segunda-feira, 10 de outubro de 2016

INTIMIDADE


Ao iniciarmos este ano de 1986 vamos falar de intimidade. Mas assim que o ano chegar ao fim, o que demorará muitíssimo tempo – que passa num piscar de olhos, não é? – (riso) olharemos para trás e veremos que tratamos de uma mão cheia de tópicos. Mas começamos pela intimidade, por constituir um tópico entusiasmante por todos quererem, e a maioria estar aterrada com a possibilidade de a conseguirem.
Mas constitui tópico deveras interessante por resultar tal movimento de afastamento e atracção, ou talvez mais claro, pressa na sua direcção e recuo da intimidade. E de facto da nossa perspectiva é uma dança fascinante, à medida que passam repetidamente por isso, mas percebemos que para vós que se acham apanhados na dança, constitui de facto de um processo muito doloroso e que exalta um imenso conjunto de emoções, um formidável custo emocional, mais um ciclo de arremetida e de recolhimento que atravessam. É tremendamente abrasivo e muita vez deixa-os em carne viva e a fumegar com a dor, só que dão por vós ainda a dar esses passos de dança, pelo que a intimidade tem que ser muito interessante.
Além disso é interessante por desempenhar parte tão essencial no processo do amar, um tal processo deste ano de 1986, à medida que as suas bases, as bases da implementação daquilo que trouxeram a vida no ano passado, requer acção para prosseguir, à medida que concedem a vós próprios permissão para ser tudo e mais ainda daquilo que pensam que são, à medida que dependem e utilizam o poder da vossa palavra, da vossa declaração de exigência, à medida que avançam em frente e trabalham com isso nessa direcção. Sugerimos que então, quando atingirem essa responsabilidade maior em cada um desses fundamentos far-se-á implícito um certo nível de intimidade. E a intimidade convosco próprios e com o mundo em que vivem, implementar intimidade nessas partes do vosso ser para conceder permissão e apoiar-se no poder da declaração, no poder da vossa palavra, e certamente intimidade convosco e com o mundo em geral, para assumirem uma porção mais significativa da responsabilidade pelo mundo em que vivem.
Mais, a intimidade pode servir de excelente antídoto para a culpabilização e para o martírio, e para a decisão de triunfar por intermédio da dor, além de poder ser magnífico complemento que pode aumentar a vossa decisão de transformar, a vossa decisão de amar e a vossa decisão de agressivamente equilibrarem as actividades internas e externas durante este ano. A intimidade pode assisti-los maravilhosamente nessa actividade.
Daí que iniciemos este ano, comecemos sesta série de Domingos connosco com o tópico da intimidade. Para além disso, a intimidade constitui tópico fantástico e entusiasmante por agora, mais do que nunca, estarem física, emocional, intelectual e psiquicamente preparados para pôr fim ao ciclo da arremetida e do recuo e para finalmente se deleitarem no prodígio da intimidade. E tópico entusiasmante devido a que, com todo o trabalho que fizeram com o amor, aqueles que activamente o tenham empreendido, porventura através dos seminários de Novembro, e aqueles que nem sequer conhecimento disso têm, mas que pelo próprio estado do ser, pelo simples facto de virem aqui, e do facto de se terem esforçado por crescer e de terem trabalhado ao amor, se encontram agora num momento em que a intimidade não se encontra muito afastada mas justamente além da vossa compreensão. Tudo quanto precisam fazer é ter suficiente amor por vós próprios para lhe tocar, e de seguida abrangê-lo, e depois ser possuidores de intimidade como coisa própria.
Assim começamos examinando primeiro em que consiste a intimidade. Que coisa será? Em que direcção se voltam? No tema do despertar do amor falamos de forma bastante detalhada, e em Novembro também o fizemos, com respeito àquilo que o amor é, sobre as sete coisas que precisam fazer, as sete acções que precisam assumir com a atenção e intenção de produzir um estado particular de consciência, um estado de espírito que também tem sete características que o descrevem.
A intimidade segue um padrão semelhante, por se achar tão ligado de forma intricada. Parte daquilo que é amor é o fazer que é o ter a humildade de ter intimidade, se observarem aquilo que fazem para ser pessoas amável para vós próprios e para os demais. Percorrem a lista do dar e do responder e do respeitar e do trabalhar desse particular modo com conhecimento, e subsequentemente passam para a capacidade da humildade da intimidade. É parte daquilo que fazem para amar; consequentemente, por ser parte de tal modo integrante, o processo e a acção que engloba são muito similares mas são mais simples. E a razão por que é mais simples estabelecer intimidade do que o amor, deve-se a que para sentirem e explorarem e possuírem a intimidade precisam pelo menos ter uma noção qualquer do amor. Por isso, se estudarem acerca do amor, se estudarem as acções que vão do dar ao interesse para produzir esse estado que vai da segurança até ao conhecimento – se implementarem essas sete coisas a fim de produzirem um estado de consciência dessas sete características, então passarão à intimidade com muito mais facilidade, por ser parte tão integrante do processo.
De facto, para terem intimidade precisam pelo menos dispor de certos rudimentos sobre o amor-próprio. Mas se não tiverem amor por vós próprios, por mais que tentem estabelecer intimidade e não conseguirão. Poderão estabelecer determinados fac-símiles, certos corolários mas não estabelecerão intimidade sem terem amor por vós próprios. Assim, primeiro estudam essas funções em prole do estado do amor, que é quando passarão para o estabelecimento do estado de intimidade, com maior facilidade. A medida em que se amarem será a medida em que terão ao vosso dispor intimidade; a proporção em que se recusarem amar-se será a proporção em que não terão intimidade ao vosso dispor. Assim, que é que estão a tentar estabelecer? Que estado será esse da intimidade? Qual será esse estado de espírito que tentam estabelecer?
Pois bem, ele tem sete características, e pelo menos deverão dispor da maioria senão de todos eles para poderem perceberem, computarem, registarem se estão numa condição em que sejam íntimos. E essas sete qualidades correspondem às do amor, a primeira das mais próximas. A primeira qualidade da intimidade convosco ou com alguém mais passa por uma proximidade, uma capacidade de contacto.
PROXIMIDADE
Que significará a proximidade com alguém? A proximidade física, vocês entendem, o que apresenta um certo grau de intimidade. De modo similar, a proximidade constitui um estado emocional, evidentemente, pelo que constitui um estado emocional de à-vontade, de ser capaz de interromper a meio de uma frase, ser capaz de nem sempre escovar o cabelo na perfeição, nem sempre se mostrar entusiasmante interessados em tudo quanto esteja a ser dito.
Proximidade… Vocês pensam nesse termo e querem logo saber o que vem a seguir. Detenham-se por um instante. Estar ou ser próximo a alguém, que será que isso significa, que será que isso engendra, que tipo de coisa lhes provoca no estômago, quando pensam em estar próximo a alguém? Para alguns é uma sensação de tristeza, por lhes recordar a infância que não tiveram, e lhes faz lembrar a mãe e desejarem terem ficado em casa, ou amigos, com que desejariam não ter acompanhado no verão. A proximidade é geralmente acompanhada ou conhecida como algo que não tiveram, algo que lhes tenha sido retirado. Mas quando pensam no que seja a proximidade – é com isso que a primeira qualidade da intimidade tem que ver, sentir essa protecção de ser próximo.
TERNURA
A qualidade seguinte é a da ternura. E uma vez mais, para estabelecerem isso com alguém, para serem ternos, delicados, sensíveis, doces – quão afeminado, não? Quão fraco, quão ingénuo! Quão preparados para ser usados! – por constituir um problema para muitos de vós.
“Precisas ser duro, não sabes disso? Este é um mundo cruel, não sabes disso? Se não te mantiveres em guarda és encostado à parede. Este é um mundo cruel, não te podes dar ao luxo de ser terno!”
Porém, constitui uma das qualidades da intimidade. Ter ternura, um momento de silêncio e de proximidade e uma ligação sensível.
VULNERABILIDADE
A terceira qualidade é a qualidade da vulnerabilidade. Que significará ser vulnerável? Busquem no diccionário e encontram “expor as fraquezas.” Na linguagem militar significa o ventre; onde é que devem atacar de modo a com probabilidade ser bem-sucedidos? Onde é que o inimigo é vulnerável? Vulnerabilidade no sentido metafísico constitui similarmente a exposição das vossas fraquezas, deixar que alguém saiba como me podem magoar.
“Olha, se me disseres tal coisa eu sentir-me-ei magoada. Se me disseres isto vou-me sentir muito inseguro e muito magoado. Se me tratares assim serás capaz de me manipular e de me fazer tudo quanto quiseres; fazes-me isto ou aquilo e sentir-me-ei devastada.”
É isso que ser vulnerável significa. Expor as vossas fraquezas.
“Mas, só um idiota faria tal coisa; somente um indivíduo completamente tolo, alguém que “as estivesse a pedir” faria tal coisa!”
Pois bem, nós concordamos que somente um tolo exporia as condições de mágoa a qualquer um ou ao mundo; claro que aí estaria a “pedi-las,” sem dúvida. Têm razão.
"Mas não o estou a expor ao mundo, estou a expô-lo a ti - a ti! Sou suficientemente resistente, sou forte o suficiente; possuo suficiente valor em mim próprio para te expor a ti as minhas fraquezas. É esta a proximidade que sinto em relação a ti, é esta a segurança que sinto contigo. É assim terna que considero a relação que tenho contigo. É esse o prazer que tiro da nossa interacção, que me leva a dispor-me a revelar-te onde me podes magoar, por saber que não o farás!"
Isso exige verdadeira robustez! Até mesmo no sentido tradicional da linguagem militar, no tempo dos gladiadores quando uns derrotavam os outros e quando o matador estava preparado para matar o perdedor, deixar de matar, voltar costas e afastar-se expondo o costado, constituía um tremendo acto de coragem, que geralmente era considerado perda de fé e acto que nunca deveria ser cometido, mas seja como for sugerimos que representava um formidável acto de coragem, a vulnerabilidade para ser suficientemente forte para exporem as vossas fraquezas - de forma discriminante, termo importante! - por ser aí que a cilada se apresenta, quando dizem:
"Tudo bem, vou ser vulnerável, vou-me colocar no topo do prédio e bradar para todo mundo de forma que todo e qualquer um possa conhecer as minhas fraquezas, e alguém irá tirar partido delas, alguém irá espetar a faca e revirá-la, e depois poderei voltar e dizer: Veem o ferimento? Veem o que a vulnerabilidade me fez? Amaldiçoada seja a vulnerabilidade! Nunca mais! - o que realmente traduzia a minha intenção, a minha agenda. Assim, sair por aí a ser completamente vulnerável para com toda a gente não só é sabotar-me a mim próprio a fim de satisfazer o meu desejo, para me dar a razão lógica para nunca ser vulnerável. Se te puder levar a magoar-me então poderei justificar esse nunca mais ser vulnerável de novo."
Esse é um truque muito chique, mas o vosso ego prega-lhes muitos truques. O único problema está em que por vezes a navalha entra e é revirada, e vós não recuperais mais. Mas o ego não lhes revelou essa parte; não lhes preencheu as cláusulas em letra miudinha: "Isso pode acontecer! Por vezes podes destruir-te ao provares segura e racionalmente que nunca deverias ter sido vulnerável e aberto, nunca devias ser amável, íntimo.
Essa terceira qualidade da vulnerabilidade: Ser suficientemente forte e poderoso, ser suficientemente confiante, ter valor em vós próprios... Ser vulnerável exige enorme vigor, entendem? E sabem de que modo se certificam dessas fraquezas? Sendo vulneráveis! Mesmo no sentido clássico e tradicional da actividade militar, se um comandante militar admitir as suas susceptibilidades, então algo poderá ser feito com relação a ele. Mas se for tão arrogante e tão apavorado que não admita que tenha um lado fraco, um flanco débil, e for vulnerável ao ataque, estará perdido. Napoleão em Waterloo! E assim sucede com a vossa própria consciência, por que o meio para terem robustez em vós próprios, o meio de revelarem esses pontos fracos, o meio de afastarem a possibilidade de poderem ser manipulados e magoados passa por exporem - de forma discriminada! - essa terceira qualidade.
CONFIANÇA
A quarta qualidade do estado de intimidade reside na confiança.
"Oh, lá vem a confiança de novo!"
Certamente! Conforme habitualmente dizemos, a confiança é apelo que as pessoas empregam indiscriminadamente:
"Confiança, pois sim. Que terá a minha vida de mal?"
"Não estás a confiar muito em ti próprio."
"Pois sim!"
É empregue dessa forma por ser um dos mais potentes instrumentos de que dispõem. Uma forma de controlar as pessoas, conforme reza nos manuais, é levando-as a sentir-se culpadas, controlar-lhes a sexualidade e impedir de terem confiança nelas próprias. Se conseguirem fazer isso, segui-los-ão por toda a parte. Levem-nas a sentir culpa:
"Oh, olha o que me estás a fazer...!"
Controlem-lhes a sexualidade e façam-nas sentir-se culpadas e erradas com respeito à sua sexualidade ou à expressão que adoptarem, e a seguir levem-nas a não ter confiança naquilo que são, e tê-las-ão apanhado e ter-lhes-ão capturado o vosso poder, quer pensem que tenham desistido dele ou não.
Por isso, confiança em vós próprios é importante; ter confiança é um dos instrumentos mais importantes e poderosos que têm ao vosso dispor, e é parte integrante desse estado de intimidade.
AFECTO E APREÇO
Em quinto lugar, um estado que contenha amor e apreço.
REDUÇÃO DA HUMILHAÇÃO
Em sexto lugar, o estado de intimidade é um estado em que o receio de humilhação é substancialmente reduzido. Alguns de voçês vão para o vosso quarto de dormir e fecham a porta, devido à probabilidade de não se humilharem a vós próprios aí, se estiverem a sós. Mesmo que deem uma topada com o dedo do pé não terão quem o veja. Sentem intimidade no quarto de dormir, quando se encontram lá sozinhos, por o medo da humilhao ter sido substancialmente reduzido.do se encontram lpadasis,  vulner fção ter sido substancialmente reduzido.
COMPREENSÃO
E por fim, o estado caracterizado por intimidade é um estado de compreensão. Por isso, quando se encontram numa situação de estado de espírito ou atitude, num estado de intimidade emocional, terão um sentimento de proximidade, ternura, humildade, confiança, um estado de afecto, um estado de apreço dotado de um receio reduzido de humilhação, e um sentido ou estado de compreensão. Isso é intimidade.
Agora, como o irão produzir? Amando! Praticando as sete acções do afecto, pelo que o colocamos desta forma - dando, interessando-se, amando - para os reduzir a três cláusulas. Dando, importando-se e amando, para produzirem essas sete qualidades. Se derem, a fim de prover não seguranças mas proximidade, se derem não só para proporcionarem segurança mas ternura; para proporcionar não só vulnerabilidade e sinceridade mas para se focarem na vulnerabilidade...
Por a sinceridade fazer parte da intimidade do mesmo modo que o amor; a vulnerabilidade faz parte da intimidade; se derem para prover confiança, o que representa o âmago do amor e da intimidade. E com o amor dão para poder prover intimidade e interesse. E com a intimidade dão a fim de produzir amor e interesse. E dão, não para prover à redução do receio da perda - que representa o maior receio do amor - mas para reduzirem o receio da humilhação - que representa o maior dos receios da intimidade. Se tiverem intimidade, ah, sem dúvida que será assustador perdê-las, mas afeiçoa-se mais assustador ser-se humilhado por causa da vossa intimidade.
E enquanto no amor, dão a fim de proporcionar conhecimento, para produzirem dão a fim de proporcionar compreensão. Mas isso subentende a humildade e a compaixão, que fazem parte daquilo que subentende a compreensão. Por conseguinte podem ver como fazem a mesma coisa, só que com uma intenção diferente.

(continua) 
Transcrito e traduzido por Amadeu António

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