sábado, 3 de dezembro de 2016

FELIZ É TODO AQUELE QUE É NINGUÉM


Extraído da Biografia "Krishnamurti” de P. Jayakar                                   

Tradução de: Amadeu António 2002

             CARTAS A UMA JOVEM                             

         No período compreendido entre 1948 e o início dos anos sessenta Krishnamurti achava-se facilmente acessível para acolher as muitas pessoas que a ele recorriam. E nesse período floresceram algumas amizades novas, em resultado de passeios, encontros particulares e troca de correspondência mantidos com ele.

As cartas que se seguem foram escritas a uma jovem que o abordou magoada de corpo e alma. Escritas entre Junho de 48 e Março de 60, revelam um delicado sentido de compaixão e clareza  e desdobram-se sob a forma de um conjunto de instruções que se pauta sobretudo pela ausência de qualquer  sensação de distância e separação, e por uma fluidez tanto da palavra escrita como do sentimento terapêutico.                               
                                                                                          
 Pupul Jayakar

As Cartas              

       Procura desenvolver flexibilidade mental. A firmeza não reside na força nem em sermos persistentes mas na flexibilidade. Flexíveis como são, as árvores são capazes de suportar um temporal. Procura obter vigor de uma mente viva e ágil.
     
   A vida pode parecer muito estranha, quando tanta coisa sucede de forma inesperada, porém, a mera resistência não resolverá problema nenhum. Necessitamos de infinita flexibilidade e sinceridade do coração.
A vida assemelha-se a andar sobre o fio da navalha; devemos percorrer os seus caminhos providos de extraordinária precaução e sensatez. A vida é de uma riqueza tão abundante e cheia de preciosidades, e no entanto nós abeirámo-nos dela cheios de insensibilidade, sem saber como encher os corações com essa abundância. Permanecemos interiormente pobres, mas mesmo que essa abundância nos seja oferecida, recusamo-la.

       O amor é uma coisa perigosa porque pode pôr em marcha a única revolução que nos possibilite a felicidade suprema. Mas muito poucos têm a capacidade de amar ou sequer  de  desejar  amor... Preferimos amar nos nossos próprios termos  e assim fazemos do amor  uma moeda de troca. Possuímos uma mentalidade de feirantes, contudo o amor não é negociável, nem sequer moeda de troca. Trata-se, ao contrário, de uma qualidade de existência capaz de resolver todos os problemas do homem.
Mas nós abeirámo-nos da fonte com um dedal e por isso a vida torna-se esta coisa aparatosa, insignificante e trivial.
  
      Que lugar adorável a Terra podia ser, com tanta beleza, tanta glória, e todo este encanto imperecível. Nós deixámo-nos apanhar nas malhas da dor e não cuidamos de sair disso ainda que alguém venha e nos aponte uma saída. Eu não sei como nem porque razão, mas o amor é capaz de nos deixar numa ardência interior, com a acção da sua chama inextinguível. Podemos chegar de tal forma a senti-lo que só apetece partilhá-lo com todos, o que, nesse caso, fazemos de bom grado. Assemelha-se a um rio portentoso, cujas águas, poluídas pelas imundícies do homem que nele desaguam, rega e alimentam aldeias e vilas, para logo se purificarem e prosseguirem velozes.
     Nada poderá espoliar esse amor porque tudo nele se dissolve - o bom e o mau, a fealdade e a beleza.  Ele é a única coisa eterna em si mesma.
      
   Aquelas árvores tão majestosas pareciam estranhamente insensíveis ao tráfego que circulava por aquelas ruas alcatroadas. As suas raízes penetravam fundo na terra e as copas expandiam-se na direcção do céu.
Nós temos, como aliás devemos, as nossas raízes na terra, porém, achámo-nos sujeitos a rastejar nela, e somente uns quantos são capazes de se elevar aos céus. Esses são os únicos indivíduos criativos e felizes; os restantes exploram-se e destroem-se mutuamente, tanto por meio do pesar como  da bisbilhotice.

      Abre-te à vida. Convive com o passado se tiver que ser, porém, não te debatas com ele.  Quando as recordações do passado surgirem dá-lhes atenção, sem as afastares nem te prenderes demasiado a elas. A experiência de todos esses anos passados, com as suas dores e alegrias, os seus golpes estarrecedores, os vislumbres da separação e o sentido de distanciamento que isso imprime, tudo isso te trará enriquecimento e beleza. O importante é o que sentes no teu coração, mas se este se achar a transbordar de sentimento, isso será tudo o que precisas, pois serás tudo isso.

     Vigia todos os teus pensamentos e sensações e procura não deixar que nenhuma sensação ou pensamento se esvaia sem que te dês conta disso, e sem absorveres todo o seu conteúdo. Absorver não é o termo indicado, mas antes, perceber todo o seu conteúdo. É como apreender, de uma só vez, todo o conteúdo da dependência da casa onde se entra pela primeira vez, a sua atmosfera, o seu espaço. Aperceber-nos, termos consciência dos próprios pensamentos é algo que nos torna intensamente sensíveis, flexíveis, vigilantes.
     Não condenes nem formules juízos de valor, mas torna-te bem vigilante. Uma vez livre dessa separação e escória sucederá uma pureza áurea.

     Perceber o "que é" é algo bastante difícil. De que forma haveremos de observar com clareza? Quando a corrente do rio se defronta com um obstáculo não se detém; ao invés, derruba-o, devido ao seu peso, ou então avança sobre ele, ou ao seu redor; jamais se detém nem pode evitar dar prosseguimento ao seu curso. Revolta-se inteligentemente, por assim dizer.
E nós devemos também revoltar-nos assim, com inteligência, e aceitar as coisas como elas são. Aliás, para podermos perceber "o que é" teremos de possuir esse espirito de revolta inteligente. Necessitamos de certa inteligência a fim de não confundirmos um simples pedaço de pau com outra coisa qualquer, porém, geralmente ficamos tão ávidos para conseguir aquilo que queremos que nos precipitamos de encontro ao obstáculo, despedaçando-nos com o choque, ou então exaurimos as energias a debater-nos com ele.

   Não precisamos de coragem para perceber uma simples corda como uma corda, na obscuridade da noite; isso é um processo que não exige coragem. Contudo confundir a corda com uma cobra e de seguida observá-lo com atenção, isso já é outra coisa! Devemos constantemente duvidar e pesquisar, e perceber o falso como falso. Através da atenção intensa podemos obter o poder de ver com clareza; vais ver que sim.

Precisamos agir.
O rio jamais permanece inactivo; acha-se em constante movimento. Mas para sermos capazes de agir precisamos permanecer em estado de negação, pois essa negação produz a sua própria acção positiva. Onde existir flexibilidade não haverá questão de certo ou errado. E nós devemos estar muito seguros das coisas, intimamente. Asseguro-te de que nessas condições tudo correrá pelo melhor; obtém essa clareza e verás como as coisas se haverão de compor sem que faças nada a respeito. Simplesmente esse resultado não passa pelo que desejamos...
  
      Tem de se dar uma revolução total não só naquilo que se reveste de significado para nós mas sobretudo nas pequenas coisas do dia-a-dia. Tu passaste por essa revolução porém não deves pôr isso para trás das costas; aplica-lhe a tua atenção. Mantém a coisa em suspenso.




    Espero que tenhas contemplado as estrelas na tranquilidade do entardecer antes de te deitares, tenhas passado uma boa noite, e contemplado o agradável amanhecer.
Quão pouco conhecemos sobre o amor, sobre a sua ternura e poder extraordinários, fazendo uso tão fácil e gratuito da palavra; A maioria utiliza-a - o talhante, o homem rico e o jovem com a sua namorada; mas quão pouco sabem eles sobre o amor e a sua imensidão, a sua imortalidade a sua insondável natureza! Amar é obter consciência do eterno.

       Que coisa fizemos do relacionamento, cedendo facilmente a esse hábito de tornar toda a relação numa questão pessoal, sempre a tomar as coisas como certas e a aceitar as situações sem tolerar qualquer variação - sem um único movimento no domínio da incerteza, ainda que por um só segundo, tão distraídos que nos achamos nesse hábito. É tudo tão ajustado, tão garantido, tão atado que não sobra a menor chance de nos revigorarmos nem de respirarmos um alento fresco e revigorante. E chamamos nós a isso relacionamento. Mas se observarmos de perto, o estado de relacionamento é muito mais subtil, muito mais veloz do que o relâmpago, mais vasto do que a Terra, pois o estado de relação é  vida.
A vida é conflito! Nós queremos que as relações sejam essa coisa ordinária e assim tornámo-las sólidas e manipuláveis mas desse jeito elas perdem a sua fragrância e sentido de beleza. E tudo isso se dá por não amarmos. Mas é claro, isso é a coisa mais difícil, porquanto para isso poder ocorrer tem que haver um abandono total de si mesmo.

   As qualidades de novidade e renovação são essenciais; de outro modo a nossa vida acaba por se tornar uma rotina, um hábito, uma coisa aborrecida.
    A maior parte das pessoas perdeu toda e qualquer capacidade de assombro. Tomam tudo como certo e assim esse sentido de segurança destrói o sentido de liberdade e o assombro da dúvida. Nós sempre projectamos um futuro longínquo, distante do presente, todavia, a atenção necessária à compreensão situa-se sempre no presente.
Essa atenção comporta um certo sentido de iminência. Possuir  clareza com relação às nossas próprias intenções é uma tarefa e tanto. A intenção assemelha-se a uma chama,  tal a forma como nos impele incessantemente para a compreensão. Procura ter uma noção exacta das tuas intenções e verás como tudo  se resolverá. Tudo o que precisamos é possuir essa clareza no presente, porém não é tão fácil como parece.
Temos de limpar a terra para a semente nova, mas uma vez que esta seja lançada á terra, a sua força e vitalidade produzirão fruto, e uma outra semente.
    
   A beleza externa não pode durar para sempre mas se perdermos o encanto e a alegria interior então toda a beleza acabará obscurecida. Ainda assim, cultivamos a beleza exterior e prestamos muito pouca atenção ao que ocorre no íntimo; todavia o que reside no interior sempre acabará por superar o exterior; é a lagarta no interior da maçã que destrói a sua frescura.
     Requer-se imensa inteligência para que um homem ou uma mulher se esqueçam de si próprios e vivam juntos sem se submeterem nem serem dominados pelo outro. O  relacionamento correcto é a coisa mais difícil de conseguir na vida.

       De que forma estranha podemos tornar-nos susceptíveis a um dado ambiente! Todos nós necessitamos de uma certa tensão amigável, uma sensação cálida de atenção para podermos desabrochar com naturalidade e liberdade. Porém muito poucos podem dispor de uma atmosfera assim e por isso a maior parte acaba física ou psicologicamente atrofiada.

     Muito me surpreende que tenhas sobrevivido sem te teres corrompido nesse ambiente particular. Pode-se perceber a razão por que escapaste á completa aniquilação que te poderia deixar marcada e alterada. É que, conquanto exteriormente te tenhas ajustado tão rápido quanto possível,  interiormente, contudo, deixaste-te permanecer num estado de torpor. Mas foi essa insensibilidade interior que te poupou. Se te tivesses permitido permanecer intimamente sensível e desperta não terias tido a chance de suportar tudo aquilo por que passaste e o conflito acabaria por ocorrer; isso ter-te-ia marcado e derrubado. Mas agora que a tua consciência   começa a despertar e possuis clareza mental, encontras-te livre de todo o conflito inerente a esse ambiente. E é esse conflito que cria a corrupção. Enquanto  interiormente permaneceres vigilante e desperta, e com relação às coisas exteriores te ajustares com afabilidade, permanecerás  isenta de marcas.
  
    As coisas que, em sua substituição elegemos, cedo murcham. Podemos ser perfeitamente mundanos ainda que detenhamos apenas umas quantas coisas, pois o desejo de poder - seja qual for a forma que assuma, o poder do asceta, o poder do ilustre financeiro,  do político ou  do papa – esse poder ainda é mundano. A ânsia de poder gera a crueldade e enfatiza a auto-importância; e a agressividade crescente é, por essência, coisa mundana. A humildade consiste em sermos simples, porém toda a humildade que é cultivada é ainda uma forma de mundanidade.

     Muito poucos têm consciência das alterações interiores por que passamos: revezes, conflitos, deformidades... E quando temos, procuramos pô-la de parte pelo uso da força, ou então esquivamo-nos.  Não  faças isso.  Não é que pense que possas fazê-lo mas é que incorres no perigo de vir a conviver de forma demasiado intensa com os teus pensamentos e sentimentos. Todavia devemos procurar ter consciência dos nossos pensamentos e sentimentos sem qualquer ansiedade ou pressão. Passaste por uma verdadeira revolução e por isso mesmo devias procurar ser consciente deles e deixar que sobrevenham sem impedimento nenhum e sem os afastares. Deixa fluir os pensamentos suaves junto com os  violentos, mas procura obter uma maior consciência deles.



   Tens ocupado algum tempo a avaliar os teus desejos, se ainda  possuis alguns?
   O mundo é um  lugar adorável, mas ainda assim tudo fazemos para nos desviarmos dele, quer através da oração quer da veneração, anelos e anseios pessoais. E desse modo como haveremos de descobrir se somos ricos ou pobres, se jamais chegamos a penetrar com intensidade na nossa vida para descobrir isso "que é"? Vivemos pela rama. Satisfazemo-nos com muito pouco e desse modo tanto nos tornamos felizes com coisas sem significado nenhum, como completamente infelizes. A nossa mente é estreitada por problemas e respostas mesquinhos, e assim vamos vivendo os nossos dias. Não sabemos o que é amar mas se chegamos a sentir algum é sempre um amor acompanhado de temor e frustração, tristeza e ansiedade.

      Ocorreu-me reflectir em como é importante preservarmos a inocência, possuir uma mente inocente. Ao longo da vida as experiências tornam-se inevitáveis, quando não mesmo necessárias.  A vida é mesmo formada por uma série de experiências, porém a mente não necessita deixar-se sobrecarregar com o acúmulo das exigências da experiência quando pode removê-las e permanecer desse modo inocente e liberta do seu fardo. Isso é importante porque de outro modo a mente não poderá manter-se fresca, vigilante e flexível. Mas não se trata aqui da questão de "como" conduzi-la a esse estado; o "como" representa a busca de um método, mas nenhum método alguma vez tornará a mente inocente. Pode torná-la mais metódica porém jamais inocente nem criativa.


 
     Ontem ao entardecer começou a chover e durante a noite a chuva intensificou-se. Nunca tinha visto uma coisa assim. Era como se os céus se estivessem a despejar. Mas ao mesmo tempo aquela intensidade fazia-se acompanhar de um profundo silêncio, um silêncio que se espalhava por toda a terra.
     È sempre difícil preservarmos a simplicidade e a lucidez  quando o mundo adora o sucesso: "quanto mais, melhor" - quanto maior a audiência mais importante o orador, Coisa que acontece com relação aos colossais edifícios, aos automóveis, aos aviões e mesmo às pessoas. Perdemos a simplicidade. As pessoas bem sucedidas não são as que estão a criar um mundo novo. Para podermos ser verdadeiros revolucionários requer-se uma completa mudança na mente e no coração, mas muito poucos quererão tornar-se livres. Cortamos apenas as raízes superficiais, mas para podermos eliminar as raízes profundas que se nutrem da mediocridade e do sucesso, requer-se algo mais do que meras palavras, métodos e compulsão. Esses parecem ser poucos, porém são eles os verdadeiros criadores - o resto labuta em vão.

     Estamos permanentemente a comparar-nos com os outros - aquilo que somos com o que deveríamos ser, ou com quem é mais afortunado. Mas na verdade o acto de comparar fere mortalmente. A comparação é degradante a ponto de nos chegar a corromper as perspectivas. No entanto somos criados nela; toda a nossa educação baseia-se na comparação, do mesmo modo que a cultura. Daí decorre a incessante luta para nos tornarmos alguma coisa  além daquilo que somos. Mas a compreensão daquilo que somos  é o que revelará a criatividade, ao passo que a comparação  produz somente  espirito de competição, crueldade e ambição, ainda que pensemos que isso contribui para o progresso. O progresso conduziu-nos a muito mais guerras cruéis e infelicidade do que as que o mundo alguma vez conhecera. A verdadeira educação consiste em criar as crianças sem  utilizar a comparação.

      Parece estranho e completamente desnecessário estar a escrever-te. Aquilo que mais conta está aqui e tu encontras-te desse lado. As coisas verdadeiras permanecem inalteráveis sem que seja necessário que escrevamos ou sequer precisemos falar sobre elas. Pelo próprio acto de as verbalizar ou colocar no papel  parece que as corrompemos  e  espoliamos. E no entanto dizemos tanta coisa que não tem nada a ver com elas... Este impulso no sentido da realização incita muita gente, tanto através de pequenas como de grandes formas de expressão.

   Podemos sempre satisfazer esse impulso, de um modo ou de outro, mas, com a satisfação, as coisas verdadeiras desvanecem-se. Pelo menos é o que acontece na maioria dos casos, não será mesmo? A satisfação que o desejo proporciona, apesar de ser do nosso inteiro agrado, constitui um processo mesquinho; porém, na justa medida em que nos preocupamos continuamente por criar a própria satisfação também damos lugar a que a rotina e o aborrecimento se instalem, e a que a coisa autentica se dissipe.
Todavia é a coisa verdadeira que tem de prevalecer, mas a maravilha disso está em que ela prevalece - se não subsistir nenhum pensamento de realização e se chegarmos a ver as coisas como elas são.


       É tão raro ficarmos a sós. Sempre nos achamos rodeados de gente ou com a cabeça a pulular de ideias e esperanças não realizadas ou em vias de o ser, recordações e tudo o mais. Contudo é essencial que o ser humano se torne livre de influências para que possa ocorrer algo livre de contaminação. Mas parece não sobrar tempo nenhum para ficarmos sós, sempre com tanta coisa para fazer, responsabilidades e tudo mais... Todavia é necessário que aprendamos a permanecer em silêncio, e nos refugiemos no nosso quarto para podermos dar algum descanso á mente.

    O amor faz parte desse ficar só. Possuir a chama desse amor, dessa clareza de espírito e do silêncio interior equivale a tornar-nos simples.
    No entanto as coisas podem não ser fáceis; quanto mais exigimos da vida mais temível e dolorosa  ela tende a tornar-se. Vivermos com simplicidade, livres de influências - conquanto tudo e todos tendam a influenciar - vermo-nos livre dos humores alternantes e das exigências, pode não ser fácil mas se não vivermos uma vida de profunda tranquilidade tudo o mais se revelará fútil.
  
    O céu profundamente azul possui tanta claridade e transmite uma tal sensação de vastidão intemporal que exclui toda e qualquer noção de espaço. O espaço e a distância são coisa da mente; o "aqui" e  "acolá" são um facto mas, devido à acção ou impulso do desejo tornam-se factores psicológicos.
A mente é deveras um fenómeno estranho de tão complexa, no entanto é essencialmente simples. Mas os vários tipos de compulsão psicológica tornam-na complexa. E isso torna-se causa de conflito e  dor, resistência e necessidade de obtenção de "mais". E é muito difícil possuir consciência disso e permitir que isso passe sem nos enredarmos no processo.

    A vida assemelha-se a um vasto rio a correr para o mar. A mente sustenta, na sua moldura, as coisas desse rio, tanto por aquilo de que se desfaz como pelo que retém; mas essa moldura não devia existir pois pertence ao tempo e ao espaço e é essa moldura que cria o "aqui" e  "acolá"; a felicidade e a tristeza.

      O orgulho é uma coisa bizarra, tanto com relação às grandes causas como às coisas insignificantes. Seja pelo que possuímos, pelas nossas realizações ou virtudes - o orgulho da raça, do nome ou da família, o orgulho das próprias capacidades, do aspecto ou do conhecimento; tanto somos impelidos a fazer com que tudo isso alimente o nosso orgulho como nos votamos a correr em busca da humildade. Mas o contrário do orgulho não é humildade; trata-se ainda de uma forma desse mesmo orgulho, a que nós chamamos humildade. A consciência de sermos humildes é, ainda, orgulho. A mente sempre procura ser alguma coisa e esforça-se para se tornar isto e mais aquilo, sem jamais chegar a sustentar um estado de ser coisa nenhuma. Mas se esse estado se apresentar sob os auspícios de um novo tipo de experiência, então ela procurará obtê-lo. Todavia a própria tentativa para se aquietar representará mais uma forma de aquisição. A mente só deve poder passar além de todo o esforço  quando...




     Os nossos dias são tão vazios, não obstante  preencher-mo-los com actividades de todo o género - negócios, especulação, meditação, tristeza, alegria... A despeito de tudo isso as nossas vidas permanecem vazias. Retire-se ao homem a sua posição, poder ou dinheiro e a que ficará ele reduzido? Externamente ele  possuía toda aquela pomposidade mas interiormente permanece superficial e vazio. Não podemos possuir ambas as formas de riqueza a um só tempo: a interior e a outra. Mas o estado de integridade interior ultrapassa de longe a riqueza exterior. Desta podemos nós ser despojados; eventos externos sempre poderão destroçar o que foi cuidadosamente erguido ou reunido; todavia, os tesouros interiores são incorruptíveis e nada lhes pode tocar porque não são uma criação da mente.

       O desejo de satisfação é extremamente forte e as pessoas perseguem-no  a qualquer custo. Essa sede de satisfação, seja em que direcção ou sentido for, parece dar-lhes sustento; e se numa determinada direcção falhar elas tentarão numa outra. Mas existirá coisa tal como satisfação?
A realização pode trazer-nos um certo tipo de satisfação porém desvanece-se em pouco tempo, para que, de novo nos vermos no seu encalço.
Mas toda a noção de realização deixará de existir se compreendermos  o desejo. O desejo é esse esforço por nos tornarmos, por sermos alguém; o término desse movimento faz desvanecer todo o esforço pela realização.

       Os montes são únicos. É encantador contemplar a chuva a cair sobre os montes, as gotas de chuva a cair sobre a placidez do lago. Sempre que chove sobrevem aquele aroma a terra e logo surge o coaxar de rãs aos magotes. Quando chove nos trópicos, sobrevem um estranho encanto.  Tudo fica lavado pela chuva, o pó das folhas é arrastado e os rios readquirem vida e o fulgor das águas soltas a correr.
      As árvores fazem brotar rebentos novos e onde antes só havia terra barrenta reaparece  a relva verde. Surgem insectos aos milhares  como que do nada e a terra ressequida é uma vez mais nutrida e parece satisfazer-se e ficar em paz. O sol parece perder a sua incidência penetrante e a terra torna-se reverdejante;  um local cheio de beleza e abundância.
O homem continua a criar a sua própria infelicidade; só a terra é renovada na sua riqueza, de tal forma que podemos  perceber encanto em todo o ambiente.

      È uma coisa estranha que a maior parte das pessoas procure o reconhecimento e o louvor - seja o reconhecimento do grande poeta, do filósofo ou algum outro que nos faça dilatar o ego. Conquanto isso nos traga enorme satisfação, por outro lado,  possui muito pouco significado. O reconhecimento alimenta-nos a vaidade e talvez também a bolsa, mas, e depois? Torna-nos exclusivistas; só que a separação inerente a tal condição gera os seus próprios problemas, que depois não param de crescer. Conquanto possa trazer-nos satisfação, o reconhecimento jamais poderá constituir um fim em si mesmo. Mas a maior parte das pessoas deixa-se apanhar por essa ânsia de reconhecimento e satisfação, realização pessoal,  e aí o fracasso e a sensação de infelicidade instalam-se inevitavelmente.
Todavia, o que conta é a liberdade; liberdade tanto com relação ao sucesso como ao fracasso. Desde logo, cumpre não procurarmos um resultado, mas uma acção empreendida com gosto, pois tal afeição não acarreta recompensa nem castigo. Isso tornar-se-á verdadeiramente simples  se empregarmos essa afeição.

      Como prestamos tão pouca atenção ao nosso redor e ás coisas que devíamos observar e considerar! Achamo-nos tão centrados em nós próprios e tão cheios de preocupações em benefício próprio que nem chegamos a ter tempo para a observação ou para a procura da compreensão. Essa ocupação torna-nos a mente embotada e sobrecarregada de problemas, repleta de frustração e tristeza; e depois procuramos escapar disso. Todavia, enquanto o "eu" se achar em actividade terá de resultar sempre frustração e embotamento. E, nesta corrida de loucos, as pessoas deixam-se apanhar pela aflição desta dor auto-centrada; mas essa dor constitui tão só uma forma total falta de atenção. Só aqueles que forem vigilantes e reflectidos se verão livres dessa dor.




      Quanto encanto pode um rio adquirir. Uma terra sem um rio abundante e vasto jamais poderá ver-se completa. Poder sentar-nos nas suas margens a ver as águas a correr e  contemplar as leves ondulações da corrente,  escutar o marulhar das ondas nas margens, observar as ondulações que o vento cria nas águas ou o voo raso das andorinhas em busca de insectos; escutar as vozes à distância ou o menino a tocar flauta na outra margem, na calma do entardecer, tudo isso nos pacifica a mente. De algum modo, parece que as águas nos purificam e limpam a poeira das memórias de ontem e transmitindo-nos a qualidade da sua pureza, tal como a água em si mesma é pura.
       O rio recebe tudo; os esgotos, os cadáveres, a sujidade das cidades por onde passa, não obstante purifica-se no espaço de uns quantos quilómetros. E tudo isso ele  recebe sem deixar de permanecer sempre semelhante a si mesmo, sem se preocupar a fazer a distinção entre  puro e  impuro. Somente as poças ou os lagos acabam contaminados por não possuírem o movimento e a vida dos grandes rios fluentes e aromáticos. E a nossa mente assemelha-se assim a um lago estreito e impuro; é essa pequena poça- a que chamamos a nossa mente, que ajuíza, pondera e analisa, e que, não obstante permanece  o mesquinho foco de responsabilidade que é.
      O pensamento pode ter uma ou várias causas mas em si mesmo é a raiz disso mesmo. Ou reagimos de modo natural, ou acabamos por ficar num estado de semi-vida. Mas o problema está em não deixar que essa acção ganhe raízes no presente nem as estenda ao futuro.

   É natural que o pensamento desponte, porém, é essencial que tenhamos consciência dele e o eliminemos imediatamente;  pensar ou actuar sobre esse pensamento, examinar-lhe a natureza,  é dar-lhe extensão e possibilitar que se enraíze. Muito importa compreender isso. Perceber a forma como a mente se entrega ao pensamento  representa uma reacção ao facto. Essa reacção  torna-se, por sua vez,  tristeza, e nós  começamos a sentir essa tristeza e a pensar no retorno, a contar os dias, etc.; isso fortalece de tal forma o pensamento concernente ao facto  que a mente cria raízes. Depois,  arrancá-las torna-se outro problema,  outra ideia. Pensar sobre o futuro é criar raízes no terreno da incerteza.

        Ficar verdadeiramente sós sem as lembranças e os problemas de ontem; ficar sós e felizes,  sem nenhum tipo de compulsão externa nem interna, significa não deixar que a mente sofra qualquer interferência enquanto permanece só; significa que ela seja capaz de sentir ternura e protecção por aquela árvore, e ainda assim permanece só. Estamos a perder os sentimentos pelas árvores e assim estamos igualmente a perder o afecto pelo homem. Quando já não sentimos amor pela natureza também deixamos de o sentir pelo semelhante e os nossos deuses tornam-se tão mesquinhos e insignificantes quanto o nosso sentimento de amor. Levamos uma existência de mediocridade; mas para além disso tudo existem as árvores, o vasto céu e as inesgotáveis riquezas da terra.

       É essencial que detenhas uma mente clara, livre e solta; mas não podes ter uma mente penetrante enquanto subsistir algum tipo de temor, pois o medo obstrui a mente. Se a mente não se defrontar com os próprios problemas que cria, não poderá preservar essa qualidade de clareza e profundidade. Possuir uma mente assim com sentido de profundidade e clareza implica  fazer face às  próprias peculiaridades e obter consciência íntima com relação aos próprios desejos, de modo profundo, e  fazê-lo sem nenhuma resistência. Só assim ela poderá possuir essa subtileza sem se tornar meramente perspicaz. A mente subtil é lenta e hesitante, porém, não a mente que conclui, ajuíza ou formula. E essa subtileza é essencial. Uma mente assim deve saber escutar e esperar; capaz de lidar com o que é profundo.

      Isso não é para ser conseguido no fim, mas tem de prevalecer no próprio começo. Deves possuir uma mente assim e dar-lhe chance de desabrochar profunda e completamente, chance de sondar o desconhecido sem tomar nada como certo nem assumir coisa nenhuma,  permanecendo desse modo livre para descobrir, porque só então poderá ser dotada de profundidade e compreensão. De outra forma permanece-se pela rama.
        O que importa não é provar ou refutar uma dada questão mas sim descobrir-lhe a verdade. E toda a ideia de mudança ou de verdade pode ser percebida somente quando restar "o que é". Aquilo "que é"  não é diferente do pensador; o pensador é aquilo que é, e não existe em separado.
Se subsistir qualquer forma de querer, ou qualquer forma de esperança por um estado futuro, não conseguiremos ter paz, porquanto se existir algum querer isso far-se-á seguir de sofrimento. A vida é feita de vontades. Mesmo que se possua uma única forma de querer isso pode conduzir-nos a um estado de infelicidade interminável. E para a mente poder ser livre desse querer, e assim conhecermos esse desejo, necessitamos fazer uso da atenção; todavia, receio que isso não seja exigência que se faça.
Uma vez que o conheças não deixes que se torne um problema porque prolongar um problema é permitir que ganhe raízes. Não  permitas que tal ocorra.
Esse querer único é toda a dor; ela enegrece a vida, e causa frustração e sofrimento. Tem simplesmente consciência disso e trata-o  com simplicidade.



       Aqui a propriedade é atravessada por um riacho. Não se trata de uma corrente de água serena que se dirige para o rio mais caudaloso mas  dum riacho barulhento e animado. Toda esta terra ao redor está repleta de colinas e o riacho  dá lugar a várias quedas. Num só local há várias cataratas de diferentes tipos de altura; a maior é a mais ruidosa e as restantes duas, mais baixas, são de menores dimensões. Todas essas diferentes cascatas se encontram diferentemente espaçadas de modo que isso gera um ruído contínuo. Temos de prestar atenção para podermos perceber a melodia que faz! Assemelha-se a uma orquestra a tocar por entre os pomares, a céu aberto; a melodia está nisso. Tem de se ficar atento para a perceber; ficar a sós com as águas correntes para poder ouvir essa melodia. Temos de ser tudo o que nos rodeia para a podermos escutar: o céu a terra, as árvores repletas de folhas a esvoaçar ao vento, os campos verdejantes e a corrente de água; só então a escutaremos.
   Mas tudo isso envolve demasiado incómodo pelo que preferimos comprar um bilhete e sentar-nos numa plateia, fazer-nos rodear de pessoas, e assistir a uma orquestra a tocar ou a alguém a cantar. Eles fazem todo o trabalho por nós; alguém compõe uma musica ou uma canção, enquanto alguma outra pessoa a interpreta ou  canta, e nós pagamos para escutar.  Tudo na vida, á excepção de umas quantas coisas, é de segunda - quando não mesmo de terceira, ou quarta: os deuses, a poesia, a política, a musica. E por isso a nossa vida torna-se vazia.
Mas, uma vez vazia, logo tratamos de a preencher - com musica, com os deuses ou através do amor e todas as demais  formas de escape. Todavia, esse  acto de preenchimento constitui a própria acção de a esvaziar de toda a riqueza de sentido.

      A beleza não existe para ser comprada. E assim poucos são aqueles que a procuram,  ou a bondade, porque o homem se satisfaz com as coisas de segunda mão. A verdadeira revolução consiste em atirar tudo isso para o lixo  porque só desse modo poderá chegar a existir  criatividade autentica.
        É estranho como o homem insiste na continuidade de todas as coisas que empreende; seja na tradição, na religião ou na arte, sem jamais se deter ou começar de novo. Se os homens não possuíssem um único livro ou líder, se não tivessem quem imitar ou seguir como exemplo mas permanecessem completamente sós, despidos de todo o seu saber, nesse caso teriam de começar do princípio. Claro que esse acto de se despirem de si mesmos deve ser completamente espontâneo e voluntário, porquanto de outro modo eles enlouqueceriam ou sujeitar-se-iam a uma forma qualquer de neurose. E como somente uns poucos são capazes de ficar completamente sós, o mundo prolonga a tradição através das artes, da musica, da política e de "Deus"- o que sempre acaba por gerar infelicidade.
      Isso foi o que aconteceu com o mundo actual. Nada é novo e tanto na religião - que continua com a velha fórmula do medo e do dogma - como também na arte - que se esforça infrutiferamente por encontrar algo que seja novo - só existe oposição e contraposição. Mas a mente também não se renova, permanecendo a mesma mente velha  enredada na tradição, no medo, no conhecimento, na experiência, sempre a esforçar-se por descobrir o novo. Todavia a própria mente é que necessita de se despir completamente para que o novo passe a existir. Isso é a verdadeira revolução.
Sopra um vento do sul e aproximam-se  nuvens negras de tempestade e chuva; mas tudo isso avança num acto de auto renovação.

      A  mulher do fazendeiro cá do sítio levou-lhe um belo exemplar de coelho, cheio de vivacidade a espernear, e passado  pouco tempo, enquanto uma outra comentava ser incapaz de presenciar, o homem matou-o.  E aquilo que se achava cheio de vida e brilho no olhar logo era esfolado pela mulher. Aqui é costume matar os animais, como de resto, em qualquer outra parte do mundo pois a religião não o proíbe. Na Índia onde durante séculos as crianças foram ensinadas a não matar - pelo  menos entre os brâmanes do sul - tal coisa constituiria um acto de crueldade, porém há muitas outras crianças que, quando crescem se vêem forçadas pelas circunstâncias a mudar de um dia para o outro a sua cultura, e passam a comer carne ou então tornam-se oficiais do exército, ao serviço da morte. Em muito pouco tempo vêem os seus valores mudados e séculos de um padrão ancestral de cultura são derrubados pela aceitação de um novo padrão.
        O desejo de segurança, sob qualquer forma que seja, torna-se de tal modo dominante que leva a que a mente se ajuste a todo e qualquer padrão que lhe prometa segurança e garantia. Todavia não existe segurança nenhuma e se chegarmos a compreender isso então passará a existir algo completamente diferente, que criará a sua própria expressão na vida. Mas essa forma de viver não pode ser entendida nem copiada; tudo aquilo que podemos fazer é compreender e ter consciência dos aspectos que a segurança assume - facto esse que trará a sua própria liberdade.

      Como a terra é maravilhosa! Quanto mais tomamos consciência disso mais maravilhosa parece tornar-se. A sua cor, as variedades de verdes e amarelos... É espantoso aquilo que podemos descobrir quando ficamos a sós com a natureza; não se trata somente dos insectos e dos pássaros, da relva, das variedades de flores, mas as rochas, as cores, as árvores e os pensamentos também, se chegarmos a amar. Mas jamais ficamos a sós com coisa alguma; nem connosco nem com a terra. É fácil permanecer a sós com o desejo sem lhe resistir por efeito de qualquer acto da vontade, e não deixar que isso resulte numa acção qualquer; sem lhe permitir a satisfação nem lhe criar o oposto tanto por meio da justificação como da condenação; apenas ficar a sós com ele. Isso gera todo um estranho estado de espirito, livre da concorrência de todo o tipo de acção da vontade. Mas a vontade é que cria resistência e conflito. Ficar a sós com o desejo acaba por produzir uma transformação no próprio desejo. Experimenta-o e descobre o que acontece, porém não forces coisa nenhuma. Considera isso como algo fácil.





       Que coisa entendemos por educação? Aprendemos a ler e a escrever e obtemos uma técnica necessária para ganharmos a vida e depois damos-lhe livre curso. Desde a infância  advertem-nos sobre o que devemos fazer e     pensar, mas interiormente tornamo-nos profundamente condicionados pela influência social e ambiental.
   Estava aqui a pensar se não seremos capazes de educar o homem externamente, deixando-o  interiormente livre - não seremos capazes disso? Não poderemos auxiliar o homem a tornar-se interiormente livre  diante de qualquer situação? Porque somente em liberdade  poderemos ser criativos e, consequentemente, felizes. De outro modo a vida torna-se um campo de batalha, tanto interior como exteriormente.
   Porém  necessitamos dum zelo e duma sabedoria admiráveis  para sermos livres interiormente. Mas poucos serão capazes de perceber a importância disso. Preocupamo-nos com o lado externo da actividade ao invés da criatividade, e para alterarmos isso terão que existir pelo menos uns poucos que compreendam essa necessidade e produzam interiormente essa liberdade, em si mesmos. É um mundo verdadeiramente estranho, este nosso!

   Importa que produzamos uma mudança radical no inconsciente. Nenhuma acção consciente proveniente da vontade volitiva poderá alcançar o inconsciente. E como não podemos chegar às  actividades inconscientes, com as suas demandas e desejos, a mente consciente deve acalmar, aquietar-se, e deixar de tentar forçar o inconsciente segundo um padrão de acção predeterminado. O inconsciente possui o seu próprio padrão de acção: que é a moldura dentro da qual funciona. Mas essa moldura não pode ser rompida por acção externa nenhuma, e a vontade é uma acção externa. Se realmente percebermos e compreendermos isso então a mente externa poderá permanecer naturalmente imóvel, e por deixar de existir qualquer resistência oposta pela vontade poderemos descobrir que o chamado inconsciente começa por si só a libertar-se das próprias limitações. Só então a totalidade do ser humano sofrerá uma transformação radical.

       A dignidade é coisa bastante rara. Um cargo ou uma posição de respeito podem conferir dignidade. È como envergar um casaco; o casaco, a peça de roupa, a nomeação, conferem dignidade. Mas dispamos o homem dessas coisas e muito poucos revelarão essa qualidade de dignidade que sobrevem com a liberdade interior de não ser coisa nenhuma.
   O homem anseia por ser alguma coisa, qualquer coisa que ele respeite, e isso confere-lhe posição na sociedade. Conferimos toda a sorte de categorias a um indivíduo -  inteligente, rico, santo, médico etc. Todavia, se não for capaz de se encaixar numa categoria qualquer, que possa ser reconhecida pela sociedade, ele tornar-se-á uma pessoa estranha. Não podemos presumir ser dignos nem cultivar a dignidade.  Ter consciência da dignidade própria é ter consciência de nós, e isso é insignificante e mesquinho. Não ser ninguém implica até mesmo que se seja livre dessa ideia.

   A verdadeira dignidade não consiste em nenhuma forma particular nem estado, mas na existência. Essa dignidade não nos pode ser tirada; só pode prevalecer.
A verdadeira consciência está em permitirmos o livre curso da vida, sem deixar nenhum resíduo. Mas a mente humana assemelha-se a uma peneira que retém certas  coisas e deixa passar outras; aquilo que ela retém constitui a medida dos seus desejos, mas os desejos - conquanto  profundos amplos ou nobres, são sempre estreitos e mesquinhos, porque o desejo é coisa da mente.

   A consciência indivisa sobrevem se fizermos uso da plena liberdade para fluirmos sem restrições nem escolhas, e não a retivermos. Estamos sempre a reter impressões, a escolher as coisas que possuem significado e a apoiar-nos perpetuamente nelas. A isto chamamos nós experiência, e depois pensamos que a multiplicidade de experiências constitua a riqueza da vida. Mas a riqueza da vida reside na liberdade do acúmulo de experiências.
   A experiência que prevalece ou é retida impede esse estado isento do conhecido. O conhecido não constitui esse tesouro mas a mente agarra-se a ele e desse modo destrói e profana o desconhecido.
A vida é uma coisa estranha. Feliz é aquele que é ninguém!

   Somos, na grande maioria, criaturas detentoras de uma profusão de humores, e poucos são os que escapam a isso. Com  alguns isso deve-se a uma qualquer razão orgânica ao passo que com os outros se trata já de um estado mental. Apreciamos este estado de altos e baixos e achamos que tal estado de variação de humores faça parte da existência, ou então vagamos á deriva, entre um ou outro estado de espirito. E são poucos os que se não deixam prender neste movimento e conseguem ver-se livres dos tormentos do vir a ser, de modo a possuírem firmeza e  sentido de constância interior – o que não decorre da vontade mas duma segurança que não pode ser cultivada. Não a segurança que nasce  da concentração do interesse nem tampouco o produto de qualquer  dessas actividades. Isso sobrevem somente quando a acção da vontade cessa.

       O dinheiro corrompe as pessoas. Depois há a estranha arrogância dos ricos. À excepção de alguns casos, em todas as nações os ricos possuem essa aura de quem tudo pode virar a seu favor; parecem até capazes de comprar os deuses. E a riqueza não lhes sobrevem somente das posses mas também da capacidade de fazer coisas. O "ser capaz" confere ao homem uma estranha sensação de liberdade e fá-lo sentir-se diferente e superior aos outros. Tudo isso lhe dá essa sensação de superioridade de modo que  se recosta e olha os outros a retorcer-se, sem ter consciência da sua própria ignorância nem da ignorância da sua própria mente.
      Tanto o dinheiro como a capacidade oferecem-nos um bom escape para a ignorância do eu; afinal todo o escape, toda a fuga constituem uma forma de resistência, e geram os seus próprios problemas. A vida é uma coisa estranha. Feliz é aquele que  é ninguém!



      Considera as coisas de modo fácil, com integridade e vigilância interior. Não deixes que o momento se desvaneça sem ter completa consciência do que ocorre tanto interiormente como ao teu redor. Frequentemente isso corresponde a sermos sensíveis, não a uma ou outra coisa mas a tudo. Ser sensível á beleza e resistir á fealdade torna-se causa de conflito. Á medida que fores observando perceberás que a mente está constantemente a julgar –"isto é bom, aquilo não é; isto é negro e aquilo é branco"; a julgar as pessoas, a comparar, a avaliar e a calcular.

   A mente encontra-se num eterno desassossego. Poderá, desse modo, observar e olhar sem julgamento nem cálculo? Tenta perceber sem nomear e vê tão só se a mente o consegue fazer.
Experimenta-o.  Não forces a mente mas deixa que ela se observe a si mesma, por si só.
   A maioria das pessoas que tenta tornar-se simples começa pelo descartar, pela renuncia etc. - pelo lado externo das coisas; porém, interiormente, prevalecem em na mesma complexidade em que viviam. Se possuirmos simplicidade interior o exterior corresponderá exactamente ao nosso íntimo. Mas ser simples interiormente é ser livre do desejo de mais, o que não significa sentir-se satisfeito com o que (se) é. Ser livre do desejo de mais é não pensar em termos de tempo nem de progresso, nem tampouco alcançá-lo.

    Ser simples consiste  na capacidade da mente se livrar a si própria de todo o resultado e esvaziar-se de todo o conflito. Isso é a verdadeira simplicidade.
Como pode a mente  debater-se com a fealdade e a beleza,  agarrando-se a uma ao mesmo tempo que  se afasta da outra? Esse conflito é um factor de exclusão que só a torna insensível. Qualquer tentativa que ela empreenda a fim de descobrir a linha indefinível entre ambos deverá ainda fazer parte de um ou do outro aspecto. Mas faça o que fizer, o pensamento não poderá libertar-se dos opostos, porque foi o pensamento  que criou o belo e o feio, o bom e o mau. Desse modo ele não pode libertar-se das suas próprias actividades; tudo aquilo que pode fazer é permanecer imóvel e isento de escolha. A escolha é conflito e com ela a mente  vê-se de volta aos seus enredos. A capacidade da mente  de permanecer imóvel constitui  a liberdade com relação à dualidade.

    Existe no mundo  enorme descontentamento mas nós tendemos a pensar que uma ideologia qualquer, comunista ou de outra espécie, irá resolver tudo ou até mesmo livrar-nos desse descontentamento - o que, é claro, jamais será possível. O comunismo, como qualquer outro tipo de condicionamento religioso, jamais poderá  livrar-nos do descontentamento. No entanto tentamos por todas as vias sufocá-lo ou moldá-lo a fim de conseguirmos algum contentamento, porém, ele sempre termina nisso. Pensamos que seja errado estar descontente – ou, pelo menos, pouco acertado -  todavia não conseguimos livrar-nos do descontentamento. Ele tem de ser compreendido.  Todavia, compreender  não significa condenar.

  Assim, pesquisa isso e observa tudo sem desejar alterá-lo nem fazer disso um meio. Toma simplesmente consciência disso á medida que isso opera no decorrer do dia; tenta perceber as suas expressões e ficar a sós com isso.

   A liberdade sobrevem quando a mente permanece só. Mantém a mente imóvel e livre de todo o pensamento ainda que só por uma simples questão de prazer. Experimenta deixar que fique imóvel, sem tornar a coisa  demasiado séria e sem empregar qualquer conflito.

   Enquanto andarmos à procura da realização haveremos sempre de sentir frustração. O prazer da realização constitui um desejo permanente mas ainda assim nós procuramos a continuidade desse prazer. O seu término constitui-se numa fonte de frustração que acarreta dor. Todavia, uma vez mais a mente voltar-se-á para novas formas de realização em diferentes direcções, somente para acabar por voltar a confrontar-se com a frustração. Essa frustração é um movimento de auto consciência, formada pelo isolamento, pela separação e  pela solidão. Mas a mente sempre procurará escapar disso, rumo a algum outro tipo de realização.

   A luta em prole da realização gera o conflito da dualidade. Mas quando a mente perceber toda a verdade ou  futilidade da realização - que sempre comporta frustração - somente então poderá sustentar um estado de solitude isento de escapes. E somente quando se encontrar nesse estado poderá então resultar liberdade com relação a toda a dualidade. A separação existe em função do desejo de realização; a frustração constitui  separação. Nesse caso não mais ocorrerá choque algum,  por mais fugaz que seja. As  reacções psicológicas afectam o organismo e tornam-se causa de efeitos adversos.
    Preserva a resistência íntima. Procura a firmeza e a clareza mental. Sê tu mesma de modo completo; não tentes sê-lo mas sê-o, efectivamente! Não dependas de ninguém nem de nenhuma experiência ou recordação; a dependência do passado, com tudo o que esse passado possa ter tido de agradável, só impedirá a tua existência completa, no presente.  Toma consciência disso e deixa que essa consciência permaneça intacta e inquebrantável ainda que por um só momento.

    O sono é essencial. Durante o sono parecemos alcançar profundezas a que a mente consciente jamais  poderá mergulhar ou experimentar sequer. Apesar de não podermos recordar a experiência extraordinária de um mundo que está para além tanto da consciência como do inconsciente isso exercerá  o seu efeito sobre a totalidade da consciência. Provavelmente isso não soa muito claro mas experimenta pô-lo á prova de pois de o leres.
   Penso existirem certas coisas que nunca poderão ser esclarecidas por falta de palavras adequadas para o efeito;  no entanto, elas ocorrem.
É especialmente importante - no que se refere a ti - que detenhas um organismo que não se ache sujeito a  moléstias. Deves afastar as imagens e as recordações agradáveis de  modo suave e voluntário, para que a tua mente seja livre e se mantenha livre de contaminações para aquilo que conta.

   Presta atenção, por favor, ao que escrevo. Toda a experiência, todo o pensamento devem cessar a cada dia, a cada minuto, à medida que surgem, de modo que a mente não estenda raízes ao futuro. Isso é verdadeiramente importante porque aí radica a verdadeira liberdade. E desse modo não sucederá dependência nenhuma porque a dependência carrega  dor, e esta afecta o organismo e gera a resistência psicológica. E, conforme havias referido, a resistência acarreta problemas como o da realização, o de nos tornarmos perfeitos, etc. Toda a forma de busca envolve a luta, o esforço e o empenho; porém esse empenho e essa luta terminam invariavelmente na frustração de pretender alguma coisa ou de querer ser alguém.  A ânsia de mais encontra-se no próprio processo da realização, mas como esse mais parece jamais se apresentar diante de nós a sensação de contrariedade e de impedimento tendem a perpetuar-se.  E isso torna-se causa de mais dor. Assim, voltamo-nos uma vez mais para alguma outra forma de busca de satisfação, com as suas inevitáveis consequências.

   As implicações que a luta e o esforço comportam são vastíssimas, porém, que necessidade teremos de procurar? Que coisa levará a mente a entrar nessa busca interminável? Porque razão o fará?  Tens consciência de que buscas, ou porventura conhecerás aquilo que perfaz o  objecto dessa busca? Se tiveres verás que o objectivo da tua busca varia consoante o período. Mas será que percebes o significado do buscar, com toda a  frustração e dor que carrega? Percebes que com o alcance de determinada coisa gratificante sobrevem a estagnação, com suas alegrias e medos, com o seu progresso e vir a ser? Se tiveres consciência de te encontrares num estado de busca, será possível que a mente deixe de buscar? E se a mente não mais se achar num estado de busca que reacção imediata e autentica deverá formar?
Experimenta  descobrir a resposta mas não forces nada nem permitas que a mente se veja coagida  por nenhuma experiência particular porque nesse caso isso tornar-se-á causa de ilusão.

   Assisti recentemente  alguém que se encontrava à beira da morte.  Como  tememos a morte! Do que temos medo é do viver pois não sabemos como o fazer. Conhecemos o pesar, e a morte assume simplesmente uma forma definitiva desse pesar. Dividimos a vida em viver e morrer e desse modo tem que subsistir a dor do morrer, com a sua separação, solidão e isolamento. A vida e a morte formam um único movimento e não são estágios isolados. Viver é morrer - morrer para cada coisa, a fim de se poder renascer a cada dia. Isto não é uma simples declaração teórica mas algo para ser vivido e experimentado. Mas é a vontade, esse constante desejo de ser alguém,  que destrói a simples condição de "existir". Esse estado de "existir" é completamente distinto da letargia da satisfação, da realização e das conclusões da razão. Essa condição de existir ignora toda a consciência de "eu". Qualquer droga,  interesse,  estado de absorção ou de completa identificação poderão conferir o estado desejado mas isso ainda constituirá uma forma de consciência de si. O verdadeiro existir reside na cessação da vontade. Experimenta isso e comprova-o com satisfação.


    É ainda bastante cedo e o céu já se apresenta de um azul muito claro e sereno. As nuvens parecem ter-se desvanecido porém ainda podem regressar à medida que o dia se for prolongando. Depois de todo este frio, vento e chuva, a primavera irromperá novamente. Ela tem vindo a insinuar-se suavemente, a despeito dos ventos gélidos, mas agora as folhas e os rebentos começam a brotar. Que coisa magnífica a terra é! E como são belas todas as coisas que dela provêm - as rochas, os ribeiros, as árvores, a relva, as flores e todas as coisas inesgotáveis que  produz. Só o homem se aflige, somente ele destrói a sua espécie, só ele explora, tiraniza e destrói o  vizinho. É ele o mais infeliz e aquele que mais se sujeita ao sofrimento; é o mais inventivo e o único a conquistar o tempo e o espaço. Porém, a despeito de todas as suas capacidades e dos seus magníficos templos e igrejas, mesquitas e catedrais, vive nas próprias trevas que cria. Os seus deuses são a representação dos seus temores, e os seus afectos o reflexo  dos seus ódios.
   Em que mundo maravilhoso podíamos tornar a terra, sem todas essas guerras nem medos. Mas de que servirá toda esta especulação, se não possui qualquer utilidade?
   O que conta é o descontentamento do homem, esse incontornável descontentamento. Trata-se isso sim, de uma coisa preciosa, uma jóia de grande valor. Contudo, tememo-lo e tratamos de o dissipar, ou dele tirar partido, permitindo que seja utilizado de modo a produzir determinados resultados. Ele apavora o homem e, no entanto, representa uma jóia preciosa, independentemente de ser destituída de valor.
Vive com ele e observa-o no dia a dia, sem interferir nos seus movimentos porque então ele será como uma chama acesa que inflamará toda a escória e libertará aquilo que não pode conter abrigo nem medida. Usa de  sensatez ao ler isto.

    O homem rico possui mais do que o suficiente enquanto que o pobre continua esfomeado e em constante busca de alimento,  a esforçar-se a trabalhar toda a sua vida. Aquele que não possui nada, torna a sua vida, ou melhor, permite que ela se torne rica e criativa enquanto que o que possui todas as coisas deste mundo  parece dissipar-se e murchar. Dai a um homem um bocado de terra que ele logo a embelezará e tornará produtiva, onde qualquer outro a negligenciaria e deixaria ao abandono, a definhar, do mesmo modo que ele.

   Possuímos infinitas capacidades que podemos empregar em qualquer direcção, tanto para descobrir o inominável como para criar o inferno na terra. Porém, por uma razão qualquer, o homem prefere gerar ódio e inimizade. E é bastante mais fácil odiar ou ser invejoso, dado que a sociedade se baseia na busca de mais, e assim o homem tende a voltar-se para todas as formas de aquisição. Desse modo dá-se uma luta infindável, luta essa que  sempre sai justificada e enobrecida.
   A vida é dotada de uma riqueza  de profusão ilimitada, se não for vivida com base na luta ou na vontade, mas com ausência de escolha. Mas essa forma de viver torna-se impossível quando toda a nossa cultura  resulta do esforço,  da luta e da acção da vontade.  Para quase toda a gente a vida torna-se entediante se não comportar a acção da vontade;  simplesmente não possuirá  sentido nenhum se for destituída de qualquer tipo de ambição. Porém existe um viver livre da acção da vontade e da escolha. Essa vida todavia só assumirá contornos quando a prevalência da vontade ceder. Espero que não te importes por referir tudo isto; se assim for lê-o e escuta-o com todo o prazer que puderes.




    O sol tem estado a tentar irromper por entre as nuvens, o que provavelmente conseguirá por todo o decorrer do dia. Num dia  faz um tempo primaveril e no dia seguinte já é quase inverno. O tempo parece espelhar os humores do homem, ora espirituosos ora depressivos, com toda a alternância entre a obscuridade e a luz temporária. É  estranho, sabes, que enquanto ansiamos por liberdade  tudo façamos para nos escravizarmos. Perdendo toda a iniciativa, tratamos de procurar quem nos ajude ou conduza, a fim de nos tornarmos generosos e pacíficos. Procurámo-lo através dos gurus, dos mestres, dos salvadores e daqueles que praticam a meditação.
   Alguém compõe uma excelente música para ser interpretada por outros   enquanto nós nos limitamos a escutá-la ou a critica-la tirando proveito disso.
Somos a audiência que observa  actores,  jogadores de futebol, a tela de cinema. Lemos a poesia escrita por outros ou então quedamo-nos boquiabertos diante do que os outros pintaram. Nós não possuímos nada e justamente por isso voltamo-nos para os outros a fim de encontrarmos entretenimento,  em busca de inspiração, ajuda  ou salvação. A civilização moderna está a destruir-nos cada vez mais e a esvazia-nos de toda a criatividade.  Sendo   nós próprios interiormente vazios, voltamo-nos para os outros a fim de que nos enriqueçam e assim o nosso vizinho tira vantagem disso e explora-nos, ou então procuramos nós tirar vantagem dele.

   Quando tomamos consciência das muitas implicações envolvidas no acto de nos voltarmos para os outros libertamo-nos, e essa mesma liberdade representa o começo da criatividade. Essa liberdade é que constitui a verdadeira revolução e não aquela outra aparente do ajustamento social e económico; essas formas de revolução são um outro aspecto da escravidão.
    Todavia, a nossa mente cria pequenas fortalezas de segurança. Queremos ter a absoluta certeza com relação a todas as coisas, sentir-nos seguros nos nossos relacionamentos  realizações e esperança que depositamos no nosso futuro. Criamos estas verdadeiras muralhas interiores e depois amaldiçoamos quem quer que nos perturbe. É estranho perceber como a mente sempre está em busca de um campo em que se veja ao abrigo do conflito e da perturbação. Assim a nossa vida torna-se este constante movimento de rompimento e reabilitação dessas zonas de segurança, sob as mais variadas formas. E assim também, a nossa mente torna-se lenta e pesada.
 A liberdade consiste em não possuir segurança nenhuma, seja de que espécie for.

   Possuir uma mente suficientemente tranquila e imóvel – que não sofra uma única flutuação do pensamento - é a coisa mais espantosa. Mas, claro,  a tranquilidade mental não é essa serenidade da mente tornada morta. A mente pode ser tornada imobilizada pela acção da vontade, mas poderá desse modo, alguma vez possuir profundeza justamente em toda a linha de ser aquilo que é? É verdadeiramente espantoso o que pode ocorrer quando ela permanece assim em silêncio. Nesse estado, toda a consciência -  constituída por saber e reconhecer - deixa de existir, pois a busca instintiva da mente e da memória alcança um término. E torna-se  bastante interessante ver o modo como a mente empreende o seu melhor para reter esse estado extra mundano, quer por meio do pensamento e da verbalização, quer do recurso ao uso da simbologia. Para que esse processo cesse de modo espontâneo e natural precisamos morrer para todas as coisas. Mas morrer é coisa que não queremos e desse modo prevalece uma condição de luta inconsciente, luta essa a que chamamos vida. Chega a ser uma coisa bizarra que a maioria das pessoas procure impressionar os demais quer por intermédio das suas conquistas, quer da sua esperteza, dos livros que publicam e de todos os meios que empregam para se afirmarem.


  Como tens passado? Os teus dias têm passado velozes como a lançadeira do tecelão ou será que vives cada dia como um milhar de anos? É estranho como para a maioria das pessoas o aborrecimento é uma coisa tão concreta; por isso têm de estar continuamente a fazer algo,  ocupadas com qualquer actividade - o livro, a cozinha, as crianças ou "Deus". De outro modo vêem-se entregues a si mesmas, o que é bastante aborrecido. E se por acaso isso ocorre tornam-se auto-centradas e enfadonhas, mal humoradas. Uma mente desocupada - não a mente negativa nem aquele estado de mente em branco - mas a mente vigilante e passiva, completamente vazia, é uma coisa soberba, e detentora de infinitas possibilidades. Os pensamentos podem ser fastidiosos, enfadonhos e totalmente isentos de criatividade. Determinado pensamento pode revelar-se extremamente brilhante, porém, a esperteza assemelha-se a um instrumento afinado que cedo se desgastará, e isso reflecte a razão porque as pessoas espertas são mais ou menos embotadas.
   Deixa que sobrevenha uma mente desocupada sem teres de fazer deliberadamente nada para que isso ocorra; deixa que isso suceda ao invés de ser cultivado. Lê isto com atenção e deixa que isso ocorra com naturalidade. Escutar ou ler sobre uma mente desocupada é importante, exactamente da mesma forma que "o modo como ler e escutar". Aquilo que importa é que possuas um tipo correcto de exercício, durmas bem e leves uma vida diária cheia de significado. Contudo, escorregamos com demasiada facilidade para a rotina e aí passamos a funcionar dentro de um padrão de satisfação pessoal, ou num padrão de correcção auto-imposta. Todos esses padrões conduzem invariavelmente a um definhar inexorável e a uma morte lenta. Porém se passarmos o dia de forma proveitosa, sem compulsão nem temor, sem comparação nem conflito de qualquer espécie, se permanecermos simplesmente atentos, isso tornar-se-á espéculo de toda a criatividade.

   Há certos momentos raros, sabes, em que podemos ser levados a senti-lo, porém, a maior parte da nossa vida é feita de lembranças corrosivas, frustração e esforço vão, enquanto que a coisa que importa se esvai. Uma nuvem de entorpecimento tende a cobrir tudo enquanto que aquilo que conta se vai desvanecendo. E realmente torna-se bastante árduo penetrar essa nuvem e expor-se à singela claridade da luz.
Percebe  somente o que te exponho e isso será tudo o que precisarás fazer. Não procures ser simples porque essa tentativa só produz mais complexidade e infelicidade. Tentar sê-lo significa tornar-se, e isso é sempre desejo,  possuidor das  suas frustrações.

    É muito importante que nos libertemos de todo o tipo de choques emocionais e psicológicos, o que não significa que devamos assumir uma posição de inflexibilidade aspereza com relação aos diferentes movimentos da vida. São esses choques que  gradualmente criam certas formas de resistência, o que por sua vez origina variados tipos de doença. A vida é constituída por uma série de eventos, tanto desejáveis como indesejáveis; enquanto nós escolhermos o que deve ser preservado do que deve ser rejeitado, terá de haver conflito (da dualidade) o que, por sua vez, constitui  o choque. E essas formas de choque endurecem a mente e o coração;  isso torna-se um processo de clausura auto-imposta geradora de sofrimento. Para permitirmos que o movimento da vida se implante sem escolha nem movimento parcial algum - desejável ou indesejável- necessitamos de enorme capacidade de atenção. Não se trata de permanecermos constantemente atentos, o que se tornaria enfadonho, mas, ao invés, de percebermos a necessidade e a verdade da atenção, porque nesse caso perceberás que a própria necessidade opera sem que tenhas de te forçar a ficar atenta.


    Podemos ser muito viajados ou ter sido educados nas melhores escolas, nas mais variadas partes do mundo, respeitar a mais correcta forma de alimentação, instrução e até o melhor clima, mas alguma dessas coisas nos tornará inteligentes? Nós conhecemos gente assim, mas serão essas pessoas inteligentes? Os comunistas, do mesmo modo que os católicos, têm vindo a tentar - também  á semelhança de outros - controlar e moldar a mente. O  próprio acto de moldar a mente provoca certos efeitos como uma maior eficiência, uma certa rapidez e vivacidade mental, todavia nenhuma destas diferentes capacidades dará lugar à inteligência. Serão inteligentes as pessoas instruídas, aquelas que possuem imensa informação e conhecimento ou as que possuem formação científica? Não te parece que a inteligência seja uma coisa completamente diferente? Na verdade a inteligência é a completa liberdade do medo. Aqueles cuja moralidade se baseia na segurança, sob qualquer forma que seja, não têm moral porque o seu desejo de segurança é o resultado do medo.
   O medo, e o constrangimento a que obriga (a que nós chamamos moral),  não são nada morais por certo. A inteligência reside na completa liberdade do medo. A inteligência não significa respeitabilidade, como também não significam as diversas virtudes cultivadas por intermédio do medo. Pela compreensão do medo passará a existir algo que é completamente diferente das formulações da mente.

    É óptimo experimentarmos a identificação. Mas, de que modo fazemos a experiência de uma determinada coisa? Desde a mais simples até á mais complexa dizemos: "isto é meu”, “as minhas sandálias, a minha casa, a minha família, o meu trabalho, o meu Deus". Com a identificação sobrevem a luta pela  preservação disso. Depois, conter esse processo torna-se um hábito e qualquer perturbação que ameace romper esse hábito dá lugar à dor. E no final ainda temos de lutar para ultrapassar essa dor. Porém esse sentimento de "meu", essa identificação faz parte de um processo contínuo. Se realmente experimentarmos perceber isso e ficarmos somente atentos sem nenhuma vontade de o mudar ou escolher, descobriremos muitas coisas surpreendentes na nossa natureza.

   A mente é o passado, a tradição, as lembranças que constituem as fundações de toda a identificação. Será pois que a mente, tal qual a conhecemos agora, poderá operar sem esse processo de identificação? Põe-no em prática a fim de  poderes descobrir. Procura ter consciência dos movimentos da identificação nas coisas comuns do dia a dia e nas coisas mais abstractas. Podemos descobrir coisas estranhas, como o modo como o pensamento nos foge ou como nos prega partidas.

   Deixa que a atenção se ocupe em perseguir o pensamento pelos corredores da mente, prosseguir no seu encalço e o desvele, isenta de escolha.
   Da forma como nos enquadramos é  particularmente difícil ser livres do desejo, e deixar de ansiar por certas coisas e acontecimentos; não comparar, basicamente. Mas a despeito das diferentes condições e desejos por que passarmos certo é que continuaremos a comparar. Sempre ansiamos quer por mais quer por menos; pela continuidade de um qualquer prazer e  por evitar toda dor. O mais interessante, porém, é isto: Porque razão cria a mente um centro em si mesma, em torno do que tende a passar a mover-se e a ganhar o seu ser? A vida é feita de mil e uma influências e pressões inumeráveis, tanto conscientes como inconscientes. Mas por entre essas pressões e influências nós escolhemos umas quantas e descartamos as demais, e desse modo vamos construindo gradualmente esse centro, sem permitirmos que tais pressões e influências passem por nós sem  nos afectarem.  Deixamo-nos afectar por todo  tipo de pressões e influências cujo  efeito pode ser tido na conta de benéfico ou não, mas parecemos incapazes de observar e ter consciência dessa pressão  deixando de tomar parte nela de um ou outro modo, da forma como tendemos a resistir-lhes e a acolhe-las. Essa resistência, esse acolhimento torna-se o centro a partir do qual agimos.
   Mas será a mente capaz de deixar de criar esse centro? Só poderemos encontrar a resposta na experiência e não através da afirmação nem da negação. Por isso experimenta-o e descobre se assim não será. Com o término desse centro passará a existir uma liberdade autêntica.



   Frequentemente tornamo-nos agitados, ansiosos e por vezes até chegamos a ficar assustados. Essas coisas acontecem porque fazem parte dos acidentes da vida.  A vida assemelha-se a uma névoa; ainda outro dia fazia sol e agora chove e faz frio; essas mudanças constituem o inevitável processo do viver. Subitamente, quando menos esperamos, somos acometidos pela ansiedade e pelo temor. Podem existir causas definidas para que tal ocorra – causas essas ocultas ou bastante evidentes - e podemos até descobri-las se fizermos um pouco de uso da atenção. Porém, aquilo que realmente importa é termos noção destes acidentes (ou incidentes) e não lhes darmos tempo de se enraizarem quer permanente quer temporariamente.
   Mas quando a mente começa a comparar e a justificar-se, a condenar ou a aceitar, aí damos lugar a que essas reacções se enraízem no seu campo. Sabes,  no íntimo, temos de permanecer  continuamente de pés bem assentes  livres de tensões. Mas quando procuramos um resultado a tensão desperta e desse modo, uma vez mais aquilo que surge tende a provocar tensão, tensão essa que por sua vez terá que ser rompida. Deixa que a vida flua.


    Infelizmente é tão fácil acostumarmo-nos a tudo, tanto a um dado desconforto, como a uma frustração ou mesmo à satisfação contínua. Somos capazes de ajustar-nos a qualquer circunstância, tanto á alienação como até mesmo á reclusão. A mente sente predilecção em operar na rotina, no hábito, e depois chamamos a esse actividade vida. Porém, quando o descobrimos tendemos a  romper com tudo e a procurar levar uma vida sem significado, destituída de amarras e  interesses. Se não formos suficientemente vigilantes, perceberemos que os variados interesses nos conduzem de volta a um padrão de vida repetitivo. Mas em tudo isso podemos perceber a acção da vontade directa a operar - a vontade de ser, a vontade de alcançar, de se tornar alguém, etc. A vontade constitui o próprio centro da escolha, mas enquanto prevalecer, a mente só poderá funcionar dentro dos hábitos, tanto aqueles impostos como os gerados por si. A liberdade dessa vontade constitui o verdadeiro problema porque podemos deliberadamente enganar-nos  acreditando ser livres da vontade, desse centro do "eu" que escolhe - e isso prosseguir, ainda que  sob um nome diferente, ou uma outra capa. Quando percebemos o verdadeiro significado do hábito, o significado de nos acostumarmos ás coisas – do escolher, nomear, dar seguimento a um interesse etc.- somente quando tivermos atenção para com isso poderá ocorrer o verdadeiro milagre, a cessação da vontade. Experimenta-o. Toma consciência de tudo isso de momento a momento sem desejo de chegar a um resultado qualquer.

 
  Os céus do sul são extraordinariamente diferentes dos do norte. Aqui em Londres, para variar, não se vislumbra uma única nuvem por este suave céu azul, e as árvores começam justamente a revelar tons de verde. A primavera começa a irromper mas em contrapartida o ambiente mostra-se carrancudo e as pessoas não revelam tanto ânimo, como no sul.
   Uma mente suficientemente tranquila, vigilante e cheia de vivacidade constitui uma verdadeira benção. É como uma terra rica e cheia de mil possibilidades. Quando se tem assim uma mente que não compara nem condena, então é realmente possível que essa imensurável riqueza chegue a existir.

    Não permitas que a fumaça da mesquinhez te sufoque,  deixa  que a sua chama venha ao de cima. Tens de continuar a deitar para fora e a destruir sem deixar que isso ganhe raízes. Não deixes que nenhum problema se enraíze mas põe-lhe fim imediatamente para poderes acordar a cada manhã fresca, rejuvenescida e inocente...

     Sê sensata e  toma uma resolução com relação á tua saúde. Não permitas que nem a emoção nem o sentimento interfiram com a tua saúde em menosprezo das tuas actividades. A mente e o coração são constantemente moldados por demasiadas pressões e influências; tem pois atenção  e abre caminho por entre isso tudo sem te tornares escrava do processo. Deixar-se  escravizar é tornar-se medíocre. Deixa que a mente se inflame pela percepção e desperte.
      Enfrenta o medo, convida-o mesmo, sem te deixares  surpreender  de forma inesperada e súbita por ele; enfrenta-o constantemente, persegue-o de forma resoluta e com diligência.
   Espero que te encontres de saúde  e não fiques apavorada com tudo isso que te está a acontecer, pois provavelmente pode ser curado; estamos a encaminhar-nos nesse sentido. Não deixes que te apavore.
   Pode ocorrer um lento definhar interior e pode ser que, tomando ou não consciência disso, te tornes negligente. Sempre pesa sobre nós essa vaga de deterioração, não importa de quem se trate. Mas para podermos alçar-nos á sua frente e fazer-lhe face de uma forma isenta de reacções requer-se  enorme energia. Todavia ela só sobrevem quando não subsistir mais nenhum conflito, consciente ou inconscientemente. Permanece vigilante.
  
    Não permitas que os problemas se enraízem, mas avança rapidamente e abre caminho pelos seus flancos exactamente  como uma lamina a cortar manteiga.  Não permitas que deixem marcas mas termina com eles imediatamente.
Nota-se distintamente que passaste por uma mudança; possuis mais vitalidade interior, mais força e destreza mental. Mantém-te assim e deixa que isso opere; dá-lhe oportunidade de fluir de uma forma profusa e extensa. Não te deixes sufocar pelas circunstâncias, aconteça o que acontecer, quer devido à família ou à tua condição física.  Alimenta-te com regularidade e faz exercício; não te tornes frouxa. Quando atingires um certo nível persevera e não te deixes ficar por aí; ou se avança ou se retrocede. Não se pode ficar estático.

Cavalgaste essa vaga interior e recolheste-te ao teu íntimo por demasiados anos, e agora deves avançar para o exterior e expandir-te,  ir ao encontro das pessoas.

    Tenho meditado bastante, o que tem sido óptimo. Espero que também o faças. Começa por dar atenção a cada pensamento e sensação durante o dia; atenção ao cérebro e aos nervos. Depois  deixa-te ficar bem serena e imóvel - nenhuma forma de controle o poderá conseguir. E então a verdadeira meditação começará. Tenta fazer isso com delicadeza.
   Aconteça o que acontecer não permitas que o organismo modele a natureza da mente. Tem atenção pelo organismo e alimenta-te correctamente mas habitua-te a recolher-te a certas horas do dia. Não deslizes nem permitas que as circunstâncias te escravizem.
    Torna-te extraordinária. Desperta.                                                             

Apêndice 1

           Nandini Metha atravessava  problemas no casamento que estavam a conduzi-la  muito rapidamente a uma crise. Apenas uns quantos meses  após  ter conhecido pessoalmente Krishnamurti, manifestara ao marido a vontade de levar uma vida de celibato. A situação explodiu de forma inevitável pois Sir Chunilal Metha (seu sogro) acabou por ficar furioso ao sentir-se dividido na afeição que sentia tanto pelo seu filho como pelo mestre; tornou-se amplamente aceite que os ensinamentos de Krishnamurti a tinham influenciado a cortar todo o contacto físico com o marido. O facto foi encarado como um acto de imaturidade da parte dela, e acharam  mesmo que essa sua atitude só podia ter sido suscitada na base dessa influência.

O marido ainda procurou a intervenção de Krishnamurti na esperança de que este persuadisse a esposa a mudar de ideias, e que o tempo e a sua ausência pudessem alterar aquela decisão caprichosa. Porém,  tudo em vão.(...)

    Os filhos foram-lhe tirados e certo dia, já noite adentro, esmagada de corpo e alma e angustiada pela perda que sofrera, ela acabou por abandonar a casa e ir para a mãe. Na manhã a seguir saiu à procura de Krishnamurti, mas, devido a que este procedesse aos preparativos para uma viajem, coisa que faria dentro de um ou dois dias, disse-lhe: " Permanece só. Se o teu procedimento proceder de uma base de profunda percepção pessoal, e  sentires de modo intenso que  aquilo que decidiste é a coisa acertada então arroja-te a aceitá-lo. Nesse caso as correntes purificadoras da vida hão de de te dar suporte e sustentação. Porém se  te deixaste influenciar, que o céu tenham compaixão de ti.  Ninguém é mestre de ninguém!"

   Ela encontrava-se ficou desprovida de dinheiro. Os filhos tinham-lhe sido tirados e como o nosso  pai já tinha falecido, ela encontrava agora muito pouco auxílio. Portanto ou ela voltava para o marido ou se separava e aceitava as consequências.

A nossa mãe, esforçando-se por aceitar os acontecimentos, expôs o ocorrido a Krishnamurti, incapaz de suportar por mais tempo o enorme fardo que a consumia. Mas ele respondeu-lhe que  a situação em que se achava era da sua responsabilidade e que devia abandonar toda a preocupação. Ela acabou num pranto, porém, as palavras dele emudeceram-lhe os temores.

   Consciente das consequências que adviriam, qualquer que fosse a atitude que tomasse com respeito á sua separação, eu procurei Krishnamurti para lhe dizer que apesar de ela ter decidido não retornar à sua casa não devíamos permitir que em circunstância alguma se procedesse a qualquer acção legal, não obstante a necessidade de definir a custódia dos filhos. Como o marido não apresentava outra desculpa, o nome de Krishnamurti acabaria por vir a ficar ligado à questão, como a influência por trás da sua atitude de renúncia a um normal desempenho da actividade sexual. Ele olhou-me durante algum tempo e depois perguntou-me:

 "Acaso estarás a tentar proteger-me?" Então, ergueu os braços num gesto  elucidativo: "Existem seres muito  mais elevados para me protegem. Não vaciles. Faz aquilo que for acertado  para ela e para os filhos. As crianças são o que mais conta. Não importa que ela ganhe ou perca a causa, mas se for acertado então deveis lutar".

   No devido tempo ela acabou por mover uma acção legal contra o marido clamando por separação e  pela custódia legal dos filhos, com base no apelo à metódica crueza utilizada por ele. A sua filha tinha já nove anos, o  filho mais velho sete e o mais novo três. O caso foi a tribunal e foi marcada uma audiência para o outono de 1949.

Os advogados do marido valeram-se, na sua apelação, da récita de longas passagens das conferências públicas de Krishnamurti, proferidas em Bombaim e Poona, em que este acusava a hipocrisia da sociedade Indiana, a postura moralista dos líderes religiosos e chefes de família, a posição subserviente da mulher e a sua submissão ao marido e à família.

Krishnamurti acabou por revelar  um misto de  interesse e preocupação,  mostrando-se de certo modo empenhado. Entretanto foi procurado por certo grupo "feminista" em busca de apoio para as suas angústias; os seus membros revelavam uma total incapacidade para romper com certa condição de forma a poderem tornar-se livres.  Mas, uma vez ao corrente, os advogados tentaram fazer valer essa influência e utilizaram-se dessa ocorrência para reforço da sua causa. Estava-se diante duma situação caricata; a mulher a processar o marido na base no apelo pela separação legal, enquanto a acusação recorria  à récita de longas passagens de sermões religiosos como testemunho! O sogro da minha irmã, apesar de estender todo o apoio ao filho, não proferiria uma única palavra contra o 'mestre', e mesmo durante o contra interrogatório, quando foi questionado sobre a culpabilidade da associação da nora com Krishnamurti, levantou-se da cadeira e disse, alto e  bom tom: "Jamais é  culpado. Krishnamurti é o maior entre os maiores." Segundo cria, era Nandini quem estava em falta, incitada pela sua irmã Pupul.

   Entre aqueles que eram mais chegados a Krishnamurti foi suscitada alguma incerteza quanto a ele dever ou não pronunciar-se em Bombaim, nos meses de Fevereiro e Março da década de 50.
 Nandini acabou por desistir do processo apresentado no tribunal de Bombaim mas a cidade ficou agitada num burburinho incessante. Quando Krishnamurti retornou à Índia a sua atitude não revelava nenhuma simpatia especial para com Nandini. Encontrou-se com ela por diversas vezes em carácter particular mas recusou-se sempre a permitir que ela se entregasse à auto-compaixão e mostrou-se implacável na exigência que lhe fez para que enfrentasse o facto do término definitivo da sua vida anterior, necessitando despertar para a nova condição. Contudo, manifestou-lhe um ilimitado sentimento de  preocupação e uma profunda compaixão pelos seus filhos.

   Sempre que podia,  e na ausência do conhecimento do ex. marido, ela levava os filhos a visitar  Krishnamurti.  Por essa altura ele costumava colocar as mãos sobre os olhos do mais velho, a quem tinha sido diagnosticado um problema de atrofia do nervo óptico numa das vistas, em consequência do que, segundo o parecer médico, jamais poderia voltar a ver  normalmente. Mas a vista acabou por melhorar e nos anos seguintes ele acabaria por doutorar-se em economia na Universidade da Califórnia, em Berkeley e mais tarde viria a leccionar  na Universidade De Brisbane na Austrália.

     Em Julho de 53, após Nandini ter suportado a tensão de cinco longos anos de humilhação e angústia provocados pela separação dos filhos, foi acometida pela doença. Sofria pressões  de diversas frentes; tanto por parte da atitude arbitrária do marido com relação ao período de visita dos filhos, como pela atitude reprovadora dos mais velhos, ao redor de Krishnamurti. Além disso, ressentia-se da doença provocada por um cancro do cérvix, cuja evolução estava a processar-se rapidamente, e em resultado teve de ser transportada de urgência para Inglaterra, a fim de ser submetida a uma operação cirúrgica. Uma vez lá, foi inteirada da devastação que ocorrera no seu organismo, em resultado do que enfrentava agora  morte iminente. Mas ela aceitou as notícias  com um profundo silêncio.

Disse-me mais tarde que o seu cérebro, se tornava em certos momentos completamente sereno e livre de todo o pensamento e sensação. Durante o período de espera que antecedeu a operação, sofreu uma grave hemorragia, enquanto se achava instalada no quarto de hotel, mas mesmo nessa altura poucos foram os pensamentos que lhe atravessavam o cérebro e não sentiu  medo, ansiedade nem cuidado com relação ao futuro. Na véspera da sua operação falou ao telefone com os filhos que se achavam em Bombaim, cheia de ternura e de preocupação pelo seu bem estar.

Posteriormente haveria de me contar que, quando se submetera aos efeitos da anestesia também pudera escutar a ressonância de risadas  que pareciam ter uma continuidade ininterrupta durante toda a operação. A sua consciência não tinha sofrido nenhuma interrupção e ela tinha conhecimento de tudo o que estava a ocorrer. Deu por si a passear por campos verdejantes cheios do chilreios de aves, e uma brisa agradável a acariciar-lhe o rosto. Sentia ao redor a sensação duma presença a envolvê-la e a protegê-la. Não era uma protecção no sentido de lhe preservar a vida mas de a acompanhar quer sobrevivesse ou não. E a protecção dessa presença decorria justamente em simultâneo com a intervenção cirúrgica.

     A vida, para Nandini, decorreu como uma corrente subterrânea de água, invisível, com todo o potencial da vida. Tendo passado a morar com a mãe nos anos 50, encontrou entretanto ocasião para se ocupar de duas menininhas órfãs da vizinhança. Carentes sob todos os aspectos, viviam elas com uma tia distante mas passavam o dia na rua. Privada dos seus próprios filhos Nandini acabaria tomando conta das meninas  desse modo dando início a uma pequena escola de infância destinada tanto a elas como às outras meninas pobres da vizinhança. As crianças das redondezas começaram a afluir e hoje a escola conta com cento e cinquenta. Acabaram igualmente por surgir professores e auxiliares, e hoje a escola Bal Anand providência um espaço criativo para as crianças que vagueiam pelas ruas, num meio que, de outro modo deveria representar uma paisagem desoladora de concreto.

 Tendo vivido no recolhimento e na solidão por anos a fio ela tornou-se o ponto fulcral da escola. As crianças sentam-se ao seu redor e conversam, sorriem e brincam. Proporciona-se-lhes música, dança, pintura, aprendizagem de línguas, competição, drama, ciência e um pouco de aritmética. Após vinte e cinco anos de existência Bal Anand tornou-se parte integrante do património da Fundação Krishnamurti na Índia, e Nandini,  seu membro efectivo.
À medida que os filhos foram crescendo, foram voltando á mãe e enchendo-a de carinho e protecção.
Sempre que  Krishnamurti se ausentava, ela  mantinha a amizade e o contacto com ele por intermédio da correspondência. O cabelo tornou-se grisalho mas ela foi capaz de preservar-se, bela e anónima, apesar de frágil.                                             

Apêndice 2

       Krishnamurti deixou a Índia em meados de Março de 61, mas alguns dias antes da sua partida Nandini  encontrou-se com ele na privacidade do seu quarto, em Bombaim.  Krishnamurti permanecia sobre a cama numa postura de pernas cruzadas, e ela sentou-se numa esteira estendida no pavimento, próximo dele. De súbito, a meio da conversa, ele deteve-se, costas muito erectas, imóvel, de olhos fechados, e ela  sentiu como que uma maré de súbita corrente de silêncio que se derramava sobre aquela dependência,  a banhar-lhe o corpo enquanto lhe penetrava os poros da pele, e a saturava. Acabou por ficar completamente imóvel e inactiva. Desconhece quanto tempo durou esse estado mas a certa altura escutou a voz de Krishnamurti e retomou consciência do meio. Tinha conseguido a força suficiente para sustentar essa estrondosa corrente de silêncio, como posteriormente comentou. Algum tempo depois Krishnamurti haveria de ausentar-se. Os longos períodos de descanso e silêncio passados em Ranikhesh e Kashmira  tinham-lhe desencadeado a eclosão dessas imensas correntes de energia, e provocado intuições, o que acabaria por convergir na publicação de  "Diário de Krishnamurti", a ter início na primavera de 61.
      
        A 25 de Março, enquanto viajava de avião a caminho de Roma,  Krishnamurti  escreveu-lhe o seguinte:

"Decorrida apenas meia hora de voo, após termos largado de Bombaim, o céu apresenta-se de um azul tão profundo,  intenso e claro, com uma suavidade que até nos dá vontade de chorar; a certa altura o azul, de tão intenso, apresentava-se quase negro. Voávamos tão alto e o avião avançava tão rápido,  que aquele vastidão do horizonte, com o mar lá em baixo, levava-nos a sentir uma inexplicável sensação de paz. E lá estava a abóbada do céu, de um azul intenso e sem ponta de nuvens. Lá longe, no horizonte, esse azul dava lugar a uma tonalidade de um verde suave. Era uma visão verdadeiramente encantadora. No habitáculo estava fresco, um pouco frio até, mas isso só ajudava a reavivar-nos após todo o calor que sentíramos anteriormente. Levou-me algum tempo a recobrar a consciência, razão porque lamento se fui causa de algum incómodo no final. Quando chegamos, fazia um dia  claro e aprazível, que logo acabou por se tornar frio e chuvoso".


De Roma voltou a escrever-lhe:

" Esta moleza que sinto deve ter sido ocasionada por demasiado descanso  e ter ficado sem fazer nada, razão porque agora o corpo se encontra fatigado. Espero que te encontres de saúde. Não faças exercícios sob tensão, porque nesse caso não poderão ser executados adequadamente. Presta atenção que as coisas encaminhar-se-ão por si mesmas. Não te acomodes mas procura manter a chama acesa. Tem decorrido tudo de um modo completamente estranho, mas a despeito disso não te deixes  perder com trivialidades nem deixes que isso te exaure as energias mas procura manter-te desperta e vigilante."

   Em Maio Krishnamurti encontrava-se em Londres. Doris Pratt tinha-lhe providenciado estadia numa residência próximo ao jardim público de Wimbledon. Ela tinha a intenção de velar por ele. Krishnamurti, entretanto, escrevia novamente a Nandini a 12 de Maio:

      "Os centros (de energia) que eclodiram em Ooty (Ootacamund) estão de novo a operar sem a menor qualquer suspeita, mas além disso ocorrem várias coisas inexplicáveis. É de tal modo extraordinário que as palavras soam completamente fúteis. Os dias parecem demasiado curtos e é como se estivesse a viver mil anos num dia.
Mantém-te viva e consciente e não deixes que coisa nenhuma suprima essa chama. Não permitas que nem um só pensamento se evada sem observar a sua proveniência, os seus motivos e significado. Mantém-te desperta".
     
  Uma outra missiva foi remetida da mesma morada a 18 Maio:

       "À medida que a mente tende a tornar-se mecanizada muito importa que destruamos  os padrões habituais de comportamento e sentimento, de modo a sermos capazes de obter consciência de todo o movimento do pensar, observando-o sem cessar, e sem jamais permitirmos que os humores saiam fortalecidos nem que o organismo atrofie a clareza da mente. Não deixes a chama esbater-se nem permitas que a fumaça dos acontecimentos diários a obscureça. De um modo deveras surpreendente aquelas ocorrências de Ooty estão a surgir de novo, sem que ninguém tenha sequer a mais pequena suspeita. É algo bastante forte. As 'minhas energias' * estão a operar com toda a sua potência. Estou bastante surpreendido com o facto".

       Essas referências a Ooty voltariam a surgir a 1 de Junho quando ele lhe escreveu de Londres:

       "Não te deixes afectar pela mediocridade nem pelos  acontecimentos  de carácter irrisório. Procura ter intensidade de percepção e não permitas que  essa chama esmoreça.  Por aqui tudo vai bem. Os 'centros' estão a operar com fulgor e intensidade, mas também de uma forma dolorosa".


     Miss Pratt tinha notado que Krishnamurti estava a passar por experiências algo misteriosas e reportou o facto por carta a Rajagopal. Tendo questionado Krishnamurti sobre algo que apenas pressentira, com relação a tal ocorrência, este disse-lhe não haver nada que pudesse fazer à excepção de permanecer relaxada e em silêncio, e deixar de se preocupar. Disse-lhe que não permitisse que lhe tocassem. E ela referiu que sentia ser uma espectadora de algo misterioso, no sentido mais profundo do termo.(...)

     "Estive com Radhica, que me pareceu encontrar-se de saúde, e mantive com ela uma longa conversa. A vida é tão curta e há tanto por descobrir – interior e não exteriormente!  Existem vastas regiões ainda por explorar, por isso não deixes que se passe um dia sem descobrires algo. Deixa-te conduzir a esse estado de júbilo interior e aí as coisas exteriores tomarão conta de si mesmas".

      A 17 de Junho, um dia antes de  viajar para Ojai, na Califórnia, ele deu início a um registro das suas peregrinações pelo vasto território “dum certo estado alterado de consciência'. As assombrosas e ilimitadas percepções que o compõem desdobraram-se para acabar tomando o formato do 'Diário'. As cartas para Nandini recomeçaram de novo em Julho, enviadas de Ojai.  No dia 4 escreveu-lhe:
       
   "Deves estar recordada daquela estranha energia que se fez presente no quarto, e de que fizeste nota, dois dias antes de viajar. temos de ser tremendamente 'fortes' para conseguirmos suportar essa energia.
 Tu mesma empregaste justamente  esse termo. Estavas certa. Isso voltou a acontecer; os 'centros' estão de novo em actividade.
Não te deixes enredar pelos acontecimentos; Procura ter uma consciência profunda dos pensamentos e dos sentimentos, sê directa e recorre à clareza da simplicidade".

           As cartas continuaram e a 19 ele escreveu-lhe de Gstaad:

" O medo destrói e corrompe toda a percepção e a dignidade e entorpece a mente. Procura perceber isso e mantém um espírito aberto; não arranjes desculpas para o não fazer. Avança de modo inelutável; procura obter consciência de todo o temor e põe-lhe termo. Não deixes que permaneça contigo nem por um só  minuto. Onde existir medo, inveja e apego não poderá haver inocência. Toma consciência disso com ardor. Os chakras de Ooty têm estado a operar".
       
    Vanda Scaravelli descreveu esses estados de consciência alterada experimentados na altura em que ele se hospedava em Chalet Tanegg da seguinte forma: " similares aos de Ootacamund e no entanto diferentes pela ausência de dor intensa. No entanto os estados de benção e o pressentimento de uma presença a seu lado voltariam a surgir nos passeios que dava, quando permanecia em casa, durante o estado de vigília, ou ainda ao despertar, após uma noite bem dormida". Ela pressentia uma presença do 'sagrado' a apossar-se dele e a circundá-lo e fez referência a certas alterações que o rosto assumia e a uma percepção ou sensação simultânea de vazio e plenitude. Durante todo esse tempo ele continuava a dispensar conferências em Saanen. Parece que toda a separação entre esses estados e a sua vida diária se tinha desvanecido.

                                   
 * referência à experiência de visões e percepções de carácter extraordinário experimentados em estado de consciência alterado.

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