sábado, 24 de dezembro de 2016

MERECIMENTO


Vamos falar do merecimento e dos problemas que se acham relacionados com o merecimento.

Para alguns de vós esta vai ser uma experiência emocionante e excitante em que vão ter a oportunidade de ir ao encontro do vosso último obstáculo, do vosso derradeiro impedimento, da vossa razão final por que não. Contudo, para outros de vós, esta noite irá ser um confronto assustador e capaz de os deixar furiosos com a vossa derradeira desculpa, com a evasiva final do por que não.

Com todos os obstáculos e desculpas que têm, com que têm lidado, quer pelo encontro ou pelo confronto, pela facilidade ou pela luta, o restante sempre se traduz pelo problema do merecimento. Mas por mais obstáculos que tenham e todas as dificuldades que cada uma delas tenha apresentado, e por todas as desculpas a que tenham recorrido e toda a potencial obstinação que elas tenham produzido, o merecimento representa a noz mais difícil de quebrar.

Mas esta noite, quer por encontro quer por confronto vocês vão aceder e aprender a técnica e o mistério de quebrar essa noz. Quer seja entusiasmante ou assustador, excitante ou irritante, irão aprender a técnica e o mistério de finalmente serem capazes de dizer com sinceridade:

“EU MEREÇO!”

Vocês provêm de enorme diversidade de origens, com os seus contextos e antecedentes, e o vosso desenvolvimento – todos vós estais a desenvolver-vos, ainda que não tenhais um título formal, etiqueta, vós estais envolvidos no crescimento por uma diversidade de formas e numa diversidade assombrosa. Mas todos vocês na diversidade que os caracteriza, padecem do problema comum do merecimento. Alguns acabaram mesmo de andar em torno das bordas deste tema intrigante e maravilhoso chamado DESENVOLVIMENTO PESSOAL. Outros têm estado envolvidos faz anos e chegaram à conclusão - a que em última análise todos chegam – chegaram à conclusão que eventualmente chegará de que a vossa espiritualidade, a relação viva e vibrante que têm com Deus, com a Deusa e com o Todo representa tanto a mais elevada prioridade como a técnica final do vosso desenvolvimento espiritual.

O vosso desenvolvimento (de todos e cada um) teve início com o que viria a ser chamado de Potencial Humano, embora alguns o tenham rotulado de O Movimento do Potencial Humano, e tenham alegado ser os seus fundadores – o que representa uma configuração interessante – mas muitos de quantos alegam tê-lo fundado nos anos sessenta, defendem actualmente que terminou – o que representa uma outra ideia confusa. Que alguém possa decidir que o potencial humano tenha tido início e agora esteja acabado, constitui deveras um fascínio para nós, mas seja como for, todos vós, na verdade toda a gente no planeta está a desenvolver o potencial de Ser Humano.

Quando foram à escola pela primeira vez, quer tenha sido a pré-escola, jardim-de-infância ou primeira classe, começaram a descobrir potencial do que significa Ser Humano, ao aprenderem a ler e a escrever, e a estudar e a aprender, e mesmo a assistir à televisão e ir ao cinema; começaram a compreender mais acerca do potencial humano. E ao prosseguirem para o liceu ou para escola comercial ou mesmo para a faculdade, ou continuarem a vossa educação nessa configuração formal, e mesmo que os aqui presentes tenham continuado a ler e a assistir a seminários e aprendido a fazer uma miríade de coisas, vocês têm vindo a trabalhar com o vosso potencial humano. Alguns categorizaram-no com o movimento do potencial humano; outros, de forma menos manifesta e evidente, no entanto todos têm estado envolvidos na descoberto do que significa ser humano e do que tais potenciais poderão trazer – vestir-se bem, saber falar bem, ser capaz de pensar correctamente, conhecer as pessoas acertadas, ser sabedor dos rumos acertados; compreender tudo o que isso envolve. Mas ainda assim, em tudo quanto tiverem aprendido, algo parece estar em falta. De algum modo a “coisa acertada” não conseguiu tudo, e constatam a existência de uma lacuna, quase como se estivessem a trabalhar com um quebra-cabeça, em que dispõem de todos os elementos e os colocam juntos pelo melhor de que são capazes, mas se apresentam enormes lacunas que sabem que têm que tratar, sabem que têm que fazer progressos nisso e conseguem ver os pedaços assim como os obstáculos com os quais ainda não estão muito preparados para excluir; percebem alguns dos potenciais que ainda não terão sido capazes de pôr no devido lugar. Mas ao contarem todas as peças a montar e as lacunas a preencher com elas ainda constatam a existência desta lacuna, ou buraco para o qual parecem não ter peça alguma.

E assim passaram do movimento do potencial para o potencial psicológico; mas uma vez mais, todos à face do planeta e não só vocês aqui presentes, não somente aqueles de vós que estejam envolvidos com o desenvolvimento formal mas todos se voltam para o potencial psicológico e tenta montar mais peças no quebra-cabeça, numa tentativa de o completar. E quer tenha sido através da análise de Freud ou do estudo de Adler e de Carl Jung, ou tenham passado para Maslow ou Carl Rogers ou Allbert Ellis, Fritz Pearls ou a terapia Gestalt e todas psicologias humanistas, por mais bizarras ou terra a terra que tenham sido, o que sugerimos é que exploraram os potenciais mentais ou emocionais que possuem. E com essa exploração descobriram verdades assombrosas sobre vós próprios e sobre a natureza da condição humana física, mas também sobre as partes emocionais e mentais do vosso ser. E conseguiram juntar mais peças do puzzle, estreitecer essa lacuna. Mas mesmo com tudo quanto leram e todos os livros por que passaram os olhos, ainda resta um vazio assustador, que embora mais estreito do que antes, ainda se acha presente – essa lacuna do merecimento.

Alguns detiveram-se por aí ao encolherem os ombros e atirarem com as mãos para o ar com um revirar de olhos; outros foram em frente e alongaram-se até ao que chamamos de potencial metafísico a fim de explorar a realidade que reside por entre o espaço e para além do tempo, ao passarem do mundo material para o psicológico e o metafísico. E assim descobriram os reinos superiores, assim como as críticas. (Riso) E toparam com uma filosofia que reza que “Vocês criam a vossa própria realidade.” E de filosofia muitos de vós estenderam-na a um facto científico e prático, a uma realidade prática e científica. E as técnicas que aprenderam funcionaram, mas não totalmente nem por completo. As técnicas não operaram no caso de toda a gente, e mesmo aquelas que tenham funcionado no vosso caso, não operaram o tempo todo, por algumas poderem criar realidades metafísicas incríveis, só para tropeçarem e vacilarem por vós próprios nas mais insignificantes; com outras são incríveis ao conseguirem os pequenos aspectos – os telefonemas, os lugares de estacionamento, as sincronicidades da vossa realidade. Mas quando se trata das realidades em que são encostados à parede, não parecem resultar. Estreiteceram a lacuna mas não a fecharam. Chegaram quase a fechar a lacuna que se traduz pelo problema do merecimento.

E depois o vosso coração e a vossa mente abriram-se para com o potencial espiritual e vocês descobriram uma nova maneira, descobriram uma nova consciência, descobriram o que agora quase os faz encolher só de ouvir, uma nova era de realidade que é individualizada em cada um, e que para alguns começou há milhares de anos atrás e que para outros só terá início no amanhã; uma nova maneira, uma nova consciência. Descobriram que o poder é consciente, descobriram que a responsabilidade é consciente, descobriram que conscientemente podem criar – e de facto estão a criar - a realidade que desejam.

Alguns terão afirmado, em tom crítico ou de apoio, que vocês descobriram que são Deus. Nós sugerimos que vocês descobriram que são um fragmento de algo que é maior do que Deus. Vocês descobriram através do vosso potencial espiritual que são um pedaço do que referimos em termos de Deus, da Deusa e do Todo; não só o Deus da vossa infância nem das religiões da vossa infância mas uma energia masculina e feminina que combinadas se tornam mais do que duas, que emergem de forma alquímica ou sinergística como tudo quanto existe. Descobriram que não são Deus, mas um pedaço de algo que é mais, um pedaço de Deus, deus Totalidade, e que se estão a expandir, e a descobrir e a tratar de ser um pedaço maior desse Deus. E Estreiteceram essa lacuna ainda mais, só que ela ainda está presente – a lacuna ou problema do merecimento, de realmente chegarem a saber que merecem, e de realmente sentirem que merecem.

Para além das palavras que podem publicitar, para além da bravata que podem entoar, ainda está presente. Todos os potenciais atenderam a essa lacuna, todos os potenciais tentaram preenchê-la; todos os potenciais - desde o humano ao psicológico até por fim ao potencial espiritual lhe responderam, porém não o preencheram. Nenhum respondeu por completo à técnica e ao mistério do merecimento. Agora, na vossa diversidade, na multiplicidade de formas por que optaram por crescer, vocês trataram dos vossos bloqueios; viram o que pretendem conseguir realizar, ou pelo menos pensam que querem, o que lhes foi dito que queriam conseguir realizar. E também viram onde se encontram; e repararam na distância que separam uma coisa e outra. Por vezes tentam encurtar essa distância limitando aquilo que tinham querido (riso) mas quando voltam a cara parece de novo que mantém a distância que apresentava.

Viram os bloqueios, viram os obstáculos, viram a matéria que se interpõem no caminho daquilo que querem da situação em que se encontram. E trataram de os remover e tentaram livrar-se dessa matéria – ao nível económico, social, politico, antropológico, no campo da educação e numa multiplicidade de modos; e também trataram disso física, mental, emocional e espiritualmente. E isso funcionou: vocês eliminaram muitos desses bloqueios, livraram-se de muitos desses obstáculos e dessa matéria, e chegaram mais perto daquilo que querem, não encolhendo-o, mas chegando-vos a isso, alcançando-o. E vocês cresceram, independentemente daquelas alturas em que, por volta das duas da manhã fingem que nada tenha resultado a vosso favor, a despeito daquelas alturas em que pensam não ter dado um só passo em frente (riso) de facto deram. Tornaram a vossa realidade muito melhor, e a realidade do mundo, assim como a realidade do futuro, que em resultado do trabalho que fizeram se tornou muito melhor.

Mas não obstante todos os bloqueios que eliminaram, a despeito de todos os obstáculos que superaram e das coisas que desviaram do caminho, ainda permanece essa lacuna, ainda resta essa sensação do: “Eu não sei; e não posso sinceramente dizer que sinto merecer de verdade ter tudo, e mesmo na falta de todo, uma simples quota-parte.” Têm isso em comum, a despeito da diversidade de que gozam e independentemente das diferentes abordagens com que por vezes colidem e noutras alturas toleram uns nos outros. Ela ainda aí está! Mas não por que não tenham trabalhado isso. Não que não tenham tentado; não que não o tenham identificado e dito uma e outra vez a vós próprios ao espelho ou ao falarem com os vossos botões:

“Eu não mereço; não acredito que mereça.”

Vocês trabalharam isso, repetiram afirmações, anotaram, desabafaram, entoaram cânticos. Repetiram os vossos mantras: “Eu mereço, eu mereço, eu mereço…” tentaram técnicas tradicionais e técnicas vanguardistas que os levaram ao limiar do ridículo, que por vezes até os deixam surpreendidos. (Riso) “Vou tentar pelo menos uma vez qualquer técnica e qualquer abordagem.” Mas o vazio assustador, a lacuna que estreitecer mas que não desaparece permanece aí. Discutiram com respeito a ela, imploraram com respeito a ela, batalharam com respeito a ela, e desistiram e renderam-se com relação a ela. Mas o derradeiro bloqueio, o derradeiro obstáculo, a última das desculpas permanece.

Pois agora vão ter uma oportunidade – quer pelo encontro quer pelo confronto – de mudar. Vão ter uma oportunidade de se afastar desse vazio assustador, dessa lacuna que estreitecer mas não se fecha; vão ter uma oportunidade de compreender a magia e o mistério, a técnica, de modo que porventura pela primeira vez na vossa vida possam sinceramente dizer, sem tentarem convencer-se ou a quem quer que seja: “Eu mereço!”

Para começarmos esta busca pela técnica e o mistério do merecimento, devemos antes de mais examinar aquilo que lhes provoca. Mas aqui de novo, na ânsia e impaciência que os move, sentem vontade de deixar passar este passo, e ir directa à coisa:

“Eu sei aquilo que me provocou – deu-me cabo da vida. Que mais precisarei saber?! (Riso) Tenho anos de experiência do que isso me provoca…”

Mas entendam que, para poderem ter mão nisso, para realmente chegarem a compreender que o que acontece convosco se deve a uma falta efectiva de merecimento, ao contrário de um outro problema, torna-se importante que apontem e especifiquem exactamente o que a falta de merecimento lhes faz, o impacto que exerce, o efeito, a afectação que causa na vossa realidade. Porque dizer, num tipo de satisfação “carta-branca” que estraga tudo que toca, será porventura verdadeiro, só que não suficientemente verdadeiro na especificidade para poder apontar e identificar:

“Isto, é um problema de merecimento, ao invés de qualquer outro problema que possa estar a enfrentar. Isto, é um produto da falta de merecimento de que padeço – real ou imaginário. Mas como consigo identifica-lo e especificá-lo, também consigo começar a desvendá-lo; assim consigo atravessá-lo sem ter que depender de afirmações e mantras e técnicas tradicionais e vanguardistas e abordagens práticas e insensatas. Não tenho que o combater mais; não tenho que o negar mais, nem deixar-me apanhar na bravata nem tenho que torcer pela vitória, mas posso tranquilamente apurá-lo e avançar.”

Portanto, que é que lhes causa, especificamente? A primeira coisa que importa compreender é que a falta de merecimento é motivo de culpa. Bom, quando no mês passado iniciamos o que iria ser uma série de três debates falamos da culpa e sugerimos que iríamos pôr-lhe termo porventura pela primeira vez, por vocês estarem preparados para pôr cobro à culpa. Por os problemas mais significativos, conforme sugerimos por essa altura, do vosso planeta e do vosso mundo, em particular em 88 e 89 e em 90 virem a ter origem em três problemas principais, o primeiro de quais é a culpa, o segundo dos quais é o merecimento e o terceiro a autoestima. Falamos da culpa no mês passado; no próximo mês falaremos da autoestima. Este mês tratamos do merecimento. Mas (a falta de) merecimento produz culpa, e mais especificamente produz o impacto ou o efeito da culpa, que antes de mais passa pela paralisia que a falta dela produz em vós. Paralisa-os – porventura não de início – mas provoca-lhes uma paralisia lenta que em última análise os deixa e torna ineficientes na vossa realidade.

O merecimento rodeia-os e invade-os e claustrofobicamente tritura-os e espreme-os a ponto de ficarem paralisados demais para agirem. Em segundo lugar, decompõem.se, à semelhança da culpa, decompõem-se em ressentimento e autopunição. Quando sentem a falta de merecimento; quando se sentem não merecedores, não tarda muito que cheguem a sentir ressentimento – ressentimento de vós próprios, ressentimento dos outros, ressentimento da vossa realidade. E não tardará muito até que esse ressentimento se torne em autopunição. Porque a putrefação que se dá tanto em relação à culpa como à falta de merecimento, impede-os de se estenderem, e assim voltam-se para vós; impede-os de atacar fora, pelo que passam a atacar dentro, com ressentimento e castigo.

A terceira forma de impacto desta terceira consideração do que a falta de merecimento lhes faz, é que os deixa entorpecidos; à semelhança da culpa, a falta de merecimento produz-lhes o entorpecimento dos sentimentos e dos pensamentos e em relação à realidade que os cerca, e vocês acabam por se mover pela realidade como se não existisse: separados, alienados, distanciados dela. E em quarto lugar, fomenta a autocomiseração e as vossas dependências, por não merecerem abrem grandes fossos a preencher com autocomiseração ou com luta, dificuldades, ou qualquer das outras dependências.

Mas assim como incita à autocomiseração, também sugerimos que a culpa, a falta de merecimento, mantém a dor viva. Por sentirem que não merecem, estão sempre a esfregar o nariz nela, estão sempre a encará-la, estão sempre a esbarrar nela. Também os incapacita, física, emocional, mental e intuitivamente, deixa-os incapacitados por não acharem que mereçam, pelo que detêm as acções, os pensamentos, os sentimentos e as intuições. Mas, claro que à semelhança da culpa, a falta de merecimento paralisa-os e aprisiona-os lentamente, e torna a fluidez em rigidez, e vocês ficam aprisionados. Todas as qualidades que a culpa produzem são exactamente as que a falta de merecimento produzem no impacto mais significativo que produz sobre vós, no seu impacto inicial, que é produzir culpa, mas essa é a primeira coisa que lhes faz com todas as suas ramificações.

Que é que faz mais? Sugerimos que a falta de merecimento os deixa estagnados no passado, porque o que aqui acontece é que, quando estavam no passado, na infância, na adolescência, na idade adulta, na semana passada, seja quando for, por causa de alguma coisa que tenha ocorrido então, por causa de alguma coisa que tenha ocorrido nessa altura particular, vocês não sentem que merecem, não acham merecer, pelo que dizem:

"Ahah! Se eu pudesse voltar atrás eu poderia corrigir isso; se eu ao menos conseguisse reviver a minha infância, se conseguisse levar a minha mãe e o meu pai a sentir amor por mim, se conseguisse fazer com que o meu ex me amasse o corrigisse de algum modo, então tudo ficaria bem. Se alguma coisa corresse mal, que eu nem sequer sei o que seja, mas se alguma coisa corresse mal, então poderia ser arranjado, então poderia passar a merecer."

E assim estão sempre a percorrer o vosso passado não muito diferente de uma fantasma, sempre a assombrar o vosso passado em busca do que seja que tenham feito, onde terão errado, onde é que terá dado para o torto para de algum modo corrigirem isso, constantemente a projectar pais em toda a gente, constantemente a identificar-se com a criança, constantemente estagnados no passado. E é isso que a falta de merecimento lhes provoca.

Também lhes impede o êxito e a felicidade que caso contrário estariam presentes. Coloca uma barreira, ergue uma muralha, coloca uma veneziana na frente das  vistas, que quase os leva a conseguir tocar e provar, mas que não conseguem ter, por não o merecerem. Juízo autoimposto, decisão autoimposta. Bom, ainda dispõe de sucesso, certamente, não são fracassados infelizes - nenhum de vós o é. Mas que é que isso provoca? O que faz é que o sucesso actual sempre os levará a não se sentir realizados. Têm os empregos acertados e os relacionamentos e crescimento indicados, e mais oportunidades se lhes abrem à direita e à esquerda, tudo corre na perfeição, e de facto tudo quanto alguma vez tenham pensado querer... Mas porque razão não se sentem realizados? Porque se sentirão frustrados? Porque se sentem entediados. Porque se sentem inertes e inquietos se isso era tudo quanto queriam e têm todos os sucessos que queriam? Porquê? Porque não será suficiente? Por não acharem que merecem.

Por isso, independentemente do que criarem, por mais que as técnicas resultem se não as deixarem operar, independentemente do que produzirem, vocês não acham que merecem, de forma que acabam a sentir esse desassossego, essa inquietação da falta de realização. E olham para vós próprios e dizem:

"Eu devia sentir que tudo está na perfeição, quer pelos meus padrões ou pelo facto do que toda a gente me diz, mas não sinto."

E é isso que a falta de merecimento faz, esse espanto misterioso do "porquê" quando tudo não é "tudo." Deve-se a pensarem não merecer. O êxito futuro? Põe-no fora de alcance.

"Ah, seria óptimo, mas não o posso chegar a conseguir. Isso seria estupendo, mas não acontecerá. Óptimo sonho. Fantasia formidável... mas não acontecerá."

E o êxito passado, devido à falta de merecimento, esboroa-se sob o peso.

"Recordo-me de quando era bem-sucedido. Lembro-me dos meus velhos dias. Lembro-me de quando..."

E sob a pressão de manter o êxito actual e o êxito futuro que está a ser corroído pela falta de merecimento, também esses se esfarelarão. A falta de merecimento, lenta, rapidamente ou seja como for, esboroará, e lhes tira o sucesso e a felicidade.

E em quarto lugar, o que lhes faz, separa-os da vossa espiritualidade. Falamos sobre a importância de estabelecerem domínio, do que uma das qualidades mais pungentes é tornar-se cocriador com Deus, a Deusa, o Todo. Porém, quando sentem não merecer, não conseguem acreditar, não mantêm a atitude, veem-se incapazes de sentir e pensar com sinceridade e de tomar as decisões e escolhas necessárias para se tornarem nesse cocriador. Voltam-se nesse sentido mas não se permitem tê-lo, por não merecerem. Para além das palavras alusivas ao amor que o vosso Eu Superior tenha por vós, vocês não acreditarão nelas. Entendem a teoria de que Deus sempre diz Sim e que sempre se importa, e de que ele está a amá-los e de que os conhece pelo nome, isso não passará de teoria por causa dessa lixeira invisível existente entre vós e essa verdade, a verdade da falta de merecimento. Soa fantástico, mas vocês e o vosso Eu Superior, vocês e Deus sabem da verdade. E por isso, poderá amar cada haste de relva e cada pássaro que cai, porém, não os amará. A relva de haste e o pássaro merecem, mas vocês não. A carência de merecimento separa-os da vossa espiritualidade. Esse é o impacto, específico, detalhado, centrado, preciso, que isso exerce.

Assim como os impediu, conforme sugerimos, de obter sucesso e felicidade, também lhes impede o poder que têm, e a vossa responsabilidade. Por não acharem que merecem, por se acharem presos numa matriz, numa teia de aranha de falta de merecimento, não chegam realmente a pensar ter a capacidade de agir; poderão manipular, persuadir, intimidar, mas não acreditam de verdade que têm o poder de agir, de que as vossas crenças têm importância, de que as vossas atitudes contam, e de que os pensamentos e sentimentos que têm fazem diferença. E acharão que alternativas e decisões poderão ter sabe Deus em que medida, mas que de nada valerão. A falta de merecimento convence-os de que não possuem qualquer poder, e de que são incapazes de agir assim como de responder - incapazes de ser responsáveis pela vossa realidade.

Também produz a paragem do ímpeto do futuro. Ao deixá-los estagnados no passado, também lhes detém o ímpeto do futuro. deixam de sonhar, deixam de ter esperança, deixam de desejar, deixam de imaginar. Soa óptimo, tem um excelente aspecto e afeiçoa-se estupendo, mas perdem a energia. E muitos de vós já o experimentaram. Estão numa maré de boa sorte, começam a surgir oportunidades umas atrás das outras e os êxitos começam a ter lugar e as coisas começam a acontecer, e depois é só ver onde vão poder pôr o outro pé, quando irão acordar. E muitos de vós fizeram isso, muitos de vós criaram três, quatro êxitos, e as coisas corriam optimamente e de repente... uma paragem súbita, e começam a ser-lhes tirados, um dois, três, quatro, de volta para onde vieram. O impulso para o futuro deteve-se.

“Continua, está a sair-te bem!”
“Mas… não consigo!”
Por o outro sapato cair. E tudo isso será levado, ou o pior sucederá no seu lugar. Tudo um produto da falta de merecimento. E por fim, a falta de merecimento provoca doença, enfermidade física – doença! Porque, quando não sentem merecer, por estagnar e deter o impulso rumo ao futuro, vocês deixam de procurar, deixam de procurar o que é divertido, deixam de criar a criação consciente do sucesso, deixam de buscar os vossos objectivos e os vossos propósitos. E também deixam de buscar o poder. Por a falta de merecimento cerrar o sucesso e a felicidade, desligar o poder da responsabilidade, e vocês deixam de buscar os poderes – os poderes da liberdade, os poderes da dádiva, os poderes da acção, os poderes da alegria; deixam de o fazer, devido ao que a falta de merecimento lhes causa. Deixam de funcionar com elegância, e perdem a vivacidade; o amor e a confiança são reduzidas e tornam-se anémicas. A expectativa, o entusiasmo fenecem. Ficam desorientados, alienados, num estado de desordem, numa desordem, e a sentir-se como um fracasso. É isso que a doença representa: desorientação, alienação, desordem, fracasso, enfermidade, doença física, emocional, mental, intuitiva. A falta de merecimento obstaculiza a saúde plena e promove a doença.
Bom, a particular falta de merecimento de que padecem não provoca todas essas sete coisas. Alguns de vós são tão saudáveis quanto podem estar, e não sentem qualquer culpa. Fantástico! Talvez só lhes afecte a estagnação no passado e o movimento rumo ao futuro. Talvez só lhes impeça o sucesso e a felicidade, ou o vosso poder e responsabilidade. Talvez tudo quanto faça seja “separá-los da vossa espiritualidade.” Mas alguma coisa fará. E se o conseguirem identificar por vós próprios; se conseguirdes compreender: “Isto, é o que me causa, a mim; isto especificamente. Quando ouvi falar disto reconheci-me nisso.” Se o conseguirem identificar, então terão uma verdadeira hipótese de lhe pôr cobro. Por isso, importa compreender o que em específico, em vez de genericamente, o que de específico lhes provoca. Onde a falta de merecimento os irá atacar, onde a vossa vulnerabilidade irá sofrer o impacto.
Para além disso, para além da compreensão daquilo que causa, importa que saibam o que provoca isso. Porque razão se sentem não merecer - por vocês sentirem que não merecem! É como o poema zen: “Eu não mereço por não merecer, por não merecer.” (Riso) Mas existem razões bem específicas do porquê não merecerem. E uma vez mais, se conseguirem compreender e identificar as vossas razões específicas para não merecer, então poderão começar a dar a volta à combinação a fim de abrirem o cofre.
E então, porque será? A primeira razão e a mais óbvia, deve-se a que lhes tenha sido incutido; foi-lhes incutido a não merecerem. E subsequentemente não lhes inculcaram como. Ora bem; há aqui um padrão de energia que importa compreender, para ajudar a isso.
Vocês nascem, e durante os dezoito anos iniciais vocês merecem. São alvo de um completo merecimento. 100%. Só por existirem. Não o questionam, não duvidam disso, não contemplam isso, não se espantam com isso, não o testam, apenas o vivenciam; vocês merecem. E se sentirem fome, não indagam se merecem mas desatam num choro descontrolado até deixarem que o mundo tome conhecimento da fome que sentem – não importa quem. Deixam que o mundo tome conhecimento – “Eu tenho fome!” (Riso) E quando querem uma coisa qualquer, não se põem a questionar a coisa mas tratam de o conseguir, sem sombra de dúvida, e com todo um torcer e retorcer e gritar e chorar, até conseguirem aquilo que querem. E quando o conseguirem, se deixarem de o querer, não questionam se fará mal esquecer a coisa mas descartam-no e avançam para a seguinte. (Riso) Podem debater-se durante horas só para conseguir o colar da mãe, mas a seguir, lá vão vocês voltar-se para uma coisa qualquer. (Riso)
“Caramba, merecerei mais?” Mas é claro, merecem ter tudo! Não o questionem.
Mas por esta altura, desde o ano e meio e até atingirem os quatro anos de idade, esse merecimento que era tão natural e automático sofre uma erosão. E sofre-a com afirmações tipo: “Não; não é correcto; é mau; não podes ter, que te levará a pensar que mereces?” Bom, algumas dessas admoestações são necessárias, sem dúvida, por não poderem actuar nesse estado selvagem de merecimento. Mas o que aqui sucede para poder conter a impetuosidade, em vez de pegarem no merecimento de que dispõem e o dirigirem – em função da experiência, por falta de mais conhecimento, por falta do merecimento que as mães e os pais sentem – ele é-lhes retirado. Não sabem como o dirigir, pelo que lho tiram:
“Não sei como te tirar este merecimento feroz e domesticá-lo pelo que to vou tirar.”
E assim, a partir dessa altura, em que descobrem não mais estar ligados pelo cordão umbilical à vossa mãe, e de que são vocês próprios, um receio que em muito se assemelha àquele de ser verem expulsos do Jardim do Éden, desde essa altura até à idade dos quatro, o merecimento é lenta e sistematicamente eliminado, camada por camada. E aquilo que fazem é tentar compensar isso, substituindo aquilo que tiver sido retirado com egocentrismo, pelo que nesse período de tempo se tornam muito egocêntricos. Senão observem um catraio de quatro anos: Ele pensa que o mundo gira ao seu redor – completa e inequivocamente egocêntrico. Entre as idades dos quatro e dos sete, sugerimos que todo o resto do merecimento que possa obstinadamente ter resistido terá agora desaparecido e será virtualmente substituído a cem por cento pelo egocentrismo. Não é a única qualidade ou sentimento de um catraio de sete anos, mas o que sugerimos é que é um dos principais e um que representou em cada um de vós uma qualidade completamente egocêntrica.
Mas vocês descobrem algo por essa altura; não têm propriamente palavras para o que descobrem, mas descobrem que isso não o está a conseguir. Ser completamente egocêntrico não resulta e além disso, isso também está a ser erodido; que também lhes tiram isso, não só pais e professores desta vez mas os pares. Descobrem, ao ir para a escola, que os outros catraios não estão necessariamente convencidos de que vocês são a pessoa mais importante do mundo. (Riso) E isso representa um rude despertar para muitos de vós. Existem mais catraios e eles podem ripostar, e desprezá-los e ignorá-los e fazer-lhes todo o género de coisa. Portanto, não só erigiram esse egocentrismo e esse fascínio pelo merecimento como isso agora é erodido e vocês atingem a crise dos sete em que não têm merecimento e apenas egocentrismo e isso não resulta.
Destemidos, entre a idade dos sete e os dez, buscam uma outra fonte desse merecimento; deixam o principal progenitor em busca do progenitor secundário, geralmente o pai, ou figuras paternas. E entre os sete e os dez buscam esse merecimento no pai. Os rapazes deixam de querer ser abraçados e beijados e todas essas coisas pela mãe e passam a querer estar somente com o pai, por a mãe ser apenas a “velha mãe,” e só querem estar com o pai, o progenitor que descobriram à última da hora. (Riso) Finalmente reconciliados por regressar todas as noites pelo que sentem que o venham a deixar ficar (riso), e não só ficar como acham que vão passar a estar mais com ele por ele lhes dar o merecimento, o que vocês em vez disso tentam efectivamente fazer e agora começam a ganhar do pai, quer se trate de pai efectivo ou avó, tio ou irmão mais velho, da figura paterna… professores, amigos, enfim.
O período que dista dos sete aos dez também representa o período em que se apaixonam pelos vossos melhores amigos, pela irmã mais velha, pelo irmão mais velho; em que têm um conselheiro sem o qual não conseguem viver, e com quem vão acampar, ter lições de natação; em que o professor de repente se torna na vossa fonte externa de autoestima, de validação, de merecimento, e ao passarem por esse período de tempo chegam a um horrível despertar por altura dos dez, em que não obstante parecer que tenham, ainda não parece ser suficiente, ainda não resulta, ainda não substitui o merecimento para o qual não dispõem de palavras, mas que sentem ter tido certa vez.
Entre as idades dos dez e dos treze, vocês voltam-se para a presunção. Se algum de vocês se estiver com essa idade, saberá do que falamos. É tudo:
“Oh, mãe! Se não posso tomar quatro banhos por dia, morro. (Riso) Se não usar isto na escola, todos me detestarão e eu nunca virei a ter uma vida. Se não me deixares estar ao telefone, serei positivamente ostracizada e nunca mais voltarei a ter amigas na vida e crescerei esquisita e serei detida numa instituição algures. (Riso) Se não puder ficar a assistir ao espectáculo televisivo a que toda a gente assiste, não sei o que farei na escola, amanhã, quando descobrirem que não fiquei acordada até tarde!”
Tudo traduz presunção, vaidade, pomposidade! Numa tentativa vã e ineficaz de sentirem merecimento. De novo por altura dos treze envolvem-se por completo na presunção – mas não resulta! E por essa altura, todas as esperanças de alguma vez virem a merecer de novo, ter-se-ão esvanecido. Passam algum tempo por essa altura a rever, alguns de vocês tentam tornar-se catraios de novo e associam-se, e têm vontade de ser tratados como meninos; outros tentarão um último esforço junto do pai, e tentam levá-lo a prover isso; outros retiram-se para um egocentrismo, enquanto outros tentarão dar a volta por meio da presunção, mas basicamente a partir dessa altura, e pelo resto da vossa vida voltar-se-ão para uma dessas quatro abordagens numa tentativa de merecerem: Projecções da figura materna, projecções da figura paterna, presunção e egocentrismo.
(continua)
Transcrito e traduzido por Amadeu António

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