quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

CONDUTA PARA A VIDA





CONDUTA PARA A VIDA


Embora a vida tenha um limite, o conhecimento é ilimitado. Se fizermos uso do que é limitado na perseguição do ilimitado, isso perigoso será. Se o entendermos e ainda assim nos esforçarmos pelo conhecimento, certo será que reservará ainda mais perigo. Se praticardes o bem, afastai-vos da fama. Se cometerdes maldades, afastai-vos do castigo. Procurai o caminho do meio; guiai-vos pelo que é constante e conseguireis permanecer íntegros e vivos, cuidar dos vossos pais, e viver o tempo que vos resta.

O cozinheiro Ting estava a cortar um boi para o Lorde Wen-hui. A cada golpe de mão, a cada jeito de ombros, a cada movimento de pés, a cada golpe de faca a carne era cortada em postas num ritmo perfeito como se estivesse a executar a dança da chuva ou a manter o passo de uma música.

Lorde Wen-hui reparou: “Que maravilha. Como alcançaste tamanha perícia?”

O cozinheiro pousou a faca e disse-lhe: “Aquilo que me interessa é o Caminho, que suplanta a perícia. Quando comecei a cortar bois, só conseguia enxergar o boi. Após três noas não mais distinguia o boi. Agora aplico-me por inspiração e não me guio pelo olhar. A percepção e a compreensão detiveram-se e o meu espírito move-se por onde quer. Sigo o corpo na sua composição natural, começo por cortar nos pontos mais fracos e pelas aberturas, e sigo as coisas como elas são. Nunca toco nos ligamentos nem nos tendões, e muito menos nas principais articulações.

Um bom cozinheiro troca de faca uma vez por ano, por cortar. Um cozinheiro medíocre troca de faca uma vez por mês, por retalhar. Já tenho esta minha faca há dezanove anos e já cortei milhares de peças com ela, contudo, o gume encontra-se em tão bom estado como se tivesse vindo da pedra de amolar.

Há espaços por entre as juntas em que a lâmina não tem espessura que a impeça de modo que se a inserirmos em tais cavidades, então disporemos de imenso espaço – mais do que o suficiente para a faca poder cortar. É por isso que após dezanove anos a lâmina da minha faca está como nova.”

“No entanto, quando me deparo com uma peça complicada, avalio o grau de dificuldade que apresenta, mantenho a atenção e o cuidado, fixo os olhos naquilo que estou a fazer, movo-me muito devagar e aplico a faca com subtileza até abrir o boi em dois e ele cair por terra. Fico parado com a faca na mão a olhar em redor, completamente satisfeito e relutante em avançar, para a seguir limpar a faca e a guardar.”

“Excelente,” disse o Lorde Wen hui. Dei ouvidos ao meu cozinheiro e colhi a perfeita conduta para a vida!”

PECULIARIDADES DE SÁBIO

Quando Kung Wen Hsuan viu o comandante das tropas ficou espantado e exclamou: “Que tipo de homem é este? Porque terá sido punido com a perda de um pé? Terá sido punido pelo céu ou pelo homem?”

“Não foi pelo homem,” disse o comandante, “mas obra do céu. Quando o céu me deu vida, determinou que viria a ter unicamente um pé. A aparência do homem constitui uma dádiva, por isso sei que foi obra do céu e não do homem. O faisão dos pântanos precisa dar dez passos para dar uma bicada e cem passos para conseguir um gole de água., mas não tem a menor vontade de se ver atrás de uma gaiola. Embora o tratemos como a um rei, ele sabe que não será feliz.”

CONDOLÊNCIAS ARDILOSAS

Quando Lao Tzu morreu, Chin Shi foi lamentá-lo mas após ter dado três berros, deixou os aposentos cerimoniais.
Os discípulos de Lao Tzu perguntaram-lhe se não tinha sido amigo do mestre, ao que ele respondeu pela afirmativa. Os outros perguntaram-lhe se pensaria ser correcto pranteá-lo daquele modo.

“É, disse, Chin Shi. A princípio tomava-o como a um homem real, mas agora sei que não era. Há pouco, quando entrei para o prantear, dei com velhos a pranteá-lo como se tivessem perdido um filho, e jovens que choravam a sua morte coo se tivessem perdido a mãe. Para ter reunido um grupo desses, ele deverá ter feito algo que os tenha levado a falar dele, embora não lhes tenha pedido para falar nem querido que o chorassem, apesar de os ter levado a fazê-lo. Isso assemelha-se a negligenciar a natureza., voltar costas ao verdadeiro estado de coisas e esquecer aquilo com que nasceram.
Nos dias de Outono, chamava-se a isso crime por negligência da Natureza.

O vosso mestre veio por ter chegado o tempo, e partiu por seguir a ordem natural das coisas. Se vos satisfizerdes com o tempo apropriado e desejardes seguir a ordem natural das coisas, então nem a tristeza nem a alegria deverão comovê-los. A isso se chamava, nos velhos tempos, liberdade dos grilhões.
Mas embora o azeite se consuma no archote o fogo alastra sem que se saiba onde poderá terminar.”

Zuangzi

Tradução: Amadeu António

a; ao fim de sete dias Caos morreu.



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