sábado, 3 de dezembro de 2016

A EDUCAÇÃO E O SIGNIFICADO DA VIDA



Pergunta: No seu livro sobre educação o senhor sugere que a educação moderna é um completo fracasso. Eu gostaria que explicasse isso.  
 
     Krishnamurti: Não será um fracasso, senhor? Quando sai à rua você é confrontado com o pobre e o rico; e quando dá uma olhadela ao seu redor, pode assistir às pessoas denominadas educadas por todo o mundo em disputa, a lutar, a matarem-se uns aos outros em guerras. Actualmente existe conhecimento científico bastante para nos permitir prover alimentos, roupa e abrigo suficiente para todos os seres humanos, contudo nada disso é exercido. Os políticos e os restantes líderes por todo o mundo são pessoas educadas, e possuem títulos académicos, são doutores e cientistas; mas no entanto eles não foram capazes de criar um mundo no qual o homem possa viver de modo feliz. Assim, a educação moderna falhou, não terá sido? E se você se satisfizer em ser educado do mesmo modo velho, você criará outra bagunça de vida.

O tipo correcto de educação começa com o educador, que tem que entender a si mesmo e que deve tornar-se livre dos padrões estabelecidos do pensamento; porque aquilo que ele é, é o que ele transmite. Se ele não tiver sido devidamente educado, que poderá ensinar além do mesmo conhecimento mecânico em que foi educado? Então, o problema não está na criança, mas no pai e no professor; o problema reside em como educar o pedagogo.  
      
    Se nós que somos os educadores não nos entendermos, se não entendemos a nossa relação com a criança e o enchermos somente com informação e a fizermos passar os exames, como será possível que possamos provocar um tipo novo de educação? O aluno está aí para ser guiado e ajudado; mas se o guia, o ajudante viver em confusão e na estreiteza do nacionalismo e tiver a cabeça cheia de teorias, então naturalmente o seu aluno deverá tornar-se idêntico ao que ele é, e a educação tornar-se-á uma fonte de confusão e discussão adicional.  
      
    Se percebermos a verdade disso, perceberemos quão importante é que começamos a nos educar correctamente. Preocupar-se com a nossa próprio re-educação torna-se  muitíssimo mais necessário que preocupar-se com a segurança e o bem-estar futuros da criança.  
      
    Educar o pedagogo - quer dizer, levá-lo a entender-se a si mesmo - é um das empreendimentos mais difíceis, porque a maioria de nós já se acha cristalizado num sistema de pensamento ou num padrão de acção; nós já nos entregamos a alguma ideologia, religião, ou padrão particular de conduta. É por isso que ensinamos a criança o que pensar e não como pensar. 

     A primeira coisa sobre que um professor deve questionar-se, quando ele decide que quer ensinar, é o que para ele exactamente significa ensinar. Irá ensinar questões habituais do modo habitual? Quererá ele condicionar a criança para se tornar mais um dente da engrenagem na máquina social, ou ajudá-lo-á a tornar-se um ser humano integrado, criativo, uma ameaça para os falsos valores? E para o educador poder ajudar o estudante a examinar e a entender os valores e as influências que o cercam, dos quais ele é uma parte, não deverá ele próprio estar atento a elas? Se uma pessoa for cega, como poderá ajudar os outros a cruzar para a outra margem?  
 
     Certamente, o professor tem que começar por perceber, ele mesmo. Ele deve permanecer permanentemente alerta, intensamente atento para com os próprios pensamentos e sentimentos, atento para com os modos nos quais ele se acha condicionado, atento para as suas actividades e respostas; pois desta vigilância provém a inteligência, e com ela uma transformação radical na sua relação com as pessoas e as coisas.  
 
     Como poderemos nós ensinar as crianças a não buscar a segurança pessoal se nós mesmos estivermos no seu encalço? Que esperança poderá existir para a criança se nós que somos pais e professores não formos completamente vulneráveis à vida, e se erguermos muros protectores ao redor de nós próprios? Para podermos descobrir o verdadeiro significado desta luta pela segurança que está a causar tanto caos no mundo nós temos que começar a despertar a própria inteligência, permanecendo atentos para com os nossos processos psicológicos; temos que começar a questionar todos os valores em que actualmente nos achamos inclusos. 

 Meramente seguir um sistema, seja político ou educacional, jamais resolverá os nossos múltiplos problemas sociais; é muito mais importante entender a nossa aproximação a qualquer problema, do que entender o próprio problema.  
  
    O tipo adequado de educador não alberga qualquer autoridade, nenhum forma de poder em sociedade; ele encontra-se para além dos éditos e sanções da sociedade. 
 
  Toda a autoridade constitui um impedimento, e é essencial que o pedagogo não se torne uma autoridade para o estudante. 
     Por se dedicar exclusivamente à liberdade e à integração do indivíduo, o tipo adequado de educador é profunda e verdadeiramente religioso. Ele não pertence a nenhuma seita, a nenhuma religião organizada; ele acha-se livre de convicções e rituais, porque sabe que não passam de ilusões, fantasias, superstições projectadas pelos desejos daqueles que os criam. Ele sabe que a realidade, ou Deus, só chega a existir quando há auto-conhecimento e, portanto, liberdade.  
  
   Contanto que educação constituir apenas um trabalho como qualquer outro, o conflito e a inimizade entre os indivíduos e entre os vários níveis de classe da sociedade serão inevitáveis; haverá um aumento da competição, a perseguição inumana da ambição pessoal, e o erguer das divisões nacionais e raciais que criam antagonismo e guerras infinitas.  
 
     Se nós formos sérios sobre tornar-nos o tipo adequado de professor, permaneceremos completamente descontentes, não com relação a um sistema particular de educação, mas para com todos os sistemas, porque veremos que nenhum método educacional poderá libertar o indivíduo. Um método, um sistema poderão condicioná-lo a um diferente conjunto de valores, mas não poderão torná-lo livre.  


 
Capítulo I

A Educação e o Significado da Vida


   Quando viajamos pelo mundo fora, podemos dar-nos conta do modo extraordinário como a natureza humana se assemelha, seja na Índia, na Austrália ou na Europa. Isso revela-se um facto particularmente nos colégios e nas universidades. Estamos a produzir um ser humano segundo um modelo cujo interesse primordial consiste em garantir segurança pessoal, tornar-se alguém importante, ou levar uma vida de deleite, com um mínimo de reflexão possível.
 A educação tipificada, convencional, dificulta extremamente todo o pensar independente e o ajustamento a que ela sujeita conduz à mediocridade. Contudo, não é fácil ser diferente do grupo nem resistir ao ambiente, quando não arriscado mesmo, devido a adorarmos o sucesso. A ânsia por nos tornarmos bem-sucedidos - que revela uma busca da recompensa, seja no mundo material ou no chamado "mundo espiritual"- a busca de segurança tanto interior como exterior, o desejo de conforto, tudo isso sufoca o descontentamento e põe termo a toda a espontaneidade, ao mesmo tempo que gera o temor. E o medo impede a compreensão inteligente da vida. Em resultado, com o avançar da idade instala-se o entorpecimento da mente o do coração.

   Por meio da busca de conforto, em geral criamos um cantinho sossegado na vida em que podemos viver com um mínimo possível de conflito, e logo passamos a recear ousar sequer dar um passo fora dessa espécie de isolamento. Este medo da vida, este medo de toda a luta e de um novo experimentar liquida em nós todo e qualquer espírito de aventura; a criação e educação que recebemos incutiu-nos o medo de sermos diferentes do nosso vizinho, o medo de pensar contrariamente aos padrões estabelecidos da sociedade, e tornou-nos respeitadores enganosos da autoridade e da tradição.

   Felizmente, existem algumas pessoas sérias, que se dispõem a investigar os nossos problemas humanos sem preconceitos da direita nem da esquerda; porém, a vasta maioria não possui o verdadeiro espírito de descontentamento e revolta. Quando nos submetemos ao meio, de forma irreflectida, todo e qualquer espírito de revolta que por acaso possuíssemos anteriormente, esmorece; mais cedo ou mais tarde, as nossas responsabilidades acabam por lhe pôr fim, dessa forma.

Há duas formas de revolta: a violenta - que não passa de uma mera reacção, destituída de compreensão, contra a ordem prevalecente - e a profunda revolta psicológica da inteligência. Muitos revoltam-se contra as formas de ortodoxia prevalecentes somente para ir cair em novos moldes de ortodoxia, ilusão acrescida e diferentes formas de concessão à auto-indulgência. O mais comum é desligarmo-nos de um grupo ou conjunto de ideais para nos juntarmos a outro grupo e adoptarmos novos ideais, estabelecendo dessa forma um novo padrão, contra o qual uma vez mais teremos novamente de nos revoltar. A reacção só gera oposição, e a reforma cria a necessidade de nova reforma.

   Porém, existe uma forma inteligente de revolta que, sem constituir uma reacção, brota do auto-conhecimento, por maio do percebimento do próprio pensar e sentir. Somente quando fazemos face à experiência, à medida que surge, sem procurar evitar qualquer perturbação resultante, estamos em condições de preservar uma inteligência altamente viva e desperta. E uma inteligência assim torna-se sinónimo de intuição- o único guia seguro que podemos ter na vida.

   Mas, que significado possuirá a vida? Por que vivemos e lutamos nós? Se formos educados meramente em função de obtermos distinção, ou um emprego melhor, nos tornarmos mais eficientes, ou com o fito de podermos exercer um mais perfeito domínio sobre os demais, então a nossa vida deverá tornar-se superficial e vazia. Se formos educados apenas para sermos cientistas, eruditos que estabelecem, com relação aos seus livros, uma relação quase matrimonial, ou especialistas devotados ao conhecimento, então nesse caso estaremos a contribuir para a desgraça e a destruição do mundo.

   E, a despeito da vida possuir um significado mais elevado e vasto, de que nos servirá essa educação, se jamais o conseguirmos descobrir? Podemos ser altamente educados, mas se nos faltar profunda integridade de pensamento e sentimento, a nossa vida será incompleta, contraditória e estará pejada de receios. Além disso, enquanto a educação não cultivar uma perspectiva integral da vida, deverá ter muito pouco significado.


   Neste presente estágio da civilização, dividimos de tal forma a vida em compartimentos que a educação chegou a adquirir muito pouco significado - à excepção da aprendizagem de uma determinada capacidade técnica, ou profissional. Em vez de despertar a inteligência íntegra do indivíduo, a educação encoraja-o a ajustar-se a determinado padrão, criando assim um impedimento à compreensão de si mesmo, num um processo total. A tentativa de resolução dos numerosos problemas da nossa existência nos seus níveis respectivos - separados como estão em diversas categorias – é um indicador duma total falta de compreensão.

   O indivíduo é constituído por diversas entidades, porém o relevo que é dado às diferenças, a par com o encorajamento do desenvolvimento de um tipo definido de entidade, conduz à complexidade e à contradição. A educação deveria produzir a integração destas entidades separadas porque, sem integração, a vida transforma-se numa série de conflitos e tribulações. Afinal, de que servirá formar advogados, se perpetuamos interminavelmente os litígios? E de que nos valerá todo o conhecimento se continuamos mergulhados na confusão? Que significado terá a capacidade técnica e industrial se a utilizamos para nos destruirmos mutuamente? Qual será a finalidade da existência se ela conduz à violência e à extrema infelicidade? Conquanto possamos ter dinheiro e sejamos suficientemente capazes de o ganhar; conquanto possuamos os nossos prazeres e as nossas religiões organizadas, vivemos um conflito interminável.

   Temos de estabelecer a distinção que existe entre o que é do foro pessoal e o que pertence ao individual. Aquilo que é pessoal é acidental; por acidental entendo as circunstâncias presentes à nascença, o ambiente em que fomos criados, com o seu nacionalismo, as suas superstições, distinções de classe e preconceitos. O "pessoal" ou acidental é momentâneo, não obstante esse momento poder durar uma vida inteira; mas como o actual sistema de educação se baseia no "pessoal", no acidental, no momentâneo, também se acha vocacionado para nos conduzir à perversão do pensamento e à implantação de toda a sorte de temores defensivos.

   Todos nós fomos preparados tanto pela educação como pelo meio para a busca do ganho e da segurança pessoais, assim como para lutar em defesa dos nossos interesses. Conquanto possamos dissimulá-lo com toda a espécie de conversa amigável, aquilo para que fomos educados, pelas várias especialidades do sistema, baseia-se na exploração e na ânsia da cobiça. Essa educação tem, inevitavelmente, de produzir confusão e infelicidade, tanto para nós como para o mundo, porquanto está habilitada a criar em todo o indivíduo as barreiras psicológicas que o separam e mantêm isolado dos outros.

   A educação não consta da simples questão de adestramento mental. Esse adestramento pode conduzir à eficiência, porém não produz integração. E a mente que recebeu um treino consiste num prolongamento do passado; essa mente jamais poderá descobrir o "novo". Por essa razão, para podermos descobrir o sentido da educação correcta precisamos investigar todo o significado do viver.

   Para a maioria das pessoas, o significado da vida no seu todo, não é de primordial importância, já que a nossa educação enfatiza valores secundários, procurando torná-los proficientes num qualquer ramo do saber. Mas, ainda que o saber e a eficiência sejam necessários, atribuir-lhes demasiada importância só conduzirá ao conflito e à confusão.
   Existe uma forma de eficiência que só o amor inspira, e que conduz muito mais longe, por ser bastante superior à eficiência da ambição; sem amor, que é capaz de produzir uma compreensão íntegra da vida, a eficiência produz crueldade. E não será justamente a isso que estaremos a assistir pelo mundo inteiro?

  A educação actual encontra-se votada à industrialização e à guerra; além disso, tem por objectivo primordial o desenvolvimento desta eficiência; achámo-nos aprisionados nesta cruel máquina de competitividade e de destruição mútua. Mas, se a educação só conduzir à guerra, e nos ensinar a destruir e a ser destruídos, então não terá falhado completamente?

   Para produzirmos uma educação correcta devemos, obviamente, ser capazes de poder apreender o sentido da vida no seu todo, e para esse efeito temos de ser capazes de pensar - não com a consistência entroncada na rigidez - mas de forma directa e verdadeira. Pensar de forma consistente torna a pessoa desatenta e irreflectida, destituída de consideração, por ajustar a pessoa a um padrão de repetição de frases e a pensar nos moldes da rotina.

   Não podemos apreender a existência de forma meramente abstracta, nem teórica. Compreender a vida significa compreender a nós mesmos; isso constitui o princípio e o fim da educação.

   A educação não significa mera aquisição de conhecimentos, aprender a coligir e correlacionar factos, mas a apreensão da vida no seu todo. Porém não nos podemos aproximar do Todo por intermédio da parte- que é o que os governos e as religiões organizadas, os partidos autoritários estão a tentar fazer.

   A função da educação consiste em criar seres humanos íntegros e portanto, inteligentes. Podemos conseguir obter diplomas e tornar-nos eficientes sem sermos, nesse processo mecânico, inteligentes. A inteligência não consiste na mera posse de informação, nem deriva dos livros; tampouco consiste na elaboração reaccionária da contra argumentação nem da asserção agressiva. Aquele que não estudou pode ser mais inteligente que aquele que se cultivou. Nós fizemos dos exames e diplomas critério de avaliação da inteligência e desenvolvemos um espírito sagaz a fim de evitar as questões humanas vitais. A inteligência consiste na capacidade de perceber o essencial, o que é; a educação reside justamente no despertar dessa capacidade tanto em nós como nos outros.

        A educação deve ajudar-nos a descobrir valores perenes, de forma que não precisemos nos apegar ao uso de fórmulas nem à repetição de slogans; deve ajudar-nos a romper as nossas barreiras sociais e nacionais, em vez que as acentuar, porquanto elas geram antagonismo. Infelizmente, o presente sistema de educação está a tornar-nos o viver mecânico subserviente e fundamentalmente irreflectido; conquanto nos aguce o intelecto, por outro lado deixa-nos interiormente incompletos, estultificados e sem criatividade.

       Sem uma compreensão íntegra da vida os nossos problemas individuais e colectivos só tenderão a crescer, tanto em profundidade como em extensão. A educação não visa produzir meros letrados, nem técnicos, caçadores de empregos, mas homens e mulheres integrados e livres de todo o temor; porque só entre pessoas assim pode haver paz duradoura.

   A compreensão de nós mesmos extingue todo o temor. Para podermos pelejar junto com a vida, momento a momento, e enfrentar as suas complicações, tribulações e imprevistos deve o indivíduo tornar-se infinitamente flexível e, portanto, livre de teorias e de certos padrões de pensamento.
   A educação não deve estimular o indivíduo a adaptar-se à sociedade nem a manter-se negativamente em harmonia com ela, mas sim ajudá-lo a descobrir os valores autênticos que surgem através da investigação livre de preconceitos e do auto-percebimento. Se não tivermos auto-conhecimento, a mera expressão individual transformar-se-á em arrogância, com todos os seus conflitos agressividade e ambição. A educação deve despertar no indivíduo a capacidade de ter consciência de si próprio, e não apenas deixá-lo comprazer-se na expressão individual.

   Que benefício nos poderá trazer a instrução se no restante decurso da vida nos destruímos? A série infindável de guerras devastadoras que temos tido, uma a seguir à outra, só evidencia uma falha fundamental na educação que proporcionamos aos nossos filhos. Quase todos nós, creio, estamos conscientes disso, mas não sabemos como atender ao problema.

   Os sistemas, tanto educativos como políticos, não se transformam miraculosamente; só se modificam quando em nós se opera uma transformação fundamental. O indivíduo é de primordial importância, não o sistema; mas, enquanto o indivíduo não compreender o processo total de si mesmo, nenhum sistema - seja da direita ou da esquerda - poderá trazer ordem ou paz ao mundo.


Capítulo II

Educação Correcta

   Ignorante não é o indivíduo destituído de instrução mas o que não conhece a si mesmo; e insensato é todo aquele que é intelectualmente culto e acreditar que os livros, o saber e a autoridade lhe possam conferir a compreensão íntima. A compreensão só pode eclodir com o auto-conhecimento, que é o conhecimento da totalidade de todo o nosso processo psicológico. Assim, no seu sentido genuíno, a educação consiste na compreensão de si mesmo, levada a cabo pelo próprio, pois é dentro de cada um de nós que se concentra a totalidade da existência.

   Aquilo a que actualmente chamamos educação é um processo de acumulação de informações e conhecimentos tirados dos livros, coisa que qualquer um que saiba ler poderá conseguir. Uma educação desta espécie oferece-nos uma forma subtil de fuga de nós mesmos e, de modo semelhante a todas as fugas, cria, inevitavelmente, cada vez maior sofrimento. O conflito e a confusão nascem das nossas relações incorrectas com as pessoas, coisas e ideias e, enquanto não compreendermos e modificarmos essas relações, o mero aprender, a acumulação de factos e a aquisição de habilitações diversificadas só nos podem conduzir ao caos e à destruição.

   De acordo com a organização da sociedade actual, mandamos os nossos filhos à escola para que aprendam uma técnica com a qual possam um dia ganhar a vida. Queremos antes de tudo fazer do nosso filho um especialista, crendo que assim lhe garantimos uma segura situação económica. Mas poderá o cultivo de uma técnica habilitar-nos a compreender a nós mesmos?
   É evidentemente necessário saber ler e escrever, aprender engenharia ou outra profissão qualquer, mas poderá a técnica dar-nos a capacidade de compreender a vida? Ora, sem dúvida, a técnica é coisa secundária; e, se a técnica for a única coisa pela qual estivermos lutando, nesse caso estaremos a negar o aspecto mais importante da vida.

   A vida é dor, alegria, beleza, fealdade, amor e, quando a compreendemos na sua inteireza e em toda a sua variedade, essa compreensão cria a sua própria técnica. Mas o inverso não é exacto; a técnica jamais produzirá a compreensão criadora.

   A educação moderna redundou no completo malogro por ter exagerado a importância da técnica. Encarecendo-a em demasia, destruímos o homem. Se desenvolvermos capacidades e eficiência sem a compreensão da vida e sem uma percepção total dos movimentos da mente e do desejo isso há de tornar-nos cada vez mais cruéis, o que significa fomentar guerras e pôr em perigo a nossa segurança física. O exclusivo cultivo da técnica tem produzido cientistas, matemáticos, construtores de pontes e exploradores do espaço. Mas compreenderão tais indivíduos o processo total da vida? Poderá o especialista experimentar a vida num todo? Só se deixar de ser especialista.

   O progresso técnico resolve determinados problemas num dado nível, mas, ao mesmo tempo, gera problemas mais vastos e profundos. Viver num só nível, desprezando o processo global da vida, é atrair desgraça e destruição. A maior necessidade e o problema mais urgente de todo o indivíduo consiste em adquirir uma compreensão íntegra da vida que o habilite a enfrentar as suas contínuas e crescentes complexidades.
   O saber técnico, embora necessário, de modo algum resolverá as nossas premências interiores e conflitos psicológicos; mas devido a que tenhamos adquirido saber técnico, sem temos compreendido o processo total da vida, a técnica tornou-se um meio de destruição. O homem que é capaz de dividir o átomo, mas é incapaz de sustentar o sentimento de amor no coração, transforma-se num monstro.

   Escolhemos uma profissão de acordo com as nossas aptidões; mas, será que seguir uma profissão libertará o homem do conflito e da confusão? Uma dada espécie de preparo técnico parece necessária; porém, assim que nos tornamos engenheiros, médicos, contabilistas, que sucede? Será que a prática de determinada profissão representará o preenchimento da vida? Para a maioria parece que sim. As nossas várias profissões mantêm-nos ocupados durante a maior parte da existência; mas as próprias coisas que criamos e das quais tanto nos maravilhamos tornam-se causa de destruição e de desgraça. As nossas atitudes e valores estão q tornar as coisas e as profissões num instrumento de inveja, ressentimento e ódio.

   Sem a compreensão de nós próprios, a mera actividade operacional conduz à frustração, com as suas inevitáveis fugas para actividades maléficas de todo o género. Técnica sem compreensão conduz à inimizade e à crueldade, coisa que costumamos disfarçar com frases altissonantes. De que nos servirá encarecermos a importância da técnica e tornar-nos entidades eficientes, se o resultado conduz à mútua destruição? O progresso técnico conseguido é verdadeiramente fantástico, mas teve como resultado o aumento das possibilidades de destruição mútua; além disso, existe, em todos os países do mundo fome e miséria. Não somos seres pacíficos nem felizes, não.

Quando se atribui à função suma importância, a vida se torna estúpida e monótona, uma rotina mecânica e estéril, da qual fugimos entregando-nos a distracções de toda a espécie. O acúmulo de factos e o desenvolvimento de capacidades a que chamamos educação, privou-nos da plenitude da vida de integração e acção. Por não compreendermos em sua inteireza o processo da vida, apegamo-nos à capacidade e à eficiência, que por tal razão assumem desmedida importância. O todo, porém, não pode ser compreendido pela parte; só pode ser compreendido por meio da acção e da experiência.

Outro factor determinante no cultivo da técnica é que esta nos proporciona um sentimento de segurança, não só económica mas também psicológica. É reconfortante verificar que somos capazes e eficientes. Saber que temos capacidade para tocar piano ou para construir uma casa dá-nos um sentimento de vitalidade, de arrogante independência; porém, realçar o valor da capacidade, por causa de um desejo de segurança psicológica, é negar a plenitude da vida. O conteúdo total da vida é imprevisível e precisa ser experimentado sempre como coisa nova, momento a momento. Tememos o desconhecido, razão porque estabelecemos em nós próprios zonas psicológicas de segurança, sob a forma de sistemas, técnicas e crenças. Enquanto andarmos em busca de segurança interior não compreenderemos o inteiro processo da vida.

A educação correcta, não descurando do cultivo da técnica, deve realizar algo de importância muito maior e que consiste em levar o homem a experimentar o processo integral da vida. Tal experiência colocará a capacidade e a técnica no seu devido lugar. Quem tem realmente alguma coisa a dizer, com o mesmo acto de o expressar cria o seu próprio estilo; mas aprender um estilo sem possuir a capacidade de experimentar interiormente só poderá resultar em superficialidade.

Em todas as partes do universo, os engenheiros encontram-se em febril actividade, a planear maquinaria que dispense a acção do homem. Num mundo quase inteiramente movido por máquinas, que irá ser dos seres humanos? Teremos cada vez mais tempo de folga sem sabermos como aplicá-lo sensatamente, e procuraremos escapatória no cultivo do saber, nos divertimentos debilitantes, ou nos ideais.

Creio que já se redigiram muitos volumes sobre ideais educativos e, entretanto, encontramo-nos mais confusos do que nunca. Não existe método de educar uma criança para a tornar num ser integrado e livre. Enquanto só estivermos interessados em princípios, ideais e métodos, não ajudaremos o indivíduo a libertar-se da actividade egocêntrica, com todos os seus temeres e conflitos.

Ideais e planos para a Utopia perfeita jamais produzirão a mudança radical do coração, que se torna indispensável caso queiramos abolir a guerra e evitar a destruição universal. Os ideais não podem mudar os nossos valores actuais; estes só se transformarão através da educação correcta, ou seja, com o desenvolvimento da compreensão do que é.

Ao cooperarmos por um ideal vindouro, moldamos os indivíduos consoante a concepção que temos do futuro; não nos encontramos em absoluto interessados nos seres humanos mas sim, e apenas, na ideia que temos do que eles “deveriam ser.” Tal “dever” torna-se muitíssimo mais importante do que o que é: o indivíduo e as suas complexidades. Se começarmos por compreender o indivíduo directamente, em vez de o olharmos através da cortina da ideia que fazemos do que “deveria ser,” estaremos então interessados no que é. Nesse caso não desejaremos transformar o indivíduo numa outra coisa; o nosso único empenho será o de o ajudar a compreender-se, e nisso não há motivo pessoal egoísta ou lucro algum. Se estivermos plenamente cônscios do que é, haveremos de compreendê-lo e de libertar-nos dele, mas para tomarmos consciência do que somos, temos de desistir de lutar por algo que não somos.

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