segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

CARTAS DE ILUMINAÇÃO



Introdução


   Nenhum nome resplandece com tanto brilho, na historia moderna do Budismo Japonês, como o daquela moça de vinte e cinco anos, Yaeko Iwasaki, que atingiu a Iluminação após uns cinco anos de prática de zazen (meditação sentada), cujo tempo, na sua maior parte, foi passado numa cama de doente, após o que, em cinco dias sucessivos, aprofundou a sua realização a um grau raro nos dias que correm. Uma semana mais tarde, concretizando as suas próprias premonições, morria. Na Índia ela teria, sem dúvida, sido proclamada santa e venerada por multidões. No Japão, porém, a história da sua vida intrépida e coroada realização dificilmente é conhecida fora dos círculos do Zen.

Estas são as cartas que ela redigiu em Dezembro de 1935 ao seu preceptor e mestre Daiun Sogaku Harada, do zen, na altura com sessenta e cinco anos, relatando aquilo que percebeu, sentiu e pensou durante esses épicos cinco dias, juntamente com os comentários persuasivos dele.

Crê-se não existir, na literatura religiosa, muitos documentos tão mordazes e eloquentemente reveladores da mente profundamente iluminada como estas cartas. Ainda que em número restrito e de conteúdo relativamente breve, elas transmitem a verdadeira essência do Budismo vivo. Abundam nelas o paradoxo e o sentimento da gratidão, qualidades que distinguem infalivelmente uma profunda experiência espiritual das camadas superficiais da intuição (insight). Entretecidas nelas, percebe-se um fio de uma singular pureza e um anelo ardente por alcançar a completa iluminação, não só pelo que a si diz respeito como também para que os companheiros pudessem atingir a realização pessoal e a paz interior duradoura, através dos seus esforços por tornar o Caminho do Buda conhecido.

A sua morte intemporal - do ponto de vista do cálculo comum da duração do tempo médio de vida humana - não esgotou o seu destino causal (Carma) de dar a conhecer a Verdade (Dharma). Se por mais não fosse, propõem-se dar-lhe um novo impulso, pois nas palavras do mestre Harada: "A sua vida corajosa foi tão inspiradora e a influência que exerce é de tão grande alcance que, por certo promoverá a propagação do Budismo em benefício da humanidade.

Como descendente do fundador do opulento consórcio das indústrias Mitsubishi, Yaeko Iwasaki possuía tudo aquilo que o dinheiro pode comprar, excepto a saúde. Já por altura dos seus dois anos de idade ela ficou de tal forma doente que quase morreu, e o resultante dano das válvulas do coração deixou-a com um corpo frágil para o resto da sua breve vida. Incapaz de resistir às exigências da frequência escolar, teve um tutor em casa quase até à idade de onze anos, altura em que, tendo-se tornado um pouco mais fortalecida, foi matriculada numa escola equivalente ao secundário. A despeito da sua incapacidade de participar em certas actividades escolares, completou a primária tão bem quanto a secundária, tendo feito um bom número de amigos e conseguido excelentes notas.

A mente viva e penetrante, alegre disposição, júbilo e generosidade de espírito que possuía angariaram-lhe a admiração e estima dos seus companheiros de classe. Após a graduação iniciou o estudo do arranjo floral e cerimónia do chá, as tradicionais artes japonesas por meio das quais se cultiva a serenidade e a suavidade de espirito, e depois começou a aprender cozinha e a estudar piano, tudo como preparo para o eventual matrimónio e maternidade. Porém, o seu carma estava para a conduzir abruptamente numa outra direcção. Por altura dos seus vinte anos, começou a tossir sangue e foi-lhe diagnosticada tuberculose. O seu médico ordenou-lhe completo repouso tendo que permanecer acamada por uns dois a três anos.

   Muito provavelmente os efeitos exercidos por essa inactividade prolongada, sobre o organismo físico e psíquico, desenvolveram nela uma sensibilidade crucial para o seu profuso florescimento espiritual. Mas o que mais directamente a impeliu na direcção do Zen foi um acontecimento de natureza súbita que envolveu o seu pai, a quem ela amava profundamente. Foi-lhe revelado que possuía uma ambivalência cardíaca, o que, em qualquer altura se poderia revelar fatal, e, como ele tivesse começado a cismar motivado pelo receio de uma morte repentina, foi assistir a uma prelecção do mestre Harada sobre a ansiedade fundamental que sentia e de como poderia ser ultrapassada por meio da consciência meditativa (zazen) e finalmente, através do esclarecimento espiritual.

Tão convencido ficou o pai de Yaeko com o que escutou que se tornou discípulo do mestre e encetou a prática da meditação sentada em casa. Uma vez que o coração o impedia de frequentar regularmente os exercícios de recolhimento (sesshin), ele conseguiu persuadir o mestre a deslocar-se a sua casa uma vez por mês, no decurso da sua jornada regular a Tóquio, a fim de poder dispensar instrução particular e prelecções (dokusan) à sua família e amigos. Com um zelo motivado pelo medo opressivo da morte, o pai de Yaeko devotou-se à meditação e em menos de um ano alcançou a experiência do despertar (kensho). A experiência dissipou-lhe todos os temores que carregava e trouxe-lhe uma elevação vitalidade e autoconfiança tais que o levou uma vez mais a retomar as suas obrigações como responsável pelo grande empreendimento industrial da família porém, só que com um vigor imprudente. A tensão que sofreu foi demasiada e um dia, sem qualquer aviso prévio, sofreu um ataque fatal.

A notícia apavorante da ocorrência da sua morte repentina trazida para casa com o peso de uma força dramática para uma Yeako ainda acamada, o esvanecer da vida e a cruel realidade da morte precipitaram Yaeko numa profunda reflexão sobre o significado da existência. Até ao alcance do esclarecimento do pai ela tinha vindo a assistir à prelecção mensal dispensada pelo mestre Harada, sem, contudo, sentir ainda qualquer desejo de receber instrução privada ou experimentar a meditação. No entanto, esse acontecimento atiçou de tal forma a sua imaginação - bem como as da sua mãe e irmãs - que todas começaram a devotar-se regularmente à meditação.

   O mestre tinha–lhe apresentado o Koan Mu para meditação. (NT: Questão paradoxal proposta com a intenção de levar o instruendo a sobrepujar a esfera lógica e racional, dual, do pensamento. Problema que se refere concretamente ao Vazio) Ele instruiu-a no sentido de se deixar absorver por ele de modo contínuo, mesmo durante a sua permanência no leito. Com a morte do pai e o anseio de busca da alma que provocara, a meditação e o interesse global que sentia pelo Budismo adquiriram um sentido vivo e profundo de urgência. Ela leu o extenso comentário do mestre Harada sobre o Shobogenzo de Dogen dezassete vezes, devorando cada palavra e, longe de se achar restabelecida, empreendeu a meditação sentada na postura tradicional japonesa, alternada com a postura do lótus.

Por essa altura, os estágios mais difíceis da tuberculose tinham passado e não mais lhe era exigida a permanência no leito. Apesar disso a doença deixou as suas marcas na sua já delicada constituição e ela foi instigada pelo médico a convalescer na soalheira Kamakura, onde a família mantinha uma casa de campo.

Nesse novo isolamento ela viu-se capaz de se abandonar mais à meditação, voltando definitivamente as costas aos interesses que tinham tido significado para ela. Tão ardentemente se achava na busca do Caminho de Buda que rogou ao mestre Harada para se deslocar a Kamakura a fim de continuar as suas prelecções e instrução privada. Ele, percebendo na sua comoção e ardor incomuns um raro espirito, empreendeu a jornada com regularidade todos os meses a fim de a orientar, como fizeram posteriormente de tempos a tempos, mestre Taji e mestre Yasutani, dois dos mais respeitados discípulos do mestre Harada.

Passaram-se uns cinco anos desde que iniciara a meditação no leito até à altura da primeira iluminação, a 22 de Dez. de 1935. Nos dias subsequentes, como estas cartas revelam com vivacidade, o olho da mente abriu-se-lhe completamente num dilúvio de luz e de compreensão. O êxtase subsequente por que passou e a descoberta de que mesmo a perfeita iluminação não acrescentava nada que se não possuísse já, e, portanto, de que esse êxtase constitui uma forma de "loucura"- junto com o reconhecimento jubiloso do seu espirito de Bodhisatva, conferido pelo mestre Harada - e a gentil censura que teceu em relação ao "aroma" da iluminação, proporcionaram uma capacidade de intuição íntima tão rara quanto esclarecedora, sobre o complexo e aparentemente contraditório processo da iluminação.

   O modo como Yaeko morreu, com um pressentimento precognitivo antecedido por o espaço de uma semana, sem dor e com total serenidade é, como mestre Harada sublinha, o objectivo de todos os Budistas mas que, não obstante o ardente desejo, poucos alcançam. O facto de Yaeko o ter alcançado revela a medida de um extraordinariamente elevado nível de consciência e de pureza de fé, coragem e perseverança, que tornaram o facto possível. Quem poderá ler o comentário do mestre das suas últimas horas com ela sem se sentir tocado pela sua intrepidez de espírito e completa abnegação?

O médico que testemunhou a sua morte, tecnicamente atribuída a uma pneumonia, lembrou: "Nunca vi ninguém morrer de forma tão linda". Mas talvez o maior tributo prestado à sua memória tenha sido levado a efeito na primeira reunião ocorrida após a sua passagem, em Hosshin-ji. Lá pelo final, o mestre Harada relatou, em lágrimas, os incidentes da heróica luta travada por Yaeko em prol da realização pessoal e a magnífica consumação, diante de uma audiência de mais ou menos noventa participantes. O efeito foi tal que, no final do encontro, mais de duas dezenas - número sem precedente - alcançaram acesso inicial à iluminação.

     Estas cartas surgiram pela primeira vez num artigo da autoria do mestre Harada, publicado numa revista budista logo após a passagem de Yaeko. As observações particulares que fez foram por ele anotados nas próprias cartas, à medida que as ia recebendo, porém, os comentários gerais e títulos foram acrescentados por ele especialmente para esse artigo, com o intuito de instruir o leitor no Budismo e de clarificar o próprio conteúdo das cartas. Yaeko, está claro, não teve a oportunidade de ver tais comentários antes da sua passagem. Após um ano esse mesmo material foi inserido num livro intitulado "Yaezakura", que se veio a constituir num breve comentário da vida de Yaeko, impresso em privado pela família Iwasaki em sua memória, em Dez. de 37. O excerto que compõe o actual texto foi retirado dessa mesma edição. As chamadas de atenção, tanto com relação às cartas como aos comentários, são da autoria de tradutor.
                              


Dados Biográficos do Mestre Harada

      Sagaku Harada, a quem as cartas de Yaeko são endereçadas, morreu a 12 Dez. de 1961, com a idade de noventa e um anos. No serviço fúnebre erigido em sua homenagem, foi colocado junto da sua fotografia um excerto de caligrafia escrito por ele alguns anos antes, que dizia:

"Durante quarenta anos vendi água
Junto às margens de um rio
Ho, Ho!
Meus labores foram completamente destituídos de mérito".

   Estas linhas tipicamente Zen constituem um epitáfio adequado, pois que nenhum mestre japonês do zen dos tempos modernos se esforçou mais arduamente por ensinar a seus estudantes que nada mais havia a aprender além daquilo que ele propunha. Os seus catorze sucessores no Dharma, inumeráveis discípulos esclarecidos e seguidores por todo o Japão carregam o testemunho do quanto os seus esforços, embora por um lado "destituídos de mérito," por outro lado não foram de todo em vão. Cabeça de lista e representante da seita Soto, ele uniu o seu melhor ao do Rinzai numa amálgama cujo resultado resultou num budismo vibrante que se tornou numa das mais prestigiadas linhas de ensino do Japão de hoje. Provavelmente mais do que qualquer outro do seu tempo ele revitalizou, com a sua profunda intuição espiritual, os ensinamentos de Dogen, que tinham ficado estiolados no seu vigor por uma compreensão pouco profunda por parte de padres eruditos do Soto, em cujas mãos tinha permanecido até então. O seu comentário sobre o Shushogi - uma codificação do Shobogenzo de Dogen é reconhecida como uma das mais penetrantes no género.

Hosshin-ji, o mosteiro do mestre Harada no mar do Japão, ensopado por chuvas incessantes e frequentemente coberto por tempestades de neve, alicerçado numa disciplina interior sem precedentes, tão severa que se tornou conhecido como o mosteiro mais duro em todo o Japão; o próprio mestre Harada tornou-se conhecido como o mais exigente dos supervisores do Zen. Por mais de uma vez declinou o convite para presidir a mosteiros situados em distritos balneares pelo Japão, argumentando que o clima rigoroso a que se achava submetido ajudaria a conduzir a mente do homem para o abismo dos seus enganos, onde finalmente poderia encontrar o segredo do universo.
   Homens e mulheres eram atraídos em grupos de centenas para o mosteiro, aquando da época do seu auge, pelo extraordinário poder inspirador de os conduzir a um despertar.
Como todos os mestres de elevado porte espiritual, ele era um mordaz juiz de carácter. Era tão pronto a expor pretensão e a dissimulação quanto a detectá-las. Conduziu excelentes alunos de modo impiedoso exigindo-lhes o melhor de que eram capazes, uma sinceridade sine qua non e uma aderência absoluta aos seus ensinamentos, sem tolerar o menor desvio, por mais leve que fosse. Observadores casuais algumas vezes acharam-no rígido e mesquinho todavia os discípulos e estudantes que lhe eram fieis conheciam-no como uma pessoa sabia e compassiva. Apesar da sua severidade o mestre Harada tinha o seu lado meigo e, se bem que tenha permanecido monge no verdadeiro sentido da palavra, sem jamais se ter casado, adorava brincar com crianças e era bastante apreciador de animais, particularmente cães. Profundamente conhecedor das doutrinas e disciplinas Soto e Rinzai, ele era perfeitamente adequado para o ensino de um Zen integral.

   Com a idade de apenas sete anos entrou para um templo Soto na qualidade de monge noviço, e continuou o treino por vários templos durante os anos de escola primária e secundária. Aos vinte anos, em face da persistente oposição do seu conselheiro de Soto, tornou-se monge no Shogen-ji, um grande mosteiro Rinzai no seu tempo, assim que constatou a incapacidade de encontrar um mestre profundamente iluminado na seita Soto. Após um treino de dois anos e meio aí, atingiu o despertar (Kensho) porém, a sua libertação ficou aquém da libertação total. Aos vinte e sete anos, devido à insistência do pai para que obtivesse uma melhor educação formal, ele deixou o Shogen-ji e inscreveu-se na universidade de Komazawa, financiada pelo Soto, continuando aí por mais sete anos após a sua graduação para fazer pesquisa sobre o Budismo, sob a alçada de conhecidos eruditos.

Mas apesar do seu conhecimento sobre o Budismo aumentar, não foi capaz de lhe proporcionar a libertação ardentemente desejada. Por tal motivo decidiu ir a Kyoto a fim de se encontrar com o mestre Dokutan, abade do mosteiro Nanzen-ji, que possuía a reputação de ser o melhor mestre vivo. Tendo sido aceite como discípulo por mestre Dokutan, devotou-se nos dois anos seguintes à prática diária do Koan e à instrução privada, vivendo simultaneamente com um amigo com quem assistia aos deveres do templo. No final desse período, Dokutan achava-se de tal modo impressionado com a inteligência incomum, ardor e ânsia pela Verdade do discípulo, que o convidou a tornar-se seu servidor pessoal. Se bem que se achasse com quase quarenta anos, Sogaku Harada aceitou esse gesto honroso com alegria e foi viver no Nanzen-ji. Uma vez aí, aplicou-se com tal intensidade ao zazen que completou todos os Koan, abrindo finalmente de modo completo o Olho da Mente e recebendo a confirmação (Inka-shomei) da parte do mestre Dokutan.

Por essa altura, a universidade de Kamazawa voltou a convidá-lo para leccionar nos termos de um acordo a estabelecer. Isso conduziu-o a um período de doze anos de ensino do Budismo, parte do tempo o qual, foi passado como professor. Mestre Harada, então merecedor do título, era já um raro fenómeno no mundo académico budista. Professor durante o ano académico e mestre zen durante as suas férias de Verão, conduzia reuniões em vários templos. Em pouco tempo ganhou a reputação de ser severo disciplinador. A insatisfação que sentia com a estreiteza da vida académica - com a sua tendência para o inevitável enlevo da teoria - ligada à limitação de oportunidades que aquela lhe proporcionava para o treino de pessoas (por intermédio do seshin) na experiência directa da Dharma, chegou a termo com sucessivos pedidos para que assumisse o posto de abade no Hosshin-ji que finalmente aceitou, e durante os quarenta anos seguintes viveu como mestre desse mosteiro que viria a ser conhecido como um dos centros mais proeminentes de treino Zen do Japão.
   Até à quase provecta idade de noventa anos, mestre Harada conduziu cessões semanais de intenso seshin no Hosshin-ji, seis vezes por ano - Abril, Maio, Junho, Outubro, Novembro e Dezembro, e em certas alturas manteve seshin em outras partes do Japão.
Cinco dias antes da sua última expiração ele caiu, devido à fraqueza, mas sem dor, foi gradualmente enfraquecendo e no final passou de um estágio de coma parcial à incompleta inconsciência. A altura da sua morte coincidiu exactamente com a baixa-mar. Mestre Harada tinha-se literalmente afastado com as águas.




Cartas e Comentários


1
Testemunho do Despertar Espiritual
23 de Dezembro

   Caro mestre Harada,

   Estou muito agradecida por ter vindo antes de ontem ver-me, ocupado como se encontrava. Peço-lhe que tome cuidado com a sua constipação.
No nosso encontro, ontem de manhã (dokusan), o senhor disse-me: "Aquilo que conseguiste perceber é ainda um pouco vago". Por isso senti que devia procurar de modo mais aprofundado.
Quando, na noite passado, de súbito acordei, isso tornou-se de repente claro, muito claro

O Ox (mente iluminada) aproximou-se cem milhas.

e tudo o que pude fazer foi erguer minhas mãos unidas num gesto de júbilo, puro júbilo. Na verdade, percebo a existência de diferentes graus de profundidade na iluminação.

Sim, porém são poucos aqueles que reconhecem esse facto significativo.

   Até mesmo o senhor, meu mestre, não significa nada a meus olhos. Mas é impossível descrever-lhe a gratidão e o deleito que sinto. Posso agora afirmar que, enquanto estivermos conscientes de sermos iluminados, não se tratará de iluminação. Como poderei expressar-lhe a minha gratidão por me ter capacitado a retribuir- mesmo por causa deste pequeno favor (quer dizer, através da sua iluminação) a incalculável dívida que contraí com todos os Budas? O sentimento de gratidão que sinto não posso pôr em palavras e não há nada que eu possa escrever ou dizer. Todavia, escrevo-lhe unicamente por pensar que só o senhor poderá entender a minha felicidade, e que por isso ficará satisfeito comigo. Agora que o Olho da Mente foi aberto, o voto de salvar todos os seres vivos desperta de forma espontânea. Por causa disso estou a observá-lo, do mesmo modo que a todos os Budas. Sinto vergonha pelos meus defeitos e vontade resoluta de disciplinar o meu carácter.

Tu viste o Ox claramente porém, o ponto de compreensão ainda está a mil milhas de distância. A tua experiência é ainda tingida por pensamentos conceptuais.

   Estou igualmente determinada a purificar a minha mente das suas ilusões permanentes. O senhor é a única pessoa em quem me posso fiar. Qualquer outra no seu lugar, receio bem, não compreenderia e imaginar-me-ia uma gabarola se de repente lhe expusesse tudo isto.

Fico satisfeito com a tua reserva.

   Acredite que nunca, em todo o tempo que vivi antes, esperei ser assim favorecida ( chegar à iluminação). Devo-lhe, por isso, muito. Ergo as minhas mãos unidas em sentido de gratidão.
Proteja-se bem contra o frio. Espero ansiosamente voltar a vê-lo no próximo dia 21 do mês que vem.
                                                                                                                                                                 Yaeko

Comentário Geral

   Confirmo que ela realmente percebeu a Mente Iluminada pois a sua experiência comporta um profundo cunho de auto-afirmação, desejo de salvar todos os seres sencientes e a determinação de disciplinar-se espiritualmente, em sua vida diária. Só um tal estado exaltado da mente pode ser chamado " a mente da autêntica criança de Buda". No entanto, prevalece ainda um sujeito que percebe. A morada da sua Mente está ainda muito distante. Ela deve pesquisar com mais intensidade!

2
Testemunho de Grande Iluminação
25 de Dezembro

   Querido mestre Harada,

   Pela primeira vez, atingi hoje uma grande iluminação. Estou tão radiante que todo o meu ser dança, a despeito de tudo o mais. Ninguém, excepto o senhor, poderá possivelmente entender a natureza deste êxtase. Alcancei o ponto autentico de firmar o Ox, e não resta ilusão absolutamente nenhuma.

Agora, pela primeira vez, encontraste o Caminho da realização total da tua Mente.
Foste salva do engano que não possui raízes permanentes. Magnífico, simplesmente magnífico!

   Não existe nem Ox nem homem. Devia voltar a vê-lo, uma vez mais, para lhe agradecer pessoalmente mas, como tenho que zelar pela minha saúde incapacitada, exprimo por carta essa profunda gratidão. Faço-o com todo o meu coração e uno minhas mão em sinal de respeito.

Os Budas e os Patriarcas não me enganaram (tradicional modo de referir que a iluminação preconizada pelos Budas e Patriarcas de todos os tempos é actual). Eu percebi a "face que tinha antes do nascimento dos meus pais" (koan) com uma maior nitidez do que um diamante na palma da minha mão. A absoluta autenticidade das palavras dos Patriarcas e dos Sutras apareceu diante dos meus olhos com claridade pura. Não mais necessito de encontros particulares nem ensinamentos e todos os Koan são agora como uma mobília inútil para mim. Ainda que os pudesse salvar, não há seres sencientes para salvar. Aqueles que alcançaram somente o Kensho não podem conhecer este estado de liberdade sem limites e profunda paz da mente. De facto, não pode ser conhecido até que se chegue à iluminação completa.
Se, após ler esta carta, ainda proferir disparates, não hesitarei em referir a sua realização como incompleta.

Óptimo! Óptimo! A isto se chama o estado de permanecer no cume da montanha isolada,
ou regresso à própria casa. Ainda devo falar-te disparates. Entenderás um dia.

   Devo-lhe muito. Quando reflicto que de facto completei o grande voto, enlevado através de inumeráveis vidas passadas e que sou capaz, agora, de aceder a encontros de instrução, sinto-me infinitamente agradecida.

Ainda é muito cedo. Entretanto, quantos, entre esses chamados iluminados dos dias que correm, estabeleceram uma tal certeza interior? Estou encantado por ver isso expresso por palavras tuas.

   O meu Terceiro Olho é absolutamente idêntico ao seu; nem Budas nem demónios me perturbam. Este estado desafia qualquer descrição. Esqueci tudo e retornei a "minha casa" de mãos vazias.

Será que o Patriarca Dogen voltou novamente?
Isto é o Imaculado Corpo da Lei (Dharma Kaya), ou seja, o Buda Vairochana (transcendente).

   O meu mundo foi revolvido. Como eram vãos e desnecessários os meus esforços e ansiedade experimentados no passado! Seguindo as suas sábias instruções e paciente concelho, não poderia permitir-me descansar satisfeita na insignificante paz que a minha mente iludida achava adequada. Não consigo transmitir-lhe como me sinto radiante e agradecida pelo presente estado. Isto é tudo resultado de um zazen persistente e da determinação de jamais parar diante de um pequeno sucesso mas de persistir sem que importe quantas vidas possam decorrer.

A tua devoção- e tu és uma devota leiga!- é nada menos que surpreendente.

   Posso agora iniciar a infinita tarefa de salvar todo o ser vivo. Isso deixa-me tão contente que dificilmente poderei conter-me. Tudo é radiância, pura radiância. Posso agora progredir para sempre rumo à Perfeição numa harmonia natural com a minha vida diária.

Tu compreendes. É exactamente assim.
Quantos dos homens do Zen dos dias actuais chegaram a tão profunda realização?

   Fui ressuscitada, como foi o senhor e tudo o mais, por toda a eternidade. Quando ler esta carta, também o senhor, creio, derramará lágrimas de agradecimento.

Estou tão agradecido por ter um discípulo como tu que posso agora morrer feliz.

   Só o senhor poderá compreender a minha mente. Contudo o senhor não existe, nem eu. O meu corpo e a minha mente foram, de facto, deixados para trás. Procurarei melhorar a minha saúde, cultivar a virtude e estar alerta para uma oportunidade de ensinar Budismo. Estou no centro do Grande Caminho onde tudo é natural e sem esforço, sem preocupação nem hesitação; onde não há Budas nem vós, nada; e onde percebo sem meus olhos e escuto sem meus ouvidos. Nem um sinal sequer, de entre aquilo que escrevi permanece. Não subsiste nem caneta nem papel nem palavras- nada mesmo.

   Dado que é impossível estabelecer qualquer referência acerca disto, excepto com quem o tenha experimentado por si mesmo, sinto-me forçada a escrever-lhe. Imagino que fique contente por ter um discípulo como eu que bebo tão profundamente da fonte da sua sabedoria. Prostro-me nove vezes em expressão de sentida gratidão.
                                  
Comentário Geral

   Este grau de realização é chamado "compreensão do Touro" e, por outras palavras, refere a verdadeira consecução do Caminho. È o retorno a Casa ou a aquisição da sabedoria fundamental. Avançar mais um degrau é realizar uma sabedoria ainda mais profunda. Este Touro possui uma solenidade e radiância desmedidas.


3
Testemunho de Aprofundada Iluminação
26 de Dezembro

   Querido mestre Harada,

Sinto remorso e vergonha. A carta que lhe enviei no dia 25 deve tê-lo deixado a pensar que enlouqueci.

Não precisas censurar-te.
Esse delírio de júbilo é a reacção inicial de todos aqueles que passaram por um profundo despertar.

   Alcancei uma tal grandeza de êxtase que perdi a noção do que fazia e não fui capaz de me conter. Quando recobrei os sentidos e recomecei a reflectir irrompi num riso diante do pensamento de que as minhas emoções se achassem viradas do avesso. Fui, então, capaz de avaliar a história de Enyadhatta, que enlouquecera acreditando ter perdido a cabeça, e da grande agitação que provocou quando descobriu a verdade, se bem, claro, jamais tivesse estado sem ela. Mas sou uma vez mais eu mesma, por isso não há necessidade de preocupação comigo.

Sempre tive um sentimento de ansiedade crescente, por um lado devido ao medo que a minha aspiração em direcção à realização de Buda pudesse enfraquecer por causa da própria insignificância e falta de energia, e por outro, devido a poder morrer sem experimentar a verdade do Dharma, e não fosse capaz de realizar isso por diversas vidas.

Sim, deve ser terrivelmente doloroso, para alguém que sinta uma fé absoluta no Dharma
morrer sem o experimentar. Somente diante de um tal sentimento se pode praticar com a devoção que tu usaste.

   Mas agora que penetrei fundo e atingi uma aspiração inabalável pela realização de Buda, fica claro para mim que sempre poderei continuar a minha disciplina espiritual, e aperfeiçoar, desse modo, a minha personalidade no seu todo, impelida pelo meu voto natural de salvar todos os seres vivos.

Fico transtornado pelas lágrimas!

Não possuo conhecimento de palavras que expressem o meu júbilo e gratidão. Longe de ter deixado o zazen, sinto intenção de alargar ainda mais os meus poderes de concentração.

Sim, sim. Tu realmente compreendes!

   Estou profundamente ao corrente da necessidade de tenho de cultivo próprio e compreendo minuciosamente o valor de dokusan (encontro com o mestre para explicações). Juro nunca mais escrever nada tão pretensioso como o que fiz ontem, dizendo que me tornei completamente iluminada e poder instruir outros pelo dokusan.

Despertaste mesmo!

   Perdoe-me, por favor. Eu fiquei tão fora de mim que simplesmente perdi todo o senso de proporção. Após uma reflexão mais assoberbada percebo o quanto isso era cómico, não obstante constituir uma recordação preciosa e experiência- ainda que breve- de tão deslumbrante júbilo!

Budas e Patriarcas, todos experimentam esse grande júbilo pelo menos uma vez.

   Estou chocada a ponto de me fazer saltar as lágrimas pela gratidão, pois posso agora compreender verdadeiramente o bem e o mal e proceder firmemente e sem ilusões a fim de dar continuidade às minhas práticas através do viver diário. Agradeço-lhe do fundo do meu coração. Cuide da sua saúde. Aguardo ansiosamente a sua próxima visita.
                                                                                                                                                Yaeko

Comentário Geral

   Neste nível adquire-se aquilo que se chama "sabedoria da percepção subtil", e nos Cinco Graus estabelecidos pelo Patriarca Tozan, a profundidade da tua percepção revelada na segunda carta corresponde ao terceiro (em que o conhecimento da Unidade é supremo e a consciência de diferenciação se afasta). A percepção revelada nesta carta corresponde ao quarto grau (em que todas as coisas são destituídas de traço de consciência de iluminação do ego).

Agora, é possível cumprir as acções benevolentes e virtuosas atribuídas a Fugen ou a Kannon. No zen, isso corresponde ao cumprimento do voto do Bodhissatva ou seja, viver na Terra Pura. Se bem que possa levar de cinco a dez anos para que a maior parte dos praticantes possam atingir este estágio, após o despertar, ela atingiu-o em menos de uma semana. Deve-se, sem dúvida, á sua profunda fé no Budismo, ao seu vasto voto sem limites (empreendido através de vidas sem conta e estendendo-se a todos os seres sensíveis) e ao facto de ela ter escutado cada palavra do Budismo autentico com um coração aberto. A sua realização permanece rara nos tempos modernos. A notável história da sua determinação e zelo deviam ser gravadas em letras de dois metros de tamanho, como inspiração imorredoura para todos os seguidores do Zen.


4
Evidência Directa do Grande Caminho do Budismo
26 de Dezembro

   Desculpe-me por lhe escrever com tanta frequência.
Atingi o último nível de realização possível enquanto discípulo.

Realizaste mesmo.

Costumava pensar: "Que grandioso é aquele que se torna iluminado" ou "Que admirável é o que se devota tão inteiramente a actividades budistas e não mais pensa em si". Mas como eu estava tão enganada! De agora em diante cultivarei mais virtude e não cederei na minha prática.

Antes da iluminação estava sempre ansiosa por a atingir e, frequentemente pensava: "Que nobre é aquele que retorna a Casa cheio de paz e contentamento". Porém, tendo alcançado a completa iluminação,

A tua experiência aponta a diferença entre o zen sem substância e o autêntico Zen.

Digo agora a mim própria: "Porque estavas tão excitada acerca disso?" É que possuo uma viva aversão a ser considerada iluminada.

Estou encantado por ter conhecimento de que pensas assim.
Contudo, só com a completa iluminação será possível pôr o teu zen em prática na vida diária.

Esqueci completamente o momento da minha iluminação e o que ocorreu imediatamente depois, contudo posso dizer que adquiri o verdadeiro "Olho Iluminado", por assim dizer. Diverte-me dizer a mim mesma: "Com que então isto é a verdadeira iluminação"!
Não posso dizer o quanto estou agradecida por ser para sempre uma com o Dharma, de modo completo e natural. Mas ao mesmo tempo sinto-me tão tola por ter-me deixado levar pelo júbilo delirante! Isto deve fazê-lo sorrir. As minhas "ilusões" com relação a tudo, foram positivamente banidas. Mas não falemos nisto a mais ninguém, pois o Dharma deve ser respeitado.

Se eu for cuidadoso no modo de o fazer, isso poderá ajudar sem causar ofensa, por isso não te preocupes.

Simplesmente não consigo compreender por que razão fiz sempre do respeito pelo Budismo um tal empecilho, assim como por alguém que tivesse atingido a completa iluminação. Terei sonhado?
 Yaeko
                 
Comentário Geral

   Sonhado! Certamente. Contudo, o modo como os sonhos andam neste mundo, torna-o invulgar para a maioria, e possuidor de um tremendo significado duradouro e intensa absorção no Dharma de Buda. Este estágio pode ser igualado ao quinto e mais avançado grau, chamado kenchuto (uma condição de absoluta naturalidade, em que todas as coisas são de acordo com a própria natureza e onde a interpenetração mútua do mundo da discriminação e o mundo da igualdade é tão completa que não se está em nenhum dos dois em separado). Fico admirado que ela tenha atingido este ponto tão rapidamente. Que o tenha realizado bem pode atribuir-se somente à sua intensa fé nos ensinamentos de Buda e ao seu forte espirito de Bodhisatva. Aquele que atingiu esse grau, completa aquilo que a prática do zen leva a cabo sob a acção de um mestre e empreende o caminho da verdadeira prática pessoal. Haverá mesmo uns poucos, hoje, que entendam isto? Katsu!
(exclamação sem significado preciso que transcende o significado racional e verbal, dos mestres zen, para ajudar o discípulo a aceder instantaneamente à iluminação)


5
Testemunho da Realização da Mente Sem Retrocesso, de Fugen
27 de Dezembro


   Caro mestre Harada,
   Graças a si percebi claramente que Buda é nada mais nada menos do que a Mente. A minha gratidão não conhece limites. Isso deve-se tanto mais à sua benevolente orientação quanto à minha intensa ânsia e empenho pela Realização de Buda, pela salvação de todos os seres vivos.

Não tinha pensado em ti como alguém com tamanha aspiração, tão invulgarmente forte.
Quanta desatenção da minha parte! É evidente que és a encarnação de um grande Bodhisatva.

   Como poderei agradecer-lhe o suficiente? Percebo agora que, nos termos do Dharma, devo respeitar-me. Por favor, mostre-me o que devo ainda fazer. Estou muito feliz por ter sido capaz de me purificar de toda a insignificância de pensamento e sentimento ilusórios.

Tu ainda não desenraizaste completamente os teus sentimentos ilusórios,
mas quem já alcançou uma percepção tão profunda assim, é capaz de conduzir uma vida pura.

      Porém, e a despeito disto, desejo ser conduzida por si sob todos os aspectos, com receio de desencaminhar os demais na prática ou compreensão que alcançarem do Budismo. O meu estado mental é agora bastante diferente daquele da altura do despertar (kensho).

Kensho é meramente o estado de perceber a Mente Iluminada (Ox).

   De facto, quanto mais avanço no Caminho Supremo, mais exaltado ele se torna. Agora que experimentei como "Esse nada mais do que" consiste na perfeição, posso, finalmente, retribuir os vossos benefícios sentindo-me cheia de alegria. Tendo alcançado um profundo estado crítico, necessito vê-lo com brevidade.

Desejaria precipitar-me para junto de ti a fim de te aconselhar melhor.
Mas devido a que estejamos no final do ano, encontro-me extremamente ocupado com os afazeres do mosteiro e assim, impossibilitado de me ausentar de momento.

   Perdoe-me por fazer este pedido por carta mas a doença impede-me de o ir ver. Deve sentir-se verdadeiramente satisfeito por me ter, verdadeiramente, dado formação. Jamais eu sonhara puder testemunhar, durante a minha vida, a transmissão do Budismo de um Buda encarnado para o Bodhisatva Miroku (diz-se, quando o nível de iluminação do discípulo é o mesmo do do mestre, que o Budismo vivo é transmitido do Buda ao Bodhistava). Prometo a mim própria agir com cuidado em cada detalhe da minha vida. Rezo para que fique bem.

Yaeko

Comentário Geral

   A essência do Budismo vivo pode ser resumida na palavra Tada (que significa "somente", "nada mais do que").
Quem é o Buda Sakiamuni? Quem é Miroku? Eles não são diferentes de ti. Percebe somente!
Ela alcançou este estágio de Tada. È natural, por isso, que sentisse esta profunda alegria tanto quanto um forte sentido de responsabilidade com relação ao Dharma. As acções decorrentes de uma tal mente são as de um Fugen ou de uma Miroku encarnados.


6
Testemunho da Alegria e Paz na União do Dharma
27 de Dezembro


   Prezado mestre Harada,

   Alegre-se! Finalmente discerni a "minha face anterior ao nascimento dos meus pais" com uma claridade que penetra do céu até ao fundo da terra. No entanto, nunca eu me percebi como alguém exaltado na busca. O senhor e eu acalentamos uma profunda ilusão: a de que o voto de salvar todas as criaturas mergulhadas na ilusão seja engrandecedor.

Mas, alguém assim iludido é chamado Bodhistava.
Compreender que não há ninguém para salvar é a salvação real.

   Ho, que irónico! Contudo, o respeito que sinto por si, mestre, não conhece limites. Realmente ninguém mais poderá compreender o significado da minha iluminação. Sinto que seria insensato da sua parte contar a outros que eu, que não possuo qualquer dignidade nem posição social, me tenha tornado completamente iluminada, uma vez que isso poderia originar que se pense com leviandade com relação ao Budismo.

Isso pode ser verdade sob certo ponto de vista. Por outro lado, muitos poderão ser inspirados a um maior esforço e, assim, não há necessidade de preocupação.

   Somente uns quantos, excepcionais jamais duvidariam da minha experiência. Que imenso alívio é descobrir que, tal qual como sou, não possuo nada! Quanta alegria sinto por saber que estarei eternamente junto de si! O Budismo é inútil para quantos se vêem livres de ilusões. Sorrio de satisfação por saber como sempre fui, essencialmente Buda- não tenho a mais pequena dúvida disso- ainda que o revele somente àqueles detentores de idêntica iluminação. As pessoas de menor realização terei de o revelar de modo diferente.
Ergo-lhe as minhas mãos unidas em agradecimento. Como é gloriosa, consistente e razoável do princípio ao fim a verdadeira Lei. Sinto-o com tal intensidade! Encaro o Ano Novo que se avizinha com um coração sereno. Olhe por si.
                                                                                                                                                               Yaeko

P.S.- Posso actualmente apreciar devidamente o quanto um despertar unilateral pode ser insuficiente.

Tens razão. A iluminação da maior parte dos professores de zen dos dias que correm pertence e esse género. Porém, uma realização unilateral permanecerá unilateral, não importando quantos Koan se tenha passado.
Aquilo que essas pessoas são incapazes de perceber é que a sua iluminação é passível de infinita ampliação.


Comentário Geral

   Viver uma vida com "Tada" equivale a caminhar pelo caminho supremo da glória, seguido por todos os Budas. Quando não mais se tiver consciência de se precisar do Budismo, o verdadeiro Budismo manifesta-se com autenticidade. Contudo, acarinhe-se ainda esta concepção e a vida tornar-se-á encoberta por ilusões. Aniquilai devotadamente essa ligação e a vossa vida será perpetuamente coberta pelo sol quente da primavera.


7
Testemunho Acrescido de Unidade com o Dharma
27 de Dezembro


   Prezado mestre, permita-me que lhe escreva com mais frequência.
 Recuperei finalmente a minha compostura. Com a compreensão de que Buda sou eu,

Eu sou Buda. Eu sou eu. Eu sou eu sem ego.

Cheguei a compreender claramente o amor e respeito recto que sinto por si. A esta altura, já me libertei do odor da iluminação.

Não o suficiente, pois estás, agora mesmo, a emitir o seu fétido odor.

E sinto a mais profunda gratidão pelo Dharma e por si. Sinto gratidão pela minha realização que, ligada ao estado quer de ilusão quer de iluminação, eleva a um desejo ardente e crescente de perseguir o Dharma com uma maior intensidade (como de alcançar igualmente a suprema paz de espírito).

Aquele que não se cansa de realizar actos virtuosos é chamado um Buda.
Contudo, a união com o Dharma não é uma virtude, nem uma ligação fácil de dissolver.

   Ilusão e iluminação são igualmente ultrajantes. Poderá avaliar o quanto me é altamente satisfatório descobrir, por fim, através da completa realização, que sendo assim como sou nada me falta.

Eu sei como te sentes. Até mesmo o honorável Shakyamuni se manteve ligado a esse delicioso gosto da sua iluminação por um período de três semanas.
A menos que te livres dessa satisfação própria, por qualquer via, não poderás conhecer o verdadeiro Budismo.

    O conhecimento da profundeza da nossa ligação Cármica tornou-se mais digno e prudente. Eu tivera então uma grande iluminação e cinco menores; esquecera tudo sobre quem era, onde estava e o que estava a fazer, até hoje.

Avançando sem o sabermos, avançamos. Sentando-nos sem o sabermos, sentamo-nos.
Isso é o verdadeiro Samadhi do Zen. (1)
A menos que o ego seja banido a um tal ponto, não poderá dar-se a regeneração total.
Tu procedeste bem. Confúcio esqueceu-se de comer durante três dias, tão absorvido ficou pela sua música.


   Varri as minhas ilusões e penetrei tão fundo e com tal minúcia que não mais pude retornar ao meu estado habitual.

Deixa que isso permaneça como ficou.

Eu solicitei dokusan com o Mestre Taji e, naquela altura, ele chamou a atenção de que isso se deveria ao efeito da minha profunda concentração.

Sim, devido à força gerada pela profunda concentração da mente.

   Pensei que seria necessário pedir-lhe para voltar a dar-me instrução mas aí, fui penetrada por um insight profundo que me fez rezar a Buda, depois do que, acabei por me perder numa meditação solta e sem objecto (shikan-taza) por um período de umas três horas.

Não há necessidade de rezar.

   Finalmente encontrava-me em condições de retornar à minha condição normal. O zen que pratiquei após a iluminação, imaginando que existisse um qualquer resíduo que devesse ser varrido, era, na verdade, desesperado. Percebo com toda a clareza que não posso passar sem zazen. Estou agradecida pela realização, tão agradecida que, sendo como sou, vida após vida, é, em si mesmo, a perfeição. Sou suprema em todo o Universo e isso é perfeitamente natural.

De entre os inumeráveis fenómenos do Universo um só se manifesta como imaculado.
O que será senão tu?


(1)-  Estado de fusão daquele que medita com o carácter absoluto do objecto da meditação, pela transcendência da dualidade do pensamento conceptual. Estado superior de consciência.

   Estou surpreendida

Surpreendida do ponto de vista dos sentimentos ilusórios.

           Por eu poder ser essa Unidade. Que coisa admirável e maravilhosa!
Mas estou animada e, por isso peço o favor de não se preocupar comigo. Anseio pelo enorme prazer de voltar a vê-lo.
                                                                                                                                                                   Yaeko


P.S.- Chego às lágrimas devido ao sentimento de alegria quando penso que completei a prática do Zen do princípio ao fim sem esforço, e que posso todavia esperar receber a sua eterna ajuda.


Comentário Geral

   Reza um velho preceito do Zen que permanecer prezo à própria iluminação significa tanto um mal quanto exibir um ego tresloucado e hiperactivo. Na verdade, quanto mais profunda for a iluminação, pior será esse mal. No caso dela penso que levaria dois ou três meses para que os sintomas mais óbvios desaparecessem; dois ou três anos para que aqueles menos evidentes desaparecessem por sua vez, e sete ou oito anos para os mais insidiosos. Tais sintomas são menos pronunciados em alguém tão afável quanto ela, porém, noutras pessoas são perfeitamente nauseantes. Aqueles que praticam o zen devem precaver-se contra esses sintomas. O meu próprio "padecimento" durou quase dez anos. Há!


8
Pressentimento de Morte
28 de Dezembro

   Caro mestre Harada,

   Devo encontrar-me consigo sem falta nenhuma antes do fim do ano, dê por onde der.
Deixe que lhe conte um facto perturbador. Sinto fortemente a sensação de que o meu tempo de vida junto de si esteja a chegar ao fim, por isso peço-lhe para me vir ver de qualquer modo, pelo amor de Deus. Estou a pedir-lho depois de séria reflexão. Asseguro-lhe de que não se trata de alucinação nenhuma.
                                                                                                                                                      Yaeko

Comentário Conclusivo

   Nesta sua última carta fica bastante claro que Yaeko sentiu um presságio de morte. Diante do radiante tenor das sete cartas precedentes, fiquei chocado e entristecido pelo tom agoirento desta. Tive esperanças de que, de algum modo a sua morte não viesse tão cedo. Que terrível lástima!

   Um dos sutras refere que a maneira ideal de morrermos seja com a intimação antecipada aí por uma semana, com pouca dor ou aflição e com o espirito imperturbável e sereno, livre de todas as ligações ao corpo. Este é o ideal acarinhado por todos os Budistas porém, a sua realização está longe de ser fácil.

   O Patriarca Chuo declarou solenemente, certa vez:  "Pretendo morrer com uma premonição antecipada por uma semana, com serenidade de espírito e ausência de anelos para com o corpo para poder renascer no reino dos Budas, obter a suprema iluminação e finalmente receber a Sua aprovação do melhor modo possível, a fim de salvar todos os seres sensíveis, de todos os mundos inumeráveis".

   A morte de Yaeko foi desse género. Anterior a esta carta recebi um telegrama urgente pedindo-me para voltar lá para a ver. Apressei-me para junto da sua cabeceira, em Kamakura no dia 29 de Dez., e após ter podido vê-la e falar com ela pude confirmar a abertura do Olho da sua Mente. Estava em lágrimas. E eu achava-me no mesmo estado. Chorei de alegria e dor. Pela sua parte não se encontrava nem um pouco receosa de morrer, pensando somente no Dharma e na Iluminação dos outros. Estava profundamente apreensiva por os seus amigos e conhecidos poderem erroneamente pensar que a sua pratica do zen pudesse ter sido a causa da sua morte. Temia ela que tal crença pudesse persuadir todos aqueles que ainda não possuíssem uma fé consolidada no Budismo a repudiar o Dharma. Se tal coisa viesse a dar-se ela teria cometido uma grave ofensa Carmica, não só contra o Dharma como igualmente contra muitas pessoas. Além disso, pressentia poder ser culpabilizada pela infelicidade e irresponsabilidade dos demais, pelos Budas.

   Esses pensamentos pesavam demasiado. E se bem desejasse renascer no inferno como consequência disso, o pensamento de dever conduzir os demais na direcção errada era intolerável.

No decorrer de todo o dia e noite em que permaneci junto dela, discutiu esses assuntos comigo. Eu assegurei-lhe que não havia razão para se preocupar, assim como deveria acertar todo o mal-entendido. Preveni-a frequentes vezes para não se esforçar demasiado, chamando à atenção que isso era contrário à verdadeira Lei, e que aqueles que tivessem o desejo de o fazer podiam encetar a prática do zen sem se esforçarem. Não é impossível, é claro, que tivesse voluntariamente ignorado os avisos e, considerando a sua delicada saúde, tivesse despendido a sua energia devido a um esgotamento que tenha vindo precipitar a sua morte.

O seu pior receio era o de uma interpretação errada que pudesse criar um sentimento de desprezo pelo Dharma.

Seja como for, a virtude da sua vida assenta num exemplo autêntico de um zen exequível, se praticado de modo apropriado, e como será possível experimentar a iluminação na própria casa e mais particularmente, numa cama de doente. Se existir uma forte determinação pode-se praticar zazen mesmo que se seja portador de uma constituição frágil e se ache incapacitado para atender Seshin.

   É isto o que exalta a sua notável experiência, e deve ficar registado na moderna história do zen. Yaeko é já falecida, o que consiste uma enorme perda. A sua vida de coragem, contudo, é tão inspiradora e a sua influência tão abrangente que certo é que promoverá o alastramento do Budismo em benefício do género humano.

Tradução de Amadeu António - 2002
In: "The Three Pillars of Zen" de Philip Kapleau
 





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