quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O LIVRO DE CHUANG TZU - CAPÍTULOS EXTERIORES





CAPÍTULOS EXTERIORES



8 Do Semelhante e do Divergente

9 Cascos de Cavalos

10 Saqueando Cofres

11 Do Governo do Homem e do Mundo

(Aceitação e Tolerância)



Tradução: Amadeu António



Capítulo 8
DO SEMELHANTE E DO DIVERGENTE
conhecimento da justa medida
Dedos interligados ou um dedo extra bifurcado pode ser coisa natural, porém, não é coisa que seja útil. Excrecências e tumores podem surgir no corpo mas não brotam da virtude do que quer que seja. Há diversos tipos de benevolência e de rectidão, e comummente associam-nos aos diversos órgãos vitais do corpo. Mas tal não é a via correcta da Virtude.
De facto, dedos interligados não passam de membranas adicionais inúteis e qualquer dedo extra será inútil. Desse modo associar isso aos órgãos vitais equivale a confundir a benevolência e a rectidão, conferir demasiada ênfase à audição e à visão.
um dom exacerbado poderá conduzir ao uso excessivo
Uma percepção assim exacerbada confundirá a distinção das cinco cores (multiplicidade) e levar-nos-á a ao fascínio pelo ornamento e à confusão do resplandor do verde e do amarelo. Consequentemente, não pararemos até nos tornarmos num Li Chu. Uma apurada percepção auditiva conduzir-nos-á à produção profusa das cinco notas com as cordas e as flautas transversais, e não nos deteremos até que nos tornemos num Shi Kwang (Mestre de música).
Assim, o bem em excesso erradica a virtude e restringe a natureza original, ainda que em função da busca de fama ou de riqueza, e fomentará o ideal inalcançável pelo rufar de tambores e pelo toque de flautas. Uma pessoa assim não se deterá até que se torne num Tseng ou Shi.
A faculdade exacerbada no debate conduzirá ao acúmulo de argumentos e o planejo de ardis, tal como o construtor com os seus blocos de construção ou o tecelão com os fios na construção de redes. Leva a deliciar-nos com a retórica e o debate mesquinho e sem sentido com respeito à semelhança e à divergência até perdermos o fôlego. Tal resulta num Yang (Mestre de Hedonismo) e Mo (Mestre que ensinava o amor por todas as coisas). Consequentemente toda essa gente complicada percorre uma via fastidiosa e pouco uso terão a dar à verdadeira rectidão do mundo.
Aquele que se encontra verdadeiramente no Caminho não abre mão da sua Natureza Inata ou Singularidade. Para um homem assim, aquilo que se acha unido não representa problema, e nem o acordo constitui qualquer redundância, nem a divergência representa coisa supérflua. O longo jamais será demasiado longo nem o curto será demasiado curto.
As patas do pato, p.ex., são curtas, e se procurásemos esticá-las causar-lhe-iamos sofrimento. As patras do ganso são alongadas, mas cortá-las levá-lo-ia a sentir pesar. O que a natureza cria longo não precisa ser esticado; assim, tão pouco deveríamos tentar encurtar o que a natureza produziu de comprido. Tal não seria maneira de se livrar da preocupação.
benevolência e rectidão discriminatórias
A presunsão é, pois, e que a benevolência e a rectidão não sejam inerentes à natureza humana. Quanta ansiedade não envolve o exercício da benevolência e da rectidão!
A quem tivesse dois dedos unidos se haveria de causar imenso sofrimento se tentássemos separá-los. Do mesmo modo, se tentássemos cortar-lhe um dedo extra, isso irá causar-lhe dor. De ambas as situações se poderá dizer que uma goze de mais enquanto a outra goze de menos, mas que procurar homogeneizá-las nos evaria a causar idêntico sofrimento.
Os benévolos dos tempos modernos encaram os males da sociedade com mácula, ao considerarem os males com a visão toldada de que padecem, e enchem-se de pesar, enquanto aqueles que carecem por completo de benevolência nivelam a natureza original das coisas em função da ganância de fama ou fortuna.
Daí que me interrogue se a benevolência e a rectidão farão parte da verdadeira natureza humana. Desde o começo das dinastias até aos dias actuais, quanta confusão e incómodo a questão não terá trazido ao mundo.
Quando se utiliza fio-de-prumo, esquadro ou compasso (bitolas) a fim de se conseguir linhas perfeitas isso implica o corte de partes naturalmente existentes. Quando se recorre ao uso de cordas e nós, cola ou verniz, para unir ou ligar as coisas, isso implica no comprometimento da virtude original. Do mesmo modo, as flexões e as pausas empregues nos rituais e nas músicas, os sorrisos e as aparências radiantes da benevolência e da rectidão destinam-se a animar toda a gente, mas ignoram os princípios inerentes à natureza humana. E tudo possui a sua natureza inata.
Posto isso, o que é curvo não o é pelo uso do compasso, nem o que é direito ou quadrado o é pelo uso do fio-de-prumo ou do esquadro. Não adere pelo uso de cola nem de verniz, nem é seguro por acção de cordas nem de nós.
Todas as coisas no mundo são simples e condescendentes conforme a sua natureza, sem razão e sem saber como. Sempre foi assim, hoje como no passado, e isso não deveria causar a menor diferença.
A indulgência e a rectidão não fazem, pois, qualquer sentido. Enredar e adestrar a fim de conduzir ao caminho da virtude, nada mais faz que confundir. Contudo, se a confusão e o equívoco forem de menor monta, alterarão o sentido e o propósito. Mas uma confusão e um equívoco significativos alterarão a própria natureza das coisas. Como saberei se é assim?
Desde os tempos do governante Yu, que começou a pregar a benevolência e a rectidão, que as coisas começaram a ficar distorcidas e todo o mundo começou a sentir-se enfadado, e as pessoas jamais deixaram de se inquietar e precipitar numa corrida para viverem de acordo com tais princípios. Não se deverá tal coisa ao facto de benevolência e rectidão nos terem alterado a natureza básica?
em função de diferentes causas
Procurarei, pois, explicar o que quero dizer com isto. Desde o começo das dinastias até aos dias actuais, tudo no mundo viu a sua natureza original efectada por uma coisa qualquer externa. O indivíduo de má índole ou mesquinho terá visto a sua natureza original ou o próprio corpo em risco   em função do proveito. O alto funcionário arrisca a sua vida pela família. O sábio arrisca o próprio ser em função de todas as coisas. Todos o fazem de modo diverso, e por diferentes razões, mas todos arriscam a vida do mesmo modo.
Por exemplo, o escravo ou a escrava que andavam a pastar as ovelhas deixaram ambos que elas fugissem. Se perguntarmos ao rapaz como isso terá sucedido, ele dir-nos-á que estava a juntar as suas canas de bambu e a ler; e se perguntarmos à rapariga ela dir-nos-á que estava a diverrtir-se com uma brincadeira qualquer. Ambos estavam a ocupados de diferentes modos mas ambos deixaram que o gado se extraviasse do mesmo modo.
Po Yi morreu no fundo da ravina do monte Shou Yang em função para manter o renome. O ladrão Chi morreu lá para os píncaros do oriente em função do proveito. Ambos morreram de modo diferente mas o facto é que ambos encurtaram a vida e arruinaram a sua natureza inata. Contudo, é suposto que encorajemos Po Yi e desaprovemos o ladrão Chi. Estranho, não?
Se as pessoas pelo mundo todo se sacrificarem em situações dessas por razões de benevolência ou de rectidão, as pessoas tratá-las-ão com nobreza e deferência; se alguém fizer tais sacrifícios em função da riqueza ou da fama, as pessoas chamam-lhe avaro e mesquinho. O sacrifício é o mesmo, no entanto tratam um como um homem honrado e o outro como um homem pérfido. Mas em termos de sacrificarem a sua vida e de prejudicarem a sua verdadeira natureza, tanto o ladrão Chi como Po Yi fizeram o mesmo. Assim, porque diferenciá-los em termos de nobreza e de perfídia?
a correcta perspicácia
Aqueles que se dedicam à benevolência e à rectidão podem percorrer o mesmo caminho que Chang e Shi, mas eu não os teria na conta de sábios. Aquels que se dedicam aos cinco sabores poderão percorrer a mesma via que o chefe Shu Erh, mas eu não os chamaria sábios. Aqueles que se aplicam às cinco cores, podem percorrer a mesma via que Li Chu, que eu não os consideraria espertos.
A descrição que faço da sabedoria nada tem que ver com a benevolência ou a rectidão mas prende-se, ao invés, com a sensatez para com a nossa natureza original e nada mais. Quando falo do correcto ouvir não refiro o escutar somente mas dar atenção a nós póprios. Quando falo da perspecácia da visão não refiro a observação dos outros mas a de nós próprios.
O facto está em que aqueles que não têm uma perspectiva de si próprios e não se observam na participação que têm, e observam e entendem os outros ao invés, não se entendem a si mesmos. Podem ser bem-sucedidos no reconhecimento do que diga respeito aos demais, mas quanto ao reconhecimento deles próprios falham. Sentem-se atraídos por aquilo de que os outros desfrutam e apreciam mas não conseguem encontrar fruição em si mesmos. Em casos que tais, quer se trate de um ladrão ou de um nobre, tal pessoa achar-se-á de igual modo iludida e enganada
Aquilo de que me envergonho é de fracassar no Caminho e na Virtude, pelo que não me preocupo em distinguir por actos de benevolência e de rectidão, nem por chafurdar em práticas idiotas e inúteis.

CASCOS DE CAVALOS

lidar com as coisas como pudermos
Cavalos com cascos conseguem percorrer o gelo e a neve, e com pelo conseguem suportar o vento frio. Comem erva e bebem água e fazem cabriolas e pinotes bruscos. Essa é a verdadeira natureza dos cavalos. Ainda que lhes providenciássemos magníficos estábulos e currais, isso para eles seria de muito pouco valor.
Mas quando surgiu Po Lo, ele disse que sabia domar cavalos, e os homens começaram a cinji-los e a colocar-lhes ganchos no pelo, a aparar os cascos, a marcá-los e a colocar-lhes bridas. Começaram a conduzi-los com rédeas e a pôr-lhes grilhões e a prendê-los em estábulos, e em cada dez começaram a morrer dois.
Fizeram-nos passar fome e sede, fizeram-nos correr e a mostrá-los em paradas de forma ordeira e em filas regulares, mantendo diante deles o cabresto e as cintas de couro e o medo do chicote e do adestramento por trás deles, e mais de metade deles morreram.
O primeiro oleiro que apareceu disse:
“Eu sou perito no trabalho do barro. Moldo peças redondas tão perfeitas como se fossem traçadas a compasso, e quadradas como se fossem feitas com o esquadro.”
O primeiro carpinteiro que surgiu disse:
“Eu sou perito no trabalho da madeira. Faço peças curvas como se por acção de escantilhões e direitas como se com a ajuda da régua.”
Contudo, estará na natureza do barro e da madeira ser moldado com compasso e com escantilhão? No entanto, geração após geração os homens disseram que Po Lo era bom no adestramento de cavalos e que o oleiro e o carpinteiro eram boons no trabalho do baro e da madeira. Mas esse é o erro que cometem todos quantos  governam todas as coisas no mundo.
aderir a uma benevolência prática
Suspeito que quem soubesse governar o mundo e todas as coisas não o faria assim. As pessoas possuem a sua natureza constante e regular e tecem vestes para vestir e lavram a terra para comer. A isso se chama Integridade Comum. São todas idênticas nisso e não se separam em facções antagónicas, mas permanecem correctas e verdadeiras. A isso se pode chamar Liberdade Espontânea.
Assim, no tempo da perfeita virtude os homens caminhavam com uma integridade e solenidade destituídas de artifício e encaravam o porvir com confiança e ideias assentes. Por essa altura não existiam passagens nem túneis nos montes, nem pontes ou barcos para cruzarem os pântanos. Todas as criaturas viviam em grupos e tinham acampamentos contíguos.
As aves e as bestas multiplicavam-se e formavam bandos e grupos, e as pastagens e as árvores cresciam luxuriantes. É verdade que nesses tempos as aves e os quadrúpedes podiam ser domesticados, mas ainda podiam vaguear sem constrangimentos. As pessoas podiam trepar até aos ninhos das pegas e espreitar sem causar perturbação. Num mundo desses os homens podiam viver lado a lado com os pássaros e os quadrúpedes e viver em comum partilha. Ninguém conhecia distinções de superioridade ou subjugação.
Asim também sucedia que, sem conhecimento de tais distinções não se esviavam da virtude. Livres do desejo, podiam seguir a verdadeira natureza da simplicidade a que chamavam “tosca.”
Depois surgiram os sagazes a esforçar-se na sua humanidade, vagarosos no exercício da retidão e da benevolência e todos no mundo começaram a duvidar. A música proliferou e os ritos multiplicaram-se e tudo começou a ser objecto de divisão. Se o simples e o tosco tivessem permanecido intactos, quem se daria ao trabalho de esculpir um vaso sacrificial? Se o jade tivese permanecido no seu estado bruto, como poderiam fazer dele ceptros e símbolos da etiqueta? Se o Tao e a virtude não tivesem sido ignoradosm quem quereria optar pela benevolência e pela retidão? Se a natureza inata não tivesse sido descartada, que utilidade teriam a musica cerimonial e os rituais? Se as cinco cores e os cinco tons não tivessem sido confundidos, como poderiam er surgido padrões e porque haveria necessidade de os suplementar com convênios?
A talha do tosco e do rude em instrumentos constitui o erro do artesão. O enfraquecimentodo caminho e da virtude com a benevolência e a rectidão foi o erro do sábio.
como cavalos em espaço aberto
Voltando ao tema dos cavalos, se lhes for permitido viver no meo selvagem, eles poderao alimentar-se de erva e beber água. Quando se acham satisfeitos, esfregam os pescolos uns nos outros. Quando se sentem perturbados voltam os costados uns para os outros e escoiçeiam. Isso é tudo quanto conhecem. Se lhes colocarem arreios e os alinharem à força com traves e correias, tudo quanto saberão fazer será tentar quebrar tais traves e romper o jugo e esmagar o caro e expulsar o freio e morder as rédeas. Por conseguinte, levar o cavalo naquilo que sabe fazer a portar-se como não deve, tal foi o crime de Po Lo.
No tempo do Membro do Clã Ho Hsu, as pessoas permaneciam nas suas funções e postos sem saberem que mais fazer. E quando saiam não sabiam para onde se dirigiam. Saciavam-se e contentavam-se por perambular de barriga cheia. Isso era tudo quanto conheciam. Mas depois surgiram os sagazes com o servilismo, a adulação, a bajulação, os rituais e a música cerimonial e infectaram tudo com o conhecimento da natureza. Puseram a nú a humanidade que os caracterizava e propuseram a benevolência e a rectidão com base na premissa de lhes saciar a predileção pelo saber. Em resultado acabaram na contenda em função do ganho e não mais puderam ser detidos na busca da vantagem. Esse foi igualmente o erro dos sagazes.


CAPÍTULO 10
SAQUEANDO COFRES

os regulamentos de sábios
Para se resguardarem dos ladrões que assaltavam os valores as pessoas asseguravam-se de os preservar com cadeados e ferrolhos. Isso é o que o senso comum chama de sensato. porém, se forem assaltados por um perito na matéria, ele levará simplesmente consigo caixas e sacos aos ombros temendo unicamente que fechos e ferrolhos não os mantenham fechados.
Assim sendo, não estará aquele a quem referi como “sensato! meramente a juntar coisa para o ladrão levar?
Procurarei explicar o que quero dizer. Não estará aquele que o mundo em geral preza como um “sábio” simplesmente a guardar coisas para o ladrão? Como haveremos de saber se assim não será?
Há muito tempo atrás no estado de Chi nas aldeias vizinhas as pessoas podiam ver-se umas às outras e os galos e cães ser escutados nos seus chamados. Lançavam as redes sobre as águas e lavravam a terra por milhas de extensão. Construíam templos nos seus limites e erigiam altares em homenagem às colheitas e à terra e governavam as aldeias e a elas próprias segundo orientações dos sábios.
mas um dia o visconde Tien Cheng assassinou o governante de Chi e usurpou o estado. mas terá sido somente o estado que ele usurpou? Não. Também usurpou as leis instauradas pelos sábios. Assim, conquanto tenha ganho, o visconde Tien Cheng arcou com o título de ladrão e de gatuno. Soube manter-se com a firmeza de um Yao ou um Shun. Os estados menores não se atreveram a apontar-lhe defeitos e os estados maiores não se atreveram a puni-lo.
Assim, durante doze gerações a sua família governou o estado de Chi. Consequentemente, não só ele usurpou o estado como usou as leis erigidas pelos sábios para se resguardar no seu acto, embora fose um ladrão e um gatuno.
restringir o saber
Vejamos e o consigo explicar. Aquilo que o mundo em geral cahama de sensato, em última análise não será o acúmulo de coisas para os gatunos usurparem? Não será o chamado sagaz responável pelo maior roubo? Como haveremos de saber se assim não é?
da contensão do roubo
Há muito tempo atrás Lung Feng foi executado e Chan Hung foi dilacerado e o corpo de Tzu Shu deixado ao tempo a apodrecer. (Conselheiros que procuraram reformar os governantes e que foram executados pelo sofrimento resultante) Homens de boa índole como o foram, não conseguiram escapar a mortes tão horríveis.
Mas um menbro do gangue do Ladrão Chi interrogou o líder quanto à existência de uma via de virtude para a profissão de ladrão, ao que Chi lhe respondeu dizendo que tudo tinha a sua virtude, e que o ladrão exercita o mérito que alcança através do roubo e da sagacidade que demonstra na conjetura e da coragem que emprega no facto de entrar em primeiro lugar e que demonstra em sair por último e na decisão que toma com base na possibilidade, e na benevolência que comprova com a distribuição equitativa dos bens furtados. Sem atributos desses ninguem chegaria a ser cognominado de “grande ladrão.”
Considerando tudo isso, torna-se claro que, se os homens bons não seguirem a via dos sábios, não se conseguirão estabelecer enquanto tal. E o Ladrão chi não poderia ser bem-sucedido caso não o fizesse. mas neste mundo os homens bons são poucos enquanto os medíocres abundam. Assim, os benefícios do sábio são poucos mas os danos que infligem ao mundo são muitos.
“Quando os lábios faltam os dentes regelam.” (Provérbio Chinês que alude à interdependência natural das partes. Quando uma sofre a outra torna-se preclitante)
A surrapa (vinho adulterado) de Lu conduziu à guerra de Han Tan. Quando surge o sagaz surgem os grandes ladrões. Destronem a sagacidade e deixem que os ladrões e os larápios sejam desencorajados, e então o mundo ficará em ordem e poderá ser governado.
Quando os rios secam o vale torna-se árido. Quando se nivelam e arrasam as colinas as lagoas são cheias. Mas se a sagacidade desaparecer, então não surgirão ladrões, e o mundo ver-se-á livre da agitação. Se a sagacidade não desaparecer, então grandes ladrões continuarão a aparecer. Quanto mais a sagacidade for encorajada no governo do mundo, mais isso contribuirá para a ajuda de gente como o Ladrão Chi.
Se estabelecerem pesos e medidas na aferição, então ele roubará com peso e medida. Se estebelecerem contractos e acordos legais a fim de inspirar a confiança, as pessoas roubarão por contracto e por acordo legal. Se instaurarem a benevolência e a rectidão a fim de assegurarem a honestidade, mesmo assim a benevolência e a rectidão os ensinará a roubar.
Como haveremos de saber se é assim?
Este rouba uma fivela e é executado; aquele rouba o estado e é eleito regente. Contudo, é no âmbito dos regentes que mais se proessa a benevoência e a rectidão. Não será isso atentar contra a humanidade, a justiça e a sabedoria? Assim, aqueles que seguem o exemplo dos grandes ladrões e exaltam os nobres e atentam contra a humanidade e a justiça juntos com todos os ganhos decorrentes da contabilidade de ábacos e balanças não se deixarão dissuadir nem mesmo com a recompensa de carruagens e de coroas nem com o maxado do carrasco os constrange, mas aumentam em número. O impossibiltar o aumento do proveito do Ladrão Chi constitui o erro do sagaz.
competência, visão e conhecimento
Tal como se diz que “Não se tira os peixes das águas profundas,” também os assuntos de estado não devem ser do conhecimento comum. A sabedoria do sábio constitui o meio de controlo de todas as coisas, pelo que não devem ser revelados a qualquer um. Por conseguinte, tratem de abulir a sagacidade e de abandonar o saber e os ladrões deixarão de surgir. Descartem o jade e as pérolas enquanto objectos de valor, e os larápios não se dedicarão au roubo. (NT: De notar de a distinção que respeito entre “ladrões” e “larápios” não é fortuita, mas prenhe de significado) Queimem os instrumentos de contagem e rasguem os convénios e as pessoas retornarão à simplicidade. Esmaguem os pesos e as medidas e as pessoas abandonarão a contenda e anulem as leis que os regentes impuseram e as pessoas deixarão de argumentar.
Confundam os seis tons, destruam as flautas e o s alaúdes, tapem os ouvidos do Mestre Chuang (músico) e então toda a gente será capaz de de ouvir correctamente como que pela primeira vez. Se abulirem os adornos junto com as cinco cores e cerrarem os olhos de Li Chu, então toda a gente será capaz de ver com clareza como que pela primeira vez. Destruam bisel e régua, abandonem esquadro e quebrem os dedos ao artesão Chui e pela primeira vez o mundo disporá e fará uso de competências reais.
Há um ditado que diz: “A arte mais grandiosa assemelha-se a um disparate.”
Descartem as condutas como a de Tseng Shi, fechem a boca a Yang e a Mo, expurguem abenevolência e a rectidão e ninguém se deixará distrair mas comecará, em vez disso, a revelar a sua misteriosa excelência.
Quando as pessoas alcançarem a verdadeira visão, ninguém se deixará lograr. Se recobrarem a virtude ninguém se deixará aviltar.
significativa confusão
Homens como Tseng Shi,Yang, Mo, o músico, Kuan, o artífice, Chui ou Tseng, Chu, revelam a sua virtude no exterior. Eles conduziram o mundo ao fulgor da admiração. Um procedimento assim não faz sentido.
Sereis vós o único que nada sabe da era da perfeita virtude? Em épocas passadas, no tempo de Yung Cheng, Ta Ting, Po Huang, Chu Yang, Li Lu, Li Hsu, Hsien Yuan, Ho Hsu, Tsu Lu, Chu Jung, Fa Hsi, e Shen Nung, (Governantes mitológicos ou sábios da antiguidade) as pessoas seguiam  as suas naturezas. Contavam por nós que faziam em cordas e davam uso às redes. Apreciavam a comida simples e achavam-na saborosa. Contentavam-se com os estilos de vida que tinham e encontravam alívio nas suas habitações simples.
Podiam ver os estados vizinhos e escutar os seus galos e cães nos seus chamados e latidos, mas as pessoas jamais transpunhasm as suas fronteiras. Nesa altura a perfeita harmonia imperava enquanto norma. Actualmente as pessoas vivem na agitação e procuram apurar o que acontece e dizem: “Em tal parte existe um homem de virtude,” de modo que para lá se dirigem de armas e bagagens, abandonando pais e lares e deixando de satisfazer os deveres que têm para com os governantes. Deixam pegadas que se tornam visíveis de um estado até ao outro, e pistas de rodados de carruagens que se estendem por vastas milhas. Isso representa uma falha da parte daqueles que detêm autoridade, no zelo excessivo que nutrem pelo conhecimento.
Quando os superiores anseiam de verdade por conhecimento mas carecem de virtude, tudo será deixado numa enorme confusão. Como saberemos se isso será assim?
Quanto mais conhecimento tiverem da construção de arcos e de bestas e de flechas e de armadilhas, redes de pesca e armadilhas, iscos e anzóis, mais as aves que voam pelos céus serão deixadas na agitação e os peixes a dispersar-se nas águas. Quanto mais conhecimento tiverem para montar paliçadas e armar ciladas, mais os animais dos pântanos serão lançados na confusão.
Quanto maiores forem a astúcia e o engano, a perfídia e a retórica, a prevaricação e os argumentos de igualdade e de diferença, maior será a tendência para estabelecerem o acordo aparente entre o indêntico e o divergente, mas o resultado será que as pessoas cairão na confusão e na disputa. Assim, quando todo mundo cai na confusão, a culpa assent ana predileção pelo saber.
Todos sabem como perseguir o conhecimento que não possuem, mas desconhecem como descobrir o conhecimento que já possuem. Qualquer um é capaz de condenar aquilo de que não gosta e que considera mau, mas ninguém sabe condenar o que considera bom, e isso é causa de grande confusão.
É como se o brilho de sol e lua, por cima, se tivesse obscurecido; como se por abaixo, o vigor produtivo de vales e rios tivesse esmorecido; e é como se, pelo meio, o fluxo natural das quatro estações tivesse sido interrompido, caso em que não restaria nenhum insecto ou planta que cresça que não perdesse a sua própria natureza. Isso resulta da busca do saber, e grande é a desordem que produz. Desde o começo das dinastias que isso é assim. As pessoas são negligênciadas na mentalidade singela que têm e as representações plausíveis do espírito da inquietação são acolhidas com prazer, enquanto aduladores sem espinha se veem encorajados. os métodos calmos e plácidos de não interferência são desprezados e obtêm prazer pelas expressões do que deixa o mundo na desordem.

CAPÍTULO 11
DO GOVERNO DO HOMEM E DO MUNDO
ACEITAÇÃO E TOLERÂNCIA

Sobre o Contentamento e a Insatisfação dos Homens

Ouço falar em deixar o mundo em liberdade, em exercitar a paciência, e em não interferir, mas jamais ouvi falar de governar ou controlar o mundo. Preservámo-lo em paz com receio de que os homens interfiram nele e aceitámo-lo com receio de que os homens sejam afectados de forma adversa na virtude. Se a natureza de todas as coisas não for corrompida e se a sua integridade não for espoliada, então que necessidade haverá de governar o mundo?

Há muito tempo atrás o sábio Yao governava todas as coisas, todo mundo vivia contente com a sua natureza. Em parte nenhuma existia carência. Mas quando o tirano Chieh governava tudo sob o céu, deixava todo o mundo aflito e exausto, todos achavam a vida um ardo e a natureza implacável e não reinava contentamenteo em parte alguma. A falta de repouso e de contentamento atentam à integridade e não há quem resista muito tempo à negação da sua integridade.

Andarão os homens excessivamente animados? Caso assim seja, padecerão de excesso do elemento Yang (da expansão). Andarão excessivamente irritados? Nesse caso, o elemento contrário neles, o Yin, achar-se-á excessivamente desenvolvido. Se o equilíbrio de Yin e Yang for perturbado, as quatro estações não seguirão o seu curso (naturalmente) e a harmonia de frio e quente não será mantida, e isso acabará por resultar em prejuízo para o corpo. Se as pessoas perderem a perspectiva equilibrada do contentamento e da irritação, andarão inquietas e perderão a constância e a satisfação, e deixarão por completar aquilo que tiverem começado. Num estado de coisas assim o mundo começará a elaborar objectivos elevados e terá lugar a ambição e o ódio, o que constitui o terreno fértil para ladrões como Chih, Tseng e Shih.

Então, recompensar-se-á o bem e punir-se-á o mal; recompensar-se-á o bem, só que jamais haverá recompensa em demasia; punir-se-á o mal, mas nunca castigarão o suficiente. Por isso, tudo o que existe, conquanto grandioso, não se presta nem se adequa a induzir nem a dissuadir (recompensa e castigo) e tudo, desde as três dinastias para cá, nada mais foi que azáfama e excitação, preocupação com recompensas e castigos, pelo que os homens não encontram repouso nas qualidades essenciais da sua natureza inata nem nos atributos do destino.

Aquele que é superior permanece inactivo

Além disso:
O cultivo prazeroso da visão conduz ao excesso e à corrupção (da estética);
O cultivo agradável do ouvido tende a corromper a pureza do som;
O cultivo deleitoso da justiça instaura no homem leva-o a voltar costas à razão e à correcção, e confundir a virtude (princípios);
A prática gratificante das cerimónias presta-se ao cultivo da artificialidade;
O cultivo encantador da música contribui para a sedução (dissolução) e a dissonância;
O deleite pela sagacidade presta-se à capacidade inventiva e à esperteza;
O cultivo do conhecimento contribui para a repressão e a censura.

Se os homens se firmarem nas qualidades da sua natureza inata e nos atributos do seu destino, essas oito formas de cultivo não farão a menor diferença. Se os homens não se centrassem na verdadeira forma da sua natureza e destino, então essas oito formas de gozo causarão desinquietação e distorção e o mundo cairá no desequilíbrio e na desordem. Quando os homens começam a tê-las em reputação e a ansiar por elas, grande é a decepção que causam ao mundo. Não é coisa de pouca monta, por as pessoas se excederem em jejuns e orações e apregoarem tais coisas como tesouros, e tocarem tambores e lhe prestarem culto. Mas aí, que se poderá fazer para se remediar o mal?

Por isso, quando nada resta fazer ao homem superior senão orientar todas as coisas existentes sob o céu, nisso não há melhor política que a da não interferência (inacção). Dessa forma poderá repousar (centrar-se) na real substância da sua natureza e destino.

Se ele valorizar o próprio mundo como valoriza o corpo, então o mundo poderá ser-lhe entregue ao cuidado. Àquele que ama o mundo como ama o seu corpo, pode-se-lhe confiar o mundo.

Intrometer-se com a mente

Portanto, se o homem superior não dissipar os seus órgãos vitais e não lhes causar dano, nem cultivar faculdades exacerbadas da visão e do ouvido, conquanto permaneça inactivo como um cadáver, denotará poder de presença, preservará o silêncio e o espírito activo, e o céu acompanhá-lo-á; mantém a postura na inacção enquanto a miríade de coisas existentes se assemelha a grãos de poeira a flutuar no ar. Então que bem se colherá do governo de todas as coisas existentes sob o céu?

Tsui Chu interpelou Lao Tzu dizendo:
“Se o mundo não for governado, como se poderá aperfeiçoar a mente (índole) dos homens?”
Lao Tzu disse-lhe:
“Toma cuidado com a forma como lidas com a bondade natural do homem. Quando constrangido o coração do homem pode cair na depressão, quando encorajada, pode cair na exaltação. E os homens podem ser aprisionados ou incorrer no dano tanto pela depressão como pela exaltação. É tão delicado que pode sofrer desgaste em face da instigação e da subjugação; no entanto, os seus ângulos são suficientemente afiados para cinzelar e esculpir. A sua mente assemelha-se a um fogo abrasador e a um frio como o do gelo. A sua mente pode ficar tão agitada que se pode dispersar num ápice, em meio à distracção. Uma vez em repouso, é tão profundo quanto um abismo. Activo, revela-se remoto como o céu. Foge de tudo quanto tender a atá-lo. Tal é o coração da humanidade.

Há muito, muito tempo atrás, o Imperador Amarelo foi o primeiro a perturbar a mente dos homens com todo o jargão (hipocrisia) sobre a benevolência e a justiça. Em resultado, Yao e Shun mataram-se a trabalhar para alimentar os seus súbditos e esforçaram-se por estabelecer códigos de leis e por praticar a benevolência e a justiça, que esgotaram as pessoas para as sujeitar à benevolência e o dever; mas não conseguiram obter sucesso. Nesse sentido, Yao teve que enviar Huang Tou ao Monte Chung a fim de banir as três tribos Miao e o ministro do trabalho para a Cidade Negra (Yutu). Tal foi a extensão do insucesso que tiveram no governo do mundo.
O que nos conduz às Três Dinastias, quando o mundo se encontrava no caos e na desordem e reinava a consternação.

Entre os mais baixos tipos de carácter contava-se com o ditador Chieh e o ladrão Chih. Nos mais elevados tipo de carácter encontrava-se Tseng Chen e Shih Chin. Por fim surgiram os Confucianos e os Moistas, em resultado do que os contentes e os furiosos se passaram a encarar com suspeição mútua, os complacentes e a sagazes passaram a ditar regras uns aos outroa; os fanfarrões e os homens honestos trocaram recriminações, e o mundo caiu na decadência.

As perspectivas sobre a grande Virtude não mais coincidiam e a natureza interior com os seus dons e o destino foram calcados aos pés. Todos cobiçavam o conhecimento mas as pessoas andavam aturdidas e exauridas com a busca do bem.
Recorreram a machados e a serras e sentenciaram com base na culpa e condenaram por decreto, e instauraram a pena de morte. O martelo e a bitola foram usados na condenação, e o mundo caiu na desordem. O crime teve origem na intromissão no íntimo dos homens. Em resultado disso, os dignos de mérito tiveram que se esconder entre as montanhas e os príncipes dos exércitos refugiaram-se com medo e alarme nos santuários dos seus antepassados.

Na actual geração, os corpos daqueles que foram executados jazem uns por sobre os outros, numa pilha; os que são obrigados a carregar grilhões e cangas atropelam-se uns aos outros; os que foram sentenciados a punições acham-se presentes em todas as praças. E agora surgem os Confucianos e os Moistas com a sua presunção e arrogância por entre as massas de pessoas constrangidas. É uma desgraça que vão tão longe na audácia e descaramento que demonstram, uma total falta de vergonha. Porque não terão ainda percebido que a sagacidade dos eruditos pode muito bem representar os grilhões e as cangas, e que a benevolência e a justiça podem muito bem ser os cravos e os grilhões? Como saberemos se Tseng e Shih não serão os arautos do surgimento de ladrões como Chieh e Shih? É por isso que digo para abolirem a sagacidade e para abandonarem o conhecimento, e tudo sob o céu terá governo.

da compreensão do caminho
O Imperador Amarelo foi senhor do mundo durante dezanove anos: todo o mundo seguia os seus éditos, quando ele ouviu falar do Mestre Kuang Chen que habitava no topo do monte Kung Tung, e foi visitá-lo, dizendo:
“Ouvi dizer, senhor, que é proficiente no Caminho (Tao). Poderei aventurar-me a perguntar-lhe qual é a essência do Caminho Perfeito? Gostaria de captar a essência do Céu e da Terra, e de as usar para ajudar no cultivo dos cinco grãos e para alimentar as pessoas. Também gostaria de controlar o Yin e o Yang, para poder assegurar o crescimento de todas as coisas vivas. Com poderá isso ser conseguido?”
O Mestre Kuang Cheng respondeu:
“Aquilo que dizes querer é a verdadeira substância (superficial) de todas as coisas; aquilo que queres controlar acha-se cindido. Desde que começaste a governar todas as coisas sob o céum a chuva caiu antes mesmo que chegassem a formar-se nuvens; as árvores e os arbustos deixam cair as folhas sem que elas sequer amadureçam; a luz do sol e da lua estão cada vez mais a empalidecer. Tens um espírito frívolo e uma mente tagarela – que bem poderia advir de te revelar o Caminho Perfeito?”
O Imperador Amarelo retirou-se e deixou de governar o mundo; construiu uma cabana rústica onde estendeu um estrado feito de juncos e aí permaneceu imperturbável por três meses. Depois foi de novo apresentar o pedido.
O Metre Kuang Cheng encontrava-se deitado voltado para sul. O Imperador Amarelo com um ar de deferência, adiantou-se e ajoelhou. Fez duas vénias e disse:
“Ouvi dizer, Mestre, que sois um mestre do Tao Perfeito. Gostaria de perguntar como deverei governar o meu corpo para poder ter uma vida longa.”
Mestre Kuang Cheng de súbito sentou-se e disse:
“Excelente pergunta! Esplêndido! Vou-te ensinar o Tao perfeito. A sua essência acha-se envolta no mistério, perdida no silêncio. Nada há a ouvir; nada há a ver; quando se envolve o espírito na quietude e na pureza e não se sujeita o corpo à fadiga nem se agita a essência (força vital). Tudo isto resultará numa vida longa. Os olhos nada veem, os ouvidos nada escutam, a mente nada conhece. Assim, o teu espírito preservar-te-á o corpo e ele viverá por muito tempo. Tem cuidado com o que carregas no íntimo, bloqueia o que provenha do exterior, por o conhecimento em demasia ser perigoso. Conduzir-te-ei rumo à grande luz, e atingiremos a origem do perfeito Yang. Guiar-te-ei pelos portões do Obscuro Mistério, até à origem do perfeito Yin. Cèu e Terra têm quem os governe, o Yin e o Yang têm os seus recessos. Cuida e zela do teu corpo que o resto tomará conta de si próprio. Eu sustento a unidade e resido na harmonia; foi assim que cuidei de viver até aos mil e duzentos anos sem envelhecer.”
O Imperador Amarelo curvou-se duas vezes e disse:
“Mestre Kuang Cheng, para mim vós sois o próprio Céu.”
O Mestre Kuang Cheng retrocou:
“Esplêndido! Vou-te instruir. Aquilo que buscas é inesgotável, mas ainda assim as pessoas acham que tenha um fim; é insondável, mas ainda assim as pessoas acham que o conseguem abranger. Aquele que atinge o Tao, será sublime do alto, e um rei na terra. Aquele que falha na realização do Tao, pode ver o brilho acima, mas permanecerá submisso, na terra. Todas as criaturas que nascem provêm do pó e ao pó regressam. Por isso vou-te agora levar a penetrar as gargantas do inexaurível e vaguear pelos campos do ilimitado para aí nos misturarmos com o sol e a lua e tornar-nos eternos com o céu e a terra. Não considerarei o que esteja porvir e ignorarei o que quer que tenha passado. Todos poderão morrer, que só eu sobreviverei!”
O erro de governar os outros
Yun Chiang viajava para leste transportado nas asas de um furação, e de súbito encontrou Hung Mung, que andava aos saltos e a bater nas coxas, a pular como um pássaro. Yun Chiang vindo aquilo detêve-se e com reverência disse:
“Quem és tu, velho? Que andas a fazer?”
Hung Mung continuou a bater nas coxas e a pular com um pássaro, e logo respondeu:
“Estou a divertir-me.”
Yun Chiang olhou para Yun Chiang e disse:
“Isso é de lamentar!”
Yun Chiang disse:
“A própria essêmcia do Céu não mais se encontra em harmonia; os espíritos da terra não se misturam (Yin e Yang, vento e chuva, luz e trevas), as quatro estações não seguem a sua ordem natural. Mas agora quero combinar os seis espíritos para trazer vida a todas as coisas. Como conseguirei isso?”
Hung Mung sacudiu a cabeça, bateu nas coxas, deu um salto e respondeu:
“Eu não sei; não sei!”
Yiun Chiang não conseguiu prosseguir com as perguntas. Mas três anos mais tarde, ao viajar para leste, passou a região deserta de Sung e topou de novo com Hung Mung. Yun Chiang, muito satisfeito, acorreu junto dele e disse-lhe:
“Céu, esqueceste-te de mim? Céu, esqueceste-te de mim?”
Curvando a cabeça duas vezes desejoso de receber instrução da parte dele. Hung Mung disse:
“Vagueando sem rumo, não sei o que procurar, levado por um impulso desenfreado sem saber para onde. Vagueando num estado de perplexidade desses vejo que nada é sem razão. Que mais poderei saber?”
Yun Chien respondeu:
“Também sou impulsivo, mas as pessoas seguem tudo quanto faço. Não consigo evitar que o façam. Agora, por não conseguir evitar que me imitem, gostaria que me desses um conselho.”
“A interferência nos caminhos do Céu aflige a verdadeira natureza das coisas e detém o cumprimento dos Mistérios do Céu,” disse Hung Mung.
“Isso leva a que os animais se dispersem; os pássaros cantem pela noite; o infortúnio atinja as colheitas e os arvoredos; a calamidade atinja répteis e insectos. Esse é o erro decorrente de governar os homens.”
“Então, que deverei fazer?” disse Yun Chiang.
“Ah, quanta perversão! Vou-te deixar e vou dançar, e recobrar a transcendência.”
Yun Chiang retrocou:
“Tem-me sido difícil encontrar-te, Céu, pelo que te peço uma palavra.”
“Ah,” disse Hung Mung. “Fortalece a tua mente. Só precisas assumir a inacção (não interferência) e as coisas transformar-se-ão por si só. Livra o corpo e rejeita o poder da visão e da audição (sagacidade); esquece todas as relações e coisas e torna-te um com o Vasto e o Vazio. Liberta a mente e o espírito; Imerge na impassividade, e todas as coisas ao teu redor retornarão à sua origem, sem saberem porquê. Num estado constante de caos, nunca o chegam a abandonar ao longo da vida. Se procurarem entender como regressar à origem (ordem) afastar-se-ão dela. Não perguntem da sua razão nem procurem apurar do seu propósito, e as coisas seguramente chegarão a existir por si sós.”
Yun Chiang disse:
“Céu honrou-me com esta virtude e ensinou-me o seu mistério. Toda a minha vida o busquei e agora encontrei-o.”
Fez duas vénias e levantou-se e despediu-se e foi embora.
Aquele que não tem companheiros pode ser o mais nobre de todos
O homem comum sente-se satisfeito quando os outros se parecem com ele e concordam com ele, e sente-se desagradado quando tal não acontece; aqueles que demonstram afinidade pelos seus gostos e não mostram afinidade pelas suas aversões fazem-no sob influência da diferenciação dos outros, uma ânsia profundamente arraigada. Porém, se eles determinam que são diferentes dos outros, de que forma isso os diferenciará do resto? É melhor ir com todos e ficar em paz do que esforçar-se, independentemente do quão espertos sejam, por os outros todos juntos apresentarem mais competências. Contudo, quando querem administrar os outros estados, fazem-no com o fito apenas no proveito e em função do governante, e sem atender às suas preocupações, conforme os métodos de governo que as Três Dinastias achavam vantajosos; mas não perspectivam os perigos que isso envolve. Isso equivale a deixar um estado entregue à sua sorte. Mas, quantas vezes se poderá fazer isso sem se deixar o estado na ruína? Talvez um só em cada dez mil possa salvar o estado (nação) disso, ao passo que as chances de sair mais arruinado são de dez mil para um. É angustiante ver que os governantes não têm consciência do perigo disso!
Aquele que possui um grande estado possui o maior dos bens. Sendo senhor de uma grande coisa, ele deveria ser tratado como qualquer um e não se deixar influenciar pelos bens. Possuindo-se todas as coisas como coisas sem se deixar influenciar pelas coisas, é-se capaz de tratar as coisas com equidistância. Aquele que acalenta a percepção de tratar as coisas como coisas, em si mesmo não se compara a nenhuma. Consequentemente, não só governará os cem clãs (povo) e tudo quanto existe sob o céu, como transitará entre as seis direcções (norte, sul, este, oeste, para cima e para baixo) e as nove regiões, solitário nas idas e solitário nas vindas. Será o único senhor, e enquanto senhor único ele é o mais perfeito de todos.
Os ensinamentos dos grandes homens assemelham-se à sombra que o nosso corpo lança e ao eco que acompanha o som. Quando questionado, ele responde desdobrando-se em compreensão e levando o inquiridor a confrontar a sua própria mente. Permanece no silêncio e exerce acção no ilimitado; orienta os transviados e rem-rumo para o seu próprio objectivo; adopta e abandona o desapego no seu curso e não deixa rasto, semelhançe como é ao sol, sem começo nem fim.
Na descrição deles, diz-se que fazem parte da unidade com o Todo. O Todo não tem personalidade. Não tendo personalidade, como poderão ter posses? Aquele que detém posses é mais nobre enquanto aquele que nada tem é companheiro de Céu e Terra.
O céu assemelha-se ao espírito
As coisas são inferiores, no entanto são úteis.
As pessoas são humildes, porém, depende-se delas.
Os negócios (tarefas) são fastidiosos, mas precisam ser feitos.
As leis são agentes de coerção e imprecisas, no entanto precisam ser estabelecidas.
A integridade (justiça) parece distante mas necessitamos dela dentro de nós.
A benevolência é coisa íntima, porém, precisa ser universal.
As cerimónias são restritas, porém, precisam ser multiuplicadas.
A Virtude acha-se alojada no âmago, porém, precisa ser exaltada.
O Tao é Um, no entanto precisa ser modificado.
O Céu é espiritual mas precisa ser praticado (exercitado).

Por conseguinte, os sábios contemplam o Céu, mas não lhe prestam assistência. Encontram o seu aperfeiçoamento na virtude mas não deixam que ela os sobrecarregue.
Demonstram de acordo com o Tao, mas não fazem planos.
Recorrem à benevolência naquilo que empreendem, mas não dependem dela.
Perseguem extensivamente a justiça mas não procuram acumulá-la.
Cumprem com as cerimónias mas não evitam a opinião quanto às suas dificuldades.
Tratam dos negócios e não se esquivam às suas responsabilidades.
Procuram alicar as leis que estebelecem, mas não creem na sua eficácia.
Valorizam as pessoas e não as desconsideram.
Fazem uso das coisas e não as desconsideram.
É verdade que as coisas são íntimas, mas precisam ser usadas.
Aquele que não percebe o Céu com clareza, não terá a pureza da virtude.
Aqueles que não seguem o Tao não conseguem seguir nenhuma outra senda de forma bem-sucedida.
É pena que não consigam compreender o Tao!

Que é isso que chamamos de Tao? Há o Tao do Céu e o Tao da humanidade. Nada fazer atrai a honra: esse é o Tao do Céu. A acção representa o Tao da humanidade. O Tao do Céu é regente. O Tao da humanidade é servo. Ambos, acham-se afastados. Isso é algo que merece ser criticamente examinado.

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