sábado, 3 de dezembro de 2016

CARTAS ÀS ESCOLAS



"Estas cartas não foram escritas para serem lidas ao acaso nem se destinam a ser tratadas como um entretenimento. Foram escritas com um espirito de seriedade e se as lerem, leiam-nas com o intuito de estudar aquilo que nelas é referido, como se estivessem a estudar uma flor, a observa-la. Temos que dar tempo ao tempo, e experimentar, investigar sem qualquer aceitação, de forma que o conteúdo seja vosso e não do escritor."

Krishnamurti  endereçando-se aos estudantes



J. Krishnamurti, cuja vida e ensino abrangeram a maior parte do século vinte, é encarado por muitos como alguém que exerceu o mais profundo impacto na consciência humana dos tempos modernos. Sábio, filósofo e pensador, ele trouxe esclarecimento às vidas de milhões, por todo o mundo; velhos e novos - tanto a intelectuais como a leigos. Conferiu novo significado à religião ao apontar um rumo de vida que transcende todas as religiões organizadas. Confrontou arrojadamente os problemas da sociedade contemporânea e analisou, como ninguém, os trabalhos da mente humana com uma precisão científica, declarando estar somente interessado em libertar o homem de modo absoluto e incondicional, e procurando libertá-lo do seu condicionamento de tristeza, medo, violência e egocentrismo.
Jiddu Krishnamurti (1895-1986)  nasceu numa família piedosa da classe média na cidade rural de Madanapalle, no sul da Ìndia. Foi "descoberto" durante a sua mocidade, pelos líderes da Sociedade Teosófica, que o proclamaram a encarnação do advento do Mestre Mundial, que os teósofos aguardavam esperançosamente. Ainda novo, passou por uma série de experiências místicas que lhe provocaram uma profunda transformação que iria proporcionar-lhe uma nova visão da vida. Posteriormente dissociou-se de todas as correntes religiosas organizadas e ideologias para embarcar numa missão solitária, em que se endereçava às pessoas, com quem debatia as mais variadas questões como um amigo.

AS CARTAS


1 Setembro 1978

Como gostaria de manter-me em contacto com todas as escolas na Índia, com as de Brockwood ParK, na Inglaterra, de Oak Grove em Ojai, na Califórnia, e de Wolf Lake, no Canadá, proponho-me escrever-lhes uma carta quinzenalmente, enquanto for possível.

Como é natural, é difícil manter o contacto com todas elas pessoalmente. Por isso, gostaria de escrever estas cartas, para ajudar à compreensão do que estas escolas deveriam ser e para lembrar a todas as pessoas que são responsáveis por elas, que estas escolas existem não só para serem academicamente boas, mas muito mais do que isso, existem para se empenharem no desenvolvimento do ser humano total.
     
Estes centros de educação devem ajudar o estudante e o educador a desabrochar naturalmente. Este desabrochar é na realidade muito importante porque de outro modo a educação torna-se um mero processo mecânico orientado para uma carreira ou profissão qualquer.

Na sociedade tal como agora existe, um curso e uma profissão são necessários, mas se canalizamos para aí todo o nosso empenhamento então a liberdade para desabrochar murchará gradualmente.

Tem-se dado demasiada importância a exames e diplomas, todavia não é esse o principal fim para que estas escolas foram criadas, o que não quer dizer que a nível escolar o jovem fique com uma preparação deficiente. Antes pelo contrário, com o pleno desabrochar do professor e do aluno, o curso e a profissão tomarão o lugar adequado.

A sociedade e a cultura em que vivemos exigem que o estudante seja orientado para um emprego e uma segurança material. Tem sido essa a pressão constante das diversas sociedades: a carreira primeiro, e tudo o mais secundariamente. Isto é, primeiro o dinheiro, passando para segundo plano os aspectos secundários da nossa vida diária.

Estamos a tentar inverter esse processo, porque só o dinheiro não pode fazer o homem feliz. Quando o dinheiro se torna o factor dominante na vida, há desequilíbrio na nossa actividade quotidiana.

Assim, se me permitem, gostaria que todos os educadores compreendessem isto com muita seriedade e vissem bem todo o seu significado. Se o educador compreender a importância disto e lhe der na vida o lugar adequado, será então capaz de ajudar o jovem, que é levado pela sociedade e pelos próprios pais a fazer da carreira a coisa mais importante. Gostaria, pois, com esta primeira carta, de acentuar este ponto, para que nestas escolas se mantenha sempre um modo de viver que ajude a cultivar o ser humano na sua totalidade.

A maior parte da educação que recebemos consiste na aquisição de conhecimentos, o que está a tornar-nos cada vez mais mecânicos; as nossas mentes estão a funcionar em caminhos rotineiros e estreitos, quer o conhecimento que adquirimos seja científico, filosófico, religioso, comercial ou tecnológico. A nossa maneira de viver, em casa ou fora dela, e a nossa especialização numa determinada profissão tornam as nossas mentes cada vez mais estreitas, limitadas e incompletas. Tudo isto leva a um modo mecânico de viver, a uma mentalidade que se ajusta a padrões, e assim gradualmente o Estado, mesmo um Estado democrático, dita aquilo em que deveremos tornar-nos. Muitas pessoas dadas à reflexão têm naturalmente consciência disso, mas infelizmente parecem aceitar viver assim. Todavia, isso torna-se um perigo para a liberdade.

A liberdade é algo muito complexo e para compreender essa complexidade é necessário o pleno desabrochar da mente. Cada um, como é natural, encontrará uma definição diferente  para o que entende como desabrochar do homem, de acordo com a sua cultura, a forma como foi educado, a sua experiência, as suas crenças religiosas - isto é, de acordo com o seu condicionamento.
Não nos ocuparemos aqui de opiniões ou preconceitos mas sim de uma compreensão, para além das palavras, das implicações e consequências do completo desabrochar da mente. Esse desabrochar é o total desenvolvimento e cultura da mente e do coração, e também o bem-estar do corpo, o que significa viver em completa harmonia, sem oposição ou contradição entre eles.
        
O pleno desabrochar da mente só pode acontecer quando há percepção clara, objectiva, impessoal, livre de qualquer espécie de imposição. Não se trata de o que pensar mas de como pensar lucidamente. Há séculos que por meio da propaganda e de outras influências temos sido orientados para o que pensar. A maior parte da educação moderna é isso, sem uma investigação de todo o movimento do pensamento. O desabrochar implica liberdade: do mesmo modo que uma planta, a mente precisa de liberdade para crescer.

Abordaremos isto de maneiras diversas nestas cartas, durante o ano que vai começar: trataremos do despertar do coração, que nada tem a ver com sentimentalismo, romantismo ou imaginação, mas com a bondade que nasce da afeição e do amor. Trataremos da cultura do corpo, da alimentação correcta e do exercício adequado, criadores de uma sensibilidade profunda.

Quando a mente, o coração e o corpo estão, os três, em completa harmonia, então o desabrochar acontece naturalmente, de maneira fácil e em plenitude. É este o nosso trabalho como educadores, é esta a nossa responsabilidade, e a profissão de educar assume então na vida toda a sua grandeza.


15 Setembro 1978

A bondade profunda só pode florescer em liberdade. Não pode brotar no campo da persuasão, tenha ela a forma que tiver, nem sob a influência de constrangimentos nem recompensas. Não se revela quando há qualquer espécie de imitação ou conformismo e, naturalmente, não pode existir quando há medo. Manifesta-se na conduta, uma conduta que emana da sensibilidade.

Esta bondade expressa-se na acção e é diferente de tudo o que está ligado ao movimento do pensamento. É preciso compreender o pensamento, que é extremamente complexo, e essa mesma compreensão desperta-o para as suas próprias limitações.

A bondade não tem contrário. A maior parte das pessoas considera-a como o oposto da maldade, do mal, e assim, através da história, em qualquer cultura, a bondade tem sido considerada como o que é contrário do que é desumano. Por isso o homem tem sempre lutado contra o mal para ser bom: mas a bondade nunca pode nascer se existir qualquer forma de violência ou de luta.

É na conduta, na acção e no relacionamento, que a bondade se revela. Geralmente, a nossa conduta diária ou assenta em certos padrões –
tornando-se mecânica e, portanto, superficial –ou depende de motivos cuidadosamente pensados, fundamentalmente para obter compensações ou evitar penalidades. Assim, consciente ou inconscientemente, a nossa conduta é calculada. Uma conduta de bondade não é só isso. Quando o compreendemos, não só intelectualmente ou só ao nível das palavras, então, desta negação total nasce um comportamento correcto e verdadeiro.

Uma conduta de bondade, na sua essência, é a ausência do ego, do eu. Expressa-se na delicadeza, no estar atento aos outros, disposto a ceder sem perder a integridade. A nossa conduta torna-se, assim, extraordinariamente importante. Não é uma questão casual que se olha de modo descuidado, nem um jogo de uma mente sofisticada. Emana da profundidade do ser e faz parte da nossa existência quotidiana.
É na acção, pois, que a bondade se manifesta. Embora acção e conduta sejam provavelmente a mesma coisa, para maior clareza precisamos de as caracterizar e examinar em separado. Agir correctamente é extremamente difícil. É algo muito complexo que precisa ser visto de perto, sem impaciência e sem nos precipitarmos para qualquer conclusão.
      
 Na nossa vida diária, a acção é um movimento contínuo derivado do passado, ocasionalmente interrompido por novas conclusões. Estas conclusões tornam-se então o passado, e a pessoa passa a agir de acordo com isso. Age-se segundo ideias preconcebidas ou de acordo com ideais e, assim, está-se constantemente a agir em função ou do conhecimento acumulado, que é o passado, ou do futuro idealizado, de uma utopia.
Aceitamos tal acção como sendo normal. Se-lo-á? Quando a pomos em dúvida, depois de já ter acontecido ou antes de a realizarmos, esse pôr em dúvida ou se baseia em conclusões anteriores ou se faz em função de compensações ou penalidades futuras. "Se fizer isto –obtenho aquilo", e assim por diante. Por isso temos de pôr totalmente em causa a ideia de acção que vulgarmente se aceita.

Geralmente, a acção tem lugar depois de se ter acumulado conhecimento ou experiência; ou então agimos para aprender a partir dessa acção, agradável ou desagradável, e o que aprendemos torna-se uma nova acumulação de conhecimento. Ambas as acções se baseiam, portanto, no conhecimento; não são diferentes. O conhecimento (que é cumulativo) é sempre o passado e, sendo assim, as nossas acções são mecânicas.
     
Haverá uma acção que não seja mecânica, uma acção não repetitiva, não rotineira e, portanto, sem frustração? É realmente importante compreender isto porque onde há liberdade e a bondade floresce, a acção nunca pode ser mecânica. O acto de escrever é mecânico, tal como aprender uma língua ou conduzir um automóvel; adquirir qualquer espécie de conhecimento técnico e actuar de acordo com ele é mecânico. Na actividade mecânica pode haver um intervalo, mas nesse intervalo é formada uma nova conclusão que, por sua vez, se torna mecânica.

Temos de ter constantemente presente que a liberdade é essencial à beleza da bondade. Há uma acção que não é mecânica, mas temos de a descobrir. Ninguém nos pode dizer nada sobre ela, nem dar-nos instruções a esse respeito; e não podemos aprender a partir de exemplos, porque isso torna-se imitação e conformismo. Perdemos então completamente a liberdade, e a bondade não pode existir.
Penso que é bastante, por agora, e na próxima carta continuaremos, então, com o desabrochar da bondade no relacionamento.
                                                                                 

1 Outubro 1978

Vamos continuar, se quiserem, com a questão do desabrochar da bondade em todas as nossas relações, nas de maior intimidade ou nas superficiais, e nos acontecimentos vulgares do quotidiano.

A relação com outro ser humano é das coisas mais importantes na vida. Na generalidade, não somos muito sérios nas nossas relações, porque estamos preocupados connosco em primeiro lugar, e só depois com o outro, quando nisso temos conveniência, quando nos dá satisfação ou gratifica os sentidos. Tratamos o relacionamento à distância, por assim dizer, e não como uma coisa em que estamos totalmente implicados.

Quase nunca nos abrimos realmente ao outro, pois não estamos atentos a nós mesmos, e assim na nossa relação mostramos possessividade, domínio, ou então subserviência. Há o "outro" e "eu", duas entidades separadas sustentando uma divisão que dura até à morte. O outro está preocupado consigo próprio, e assim essa divisão mantém-se durante toda a vida. É certo que se demonstra simpatia, afeição, apoio, em várias circunstâncias, mas este processo separativo continua. E daí surgem as incompatibilidades, o conflito dos temperamentos e dos desejos, e tudo isso gera medo e acomodação.

No aspecto sexual, poderá haver entendimento, mas essa relação peculiar, quase estática, do tu e do eu permanece, com os conflitos, as feridas psicológicas, os ciúmes e todo o seu tormento. É porém o que geralmente se considera uma boa relação.
 Poderá a bondade desabrochar no meio de tudo isto? E contudo a relação é vida, e não se pode existir sem alguma espécie de relação. O eremita, o monge, por muito que se afastem do mundo, levam o mundo consigo.. Podem recusá-lo, podem reprimir-se, torturar-se, mas ficam ainda numa certa relação com o mundo, porque aquilo que são é resultado de milhares de anos de tradição, de superstição, e de todo o conhecimento que o homem tem acumulado ao longo de milénios. Não é possível, portanto, fugir de tudo isso.
     
Vejamos agora a relação entre o educador e o educando. Será que o professor, consciente ou inconscientemente, mantém um sentimento de superioridade, colocando-se num pedestal e fazendo o aluno sentir-se inferior, como alguém que tem de ser ensinado? Neste caso, evidentemente, não há relacionamento. E daí nasce o medo, um sentimento de constrangimento e de tensão por parte do estudante, que assim aprende desde a juventude essa atitude de superioridade; é levado a sentir-se inferior, e portanto ao longo da vida, ou se torna agressivo ou está continuamente a submeter-se e a ser subserviente.

Uma escola é um lugar de tempo disponível, onde o educando e o educador estão ambos a aprender. É esta a essência da escola: aprender. Não entendemos por tempo disponível ter tempo para si, embora isso também seja necessário; não significa pegar num livro e sentar-se debaixo de uma árvore, ou num quarto, a ler casualmente. Não quer dizer um estádio plácido da mente, nem é com certeza estar ocioso ou passar o tempo a sonhar acordado. Um tempo de disponibilidade significa que a mente não está constantemente ocupada com alguma coisa, com um problema, com um entretenimento ou um prazer sensorial qualquer.

                                                                         
15 Outubro, 1978

Aparentemente, a maior parte das pessoas passa muito tempo a procurar a compreensão meramente verbal e parece não captar a profundidade e o conteúdo para além da palavra.

Quando as pessoas procuram e se satisfazem com uma compreensão verbal, tornam a mente mecânica e a vida superficial e muitas vezes contraditória. Nestas cartas não é uma compreensão meramente verbal o que nos interessa, mas os factos quotidianos da vida. A realidade central aqui presente não é pois a explicação verbal do facto, mas o próprio facto.

Quando nos limitamos a uma compreensão só ao nível das palavras e portanto a uma compreensão meramente de ideias, a nossa vida diária situa-se nos planos dos conceitos e não dos factos. Todos os ideais, todos os princípios e teorias são conceptuais. E tais conceitos podem ser ilusórios, podem gerar falta de seriedade e hipocrisia. Podemos ter uma quantidade de conceitos ou ideais, mas eles nada têm a ver com os acontecimentos quotidianos da nossa vida.
   
As pessoas são criadas com ideais e quanto mais quiméricos, mais nobres são considerados; mas muito mais importante do que os ideais é a compreensão das realidades quotidianas. Se a mente está cheia de conceitos, de ideais, etc., o facto, o acontecimento presente, nunca pode ser encarado. O conceito, o ideal, torna-se um factor de bloqueio. Quando tudo isso é compreendido com muita clareza –mas não apenas intelectualmente, ao nível do conceito- compreendemos a grande importância de encarar o facto, o real, o agora, e isto torna-se o factor central da nossa educação.

A "política" é uma espécie de doença universal baseada em conceitos, em ideologias, e a "religião" um emocionalismo imaginativo e romântico. Quando se observa o que está realmente a acontecer, tudo é sinal de um pensamento desligado do real, e de uma evasão em face da miséria, da confusão e do sofrimento quotidianos da nossa vida.
O bem não pode desabrochar no campo do medo. E há neste campo muitas variedades de medo –o medo imediato e os medos de muitos amanhãs.

O medo não é um conceito mas a explicação do medo é conceptual e essas explicações variam de especialista para especialista, de intelectual para intelectual. Não é a explicação que é importante, o essencial é encarar o facto que constitui o medo.
Em todas as nossas escolas, os educadores e as outras pessoas responsáveis pelos estudantes, nas aulas, nos campos de jogos ou noutras dependências, têm o encargo de estar atentos, para que não surja qualquer forma de medo.
O educador não deve despertar no jovem qualquer receio. Não se trata de uma questão meramente conceptual, abstracta, porque o próprio educador compreende, e não apenas a nível intelectual, que o medo, sob qualquer forma, mutila a mente, destrui a sensibilidade e atrofia os sentidos. O medo é o pesado fardo que o homem desde sempre tem trazido consigo. Deste medo nascem várias formas de superstição –ligadas à religião, à ciência e ao domínio do imaginário. Vive-se num mundo de "faz de conta", e a essência deste mundo idealizado nasce do medo.
   
Dissemos anteriormente que o homem não pode viver sem relação, e esta não é importante apenas na sua vida privada. Se se trata de um educador, ele tem também uma relação directa com o educando. Se nesta relação existir qualquer espécie de receio, então não é possível ao educador ajudar o jovem a libertar-se do medo.

O estudante vem de um meio onde existe medo, onde há autoritarismo, inúmeras pressões e toda a espécie de impressões, imaginadas e reais. O educador tem também as suas próprias tensões, os seus próprios receios. E não será capaz de criar a compreensão da natureza do medo se ele mesmo não tiver posto a descoberto a raiz dos seus próprios medos. Isto não quer dizer que deva primeiro estar livre deles para ajudar o jovem a libertar-se, mas que na relação diária, em conversa ou na aula, o professor reconheça que ele próprio está sujeito ao medo, tal como o aluno, e assim poderão explorar juntos toda a natureza e estrutura do medo. Deve reparar-se que não se trata de uma "confissão" da parte do professor. Ele apenas menciona um facto, sem qualquer acento emotivo ou pessoal. É como uma conversa entre bons amigos. Isso requer sinceridade e humildade; porém humildade não é servilismo, nem consiste em sentir-se subjugado; a humildade não conhece nem a arrogância nem o orgulho.
   
O professor tem pois uma tremenda responsabilidade, por se tratar de uma profissão de importância fundamental. O educador existe para fazer surgir uma nova geração no mundo –o que é um facto e não uma abstracção. Podemos transformar um facto numa abstracção, e perder-nos assim em conceitos, mas o real permanece sempre. Encarar o real, o agora, e também o medo, é a mais alta função do educador; ele tem de fazer surgir não só um elevado nível escolar mas o que é bem mais importante, a própria liberdade psicológica e a do aluno. E quando se compreende a natureza da liberdade, então elimina-se toda a competição, no campo dos jogos e na sala de aula. Será possível eliminar completamente a avaliação comparativa, tanto no campo escolar como no ético? Será possível ajudar o jovem no domínio escolar e não pensar em termos de competição, sem que por isso deixe de ter muito boa qualidade nos seus estudos, nas suas acções e na vida quotidiana?

Lembremo-nos de que estamos empenhados no desabrochar da bondade, e que esse desabrochar é impossível enquanto subsiste qualquer forma de espirito competitivo. Só há competição quando há comparação, mas esta não cria verdadeira qualidade.
Estas escolas existem fundamentalmente para ajudar o educando e também o educador a desabrochar em bondade. Isto requer elevada qualidade na acção, na conduta e no relacionamento. È isto que desejamos que aconteça, foi para isto que estas escolas foram criadas: não para lançar pessoas meramente interessadas numa carreira mas para criar grande qualidade humana.
Na próxima carta continuaremos a tratar da natureza do medo – não da palavra medo, mas do facto real que o medo constitui.


1 de Novembro, 1978

O conhecimento não leva à inteligência. Acumulamos muitos conhecimentos sobre muitas coisas, mas parece ser quase impossível agir inteligentemente em relação àquilo que se aprende.

Escolas, institutos, universidades cultivam o conhecimento acerca dos nossos comportamentos, do universo, das ciências e da tecnologia, sob todas as formas. Esses centros de educação raramente ajudam um ser humano a saber viver a vida de todos os dias.

Os eruditos defendem que o homem só pode evoluir por meio de vastas acumulações de informação, de conhecimentos. O ser humano tem passado por milhares e milhares de guerras; tem acumulado muitos conhecimentos sobre as várias maneiras de matar, e esses mesmos conhecimentos estão a impedir que se acabe com todas as guerras. Aceitamos a guerra como um modo de viver, e todas as brutalidades, violências e morticínios como fazendo parte do curso normal da nossa existência.
Sabemos que não devemos matar. O conhecimento é posto completamente à margem do facto de matar. O conhecimento não impede que se mantém também os animais e a própria terra.
O conhecimento não pode funcionar por meio da inteligência, mas a inteligência pode funcionar utilizando o conhecimento. Conhecer é não conhecer, e compreender o facto de que a acumulação de conhecimentos nunca poderá resolver os nossos problemas humanos é inteligência.

A educação nestas escolas não é só adquirir conhecimentos mas, e isso é bem mais importante, despertar a inteligência, que utilizará então os conhecimentos. Nunca é o inverso. E dado que em todas as escolas estamos empenhados no despertar da inteligência, surge então a pergunta inevitável: como despertar a inteligência? Qual é o sistema, o método, a prática? A própria pergunta indica que se está ainda a funcionar no campo do conhecimento. Perceber que se trata de um falso problema é já despertar a inteligência. A prática, o método, o sistema na vida quotidiana levam à rotina, a uma acção repetitiva e, portanto, a uma mente mecânica. O movimento contínuo do conhecimento, especializado ou não, faz a mente ficar num caminho estreito e rotineiro, num modo de viver muito limitado.
Aprender a observar e a compreender toda esta estrutura do conhecimento é começar a despertar a inteligência.

As nossas mentes vivem na tradição. O próprio sentido desta palavra – transmitir como herança – exclui a inteligência. É fácil e cómodo seguir a tradição, seja ela política, religiosa, ou uma "tradição" inventada pela própria pessoa. Não se tem de reflectir sobre ela, nem de a pôr em causa; faz parte da própria tradição aceitar e obedecer. Quanto mais velha é a cultura, mais a mente está presa ao passado, mais vive no passado. O desaparecimento de uma tradição é inevitavelmente seguido pela imposição de outra. Uma mente que tem atrás de si muitos séculos de uma determinada tradição, recusa-se a abandoná-la e só aceita fazê-lo quando a pode trocar por outra igualmente gratificante, igualmente segura.

A tradição em todas as suas múltiplas formas, desde as tradições religiosas às que dizem respeito à escola, tem necessariamente de negar a inteligência. A inteligência é ilimitada, e o conhecimento, por muito vasto que seja, é limitado, como a tradição. Nas nossas escolas, o mecanismo da mente que leva à formação de hábitos deve ser observado, e nessa observação a inteligência torna-se activa.

Faz parte da tradição humana aceitar o medo. Vivemos com medo, tanto a geração mais velha como a mais jovem. A maior parte das pessoas não tem consciência disso e só numa forma ligeira de crise ou perante um incidente perturbador a pessoa se apercebe desse medo permanente. Ele lá está.

Alguns têm consciência dele, outros fazem por ignorá-lo. A tradição diz que se deve controlar o medo, fugir dele, reprimi-lo, analisá-lo, agir sobre ele ou aceitá-lo. Há milénios que vivemos com medo e, decerto modo, conseguimos acomodar-nos a isso. É próprio da tradição actuar sobre ele ou fugir-lhe; ou então aceitá-lo sentimentalmente e esperar que algum agente exterior o faça desaparecer.
As religiões nascem deste medo, e o desejo de poder que impulsiona os políticos dele nasce também. Qualquer forma de domínio sobre os outros é da natureza do medo. Quando um homem ou uma mulher são possessivos em relação a alguém, existe medo no fundo, e este medo destrói toda a forma de relacionamento.

Cabe ao educador ajudar o jovem a encarar o medo – seja do pai, do professor, de um rapaz mais velho, seja o medo de estar só, ou o medo do mundo natural. O que é essencial na compreensão da natureza e da estrutura do medo é encará-lo, não através da cortina das palavras, mas observar o próprio acontecer do medo, sem qualquer movimento para fugir-lhe. Fugir do facto é camuflá-lo.
A nossa tradição e a educação que recebemos levam ao controlo, à aceitação ou então a uma hábil racionalização. Mas, como educadores, podereis ajudar o jovem, e portanto vós próprios também, a encarar cada problema que surja na vida? No acto de aprender não há mestre nem discípulo; há só aprender.
    
Para aprendermos acerca de todo o movimento do medo, temos de o abordar com uma curiosidade que tem a sua vitalidade própria. Como uma criança muito curiosa – nessa curiosidade há intensidade.

O que é tradicional é impor o nosso domínio ao que não compreendemos, subjugá-lo, reprimi-lo, ou então prestar-lhe culto. Tradição é conhecimento, mas o findar do conhecimento é o nascer da inteligência.
Compreendendo então que não há um que ensina e outro que é ensinado, mas apenas o acto de aprender, por parte do adulto e do jovem, poder-se-á, pela percepção directa do que está a acontecer, aprender o que é o medo e tudo o que com ele se relaciona?
Isso é possível se deixar o medo contar a sua história. Escutai-o atentamente, sem qualquer interferência, porque está a contar-vos a história do vosso próprio medo. Quando assim escutardes, descobrireis que esse medo não está separado de vós. Sois esse mesmo medo, essa mesma reacção, como uma palavra que lhe está associada. A palavra não é importante. A palavra é conhecimento, tradição; mas o real, o agora que está a acontecer, é algo totalmente novo.

É a descoberta da nova qualidade do vosso próprio medo. Encarar o facto do medo, sem qualquer movimento do pensamento, é o acabar do medo. E não é qualquer medo particular, mas a própria raiz do medo que é arrancada nesta observação. Não há observador, há só observação.
O medo é algo muito complexo; antigo como os montes, antigo como a humanidade, tem uma história extraordinária para contar. Mas temos de saber a arte de escutá-lo, e nesse escutar há uma grande beleza. Há só o escutar, e a história não existe.

                                                                  
15 Novembro 1978

A palavra responsabilidade precisa ser compreendida em todo o seu significado. Deriva de responder, responder não parcialmente, mas de modo total. Este termo significa também uma resposta dependente de algo anterior, uma resposta de acordo com o nosso fundo cultural e social, o que significa reagir segundo o nosso condicionamento. Da forma como geralmente é compreendida, a responsabilidade reflecte a acção do condicionamento humano de cada um. Naturalmente, a cultura, a sociedade em que se vive, condiciona a mente, quer essa cultura seja a do próprio lugar quer estrangeira. É a partir desse condicionamento que se responde, o que limita a capacidade de resposta. Se se nasceu na Índia, na Europa, na América, ou onde quer que seja, a resposta da pessoa será de acordo com a superstição religiosa- porque todas as religiões são estruturas cheias de superstição- ou de acordo com o nacionalismo, com teorias científicas, etc.

Tudo isso, que sempre é limitado e restrito, condiciona a resposta. Assim, há sempre contradição, conflito e confusão. Isso torna inevitável a criação de divisão entre os seres humanos. E essa divisão, sob qualquer forma, tem necessariamente de produzir, não apenas conflito e violência, mas também, por fim, a guerra.
   
Se compreendermos o verdadeiro sentido da palavra responsável e aquilo que hoje se passa no mundo, podemos perceber que a responsabilidade se tornou irresponsável. E ao percebermos o que é irresponsável, começamos a compreender o que é a responsabilidade. Como fica claro na própria palavra, a responsabilidade é em relação ao todo, e não em relação a si próprio ou à família, ou a alguns conceitos ou crenças, mas a toda a humanidade.

Os vários tipos de cultura que temos têm acentuado a separatividade a que chamamos individualismo e como resultado cada um faz o que lhe apetece, ou é absorvido pelo seu pequeno talento particular, por muito proveitoso ou útil que tal talento possa ser à sociedade. Mas não quer isso dizer, como os totalitaristas querem fazer crer, que só o Estado e as autoridades que o representam são importantes, ao invés dos seres humanos. O Estado é um conceito, mas um ser humano, muito embora possa constar dos quadros do Estado, não é um conceito.
    
 Psicologicamente, um ser humano é toda a humanidade. Não só a representa como é de facto toda a espécie humana; na sua essência, ele é toda a psique da humanidade.
Mas várias culturas têm sobreposto a esta realidade a ilusão de que cada ser humano é diferente. E há séculos que a humanidade se vê aprisionada desta ilusão, ilusão que se tornou realidade. Mas se cada um observar atentamente toda a estrutura psicológica de si mesmo, verá que tal como ele sofre, assim também, em diversos graus, toda a humanidade sofre. Se vos sentis só, toda a humanidade conhece também essa solidão. A angústia, o ciúme, a inveja e o medo são conhecidos de todos. Assim, psicologicamente, interiormente, cada um de nós é como os outros seres humanos. Podem existir diferenças de ordem física, biológica. É-se alto ou baixo, e assim por diante, mas basicamente cada um representa toda a humanidade. Assim, psicologicamente, sois o mundo; sois responsáveis por toda a humanidade, e não só por vós como seres humanos separados, o que é uma ilusão psicológica.
   
Quando compreendemos que representamos toda a espécie humana, a nossa resposta é total e não parcial. Então a responsabilidade possui um sentido completamente diferente. Temos de aprender a arte desta responsabilidade. Se compreendemos plenamente que cada um, psicologicamente, é o mundo, então a responsabilidade torna-se amor a que nada resiste. Então cuidamos da criança não só enquanto ela é pequenina, mas procuramos que pela vida fora compreenda o sentido da responsabilidade.

Esta arte inclui a conduta, o modo como pensamos, e a acção correcta, que é tão importante. Nestas nossas escolas, não damos importância apenas às matérias escolares, embora elas sejam necessárias; o sentido de responsabilidade, para com a terra, para com a natureza, para com os outros seres humanos, faz parte da nossa educação.  Podemos então perguntar que é que o professor está a ensinar e que é que o aluno está a receber; e, de modo mais geral- que é aprender? Qual é a função do educador? Será só ensinar álgebra, física, etc., ou será despertar no estudante- e portanto em si mesmo- este grande sentido de responsabilidade? As duas coisas- a aprendizagem das matérias escolares, necessárias para uma profissão, e esta responsabilidade para com toda a humanidade e para com toda a vida- poderão andar juntas? Ou deverão estar separadas? Se as separamos, então haverá contradição na vida do aluno; Haverá hipocrisia e, inconsciente ou deliberadamente, o jovem repartirá a sua vida em dois compartimentos estanques. A humanidade vive nesta divisão. Em casa  é-se de uma certa maneira , e na fábrica ou no escritório assume-se uma face diferente. Perguntamos pois se as duas coisas podem andar juntas. Será possível?

Quando se põe uma questão desta espécie, o que é preciso é investigar as suas implicações em vez de responder se é ou não possível. Assim, é da maior importância o modo como abordais a questão. Se a abordais a partir do vosso condicionamento, que é limitador como todo o condicionamento, então só haverá uma apreensão parcial das implicações de tudo isto. Tereis de abordar a questão com um espírito novo. Descobrireis então a futilidade da própria questão, porque quando a abordamos com um espírito novo, vemos que as duas coisas se encontram, como dois cursos de água que se fundem num rio imenso que é a nossa vida, a nossa vida quotidiana de uma responsabilidade total.

É isto que estais a ensinar, compreendendo que o professor tem uma profissão de importância fundamental?

Tudo isto não é só uma questão de palavras; é uma realidade permanente que não deve ser desprezada. Se não sentis a verdade disto, então deveríeis realmente exercer outra profissão. E vivereis então na ilusão que a humanidade cria para si própria.

Podemos então perguntar, de novo: que estais a ensinar e que está o aluno a aprender? Criareis aquela atmosfera especial em que acontece uma verdadeira aprendizagem? Se compreendeis a imensidade da responsabilidade e toda a sua beleza, então assumis inteiramente a responsabilidade pelo aluno- o que ele come, a roupa que veste, a sua maneira de falar, e assim por diante.

Desta questão surge ainda outra: que é aprender? A maior parte de nós, provavelmente, nem mesmo faz esta pergunta ou, se a faz, responde segundo a tradição, que aprender é acumular conhecimentos, conhecimentos de que nos servimos com maior ou menor capacidade, para ganhar a vida. É isso o que se ensina, é para isso que todos os colégios e universidades, todas as escolas tradicionais existem. O conhecimento tem o lugar predominante, o que constitui um dos nossos maiores condicionamentos, e desse modo o cérebro nunca se liberta do conhecido. Está sempre a acrescentar ao que já se conhece. E assim é metido na estrutura rígida do conhecido e nunca está livre para descobrir uma maneira de viver que não se baseie no conhecido. O conhecido leva a um caminho já percorrido, seja estreito ou largo, e fica-se nessa rotina, pensando que nela há segurança. Porém, essa segurança é destruída pelo próprio conhecido, que é sempre limitado. Tal tem sido até agora, o curso da vida humana.

 Haverá então um modo de aprender que não transforma a vida numa rotina, num caminho estreito? Que é então aprender?
    
Temos de perceber com muita clareza os mecanismos do conhecimento: primeiro adquirir conhecimento, e depois agir a partir desse conhecimento- tecnológico ou psicológico- ou então agir, e a partir da acção adquirir conhecimento. Em ambos os casos há aquisição de conhecimento.

O conhecimento é sempre o passado. Existirá um outro modo de agir, sem o enorme peso do conhecimento acumulado pelo homem? Existe. Não é o aprender que conhecemos; é a observação pura que não é uma observação contínua e que então se torna memória, mas uma observação de momento a momento.

O observador, (o eu) é a essência do conhecimento e impõe àquilo que observa o que adquiriu através da experiência e de várias formas de reacção sensorial. O observador está constantemente a manipular aquilo que observa, e aquilo que observa é sempre reduzido a conhecimento. Assim, está sempre prisioneiro da velha tradição de formar hábitos.

Aprender é pois uma observação pura- não só das coisas exteriores a nós, mas também do que está a acontecer interiormente, é observar sem o observador.


1 Dezembro 1978

Todo o movimento da vida consiste em aprender. Não há tempo nenhum em que não haja aprendizagem. Toda a acção compreende esse movimento do aprender e toda a relação consiste em aprendizagem. A acumulação de conhecimentos a que se chama aprender, à qual estamos tão acostumados é necessária num campo restrito, mas é uma limitação que nos dificulta a compreensão de nós mesmos.

O conhecimento é mensurável- podemos ter mais ou menos conhecimento- mas no aprender não há medida. È verdadeiramente importante que percebamos isso, especialmente se quisermos compreender todo o significado de uma vida religiosa. O conhecimento é memória mas, se tiverem observado o real, o agora não é memória. Na observação não há lugar para a lembrança; o real é o que está a acontecer no momento. Um segundo mais tarde torna-se mensurável e estático; isso é característico da memória.

Para podermos observar o movimento de um insecto precisamos de atenção- isso se estivermos interessados em observar o insecto, ou outra coisa qualquer. Essa atenção, (ao contrário da memória) não é mensurável nem limitada. Mas faz parte da responsabilidade do educador compreender toda a estrutura da memória, observar aquilo que ela tem de limitador, e auxiliar o jovem a perceber isso tudo.

Aquilo que aprendemos é colhido nos livros ou junto de algum professor com bastante informação sobre determinado assunto e os nossos cérebros ficam cheios com essa informação. Informação acerca das coisas, acerca da natureza, acerca de tudo o que é exterior a nós, e quando queremos aprender acerca de nós mesmos é ainda para os livros que nos voltamos, de modo que esse processo continua interminavelmente enquanto nos vamos tornando seres humanos de segunda mão; trata-se de um facto que podemos observar por todo o mundo, e a nossa educação moderna consiste nisso.
O acto de aprender, como dissemos, é um acto de observação pura, mas esta observação não está sujeita aos limites da memória. Aprendemos a ganhar a vida, mas nunca chegamos a viver. A actividade de ganhar a vida ocupa a maior parte da nossa existência; dificilmente nos sobra tempo para outras coisas. Conseguimos dispor de tempo para falar sobre futilidades, para jogar, para nos divertirmos, mas isso não é viver. Há todo um campo- o da verdadeira vida- que é totalmente esquecido.

Para aprendermos a arte de viver  precisamos de dispor de tempo. A expressão "disponibilidade de tempo" é muito mal compreendida, como tivemos ocasião de referir na nossa terceira carta. Geralmente significa não estarmos ocupados com as coisas que somos obrigados a fazer, como ganha r a vida, ir para o escritório, para a fábrica, etc., e só quando isso acaba ficamos "disponíveis". Durante esse tempo "disponível", as pessoas querem divertir-se, descontrair-se, fazer coisas que realmente gostam ou  que necessitam do máximo da sua capacidade. Ganhar a vida- seja o que for que se faça- está em oposição ao que se chama "tempo disponível". De modo que sempre resulta esforço, tensão, e fuga a essa tensão, e o "tempo disponível" passa a ser aquele em não estamos sujeitos a esse constrangimento. Pega-se então num jornal, abre-se um romance, conversa-se, joga-se, etc. Este é o facto real. É o que acontece por toda a parte. "Ganhar a vida" constitui a negação da vida.

Chegamos assim à questão: o que é a disponibilidade? Em que consiste realmente um tempo disponível? Tal como é entendido, é uma pausa na pressão da vida quotidiana. Geralmente consideramos essa pressão de ganhar a vida, ou qualquer outra pressão que nos seja imposta, como uma ausência de tempo disponível mas, consciente ou inconscientemente, há em nós uma pressão muito maior, a do desejo, de que trataremos mais tarde.

A escola é um lugar de disponibilidade. Só quando temos disponibilidade podemos aprender. Isto é, a aprendizagem só pode acontecer quando não sofremos nenhuma espécie de pressão. Quando nos vemos em face de uma serpente ou um perigo qualquer, há uma determinada aprendizagem, devida à pressão criada pelo facto desse perigo. Aprender sob essa pressão é cultivar a memória, que ajudará a reconhecer perigos futuros, mas essa aprendizagem torna-se, assim, uma resposta mecânica.

A aprendizagem implica que a mente não se ache ocupada. Só então existe um estado de aprender. A escola é um espaço de aprendizagem e não apenas um lugar em que devemos acumular conhecimentos. È realmente importante compreender isto.
Como dissemos, o conhecimento é necessário e tem o seu lugar na vida, um lugar limitado. Infelizmente, este campo limitado devora todas as nossas vidas e não nos sobra espaço para aprender. Ficamos tão ocupados a ganhar a vida que isso nos absorve toda a energia do mecanismo do pensamento, de tal modo que no final do dia estamos exaustos e precisamos de estímulos. Restabelecemo-nos dessa exaustão por meio de entretenimentos, tanto "religiosos" como outros. É esta a vida dos seres humanos. Criam uma sociedade que exige todo o seu tempo, todas as suas energias, toda a sua vida. Não há disponibilidade para aprender, e assim a existência torna-se mecânica e quase destituída de sentido.

Temos pois de compreender com muita clareza que a palavra disponibilidade implica um tempo, um período, em que a mente não esteja ocupada com o que quer que seja.  Um tempo de observação. Só a mente não ocupada pode observar. Uma observação livre constitui um movimento de aprendizagem. Isto impede que a mente se torne mecânica.

Poderá então o professor, o educador, ajudar o estudante a compreender todo esse problema de "ter de ganhar a vida", com as suas enormes pressões- estudar para arranjar um emprego, com todos os medos, ansiedades e receio do amanhã? Se o próprio professor compreender a natureza da disponibilidade e da observação pura- de tal modo que "ganhar a vida" não seja para si uma tortura, uma ansiedade, ao longo da existência- pode ajudar o aluno a ter uma mente que não seja mecânica.
Contribuir para o desabrochar da bondade, com plena disponibilidade , constitui a absoluta responsabilidade do educador. È para isso que estas escolas existem. Cumpre ao educador criar uma nova geração, para que a estrutura social seja transformada de modo que "ganhar a vida" deixe de ser uma preocupação exclusiva. Educar será então um acto sagrado.


15 de Dezembro de 1978

Numa das últimas cartas referimos que a responsabilidade total é amor. Essa responsabilidade não é em relação a uma determinada nação, a um certo grupo, a uma comunidade, a uma divindade particular, a qualquer forma de programa político ou a um instrutor espiritual ou "guru", mas em relação a toda a humanidade. É preciso sentir e compreender isto profundamente, e isso faz parte da responsabilidade do educador.

Quase todos nós nos sentimos responsáveis pela nossa família, pelos filhos, etc., porém, não nos sentimos implicados nem empenhamento com relação ao meio social, em relação à natureza, ou completamente responsáveis pelos próprios actos. Esse empenhamento absoluto significa amor. E sem esse amor a sociedade não poderá nenhuma transformação verdadeira.
Muito embora os idealistas possam amar o seu ideal e os seus conceitos, não têm conseguido criar uma sociedade radicalmente diferente. Nem os "revolucionários", nem os terroristas alguma vez transformam de forma fundamental o modelo das nossas sociedades. Os revolucionários que usam a violência física falam em liberdade para todos através da formação de uma nova sociedade, mas toda a sua linguagem e slogans que usam deformam ainda mais a mente e a existência. O que fazem é desvirtuar as palavras a fim de as adaptar ao seu limitado ponto de vista.

Nenhuma forma de violência poderá trazer à sociedade uma mudança verdadeiramente fundamental. Certos governantes carismáticos, apoiados pela autoridade de uma minoria, instauram determinada "ordem" na sociedade. Os regimes totalitários também têm estabelecido uma aparência de ordem artificial, por meio da violência e da tortura. Porém, não é a essa "ordem" social que estamos a referir-nos.
Estamos a acentuar de forma directa que somente uma responsabilidade total pela humanidade inteira - responsabilidade essa que é amor- poderá transformar radicalmente o estado actual da sociedade.

Os sistemas existentes nas mais diversas partes do mundo- sejam eles quais forem- são corruptos, degenerados, e completamente imorais. Basta olharmos em redor para percebermos esse facto. Por todo o mundo gastam-se milhões e milhões em armamento, e todos os políticos falam de paz, ao mesmo tempo que preparam a guerra. As religiões têm proclamado constantemente a santidade da paz, mas têm fomentado guerras e formas subtis de violência e tortura. Existem inúmeras divisões e seitas possuidoras dos seus sacerdotes, os seus rituais e todas as coisas absurdas que têm sido perpetradas em nome de Deus e da religião. Onde houver divisão terá de haver desordem, luta e conflito- quer político, quer religioso, económico, etc. A nossa sociedade moderna está baseada na avidez, na inveja e no poder.

   Quando percebemos isso tudo como um facto- esta comercialização dominadora- isso torna-se indicador de uma degradação e uma imoralidade de base. E faz parte da responsabilidade do educador alterar radicalmente o nosso padrão de vida- o que constitui o fundamento de toda a sociedade. Os seres humanos estão a destruir a terra e todas as coisas que nela existem, por uma questão de simples gratificação.

A educação não consiste em ensinar apenas as várias disciplinas escolares mas em desenvolver no jovem o sentido da responsabilidade total. Nem sempre o educador compreende que educar significa fazer surgir uma nova geração. Na sua maior parte, as escolas têm apenas a preocupação de transmitir conhecimentos e não estão de forma nenhuma empenhadas na transformação do homem nem na sua vida quotidiana, e vocês que são educadores nestas escolas precisam sentir esse profundo empenho e uma atenção afectuosa dessa responsabilidade total. De que modo, então, poderão ajudar o jovem a sentir essa qualidade de amor, com toda a sua beleza? Se vocês próprios não a sentirem com profundidade, então falar de responsabilidade não fará qualquer sentido. Será que, como educadores, sentem a verdade de tudo isso?

Compreender essa verdade criará naturalmente esse amor e essa responsabilidade total. Têm de reflectir nisso, observá-lo diariamente na vossa vida, na relação com a vossa mulher, com os vossos amigos e com os vossos alunos. Ao relacionarem-se, desse modo, com os alunos, não poderão deixar de falar disso com o coração- sem procurar apenas a clareza verbal. Ser sensível a essa realidade constitui o maior dom que o homem pode ter, e uma vez acesa a chama, poder-se-á encontrar a palavra correcta, a acção adequada, a conduta justa.

Quando observardes o aluno, vereis que ele vos chega sem a menor preparação para tudo isto. Geralmente vem amedrontado, nervoso, ansioso por agradar, ou então na defensiva, condicionado pelos pais ou pela sociedade em que tem vivido os seus poucos anos. Tendes de perceber essas influências sociais e culturais, tendes de estar atentos, cada um de vós, ao que realmente é, sem lhe impor as vossas próprias opiniões, conclusões e juízos. A compreensão do que ele é revelará o que sois, e assim aperceber-vos-eis de que o aluno não é diferente de vós.

E então, ao mesmo tempo que ensinais matemática, física, etc.- que o jovem precisa saber para poder ganhar a vida- podereis ajudá-lo a compreender que é responsável por toda a humanidade? Embora ele venha a trabalhar para a sua própria profissão, para o seu próprio modo de vida, isso não lhe tornará estreita a mente. Perceberá o perigo do confinamento da especialização, com todas as suas limitações e a sua estranha desumanização. Tendes de o ajudar a perceber tudo isso.

O desabrochar do bem, da bondade profunda, não consiste em saber matemática e biologia ou em passar nos exames e ter uma carreira cheia de sucesso. Está fora de tudo isso, e quando esse desabrochar acontece, a profissão e todas as outras actividades necessárias são tocadas pela sua beleza. Actualmente dá-se importância apenas a um aspecto enquanto o desabrochar é inteiramente esquecido. Nestas escolas estamos a tentar reunir as duas coisas, não artificialmente, não como um princípio ou um modelo que se segue, mas porque percebemos a verdade fundamental de que elas devem fazer-se em confluência, para que o homem possa regenerar-se.

Podereis fazer isso?- não porque todos estejam de acordo a esse respeito, depois de discutido o assunto e de  terdes chegado a uma conclusão, mas porque cada um de vós percebe interiormente a extraordinária gravidade de tudo isto: percebe-o por si próprio. Então, o que cada um de vós disser terá verdadeiramente sentido. Então, cada um de vós torna-se centro de uma luz que não foi acesa por outrem.

Como cada um de vós é a humanidade- o que é uma realidade e não uma simples afirmação verbal- cada um de vós é inteiramente responsável pelo futuro do homem. Mas não deveis considerar isto como um fardo. Se o fizerdes, esse "fardo" será só uma série de palavras sem qualquer realidade. Será uma ilusão. Esta responsabilidade possui a sua própria alegria, o seu humor, o seu movimento próprio, destituído do peso do pensamento.


1 de Janeiro de 1979

Dado que estamos interessados em educação, há dois factores em que precisamos reparar a todo o momento. Um é o empenhamento e o outro a negligência.
Quase todas as religiões têm falado da actividade da mente- que deverá ser controlada, moldada segundo a vontade de Deus ou de algum agente exterior; a devoção a uma divindade, criada pela mão do homem ou pela sua mente, exige uma certa espécie de atenção em que a emoção, o sentimento e a imaginação romântica estão implicados. Tudo isso faz parte da actividade da mente que perfaz o pensamento.

A palavra empenhamento implica interesse, atenção cuidadosa, observação e um profundo sentido de liberdade. A devoção a um objecto, a uma pessoa ou princípio nega essa liberdade. O empenhamento é uma atenção que origina, de forma natural, um cuidado infinito e um interesse que comporta toda a frescura da afeição. E tudo isso obriga a uma grande sensibilidade.

Somos sensíveis aos nossos próprios desejos e feridas psicológicas, somos sensíveis a determinada pessoa ao repararmos no que ela deseja e respondermos rapidamente às suas necessidades; mas esta espécie de sensibilidade é muito limitada e dificilmente poderá ser considerada como tal. A sensibilidade de que estamos a tratar surge naturalmente quando surge essa responsabilidade total do amor. E o empenhamento, a atenção, possuem essa sensibilidade.

A negligência é indiferença e indolência; indiferença para com o nosso organismo físico, para com o nosso estado psicológico e também para com os outros. Na indiferença há insensibilidade: a mente torna-se indolente, a actividade do pensamento diminui, deixa de haver percepção imediata e a sensibilidade passa a ser algo que a pessoa não entende.

Quase todos sentimos empenhamento em determinadas circunstâncias, mas a maior parte das vezes somos negligentes. O empenho e a negligência realmente não representam opostos. Se o fossem, esse empenho ainda equivaleria a negligência. Da negligência poderá resultar algum empenho? Se assim for, este ainda fará parte da negligência e por conseguinte não representará um verdadeiro empenho.
Geralmente as pessoas são empenhadas, diligentes, quando isso envolve o seu interesse pessoal, quer este se identifique com a família, com um grupo particular, com uma seita ou uma nação. Mas esse interesse egocêntrico carrega em si  o germe da negligência, embora denote uma constante preocupação consigo próprio. Essa preocupação é restrita, e por isso é negligência. Uma tal preocupação representa energia confinada a limites estritos.
                           
O verdadeiro empenhamento liberta da preocupação egocêntrica e é fonte de grande energia. Quando se percebe em profundidade a natureza da negligência, o empenhamento surge sem qualquer esforço. Quando isso é plenamente entendido -- sem nos contentarmos com as definições verbais da negligência e do empenhamento, então o nosso pensamento, a nossa acção, a nossa conduta manifestam a mais elevada qualidade. infelizmente, porém, nunca chegamos a exigir de nós próprios essa elevada qualidade de pensamento, de acção, de conduta.

Dificilmente chegamos a desafiar-nos a nós próprios, mas se alguma vez o fazemos, encontramos várias desculpas para a escusa de uma resposta completa. Não indicará isso uma indolência por parte da mente, uma fraca actividade do pensamento? É natural que o corpo sinta preguiça, mas não a mente, com toda a vivacidade do pensamento e toda a sua subtileza. A indolência do corpo é fácil de compreender: pode dever-se ao excesso de trabalho, ao abuso dos prazeres, a uma prática exagerada de desporto. O corpo tem então necessidade de repouso, o que poderá ser considerado preguiça, embora não o seja.

A mente atenta, vigilante, sensível, sabe quando o organismo carece de repouso e de cuidados. Nestas nossas escolas é importante compreender que essa energia que é o empenhamento necessita de alimentação, de exercícios adequados e de sono suficiente. O hábito -- a rotina -- do pensamento, da acção, da conduta, é inimiga do empenhamento. O pensamento cria o seu próprio esquema e vive nele. Quando essa estrutura é posta em causa, o pensamento ou ignora o desafio ou cria outro esquema que lhe dê segurança. É este o movimento que caracteriza o pensamento -- passar de um esquema para outro, de uma conclusão para outra, de uma crença para outra. É nisso exactamente que reside a negligência do pensamento.

A mente verdadeiramente empenhada, atenta, não é prisioneira do hábito; não tem esquemas nem padrões de resposta. É um movimento interminável que jamais se transforma em hábito, que não se transforma em conclusões. É movimento caracterizado por grande dimensão e profundidade, quando a negligência do pensamento não lhe impõe barreiras.

Como estamos empenhados em educar, de que modo poderá o professor fazer compreender em que consiste tal empenho prenhe de sensibilidade e de atenção pelo outro, onde não há lugar para a indolência da mente? Subentende-se, evidentemente, que o educador está extremamente interessado neste problema e que compreende o quanto o empenhamento é importante pela vida fora. Se assim for, de que modo irá cultivar essa flor do empenhamento? Interessa-se profundamente pelos alunos? Assume de facto inteira responsabilidade por esses jovens que se encontram a seu cargo? Ou estará apenas a ganhar a vida, forçado pela insuficiência dos seus fracos recursos?

Conforme salientamos em cartas anteriores, educar consiste na mais elevada capacidade do homem. Estais em face dos alunos. Ficareis indiferentes a isso? Será que as dificuldades da vossa vida particular consomem a vossa energia? Carregar problemas psicológicos de uma dia para o seguinte consiste numa tremenda perda de tempo e de energia, e sinal de negligência. Uma mente profundamente atenta e empenhada encara o problema logo que ele surge, observa-lhe a natureza que tem e resolve-o de imediato. Arrastar um problema psicológico não ajuda a resolvê-lo. Representa um desperdício de energia e um desgaste da mente. Quando se encara os problemas à medida que eles surgem, descobre-se então que eles deixam completamente de existir.

Precisamos, pois, de voltar à pergunta: Como educadores, nestas ou em quaisquer outras escolas, podereis cultivar esse profundo empenhamento? Porque só assim poderá o bem desabrochar. Nisso reside a responsabilidade total de que não se poderão alhear, que comporta esse amor que sabe como encontrar naturalmente o modo de ajudar o jovem.

(continua)
Tradução: Maria Beatriz Branco


SEGUNDA PARTE
Escutar o silêncio e mover-se com ele

Como já assinalamos, estamos profundamente envolvidos na nossa vida diária como educadores e seres humanos. Nós somos seres humanos primeiro e depois educadores: não o inverso. Como ser humano, investidos com a especial profissão de educar, a vida do professor não ocorre somente na sala de aula, mas está envolvida com a totalidade do mundo externo, assim como com as próprias lutas internas, as ambições e os relacionamentos. Ele acha-se tão condicionado quanto o estudante. Embora o seu condicionamento, como professor, possa ser de natureza diversa, ainda assim trata-se dum condicionamento. Se o aceitarmos como inevitável e nos deixarmos levar por ele, então, além disso, estaremos condicionando os outros. Existem muitas pessoas que aceitam isso, e procuram modificar as suas limitações, mas como educadores vocês estão interessados - não estão mesmo? - em produzir uma entidade social diferente; uma geração futura que perceba a futilidade das guerras e do assassínio organizado; uma geração que esteja interessada num relacionamento global, destituído de todo o isolamento nacionalista; uma geração que esteja envolvida com a verdade. Certamente essa é a função de um verdadeiro educador. 

A consciência humana acha-se condicionada. Qualquer indivíduo sensato aceitará o fato, mas muitos de nós não estamos conscientes disso e talvez nem sequer o educador. Uma das funções de um professor é dar-se conta de seu condicionamento e investigar se é possível ficar livre de suas limitações. Assim temos que entrar nessa questão do que é perceber, concentrar, dar atenção total. É muito importante entender o significado dessas coisas. 

 Percepção implica sensibilidade: ser sensível à natureza, às colinas, aos rios e às árvores que estão ao nosso redor; perceber aquele pobre homem que desce a estrada - ser sensível aos sentimentos, às reacções, à espantosa e degradante pobreza dele; ser sensível ao homem que está sentado perto de nós, ou ser sensível ao nervosismo de seu amigo ou irmã. Essa sensibilidade em si mesma não tem escolha; não é crítica. Não comporta avaliação de juízo. Somos sensíveis àquela nuvem; não podemos impedir isso. Mas essa sensibilidade resultará do tempo ou da prática? Se admitirmos pensamento ou prática, então esse mesmo pensamento e prática destroem a sensibilidade. Aprendam a observar com sensibilidade; aprendam o que significa sensibilidade; captem isso ao invés de cultivá-lo. Não perguntem como captar isso; captem isso. Na própria percepção vocês tornam-se sensíveis. Não há resistência na sensibilidade. A sensibilidade para com o imediato e para com o que não tem limite.
 
A concentração é um processo de resistência. Todo educador sabe o que significa concentrar. O educador está preocupado em encher o cérebro com conhecimento de várias matérias para que o estudante passe nos exames e arranje um emprego. O estudante também tem isso em mente. O educador e o estudante encorajam um ao outro na forma de resistência que é concentração. Assim a pessoa está construindo a capacidade de resistir, de excluir, e gradualmente se torna isolado. Concentração é o focar da própria energia no quadro-negro ou em um livro e evitar distração. A própria palavra distração implica concentração. Na verdade não existe distração. Há apenas resistência que é chamada de concentração e qualquer movimento que nos distancia disso é considerado distração. Assim nisso há conflito, luta e resistência. Essa resistência vai inevitavelmente produzir a limitação do cérebro, o que é o nosso condicionamento. Perceber todo esse movimento com sensibilidade é mover-se em uma área diferente - que é ser atento.

O que é isso: ser atento? Se realmente compreendemos o significado da sensibilidade, da percepção, da limitação da concentração - não intelectualmente ou verbalmente - mas a realidade desses estados, então podemos perguntar o que é ser atento. Atenção envolve ver e ouvir. Ouvimos não só com nossos ouvidos mas também somos sensíveis às tonalidades do som, à voz, às implicações das palavras - ouvir sem interferência, captar instantaneamente a profundidade de um som. O som tem um papel extraordinário nas nossas vidas: o som de um trovão, uma flauta tocada à distância, o som inaudível do universo; o som do silêncio, o som da própria batida do coração; o som de um pássaro e o som de um homem andando no asfalto; a cachoeira. O universo é cheio de som. O som tem o seu silêncio próprio; todas as coisas vivas estão envolvidas nesse som do silêncio. Estar atento é ouvir esse silêncio e mover com ele. 
        
Concentração é o processo de resistência. Todo educador sabe o que significa concentrar. O educador está preocupado em encher o cérebro com conhecimento de várias matérias para que o estudante passe nos exames e arranje um emprego. O estudante também tem isso em mente. O educador e o estudante encorajam um ao outro na forma de resistência que é concentração. Assim a pessoa está construindo a capacidade de resistir, de excluir, e gradualmente se torna isolado. Concentração é o focar da própria energia no quadro-negro ou em um livro e evitar distração. A própria palavra distração implica concentração. Na verdade não existe distração. Há apenas resistência que é chamada de concentração e qualquer movimento que nos distancia disso é considerado distração. Assim nisso há conflito, luta e resistência. Essa resistência vai inevitavelmente produzir a limitação do cérebro, o que é o nosso condicionamento. Perceber todo esse movimento com sensibilidade é mover-se em uma área diferente - que é ser atento. 

O que é isso: ser atento? Se realmente compreendemos o significado da sensibilidade, da pecepção, da limitação da concentração - não intelectualmente ou verbalmente - mas a realidade desses estados, então podemos perguntar o que é ser atento. Atenção envolve ver e ouvir. Ouvimos não só com nossos ouvidos mas também somos sensíveis às tonalidades do som, à voz, às implicações das palavras - ouvir sem interferência, captar instantaneamente a profundidade de um som. O som tem um papel extraordinário nas nossas vidas: o som de um trovão, uma flauta tocada à distância, o som inaudível do universo; o som do silêncio, o som da própria batida do coração; o som de um pássaro e o som de um homem andando no asfalto; a cachoeira. O universo é cheio de som. O som tem o seu silêncio próprio; todas as coisas vivas estão envolvidas nesse som do silêncio. Estar atento é ouvir esse silêncio e mover com ele.

Ver é um negócio muito complexo. Vemos casualmente com nossos olhos e rapidamente passamos adiante, nunca enxergando os detalhes de uma folha, sua forma e estrutura, suas cores, a variedade de verdes. Observar uma nuvem com toda a luz do mundo nela, acompanhar um riacho borbulhando ao descer a colina, olhar para o seu amigo com a sensibilidade na qual não há resistência e ver a si mesmo como você é sem as sombras da negação ou da aceitação fácil; ver a si mesmo como parte do todo, ver a imensidão do universo - isso é observação: ver sem a sombra de si mesmo.           

Atenção é esse ouvir e esse escutar, e essa atenção não tem limitação, não tem resistência, assim ela é sem limite. Estar atento implica essa vasta energia: ela não está fixada em um ponto. Nessa atenção não há movimento repetitivo; não é mecânico. Não há questão de como manter essa atenção, e quando a pessoa aprende essa arte de ver e ouvir, essa atenção pode focar a si mesma em uma página, em uma palavra. Nesse sentido não há resistência, que é a atividade da concentração. A desatenção não pode ser refinada em atenção. Dar-se conta da desatenção é o fim dela: não que ela se torne atenta. O fim não tem continuidade. O passado modificando a si próprio é o futuro - a continuidade do que tem sido -  e encontramos segurança na continuidade, não nos términos. Assim a atenção não tem a qualidade de continuidade. Qualquer coisa que continua é mecânica. O vir-a-ser é mecânico e implica tempo. A atenção não tem qualidade de tempo. Tudo isso é uma questão tremendamente complicada. Devemos gentilmente e profundamente entrar nisso. 

Que Coisa é Aprender
 
Pela observação talvez se aprenda mais do que pelos livros. Os livros são necessários para aprendermos sobre determinado assunto, seja matemática, geografia, história, física ou química. Nas páginas dos livros vem impresso o conhecimento acumulado pelos cientistas, filósofos, arqueólogos, etc. Esse conhecimento que se aprende na escola, no colégio ou na universidade - se tivermos a sorte de ir para a universidade - tem vindo a ser acumulado através das eras, desde a antiguidade. Existe uma grande quantidade de conhecimento proveniente da Índia, do antigo Egipto, Mesopotamia, dos Gregos, dos Romanos e, naturalmente, dos Persas. Tanto no mundo ocidental, como do mesmo modo, no mundo oriental, esse conhecimento é necessário para podermos ter uma carreira, para se fazer qualquer trabalho, seja mecânico, teórico, prático ou alguma coisa que se conceba ou invente. Esse conhecimento, especialmente no último século, originou o aparecimento da tecnologia. Existe o conhecimento dos assim chamados livros sagrados- os Vedas, os Upanishades, a Bíblia, o Corão e as Escrituras Hebraicas. Assim existem os livros religiosos e os livros pragmáticos, livros que irão ajudar a pessoa a obter conhecimento e habilidade, seja um engenheiro, um biólogo ou um carpinteiro.

A maioria das pessoas, em quaisquer escolas, e particularmente nestas escolas, adquirem conhecimento e informação, e para esse fim é que as escolas têm existido até agora: para se adquirir uma grande quantidade de informação sobre o mundo lá fora, sobre os céus, por que o mar é salgado, por que as árvores crescem, sobre os seres humanos e a sua anatomia, a estrutura do cérebro, etc. E também sobre o mundo ao redor, a natureza, o ambiente social, a economia e muito mais. Tal conhecimento é absolutamente necessário, porém, o conhecimento é sempre limitado. Não importa quanto ele possa evoluir, adquirir conhecimento é um processo sempre limitado. Aprender é parte do adquirir conhecimento sobre vários assuntos, de forma que  possamos ter uma carreira, um trabalho que possa agradar-nos, ou um trabalho que as circunstâncias, as exigências sociais nos  forçam a aceitar, embora  possamos não gostar muito desse tipo de trabalho.

Como dissemos, aprendemos muito pela observação, observar as coisas por perto, observar os pássaros, a árvore, observar os céus, as estrelas, a constelação de Órion, a Ursa Maior, a estrela Vespertina. Aprendemos apenas pelo observar, não somente as coisas ao redor, mas pela observação das pessoas, como elas caminham, os seus gestos, os termos que empregam, como se vestem. Você não observa apenas o que está do lado de fora, mas observa a si mesmo, por que pensa isto ou aquilo, o seu comportamento, como se conduz na vida quotidiana, por que seus pais querem você que faça isso ou aquilo. Você está observando, não resistindo. Se resiste, você não aprende. Ou se você chega a algum tipo de conclusão, a alguma opinião que pensa que seja correcta e se agarra a isso, então, naturalmente, você nunca irá aprender. A liberdade é necessária para aprendermos, assim como a curiosidade, um sentimento de querer saber por que você e os outros se comportam de uma certa maneira, por que as pessoas se tornam enfurecidas, por que você fica chateado.

Aprender é extraordinariamente importante porque é um processo que não tem fim. Aprender, por exemplo, por que os seres humanos se matam uns aos outros. Claro que os livros contêm explicações e razões psicológicas para o facto dos seres humanos se comportarem de uma determinada maneira, para o facto de serem violentos, etc. Tudo isso tem sido explicado em livros de todo o tipo por eminentes autores, psicólogos, etc. Mas o que lemos neles não é aquilo que somos. Aquilo que nós somos, o jeito como nos comportamos, por que nos enfurecemos,  sentimos inveja, por que ficamos deprimidos; se  nos observarmos a nós mesmos, aprenderemos muito mais do que a partir dos livros que nos dizem o que somos. Mas vejam, é mais fácil ler um livro sobre si mesmo que observar a si mesmo. O cérebro está acostumado a colher informação sobre a natureza de toda as acção e reacção externa. Não será muito mais confortável ser dirigido, as outras pessoas nos digam o que deve ser feito? Os seus pais, especialmente no Oriente, dizem-vos com quem vocês devem  casar e arranjam o casamento, dizem-vos que carreira  devem seguir, etc. Assim o cérebro aceita sempre o modo mais fácil, mas o  "mais fácil" nem sempre é o certo. Eu  questiono-me se vocês notam que  ninguém ama o trabalho que faz, excepto, talvez, uns poucos cientistas, artistas, arqueólogos. Mas a pessoa comum raramente ama aquilo que faz. Ela é compelida pela sociedade, pelos pais ou pelo impulso de adquirir mais dinheiro. Assim, por meio de uma observação bastante cuidadosa, aprendam com relação ao mundo externo, o mundo exterior a vocês, e o mundo interior, ou seja, o vosso próprio mundo.              

Parece que existem duas maneiras de aprender: uma é adquirindo uma enorme quantidade de conhecimento, primeiro por meio dos estudos e então agindo a partir daquele conhecimento. Isso é o que a maioria das pessoas faz. A segunda é agir, fazer alguma coisa e aprender através desse fazer, e isso também se torna uma forma de acumulação de conhecimento. Naturalmente, os dois modos referem o mesmo: aprender de um livro é a mesma coisa que adquirir conhecimento através da acção. Ambas são baseadas no conhecimento, na experiência e, como dissemos, experiência e conhecimento são sempre limitados.

Assim tanto o educador quanto o estudante deveriam descobrir o que é de fato aprender. Por exemplo, você aprende com um guru, se ele for sensato e correcto, e não um oportunista à cata  de dinheiro, não um desses que querem ser famosos e correr o mundo para fazer fortuna por meio da propagação de teorias meio desequilibradas. Descubram o que é aprender. Hoje em dia o aprender está a tornar-se cada vez mais uma forma de entretenimento. Em algumas escolas ocidentais, quando eles acabam a escola primária, ou a secundária, os estudantes nem mesmo sabem ler ou escrever. E se sabem e foram capazes de aprender sobre determinados assuntos, acabam sendo apenas pessoas medíocres. Sabem o que a palavra medíocre significa? O significado da raiz da palavra é ir até a metade do percurso, sem jamais atingir o culminar. Mediocridade é isso: nunca exigir a excelência, o ponto mais excelso de si mesmo. Aprender é infinito, porque realmente não tem fim. Assim, com quem você está aprendendo? Dos livros? Com o educador? E, talvez, pela observação, se tiverem uma mente brilhante? 

Até agora parece que vocês têm vindo a aprender do exterior:  acumulam conhecimento e a partir desse conhecimento actuam, estabelecem uma carreira e assim por diante. Se   aprendem sobre si  próprios – ou melhor, se você está aprendendo pela observação de  si mesmo, dos seus preconceitos, das suas conclusões definitivas, das suas crenças, se você está observando as subtilezas do próprio pensamento, a sua vulgaridade, a sua sensibilidade, então você  torna-se simultaneamente aquilo que ensina e o que é ensinado. Então você não depende de ninguém interiormente, de nenhum livro, de nenhum especialista – embora, é claro que no caso de se sentir mal ou estiver com algum tipo de doença, você deve ir a um especialista; isso é natural e necessário.      
       
Mas depender de outra pessoa, não importa quão excelente ela seja, impede-os de aprender sobre si próprios; o que vocês são. E é muito, muito importante aprender o que você é, porque o que você é produz essa sociedade tão corrupta, imoral, onde a violência se espalha enormemente, essa sociedade tão agressiva, em que cada um busca unicamente o próprio sucesso, o seu próprio modo de preenchimento. Aprender o que você é, não por intermédio dos outros mas antes pela observação de si mesmo, sem condenar nem dizer: “Isto é assim mesmo, eu sou assim, não posso mudar”, e continuar do mesmo jeito. Quando você observa a si mesmo sem nenhuma forma de reacção nem resistência, então o próprio observar actua e, qual chama, incinera toda a estupidez e ilusões que possua.  

Assim, aprender torna-se de todo importante. Um cérebro que cessa de aprender torna-se mecânico. É como um animal amarrado a uma estaca e que, em consequência pode se mover apenas de acordo com o comprimento da corda, a correia que está amarrada à estaca. A maioria de nós encontra-se amarrada a uma estaca peculiar a nós mesmos, estaca ou corda essa invisível; e movimenta-se dentro das dimensões imensamente limitadas da corda. É como o homem que fica a pensar o dia inteiro sobre si mesmo, sobre os seus problemas, os próprios desejos, prazeres ou o que gostaria de fazer. Essa constante ocupação consigo mesmo é bastante comum. Todavia, é muito, muito limitada. E essa própria limitação engendra várias formas de conflito e infelicidade. 

Os grandes poetas, pintores, compositores, jamais se satisfazem com o que fazem. Estão sempre aprendendo. Após passarem nos exames e começarem a trabalhar vocês não param mais de aprender. Existe uma grande força e vitalidade no aprender, especialmente sobre si mesmos. Aprender, observar, a ponto de não sobrar nenhum aspecto que não tenha sido investigado, descoberto em si mesmo. Isso realmente é ser livre do próprio condicionamento particular. O mundo é dividido pelos condicionamentos: vocês como indianos, americanos, ingleses, russos, chineses, etc. A partir desse condicionamento brotam as guerras, a matança de milhares de pessoas, a infelicidade e a brutalidade.

Assim, tanto o educador quanto aquele que está a ser educado estão a aprender, no sentido profundo do termo. Quando ambos estão a aprender, não existe nem educador nem alguém a ser educado. Existe apenas aprender. Aprender liberta o cérebro e o pensamento do prestígio, da posição e do status. Aprender produz igualdade entre os seres humanos.  

Descondicionamento mútuo

       Parece que pensamos que a educação termina quando deixamos a escola ou o colégio. Parece que não lidamos com o todo da existência humana como um processo de educação pessoal que é constante e que talvez nunca tenha fim. Assim a maioria de nós limita a educação a um período muito pequeno e pelo resto de nossas vidas continuamos assim embotados, aprendendo apenas umas poucas coisas que são absolutamente necessárias, caindo em uma rotina - e, é claro, existe sempre a morte esperando. Essa realmente é a nossa vida - casamento, filhos, trabalho, prazeres passageiros, dor e morte. Se isso é toda a nossa vida - o que pelo visto é - então qual é realmente o sentido da educação? Nunca fazemos essas perguntas fundamentais; provavelmente elas são muito perturbadoras. Mas já que somos professores em colégios e escolas, devemos perguntar qual é o propósito da educação e da aprendizagem. Sabemos que ela nos dá algum tipo de trabalho, mas fora a ocupação física com suas responsabilidades, que queremos dizer com ensinar e o que ser um professor? 
Como é geralmente entendido, um professor, tendo já estudado certas matérias, informa os estudantes sobre elas. É isso ser um professor - apenas passar conhecimento? Assim estamos investigando a natureza do professor e a de quem é ensinado. Quem é um professor? Quais as implicações de ensinar, sem contar o currículo? Muito poucos são professores dedicados. Eles são dedicados em ajudar os estudantes em seus estudos, mas certamente um professor tem um significado bem maior.  

O conhecimento deve inevitavelmente ser superficial. Ele é o cultivo da memória e o emprego dessa memória eficientemente, e assim por diante. Sendo o conhecimento sempre limitado, será que é função do professor ajudar o estudante a viver toda sua vida apenas dentro da limitação do conhecimento? Primeiramente devemos nos dar conta que o conhecimento é sempre limitado, como o são todas as experiências. Esse uso do conhecimento com todas as suas limitações pode ser muito destrutivo. É destrutivo nos relacionamentos humanos. No relacionamento o conhecimento - que é a acumulação de vários incidentes, experiências, reacções - cultiva a imagem da outra pessoa e obscurece a realidade dessa pessoa e obscurece o relacionamento. 

Quando existe uma continuidade, uma tradição, formada pelo conhecimento e passada de geração a geração, então o passado, que é a acumulação do conhecimento, obscurece o real presente vivo. Quando o conhecimento se torna uma rotina, mecânico, ele torna o cérebro limitado, rígido e insensível. Quando o conhecimento é usado para apoiar o nacionalismo através de guerras, então ele se torna bestial, espantosamente cruel e totalmente imoral. Conhecimento não é beleza, mas o conhecimento é necessário para perfurar um poço. Todo o mundo tecnológico está baseado no conhecimento e esse mundo está tomando conta de nossas vidas.

 Se deixarmos o conhecimento ser a única autoridade, e esperarmos uma ascensão através do conhecimento, então estamos vivendo em uma ilusão fatal. Estamos dizendo que o conhecimento tem seu lugar na vida cotidiana, mas o quando o conhecimento é a única substância da nossa vida, então nossa vida deve estar confinada à atividade mecânica.
Será que a única função do professor é comunicar conhecimento - como é agora -, passar informação, ideias, teorias e expandir essas teorias, discutindo os vários aspectos delas? Será essa a única função de um professor? Se isso é tudo que um professor se interessa, então ele é somente um computador vivo. Mas certamente um professor tem uma responsabilidade muito maior que isso. Ele deve se interessar pelo comportamento, pelas complexidades da acção humana, por um modo de vida que seja o florescimento da bondade. Certamente ele deve estar interessado no futuro de seus estudantes - e qual é o futuro para esses estudantes? Qual é o futuro do homem? Qual é o futuro da nossa consciência que é tão confusa, perturbada, desordenada, em conflito? Devemos viver perpetuamente em conflito, sofrimento e dor? Quando o professor não está em comunicação com o estudante sobre todas essas questões, então ele é apenas uma máquina muito viva, engenhosa, perpetuando outras máquinas. 

       Assim estamos colocando uma pergunta muito fundamental: o que é um professor? A profissão dele é a maior no mundo, embora seja a menos respeitada, pois se ele está interessado profundamente, seriamente, o professor está produzindo o descondicionamento do cérebro humano - não apenas o seu próprio cérebro, mas também o do aluno. Ele está condicionado e o aluno está condicionado. Isso é um fato, quer ele admita ou não, e no relacionamento com o aluno ele está ajudando, tanto o estudante quanto a si mesmo, a libertar a consciência da limitação. 

Um relacionamento é um processo de aprender. Um relacionamento não é um negócio estático, mas um movimento vivo e assim ele nunca é o mesmo. O que ele foi ontem não é hoje. Quando no relacionamento o ontem domina, então o relacionamento é o que foi, e não uma coisa viva. O amor não é o que foi. Quando existe no relacionamento entre o professor e o estudante, esse elemento de companheirismo, de mútuo descondicionamento e humildade, é natural a afeição e a sensibilidade. Um professor poderia dizer que tudo isso é impossível. Quando as autoridades escolares exigem que haja cinquenta estudantes em uma sala de aula onde acontece todo tipo de estupidez, então o que é que vai fazer o professor? Obviamente ele não pode fazer nada. Mas estamos falando sobre escolas onde isso não ocorre. Então o professor pode estabelecer esse relacionamento e, aí, está profundamente envolvido com o florescer dos seres humanos.   

Estar em comunhão

 

   É certo que os educadores estão atentos para o que está acontecendo no mundo. As pessoas estão divididas racialmente, religiosamente, politicamente, economicamente e essa divisão é fragmentação. Isto está produzindo grande caos no mundo – guerras, toda espécie de logro em termos políticos, etc. Existe o aumento da violência e o homem contra o homem. Este é o atual estado de confusão no mundo, na sociedade em que vivemos, e esta sociedade é criada por todos os seres humanos com suas culturas, suas divisões linguísticas, suas separações regionais. Tudo isso está gerando não apenas confusão mas também ódio, muito antagonismo e mais diferenças linguísticas. Isto é o que está acontecendo e a responsabilidade do educador é realmente muito grandiosa. Ele está interessado, em todas estas escolas, em produzir um ser humano bom, que tem um sentimento de relacionamento global, que não é nacionalista, regional, separado, religiosamente agarrado às tradições velhas e mortas que não têm mais valor nenhum. Sua responsabilidade como um educador se torna mais e mais séria, mais e mais comprometida, mais e mais interessada na educação de seus estudantes.

O que esta educação está fazendo de fato? Está realmente ajudando o homem, as crianças, a se tornarem mais interessados, mais gentis, generosos, não para voltar aos velhos padrões, à velha fealdade e perversidade deste mundo? Se o educador é realmente interessado - como ele deve ser -, então ele tem que ajudar o estudante a descobrir sua relação com o mundo, não o mundo da imaginação ou da sentimentalidade romântica, mas o mundo real onde as coisas estão acontecendo. E também para descobrir sua relação com o mundo da natureza, o deserto, a selva ou as poucas árvores que o rodeiam, e os animais do mundo. Felizmente os animais não são nacionalistas, eles caçam apenas para sobreviver. Se educador e o estudante perdem seu relacionamento com a natureza, com as árvores, com o mar ondulante, cada um irá certamente perder seu relacionamento com o homem.

O que é a natureza? Existe muita discussão e empenho para proteger a natureza, os animais, os pássaros, as baleias e os golfinhos, para limpar os rios poluídos, os lagos, os campos verdes, etc. A natureza não é criada pelo pensamento como a religião é, como as crenças são. A natureza é o tigre – esse extraordinário animal com sua energia, sua grande sensação de poder. A natureza é a árvore solitária no campo, os gramados e o bosque; é aquele esquilo que timidamente se esconde atrás de um galho. A natureza é a formiga e a abelha e todas as coisas vivas da terra. A natureza é o rio, não um rio particular, seja o Ganges, seja o Tamisa ou o Mississipi. A natureza é todas as montanhas, com seus picos nevados, com os vales azuis escuros e as serras encontrando o mar. O universo é parte desse mundo. A pessoa deve ter sentimentos por tudo isso, não destruir, não matar por prazer, não matar animais para a própria mesa. Nós matamos o repolho, os vegetais que comemos, mas deve-se traçar a linha em algum lugar. Se você não comer vegetais então como irá viver? Assim, deve-se discernir inteligentemente.

A natureza é parte da nossa vida. Nós crescemos a partir da semente, da terra, e nós somos parte disso tudo, mas estamos rapidamente perdendo o sentido que somos animais como os outros. Será que podemos sentir aquela árvore, olhar para ela, ver sua beleza, escutar o som que ela faz; ser sensível à plantinha, ao matinho, àquela trepadeira que está crescendo no muro, à luz nas folhas e as muitas sombras? Devemos estar atentos a tudo isso e ter um sentimento de comunhão com a natureza ao redor. Podemos viver em uma cidade mas sempre existem árvores aqui e ali. Uma flor no jardim vizinho pode estar mal cuidada, cercada de muito mato, mas olhe para ela, sinta que você é parte de tudo isso, parte de todas as coisas vivas. Se a pessoa fere a natureza está ferindo a si mesma. 

Sabe-se que tudo isso já foi dito antes de diferentes maneiras, mas parecemos não prestar muita atenção. Será que estamos tão presos na nossa rede de problemas, nossos próprios desejos, nossos ímpetos de prazer e dor, que não olhamos em volta, nunca olhamos a lua? Olhe para ela. Olhe com todos seus olhos e ouvidos, seu sentido olfativo. Olhe. Olhe como se você estivesse olhando pela primeira vez. Se você pode fazer isso, aquela árvore, aquele arbusto, aquela folhinha da relva você está vendo pela primeira vez. Então você pode ver seu professor, sua mãe e seu pai, seu irmão e sua irmã pela primeira vez. Existe um sentimento extraordinário nisso: a maravilha, o estranhamento, o milagre de uma nova manhã que nunca aconteceu antes, nunca acontecerá depois. Esteja realmente em comunhão com a natureza, não verbalmente, preso na sua descrição, mas seja parte dela, esteja atento, sinta que você pertence a tudo isso, seja capaz de ter amor por tudo isso, admirar um gamo, o lagarto na parede, o galho quebrado no chão. Olhe para a estrela vespertina ou para a lua Nova, sem a palavra, sem meramente dizer quão bonita é e virando as costas para ela, atraído para outra coisa, mas observe aquela estrela solitária e a lua delicada como se fosse pela primeira vez. Se existe tal comunhão entre você e a natureza, então você pode comungar com o homem, com o menino sentado perto de você, com o seu educador, ou com seus pais. Nós perdemos todo o sentido de relacionamento no qual existe não apenas a afirmação verbal de afeição e interesse, mas também esse senso de comunhão que é não verbal. É um sentimento de que estamos todos juntos, de que somos todos seres humanos, não divididos, não partidos, não pertencentes a um grupo particular, ou raça, ou a algum conceito idealista, mas que somos todos seres humanos, nós estamos todos vivendo nesta terra linda e extraordinária.

Alguma vez você acordou pela manhã e olhou pela janela ou saiu para o terraço e olhou para as árvores e a manhã nascente? Viva com isso. Escute todos os sons, o murmúrio, a brisa delicada entre as folhas. Veja a luz naquela folha e observe o sol aparecendo sobre a montanha, sobre o gramado. E o rio seco, ou aquele animal pastando e aquelas ovelhas nas montanhas – observe-os. Olhe para eles com afeição, um sentimento de cuidado, de que você não quer machucar nenhuma coisa. Quando você está em tal comunhão com a natureza, então seu relacionamento com os outros se torna simples, claro, sem conflito.   
Esta é uma das responsabilidades do educador, não meramente ensinar matemática ou como lidar com um computador. Muito mais importante é estar em comunhão com outros seres humanos que sofrem, se esforçam e têm a grande dor e o sofrimento da pobreza, e em comunhão com aquelas pessoas que passam em seus carros caros. Se o educador está interessado nisto, ele está ajudando o estudante a se tornar sensível, sensível ao sofrimento das outras pessoas, às lutas das outras pessoas, ansiedades e preocupações, e às brigas que a pessoa tem em família. Deveria ser responsabilidade do professor educar as crianças, o estudante, para estar em tal comunhão com o mundo. O mundo pode ser muito grande, mas o mundo está onde ele está; esse é o seu mundo. E isso produz uma consideração natural, afeição pelos outros, cortesia e um comportamento que não é rude, cruel, vulgar.   
O educador deve falar de todas essas coisas, não apenas verbalmente, mas ele mesmo deve sentir isso – o mundo, o mundo da natureza e o mundo do homem. Eles estão inter-relacionados. O homem não pode escapar disso. Quando ele destrói a natureza, ele está destruindo a si mesmo. Quando ele mata o outro, ele está matando a si mesmo. O inimigo não é o outro, mas você mesmo. Viver em tal harmonia com a natureza, com o mundo, naturalmente produz um mundo diferente.


A eficiência não representa um fim em si mesma (39)

A escola constitui um local de aprendizagem, e consequentemente é sagrada. Os templos, as igrejas, as mesquitas não são sagradas por terem deixado de aprender. Nelas acreditam; têm fé, e isso nega por completo a enorme arte da aprendizagem. Uma escola, como aquelas para onde estas cartas são endereçadas, deve estar por completo devotada à aprendizagem, não só relativa ao mundo que nos rodeia mas essencialmente sobre o que somos enquanto seres humanos, a forma por que nos comportamos da forma que o fazemos, e acerca da complexidade do pensamento.

A antiga tradição do homem tem sido a aprendizagem, não só a partir dos livros, mas sobre a natureza e estrutura da psicologia do ser humano. Por termos negligenciado isso, há desordem no mundo, terror, violência e todas as coisas cruéis que estão a ocorrer. Colocamos as questões do mundo em primeiro lugar e não o interior. O interior, caso não seja compreendido, educado e transformado, sempre dominará o exterior, não obstante esse exterior possa estar bem organizado, política, económica e socialmente. Esta é uma verdade que muitos parecem esquecer. Procura-se produzir ordem política, legal e socialmente no mundo externo em que vivemos enquanto interiormente permanecemos confusos, na incerteza, ansiosos e em conflito. Mas sem ordem interna sempre existirá perigo para a vida humana.

Que é que se pretende dizer com a ordem? No seu sentido supremo, o universo não conhece desordem. A natureza, conquanto pareça aterradora para o homem, sempre está em ordem, e só se encontra em ordem quando os seres humanos interferem com ela. Apenas o homem parece, desde o começo dos tempos, encontrar-se em permanente luta e conflito. O universo tem o seu próprio movimento de tempo. Somente quando o homem tiver ordenado a sua vida perceberá a ordem eterna.

Porque razão terá a humanidade aceite e tolerado a desordem? Porque é que tudo quanto o homem toca entra em decadência, se corrompe e torna confuso? Porque se terá afastado a humanidade da ordem da natureza, das nuvens, dos ventos, dos animais e dos rios? Precisamos estudar o que a desordem e a ordem representam. A desordem consiste essencialmente em conflito, contradizer-se e divisão entre tornar-se e ser. A ordem é um estado em que a desordem não chega a ter existência.

Desordem significa escravidão para com o tempo. O tempo possui muita importância para nós. Vivemos no passado, de recordações passadas, mágoas e prazeres passados. O nosso pensar representa o passado. Está constantemente a modificar-se em reacção ao presente, e a projectar-se no futuro, mas o passado enraizado encontra-se sempre connosco. Essa é a qualidade compulsiva do tempo. Precisamos observar esse facto em nós próprios e ter consciência do seu processo limitativo. Aquilo que for limitado terá que permanecer sempre em conflito.

O passado é conhecimento procedente da experiência, acção e das reacções psicológicas. Esse conhecimento, de que se poderá ter consciência ou deixar passar despercebido, constitui a própria natureza da existência do homem. Assim, o passado assume um importância primacial, quer envolva a tradição, a experiência ou a recordação dotada da sua panóplia de imagens. Mas todo o conhecimento, quer do futuro ou do passado, é limitado. Não pode chegar a existir um conhecimento completo, porque o conhecimento e a ignorância andam juntos. A própria aprendizagem disso representa ordem. A ordem não é coisa que brote do planeamento nem a que se adira. Numa escola, a rotina é necessária, mas isso não é ordem. Uma máquina montada na perfeição funciona de forma eficiente. A organização eficiente de uma escola é absolutamente necessária, mas tal eficiência não representa um fim em si mesmo a ser confundida com a liberdade do conflito que representa ordem.

De que forma irá o educador, que tenha aprendido acerca de tudo isto em profundidade, transmitir a natureza da ordem ao estudante? Se a sua própria vida interior se achar em desordem e ele falar da ordem, não só estará a ser hipócrita, o que em si mesmo representa um conflito, como o estudante perceberá que o que estiver a ser dito é conversa fiada e não lhe prestará a menor atenção. Quando o educador permanece inamovível na compreensão que evidencia, o estudante captará essa mesma qualidade. Quando se é completamente sincero, essa mesma sinceridade será transmitida ao semelhante.


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