sábado, 3 de dezembro de 2016

QUALIDADE DE VIDA, DISCIPLINA E TRABALHO


Prefácio (Skillful Means)

Para muita gente hoje, o trabalho está a perder o significado. Tal insatisfação não se limita a certas profissões, práticas ou crenças, mas inundam subtilmente todo o aspecto do trabalho Isso é lamentável, por o trabalho constituir um aspecto eficaz de aprendizagem da descoberta de uma profunda satisfação na vida. O trabalho pode constituir uma fonte de crescimento, uma oportunidade de aprendermos mais acerca de nós próprios e de desenvolvermos relações positivas e saudáveis. Se encararmos o trabalho desse modo, descobriremos que não existe diferença real entre a devoção das nossas energias e zelo ao nosso trabalho e a devoção das energias à melhoria da consciência e valorização da vida.

Contudo, nem sempre é fácil encontrar uma via para tornar o trabalho numa via para uma vida agradável. Ao trabalhar com os meus estudantes, procurei transmitir um encorajamento diário de modo que com uma maior prontidão conseguissem encontrar em si mesmos os meios para a obtenção de satisfação e realização a partir do trabalho que empreendessem. Isso não representava um ensinamento no sentido tradicional do termo, mas sugestões destinadas a orientá-los no seu trabalho e desenvolvimento pessoal. Este trabalho (publicação) foi feito a partir de anotações feitas durante esses debates diários e constitui simples expansão de muitas palestras informais mantidas, e aborda situações típicas que encontramos no trabalho e no viver diário, padrões de pensamento e de acção que muita vez nos impedem de atingir os objectivos e de descobrirmos um verdadeiro sentido na vida.

Alterar padrões formados no início da vida constitui uma das mais difíceis lições tanto a ensinar como a aprender. Geralmente cremos que os hábitos que tivermos seguido toda a nossa vida não possam ser alterados, e desse modo sentimos de certo modo estar limitados. Todavia, não existem realmente limites para o que podemos realizar, se verdadeiramente apreciarmos todas as oportunidades que a vida nos fornece. Podemos romper com as limitações autoimpostas, proceder a espantosas alterações, e descobrir novas capacidades que não tínhamos ideia de possuir. Mas o mais importante está no facto de podermos obter uma percepção dos nossos verdadeiros recursos.

A utilização do trabalho como meio de desenvolvimento e de crescimento marcou uma profunda diferença tanto nas vidas dos meus estudantes como na minha. Eu empenhara-me em trabalhar e em partilhar aquilo que cultivara com os demais: essa é a responsabilidade que assumo e o contributo que dou para com a vida. O trabalho educou-me de uma forma profusa, e eu estou imensamente grato pelas muitas oportunidades que tive para aprender e para partilhar.

Ao longo dos últimos vinte anos tive oportunidade de observar padrões de trabalho e estilos de vida tanto no oriente como no ocidente. Após ter deixado o Tibete em 1959, passei dez anos a ensinar e a trabalhar na Índia antes de vir para os Estados Unidos. Durante os últimos dez anos, trabalhei intensamente todos os dias com Americanos oriundos de várias formações e profissões diferentes, em áreas como administração de empresas, educação, administração, aconselhamento, construção, edição de livros e artes gráficas.

Embora eu ensine, sou, de coração, um estudante da vida e da natureza humana. A formação e o treino que recebi não me prepararam directamente para viver na cultura ocidental, mas eu interessei-me profundamente em aprender tanto quanto possível com a experiência prática do trabalho no ocidente. Muitas vezes, observar uma cultura a partir de um olhar estrangeiro pode proporcionar uma perspectiva fresca sobre situações e atitudes que são comummente tidas como certas. Eu senti e observei a insatisfação que muita gente experimenta no trabalho. Todavia, conquanto o meu próprio trabalho nem sempre tenha sido fácil, achei-o estimulante e compensador. As minhas experiências ensinaram-me a alegria inerente ao trabalho em toda a extensão e mostraram-me como um trabalho assim pode constituir um benefício para os demais.

O propósito deste livro é o de partilhar essas experiências convosco de modo que porventura possa ajudá-los a descobrir uma maior satisfação no trabalho e na vida. Cada pessoa é única e na vida cada situação varia, de modo que cada um poderá descobrir diferentes coisas de valor que lhe sirvam de impulso, uma maneira de identificar as dificuldades, de as superar, e de prosseguir no caminho do desenvolvimento e da satisfação.

Quando utilizamos recursos hábeis, abordamos directamente o nosso trabalho, agimos prontamente no sentido de solucionarmos os nossos problemas, e descobrimos as forças inerentes às nossas capacidades naturais inatas. Cada um de nós possui um tal potencial, e se o percebermos, poderemos então partilhar as percepções e apreço que tivermos com os outros, e eventualmente seremos capazes de trazer benefício e fruição a toda a humanidade, de modo a que todos possam aprender a viver com satisfação.

Estes são tempos difíceis, aqueles em que vivemos, em que tentamos fazer sentido das coisas, e muitos são os que procuram trazer satisfação e significado ao seu trabalho e à sua vida.

Introdução

Todo o ser vivo no universo expressa a sua verdadeira natureza no processo do viver. O trabalho constitui a resposta humana natural ao facto de estar vivo, o modo que temos de participar no universo. O trabalho permite-nos fazer uso pleno do potencial que temos, abrir-nos à infinita variedade da experiência que reside na mais mundana das actividades. Por meio do trabalho podemos aprender a usar a nossa energia de modo sensato de modo que todas as nossas acções sejam frutíferas e enriquecedoras.

Faz parte da nossa natureza de seres humanos satisfazer-nos e realizar-nos. O trabalho confere-nos a oportunidade de realizar tal satisfação por meio do desenvolvimento das verdadeiras qualidades da nossa natureza. O trabalho constitui a expressão hábil do nosso verdadeiro ser, o modo que temos de criar harmonia e equilíbrio, e de contribuirmos com a nossa energia para a vida, ao investirmos o nosso corpo, alento e mente numa actividade criativa. Ao exercermos a criatividade que possuímos cumprimos a função natural que temos na vida, e inspiramos todos os seres com a alegria de uma participação vital.

Cada um de nós tem uma ideia do papel que o trabalho desempenha nas nossas vidas. Sabemos que o trabalho pode apelar a um desempenho pleno todos os componentes do nosso ser, mente, coração e sentidos. Contudo, nos tempos que correm torna-se invulgar dedicar um tal envolvimento ao nosso trabalho. Na sociedade complexa dos nossos dias, perdemos contacto com o conhecimento do uso das capacidades para levar vidas eficazes e significativas. No passado a educação desempenhava um papel importante na transmissão do conhecimento necessário para se integrar a aprendizagem e a experiência, a fim de manifestarmos a nossa natureza íntima de uma forma prática. Hoje, esse conhecimento vital não mais é transmitido, razão porque a compreensão geral que temos do trabalho seja limitada e raramente cheguemos a alcançar a profunda satisfação que resulta de um trabalho hábil, a que dedicamos todo o nosso ser.

Talvez por não precisarmos empregar todos os nossos esforços para satisfazer as nossas necessidades básicas, raramente dediquemos os nossos corações e mente ao trabalho que empreendemos; de facto, trabalhar apenas o suficiente para se sobreviver tornou-se norma. A maioria das pessoas não está à espera de gostar do trabalho que empreende, e muito menos de o praticar bem, por o trabalho normalmente ser considerado como nada mais de que um meio destinado a um fim. Seja qual for a ocupação que tivermos, chegamos a pensar no trabalho como uma parte das nossas vidas que é morosa, por nos forçar a despender tempo, uma obrigação que não podemos evitar.

Se tivermos um forte incentivo para trabalharmos com afinco, poderemos faze-lo, porém se olharmos cuidadosamente a motivação que temos, veremos que muitas vezes é estreita no âmbito que apresenta, e dirigida principalmente para a obtenção de posição, ao aumento do poder pessoal e do domínio privado, protegendo o interesse de nome e de família. Esse tipo de motivação autocentrada torna difícil expressar e desenvolver o potencial que temos por intermédio do trabalho. Em vez de nos firmar nas qualidades positivas da nossa natureza, o meio de trabalho promove qualidades como a competição e a manipulação.

Há quem, em reacção a essa situação, pode optar por evitar por completo o trabalho. Quando se assume essa perspetiva, podemos chegar a acreditar estar em busca de uma virtude elevada. Mas em vez de encontrarmos uma alternativa saudável que possa aumentar a satisfação que temos na vida, na verdade limitamos mais o potencial que temos. Porquanto um viver isento de trabalho leva-nos a nos distanciarmos da própria vida. Ao negarmos à nossa vida uma expressão por meio do trabalho, estamos inconscientemente a enganar-nos quanto à oportunidade de realizarmos a nossa natureza, assim como negamos aos demais a contribuição única que podíamos dar à sociedade.

A vida cobra um preço para uma participação que não plena. Perdemos contacto com as qualidades e os valores humanos que brotam naturalmente de um envolvimento pleno no trabalho e na vida: a integridade, a honestidade, a lealdade, a responsabilidade e a cooperação. Sem a orientação que essas qualidades conferem às nossas vidas, começamos a andar à deriva, presas de um sentido ansioso de insatisfação. Quando perdemos o conhecimento de como nos firmarmos num trabalho significativo, deixamos de saber para onde nos voltar a fim de encontrarmos valor na vida.

Torna-se-nos importante perceber que a nossa sobrevivência num sentido mais amplo depende da disposição que tivermos para trabalharmos com a força plena dos nossos corações e mentes. Somente desse modo perceberemos os valores humanos e as qualidades que trazem equilíbrio e harmonia às nossas vidas, à nossa sociedade e ao mundo. Não podemos continuar a ignorar os efeitos de uma motivação egoísta, de práticas como a competição e a manipulação. Precisamos de uma nova filosofia do trabalho baseada numa maior compreensão humana, respeito por nós próprios e pelos outros, e uma consciência das qualidades e aptidões que geram paz no mundo: a comunicação, a cooperação e a responsabilidade.

Isso significa estarmos dispostos a enfrentar o trabalho abertamente, a enxergar honestamente as nossas forças e fraquezas, e a proceder às alterações que nos melhorem a vida. Se devotarmos de uma forma genuína a nossa energia à melhoria da atitude que temos em face do trabalho, e desenvolvermos o que é verdadeiramente valioso dentro de nós, poderemos tornar toda a vida numa experiência de júbilo. As competências que desenvolvemos durante o trabalho irão estabelecer o tom do nosso crescimento e proporcionar-nos os meios para trazermos satisfação e sentido a cada instante das nossas vidas assim como às vidas dos outros. Trabalhar assim é trabalhar com recursos hábeis.

Os recursos hábeis constituem um processo que se desdobra em três passos que por sua vez pode ser aplicado a qualquer situação na nossa vida. O primeiro passo consta de alcançar consciência da realidade das nossas dificuldades, não por meio de um mero reconhecimento intelectual, mas por meio de uma sincera observação de nós próprios. Somente desse modo encontraremos motivação para dar o segundo passo: tomar a firme resolução de mudar. Quando tivermos perspectivado com clareza a natureza dos nossos problemas e tivermos começado a alterá-los, poderemos partilhar aquilo que tivermos aprendido com os outros. Essa partilha pode ser a experiência mais satisfatória de todas, por resultar numa profunda e duradoura alegria em ver os outros descobrirem os meios para tornar as suas vidas gratificantes e produtivas.

Os capítulos que se seguem versam sobre alguns dos obstáculos à harmonia e ao equilíbrio que ocorrem em situações de trabalho e alguns dos salutares valores que podemos desenvolver para transformar as nossas dificuldades numa fonte de crescimento. Sempre que utilizamos meios hábeis para concretizar e fortalecer as nossas qualidades positivas no trabalho atingimos os recursos preciosos que residem no nosso interior à espera de serem descobertos.

Cada um de nós possui o potencial de criar paz e beleza no universo. Se desenvolvermos as capacidades que temos e fizermos um esforço para as partilharmos com os demais, seremos capazes de uma profunda apreciação do valor que têm. Essa profunda apreciação torna a vida verdadeiramente digna de ser vivida, e trás amor e alegria a todas as nossas acções e experiência. Aprendendo a utilizar meios de destreza em meio a tudo quanto fizermos, poderemos transformar a existência diária numa fonte de fruição e de realização que ultrapassa até mesmo o mais belo dos sonhos.

Prefácio (Segunda Série)

Desde que vim para este país há vinte e cinco anos, o trabalho tem sido, talvez, o meu maior mestre. O meu trabalho tem representado uma inspiração e um desafio, tornando a jornada da minha vida numa educação repleta de uma experiência rica. Dar-me-ia um enorme prazer ser capaz de partilhar aquilo que aprendi desta forma com os outros.

Embora tenha vindo para o ocidente com uma rigorosa educação em filosofia e em religião, rapidamente descobrir que para realizar os meus objectivos teria que dominar competências de uma vasta gama para os quais não tivera tido qualquer treino. O mesmo se aplicou àqueles que optaram por trabalhar comigo. Uma e outra vez precisamos enfrentar uma vasta gama de tarefas sem termos um real preparo e com escassez de recursos. Descobrimos repetidamente que podíamos ser bem-sucedidos apesar desses obstáculos.

Mas gradualmente fui percebendo que o sucesso que obtivemos com esta forma de trabalho estava estreitamente ligado aos ensinamentos e ao treino que recebi quando jovem. A realização no mundo do trabalho depende em muitos dos mesmos factores que aprendera a valorizar nos estudos iniciais que fiz: conscientização, concentração, disciplina, clareza e responsabilidade. Tudo isso são qualidades que rendem amplos dividendos tanto no domínio espiritual como no prático.

Para a nossa comunidade, o desenvolvimento de atitudes e de abordagens bem-sucedidas no trabalho serviu um duplo propósito. Primeiro, somos um pequeno grupo de indivíduos dotados de objectivos bastante ambiciosos. Somente aprendendo a maximizar os nossos esforços e a cultivar as nossas capacidades e recursos ao máximo podíamos esperar realizar uma pequena parte do que era preciso fazer. Em segundo lugar, essa prática de aprendizagem de um trabalho efectivo auxiliou-nos a tornar o estudo da mente presente nos meus estudantes. De facto, o trabalho enquanto disciplina espiritual tornou-se central no que fazemos.

Quem quer que se sente em meditação poderá igualmente iludir-se se pensar que tenha alcançado mais do que tiver, mas alguém detentor de um prazo limite ou uma folha de pagamento a satisfazer não pode ir longe com o logro nem o auto-engano. Tanto para mim como para os meus estudantes, o trabalho tornou-se numa oportunidade preciosa para cultivarmos os nossos próprios recursos e desenvolvermos a perspicácia e a valorização. O trabalho enquanto disciplina demonstra perfeitamente a antiga compreensão de que precisamos aprender a ser sinceros connosco próprios se desejarmos transforma aquele que somos.

O êxito no trabalho provou ser uma prática autossustentada. Quando mais aplicamos o discernimento relativo à natureza humana e aos padrões mentais na prática, mais bem-sucedidos temos sido no nosso trabalho; quanto mais o nosso treino nos auxiliou a ser bem-sucedidos no mundo do trabalho, mais chegamos a apreciar o seu valor. Dessa forma, fomos capazes de combinar o estudo da natureza humana com os esforços práticos a fim de realizarmos os objectivos que tínhamos. Ao pedir emprestado um termo tradicional, cheguei a chamar essa prática dupla de “Recursos Hábeis”.

No sentido original que tem, o termo “Recursos Hábeis” refere os métodos usados para trazer benefício a todos os seres, independentemente das circunstâncias em que vivam. Tal habilidade de recursos, conforme a praticamos, possui a mesma qualidade, por os modos de trabalho que cultivamos podem revelar-se válidos para todos. Constatei isso repetidamente no trabalho que empreendo em cada uma das nossas organizações. Comunicar e coordenar os detalhes que garantam o sucesso, interagir com pessoas de todos os setores da vida, fui capaz de reconhecer padrões e de implementar técnicas que parecem aplicar-se a todas as disciplinas e tipos de trabalho.

Há quinze anos, apresentei algum desse entendimento numa publicação intitulada Recursos Hábeis, um pequeno volume que continuou a atrair o interesse e que hoje continua a ser a publicação mais vendida da Dharma Publishing. Muita gente nesta sociedade está dolorosamente ciente de não estar a colher um grande benefício do trabalho que empreende, e existe uma enorme ânsia por resolver essa situação. Numa pequena extensão, Recursos Hábeis poderá ter auxiliado a satisfazer essa necessidade.

Nos anos subsequentes, o problema referente à utilização do trabalho continuou a ocupar a minha atenção. A cada ano que passava parece que a nossa pequena comunidade tem mais o que fazer com os nossos recursos limitados que temos ao nosso dispor. Ao mesmo tempo, fomos capazes de edificar com base na anterior compreensão que tínhamos, explorar aspectos mais subtis da acção recíproca entre o trabalho, a conquista e a realização. Já há vários anos que tenho vindo a pensar escrever um outro livro acerca do tema do trabalho que pudesse apresentar algumas dessas ideias. Sinto-me satisfeito por essa intenção ter finalmente tomado forma.

As orientações e ideias aqui sugeridas não são necessariamente novas. Quem quer que seja que tenha desfrutado de êxito no seu trabalho terá conhecimento de algumas ao passo que quem quer que tenha seriamente investigado um caminho espiritual poderá estar familiarizado com outras. Mas ainda subsiste a necessidade de compreender como esses dois aspectos da vida – o prático e o espiritual - podem ser integrados, de modo que cada um sirva os propósitos do outro. Estou convencido de que um trabalho valorizado pode conduzir a uma forma de vida que possua pleno sentido, e a esperança que me move ao escrever este livro é a de comunicar essa convicção a uma audiência mais vasta.

Para poderem colher benefício das ideias aqui apresentadas não precisam estar interessados em assuntos espirituais. As perspectivas apresentadas e as sugestões específicas feitas destinam-se simplesmente a ajudar as pessoas a viver com alegria, a trabalhar com resultados positivos e a tirar proveito do conhecimento em qualquer circunstância. Ao mesmo tempo a abordagem da habilidade de recursos proporciona às pessoas que já bem-sucedidas a oportunidade de descobrir no seu trabalho uma qualidade que lhes dê uma nova noção de significado ao que estiverem a fazer.

Também tenho um outro propósito ao escrever este livro. Durante os anos que passei no ocidente, fui surpreendido com a descoberta que muita gente parece dispor-se a aceitar uma forma de viver que não é completamente satisfatória. Tendo início na infância, acostumam-se a operar de forma pouco eficaz. Sem mesmo se darem conta disso, limitam a própria energia, embotam a inteligência, e minam os seus melhores impulsos.

Assistir a tal desperdício é profundamente doloroso. Há tanto trabalho importante e significativo a fazer no mundo, e tanta satisfação a ser colhida de uma resposta cabal para com as situações que defrontamos no nosso viver. Sabendo que isso é possível, como poderá alguém deixar de agir? Negar aquilo que vemos equivale a tornar-nos cúmplices deste vasto encobrimento, enquanto recusar responsabilizar-se pela forma como os outros vivem as suas vidas é o mesmo que comprometer-nos com o encobrimento da nossa própria. Por tal razão, senti-me compelido por forte desejo de partilhar algumas das intuições que fui suficientemente afortunado para descobrir durante os anos em que vivi e trabalhei neste grandiosa nação.

As ideias específicas aqui apresentadas remontam a cerca de doze anos atrás, quando comecei a explorar uma abordagem sistemática da consciência, da concentração, e da energia enquanto factores inerentes à realização. Em 1985 reuni um conjunto de ensaios subordinados a estes tópicos intitulados Chaves Diamante destinados em particular para os trabalhadores de Odiyan, o nosso centro de retiro no campo. Este verão, ao retornar de uma viagem prolongada ao estrangeiro, decidi retomar o trabalho deste material. Trabalhando com Zara Wallace como directora de edição, combinei esses velhos ensaios com uma quantidade substancial de material novo a fim de criar o presente volume.

A abordagem resultante abre caminho por entre disciplinas tais como gestão, psicologia, estudos em comunicação e espiritualidade. Estou convencido de que poderá ser útil a qualquer um e a virtualmente qualquer disciplina. Tentei manter o material apresentado indeterminado, por ter a fiem convicção de que cada um de nós já possui a experiência ou conhecimento necessário para ser bem-sucedido. Mesmo que só tenhamos obtido uma só experiência de sucesso efectivo no nosso trabalho, podemos edificar nessa base; mesmo que saibamos mais do que quisermos admitir acerca do fracasso, podemos aprender com os nossos erros. Podemos partilhar todos aquilo que sabemos uns com os outros. E juntos, podemos descobrir inúmeros tesouros – abordagens inovadoras e ideias criativas que podem tornar-se nossos amigos e conselheiros.

Este livro é dedicado a todos quantos trabalham, em especial no caminho espiritual, e aos membros da comunidade Nyingma, cujo trabalho infatigável em prole dos objectivos que partilhamos tem sido uma inspiração para mim. O trabalho conjunto que efectuamos deu-me a oportunidade de reunir estes tópicos. Espero que estas ideias venham a dar abundante fruto para cada um deles, lhes aprofunde o desenvolvimento e os dote da capacidade de um êxito ilimitado. Possa este trabalho trazer tranquilidade a muitos, e auxiliá-los a qualidade da consciência, concentração e energia em todos os aspectos do seu trabalho e vida.

CONSCIÊNCIA

Quando temos consciência das possibilidades de desenvolvimento da liberdade interior, podemos começar a abrir-nos ao prazer, à sanidade, e à satisfação que nos rodeiam. Um melhor conhecimento de nós próprios induzirá um discernimento mais aprofundado, a uma maior compreensão e a um sentido de paz. Cresceremos saudáveis de corpo e mente; o nosso trabalho, família, e relações tornar-se-ão mais significativos.

LIBERDADE INTERIOR

Quando a nossa natureza íntima é verdadeiramente livre somos capazes de descobrir em nós uma abundância de tesouros, de amor, de alegria, e de paz de espírito. Somos capazes de apreciar a beleza da vida, de acolher cada experiência conforme nos chega, de abrir os nossos corações a isso e de o apreciar em profundidade.

A realização dessas qualidades em nós próprios constitui a maior liberdade que podemos obter. No entanto, quanta dessa liberdade interior concedemos a nós próprios? Quão receptivos seremos para com os nossos profundos pensamentos e sentimentos, para com a natureza positiva do nosso ser interior?

Embora haja alturas em que sentimos essa riqueza interior, muitas vezes fechámos-lhe a porta, ao encorajarmos em nós próprios sentimentos subtis de insatisfação. Por vezes podemos nem sequer permitir-nos senti-nos felizes sem culpa, ou auferir satisfação das nossas realizações sem sentirmos igualmente dúvida e ansiedade.

PERDER O CONTACTO CONNOSCO PRÓPRIOS

Tais sentimentos desviam-nos dos nossos recursos íntimos de modo que nos vemos forçados a procurar fora a nossa realização. Atraídos pelos entusiasmantes acontecimentos que se dão ao nosso redor, agarramo-nos ansiosamente a eles, acreditando que nos tragam satisfação.

Mas ao focarmos a nossa energia fora de nós, perdemos de vista a inúmeras mensagens internas provenientes dos sentidos, dos nossos pensamentos e sentimentos e percepções. Sem esse conhecimento interior mais a liberdade que proporciona a atitude que usamos para com a experiência torna-se frívola e a consciência perde profundidade e clareza. Muito embora possamos ser bem-sucedidos no mundo, uma separação da nossa verdadeira natureza deixa-nos carentes de uma fundação interna sólida em que possamos alicerçar as nossas vidas.

Vivemos num mundo que se move muito rapidamente e que nos pressiona no sentido de o acompanharmos. A maioria de nós não tem vontade de viver assim, mas vê-se preza nas exigências que nos coloca a vida. Pela rama poderemos parecer livres, mas internamente sofremos com as tensões impostas por esse ritmo tão rápido. Movemo-nos tão rápido que nem temos tempo para nos apreciarmos; perdemos o contacto com as qualidades positivas que temos e as forças que podem facultar-nos.

INSEGURANÇA, DEPENDÊNCIA E INSATISFAÇÃO

Quando não obtemos o fomento que procede do conhecimento de nós próprios, bom, frequentemente voltamo-nos para os outros em busca de gratificação. Mas por realmente não sabermos o que temos em falta nas nossas vidas, vemo-nos incapazes de comunicar com clareza as necessidades que temos, pelo que podemos experimentar desapontamento e sofrimento. Quanto mais nos deixarmos deslizar para sentimentos de insatisfação, mais frustrados e inseguros nos sentiremos: as relações azedam, e não conseguimos trabalhar efectivamente. Longe de gozarmos de liberdade, vemo-nos aprisionados pela falta de consciência, lançados em infinitos ciclos de ansiedade e de infelicidade. Andamos às voltas em busca de satisfação sem nunca a encontrarmos, e tal busca torna-se no padrão das nossas vidas.

Vivemos num mundo que se move com rapidez e que nos pressiona a acompanhá-lo. A maioria não deseja viver desse modo, mas deixamo-nos apanhar nas malhas das exigências que a sociedade impõe nas nossas vidas. Superficialmente parecemos gozar de liberdade, mas internamente padecemos das tensões impostas por esse rápido ritmo. Movemo-nos tão rápido que nem tempo temos para sentirmos apreço por nós próprios; perdemos de vista as nossas qualidades positivas e o vigor que nos podem fornecer.

APRENDENDO A CONFORMAR-SE

 Os obstáculos à liberdade interior de que padecem são geralmente formados durante a infância. Enquanto crianças sabemos como nos sentimos em relação às coisas, e raramente hesitamos em expressar os sentimentos. Mas a pressão dos familiares e dos amigos conduz-nos à adopção de perspectivas mais estreitas que nos conformam àquilo que é esperado da parte das pessoas.

Quando vemos as nossas ideias e sentimentos naturais desencorajados, perdemos o contacto com os nossos sentidos e o fluxo comunicativo entre os nossos corpos e mentes é inibido; deixaremos de saber aquilo que sentimos de verdade.

À medida que os padrões de supressão se fortalecem e mais se fixam, as oportunidades que temos de nos expressarmos diminuem. Habituamo-nos de tal modo a tal conformação que, à medida que envelhecemos, permitimos que tais padrões nos governem a vida, e tornámo-nos estranhos para nós próprios.

EXERCÍCIO: CLAREZA INTERIOR

Como haveremos de voltar a entrar em contacto connosco próprios? Que poderemos fazer para nos tornarmos genuinamente livres? Quando conseguirmos enxergar com clareza a nossa natureza interior, obteremos uma perspectiva acerca do nosso próprio desenvolvimento que nos liberta o crescimento. Essa claridade representa o começo do autoconhecimento, e pode ser desenvolvida simplesmente pela observação da actividade das nossas mentes e corpos.

Podem praticar esta observação simples onde quer que se encontrem e em meio ao que for que estejam a fazer, pela consciência de todo pensamento e sentimentos que o acompanhem. Podemos tornar-nos sensíveis com respeito ao modo como as nossas acções afectam os pensamentos, corpo e sentidos. Ao conseguirmos tal coisa, restabelecemos o canal existente entre corpo e mente e obtemos uma maior percepção daquele ou daquela que somos; familiarizamo-nos com a qualidade do nosso ser interior. O nosso corpo e mente começam a apoiar-se mutuamente, e emprestam uma qualidade vital a todos os vossos esforços.

Penetram num processo vivo e dinâmico de aprendizagem acerca de vós mesmos e o autoconhecimento que obtêm destaca tudo quanto fazem

Quando observam a vossa natureza interior de modo atento, perceberão o quão trancados os vossos sentimentos e verdadeira natureza terão estado. Poderão então começar a destrancar tais sentimentos e a libertar a energia que contiveram dentro de vós. Através da calma e da serenidade, pela aceitação de vós próprios, crescerão em confiança e cultivarão novos caminhos mais positivos de olhar para vós próprios.

CONCENTRAÇÃO DESPREOCUPADA

Uma vez as nossas percepções interiores se achem claras e fluídas, a concentração auxiliar-nos-á a dirigir a energia para onde ela for necessária. Tal concentração não representa disciplina rigorosa nenhuma, mas solta e quase casual.

A vossa atenção é focada não de forma rígida mas de uma forma despreocupada e agradável. Podem desenvolver tal concentração no trabalho ao empreenderem uma tarefa de cada vez e devotando toda a vossa atenção ao que fazem, conscientes de cada falha que envolve. Mantenham a concentração numa tarefa até que se encontre terminada, e de seguida empreendam outra tarefa e continuem o processo. Descobrirão que a vossa claridade e discernimento se aprofundam e se tornam numa parte natural daquilo que fazem.

Com uma maior capacidade de concentração surge o estado do espírito de presença (Plena Atenção ou Consciência Plena), consciência de cada matiz e sensação, pensamento, de cada acção que é desempenhada. A plena atenção constitui a combinação da concentração, clareza de espírito e consciência exercida mesmo sobre os mais insignificantes detalhes da experiência. Sem essa presença mental, mesmo que estejam concentrados e tenham clareza, assemelhar-se-ão a uma criança que constrói um castelo de areia sem perceber que a maré em breve o varrerá.

EXERCÍCIO: PLENA ATENÇÃO EFECTIVA

A atenção plena garante que o que quer que façam seja feito pelo melhor que conseguirem dar. Poderão desenvolver a atenção plena por meio da concentração da vossa clareza e inteligência no vosso trabalho. Observem simplesmente o comportamento que adoptam na execução de uma simples tarefa.

Como é que avançam? De que modo o farão? Compreenderão efectivamente aquilo que querem fazer? Estarão de olho na finalidade para que essa tarefa os encaminhará? Consideram os efeitos das vossas acções de uma perspectiva alargada enquanto observam cada detalhe daquilo que fazem? Terão consciência dos efeitos de cada tarefa que desempenham?

À medida que desenvolvem a atenção plena, tornam-se capazes de observar como os lapsos de consciência afectam o ritmo e o espírito do vosso trabalho. Quando trabalham com uma atenção plena, os movimentos que empreendem tornam-se fluídos e graciosos, os pensamentos que têm tendem a alcançar clareza e organização e os esforços que empreendem tornam-se efectivos.

Por se acharem em perfeita sintonia com cada fase do vosso trabalho, as consequências de cada acção, tornam-se mesmo capazes de predizer os vossos resultados.

Tomam consciência da motivação subjacente às vossas acções e aprendem a captar cada tendência para esquecer ou cometer erros. À medida que se tornam proficientes no estar atento, poderão penetrar uma compreensão aprofundada de vós próprios e dos vossos actos.

CLAREZA, CONCENTRAÇÃO E ATENÇÃO PLENA

Maior clareza, concentração e atenção plena – o desenvolvimento de clareza, da concentração e do espírito de presença pode educar-nos de uma forma que jamais conseguiria ocorrer numa sala de aula, por o objecto de estudo ser a nossa natureza interior. Cada passo desse processo conduz a um maior autoconhecimento e a uma qualidade precisa e atenta que apoia uma descoberta pessoal mais extensa.

A força e consciência que obtemos por essa via proporciona-nos controlo sobre a direcção e propósito das nossas vidas. Todos os nossos actos reflectem uma jovialidade natural e tanto a vida como o trabalho adquirem uma qualidade natural aprazível que nos sustenta em tudo o que fazemos. A vida torna-se numa arte, uma expressão da interacção fluída dos nossos corpos, mentes e sentidos com cada experiência da nossa vida. Podemos confiar em nós para satisfazer mesmo as mais secretas necessidades e desse modo tornamo-nos genuinamente livres. A liberdade interior permite-nos a utilização da inteligência com sensatez; assim que a prendermos a usá-la, jamais poderemos perder a clareza e a confiança que nos traz.

Tal liberdade e vitalidade acham-se ao dispor de cada um de nós. Quando tomamos consciência das possibilidades de desenvolvimento da liberdade interior, podemos abrir-nos para o prazer, a saúde e satisfação que nos rodeiam. Um autoconhecimento efectivo induz-nos a uma profunda percepção, a uma maior compreensão assim como a um sentido de paz. Cresceremos saudáveis de mente e corpo; o nosso trabalho, família e relações obterão maior significado. Conseguiremos alcançar os objectivos que tivermos definido com facilidade. Quando obtivermos liberdade interior, descobriremos uma profunda e duradoura satisfação em tudo quanto fizermos.

GANHAR INTERESSE PELO TRABALHO

Cada instante da vida constitui uma oportunidade para se aprender; toda a experiência nos enriquece a vida. Somos os directores de uma magnífica peça, pelo que nos cabe a nós ver que cada instante das nossas vidas seja desempenhado com a qualidade edificante da verdadeira inspiração. O trabalho que compõem grande parte da nossa experiência diária constitui uma oportunidade para desenvolvermos e aperfeiçoarmos de forma activa as qualidades universais que nos enriquecem a vida e a tornam significativa em nós próprios.

Quando depositamos toda a energia no trabalho que empreendemos, ele torna-se no solo sobre o qual edificamos as nossas vidas, o meio pelo qual colocamos os nossos planos em acção. Por o trabalho sempre nos impor exigências, proporciona-nos um sentido de realização que nada mais consegue fornecer-nos.

Há um prazer sem limites a descobrir no viver quando nos importamos com o trabalho que empreendemos, quando assumimos tarefas difíceis mas gratificantes e as executamos bem. Caso o trabalho não exerça essa função salutar nas nossas vidas, poderá dar-se o caso de não lhe devotarmos a nossa total energia e e atenção. Ter interesse pelo trabalho que executamos significa conceder-lhe o pleno poder das nossas mentes e corações.

Aprendendo a interessar-nos, poderemos transformar a frustração e o tédio que tanta vez experimentamos no trabalho numa fonte de satisfação e de sentido. Tal interesse floresce numa força poderosa de motivação que nos permite abordar até as mais complexas e rigorosas tarefas com abertura de espírito e disposição para fazermos o que for preciso. Interessar-se pelo trabalho que empreendemos, chegar mesmo a ter gosto por ele soa estranho quando encaramos o trabalho apenas como um meio de ganhar o sustento. Mas, quando percebemos o trabalho como um meio de enriquecermos e aprofundarmos todo o nosso campo da experiência, poderemos descobrir esse interesse no nosso coração e despertar isso naqueles que nos rodeiam, utilizando cada aspecto do trabalho para aprendermos e crescermos.

EXERCÍCIO: PLANEAR O DIA

Podemos descobrir por nós próprios o sentido da realização que o trabalho executado com esmero pode proporcionar. Quando começarem a trabalhar pela manhã, reservem um tempo para a avaliação do trabalho que realização durante o dia. Fazendo isso poderão aprender a dirigir a energia de um modo vital e desenvolver um sentido claro de orientação e propósito. Ao planearem o vosso dia, antecipando aquilo que o trabalho venha a exigir, deixem que a vossa mente se volte das distracções irrelevantes exteriores para o interesse interno imediato pelo próprio trabalho. Mudando de um estado de espírito de dispersão para um estado de atenção centrado e cuidadoso permitir-lhes-á uma efectiva concentração em cada tarefa, e completá-la antes de iniciarem a seguinte. Essa forma de trabalho dissipa a impressão de se ter muito que fazer e de nunca se ter tempo para tanto. Planeando com cuidado e dirigindo a nossa energia para o vosso trabalho, poderão conseguir muito mais do que teriam esperado.

EXERCÍCIO: REVER O DIA

Podem igualmente rever o vosso processo ao final do dia e analisar a atenção e a concentração que tenham apicado ao vosso trabalho e o quanto terão conseguido com isso. Quando tiverem trabalhado bem e com eficiência, com toda a vossa energia, sentirão uma mente clara e o vosso corpo revigorado. Mesmo que não tenham conseguido todos os objectivos propostos, a vossa energia terá efectivamente aumentado, levando a que consigam ainda mais no futuro. Trabalhar bem constitui um excelente exercício para o corpo e o espírito. Desenvolvendo uma maior consciência de como trabalhar com empenho, dirigimos continuamente a nossa energia para meios produtivos de modo a que os nossos dias corram com suavidade.

Em vez de nos sentirmos estressados e fatigados com o trabalho saímos enriquecidos pelos sentimentos positivos de satisfação. Se aprendermos a definir objectivos sensatos e a satisfazê-los com equanimidade, o prazer duradouro e verdadeiramente satisfatório que obtivermos do trabalho fortalece-nos a capacidade de crescimento em todos os aspectos da vida.

INTERGAR TRABALHO E PRAZER

O verdadeiro crescimento provém da integração e da aplicação tanto de aptidões e de atitudes positivas no sentido de trabalharmos e vivermos. Quando desenvolvemos uma abordagem assim integrada, o nosso trabalho sai transformado num processo de aprendizagem dinâmico. Se prestarmos uma maior atenção à forma como trabalhamos, mais as frustrações e as confusões internas diminuirão.
Chegamos a conhecer-nos melhor e somos capazes de transformar situações negativas em oportunidades positivas de crescimento. Criamos um novo mundo para nós próprios: Embora os problemas do viver diário ainda surjam, poderemos encará-los como forma de realçarmos e enriquecermos a nossa experiência.
O PODER DA ATITUDE
Frequentemente, quando nos vemos confrontados com um trabalho difícil, a nossa mente estabelece limites quanto ao que podemos fazer, sobre o que parece possível; ansiedade e apreensão obstruem-nos os esforços. Mas quando ganhamos interesse pelo nosso trabalho, o envolvimento que adoptamos conduz-nos à liberdade das restrições. Não nos contemos mais; devotando-nos cuidadosamente ao trabalho que tivermos em mãos, transformaremos a situação e penetraremos numa dimensão diferente, num outro domínio da possibilidade.
Apenas pela alteração da nossa atitude – devotando-nos directamente ao nosso trabalho – descobrimos o gozo de realizarmos as nossas tarefas com excelência, e de trabalharmos sem obstruções internas. Até mesmo quando nos sentimos cansados, descobrimos que podemos abrir novas fontes de energia. De facto podemos descobrir uma vitalidade renovada pelo uso da nossa energia de uma forma consistente. Todos dispomos dessa energia abundante; precisamos simplesmente de aprender a usá-la bem.
O INTERESSE EXPANDE O SENTIDO DO TEMPO
Ao satisfazermos os nossos objectivos, descobrimos ter mais tempo disponível. Vemo-nos no controlo, capazes de dominar o fluxo do tempo e de dirigir a nossa energia com eficiência. Com efeito o trabalho torna-se agradável e revigorante; começamos a interessar-nos mais e esse interesse sai recompensado. Ter gosto pelo nosso trabalho, sentir-se verdadeiramente envolvido nele representa o segredo de se fazer bem as coisas e de se obter satisfação daquilo que fizermos. Quando nos interessamos, somos suportados e enriquecidos por uma atitude de prontidão descontraída. O trabalho torna-se-nos leve e agradável, uma fonte de profundo conhecimento e de apreço.
Quando produzimos um crescimento positivo e mudanças salutares no nosso trabalho, saímos muito mais poderosos do que reis; a rica variedade da experiência constitui o nosso reino. A nossa sensibilidade assemelha-se ao exército de um rei, a nossa atenção apurada assemelha-se aos seus ministros, o afecto e gosto à sua rainha. A profundidade e clareza. A abordagem justa de que usamos para com a vida, a nossa concentração e sinceridade assemelham-se ao próprio rei. Sem essas qualidades salutares, não passaríamos de um mero rei de nome, governantes de um reino vazio; com elas tornamo-nos indomáveis, capazes de alcançar objectivos que nos tragam paz e beleza às vidas de todos os seres. O trabalho torna-se no prazer da vida, inspirado e repleto de energia, de tal modo precioso que tomamos o cuidado de não desperdiçarmos um único instante.
UMA NOVA MANEIRA DE TRABALHAR (Successful Work)
A maioria das pessoas trabalha primordialmente pelo rendimento que conseguem. Mas claro que o trabalho também impõe necessidades; o estatuto  da identidade profissional, a aprovação dos outros, uma sensação de poder e de mestria, interacção social, e a simples satisfação decorrente da ocupação. O que todas essas recompensas têm em comum é o facto de serem extrínsecas ao processo do próprio trabalho. Trabalhamos para conseguir determinados objectivos mas raramente encontramos valor na actividade do trabalho.
Essa maneira de trabalhar é profundamente empobrecedora. Quando o trabalho passa por ser uma actividade não valorizada pelo que envolve, raramente trabalhamos com uma verdadeira satisfação ou noção de uma rica realização. É verdade que nos deparamos com momentos satisfatórios, mas cedo passam deixando unicamente a memória do bem-estar.
Talvez seja por isso que aqueles que trabalharam arduamente e foram bem-sucedidos durante vários anos por vezes chegam a um ponto em que questionam o valor do que têm vindo a fazer. O esforço empreendido ter-lhes-á dado o grau de segurança material e conforto, mas tê-los-á ajudado a desenvolver o seu sentido de significado e de propósito, mas tê-los-á ajudado a desenvolver enquanto seres humanos? Terá ele aprofundado o sentido de significado e de propósito? Terá ele facultado a possibilidade de se aproximarem mais dos objectivos que tinham na vida? Estas não são questões de fácil abordagem.
Quando trabalhamos sem verdadeira disposição, o trabalho acaba por não ser muito recompensador. Precisamos forçar-nos a fazer o que fazemos, e esse conflito interno conduz à exaustão do espírito e da mente que nos deixa os sentidos entorpecidos e também nos priva do prazer no resto das nossas vidas. Trabalhar com resistência não nos torna eficientes, e o trabalho que executamos tende a voltar-se para a mediocridade e o fracasso em vez da excelência e do sucesso.
mesmo que trabalhemos em função de uma causa em que acreditemos, persiste o mesmo padrão. Embora possamos trabalhar com muito mais energia e empenho, passamos por alto a própria actividade do trabalho e dos seus resultados. Raramente consideramos que o próprio trabalho podia representar uma oportunidade de aprendermos algo de fundamental sobre nós próprios ou que nos dê uma oportunidade de demonstrar compaixão ou de nos tornarmos num exemplo para os outros.
A maioria aceita como certo que trabalhemos em função do benefício próprio, mas de facto não parecemos muito hábeis na satisfação das nossas necessidades e quereres. Contentamo-nos com um estilo ed vida no qual a maior parte do nosso tempo é dedicado a uma actividade que achamos apenas parcialmente gratificante. Buscamos a satisfação real fora do trabalho e colocamos as nossas vidas em espera durante o tempo em que fazemos o nosso trabalho. Procurando  a felicidade nas margens das nossas vidas acabamos suportando padrões negativos como o vício e o escapismo.
O trabalho poderá trazer-nos formas temporárias de gratificação do ego, porém, existe uma outra parte mais profunda de nós que deixamos de nutrir. Não é de admirar que tanta gente pressinta que algo esteja em desequilíbrio nas nossas vidas.
A cultura de que sou originário ofereceu uma alternativa clara a estas maneiras de trabalhar. Embora as ocupações comuns fossem respeitadas, aqueles que buscassem uma maneira mais significativa de vida  podiam optar por se retirar das preocupações mundanas por completo e perseguir um modo de vida devotado à prática religiosa e à pesquisa. Tais indivíduos comummente pareciam encontrar especial satisfação  e inspiração naquilo que faziam: um sentido interior de paz espiritual e de bem-estar mais significativo do que o sucesso do domínio prático.
Nesta sociedade, as alternativas ao mundo do trabalho também se acham ao dispor. Mesmo que nos dias de hoje poucos sejam aqueles que se retirem por completo do mundo, há sempre aqueles que se devotam por completo a um caminho mais espiritual, quer se ache ligado à religião ou à arte, ao serviço ou à perseguição do conhecimento. Rejeitando as profissões materiais e o mundo prático dos negócios, buscam recompensas que consideram mais ligadas ao significado fundamental da existência humana.
A separação entre ambas essas formas de vida há muito que não é questionada, mas no mundo de hoje, tal divisão simplesmente não mais é exequível. As estritas hierarquias das crenças partilhadas que no passado suportavam isso estão a desvanecer-se. As comunidades espirituais e as pessoas não mais se podem permitir abandonar o mundo dos negócios mundanos para os demais, por não mais poderem contar com o apoio por parte da sociedade mais vasta. Nem tão pouco as pessoas que trabalham no mundo obtêm sustento dos esforços daqueles que cuidam dos interesses do espírito, por o profundo sentido de ligação existente entre o mundano e o espiritual se achar em falta. Como a tendência para a fragmentação social acelera e se espalha por todos os cantos do mundo, as consequências de tal quebra entre o espiritual e o mundano são severas. Por um lado, os valores espirituais são cada vez mais marginalizados. Torna-se cada vez mais difícil para aqueles que se interessam pelas questões espirituais e por questões do foro do interesse mais amplo encontrar o apoio material que lhes permita perseguir essa via. Por outro lado, a espantosa conquista desta cultura no domínio material chegou a parecer oca, minada que foi por um crescente sentido de falta de significado e de satisfação e pela suspeita de que o tecido social esteja fechado à possibilidade do deslindar.
Baseado na experiência que obtive desde que vim para o ocidente há vinte e cinco anos atrás, estou convencido de que a brecha que se verificou entre o mundo do trabalho e os interesses do espírito não se faz necessário. O trabalho em si mesmo pode ter sentido interior e um valor que o torne parte do caminho espiritual. Quem quer que faça qualquer tipo de trabalho poderá tirar a prova de um profundo sentido de realização que sempre foi considerado o fruto de uma via espiritual de vida, mesmo que ele ou ela não sinta qualquer sentido de vocação religiosa. Não há necessidade de suportar  o sofrimento e o vazio que tanta gente experimenta actualmente, e há uma alternativa de longe mais significativa para as crescentes tentativas desesperas de preencher o vazio deixado nos nossos corações.
Além disso, aprendendo a integrar os valores espirituais no trabalho pode representar uma forma poderosa de assegurar que o nosso trabalho venha a ser bem-sucedido nos seus próprios termos. Quanto mais o trabalho expressar em pleno a beleza de uma ética interior, mais eficiente e produtivo ele poderá vir a ser.

Tal perspectiva de benefício a todos os níveis constitui a visão que orienta esta presente obra. o trabalho não precisa ser uma necessidade dolorosa nem um trabalho sujo. Se utilizarmos o trabalho a fim de desafiarmos os nossos limites, de aperfeiçoarmos a consciência e aprofundarmos a concentração, então o trabalho poderá a dar para um conhecimento que nos torne mais bem-sucedidos ao mesmo tempo que nos sustente a níveis mais profundos. Mas se permitirmos que o trabalho nos oriente para um conhecimento mais profundo, poderemos chegar ao fim de cada dia com uma sensação de satisfação por termos realizado algo verdadeiramente benéfico. Podemos atingir os nossos próprios objectivos e estabelecer um exemplo que tenha o potencial de transformar a sociedade.

A PRÁTICA INTERNA DO TRABALHO (Successful Work)
O elo orgânico existente entre o trabalho e os valores espirituais torna-se mais claro assim que inquirirmos acerca do que é que as pessoas realmente pretendem da vida. Neste nível fundamental, realmente existe muito pouca diferença entre os negócios e o domínio espiritual. As pessoas querem ser felizes, conseguir alguma coisa de valor nas suas vidas, e viver de um modo saudável e equilibrado. Embora a linguagem usada na descrição dos negócios e dos objectivos espirituais e da divisão de como alcançar esses objectivos tais objectivos possam diferir bastante, essa ligação fundamental acha-se presente.
Os meios para se atingir tais objectivos acham-se igualmente estreitamente relacionados. A felicidade e a capacidade de alcançar alguma coisa de valor dependem ambas das capacidades mental. Sem se saber como educar, estimular e disciplinar essas faculdades inatas, podemos realizar pouco quer no domínio espiritual quer no mundo dos negócios.
Por exemplo, o poder da oração depende da capacidade de focar a mente. Para desenvolver essa faculdade precisamos cultivar a contemplação, mergulhar fundo num sentimento ou numa imagem de interesse sem dependermos de palavras e de razões. Essa mesma faculdade sob uma outra designação é igualmente vital para o êxito dos negócios.
Assim que reconhecermos tais similitudes veremos que nada impede que o trabalho seja um caminho para o conhecimento. O estudo da mente tem tradicionalmente sido domínio de uma pequena minoria da sociedade, mas nos tempos democráticos actuais poderemos ver isso de modo muito diferente. Todos somos seres humanos que visam objectivos semelhantes; pela mesma razão, todos poderemos dirigir os nossos esforços para a consecução do conhecimento, cada um a seu modo.
Ao longo das duas últimas décadas (1994) ao trabalhar com os meus estudantes numa multiplicidade de projectos e de negócios, descobri esse elo existente entre os valores espirituais e o trabalho a realizar em todas as áreas. Com base na experiência que obtivemos, posso dizer com confiança que, quando juntamos trabalho e prática espiritual, se verifica progresso em ambas as direcções. Não se trata de casamento por conveniência mas de uma união que pode ajudar a realizar o destino da vida. O êxito numa área acompanha o êxito noutra, por o conhecimento essencial a ambas ser um e o mesmo. Percorrendo ambos os caminhos ao mesmo tempo, podemos permitir que esse conhecimento floresça e colher o seu rico néctar.
Isso parece-me a mim uma grande descoberta, ou talvez a redescoberta de um conhecimento que se perdeu no nosso tempo. É verdade que uma longa tradição de pensamento Ocidental defende que o trabalho do dia-a-dia pode imputar significado espiritual. Contudo essa forma de entendimento santifica o trabalho em termos da função que tem na ordem divina, ao invés de uma senda espiritual por direito próprio. Mas to todo evento, há muita gente hoje para quem tal forma de crença religiosa não mais transmite convicção.
A abordagem sugerida aqui é bastante diferente, o trabalho pode acha-se unido aos nossos interesses finais de uma forma mais directa, enquanto senda de exploração e de descoberta semelhante à senda da oração e da meditação que possam ter sido seguidas noutras épocas e lugares. Trabalhando desse modo podemos desenvolver os utensílios para o sucesso no que quer que fizermos.
Quando confiamos no trabalho como prática, recebemos uma experiência directa imediata notavelmente útil em qualquer tipo de senda espiritual. A “linha de fundo” da mentalidade dos negócios, centrada como se acha na acção e nos resultados, torna muito difícil que nos enganemos a nós próprios. Mais, os desafios constantes do trabalho forçam-nos a desenvolver um maior conhecimento. Por exemplo, a necessidade de se ser eficiente no trato com os demais significa que temos que nos tornar estudantes da mente. A necessidade de melhorarmos nos nossos erros significa que temos que ser sinceros com respeito às nossas próprias forças e fraquezas.
Optar por não usar o nosso trabalho campo campo de treino desta forma não constitui opção real. Quando as pessoas deixam de aprender com as lições que o trabalho apresenta, elas plantam as sementes do fracasso e da insatisfação num nível prático e deixam de encontrar oportunidade de descobrir verdadeiro sentido e profunda realização ao nível espiritual. Talvez muitos de nós vivamos justamente deste modo, mas não há razão para que isso continue.
Quando o trabalho se torna nua senda para a realização e a satisfação, as nossas acções tornam-se significativas de instante em instante. Cortamos o sentido paralisante de que o tempo despendido no trabalho seja tempo retirado aos nossos interesses reais e inquietações, e reavemos controlo sobre metade das nossas vidas. Agora podemos realmente cuidar de nós mesmos. Em vez de nos contentarmos com o desapontamento e a frustração podemos servir os nossos melhores interesses em tudo quanto fazemos.
Ao mesmo tempo estabelecemos o terreno para uma transformação natural sobre a natureza do trabalho. Sem desistirmos do objectivo do sucesso, aprendemos a trabalhar de modos mais humanos, mais gratificantes e mais harmoniosos. Aprendemos a agir em harmonia com os nossos profundos interesses, a respeitar o ambiente que os abriga e provisiona, e a interessar-nos pelas necessidades dos outros.
As lições que aprendemos com o trabalho muita vez têm que ver com os erros e fracassos que cometemos, mas essas podem ser as lições mais importantes. Talvez aquilo que vemos sejam as formas por que nos enganamos no trabalho: as desculpas e a indolência, a tensão e a preocupação, o abandono e o adiar. Se assim for, podemos beneficiar de uma forma espantosa com a nossa experiência. Cientes daquilo que fazemos, podemos definir a intenção de mudar e de desenvolver a disciplina para tanto. Por essa altura, o trabalho torna-se no nosso salva-vidas para a transformação – o meio através do qual poderemos melhorar a nossa maneira de pensar, as nossas atitudes, as relações que temos, e as nossas acções.
Por intermédio do trabalho podemos verificar de imediato se as mudanças que implementamos são efectivas. Podemos ver o que resulta e o que não resulta, e pôr em prática o que quer que produza o melhor resultado. Ao mesmo tempo, captamos o poder da atitude e da perspectiva positiva. Poderemos esperar melhor escola?
O trabalho tem valor em todos os aspectos do ser humano. Por meio do trabalho podemos convidar uma forma rica e salutar de viver, baseada na abundância da consciência, concentração e energia. A riqueza que vem por essa maneira de ser desvanece para sempre o sentido de que as nossas vidas se achem empobrecidas. Sejam quais forem as nossas circunstâncias externas, estamos prontos para avançar firmemente rumo à realização.
A senda da inquirição que o trabalho abre acha-se ao dispor mesmo que as nossas responsabilidades diárias pareçam não oferecer qualquer saída para a nossa criatividade natural. Talvez o emprego que por ora tenhamos não se nos adeque; talvez não tenhamos qualquer emprego. Ainda assim, podemos aprender com aquilo que não temos assim como com o que temos. Não precisamos esperar nenhum conjunto de circunstâncias especial nem pelo emprego perfeito; podemos começar neste mesmo instante.
Por exemplo, todos estamos familiarizados com os receios e as tensões, as ansiedades e as dúvidas pessoais que nos consomem o bem-estar e minam a capacidade de ser produtivos. Neste momento podemos dar paços para abrir caminho por entre essas formas maneiras sem remédio e incapazes de ser. Á semelhança de uma atleta que treine para uma competição, podemos treinar-nos na percepção, na concentração e na energia, de modo a estarmos preparados quando as circunstâncias nos permitirem manifestar o poder intrínseco da nossa criatividade e conhecimento.
Talvez esses pareçam objectivos elevados demais. Mas possuímos os recursos de que necessitamos, e eles encontram-se neste momento ao dispor. Talvez estes escritos os ajudem a ver isso. Se conduzirem à vossa vida as ideias, práticas e maneiras de trabalhar aqui apresentadas, a tensão, a preocupação e outras barreiras para a realização poderão afrouxar o aperto que exercem sobre a nossa consciência. Se reflectirem e assimilarem bem o que aqui é sugerido, contemplarem o seu significado, e visualizarem os diversos passos de cada processo, e aplicarem as percepções resultantes ao vosso trabalho, então o vosso vier diário transformar-se-á em conhecimento, a actividade da habilidade de recursos.
A responsabilidade cabe a vós. Se acharem que a mudança venha pela execução do que alguém lhes tenha dito para fazer; se procurarem seguir um plano que um autor lhes imponha, jamais virão a realizar o vosso destino. Em vez disso permaneçam com a vossa própria compreensão. Pelo cultivo da atenção e da concentração e energia, chegarão a tocar a integridade do vosso próprio ser e a assomar controlo da vossa própria vida.
Estou convencido de que o que aqui em escrito os poderá ajudar. Mas no fim, caberá a vós redigir o vosso próprio livro, traçar as vossas intenções, o vosso empenho e o vosso entendimento crescente. Se activarem o conhecimento, poderão moldar esses elementos através da acção e da realização. Poderão embarcar numa viagem heróica de vastas dimensões.

Tradução de Amadeu António
In: "Skillful Means" e "Mastering Successful Work," de Tarthang Tulku

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