quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

DO SEMELHANTE E DO DIVERGENTE




DO SEMELHANTE E DO DIVERGENTE
conhecimento da justa medida
Dedos interligados ou um dedo extra bifurcado pode ser coisa natural, porém, não é coisa que seja útil. Excrescências e tumores podem surgir no corpo mas não brotam da virtude do que quer que seja. Há diversos tipos de benevolência e de rectidão, e comummente associam-nos aos diversos órgãos vitais do corpo. Mas tal não é a via correcta da Virtude.
De facto, dedos interligados não passam de membranas adicionais inúteis e qualquer dedo extra será inútil. Desse modo associar isso aos órgãos vitais equivale a confundir a benevolência e a rectidão, conferir demasiada ênfase à audição e à visão.
um dom exacerbado poderá conduzir ao uso excessivo
Uma percepção assim exacerbada confundirá a distinção das cinco cores (multiplicidade) e levar-nos-á ao fascínio pelo ornamento e à confusão do resplandor do verde e do amarelo. Consequentemente, não pararemos até nos tornarmos num Li Chu. Uma apurada percepção auditiva conduzir-nos-á à produção profusa das cinco notas com as cordas e as flautas transversais, e não nos deteremos até que nos tornemos num Shi Kwang (Mestre de música).
Assim, o bem em excesso erradica a virtude e restringe a natureza original, ainda que em função da busca de fama ou de riqueza, e fomentará o ideal inalcançável pelo rufar de tambores e pelo toque de flautas. Uma pessoa assim não se deterá até que se torne num Tseng ou Shi.
A faculdade exacerbada no debate conduzirá ao acúmulo de argumentos e o planejo de ardis, tal como o construtor com os seus blocos de construção ou o tecelão com os fios na construção de redes. Leva a deliciar-nos com a retórica e o debate mesquinho e sem sentido com respeito à semelhança e à divergência até perdermos o fôlego. Tal resulta num Yang (Mestre de Hedonismo) e Mo (Mestre que ensinava o amor por todas as coisas). Consequentemente toda essa gente complicada percorre uma via fastidiosa e pouco uso terão a dar à verdadeira rectidão do mundo.
Aquele que se encontra verdadeiramente no Caminho não abre mão da sua Natureza Inata ou Singularidade. Para um homem assim, aquilo que se acha unido não representa problema, e nem o acordo constitui qualquer redundância, nem a divergência representa coisa supérflua. O longo jamais será demasiado longo nem o curto será demasiado curto.
As patas do pato, p.ex., são curtas, e se procurássemos esticá-las causar-lhe-íamos sofrimento. As patas do ganso são alongadas, mas cortá-las levá-lo-ia a sentir pesar. O que a natureza cria longo não precisa ser esticado; assim, tão pouco deveríamos tentar encurtar o que a natureza produziu de comprido. Tal não seria maneira de se livrar da preocupação.
benevolência e rectidão discriminatórias
A presunção é, pois, e que a benevolência e a rectidão não sejam inerentes à natureza humana. Quanta ansiedade não envolve o exercício da benevolência e da rectidão!
A quem tivesse dois dedos unidos se haveria de causar imenso sofrimento se tentássemos separá-los. Do mesmo modo, se tentássemos cortar-lhe um dedo extra, isso irá causar-lhe dor. De ambas as situações se poderá dizer que uma goze de mais enquanto a outra goze de menos, mas que procurar homogeneizá-las nos levaria a causar idêntico sofrimento.
Os benévolos dos tempos modernos encaram os males da sociedade com mácula, ao considerarem os males com a visão toldada de que padecem, e enchem-se de pesar, enquanto aqueles que carecem por completo de benevolência nivelam a natureza original das coisas em função da ganância de fama ou fortuna.
Daí que me interrogue se a benevolência e a rectidão farão parte da verdadeira natureza humana. Desde o começo das dinastias até aos dias actuais, quanta confusão e incómodo a questão não terá trazido ao mundo.
Quando se utiliza fio-de-prumo, esquadro ou compasso (bitolas) a fim de se conseguir linhas perfeitas isso implica o corte de partes naturalmente existentes. Quando se recorre ao uso de cordas e nós, cola ou verniz, para unir ou ligar as coisas, isso implica no comprometimento da virtude original. Do mesmo modo, as flexões e as pausas empregues nos rituais e nas músicas, os sorrisos e as aparências radiantes da benevolência e da rectidão destinam-se a animar toda a gente, mas ignoram os princípios inerentes à natureza humana. E tudo possui a sua natureza inata.
Posto isso, o que é curvo não o é pelo uso do compasso, nem o que é direito ou quadrado o é pelo uso do fio-de-prumo ou do esquadro. Não adere pelo uso de cola nem de verniz, nem é seguro por acção de cordas nem de nós.
Todas as coisas no mundo são simples e condescendentes conforme a sua natureza, sem razão e sem saber como. Sempre foi assim, hoje como no passado, e isso não deveria causar a menor diferença.
A indulgência e a rectidão não fazem, pois, qualquer sentido. Enredar e adestrar a fim de conduzir ao caminho da virtude, nada mais faz que confundir. Contudo, se a confusão e o equívoco forem de menor monta, alterarão o sentido e o propósito. Mas uma confusão e um equívoco significativos alterarão a própria natureza das coisas. Como saberei se é assim?
Desde os tempos do governante Yu, que começou a pregar a benevolência e a rectidão, que as coisas começaram a ficar distorcidas e todo o mundo começou a sentir-se enfadado, e as pessoas jamais deixaram de se inquietar e precipitar numa corrida para viverem de acordo com tais princípios. Não se deverá tal coisa ao facto de benevolência e rectidão nos terem alterado a natureza básica?
em função de diferentes causas
Procurarei, pois, explicar o que quero dizer com isto. Desde o começo das dinastias até aos dias actuais, tudo no mundo viu a sua natureza original afectada por uma coisa qualquer externa. O indivíduo de má índole ou mesquinho terá visto a sua natureza original ou o próprio corpo em risco   em função do proveito. O alto funcionário arrisca a sua vida pela família. O sábio arrisca o próprio ser em função de todas as coisas. Todos o fazem de modo diverso, e por diferentes razões, mas todos arriscam a vida do mesmo modo.
Por exemplo, o escravo ou a escrava que andavam a pastar as ovelhas deixaram ambos que elas fugissem. Se perguntarmos ao rapaz como isso terá sucedido, ele dir-nos-á que estava a juntar as suas canas de bambu e a ler; e se perguntarmos à rapariga ela dir-nos-á que estava a divertir-se com uma brincadeira qualquer. Ambos estavam a ocupados de diferentes modos mas ambos deixaram que o gado se extraviasse do mesmo modo.
Po Yi morreu no fundo da ravina do monte Shou Yang em função para manter o renome. O ladrão Chi morreu lá para os píncaros do oriente em função do proveito. Ambos morreram de modo diferente mas o facto é que ambos encurtaram a vida e arruinaram a sua natureza inata. Contudo, é suposto que encorajemos Po Yi e desaprovemos o ladrão Chi. Estranho, não?
Se as pessoas pelo mundo todo se sacrificarem em situações dessas por razões de benevolência ou de rectidão, as pessoas tratá-las-ão com nobreza e deferência; se alguém fizer tais sacrifícios em função da riqueza ou da fama, as pessoas chamam-lhe avaro e mesquinho. O sacrifício é o mesmo, no entanto tratam um como um homem honrado e o outro como um homem pérfido. Mas em termos de sacrificarem a sua vida e de prejudicarem a sua verdadeira natureza, tanto o ladrão Chi como Po Yi fizeram o mesmo. Assim, porque diferenciá-los em termos de nobreza e de perfídia?
a correcta perspicácia
Aqueles que se dedicam à benevolência e à rectidão podem percorrer o mesmo caminho que Chang e Shi, mas eu não os teria na conta de sábios. Aqueles que se dedicam aos cinco sabores poderão percorrer a mesma via que o chefe Shu Erh, mas eu não os chamaria sábios. Aqueles que se aplicam às cinco cores, podem percorrer a mesma via que Li Chu, que eu não os consideraria espertos.
A descrição que faço da sabedoria nada tem que ver com a benevolência ou a rectidão mas prende-se, ao invés, com a sensatez para com a nossa natureza original e nada mais. Quando falo do correcto ouvir não refiro o escutar somente mas dar atenção a nós próprios. Quando falo da perspicácia da visão não refiro a observação dos outros mas a de nós próprios.
O facto está em que aqueles que não têm uma perspectiva de si próprios e não se observam na participação que têm, e observam e entendem os outros ao invés, não se entendem a si mesmos. Podem ser bem-sucedidos no reconhecimento do que diga respeito aos demais, mas quanto ao reconhecimento deles próprios falham. Sentem-se atraídos por aquilo de que os outros desfrutam e apreciam mas não conseguem encontrar fruição em si mesmos. Em casos que tais, quer se trate de um ladrão ou de um nobre, tal pessoa achar-se-á de igual modo iludida e enganada
Aquilo de que me envergonho é de fracassar no Caminho e na Virtude, pelo que não me preocupo em distinguir por actos de benevolência e de rectidão, nem por chafurdar em práticas idiotas e inúteis.
Zuangzi
Tradução: Amadeu António



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