgar que ainda estão a sonhar. Você vê como o nosso trabalho aqui é vasto e como, ensinando, nós mesmas aprendemos. Pelas demonstrações dos resultados de outras vidas, eu mesmo aprendi e estou a aprender muito.

Muitas das Irmãs da minha antiga comunidade, na Terra, agora passaram para Esferas mais elevadas, mas a querida Madre Florence permanece aqui por sua própria escolha, embora também visite outros planos para revigorar as suas forças e, imagino eu, como recompensa. As nossas Irmãs, vindas de comunidades similares, juntam-se a nós e trabalham connosco; uma delas, a Irmã Ursulina, tornou-se numa companhia para mim. Temos inúmeras coisas em comum e eu admiro os seus muitos dotes e a sua mente clara e lógica. Ela terá que partir para trabalhar numa outra “Estação Receptora,” pois a nossa, segundo compreendo, é somente uma entre outras tantas Casas de Cura. Mas eu também sou ensinada, não tanto por meio de aulas e de leituras – embora eu ainda leia muito – quanto através de debates e de exemplos. Voltarei a falar sobre isto mais tarde.

9 de Fevereiro

Este é, na verdade, u mundo de pensamento. Naturalmente você também vive num mundo de pensamento, só que com você o pensamento ficou profundamente cristalizado na matéria e grande parte da ilusão dessa existência ficou “solidificada” na mente terrena. Com frequência, a mente por si mesma se isolou d realidade. Aqui nós somos aquilo que parecemos ser. No corpo podemos mascarar o nosso verdadeiro Eu, e a nossa individualidade, e mostrar uma aparência muito diferente da realidade. Aqui a personalidade, ou máscara, foi removida e os nossos próprios pensamentos estão abertos a todos. Pense no que isso poderia significar, na Terra. Este novo interesse que muitos cientistas do mundo têm demonstrado pela percepção extra-sensorial, especialmente pela telepatia, resultará no desaparecimento dessa máscara da personalidade, porquanto através dela a deslealdade, a insinceridade e a mentira serão descobertas. Em desenvolvimentos futuros, durante este e o próximo século, os pensamentos realmente serão coisa, conforme o são em essência, e poderão ser “lidos.” O homem aprenderá que a verdade é essencial em todas as coisas. É tal como aprendemos aqui.

A raiva, a irritação e a depressão podem realmente ser vistas na aparência de uma entidade e no “campo” ao seu redor. Podem ser realmente sentidas e às vozes “ouvidas” na forma de um zumbido grave, de advertência, muito semelhante ao zumbido de uma vespa. Experimentei isso em outros e, infelizmente, outras almas queridas às vezes me evitaram pela mesma razão.

Os pensamentos são coisas, realmente. É por isso que quando uma entidade chega a este plano, ele ou ela, é automaticamente colocado no plano a que tem direito. Esta é a Lei. Isso também explica a razão por que muitas pessoas ficam surpreendidas e consternadas diante do ambiente que as cerca. Alguém que, por exemplo, tenha vivido uma vida virtuosa normal, digamos, e tenha feito as coisas correctas e cumprido com as observâncias religiosas exteriores, mas que durante todo esse tempo tenha escondido, no seu íntimo, pensamentos turvos de inveja, de malevolência e de injustiça, encontrar-se-á na companhia de outros que são seus iguais, e às vezes de alguns de são piores que a própria pessoa. A sua alma encher-se-á de aflição até que por fim ele perceba que esta grande Lei é justa, até que empreenda o máximo esforço por ajustar os pensamentos no sentido do Amor, da Caridade e da Verdade, e tente reparar os males que causou a outros.

Nesses esforços, ele sempre encontrará um auxílio ao seu alcance, sempre encontrará almas mais elevadas prontas a confortá-lo, a ouvi-lo e a ensiná-lo. Também verá que há almas prontas para guiá-lo para domínios mais elevados e companhias mais felizes.

Aqui o progresso é tão livre de impedimentos – talvez mais ainda – e tão satisfatório, em matéria de recompensas, quanto qualquer sucesso no plano terreno. Para perceber o milagre da Criação e o Amor de Deus por suas criaturas, precisamos apenas ter um vislumbre dos planos da Mente, onde as emoções foram dominadas e transformadas em aspirações. Para compreender a justiça e o equilíbrio da Força da Vida, precisamos apenas ver a sombria miséria do auto aprisionamento das almas, nos mundos de sombras.

Quando a telepatia e a comunicação mental se tornarem mais comuns no mundo, então a Luz será aumentada no homem e ele perceberá a unidade que tem com todas as coisas. Então, o significado de frases como “Paz na Terra” e “Boa Vontade entre os homens,” tornar-se-á evidente. Então, o véu de escuridão – a crença na matéria - começará a dissipar-se e a força do pensamento do homem será elevada para uma manifestação construtiva. Então, o homem passará das sombras para a Luz, da miséria para a alegria, da ignorância para o conhecimento, da ilusão para a realidade. E então o mundo conhecerá a paz.

Que a Luz desça sobre a terra!

17 de Fevereiro

Deixe que lhe conte sobre a Jeannie. Ela viveu na Terra até quase aos doze anos de idade. Era uma criança linda, graciosa, delicadamente conformada. Toda a ambição que tinha era de vir a ser uma bailarina, e ela começou a aprender dança quando era ainda bem pequena, mostrando, creio eu, bastante talento. Infelizmente, aos oito anos a menina foi acometida de poliomielite severa, e durante alguns meses foi mantida num pulmão artificial.

Jeannie recuperou, mas uma das suas pernas estava mais curta; e continuou a encolher, como se os seus músculos estivessem a secar. Durante meses, a pobre criança viveu entrando e saindo de hospitais. Sofreu várias operações e chegou a usar um tirante na perna, mas os músculos continuaram a encolher, até que a perna ficou visivelmente mais curta do que a outra. Essa criança sofria dores frequentes, mas a sua maior tristeza era não poder mais ser bailarina.
Ela não suportava pensar que nunca mais dançaria, que nunca faria parte dos corpos de baile, que nunca teria a felicidade de realizar aquilo que amava. Na esperança de retomar a sua perna no seu estado normal, sofreu estoicamente as várias torturas dos aparelhos de estiramento, das braçadeiras de ferro e de novas operações.

Por fim, na idade de onze anos, ela reconheceu que nunca seria como as outras meninas, que nunca tornaria a correr, a saltar e a pular. A agonia da sua mente, as emoções provocadas pela compreensão do seu estado e as doenças constantes, enfraqueceram-lhe a constituição. Aos doze anos de idade, depois de um resfriado, ela morreu de pneumonia.

Quando Jeannie “acordou” aqui na nossa Casa, Madre Florence e eu estávamos à sua cabeceira. A criança olhou em torno de si, tentando focalizar a visão neste novo ambiente que a cercava. Por fim, ela viu-nos. Olhou-nos fixamente e depois o seu rostinho abateu-se e ela irrompeu em lágrimas.

“É a Irmã. Estou outra vez no hospital,” disse ela, a chorar. “Por favor, por favor, não quero que me façam sofrer qualquer outra operação…”
Madre Florence acariciou-lhe a mão.
“Tu encontras-te na nossa Casa para repousar,” disse-lhe Madre Florence. “Vais ficar absolutamente boa de novo, Jeannie… absolutamente, absolutamente boa,” enfatizando a palavra “boa.”
A ciança olhou para Madre Florence.
“A senhora é a enfermeira-chefe?” perguntou.
Madre Florence assentiu. “Se preferires chamar-me assim. Mas isto não é um hospital, é apenas uma casa de repouso; e tu vais ficar boa muito depressa.”
Jeannie voltou o rosto para o outro lado.
“Não,” disse ela, “eu nunca ficarei boa. Tenho uma perna atrofiada.”
“Agora já não, Jeannie,” disse eu, espontaneamente. “Nem nunca mais. A tua perna encontra-se sadia, completamente boa e forte.”
A criança sacudiu a cabeça.
“Olha para ela, tu mesma,” insistiu a Madre. “Ela está do mesmo tamanho que a outra. Olha e vê.”
“Mas eu sei que não está.” Jeannie não queria deixar-se convencer.
“Eu sei que só estão a dizer isso para… Onde está a minha mãe?”
“Tu poderás vê-la dentro em breve,” sugeriu a Madre, “quando tiveres aprendido a correr novamente.”
“Correr?” A atenção de Jeannie foi captada.
“Sim. Correr.” Inclinei-me sobre ela: “Aqui nós vamos ensinar-te a correr, a brincar e a dançar, Jeannie.”
Os olhos dela iluminaram-se.
“Dançar?”
“Sim, dançar.” Segurei as pernas da menina, erguendo-as gentilmente. “Olha, Jeannie, as duas são do mesmo comprimento, vês?
A Jennie arregalou os olhos. Olhou para nós e depois para a outra. Lentamente, sentou-se. Correu as mãos para cima e para baixo da barriga da perna e sobre os tornozelos, tateando cuidadosamente os ossos do pé e depois voltando até ao joelho. Ela repetiu várias vezes esses gestos como se não pudesse acreditar naquilo que podia ver e sentir. Estava calada, intrigada. Evidentemente, em nenhum momento lhe ocorreu a ideia de tentar ficar de pé. O hábito era ainda muito forte. Ficou apenas sentada ali a seguram as duas pernas e a olhar fixamente para os pés. Um pouco de pois, ergueu os olhos para nós.
“Será um milagre?” perguntou, uma voz cheia de reverência
“Podes chamar isso de milagre,” respondeu a Madre, e o sorriso que iluminou o seu rosto foi verdadeiramente lindo.
A Jeannie ficou em silêncio, a ponderar nisso.
“A senhora é a Virgem Maria? Perguntou por fim.
“Não, minha querida, eu não sou a Virgem Maria.”
“Parece-se com Ela,” e fez-me pensar no quanto era adorável aquele rosto sob o véu modesto. “E Ela faz milagres.”
A Madre Florence sorriu. “Vamos supor que te levantas e que ficas de pé,” sugeriu.
“Sem as minhas muletas?”
“Sim, tenta.”
“Vai doer?”
“Não. Você não sentirá qualquer dor. Nunca voltará a sofrer aquela dor de antigamente, Jeannie.
“A senhora promete? É verdade que não vou?”
De repente Jeannie pegou na minha mão e agarrou-se a ela.
“Eu prometo,” dissemos nós as duas. Ela fez um aceno de assentimento. Era evidente que não tinha certeza se podia confiar em nós.
“Não vai tentar ficar de pé?” perguntou Madre Florence, mais uma vez. A menina não respondeu, mas deixou que eu erguesse as suas pernas e as colocasse assentes no chão. Nós as duas erguemos o seu pequenino corpo e, lentamente, fizemos com que ela ficasse de pé. Jeannie hesitou e cambaleou, com um terrível medo de confiar naquela perna, antes aleijada. Depois de algum tempo de espera, ela firmou o pé no chão, mas ainda agarrada no apoio que lhe estendíamos. Lentamente, a sua expressão mudou. Surpresa, incredulidade, crença, júbilo, espelharam-se por todo o seu rosto. Largou o nosso suporte e ficou de pé, ereta, a equilibrar-se nos dois pés. Moveu-se mesmo para a frente, dando alguns passos.
“É verdade. É verdade. É um milagre!”
Subitamente, dominada por este grande jubiloso despertar, ela recuou e caiu na cama onde irrompeu em soluços de pura felicidade.
“Vou tornar a andar,” exclamou a chorar. “Estou curada. Sou igual às outras meninas!” Com os olhos nublados ela lançou-me um olhar que implorava piedade. “A menos que eu esteja a sonhar…”
“Tu estás curada, Jeannie,” insisti, “e isto não é um sonho. É verdade.”
A menina sorriu. Era óbvio que tudo isto tinha sido um grande esforço. Ela estava a ficar cansada. Precisava repousar. Com frequência, o nosso primeiro retorno para a consciência, depois da transição, é esmagador e este não era excepção.
“Então, se isto é verdade… devemos dizer uma oração… uma agradecimento… uma Ave Maria.”
A Madre Florence curvou-se sobre a menina.
“Gostarias que todos nós agradecêssemos a Deis contigo?” perguntou docemente. A criança assentiu. Fechou os olhos. Juntas, murmuramos suavemente a Oração de Graças. Enquanto rezávamos, a Jeannie mergulhou de volta ao estado passivo em que ficam os recém-despertados para esta nova consciência. Portanto, deixamos que ela descansasse.

Jeannie foi minha companhia constante. Saíamos para dr longos passeios juntas; competíamos uma com a outra na descoberta das flores mais lindas; corríamos de mãos dadas, descendo as longas encostas das colinas, e era uma alegria observar a criança. Ela dançava, girava e rodopiava tão leve quanto uma borboleta. Corria de flor para flor: saltava, cantava e ria de pura alegria.

Descobri que ela possui uma mente bem desenvolvida. Os anos de doença, os repousos forçados e os consequentes períodos de leitura e reflexão talvez lhe tenham desenvolvido um estrato de pensamento mais profundo do que se costuma verificar nas crianças da sua idade. Ela apresenta uma inclinação filosófica e uma sabedoria que é surpreendente em alguém tão jovem.

Eu referi “jovem?” A alma dela não é jovem. Creio que posso julgar que é uma alma evoluída. El aparece “saber” muitas coisas, mesmo que não lhe tivessem sido contadas. Recordo a sua maneira de aceitar a morte, solene e naturalmente. Na realidade, ninguém lhe disse nada sobre esta transição. Deixaram que repousasse até se encontrar preparada para mover-se. Então, caminhou pelos jardins desta linda casa, até satisfazer os desejos do seu coração. Naturalmente, foi cuidadosamente “protegida” dos nossos pacientes “doentes.”
Encontrei-a no meu jardim.
“Queres ver as minhas flores’ perguntei. Ela sacudiu negativamente a cabeça.
“Vim ver a senhora, irmã.” Houve uma pausa. Fixou os olhos em mim com franca sinceridade. “Acabo justamente de compreender uma coisa.”
Aguardei.
“Compreendi que não estou a sonhar,” disse ela, calmamente. “Estou morta.” O seu olhar sustentou o meu. “Todas nós estamos mortas. Isso é verdade, não é?”
“Sim, é verdade, Jeannie,” respondi, “mas, como podes ver, encontramo-nos realmente mais vivas do que nunca. Só que tu te libertaste do teu antigo corpo doente e encontraste um novo…”
Ela aceitou isto.
“Suponho que este lugar é… uma espécie de Céu.”
“É o começo do Céu, Jeannie.”
“A senhora quer dizer que estamos apenas de partida… Ainda não nos encontramos lá?”
“Não no Céu que tens em mente, Jeannie. Mas estamos a caminhar para lá.”
Ela ruminou aquilo. “Mas aqui e tudo tão lindo. São todos tão bondosos e… e… angelicais.”
“É mais do que certo que não somos anjos,” retruquei, e ambas rimos das minhas palavras. De súbito, ela ficou quieta.
“Nesse caso, onde está Deus?” inquiriu.
“Longe demais para que até nós mesmas possamos vê-lo. Ainda não estamos preparadas para a Sua Glória. Mas estamos todos a caminhar para a frente, a caminhar para o Seu Céu…”
“A senhora quer dizer que o Céu Dele pode ser melhor do que isto?”
“O, muito, muito melhor! Muito mais lindo e cheio de luz e de anjos. Anjos de luz…”
Jeannie sorriu para mim e ficamos ambas em silêncio enquanto a menina pensava no que eu dissera.
“Eu entendo,” concordou ela. O seu rosto iluminou-se. “Gosto disso… Anjos de Luz…”

Num outro passeio disse ela inopinadamente:” Espero que a mamãe não sinta terrivelmente a minha falta. Não creio que ela vá sentir, entende, eu estava sempre doente e depois, há os outros. Mamãe estava sempre tão ocupada!”
“Tu tinhas irmãos e irmãs?”
“Sim. Eles não eram como eu. Eles tinham saúde.” Durante um momento, ela ficou ocupada com graves ponderações. “Apesar de tudo, eu gostava de falar com a mamãe. Posso?”
“Faremos uma tentativa, Jeannie. Mas não é fácil alcançar a tua mãe. Entende, aqueles que conseguem “ouvir-nos” na Terra, precisam ter desenvolvido um “telefone” interior.” “Não creio que a mamãe tivesse um telefone interior. Nós tínhamos um “telefone”, é claro, um telefone comum, e eu gostava de falar ele.”
Durante algum tempo nós as duas ficamos a observar um raio de Luz que parecia brilhar além do lugar onde estávamos sentadas.
“Eu gostaria de ver a mamãe outra vez… e saber o que ela está a fazer. Posso?”
“Podemos tentar,” respondi, relembrando as minhas próprias experiências nos serviços religiosos em memória de mim. “Dizes-me a aparência que a tua mãe tinha, da tua casa, dos teus irmãos e irmãs, e eu verei se podemos criar uma imagem…”
“E nós podemos “descer” através dessa imagem, é isso?”
Ela compreendera rapidamente este novo “jogo.”
“Sim, é isso mesmo.”
Tentamos. A menina descreveu o seu pai, a sua mãe, a sua família, o lar que tinha tido na Terra. Fiz o melhor que pude para me concentrar e “projectar” nós as duas dentro da imagem. Ficamos em silêncio por tanto tempo que imaginei se Jeannie tinha realmente “encontrado” a sua família. Ela encontrava-se deitada sobre a relva, a meu lado, com uma expressão absorta e expectante, no rosto. Finalmente, suspirou.
“Não consigo ver mamãe… mas sinto estar perto dela… creio que ela sabe. Estou a tentar contar-lhe que as minhas duas pernas estão do mesmo comprimento e que agora posso andar e correr.
“Oh, eu quero que ela saiba disso, Irmã. A senhora acha que ela sabe?”
“Estou certa de que ela terá uma impressão interior a respeito disso, Jeannie.”
“Mamãe não se está a sentir infeliz por minha causa… não de verdade,” prosseguiu a criança. “Sinto que ela sabe que eu estou no Céu e está contente com isso. Eu estou mesmo, não estou?”
Que poderia eu responder?
“Querida, você está muito perto do Céu,” disse eu. Estava grata por essa explicação ter sido colocada na minha consciência.
“Suponho que esta é a Vida Eterna, não?” insistiu ela. Tive que pensar antes de responder.
“Nós sempre estivemos na Vida Eterna, Jeannie, até mesmo quando na Terra. A nossa alma, o nosso verdadeiro Eu, sempre viveu de experiência para experiência. Isto é somente uma outra parte da experiência.”
Ela aceitou as minhas palavras com muita seriedade.
“E o céu, será uma outra experiência?”
“Creio que haverá muitas experiências, minha querida, até mesmo depois de alcançarmos o Céu. “A senhora quer dizer, onde Deus está?”
Fiz um gesto de assentimento. “Sim, essa deve ser a mais gloriosa das Esferas.
Depois de alguns instantes a menina disse: “Eu nunca fui muito à Igreja nem à Catequese. Eu não podia, é claro, e os meus pais não eram muito religiosos. Mas nos hospitais, as freiras costumavam conversar comigo. Elas contaram-me histórias sobre Jesus e os Santos. A senhora acredita nos Santos, não é, Irmã?”
“Naturalmente. Eles são os Sábios, os Grandes Seres, e eles têm comunicação com a Hoste Angélica.”
“A senhora acha que alguma vez poderei vê-Los?”
Tive vontade de lançar uma bênção sobre esta alma doce e inocente.
“Sim, tu irás vê-los, Jennie.”
“E a Hoste Angélica… os Anjos de Luz?”
Fiz um aceno afirmativo. “E a Hoste Angélica,” concordei. (Muito provavelmente antes que eu consiga – pensei para comigo mesma).
A menina disse serenamente: “Espero que sim; a senhora vê, quando eu me encontrava no hospital eu costumava pedir à Irmã Terezinha para fazer com que a minha perna crescesse até ficar do comprimento da outra. Estou certa de que ela me terá ouvido… Talvez algum dia eu possa vê-la… Vê-la de verdade.
“Talvez,” disse eu.

Recordo claramente a visita que a menina fez ao meu jardim, um pouco antes de nos deixar. Nessa ocasião exclamou: A Madre Florence disse que quando eu me encontrar preparada irei para os Salões da Beleza… que ficam noutra parte do Céu… Ela diz que ali eu irei ver os maiores dançarinos de todo o mundo, bailarinos gregos, bailarinos hindus, Pavlova e Nijinski e, oh, muitos e muitos outros” Ela diz que eu vou aprender a dançar, quer dizer dançar de verdade, e que me vou poder juntar a esses outros bailarinos nos granes Festivais de Dança. A senhora acredita nisso, Irmã?
“A Madre Florence sabe muito mais do que eu, acerca das Esferas,” concordei. A menina fez piroetas subindo e descendo, nas pontas dos pés, diante do meu canteiro de flores.
“Oh, vai ser adorável! Vou trabalhar muito e vou ser boa. Para ficar logo preparada, quero dizer. Naturalmente, vou sentir falta da senhora, da Irmã Hilda e de Madre Florence, e de todo mundo, mas quero tanto ir. Devo partir logo. A senhora vê,” ela parou de dançar, aquietou-se e fiou imóvel diante de mim. “A senhora vê, tenho que dançar com perfeição antes de…” e ela calou-se.
“Antes do quê, minha querida?”
A menina girou o corpo para que eu não pudesse olhar para o seu rosto.
“Antes de voltar ara a Terra de novo… para ser realmente uma bailarina.”
Fiquei em silêncio durante algum tempo, esmagada pela sabedoria desta criança.
“Quem disse que você iria retornar à Terra?” perguntei, finamente. Ela ainda evitou mostrar-me o rosto.
“Foi o Anjo,” contou-me a menina. “Ele veio quando eu estava a repousar. E ele disse-me…” Jeannie voltou-se e encarou-me com solenidade. “A senhora sabe, eu acho que ele era o meu Anjo. Foi como se eu já o tivesse conhecido antes.”
Que resposta dar a isto? Eu, que me tinha devotado à vida religiosa, estava a receber as respostas da boca desta criancinha. Senti-me realmente muito humilde.

Jeannie recuperou rapidamente da surpresa da sua transição. Ajustou-se a esta nova vida com toda a flexibilidade de uma natureza infantil livre de vícios. Para ela tudo foi uma revelação. Sempre a recordarei como uma alma feliz, dançarina. Alguém do Grupo da Beleza, do Plano de Deus.
Ela deixou-nos de uma forma muito serena. Num instante encontrava-se aqui a rir e a dançar, a tagarelar em meio a todas nós. Depois, tomamos consciência de um Ser que se encontrava imóvel, além da sombra das árvores: Um homem de Luz, alto, gracioso, com os membros admiráveis de um bailarino. Parado na Luz, ele estendeu a mão.
“Vem, Jeannie,” disse. Imediatamente a menina correu para ele. Depois, virou-se para nós, com o rosto transfigurado pela alegria.
“É o Mensageiro,” gritou ela. “Não é maravilhoso? É maravilhoso!”
Fez-nos um aceno a todas. “Obrigado pelo que fizeram por mim. Obrigado por me ajudarem a ficar boa. Agora poderei dançar de verdade. Alguma vez me virão ver no lindo Lugar? Virão?” Com absoluta confiança, a menina colocou a sua mão na mão do Mensageiro. “Adeus!”

Os dois caminharam juntos, descendo as longas encostas iluminadas pelo sol, e a Luz do Mensageiro parecia até mesmo mais brilhante do que a Luz que cintilava sobre os nossos jardins. Depois, ambos desapareceram… e eu, da minha parte, senti que tínhamos devolvido um raio de luz um raio de luz para o Grande Sol Criativo.

Sinto falta da Jennie, naturalmente. Em virtude da fina qualidade da sua natureza, aquela criança ensinou-me muito. A beleza enquanto beleza, nas artes criativas da dança e do movimento, achara-se por completo ausente da minha vida terrena. Agora podia compreender o quanto tinha perdido. Porquanto a Beleza, certamente, constitui um atributo de Deus…e a arte da dança representa uma manifestação desse atributo.

Espero que alguma vez eu possa ver a Jennie nos Festivais do seu Salão da Beleza. Será um momento grandioso e comovente.

17 de Fevereiro – continuação

Quando estava na comunidade passei alguns períodos nos sertões da África do Sul, a realizar trabalho missionário. Lembro-me de lhe ter contado das viagens que fiz por estradas acidentadas, sobre a nossa velha mula, com o seu passo lento e sacudido e sobre a cabana pequena e engraçada, onde eu ficava “hospedada” durante as minhas visitas.

Pois bem, com a permissão de Madre Florence tive licença para a acompanhar, e algumas outras Irmãs, no trabalho missionário que elas realizam na Terra das Sombras. Este é uma experiência salutar. Foi-me especialmente recomendado que lhe narrasse uma triste aventura, para que possa ser incluída no livro. Isto, por ela poder vir a ser útil no esclarecimento das ideias ilusórias, com respeito aos estados de Céu e Inferno, que têm sido alimentadas durante séculos.

Existem Céus… eu mesma posso dar testemunho do pequeno céu de beleza, tranquilidade e trabalho amoroso com o qual tive a felicidade de assumir um compromisso aqui. Contudo, mais além existem Esferas de júbilo e de Beleza inconcebíveis… que se estruturam e expandem além de cada estado de desenvolvimento… e que se encaminham directamente, creio eu, para os Mundos Espirituais do Pensamento Divino, muitos distantes de qualquer concepção que possamos ter sobre eles. É deste modo que a alma evolui rumo a estas esferas de Perfeição, e nos sentimos confiantes ao compreendermos que temos toda a Eternidade para empreender essa jornada para a frente e “para cima.”

Todavia também existem “infernos,” embora certamente diferentes dos infernos físicos e dos tormentos causticantes e eternos da imaginação deformada do homem. Existe o inferno do espírito e da mente, estados de aprisionamento pelo sofrimento; tenebrosos, depressivos e tão reais quanto pode torna-los a consciência torturada daquele que neles habitam. Contudo, tais “infernos” não são eternos. O homem (ou mulher9 que se encontra nestes estados mentais não precisa ficar ali por mais tempo do que aquele que o seu desejo o mantém neles. Ele é livre de combater os ódios, as crueldades e os apetites da sua natureza inferior, que tenha conservado da sua vida terrena e que o estejam a manter ali, em masmorras sombrias e entre habitantes de idêntica mentalidade. Ele pode preferir seguir a Luz do Amor, do Perdão e da Harmonia, e lá sempre haverá almas prontas a ajudá-lo, a guiá-lo, a confortá-lo e a prestar-lhe assistência.

Alma nenhuma é deixada sem conforto, a menos que ela queira.

Isto soa a paradoxo., porém, acontece que muito daquilo que aqui aprendemos, difere ao extremo dos ensinamentos do homem, até mesmo dos homens bons, limitados como são nas ideias que têm. A existência na Terra constitui um estado de vida num mundo de pensamento, ilusório, muito restrito e fechado pela fascinante teia da matéria. Além da morte física o mundo do pensamento é mais nítido e, por certo, muito mais potente nos seus efeitos. Nesse plano de matéria astral, do mesmo modo que na Terra, a Lei ainda representa Causa e Efeito. Entendo que essa Lei só possa ser superada quando a alma prossegue avançando na sua evolução para Reinos mais Elevados, quando outras leis mais elevadas precisam ser obedecidas. Mas, voltemos à minha missão.

Madre Florence, duas outras irmãs e eu fizemos a nossa viagem para o interior daquilo que você chamaria Região dos Mortos. Aqui nós preferimos chamá-la de Terra das Sombras, por realmente ser uma Terra de Sombras. A viagem para esse lugar é difícil e exaustiva, por precisarmos “diminuir as nossas vibrações,” por meio do poder do pensamento concentrado, a fim de ficarmos em condições de suportar as condições físicas ali existentes. As Irmãs nunca lá vão sem a companhia de Mensageiros especiais, que as orientam e as conduzem para as várias Estações situadas no caminho.

A terra das Sombras é um lugar muito real, real de facto: é coberta por uma densa obscuridade, à qual precisamos acostumar-nos: há moradias sórdidas, habitadas por seres infelizes e atormentados, que escarnecem, zombam e prosseguem nas suas existências pervertidas. Algumas vezes essas almas vivem no ódio e na revolta, outras vezes na apatia: e às vezes na negativa furiosa de que possa existir qualquer outra condição de existência.

Devo, porém, contar-lhe sobre o pintor que conheci: um artista que vive num “quartinho” horroroso, numa rua escura e cheia de curvas, na Terra das Sombras, mas que apesar de tudo ainda abriga, na sua alma, algumas recordações da beleza. Na Terra ele fora um francês, um pintor de futuro, que desperdiçou o dom que Deus lhe confiara. Passou a sua vida numa turbulenta indolência, entregando-se à bebida e aos entorpecentes, até que ficou reduzido a um vagabundo das sarjetas. Eventualmente, envolveu-se numa rixa nocturna, durante a qual matou um companheiro seu, um artista, tendo ele próprio recebido um ferimento de faca, do qual depois veio a morrer.

Devo ter-me separado das outras componentes do nosso pequeno grupo, por me ter encontrado sozinha nesta rua estreita, de calçamento irregular e calçadas acanhadas, entre as moradias. No lance do passeio de uma esquina, sentado diante de um cavalete, estava o pintor, ocupado em esparramar cores oleosas sobre a sua tela. Era baixo e atarracado, tinha um monte de cabelos negros a cair-lhe desordenadamente sobre o rosto e parecia estar a usar um macacão cinza, muito sujo. Parei a observar o seu trabalho e ele ergueu os olhos e fez uma carranca na minha direcção. Notei que a pintura era monótona e destituída de inspiração. Consistia em grandes manchas informes, que eu concluí terem a intenção de representar os companheiros deste homem. Aquelas massas tinham uma aparência bastante lúgubre e eram todas de tonalidades sombrias e sem nuances. Quando não tinha mais a atenção voltada para mim, perguntei: “Este é o seu estúdio? Pode dar-me licença para ver as suas outras telas?

Ele voltou a fazer uma carranca, mas fez um movimento espasmódico com a cabeça em direcção a uma porta aberta, próxima dali, num gesto que tomei como um consentimento. Entrei no quarto atravancado. Aquele lugar era um alpendre pequeno e escuro, com apenas uma vidraça que se encontrava por demais suja para deixar passar qualquer coisa para além de uma débil penumbra. As paredes encontravam-se repletas de telas. No princípio fiquei tão enojada por causa do cheiro forte e penetrante que o quarto exalava que não tive condições de fazer coisa alguma. Quando, porém, me acostumei aos odores, pude dedicar a minha atenção às pinturas, e comecei a examiná-las detidamente. Eram todas iguais: todas escuras, todas horrorosas, todas primitivas e quase perversas na sua interpretação sarcasticamente hábil do carácter, e todas extraordinariamente feias. Porém, havia um traço estranho que era comum a todas. Uma porta.

Pintada no último plano de cada tela havia sempre uma porta, de cor marrom escura e sempre fechada. A porta era sempre do mesmo modelo e da mesma cor de mogno. Sempre, porém, mostrava uma leve linha de branco a contorná-la, efeito que o pintor conseguira deixando exposto um pedacinho de tela. Estudei as pinturas com grande atenção e imediatamente fiquei interessada, do ponto de vista psicológico, pois a porta estava sempre representada com as suas almofadas escuras a isolar uma sugestão de luz… Depois de um certo tempo, percebi que o pintor estava parado unto ao meu cotovelo.

“Bem,” resmungou ele, e se falou na sua língua nativa, eu compreendi perfeitamente na minha. “Então você não gostou delas.”
“São muito melancólicas,” disse eu.
Ele sacudiu os braços freneticamente. “Muito melancólicas? Desafio qualquer um a fazer qualquer outra coisa neste buraco fedorento.”
“Então, porque o senhor fica aqui?”
Ele endereçou-me um olhar furioso. “Oh, vá-se matar! Porque ficarei eu aqui? Você acha que eu ficaria se soubesse de algum meio de sair?”
Voltei-me como se pretendesse ir embora. “Existe um meio de sair,” comentei casualmente. Ele pontapeou com raiva uma tela.
“A mesma velha empalhação missionária. Já ouvi tudo isso antes. Vocês não passam de um bando de excomungados salvadores preconceituosos. E todos vocês estão a viver na ilusão, tal como eu.”
A estranheza da resposta indicava uma mente que ainda não se encontrava por completo obliterada.
“Não sou excomungada nem preconceituosa.” Mantive a minha voz tão indiferente quanto me foi possível. “Isso parece ser uma descrição de si próprio.” Ele ficou muitíssimo ofendido.
“Mas que inferno…”
“Você é um excomungado, ao viver neste lugar,” salientei. “Devo imaginar que qualquer um seria; e você é preconceituoso, por ter fechado a sua mente a qualquer outra coisa.”
“Qualquer outra coisa mais?” rugiu ele. De súbito, virou-se para me encarar de frente e disse, mudando de tom: “Mas, existirá mais alguma outra coisa?”
“Sim,” falei, cheia de confiança. “Existe.”
“Conte-me lá,” escarneceu ele.
Aquilo não ia ser fácil.
“Existem lugares aqui,” tateei cuidadosamente o caminho por entre aquilo que desejava imprimir de modo indelével nele, “onde pintores, como você, vivem e pintam as belezas naturais da região.”
“Oh!” O seu humor sofrera uma pequena modificação. “Com que então, trata-se da velha história. Sabe como é, já me contaram tudo isso antes.”
Fiz um aceno, concordando. “Não obstante, você ainda se agarra aos seus preconceitos. Ainda não quer acreditar, mesmo que lhe digam sempre a mesma coisa?”
“Como posso eu acreditar?” Lançou um olhar furioso em redor, apanhou uma tela e amarrotou-a, jogando-a de seguida a um canto. “Pergunto-lhe, como é que eu posso? Tenho estado no Inferno por tempo demais…”
“Sim – por tempo demais,” atrevi-me a interromper.
“Talvez me tenha acostumado a ele… tem sido um inferno por tempo demais. Eles trouxeram-me do hospital para cá, contudo, ainda não consegui descobrir o que foi que se passou comigo. Eu encontrava-me inconsciente, creio… e de seguida encontrei-me aqui. Ninguém parece saber porquê. Mas, de qualquer modo, eu não o perguntaria aos velhos bêbados – eles aqui não sabem coisa nenhuma. E eu também não me preocupo por saber… o que diz respeito a mim eu reservo para mim próprio…” ele dirigiu-me um sorriso malicioso.
“Madame, eu não sou do tipo que faz confissões e essa classe de coisas…”
“Então, que está você a fazer senão a confessar-me os seus preconceitos e temores?”
“Ora!”
“Sabe, vocês está a construir o seu próprio inferno.”
Ele abriu os braços num gesto eloquente. “Eu nunca fiz isto.”
“Não, realmente… apenas pelo pensamento que nutre… exactamente como os outros o fizeram.”
“Os outros que aqui se encontram? Corvos malditos! Não têm sequer uma ideia nas suas cabeças. Nem mesmo conhecem a diferença entre luz e sombra…”
“E você conhece?” Apontei, deliberadamente, para as massas de cor encardida patente nos seus quadros.
O seu gênio ruim exaltou-se no mesmo instante.
“Sim, eu sei!” rugiu. Caminhou altivo através do aposento, de volta para o cavalete; olhou ferozmente para a tela semiacabada, que nele repousava. “Diabos levem os seus olhos. Certa vez eu pude pintar. Eu digo-lhe que pintei, pintei de verdade…”
“E agora não?”
De súbito aquietou-se, e toda a sua zanga se sumira.
“Você conseguiria pintar aqui?” murmurou. Lancei um rápido olhar às moradias vulgares lá da rua, às faces contorcidas dos indivíduos que passavam lá fora, à miséria.
“Eu nem tentaria sequer.”
“Aah!”
“Porque você não procura encontrar outros lugares?” sugeri, em vista de ele não ter dito nada.
“Outros lugares?”
“Onde haja claridade e beleza.”
Enquanto meditava sobre isso, ele observou o meu rosto.
“Você conhece tais lugares?”
“Conheço.”
O pintor encolheu os ombros. “Eu? Como poderia chegar até eles? Não tenho nada, não tenho dinheiro, não tenho passagem, não tenho passe. Como poderia alguma vez chegar até tais lugares?

Eu estava a ponto de responder, quando tomei consciência de Madre Florence, parada ao nosso lado. Eu tinha estado tão absorvida que esquecera as outras com quem tinha feito a viagem rumo a estes infernos do pensamento.
“Procurando por eles,” interpôs Madre Florence, com muita doçura. “Pedindo para ser conduzido a esses lugares de luz.”
Ele olhou fixamente para Madre Florence. Como uma nuvem escura, a descrença e a desconfiança postaram-se ao seu redor.
“Vocês têm certeza de que tais lugares existem?” perguntou, agora porém, com uma penosa expectativa na sua atitude.
“Ah, sim!” respondemos nós as duas, e eu alimentei a esperança de que a minha voz não tivesse demonstrado um açodamento exagerado. “Nós os conhecemos.”
“Mas eu não tenho senha de ingressão.”
“Você tem,” recordou-lhe a Madre Florence, com o seu modo suave. “Você tem o pensamento.”
“O pensamento? E daí?”
“Pense na luz,” disse ela. “Pinte luz nos seus quadros.”
No mesmo instante ele ficou exasperado devido à nossa aparente estupidez. “Como poderei pintar luz?” bradou ele, “quando não tenho as cores… as cores claras?”
“Você sempre pode consegui-las. Um dos auxiliares dar-lhe-á as cores claras,” respondeu Madre Florence, calmamente. “Espere, vou chamar um agora mesmo.”
Imediatamente, um homem jovem, usando uma batina marrom surgiu junto a nós.
“O nosso amigo artista,” Indicou a Madre Florence ao pintor, “precisa de cores mais puras. Ele deseja pintar luz nos seus quadros…”
O sorriso do irmão foi de alegria.
“Esplêndido. Venha, meu amigo. Arranjar-lhe-ei novos tubos de tinta. Faremos com que possa pintar a Luz. Venha…”
Encolhendo os ombros um gesto de espanto ante estes estranhos acontecimentos, o pintor virou-se e seguiu a figura de toga. Ficamos a observar os dois a caminharem juntos, a subir em direcção a uma colina onde uma flecha de luz riscava a escuridão. O sorriso de Madre Florence foi absolutamente lindo.
“Ele está no caminho, irmã,” disse ela, sacudindo a cabeça num gesto característico, que sempre demonstrava o contentamento que sentia. Com serena certeza, afirmou: “Ele conseguirá… Ele conseguirá!”

19 de Fevereiro

Estou a encontrar a paz. Encontro-me em paz. Acho-me incorporada nesta atmosfera de paz. Encontrei tranquilidade numa medida tal que me encontro em condições de a aceitar e apreciar. Já não preciso esforçar-me nem lutar conforme fiz na vida terrena. Lá, sempre trabalhei duro. Lutei. Batalhei tentando avançar. Segui cada canal, cada trilha que parecia conduzir àquela "brecha” do espírito pela qual a minha alma ansiava tão profundamente. Obedeci os preceitos, segui as doutrinas, estudei e examinei todas as teorias que poderiam “explicar” o espírito: dirigi-me a mim própria com o látego de uma vontade de ferro; li, absorvi e digeri as ciências (assim chamadas) da mente humana e das suas reacções aos estímulos, assim com também da psique humana e a sua tentativa de se alongar para a frente, para a revelação. Tudo isto – segundo acreditei – com um enorme propósito de iluminação. Sempre lutei para encontrar a “brecha” que conduzia ao espírito, à união com a alma, ao contacto com as Grandes Forças – e a esperança, a glória, a bem-aventurança de uma “passagem” para o espírito estavam sempre a impulsionar-me a minha mente e a minha vontade pessoal. E agora, quando olho para trás, para a vida terrena que levei, percebo que tudo isso foi uma ilusão.

Procurei o Espírito e o Espírito estava ali o tempo todo.
“Ele veio para os Seus e os Seus não O receberam.”

Agora, enquanto descanso nesta Realidade, vejo, com tristeza, a verdade que tais palavras encerram. Eu não O reconheci. Batalhei, jejuei, procurei por aquilo que já se encontrava presente, perfeito e eterno, dentro de mim. Como a maioria de nós, na vida terrena, eu encontrava-me mergulhada na ilusão; encontrava-me perdida no fascínio. Procurei pelo Espírito, para que Ele se me revelasse, quando tudo o que precisava fazer era “relaxar em Deus.” Velado, por a visão física não poder distingui-Lo, o Espírito estava sempre comigo. O “abandono” do eu constituía o grande segredo na descoberta do Espírito. Eu, que tanto ansiara pelo toque divino, que dedicara a minha vida ao trabalho religioso, que lera as vidas dos santos para que me servissem de exemplo, que esmiuçara as ciências da psicologia, da percepção extrassensorial e de todos os fenómenos psíquicos, assim com, também, as ciências ocultas, que me negavam a vida comum, sensual e reprodutiva de um ser humano; eu que tinha tentado obedecer verdadeiramente os preceitos do Mestre, conforme relatados no Novo Testamento, não aceitara a simples Realidade destas palavras: “Vejam, Eu estou convosco sempre, até ao fim.” Eu não tinha sido capaz de me abandonar e deixar que o Espírito se incorporasse em mim. Agora, à medida que vejo os meus pensamentos, acções e aspirações a partir deste ângulo, percebo que a própria tensão gerada pela minha luta constituiu a minha desgraça, e interceptou o caminho para aquela mesma união pela qual a minha alma ansiava. Golpeei repetidamente o Véu que ocultava a face da Divindade, tentando arranca-lo por meio da minha mente e da minha vontade, mas quanto mais intenso se mostrava o meu pensamento, com maior realidade eu criava a ilusão. Porque o Véu – conforme agora percebo – foi um véu colocado por mim própria.

Luz, Realidade, Divindade… consciência que tudo penetra… encontravam-se ali para que eu as aceitasse. O progresso alcançado teria sido muito maior caso eu tivesse “abandonado” todas essas imagens humanas e deixado que o Espírito me absorvesse. Descontraia e permita que o Espírito flua através de si. Nade com a maré do Espírito. Esta é uma grande lição que eu estou aqui a aprender, à medida que revejo os meus equívocos. Agora encontro-me no Espírito… não há qualquer “brecha” para o Espírito a respeito do qual certa vez referi de forma tão loquaz. Existe apenas uma absorção gradual daquela quantidade, ou grau, do Espírito, que a abertura da alma pode aceitar. Conforme posso avaliar agora, este grau precisa ser governado pela Lei do Progresso, porquanto o Espírito nunca é limitado e somente nós, enquanto receptáculos que somos, governamos o grau de penetração.
Esta é uma lição verdadeiramente salutar.

Também estou ciente de que na minha última experiência, na minha última vida, apenas repeti antigas lutas. Nada do que aconteceu constituiu novidade. Nenhuma aventura na matéria, no exterior, jamais é inteiramente nova ou tentada pela primeira vez. Tudo já foi empreendido antes, desde o começo até ao fim, talvez centenas de vezes, embora em circunstâncias diferentes e, possivelmente, em mundos diferentes. Ainda não estou segura quanto a isso: e tudo será empreendido de novo e de novo, até que, enquanto almas, tenhamos aprendido a “conduzir a Luz” connosco, através das nossas personalidades.

O livre-arbítrio, o desenvolvimento da mente lógica, as ilusões dos sentidos, tudo isso tende a extinguir ou, pelo menos, empalidecer a Luz da Divindade. Agora percebo com mais clareza – pelo facto de não me encontrar confundida pelas ilusões – que o grande propósito da vida na matéria é o de iluminar a matéria com o Espírito. Até mesmo aqui, na minha nova vida, me tenho impacientado de um lado para o outro, à procura de aventura, de experiência, de progresso e de tudo o mais que tenho descoberto e que tenho procurado contar nesta minha narrativa. Agora, porém, eu abandono-me. Não procuro nada. Absorvo-me e sou absorvida pelo Espírito de Luz, de Amor e de Beleza.

Sei que estou a passar por uma reconstrução. A consciência está a sofrer uma expansão de modo a reconhecer e aceitar o facto de que sou uma Filha da Luz Viva, já possuidora, em consciência, de tudo quanto é necessário e que reflecte aquela porção do Espírito que a minha percepção consegue permitir. Ao meu redor, a vida prossegue ainda. O trabalho de ajudar os outros, que talvez possam afundar no pantanal das suas ilusões de superatividade, ainda me ocupa e constitui uma alegria. Já não desejo ansiosamente passar para o próximo estágio, aquele onde obterei permissão para ser uma estudante nos pátios exteriores da Universidade que aqui existe. Tal aventura gloriosa será minha quando a minha consciência se encontrar preparada para ela. Até que tal percepção esteja viva e activa em mim e até que eu tenha alcançado a protecção da profunda tranquilidade deste conhecimento, sentir-me-ei feliz por permanecer aqui e receber os benefícios desta atmosfera de amor.

Até que esta nova paz se tenha tornado uma parte integral de mim mesmas, até que todos os arrependimentos se tenham dissolvido no amor e no trabalho, até que eu tenha aprendido a descansar totalmente nesta nova consciência do Espírito, terei que permanecer onde estou. O tempo, conforme o imaginamos, aqui não tem existência. A consciência assumiu o seu lugar. Por intermédio do grau de consciência do Espírito nós podemos medir a extensão dos vários estágios do nosso progresso para a frente, e a nossa permanência neles. Para si, que ainda vive no conceito do tempo, isto poderá levar meses, anos, séculos. Para mim, agora, o estado de consciência do espírito vivo e da serenidade que tal consciência provoca na minha alma são o meu presente e o meu futuro nesta Vida Eterna.

25 de Fevereiro.

Eu mudei, contudo, não mudei. A minha mente ainda é a mesma, ávida e sedenta de conhecimentos, como era quando eu me encontrava na terceira dimensão da vida terrena, só que agora as fronteiras da revelação acham-se abertas, recebendo-me cordialmente, e avenidas de pesquisa conduzem a domínios do Espírito que nunca se tinham manifestado, nem mesmo nos meus sonhos mais ambiciosos. Até onde o meu progresso permitirá – e, creia-me, as barreiras encontram-se na nossa própria consciência – encontro-me livre para prosseguir nas minhas explorações da natureza da Eternidade. Os únicos obstáculos ao progresso advêm da nossa limitada recepção da Luz. Só posso comparar isso à transmissão da electricidade. Luz e força eléctrica mais fortes requerem uma voltagem mais elevada: e uma voltagem mais elevada requere cabos, fios condutores mais grossos. Precisamos ter desenvolvido os nossos “cabos mais grossos,” com todas as entradas unidas e “ligadas.” Com cabos de voltagem mais baixa haverá menos luz; é tão simples quanto isso.

Para a exploração que devo aguardar com confiante alegria, devo limpar as minhas linhas de todas as antigas deficiências e erros. Tenho que desenvolver mais “linhas de comunicação” dentro de mim, mais “fios de transmissão,” a fim de aumentar a voltagem. Em virtude de tais razões e antecipações, contento-me em meditar sobre os enganos do passado e ver de que modo eles poderão ser reconciliados com o Modelo: contento-me, também, em aprender lições de encarnação por intermédio das estórias daqueles que nos chegam, aqui. E com tudo isto, a vida e o trabalho que aqui tenho enchem-me de júbilo e eu estou a descobrir uma forma emocionante de me aproximar da verdade.

Sempre há quem tenha jornadeado mais além, dentro da Realidade, a quem sempre podemos recorrer em busca de conhecimento e de orientação. Há beleza na plenitude disto, há liberdade de alma, e a maravilhosa percepção de que sou a mesma, de que eu, que perdera a espontaneidade e me encontrava mascarada pelo egoísmo da personalidade, estou mudada; contudo, não estou mudada. O essencial permanece. O desnecessário está a ser extraído lentamente, de modo que fica apenas a alegria do Espírito e uma paz inabalável.

“Na Cada do meu Pai há muitas moradas…”

Este lugar de habitação temporária do Espírito constitui a “morada” a que tenho direito actualmente. Mas que alegria saber – assim como antecipar – a existência de outras moradas para estados de existência mais avançados!
Esta é a mensagem que eu desejo, ardentemente, transmitir através deste trabalho.

Depois da morte do corpo físico nós gravitamos para o lugar que nos compete; uma morada, um chalé, até mesmo um covil, conforme tivermos feito por merecer. Por conseguinte, durante o tempo em que nos encontramos encarnados no plano terreno, é essencial encarar a experiência da vida como sendo uma preparação para esta existência. Viva agora a Vida da Eternidade.

Alguém disse, certa vez: “Viva cada dia com se ele fosse o último.” Existe uma enorme sabedoria nisso, porquanto o conhecimento transformará o pensamento e a acção em positividade e realidade, fugindo ao fascínio da vida terrena e levando a encarnação para perto do Plano original, preparando desse modo a morada aqui, na Luz do Amor de cristo. Por meio da profunda compreensão desses preceitos, a comunhão com a alma com a personalidade tornar-se-á cada vez mais íntima; a possibilidade de a Persona ser um obstáculo para o padrão da lama será cada vez menor, a encarnação presente será mais valiosa e útil e o progresso da alma será muito maior.

25 de Janeiro – mais tarde

O Grupo e eu não temos conseguido estabelecer um contacto fácil com a sua mente, durante estas últimas sessões, por causa da variação que o seu padrão vibratório tem sofrido. Este factor é provocado por um estado de saúde temporariamente deficiente, do seu corpo. Lembra-se do que eu lhe disse – e do quanto você se surpreendeu e me criticou – que não conseguia meditar quando atravessava aquelas últimas e penosas semanas da minha doença física? Bem, foi verdade, e agora você pode ver, por si mesma, como a Luz parece ter-se afastado da sua companhia durante as suas próprias sensações de fraqueza e de doença. Pelo facto das entidades físicas serem tão reais para nós, na vida terrena, e porque, por enquanto, muitos de nós inda não nos encontramos suficientemente evoluídos para desprezar esta existência do corpo, vemo-nos isolados do Abastecimento Superior. As vibrações tornam-se ais lentas – fiam assentes na matéria – tornam-se mais densas e mais difíceis de penetrar.

9 de Março

Vejo que andou a ler o livro do doutor Leslie Whaterhead, “O Agnóstico Cristão.” Reparei, em particular, que parou e releu a seguinte passagem:

“A menos que consiga escapar da prisão das expressões, dos credos, e das fórmulas antiquadas, nunca ficaremos livres para descobrir as verdades muito mais gloriosas, inerentes à religião cristã.”

Como você sabe, através da história da minha vida, dediquei-me à vida religiosa e depois de passar anos a repetir esses credos e fórmulas com os meus lábios, anos durante os quais a minha vontade foi estirada e teve que se esforçar para que eu pudesse continuar a desempenhar honradamente, e com o melhor da minha capacidade, aqueles votos que fizera tão solenemente – depois de vinte e cinco anos de tal devoção à minha religião, descobri que não era capaz de continuar, por um instante que fosse.

Não que eu já não acreditasse mais em Deus, ou que não desejasse seguir o modelo de Jesus e não que duvidasse que Cristo fora a Luz do Mundo, mas porque uma nova explicação destes mistérios se filtrara na minha experiência e nos meus conhecimentos. A descoberta pessoal tinha implantado, no meu íntimo, dúvidas a respeito daqueles dogmas de fé que já há mais de vinte e cinco anos estavam a ser postos de lado como obsoletos, que eram limitados na interpretação e inexequíveis como formas de crenças modernas.

Agora, este novo Mundo, dentro do qual estou gradualmente a ser introduzida, com toda a sua beleza, claridade e libertação, posso olhar para trás com alegria pelo facto de um tal passo ter feito parte da minha experiência. Pois eu não cheguei aqui por acção de pensamentos e expectativas coloridas, por acção de obsoletas meias verdades, conforme acontece com tantas almas honestas e convencionais; não cheguei a esta nova expressão da liberdade com ideias preconcebidas acerca da sobrevivência da personalidade, assim como a respeito da possibilidade de a alma ser dissolvida, não importa quão dolorosamente.

Por fim, sinto-me grata por poder relatar que vim com a expectativa, com antecipação e com absoluta crença numa vida nova, e desse modo encontrei alegria na reunião com velhos companheiros e encontrei igualmente prazer na obediência à Lei da recompensa e do trabalho. Passei pela experiência da morte acreditando firmemente na Ressurreição, porém, não na ressurreição do corpo que me revestira na terra. Como eu poderia desejar trazer uma coisa velha e desgastada para esta Vida nova? Ou até mesmo ocupá-la de novo, em qualquer experiência futura?

Aqui eu possuo um corpo, decerto, só que ele tem uma composição muito mais refinada do que a do meu falecido corpo físico. Aqui eu tenho a mesma aparência que tinha na terra, ou, relativamente a mesma aparência, mas encontro-me livre para remodelar este corpo por meio do pensamento. Estou a iniciar aquela aventura de escapar da prisão daqueles credos que limitam a realidade da vida. Aqui habito temporariamente entre as minhas companheiras religiosas, numa comunidade inteiramente dedicada a ajudar as almas a despertar para uma liberdade muito maior, antes que elas prossigam para os “lugares” a que têm direito; e na medida em que tenho permissão para participar, estou a aprender mais e mais a respeito dos valores verdadeiros da experiência de cada alma, em todos os mundos através dos quais ela está destinada a passar na sua evolução rumo à Divindade.

Aqui não existem dogmas, não existem credos, não existem fórmulas, não há regras duras e fixas, concebidas por uma mente qualquer a fim de limitar ou restringir o progresso. Tudo é individual; contudo, em função ou pelo bem do todo; pela evolução do grupo. É um movimento para a frente e para trás, se é que me pode ser permitido usar uma expressão contraditória. Individual e colectivamente, cada alma e cada grupo move-se para a frente, para uma expansão cada vez mais, para a concepção Divina de uma Criação que não conhece limites. Ao mesmo tempo, porém, cada grupo e cada alma remete “para trás,” para o plano abaixo, as suas conquistas actuais, os frutos do seu conhecimento. Estas ideias, ideias e concepções, enquadram-se dentro do Plano ou Padrão Divino e tornam-no evidente, tanto quanto este pode ser aceite pelas almas ainda infiltradas na ilusão e no fascínio da matéria. A aceitação da crença de qualquer outra alma não empresta colorido à evolução. A alma precisa julgar por si mesma – deve construir o seu próprio progresso, deve escolher o que aceitar como a sua própria verdade. Nenhuma alma é coagida, forçada ou amarrada por credos. Se ela acreditar que este seja o seu Céu, ou inversamente, que esteja no inferno, então para ela, no seu estado de progresso, isto será isso mesmo.

Existem inúmeros Auxiliares. Mestres e Grandiosas Almas, para explicar tais erros de pensamento, mas não há regras para seguir e obedecer excepto o Divino Preceito do Amor, da Luz, da Sabedoria e da Compreensão.

Jesus disse: “Eu sou a Luz do Mundo,” e Ele, na verdade, descobriu essa Luz e pode viver n’Ela. Nós também estamos a lutar para viver nessa Luz, na medida em que ela se apresenta como verdade para nós, individualmente. Esta é a glória da religião cristã, assim como de todas as religiões; este selo interior de Divindade, existente em cada alma, quer ele se encontre ou não reduzido à cegueira e à surdez por obra do pensamento material. Os nossos “olhos interiores” são abertos, gradualmente ou com maior rapidez, para os erros dos nossos velhos padrões de pensamento e de acção. Temos permissão para marchar para tais experiências porque elas nos ajudarão a corrigir esses erros. Para alguns isso significa permanecer num determinado estado até que os efeitos dos desastres, causados pelas suas acções na vida terrena, tenham sido solucionados e o amor e a harmonia tenham curado as feridas. Para outros isso significa juntar-se a um grupo, onde as omissões e os seus pensamentos e sentimentos podem ser remediados. Para outros, ainda, há o trabalho em benefício dos seus companheiros, enquanto que para aquelas poucas e felizes almas evoluídas há o rápido progresso para outras esferas ainda mais elevadas.

A “vida em série,” de um plano para outro, de uma experiência para outra, de um grupo para outro, de uma aventura para outra, de uma compreensão parcial para a compreensão profunda, de uma separação aparente para a unidade inerente e a bem-aventurança da Divina Realidade, parece ser, para mim – e até onde já pude evoluir e tão claramente quanto a minha compreensão em desenvolvimento pode permitir – as “gloriosas verdades”, como diz o doutor Weatherhead, da religião cristã ou de qualquer outra que enfatize o aqui e o além.

11 de Março

Você não deve pensar que a comunidade na qual agora resido temporariamente seja a mesma Comunidade religiosa da qual me tornei membro quando na Terra. Muitas das irmãs há muito que estão aqui; também há outras que vieram de comunidades similares. Muitas já passaram para actividades mais importantes; outras são tão novas e tão “recentes” quanto a minha própria chegada. Estou a usar o termo “recente” de uma forma puramente metafórica, visto que a minha experiência da terra e do tempo já está a esmaecer. Parece-me ter estado aqui durante séculos. O fio cortante das emoções, que faz com que certos eventos permaneçam indelevelmente gravados a nossa memória, já está a dissolver-se na expiação dos efeitos das minhas acções. Agora começo a correlacionar a vida como um todo, de modo que os diferentes períodos se ajustam dentro do Modelo e o Modelo passa a relacionar-se com o todo. Esta Comunidade difere da Comunidade terreno no aspecto em que não existem credos, não existem restrições e não existem votos (excepto aquele da dedicação pessoal ao trabalho em benefício dos nossos companheiros) e não existem hierarquias. Todos nós trabalhamos. No pensamento e no progresso, somos individuais. Ainda realizamos cerimónias, num sentido mais amplo e mais completo, pois sempre há a necessidade da elevação da alma por meio da acção dedicada e significativa, correlacionada com o pensamento e a aspiração ardentes.

Todavia, estas “cerimónias! Não seguem o mesmo padrão prescrito na Terra. Aqui, as nossas cerimónias têm origem numa unidade essencial com a Fonte de toda a Vida, do veemente desejo de participar, de um crescimento, para cima, da Força Vital que se acha em nós, de modo a iniciar uma mescla de uns com os outros, assim como também com as Forças maiores. Aqui, e noutros ugares, tomei parte naquilo que chamamos de Cerimónia de Luz. Esta disposição do pensamento, esta concentração profunda e combinada, brota do intenso desejo de experimentar Vida e ainda mais Vida, de nos unirmos com a essência Suprema, de percebermos, tanto quanto a nossa consciência actual nos permitir, que a Vida é expansão, que Vida é apenas a ampliação das nossas percepções interiores. Tais cerimónias e festivais parecem ter o propósito de romper as barreiras que obstruem, de romper aquelas inibições remanescentes da personalidade, que circunscrevem a alma e que têm que ser conscientemente dissolvidas e descartadas antes que a Luz possa fluir e penetrar verdadeiramente. Nestes festivais dá-se uma “elevação” de Força e de Energia, melhor do que “derramamento.”

Quando tomamos o nosso lugar entre a Comunidade das Almas, cumprindo este ritual de cerimónia, temos consciência de uma suprema aceleração do ritmo, de um aumento da acção do dínamo do Espírito. Há uma nítida sensação de crescimento, o corpo parece expandir-se e tornar-se menos maciço, parece estirar-se numa nova elasticidade e numa dimensão mais etérea. A mente alça voo rumo a uma vastidão de actividade criativa, até então inexplorada. O Espírito impregna tudo com uma dinâmica elevação de consciência. Novos e vastos conceitos jorram dentro da mente. O Caminho para a frente é iluminado com uma claridade que ultrapassa toda a imaginação.

“Isto é verdade,” sussurramos, cheios de um temor carregado de veneração, porém, de regozijo. “Isto é Luz.”

Estes festivais, como sempre nas cerimónias, são acompanhados por música, numa escala mais grandiosa do que qualquer coisa executada na terra. Contudo, nunca “vi” instrumentos tais como aqueles que, na Terra, eram necessários para a produção de tais harmonias. As notas formam-se e são gorjeadas como que por certos executantes invisíveis. Não há qualquer dissonância, mas uma crescente preponderância de algum tema majestoso; a harmonia vai-se avolumando até que uma determinada nota é alcançada e mantida. Esta nota parece ser a chave, a meta, o objecto da cerimónia. Todos os movimentos, todas as vozes elevadas em uníssono, todos os sons provenientes das Esferas se unem numa experiência até à ascensão da nota correcta – mais ou menos como um coro de pássaros ao amanhecer, elevando-se gentilmente rumo ao grande finale, a garganta de cada pássaro deixando jorrar a sua contribuição para o som.

Aqui, então, quando a Nota por fim é alcançada e ressoa plenamente, ela é mantida e vibrada num tal grau de intensidade que arrebata cada alma, em harmonia. A Luz penetra na assembleia. Somos cercados pela luz, elevados, tocados, despertados. Encontramo-nos expressando a Nota, ou a tentar expressá-la, com toda a nossa mente e com todo o sentimento e intensidade que podemos atingir. Estamos a cantar – porém, não cantamos – a uma só voz, como nos coros terrenos. Estamos a catar com o organismo inteiro.

Pensamento, produção, sentimento, expressão, aspiração e exaltação unem-se num vasto esforço por capturar e sustentar aquela Nota, na consciência, viver e tornar-se a vibração daquele Raio de Luz expresso através da Nota que ressoa.

É a ascendência da Luz
É a união com os vastos Mundos do Espírito
É a impregnação da matéria com a Força Espiritual
É a luz Universal, a Luz de que Cristo falou quando disse: “Eu sou a Luz do Mundo”
É a Luz de todos os Mundos… deste mundo, do mundo físico e de todos os Mundos mais vastos e superiores
É a luz que nos penetra e se torna a essência em nós.
É Som, Harmonia e Luz em Um
Esta é a cerimónia da Luz!

Quando eu estava na Comunidade, na terra, amei a cerimónia da eucaristia. Todavia agora percebo o quanto são desbotados os festivais e as cerimónias realizados com a consciência separada da mente humana. Contudo, estas cerimónias são valiosas, por gerarem aspirações enaltecedoras. Conforme agora posso perceber, o valor da cerimónia assenta na intensidade de aplicação do participante; a intenção com que o ritual é realizado e seguido.

Na Terra tive pouco ouvido para a música. Creio que expliquei no meu livro Fronteiras da Revelação, que todas as minhas impressões de outros “estados” foram visuais. Raramente “ouvi”. Com maior frequência vi ou tive percepção das vibrações que rodeavam os corpos físicos dos que me acompanhavam. Aqui estou a aprender a desenvolver ambos, o Olho e o ouvido da Luz… e a ver a Luz, assim como também a ouvir as vibrações das diferentes frequências de luz

14 de Março

Talvez a mudança mais importante que me aconteceu no período desde que deixei a Terra, seja o aprofundamento e a comprovação da vida “por capítulos” que todos nós levamos. É como se eu tivesse simplesmente terminado um capítulo, abandonado a minha caneta, fechado o livro e adormecido, por simples exaustão… Agora estou desperta, revigorada e alerta, e comecei, de imediato, a escrever um novo capítulo – ou talvez isto represente todo um livro novo, uma dimensão diferente. Não importa se isto é um novo livro ou somente um novo capítulo. Ainda é uma continuidade, uma consequência de tudo quanto foi confiado à memória na última história. Existe um fio de continuidade, definido. Encontramos velhos amigos, companheiros leais e antigos Mestres. Através de conversações e comunhões com eles, e ouvindo as suas histórias, as partes esquecidas das nossas próprias experiências retornam à memória e o modelo é novamente construído.

Não que o modelo da vida em série jamais tivesse ficado totalmente perdido. Como actriz principal do meu próprio drama particular, eu ficara tão imersa, por assim dizer, no último acto, ou capítulo, que os incidentes, tragédias e lições das cenas anteriores, tinham mostrado a tendência de tornar-se cada vez mais nebulosos. Mas agora estou a começar, lenta e laboriosamente, a reunir estas cenas num todo, no esforço de descobrir a sequência da vida. Através do confronto com os seus coautores, muitos dos incidentes que tinham sido irregularmente entalhados na minha memória, e que desde muito tempo tinham ficado obscurecidos na minha consciência, surgiram diante de mim como um choque. Poderia ter sido assim que eu pensei, falei, agi? Que grande semelhança existe em todas as acções; contudo, como elas são diferentes! A Essência é firme e serena; a personalidade é mutável e esquiva. Enquanto medito sobre alguma recordação que me vem com um relâmpago, sobre alguma coisa enfiada na corrente de experiências, tanto neste plano como no plano terreno ou em qualquer outro, o Diagrama desenrola-se – apenas parcialmente, é claro – diante do meu olhar fascinado. Abandonei esta grande oportunidade? Reagi de uma forma tão pueril? Não aprendi a dar ouvidos àqueles vagos clarões de memória, que me dirigiram a sua voz de vez em quando, durante todas as experiências que o pensamento “separatista” frequentemente transformou em travessuras? Tinha eu mergulhado tão fundo na matéria que esquecera lições já aprendidas, filosofias tantas vezes confirmadas como Reais, para a minha mente?

De facto, devo ter feito tudo isso. As comparações enchem-me de consternação. Posso dar um exemplo?

Tive a maravilhosa iluminação de ser temporariamente transportada pelo pensamento para um Plano onde estive em contacto com uma Grande Alma, um Sábio, um Ser Evoluído, um Mestre de Sabedoria que é um dos que fazem parte da Companhia Divina. A sua face resplandeceu como um relâmpago, tornando-se visível para mim. Eu o reconheci. Não houve necessidade de falar.

De acordo com a maneira desta nova dimensão, à qual me estou a acostumar, compreendi, em silêncio, tudo o que me comunicava. Foi como se as minhas jornadas se desenrolassem diante de mim, numa tela cheia de cor e movimento, porém, sem sons. Eu estava hipnotizada e às vezes jubilosa ou triste, orgulhosa ou envergonhada. Contudo, em nenhum momento Ele pronunciou uma palavra de censura. Sorriu com infinita compreensão quando, uma vez mais – só que agora numa escala muito mais vasta e detalhada – a Fotocópia mostrou, com marcas definidas, os pequenos triunfos e, também, os fracassos das minhas diligências.

“Eu sou, eu fui, eu sempre serei” – lembro-me de ter pensado. Como que em resposta ei O vi – em breves lampejos – conforme Ele era quando eu tinha entrado em contacto com Ele nos meus vários de Existência: pois Ele desempenhara um papel em muitas experiências, sempre como o Irmão, o Mentor, o Inspirador.
“E eu não O reconheci,” pensei, com tristeza. “Não me lembrei dele.”
Quando tornei a olhar para Ele, vi que o seu Rosto era o Rosto do Amor infinito e ilimitado. No meu ouvido “interior”, soaram as palavras: “E nem eu te condenei…” Fui banhada por um novo júbilo, uma grande esperança e uma profunda força de consciência. Fiquei tão comovida que dei por mim a chorar interiormente. E quando me recobrei, a visão desaparecera e eu estava de novo no meu jardim, a contemplar a glória da Vida Eterna e o Caminho de possibilidades infindáveis.
Madre Florence encontrava-se a meu lado.
“A senhora sabia de tudo isso?” perguntei.
“Quando me encontrava no corpo terreno, eu também esqueci,” respondeu ela, com sua habitual suavidade.
“Mas a senhora realizou tanto,” insisti.
“Também falhei.”
“A senhora também O viu? Perguntei.
O Seu rosto estava radiante. “Conheci outros iguais a Ele, quando tive permissão para visitar Planos Superiores.”
“Conheceu-Os? Exclamei, maravilhada; e quase que numa censura, acrescentei: “E preferiu ficar aqui?”
“Preferi.” Ela meditou sobre isso. “Tenho um dever, querida Irmã, e tenho a minha expiação, que também é escolha minha Além do mais,” explicou, “não creio que pudesse suportar, por muito tempo, a intensa Luz e Glória desses Planos mais Elevados. A minha alma ainda não se encontra suficientemente forte.”
Fiquei em silêncio Sem qualquer sinal de reprovação, tinham-me feito perceber uma falha me mim mesma. Quanto eu precisava aprender! Quão divina é a verdadeira humildade!
Mas “nem eu te condenei.”
As palavras ecoam na minha mente como um botão de flor que surgia cheio de grandiosas promessas. O Caminho é eterno. As nossas pequeninas mentes são iluminadas e confortadas pelo conhecimento de que a “vida em capítulos” é um projecto maravilhosamente bondoso, que a Compaixão Divina elaborou para cada um de nós. Na medida em que tivermos procurado realizar em outras consciências, outros estados do Ser, assim teremos permissão para prosseguir, capítulo por capítulo, série por série, livro por livro, para crescer em sabedoria e em beleza dentro daquela imagem tão gloriosamente representada, aquela da Imagem Divina. Até mesmo a contemplação de tal progresso, num esquema de coisas infinitamente distante, enche-me de esperanças, de serenidade e de tranquila aceitação.

SOBRE O CONCEITO DE ALMA-GRUPO

25 Março de 1966

...Mencionei que falaria a respeito dos Grupos e de um assunto que foi muito caro aos nossos corações quando me encontrei encarnada - o da Alma-Grupo.

Nada daquilo que aqui aconteceu ou do que me foi mostrado nas ocorrências da minha vida aqui, na Eternidade, provocou qualquer mudança na crença que tinha no Trabalho de Grupo e na evidência dos Grupos de Alma... ou se preferir que o expresse de outro modo, nos grupos de alma que se unem para construir uma Alma-Grupo. Estou perfeitamente ciente de que este conceito não se harmonizará com a maior parte da teologia das Igrejas cristãs estabelecidas, nem será aceite por muitas pessoas, devido à ideia inerente, cultivada, da importância individual do homem: por outras palavras, as pessoas fazem objecção ao facto de constituírem somente uma célula, conforme a expressão que utilizam, num enorme aglomerado de células, uma alma num grupo formado por almas. Contudo, qual será a razão de tal objecção? A natureza inteira expressa a unidade do Plano de Vida: as plantas, os animais, os minerais pertencem a diferentes famílias e reagem, de maneira uniforme, a padrões prescritos. O ser humano deveria ser, pois, diferente?

Desde que a minha vida aqui teve início, meus olhos têm sido abertos para Verdades nobres e sábias inerentes e esses conceitos de Grupos. E pelo facto de agora o mundo estar a entrar numa nova Era, dotada de novas concepções, esta questão dos Grupos de Almas virá a ser cada vez mais postulada, até mesmo por aqueles que agora preferem ver um motivo de orgulho no isolamento das unidades.

Conforme se torna aparente ao meu conhecimento limitado, nós todos somos membros não apenas de um Grupo, mas de muitos; e esses muitos formam o Grande Grupo, ou Grande Alma Ser, no qual vivemos, nos movemos, e temos o nosso ser... E esses grandes seres unem-se para formar outros grandes Grupos Alma, ou Seres Divinos, na Divina Companhia Celestial. Talvez a princípio este represente um conceito de difícil aceitação, mas procurarei fraccioná-lo para quantos se interessarem por ler estas ideias.

1 - Antes de mais, pertencemos a um Grupo-Família. Nascemos e casamos dentro de Grupos-Família mais convenientes ao tipo de experiências e de lições que, enquanto almas encarnadas necessitamos. Muitas pessoas não se distanciam muito dos Grupos-Família ou Tribos (nas nações menos refinadas.) A Alma do Grupo-Família é a mais importante nas suas vidas. Essas pessoas são as que poderíamos dizer que se apegam às traições do seu clã. Naturalmente que, quando aqui chegam, depois da morte do corpo físico, são transferidas para aquele Grupo-Família a fim de aí dar prosseguimento às lições e experiências da vida terrena e desenvolver harmonia e felicidade. Elas não são obrigadas a deixar o Grupo até que se encontrem preparadas e dispostas a passar para o Grupo seguinte, maior, ao qual também pertencem sem que disso tenham conhecimento. Este primeiro Grupo é o mais simples, e muitas almas permanecem nele por um longo espaço de tempo sob a jubilosa orientação e protecção deste Grupo-Ser.

2 - Os grupos seguintes são os Grupos de interesse, de apaixonada ligação com as artes, a música, a educação, as ciências sociais e o serviço social. Estes grupos são maiores e mais vastos, entendendo-se por entre famílias e indivíduos para formar grupos menores. Tais grupos serão os dos músicos, dos artistas, dos profetas, dos oradores, dos escritores, dos doutores, dos filósofos e dos cientistas que já tenham passado pelo Grupo de Trabalho e tenham sido promovidos. O seu interesse apaixonado naturalmente será parte da vida da sua alma e eles serão promovidos para grupos tais onde possam continuar os seus estudos e as suas realizações. Às vezes, Grupos-Família acham-se incluídos nesses grupos maiores e então ambos adaptam-se um ao outro e fundem-se. Por outras palavras, esses Grupos-Família serão como células dentro dos Grupos mais Elevados.

Quando as almas aqui chegam e após terem "limpo a casa receptora," são primeiro transferidas para a Família e depois, mais tarde, (caso a família não pertença a grupos mentais semelhantes) para o Grupo Especial do seu interesse, mais ou menos semelhante ao processo de "passarem pela alfândega," na terra, logo que chegam a um outro país, para posteriormente se reunirem à família que aguarda a vossa chegada, passando, mais tarde, para o local onde se encontram os vossos associados em assuntos de negócios, intelectuais ou artísticos. Esses grupos harmonizam-se entre si, ou fazem parte de algum outro, exactamente como o dedo faz parte da mão, e esta por sua vez é parte do braço e o braço é parte do corpo.

3 - O grau dos grupos seguintes situa-se num nível mais elevado e nem sempre é atingido pelas almas que desejam um rápido retorno às condições terrenas. No humilde estágio em que me encontro agora no meu primeiro grupo (Aquele de participação e trabalho, tal como na Comunidade a que pertenci, na Terra) posso antecipar com imenso júbilo a possibilidade de ser incluída nesses Grupos mais evoluídos e dotados de consciência ampliada, para o que trabalho com boa vontade e alegre aquiescência.

Podemos comparar esses Grupos Evoluídos às classes adiantadas de uma universidade. Aqui os interesses e os temas de estudo ainda se acham parcialmente separados. O estudante maios adiantado é admitido nas classes de maior alcance, força e interesse. Grandiosos Seres orientam esses Grupos e observam os progressos desses seus aglomerados de almas que se assemelham a células. Operam em raios mentais de influência mais elevada, pois embora por enquanto eu saiba muito pouco a respeito desses Seres, interroguei muitas almas que entraram em contacto com eles e trabalharam no seu seio. Esses Grupos-Alma são muito extensos, mas acham-se concentrados nas suas sal de aulas e oficinas de trabalho. Pertencem, mais do que nos é possível perceber, à Divindade inerente a toda a partícula do Cosmos. Possuem a capacidade de estudar as Leis Divinas que se acham além da nossa compreensão. Comungam juntamente com e na Mente de Seres mais evoluídos, cujo Grupo-Alma, cujos Grupos-Alma eles constituem. Trabalham pelo progresso em imaginação Divina e como Grupos de Ideação Divina. Comas suas descobertas eles inspiram grupos menores, porquanto ainda contêm grupos menores dentro dos seus Centros, como unidades de células num vasto organismo, intrincado e belo.

Entre eles, acham-se filósofos e cientistas, pesquisadores, sacerdotes e mestres. Fazem parte dos grupos que influenciam e determinam movimentos na Terra, tais como Pesquisas Psíquicas, Movimentos de Cura, Cooperação Religiosa, o avanço da Ciência e todos os movimentos cuja intenção é trazer Luz aos mundos futuros...

Quando me achar preparada e a "purificação" e "despojamento" dos desejos terrenos por que passo tiverem avançado o suficiente para que possa viver numa atmosfera mais rarefeita, tenho certeza de que serei transferida e que irei residir e estudar com um desses Grupos. Então, poderei assistir às aulas, ouvir os Mestres e debater com os meus colegas numa dessas Universidades do Espírito. Então poderei tomar parte na comunhão com o Grandioso Ser Espiritual que é o Centro do Grupo. Isso, porém, ainda está por vir.

4 - Além desses Grupos devem existir outros grupos e Companhias Celestiais. Seres mais evoluídos ainda, projectos ainda mais vastos, subindo directamente até ao conceito da Divindade em Si Mesma, a respeito da qual pouco ou nada podemos imaginar.

Se aqui não fiz menção às terras das sombras, isso dever-se-á a que, na minha mente, elas pareçam ser casas de purificação onde os acessórios ilegítimos e malignos das antigas personalidades são rejeitados, postos de lado e, finalmente, desagregados. Neste determinado lugar do meu próprio progresso, encontro-me no meu grupo de "interesse", aquele da Comunidade e do trabalho, mas tenho igualmente Percepção do Grupo superior ao qual pertenço e para o qual, confio, estou a gravitar. Já entrei ligeiramente em contacto com alguns daqueles que habitam essas Esferas mais amplas, por intermédio do pensamento interior posso comunicar-me com eles e receber impressões da sua parte. A título de interesse, repetirei aquilo que já lhe transmiti antes. Estes textos estão a ser organizados e incutidos em mim por um Grupo de Almas, de modo que estou a ser usada por essas Almas com um elo telepático dirigido a si e à Terra.

Esse Grupo, pois, representa o meu estágio seguinte, pelo qual anseio com jubilosa antecipação. Farei parte da Comunidade e poderei voltar aqui sempre que o desejar, para trabalhar e repousar, mas serei igualmente absorvida num Grupo mais Elevado. Naturalmente que é sempre mais fácil recuar para um Grupo anterior do que progredir para a atmosfera de grupos de consciência mais ampla - isto até que nos encontremos completamente preparados. Por conseguinte, deverei ficar ligada a esses dois grupos, assim com também ao meu Grupo-Família, que não mencionei aqui por ser um assunto pessoal e privado.

Agora conseguirá avaliar o que significa Grupo de Trabalho e Grupo de Almas? Um grupo situa-se dentro do outro, dentro do seguinte - e o seguinte dentro do Raio de Luz mais elevado, que constitui a Vida Divina em Si - ou Deus. Tudo é progresso e nada permanece estático. A imaginação atravessa e evolui dos níveis emocional para o mental e deste para o espiritual. A Vida é um caminho isento de interrupções que se dirige para o nosso Grupo particular, para as nossas experiências individuais, para o nosso progresso, e que ruma para diante no arco da ascendência. Para mim este é um processo muito mais encorajador do que qualquer glória de um céu estático, com anjos e pavimentos dourados.

Existem Anjos, naturalmente; grandes Seres de Luz que executam a vontade do Divino Criador e que carregam e transmitem Força, Beleza e Luz. Mas eles também se acham incluídos no processo de evolução, de avanço em direcção aos seus próprios grandiosos Centros. Tudo é ordem, evolução, progresso. E tudo é unidade, Células de Vida incluídas dentro de Células de Vida, Centros dentro de Centros, Grupos dentro de Grupos, no próprio seio da Divindade.

28 de Março - Mais a Respeito dos Grupos

Eu disse que pertencemos a grupos, uns dentro dos outros, tais como grupos de família, de interesse, de trabalho absorvente, de aspiração, de credos, etc. É verdade que a Alma-Grupo ou o Espírito-Grupo é o Ser no qual os membros do Grupo vivem e se movem. por outras palavras, a Fonte de Energia e de Vida Divina da qual os Grupos retiram as suas inspirações, a sua vida e as suas intuições, emana d'Ele.

Por conseguinte, entrar em sintonia com a Vida, a Força e a Beleza de um tal Espírito-Grupo é experimentar a Força de Deus dentro da nossa própria mente e da nossa própria alma. Todas as grandes aspirações, revelações e divinos sussurros de intuição têm origem no Espírito e através do Espírito do Grupo ao qual pertencemos, ou seja, a Unidade mais elevada do Grupo. Assim pois, os sacrifícios feitos pela família, a paz da família, o amor, a harmonia, tudo tem origem na Alma-Grupo da família; do mesmo modo, as grandes aspirações de servir, de partilhar conhecimentos com os outros e de guiar e orientar os nossos companheiros provêm do Grandioso Ser Espiritual que é o Espírito-Grupo Central desse determinado Grupo.

Desde que deixei a Terra tenho recebido ensinamentos de um Mestre com quem me acho em contacto, mental e espiritualmente. Ele próprio é uma parte da Alma-Grupo existente no Grupo rumo ao qual estou a progredir e do qual tenho sido membro durante muitas eras, embora não estivesse totalmente consciente disso. Este Mestre é um Discípulo evoluído, uma alma sábia avançada, capaz de transmitir conhecimentos e sabedoria para as almas do Grupo. Aqui, o progresso alcançado é sempre recompensado com um trabalho. Por outras palavras, conforme avançamos para uma Luz maior, assim também ganhamos permissão para ensinar e orientar outros, do Grupo, que se encontram numa senda inferior. O Grupo em si é formado por almas que se encontram em todos os níveis da consciência, desde o mais elevado até ao medíocre, mas o próprio Espírito dos Grupos só avança quando os membros mais recentes e mais ignorantes conseguem progressos. É um avanço unificado. Nenhum membro do Grupo pode passar adiante da convocação e da comunicação de outros membros. Quando o Grupo em si avança para a Companhia Celestial, então não haverá "extraviados." Todavia, conforme os ensinamentos que recebi, tal experiência encontra-se muito além da percepção do Grupo, neste estágio.

Você também pertence a esse mesmo Grupo. De facto, você ficaria surpreendida ao saber das personalidades que fazem parte dos grupos menores, grupos esses que se acham todos unidos para formar o Grupo maior. Este abrange muitos outros grupos aparentemente separados.

Assim sendo, estamos realmente "um com o outro" e a mim parece-me que uma das principais lições que temos de aprender, enquanto nos achamos imersos na personalidade, é aquela da tolerância, pois, com frequência, não sabemos quem é do nosso mesmo grupo (e como haveríamos de saber se temos os olhos velados na vida terrena?) Podemos até sentir sentimento de repulsa por uma determinada pessoa, mesmo que ela pareça estar a trabalhar ao longo das linhas de pensamento idênticas às nossas; mas a repulsa é superficial, é efémera, e mais tarde quando nos tivermos libertado de alguns dos aspectos mais inferiores da personalidade, poderemos descobrir que a outra pessoa é um membro adiantado do nosso próprio Grupo, com quem nos achamos indissoluvelmente ligados por laços de parentesco espiritual.

Por outro lado, há almas diante das quais reagimos, instintiva e imediatamente, com afeição, admiração e união. Eu costumava acreditar que essas seriam almas com quem tínhamos estado em contacto durante outras encarnações, e com as quais teríamos dívidas cármicas a saldar, ou que tinham débitos para connosco por males infligidos. Agora a compreensão que tinha está a sofrer uma expansão. O que eu acreditava poderá ainda ser verdade, em parte, mas agora percebo que essas almas que nos atraem são parte de nós mesmos. Elas pertencem ao mesmo Grupo, à mesma Família Espiritual, à mesma Alam-Grupo. A ligação que têm connosco é mais profunda e muito mais permanente do que seria se ela fosse criada por simples contactos terrenos. Elas poderão ser parte do mesmo Espírito, visto que esse Espírito é, Ele próprio, parte do Grande Espírito, da Grandiosa Companhia de Divindades, muito distanciada da compreensão que temos, a Companhia Celestial, os Cocriadores, os Maravilhosos e Divinos Filhos de Deus.

Estou a aprender muito, a experimentar e a compreender mais ainda. Percebo que na Terra fui persistente demais, trabalhei com exagerada energia, tentei demasiadamente. Agora aprendo a absorver através da experiência e não totalmente através da aplicação mental, embora os atributos de aplicação da mente sempre façam parte da minha constituição. A actividade mental foi uma parte do meu eu mais inferior. Não foi a Essência, da qual lentamente começo a ter percepção, lentamente e talvez, por causa da minha ignorância, de maneira dolorosamente absorvente. Dolorosamente. Isto talvez possa ter uma estranha conotação, mas possui uma significação profunda. Contudo, apesar da dor da tristeza pelas oportunidades negligenciadas, há ainda o profundo júbilo do espírito pela compreensão muito maior, que é a própria Luz.

"Abandone-se... e deixe o Espírito fluir para dentro de si," foi um dos ensinamentos de Plotino, e quão certo ele estava! Não precisamos lutar pela compreensão. Deise que a perfeição da alma e do espírito seja filtrada pelas aberturas da personalidade.

Recorda-se do quanto amei Hound of Heaven (Caçador do Céu) de Francis Thompson? Quão profunda a percepção espiritual que corria pela alma do poeta. Ele escreveu a respeito da Luz que nos persegue ao longo dos anos, ao longo das Eras, acrescentaria eu. Isso, a Luz, o Espírito, o Aspecto Mais Elevado de qualquer Alma-Grupo faz parte de nós em cada encarnação, em cada existência, em todos os nossos afastamentos do Céu, em todas as experiências por que passamos. É o Espírito Divino do Grupo, a extensão de Deus, a Fonte e a Nascente que, por meio dos nossos esforços, por mais pobres que eles possam ser, sempre se expande para dentro, para o eterno Centro de Luz e de Energia Criativa que os homens chamam de Deus. Nesta criação progressiva, por Grupos e Companhias, evoluímos para diante e para cima, rumo àquele Eu Divino - depois de eternidades de esforços, para a inclusão na Companhia Divina, para uma bem-aventurança que no nosso estado de compreensão actual é inexplicável.

O Espírito da Vida é mais extraordinário, mais atemorizador, mais glorioso e muito mais vasto do que o homem jamais concebeu. No voo da águia podemos ver a ave alçar-se aos céus, podemos distinguir as batidas das asas e o revolutear das penas, podemos distinguir o progresso que faz até que ela se transforma num simples ponto do céu. Eleva-se mais alto ainda e deixamos de poder segui-la. A vida é exactamente assim, apenas visível e somente compreendida em parte no seu nível mais inferior, e perde-se para nós conforme avança impetuosamente para se juntar ao céu ilimitado do Amor Criativo de Deus.

3 de Abril

Estou agora a chegar ao fim do meu trabalho para este livro. Os textos já não serão tão longos e difíceis, embora eu ainda possa receber ordens para acrescentar alguma outra coisa, de tempos em tempos. Logo que aqui cheguei e "despertei" para esta vida nova e livre, sem os inconvenientes do meu corpo físico, fiquei emocionada e excitada. Senti um ardente desejo de transmitir de imediato tudo isso para você que tinha sido minha parceira em tantas e tão emocionantes aventuras espirituais, no final da minha permanência aí. Soube logo de imediato que podia entrar em contacto consigo por intermédio dos métodos telepáticos que tínhamos andado a estudar.

Eu queria redigir todas as minhas experiências, descrever as pessoas que conheci, falar dos casos que tive permissão para assistir e pormenorizar, para você, cada pedacinho da vida que aqui levo. E assim fiz. Pensei que estivesse a agir por conta própria, até que fiquei a saber que era um instrumento de um Grupo maior. Também foi emocionante perceber que o nosso Grupo de Trabalho tinha sido uma preparação para esta forma de contacto. Com grande alegria, lancei-me ao trabalho e ao serviço de assistência, aqui. Ponderei longamente acerca dos casos que lhe "descrevi." Comecei a compreender mais e mais a maravilha e a realidade desta vida "em série."

Esta é, pois, a mensagem que desejamos divulgar, antes que eu termine os textos:

1 - O medo da morte não tem razão de ser, por a morte do corpo constituir uma suave passagem para uma vida muito mais livre

2 - Toda a Vida é vivida em séries, que passamos de uma experiência de vida para outra experiência de vida numa velocidade diferente, isto é, num nível de percepção mais elevado.

3 - Que muito daquilo que julgamos digno de louvor na Terra, torna-se-nos medíocre à Luz de um conhecimento maior, e que o inverso, ou seja, muito daquilo por que nos culpamos e fomos culpados, aqui é visto de um ângulo mais amplo, e se torna até mesmo um mérito. Isto soa a afirmação contraditória; contudo, faz sentido quando observada deste ângulo mais livre.

Agora estou calma. Acomodei-me e estou a começara ajustar-me a esta nova vida, e a apreciar o amor e o trabalho com muitos de quantos conheci na Terra, ao ensinar aqueles que encontram dificuldade em se ajustar, a absorver a Essência da beleza e de Luz na qual habitamos. Há uma esperança infinita de, mais tarde, avançar e de me juntar ao Grupo mais elevado a que sempre pertenci… o Grupo que também contém este Grupo em sua consciência espiritual. Contudo, sinto-me feliz e satisfeita no trabalho para o qual os meus talentos, tais como são, e o treino mental que recebi na Terra podem ser aplicados. O Grupo está contente com a maneira como os textos foram transmitidos e recebidos. Pequenos erros, tais como os que ocorreram, serão corrigidos ou terão uma importância mínima, e eu estou confiante em que o livro que resultar destes textos irá ajudar muitas almas, na Terra. Isto representa somente um panfleto preparatório, pois ainda me encontro no estágio preparatório da minha viagem. Mas será útil e, todos seremos triplamente abençoados por abrir as mentes de muitos para esta nova vida para a qual todo o ser humano se está a dirigir – e se ela tornar mais simples as respostas para algumas das questões que têm atormentado aqueles que se encontram encarnados na Terra, a nossa tarefa terá sido correcta e sinceramente realizada.

Bênçãos sobre você e sobre todos quantos lerem este humilde testemunho da Luz do Espírito e do Espírito da Vida.

14 de Abril

(Helen Greaves)
Veio-me a sensação de paz, grande e duradoura. Lembro-me de que era um frio dia de Abril, que de vez em quando nevava e que o fornecimento de energia eléctrica falhara durante a manhã, de modo que durante a maior parte do dia fiquei sem aquecimento, excepto por uma velha e fiel estufa a óleo. A luz estava ruim e eu tentava dactilografar uma palestra que seria dada antes do fim-de-semana. Havia muitos aborrecimentos e dificuldades físicas… Subitamente, a onda de paz desceu sobre mim. Cruzei as mãos e deixei-me absorver nesta beleza e repouso. O Espírito, por assim dizer, filtrou-se dentro de mim como uma luz suave, como calor e radiância. Sentia-me muito bem, muito calma, porém, muito alerta e com uma tranquilidade interior que parecia estar além de qualquer explicação.

“Isto é o Espírito,” falei para mim mesma, abrindo-me para aquilo como uma planta faminta de luz, que se abre para os raios de sol. “Isto é o Espírito.” Doce e imperceptivelmente tive percepção de Frances. Ela estava a influenciar a minha mente e “registei,” com absoluta nitidez, os pensamentos que ela me enviava. Na verdade, tão logo me dediquei a “ouvir,” os pensamentos se transformaram em palavras e, sem um momento de hesitação, procurei a caneta.

(Frances)

Agora posso usar muito mais a minha “Mente Interior,” ditou Frances, por intermédio da minha mente e da minha caneta. Na Terra foi difícil “penetrar” até ao espírito durante períodos suficientemente longos para serem de efeito duradouro. Por meio da meditação, tentei e fui capaz de silenciar a mente consciente, mas durante esse tempo não consegui um certo grau de existência na Mente Espiritual, conforme agora posso fazê-lo. Todavia, ainda tenho várias “partes,” ou “corpos,” e à medida que os reconheço mais maravilhada fico. A parte de mim “puramente pessoal” está a ser limpa e purificada. Agora vivo quase que somente num corpo astral e isso dá-me um grau de liberdade muito maior do que aquela dada por um corpo físico denso, mas tenho muita consciência do meu Corpo Superior, ou se preferir, do meu Eu interior – tenho muito mais consciência dele do que tinha quando estava em encarnação no plano físico da matéria. Agora, eu consigo alcançar, creio bem, um equilíbrio de vida muito mais elevado. Com isto quero dizer que estou a tomar consciência do meu Corpo Espiritual, e assim sendo fico capacitada a ausentar-me deste plano de pensamento, o astral ou emocional, e a passar, em consciência, para os planos do pensamento Mental e Espiritual, mais elevados.

Com a transição desta consciência para aquela do Mais Elevado, vem um primoroso sentimento de paz e de liberdade, que eu dificilmente poderia explicar.

(A esta altura, eu Helen Greaves, perguntei mentalmente se a paz que tinha experimentado pouco antes seria uma amostra desse sentimento.)

Sim, mas somente uma fracção da sua intensidade. Eu nem mesmo posso ter a esperança de transmitir a paz envolvente, a sensação de um existir sereno, que nos domina com esta transição de consciência. É a penetração pela qual sempre ansiei na Terra e que somente experimentei em momentos infinitesimais de União. É a realidade do Ser. É júbilo que não pode ser traduzido por palavras, É, de facto, um êxtase de viver, de ser uma vida, um Eu vigilante num mundo de Vida e de outros Eus Gloriosos, dentro da consciência de um Grande Eu Criativo. Não posso expressar com mais clareza esta sensação do Espírito interior. E devo agregar que sou apenas uma principiante no que se refere a alcançar até mesmo este grau de consciência. E nem posso mantê-lo indefinidamente, no actual estágio de evolução em que me encontro. Talvez a intensidade dele me possa queimar, por assim dizer, enquanto eu não estiver harmonizada com esta frequência de vibração acelerada. É júbilo intenso, é bem-aventurança irrestrita, é a meta e o pináculo de todas as lutas para descobrir o Espírito, mas mesmo assim só posso alcançá-lo em “períodos” de consciência. Todavia, à medida que vou ficando mais plenamente vigilante para as possibilidades dos Planos mais Elevados, sinto-me feliz.

15 de Abril

Sou uma criatura que está a hibernar, mas que, ao mesmo tempo, se está a despojar de uma pele que já não é necessária. Às vezes sinto-me como uma serpente que gradualmente vai desprendendo a sua pele. Estes anéis de densidade mais baixa estão a desaparecer de mim. Estou a emergir das mágoas das recordações da Terra, das desilusões, das idealizações que se transformaram em ilusões efémeras e sem valor real. Estou a analisar cada pedaço de pele, que se desprende de mim, na sua conexão correcta com o Eu verdadeiro, que essa pele serviu para obscurecer. E, cada vez mais e mais, fico agradecida pela realidade que – Deus seja louvado! – esteve escondida lá, por baixo da pele, o tempo todo. Esta realidade é o eu que cada vez se torna mais evidente, mais revelado, mais substancial. Esse Eu é Luz substancial. Talvez esta última sentença lhe soe estranha. Não estou a tentar mostrar-me obscura, mas neste plano de existência, o nosso ângulo de visão altera-se. Compreendo que aquilo que está a desaparecer de mim, como uma pele que está a ser descascada, é insubstancial, é transitório e conforme se desprende de mim, decompõem-se e transforma-se num nada poeirento. O que permanece é essencialmente Luz, é Realidade, é permanente e é verdadeiro. Chamo a isso meu novo Corpo de Luz e é isso, de facto, que ele é realmente. Um Corpo de Luz que não é denso, que não é material, que não é lento e pesado como o corpo físico, que não é insubstancial, que não é sombrio e irreal como o corpo astral no qual eu me tenho abrigado, mas que é brilhante, que está cheio de “células” de luz, que é etéreo, não tem peso e não é arrastado para a matéria porque está enredado na cor e na beleza, na forma e na substância. Essa será uma concepção difícil?
Precisa recordar que eu estou a forma isso, estou a forma o meu corpo espiritual, ou talvez eu me expressasse mais correctamente se dissesse que estou a fundir-me nele. Isso soa como um paradoxo, mas acontece que muito daquilo com que estou a começar a me adaptar, aqui, é paradoxal quando observado à luz do pensamento limitado, da mente humana. Eu ainda tenho uma mente, ainda tenho um corpo, mas ambos estão a modificar-se de uma forma inevitável, e por causa disso eu sinto-me como se estivesse a emergir, como uma lagarta a sair de uma crisálida, para vir a tornar-se numa borboleta. Pouco a pouco vou-me tornando capaz de funcionar mais facilmente, e durante períodos mais intensos, no meu Corpo de luz; e nele posso comungar com Almas mais evoluídas e delas absorver sabedoria.

16 de Abril

Estou a tentar funcionar cada vez mais e mais neste Corpo de Luz. Ainda não posso sustentá-lo durante um tempo muito longo, mas resta-me a alegria e a bem-aventurança da certeza de uma expansão ainda maior, que se encontra ao alcance de todos nós. Este é o único passo na sequência, a evolução da ilusão para o conhecimento consciente do funcionamento do Eu Superior, um emergir numa consciência mais ampla, e uma percepção dos Seres Espirituais e das Forças que têm origem na Mente Todo-Criativa de Deus. Este é um progresso gradual e poderá levar anos (na percepção terrena do tempo) a ser realizado. Sinto como se estivesse de partida num Caminho de Luz que se dirige para cima e para a frente, para Reinos de beleza e de maravilhas que não podem ser imaginadas, e dos quais tenho apenas, por enquanto, o mais tênue vislumbre de compreensão.

A jornada em si é compensação suficiente para todas as provações da existência terrena, para a emoção do julgamento no processo dessas provações e para a minha responsabilidade individual por elas, de cujo julgamento eu estou a emergir. Isso leva-me a recordar uma passagem de Robert Browning:

“Nunca haverá um bem perdido! O que foi viverá como antes… Sobre a Terra os arcos quebrados, no céu a circunferência perfeita. Tudo o que desejamos, esperamos ou sonhamos de bom, existirá; não enquanto aparência mas como realidade; nenhuma beleza, nenhum bem, nenhum poder cuja voz tenha sido ouvida desaparecerá, mas todos sobreviverão para o melodista quando a eternidade declarar solenemente a concepção de uma ocasião. O elevado que provou ser demasiadamente elevado, o heróico que foi demasiadamente fatigante para a terra, a paixão que deixou o solo para se perder no céu, tudo isso é música enviada para Deus pelo amante e pelo bardo. Basta que ele tenha ouvido isso uma vez; dentro em pouco nós ouviremos.

SEGUNDA PARTE

(Helen Greaves)

Entre estas duas séries de escritos, houve um período de quase dezassete meses, durante o qual tive pouca ou nenhuma comunicação com Frances. Na verdade, na minha ideia, estava quase certa de que Frances tinha terminado a sua inspiração para o livro. Senti que ela, de facto, tinha “feito a transição;” que se encontrava fora do alcance da minha mente, e por causa dessa crença nunca pensei em entrar em contacto com ela.

Certa vez, durante uma sessão de Meditação numa Conferência da Associação das Igrejas para Estudos Psíquicos e Espirituais, à qual compareci e que estava a ser dirigida pelo nosso Presidente Coronel Lester, tive uma nítida “visão” de Frances. Esta não era a Frances que eu tinha conhecido, nem era o Espírito que eu tinha “visto,” de forma clarividente, no seu hábito, quando ela esteve presente ao próprio Serviço em sua Memória, em Londres. Este era um ser diferente, um Espírito Impregnado de Luz, radiante e glorioso. Frances encontrava-se parada junto ao altar da capela, onde nos encontrávamos reunidos para esta oração e meditação, e Luz ondulava ao redor dela.

Lembro-me distintamente de que a vestimenta que tinha me impressionou. Era de um delicado azul claro que cintilava e resplandecia. Só posso comparar a sua iridescência à de um vestido coberto com lantejoulas que captavam e reflectiam a luz. O seu rosto era o rosto de uma mulher jovem. A sua beleza era tal que me emocionava.

“Frances encontrou a sua alma,” pensei, ou ouvi interiormente. “Agora ela é ela realmente.”

Por conseguinte, não esperei receber qualquer comunicação proveniente desta culminância alcançada por ela. Sendo assim, fiquei atónita quando, no começo de Setembro de 1967, tornei a ter percepção das vibrações de Frances. Durante alguns dias, no meu Eu interior, tinha conhecimento de que uma Presença estava a meu lado. Isto sempre me é revelado pela silenciosa expectativa com que ponho fim às minhas tarefas domésticas ordinárias, todos os dias. Esta percepção do que se encontra ao meu redor pode ocorrer em qualquer momento do dia. Parece, então, que fico ligada a um outro mundo, uma outra dimensão. Às vezes vem um mensageiro com uma resposta para uma interrogação muda; outras vezes experimento uma enorme sensação de paz e de unidade. Finalmente, porém, tive certeza de que era Frances e que ela desejava escrever de novo. Certa noite, apanhei a minha caneta e o meu livro de notas, preparei-me e fiquei sentada, em repouso, à espera da mensagem.

Nada aconteceu! Decidi que me devia ter enganado.

De novo, porém, aquela sensação de urgência premiu-me. Isto continuou durante alguns dias e por fim telefonei para um membro do nosso próprio Grupo especial de Meditação que Frances e eu tínhamos fundado oito anos antes e ainda mantínhamos. Pedi ajuda.

“Você e os outros membros poderiam entrar em sintonia e perguntar se há alguma comunicação a ser feita, se o meu canal poderia ser purificado e iluminado, de modo que Frances possa alcançar-me?” pedi. Eles prometeram as suas preces e os seus pensamentos.

No fim de semana seguinte, durante o almoço de domingo, quando ouvia a rádio, com todos os meus pensamentos e a minha atenção ocupados com as notícias, levantei-me, fui até à minha escrivaninha, apanhei a caneta e o livro de notas e desliguei o rádio.
“Frances.” O nome dela retiniu na minha mente. Sentei-me e comecei a escrever, com o meu almoço parcialmente comido, na mesa, junto a mim.

Terminei de escrever as palavras que tinham aflorado à minha mente e li-as do princípio ao fim. Elas tinham vindo de Frances – não restava qualquer dúvida. Este foi o primeiro dos textos que se seguem, que foram transmitidos de forma intermitente. Pude constatar que eram diferentes, no conteúdo, das comunicações anteriores. Frances tinha realmente avançado para a frente e para cima. Os seus pensamentos apresentavam uma maior confiança. Ela encontrara o seu verdadeiro lugar; era uma alma renascida. A confirmação de que isto era facto foi-me dada mais tarde, no mesmo mês.

No dia 20 de Setembro tive a felicidade de ter uma sessão privada com uma excelente sensitiva, de muito renome, a senhora Lilian Bailey. Essa sessão tinha sido “reservada” anonimamente, com uma antecipação de quase quatro meses, mas o interessante é ela ter-se concretizado nesta ocasião especial. Depois de encorajadoras mensagens de natureza pessoal, provenientes do meu marido e de outros entes queridos, e de instruções a respeito do livro já publicado, The Dissolving Veil, (O Véu em Dissolução), e outros que aguardavam publicação, perguntei se a minha amiga se encontrava presente. A resposta veio sem demora.

“É uma senhora mas ela ficou afastada enquanto os outros comunicavam,” disse a senhora Bailey. “Espere um instante. Ela encontra-se um pouco atordoada, por estar a reassumir as condições com as quais deixou esta vida. Ela teve uma doença que finalmente se espalhou por todo o seu corpo, e faleceu enquanto estava em coma.”

Ficamos sentadas em silêncio durante alguns momentos, a seguir ao que a sensitiva disse:

“Agora isso já passou e ela encontra-se bem e feliz.” Disse o nome de Frances e ajuntou: “Alguns chamavam-lhe Fanny.” Isto foi verdade, como o leitor poderá ver por si mesmo na breve biografia que eu juntei a este trabalho. Os seus alunos, na África, chamam-lhe Fanny. E sabia e divertia-se com isso, razão porque não me senti surpreendida quando ela acrescentou, por intermédio da sensitiva: “Ainda sou a mesma Fanny!”

Segundo a descrição que a senhora Bailey fez, Frances tinha uns olhos muito lindos, grandes, luminosos e cinzentos. Aqueles que a conheceram bem atestarão que os seus olhos foram lindos.

“Ela está a falar de um livro. Ela acha-se muito presente nesse livro. De facto, ela está a escrevê-lo,” prosseguiu a senhora Bailey, e eu senti-me emocionada diante dessa confirmação.

“A senhora pensa nela com frequência.” Depois ela forneceu outros factos, por meio dos quais Frances pode provar a sua identidade.

Pouco de pois o Guia da senhora Bailey falou solenemente:

“Esta senhora encontrou a sua alma.” Fiquei cheia de alegria. “Você não deve esperar tê-la por aqui. Ela avançou, porém, ainda continuará a emitir para si, de vez em quando. Agora ela alcançou uma velocidade vibratória muito mais rápida do que anteriormente. Por causa da rapidez da sua própria velocidade vibratória, é fácil, para ela, vir até si de vez em quando, mas não sempre. Ela não saiu da sua vida. Encontrou uma vida de tão prodigiosa beleza que a sua capacidade é insuficiente para descrevê-la a si. Ela está a tentar dizer: O que o homem criou nas esferas encontra-se além de qualquer coisa que o homem tenha criado na terra. Agora ela encontra-se na Esfera Criativa.”

Eu iria perceber o quanto isto era verdade nos textos que tornaram a ser transmitidos no mês seguinte, em Outubro, cujo derradeiro fora no aniversário, dia 10 de Dezembro. Eles irradiam um alcance espiritual que para mim representa o próprio Espírito da Esperança, e creio bem, para quantos os lerem.

Aqui estão os últimos textos escritos numa Esfera mais Avançada.


SEGUNDA SÉRIE DE TEXTOS

3 de Setembro de 1967

Frances Banks

Lembro-me da observação que você fez certa vez, de forma solene: “Prefiro conversar a comer.” Naquele dia tínhamos conversado muito. Numa das nossas longas sessões, conforme deve lembrar-se, uma amiga comum estava a discutir a possibilidade de se unir à Associação das Igrejas para Estudos Psíquicos e Espirituais, (a propósito, agora penso que o segundo adjectivo devia ser Místicos) e nós achamos que essa seria uma medida absolutamente correcta, a única que ela poderia tomar para ser orientada no seu trabalho futuro. Na nossa pequena sala de trabalho, nós conversamos, discutimos, formulamos prós e contras e chegamos mesmo a concentrar os nossos pensamentos para ajudá-la a enxergar o caminho certo. Aquele tinha sido um dia de conversa e terminou, lembra-se, com a chegada da informação de que o passo necessário tinha sido dado. Um dia interessante e excitante.

Naquela ocasião não avaliei plenamente o poder e o alcance da comunicação de mente para mente, como posso agora avaliar. E tão pouco a Realidade e o Propósito da Mente-Alma, infiltrando o Seu conhecimento do próximo passo no Plano Divino. Naquele tempo eu via através de um vido turvo, mas agora, por fim, vejo mais claramente, sem o véu da personalidade a amortalhar a verdade que a alma conhece, mas que a entidade nascida na Terra se recusa a aceitar.

Você prefere conversar a comer. Isso ainda me diverte. Talvez seja por isso que quero que saiba que aqui nós conversamos e conversamos, embora não tenhamos necessidade de comer, no mesmo sentido em que alimentamos os nossos corpos na vida terrena. Todavia, a nossa conversa é diferente. Aqui as nossas palestras consistem numa comunicação. A mente dirige-se à mente. Na Terra nós emitimos sons, formulamos palavras com vibrações variadas ou com significados diferentes e empregamos uma ênfase tonal para expressarmos o propósito que temos. Nesta nova vida, a fala enquanto som, é desnecessária. A vibração é tudo. Basta dizer que formulamos e exalamos um pensamento forte, para que este se vá comunicar com as outras mentes. Transmitimos e recebemos impressões. Elas carregam a nossa verdadeira intenção, de modo que as palavras enganadoras não podem insinuar outras coisas além daquelas que nós pensamos, conforme é o caso que se dá com muitos dos sons das palavras da personalidade. Que pena, dirá você, que esse não seja o sistema comum na vida terrena, onde conversa frívola pode provocar discórdia e rancor!

Por conseguinte, quando no decorrer das minhas comunicações eu faço uso das palavras “Eu disse” e “Ele disse,” você compreenderá que eu estou simplesmente a repetir um fraseado que me foi habitual na vida da minha personalidade, e que você e aqueles que lerem estes escritos apreciarão por estarem acostumados com ele.

Mas a verdade sincera é que eu agora vivo num estado de comunicações profundas. A minha mente pode penetrar no conteúdo de Mentes mais evoluídas. Posso, embora ainda não de todo, ouvir a sabedoria destilada de fontes avançadas, tanto por meio de perguntas e respostas individuais como por meio da doutrinação de Grupo. Isto porque agora fui transferida do meu fluxo de trabalho na casa, para me tornar membro de um Grupo – por outras palavras: para assumir o meu lugar como recém-chegada, muito humilde e muito ignorante, naquilo que eu gosto de chamar de Grupo de Extensão.

Este é um Grupo que está a trabalhar naquilo que você classificaria como misticismo, e que aqui nós enobrecemos com o título de Realidade. Este é apenas um nome destinado a diferenciá-lo dos inúmeros outros Grupos que se organizam em companhias de trabalho, com motivações diversas: isto é, Grupos dedicados à Ciência e ao Desenvolvimento Científico; Grupos dedicados à Medicina e às Técnicas de Cura para o corpo humano; Grupos que estudam a elaboração de um método que visa um alcance mais amplo da mente humana; Grupos voltados para os padrões da evolução mundial, para o estudo do Plano Criativo, para os reinos animal e mineral; além de Grupos mais avançados, que se dedicam à reconciliação da história conhecida da raça humana (Registos Akáshicos) com as tendências presentes e futuras, e à possível elaboração de Planos destinados ao avanço da evolução do homem animal para o homem espiritual.

Naturalmente, existem estados de existência e de percepção, e grupos de entidades avançadas que se encontram muito distantes da minha compreensão, porquanto “Na Casa do Meu Pai Há Muitas Moradas!”

Para alguém, que, na Terra, tantas vezes lutou e não conseguiu contemplar claramente a Luz, basta ter encontrado um nicho onde Aqueles que Contemplaram, e estão sempre a Contemplar, podem transmitir para uma alma que procura, a riqueza e a profundidade da Sua sabedoria.

“Você prefere conversar a comer!”

Agora no novo estado em que me encontro, para mim conversar é alimento. A Comunicação com o Grupo e com as grandes almas que estão no seu Centro é a minha nutrição, o meu pão, o meu vinho, o meu bordão de vida verdadeira.

11 de Setembro

Expansão. Agora, nesta fase da minha existência como alma, esta é a palavra-chave. Nós ainda habitamos num universo em expansão, e eu enfatizo a palavra ainda, porque sempre habitamos este mundo, e a morte do envoltório físico serve apenas para clarear a nossa visão. O mundo da matéria física está a expandir-se, está a sofrer uma modificação interminável, embora a maioria das almas, nesse estado de existência física, não consiga estabelecer um vínculo suficientemente forte com a personalidade efémera, de modo a poder perceber essa expansão. Até mesmo quando a personalidade – que, em oposição a algumas crenças, sobrevive à morte de uma forma mais atenuada – é libertada na expansão consciente, ainda assim ela existe. Numa entidade que ficou profundamente mergulhada na ilusão da existência material, ou que nunca desenvolveu o corpo mental do pensamento e nem fez qualquer contacto com a alma, este novo estado de existência pode ser de extrema dificuldade e confusão. Isto explica a existência de diferentes Planos de expansão aqui, conforme tentei demonstrar nas minhas comunicações anteriores, transmitidas da casa. A terra das Sombras existe para aqueles que não podem aceitar a libertação do eu aprisionado, e essas pobres entidades demoram-se por essas sombras, até que elas próprias desejem encontrar outras moradias mais iluminadas.

Nós sempre possuímos um corpo-alma, ou, para o explicar de outro modo, uma alma estende-se para cada um de nós, mas, para milhões daqueles que se encontram na encarnação física, o vínculo com o corpo-alma é tão efémero a ponto de ser praticamente inexistente. Assim, se chegarem aqui depois da mudança física chamada morte, tais entidades veem-se nuas diante dos seus irmãos. Isto não quer dizer sem roupas, no sentido físico, porém, sem as vibrações protectores e criativas da alma É como se lhes faltasse uma pele exterior, e elas também já não se sentem no comando de si mesmas nem da sua situação. Acham-se perdidas e confusas, transformando-se, por conseguinte, em presa fácil para as entidades não desenvolvidas que se emboscam nas trevas.

Às vezes elas ainda se sentem acorrentadas a cenas familiares, da sua vida terrena, às vezes existem num sonho semiconsciente, enquanto Auxiliares e entes queridos esperam o seu retorno à percepção. A duração e a intensidade deste estado deve depender, necessariamente, da realidade que o materialismo tem para elas. Ou seja, o fascínio da vida terrena, a ilusão do estado temporal. Uma mulher ou um homem bondoso, honesto, generoso, que tenha procurado Deus durante a sua vida, mas que não tem conhecimento ou compreensão da sobrevivência, não precisa temer. As suas boas acções já terão atraído aqueles que podem orientá-lo e ajudá-lo a adaptar-se a estas novas condições, e, sob orientação, ele aprenderá a aproximar-se da alma por meio da aspiração.

Isto leva-me àquilo que estou a tentar dar a entender a respeito da Expansão nestes domínios. A alma expande o seu conhecimento e sabedoria, na personalidade sobrevivente. Este processo pode estender-se por longos períodos de tempo terreno… às vezes até mesmo por centenas dos vossos anos terrestres, em conformidade com o progresso ou falta de progresso da entidade. Mas sempre há os Irmãos do Caminho, para dar assistência àqueles que desejam progredir. O desejo tem origem na própria entidade, depois de ter sido feita a reparação dos males cometidos e depois das paixões inferiores, ainda existentes, terem sido lavadas, curadas e libertas. Quando a limpeza parcial tiver sido efectuada, o passo seguinte, rumo à Luz é o Trabalho – e muitas almas queridas passam os seus estágios de transição a trabalhar por aqueles que ainda estão a viver nos infernos da sua própria criação. Tal trabalho, voluntário e compassivo, fortalece o vínculo com o Eu que aguarda. Esse Eu, contudo, sempre está à espera, para expandir-se na entidade.

Tal expansão tem muitas facetas. O trabalho amoroso é apenas uma. A entidade em evolução ainda precisa ser educada naquele conhecimento e sabedoria que a alma possui, e para essa finalidade existem inúmeros Grupos aqui, Grupos que, conforme sou levada a crer, funcionam em todos os Planos. A entidade em evolução é puxada, pela lei da Atracção, para um Grupo que progrediu até aquele estágio que expressará, para ela, a intensidade de percepção que agora ela é capaz de receber.

Aqui tudo é expansão, porém, expansão por estágios. Esta Lei é rigorosa. Nenhuma entidade pode mover-se para a frente, para dentro de um Grupo, até que a sua expansão emocional, mental e espiritual seja comparável, pelo menos, com a fímbria da percepção daquele Grupo. Esta é uma declaração importante. Pense bem nela, desde o princípio até às suas conclusões. Aqui a ilusão, o fascínio e ao auto-engano não têm utilidade. Nós revelamos aquilo que somos. Mesmo nas vestimentas que envergamos, exibimo-nos publicamente. A máscara foi abandonada com o corpo físico. O corpo de Luz em desenvolvimento, com a sua obscuridade ou brilho, torna-se visível, em especial para aqueles membros do Grupo para os quais a qualidade de tal Luz permite gradações.

13 de Outubro

Na última comunicação que lhe dirigi enfatizei este pensamento: “Revelamos aquilo que somos. Exibimo-nos publicamente, mesmo nas vestimentas que envergamos.” Naturalmente, se analisar uma personalidade terrena, a validade da frase também se aplicará nesse nível. As roupas revelam o homem. Quando estamos no corpo, instintivamente formamos uma opinião a respeito das pessoas, quando as conhecemos pela primeira vez, em primeiro lugar pela sua aparência, isto é, pela tonalidade clara ou escura das roupas que veste, pela escolha da cor, pelo estilo, pela sua elegância ou falta de asseio.

Assim como em cima, também em baixo – afirma o preceito. Só que neste nível as roupas e o estilo não são criados por aqueles que comandam a moda. Com os resíduos dos pensamentos, palavras, acções e aspirações que trouxemos para cá, junto connosco, nós criamos aquilo que nos veste, isto é, que nos envolve. Começamos a aprender e a praticar esta Lei de Criação, a partir do momento em que tivemos percepção da nossa sobrevivência noutra dimensão. Às vezes há um espaço considerável entre o momento em que o corpo físico é abandonado e o momento da percepção, estado a duração de tal espaço na dependência, como já dissemos, da familiaridade ou falta de familiaridade que a entidade tenha com a vida depois da transição humana, com a crença ou descrença na consciência subsistente, com a força e a obstinação dos conceitos materialistas e, naturalmente, com os registos da vida que acabou de findar.

Contudo, quando tal percepção fica “estabelecida,” por assim dizer, então surge o entendimento de que criamos as nossas próprias vestimentas. Durante os estágios iniciais desta nova consciência nova e absolutamente excitante, o prazer de criar roupas e cores satisfaz uma necessidade e, com frequência, é muito apreciado. Por outro lado, uma roupa que tenha adquirido significado na terra, será assumida, às vezes para satisfação da alma, às vezes como penitência e às vezes por causa da alegria ou da paz que o seu uso tenha proporcionado à alma. Durante o meu trabalho na casa eu enverguei o hábito da Ordem à qual tinha pertencido quando na terra, e na qual a maioria das minhas companheiras servidoras também tinha professado. O seu uso foi necessário para mim, por várias razões particulares, embora durante algumas fases desta experiência eu me tenha permitido o prazer de criar as cores e os modelos bem relembrados, dos meus últimos anos terrenos.

Finalmente chegou a oportunidade para continuar a marcha para a frente, que eu desejara com tanta ansiedade. Por similaridade de mente e de aspiração, fui “atraída” para um Grupo. Avidamente entrei em comunicação com os seus membros. A alegria que senti foi forte e profunda quando percebi que encontrara realmente o meu Grupo, mesmo reconhecendo que me encontrava apenas na orla exterior das actividades dos seus componentes. E aqui eu gostaria de enfatizar o valor da consciência de Grupo, que nós as duas tínhamos praticado e esforçado por alcançar. O “sulco” que tínhamos “gravado” na nossa consciência, da responsabilidade do Grupo no nível da alma, da unidade no Centro, do desenvolvimento – de Grupo - das qualidades divinas do nosso todo composto, tudo isso foi de inestimável ajuda para a minha entrada na Lei do trabalho em Grupo e para a minha compreensão dessa lei.

Gradualmente, tomei consciência de que os meus companheiros se encontravam “ataviados” com cores, como se elas fossem roupas, e pela sobriedade ou brilho do seu “envoltório” passei a conhecer, não só o seu carácter como também o seu avanço individual nos Domínios Espirituais. Isto, de facto, foi muito revelador, porém, capaz de conduzir à humildade. Vi que agora tinha que abandonar o hábito ao qual me agarrara. Ele cumprira a sua finalidade. Como roupagem, eu devia usar aquilo que sou. O pensamento foi aterrador. Que era eu? Ousaria apresentar-me diante dos meus companheiros de Grupo vestida com o “hábito novo” do meu pensamento? As cores seriam sombrias ou brilhantes? Detida e solenemente, conversei com outros que se encontravam em idêntica situação e meditei seriamente sobre aquilo que desejava ser, a fim de que esse meu desejo pudesse mostrar-se com Luz verdadeira, em torno de mim.

Este é um estágio novo. Ainda sou uma neófita. É o estágio preparatório (a concentração que antecede a meditação, na técnica terrena) da penetração dentro de nós mesmos para descobrirmos aquilo que realmente somos; uma recapitulação absolutamente honesta das nossas faculdades, tanto mentais como de aspiração, e depois a “emissão” numa determinada forma, de qualquer Luz que porventura tenha raiado. “Deixe qua sua luz brilhe,” aqui adopta um significado sólido.

Gradualmente, a roupagem evolui, as cores estabelecem-se e você vê-se ataviada como realmente é. Assumiu a sua luz. Por outras palavras, a personalidade sobrevivente acha-se reunida a uma parte, pelo menos, do corpo Alma verdadeiro. A vida excita-a. A mente cresce em claridade, expansão, criatividade. VOCÊ EXISTE, VOCÊ VIVE. Agora você pode tomar o lugar a que tem direito no Grupo, embora somente no anel exterior. Começou a sua ascensão rumo à consciência. Agora encontra-se vestida com roupagens de Luz, como os seus companheiros. Agora a sua Luz pode misturar-se com o brilho deles e tornar-se uma em intensidade. Pensamento e aspiração transformam-se em júbilo e êxtase. Canais de conhecimento e de sabedoria abrem-se para si e a beleza torna-se numa realidade viva.

Esta é a “brecha de penetração” pela qual eu tanto ansiara quando no corpo físico. Nessa fase ela nunca é manifestada com intensidade. Lampejos de percepção servem apenas para aumentar a fome, da personalidade, pela radiância da alma. Esta lucidez de consciência talvez não seja possível no materialismo da vida terrena. Não posso saber a resposta para essa questão. Tudo o que compreendo agora enfatiza a realidade e a praticabilidade dos ensinamentos de Jesus. O Reino do Céu encontra-se dentro. “Primeiro busque o Reino do Céu, e todas essas coisas ser-lhe-ão acrescentadas.” Assim, naquela ocasião, tudo se encontrava dentro de mim, tudo: mas o véu do fascínio e da ilusão impediu a minha visão, como ainda vela a Realidade para a maioria daqueles que habitam na terra.

Cara amiga, este é apenas o estágio inicial de uma Jornada para a Luz, durante a qual a entidade sobrevivente é gradualmente reunida com a alma integral Passo a passo, rumo a uma Luz cada vez maior, este caminho estende-se à minha frente, mas, sinceramente, alegro-me por isso. “Um passo é bastante para mim…”

14 de Outubro

Distingo, na sua mente, perguntas a respeito do Grupo. Como eu terei sabido que pertencia a este determinado Grupo? Como entrei em contacto com o Grupo? Que credenciais eu possuía, que me habilitaram a ser aceite pelos outros membros?

Compreendo que se tivesse recebido comunicações deste tipo, vindas de outra mente que operasse num estado de consciência diferente, eu também teria desejado conhecer as respostas. Esforçar-me-ei por responder com a maior clareza que me for possível. Em primeiro lugar, tomarei a sua segunda pergunta. Como entrei em contacto com o Grupo? Este não foi um caso de entrar em contacto, como se pela primeira vez, com este Grupo. Parece que estive ligada a ele desde tempos imemoriais. Isto, agora, representa uma reunião. Será um mistério tão grande assim? Toda a alma tem o seu lugar no Divino Esquema da Vida. Toda alma pertence a um grupo e forma uma parte integral de uma Alma-Grupo. Eu faço, você faz. O mais insignificante mendigo das ruas também faz, assim como o maior dos génios. Uma Alma-Grupo é constituída por almas que se encontram em níveis de progresso individuais, cada uma complementando as outras, para formar um Todo. Somos parte de uma Alma-Grupo do mesmo modo que somos parte de uma família, no sentido físico: um relacionamento familiar pode ser temporário, mas o relacionamento da alma é eterno.

A questão das almas gémeas, sobre a qual muitos disparates e especulações são feitos na terra, pode ser explicada pela hipótese de duas almas pertencentes a um mesmo Grupo, reunidas em harmonia por se encontrarem em estágios de progresso idênticos e por terem evoluído juntas, de forma conspícua. Isso lhes dá vibrações similares assim como um “puxão” de atracção correspondente. Contudo, todas as almas que constituem uma Alma-Grupo experimentam esta “aproximação harmónica,” uma a ser atraída para a outra, quer estejam a funcionar em corpos materiais, quer estejam a atravessar os estágios aqui, na Vida do Espírito. As Almas-Grupo presidem aos movimentos universais e às grandes causas, razão porque os membros de uma Família Espiritual frequentemente sejam atraídos um para o outro por interesses mútuos, por uma vida dedicada a um trabalho especial e, também, pelos vínculos eternos.

Eles podem trabalhar juntos, podem de facto, compartilhar as suas vidas numa sociedade, ou podem apenas encontrar-se ocasionalmente, enquanto trabalham em algum determinado projecto. Às vezes, por intervenção daquilo que parece ser um destino perverso, membros do Grupo são separados e nascem em campos aparentemente errados. As suas vidas tornam-se trágicas, amiúde fúteis nos seus repetidos esforços para se juntarem aos seus companheiros iguais e ao seu trabalho legítimo. O estranho é que muito nunca encontram o seu nicho certo. Com frequência vivem e morrem como proscritos. Contudo, como nem todos os membros de um Grupo se encontram encarnados ao mesmo tempo, ou seja, como neste lado sempre existe uma certa integridade do Grupo, os proscritos, depois da sua transição para cá e depois que adquiriram consciência do seu estado e atingiram, pelo menos, um certo grau de Luz, reúnem-se aos seus próprios Grupos.

Agora tenho consciência da sua mente estar a inquirir: “Quantas Almas-Grupo existem?” Não posso responder a essa pergunta. Até onde tenho vislumbrado por aqui e por ali, o seu número deve ser incontável. Também me é dado compreender que em níveis mais elevados de consciência, as Almas-Grupo se unem para formar Unidades ainda maiores. Segundo o meu raciocínio, esta deve ser a Lei do Progresso ininterrupto rumo à Divindade, que é uma Unidade, uma Unificação, um todo completo misterioso e glorioso. Mas é somente assim, de muito longe, que me atrevo a aspirar ao Plano Divino. Aqui e agora tenho o privilégio de poder tocar apenas a fímbria da consciência dos Grupos que estão a trabalhar nesta nível e de poder cooperar com eles.

Portanto, até onde alcança a minha compreensão actual, tenho-me esforçado por dar respostas às suas perguntas. Você avaliará, espero, que não foram necessárias quaisquer credenciais, num sentido literal (excepto a minha própria aspiração e a reparação das oportunidades desperdiçadas, do passado) para ingressar no Grupo. Fui, por assim dizer, assimilada dentro dele, porquanto ele era o meu lugar legítimo.

Como, você pergunta, fui arrastada para uma comunicação com este Grupo?

Está lembrada de que nas primeiras comunicações, transmitidas da Casa de Repouso para a qual fui transferida inicialmente a fim de prestar serviços, contei a história de um certo médico, um cirurgião que se tornara vítima do vício das drogas, enquanto se encontrava no corpo físico? Deve estar recordada que visitei um Grupo na companhia dele e que me comuniquei com várias Almas evoluídas. Durante várias visitas tive encontros e encontrei-me com essas Mentes, que alcançaram elevados padrões de consciência e de sabedoria. Em certas ocasiões, pacientemente, eles me deram explicações acerca do trabalho de Grupo. Uma delas, uma Alma nobre e iluminada, deu-me a seguinte instrução… “Procure o seu próprio lugar. Peça que a Luz possa abrir a sua mente para aquilo que lhe está destinado; que a sua velocidade vibratória possa ser aumentada para corresponder à vibração do seu Grupo; que você possa ter percepção dos membros desse seu Grupo, pois eles estão perto, ao seu lado…”

Meditei longamente sobre essas palavras.

De repente, enquanto observava o eu velho amigo, o Padre Joseph, enquanto atendíamos a um paciente, na Casa, pude ver, não o habitual hábito marrom que eu sempre associara a ele, porém, um envoltório de um azul glorioso, a envolve-lo como uma veste. Foi como se eu olhasse directamente dentro dele. Os eus olhos interiores estavam abertos. O sorriso dele foi gentil, porém, cheio de compreensão, quando disse:
“Bem-vinda ao lar, minha filha.”

As palavras foram suficientes, o contacto estava feito. Eu tivera que esperar pela iluminação, mas ele sempre soubera. Achei difícil deixar a Madre Florence e a Casa onde tinha sido tão feliz. Contudo, a perspectiva de progredir era inspiradora. Além do mais, fiquei confortada ao saber que de vez em quando Madre Florence iria visitar o Grupo para o qual eu estava de partida, pois ela também estava unida a ele – embora, por força, tivesse feito a escolha de continuar com os seus deveres na Casa até que todo o seu “rebanho” tivesse sido recebido, em segurança, neste lado da Vida.

Não a posso esclarecer quando à mecânica da minha mudança para o Grupo, em parte por ainda não ter um conhecimento completo de tudo o que aconteceu comigo e em parte porque não existe nenhum compartimento de pensamento, na sua mente, que possa “receber” tal informação. Posso oferecer isto, para sua compreensão e a dos seus leitores: Enquanto estava a meditar no meu jardim dourado vi-me “transportada” de volta para aquele Templo da instrução onde certa vez, anteriormente, tivera o atrevimento de penetrar. Só que desta vez o Padre Joseph (agora eu o conheço por outro nome) estava comigo. Juntos, reunimo-nos a um punhado de entidades que rodeavam um Mestre. Imediatamente experimentei uma elevação da consciência, uma onda de alegria, uma mistura de unidade e de harmonia que coloriu todo o meu ser. Não posso explicar isto em quaisquer outros termos, embora duvide que eles pudessem ter a mesma conotação para si.

Eu soube que este era o meu Grupo legítimo. Viera reunir-me aos meus. Não houve uma aceitação definida, toda a operação foi discreta e simples: todavia, tive a certeza de que tudo estava em ordem, de que eu estava entre os meus companheiros de Viagem, no Caminho.

“Qual é o nome dado a este Grupo?” emiti, rápida e silenciosamente, para o padre Joseph. Ele sorriu.

“O nome daquilo que você sempre procurou, minha filha – Realidade!”

Então, eu recordei aquilo como sendo a extensão daquela tentativa de alcançar a Verdade Espiritual e a Força Criativa, que, quando na terra, nós tínhamos chamado de misticismo. Aqui estava a primeira fase da procura da União Mística, porém, num nível mais elevado e sem o íncubo da personalidade terrena e a interferência flutuante dos desejos do corpo carnal.

15 de Outubro

Este é o estágio mais satisfatório do meu progresso através da vida, e, acredito, das vidas, e do consequente reexame destas vidas que a minha memória consegue recordar no momento actual. Na minha vida terrena como Frances Banks, como Irmã Frances Mary e de novo como Frances Banks, eu estive sempre preocupada, sempre intrigada, sempre à procura. Nunca tive certeza de ter encontrado, realmente, aquilo por que procurava com tanto ardor. Durante vinte e cinco anos em religião tentei fervorosamente aceitar o conceito de Verdade no qual professara, mas ninguém pode conhecer as negras noites da alma, a solidão, o sentimento de derrota através do qual a frustração me conduziu durante aqueles anos. Sincera e honestamente, embora eu tivesse procurado acreditar na vida da religião, a minha voz interior sempre reclamava pela expansão do conhecimento e da experiência. Amei o meu trabalho de ensinar.

Acredito que as minhas qualidades como professora poderiam ser avaliadas como boas. Amei o conhecimento pelo amor de conhecer e, sem dúvida, levei uma vida útil no lugar para o qual tinha sido designada. Todavia, o Espírito sempre me instigou: “Procura e encontrarás.”

Quando, porém, o caminho se abriu para mim e tive permissão para deixar a Ordem, depois que os meus votos foram anulados, descobri – como todos nós temos que descobrir – que os caminhos abertos e ensolarados, ao longo dos quais parecemos ser compelidos a nos aventurarmos, contêm pântanos de desespero e atoleiros de dúvida, assim com paisagens de promessas. Então, por fim, senti que estava a mover-me, que não me encontrava estagnada, como a Vida parecera ter-se tornado, na Ordem.

Mas movendo-me para onde? Com frequência, extenuei-me com conjecturas. Supliquei e orei por Luz, mas a consumação da sua glória sempre se esquivou de mim. Nos meus últimos anos, na meditação, encontrei uma percepção silenciosa; uma nova focalização do eu com Eu e uma confiança resultante, que me levou a falar aos outros sobre esta pesquisa. Nos poucos Retiros que dirigi para a Associação de Igrejas, o exercício, a disciplina da preocupação e as muitas horas gastas com isso trouxeram-me um lucro espiritual genuíno. Se fui bastante virtuosa por ter podido compartilhar, ainda que mesmo apenas uns poucos vislumbres da percepção que obtivera nessas tentativas cegas, mentais e espirituais, então uma estrela de esperança brilhou no meu próprio caminho.

Agora que deixei para trás os negros véus que cegam a percepção espiritual durante a nossa peregrinação terrena, descubro que ainda estou a repetir o padrão, só que de um outro ângulo. Já não tenho dúvidas, como certa vez tive. Agora eu sei. Todavia, devo admitir com toda a honestidade que a Realidade às vezes parece ser maravilhosa demais, até mesmo para a minha consciência que cresce e se expande. Estarei a sonhar – pergunto a mim mesma – e uma manhã acordarei?

Você poderá ficar surpreendida ao saber que esta reacção é comum entre os peregrinos que tenho encontrado. A mente, você vê, está apenas a abrir-se lentamente, muito devagar, para o seu vasto potencial. Os véus da matéria que agora, para nós, são representados por uma perda na frequência de vibração, foram dissolvidos tão recentemente que nós podemos avançar, e avançamos, somente para cada estágio sucessivo, conforme a compreensão vai se tornando mais profunda e a percepção consciente se amplia. Para colocar esta ideia numa linguagem e numa metáfora terrena, é como se cada Cinderela se tivesse transformado, inexplicavelmente, numa princesa.

Você desejará saber mais a respeito das minhas ocupações e da organização da minha existência, e farei o possível para explicar, com simplicidade, para que você e os leitores possam compreender, pelo menos em parte, algumas das satisfações espirituais que se acham muito integradas na nossa jornada para a frente.

Tenho um novo lar. Partilho, com outros do Grupo, uma propriedade muito linda. Este lugar possui amplos relvados em declive, árvores e flores da mais primorosa beleza e avenidas de Luz. Não tenho outras palavras para o descrever, para descrever a meditação e a contemplação. Como aqui estamos mais próximos, em vibração, dos Mundos Espirituais, a música das Esferas a ecoar ao longo destas avenidas torna-se numa glória que arrebata os nossos pensamentos e aspirações para a contemplação dos Mistérios da Divindade e da Vida Eterna.

Naturalmente, estamos livres para seguir os nossos próprios objectivos. Não há regras no colégio nem comparecimentos obrigatórios, mas eu, pelo menos, encontro-me nos Salões de Aprendizagem quase continuamente. Você pode reparar que, mais uma vez, eu repito o padrão, aquele desejo ávido de conhecimento espiritual, que agora eu percebo que caracterizou todas as minhas excursões nas diferentes experiências na terra e que agora compreendo, embora vagamente, como tendo sido o foco daquelas personalidades com as quais voltei para a encarnação. Esta avidez poderá não ser uma qualidade!

Posso viajar na mente, e faço-o com frequência. Visitei países do mundo, que não conhecia. Tenho visto muita coisa e aprendido muito. Volto, frequentemente, aos cenários familiares. Compareci a algumas Assembleias, fui a Grupos de Meditação, e algumas vezes entrei em contacto com amigos e companheiros que amei, na terra. Não acho que seja coisa fácil “falar através” de um médium. Conforme você avalia, tenho certeza de não haver necessidade disso. Neste nível de pensamento a telepatia desenvolveu-se para um potencial muito maior do que aquele que foi praticado na terra. Por meio da transferência do pensamento procuro alcançar as mentes de velhos e caros amigos, ainda na existência física. Às vezes sinto-me feliz por pensar que os meus esforços produzem uma certa impressão. Outras vezes, o véu da ilusão (mesmo naqueles que já deveriam compreender melhor) interfere com a recepção e o contacto é imperfeito, ou e até mesmo repelido. Mas isso continuará a ser assim enquanto aqueles que se encontram na terra ainda se agarrarem à teoria da separatividade.

Aquilo que estou aqui a aprender, neste estado de consciência mais amplo, é uma jubilosa concepção do imenso milagre da unidade da Mente Criativa, na qual todos, todo o átomo, todo o fragmento de alma, toda a Alma-Grupo, todo pensamento criativo é Um.

10 de Dezembro

Este será o último texto destinado a este livro. Se existe uma mensagem nestes escritos, ela é a simples afirmação de que tudo é Unidade e de que a unidade é Luz.

Esta declaração poderá ser interpretada simbolicamente, pelos meus leitores, como sendo referente à Luz da Sabedoria, do Conhecimento, da Compreensão da Unidade da Vida que existe em todas as coisas. Contudo, um ponto difícil que eu poderia esclarecer é que, nesta nova fase da nossa existência neste plano, a referência à Luz deve ser interpretada literalmente. Estamos a progredir para a Luz, e ainda para mais Luz. Agora, para nós, as referências ao “Trono de Ouro de Deus,” que fazem parte da nossa instrução religiosa na terra, revelam verdades ocultas, bem definidas. O Máximo de tal Luz está além da nossa compreensão que ainda é limitada, ou até mesmo além das nossas aspirações mais elevadas.

Aqui a Luz é, literalmente, a substância e a matéria da nossa vida-pensamento. Por isso mesmo, conforme os nossos pensamentos entram em sintonia com a vibração da Divindade Criativa, assim também a substância dos nossos corpos se modifica, tornando-se menos densa e reflectindo mais Luz

Nós carregamos a nossa própria Luz. Por conseguinte, quanto maior for o altruísmo e a iluminação das nossas mentes, e quanto mais positiva for a nossa reacção à frequência de vibração mais elevada, mais pura e mais brilhante é a Luz que transmitimos

Falamos da Alma-Grupo

Portanto, conforme começo agora a compreender, quanto mais pura e forte é a Luz de cada unidade-alma do Grupo, maior é o avanço do Grupo-Alma em Si, rumo à suprema bem-aventurança da União, ruma àquela Luz inefável que será, sempre, o mistério e o milagre da Divindade.

Todavia, cada unidade precisa ser testada, ou seja, a sua Luz deve ser submetida à prova dos véus de densidade em outras esferas de acção. Tantas unidades voltam e tornam a voltar para a inconsciência da matéria densa, afirmando corajosamente a realidade eterna da sua iluminação. Com tanta frequência, tais unidades, vestidas nas suas personalidades transitórias, transformam-se em vassalos de conceitos materialistas. Alguns são abençoados nas suas jornadas, por clarões de penetração na Luz; e, me casos raros, a Luz conseguida nestes mundos espirituais mantém-se firme, brilhando através das máscaras carnais, para abençoar e encorajar os seus companheiros viajantes que se encontram nas trevas de uma suposta separatividade. A Luz brilha através dos olhos destes egos avançados e é reflectida nos campos magnéticos que circundam os seus corpos densos.

A minha maior mágoa, agora, talvez seja a compreensão de que enquanto estava à procura e a pesquisar, mental, física e ocultamente, para descobrir aquela “brecha” para o espírito, pela qual tanto ansiei, a Luz da Unidade com todas as coisas, com todas as criaturas, com todos os Seres, todas as Hostes e todos os Poderes, habitava dentro de mim, em glória inefável.

“Eu sou a Luz do Mundo” significa exactamente isso.

Jesus, o Mestre, durante a Sua permanência na densidade da matéria bruta, reflectiu aquela Luz ura e irrestrita. A Luz habita em todos nós como um fulgor luminoso, a Luz da Unidade com todo o Espírito, a bem-aventurada percepção e reconhecimento da Unidade com toda a criação, desde a Ordem mais inferior atá á mais Alta, até mesmo o Trono da graça em Si.

“Deixe a sua Luz brilhar diante dos homens…” é essencialmente um facto aqui, onde cada um é revelado pela sua Luz.

Então, que isto possa ser verdadeiro para aqueles que lerem estas palavras na terra! Que a Luz da Percepção da Unidade Divina possa brilhar através dos véus ilusórios e temporais das personalidades assumidas, para que, na preparação para esta nova experiência, elas possam, de facto, ser conhecidas pela sua Luz!

Deus abençoe todos vós.

Dezembro de 1967 (Sussex)
Frances Banks

In “TESTIMONY OF LIGHT,” de Helen Greaves

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