domingo, 23 de outubro de 2016

BREVE ESBOÇO SOBRE A IMPORTÂNCIA DA FANTASIA NA INFÂNCIA



A aprendizagem da criança destina-se ao preparo não só para a vida e o mundo como para a compreensão de si mesma. A informação que a escola veicula presta-se à transmissão de um adestramento necessário para o alicerçar da compreensão futura, um lançar das sementes, por assim dizer, as indispensáveis para o subsequente desenvolvimento desses conhecimentos.

Para tal fim a criança não recebe um conhecimento acabado da parte de pais e professores, contrariamente à ideia que tanto uns quanto outros, nesta sociedade de massas dita moderna têm, de que os filhos devam funcionar à sua imagem, e alcançar uma maturidade precoce para o que concorrem positivamente com um paternalismo com que imprimem noções de consciência de bem e mal, de certo e errado, quando o que mais precisa é ser justamente crianças e de cometer asneiras no devido tempo, de modo a não as transferir para a idade adulta.

A informação destina-se a fortalecer os recursos interiores da criança, como o sonho, a fantasia, a imaginação, que fortalecem o sentido inato que a criança obtem, enquanto ser social e individual, o sentido de independência e de interligação, de singularidade e de criatividade. Destina-se a fortalecer  as bases adequadas da autoestima sem as quais obterá um preparo pobre que a deixará desamparada às mãos de programas sociais e de massas mais ou menos arbitrários que lhes incentivem a agressividade e as empurrem para as guerras, de cultos e de inescrupulosos que as atraiam para as malhas de ortodoxias, dogmas e panaceias nocivos ao seu desenvolvimento.

Nesse sentido, o irracional responde, como linguagem inicial por meio da qual a criança percebe os rudimentos das noções de bem e de mal, de certo e de errado, e representa tanto uma antecâmara para os confrontos que irá ter ao longo da vida como para a formação de identidade, assente, como sabemos, nos ideais primários e nos personagens fictícios que cria, e que pode responder pelo desenvolvimento da curiosidade e do gosto pelo aprender.

Mas representa igualmente recurso na apreensão do que de positivo e de bom descobre em si mesma, enquanto alicerce da futura compreensão e da liberdade, para o que já não concorre uma educação que se fundamente apenas no ajustamento social e para o campo do trabalho, que se baseie no cultivo exclusivo da memória nem nas compensações obtidas pela competição demonstrada em relação aos companheiros.

A educação deve promover o gosto pela aprendizagem e pelo conhecimento, o que requer dotes que, tanto pais quanto professores precisam desenvolver a fim de serem capazes de cativar a criança e de a endereçar para uma inquirição constante. E a informação que a educação transmite à criança, independentemente dos ideais dos adultos e dos programas dos governos, deve prestar-se ao enriquecimento e não ao empobrecimento da criança por meio do acalento dessa autoestima primária.

A esfera do irracional que engloba os contos de fadas radica no desenvolvimento desse enriquecimento, que conduzirá à gradativa compreensão e aceitação de si mesma, e eventualmente à dos outros, e  a uma compreensão primária do sentido da existência. Com um contributo de um enriquecimento desses a criança poderá chegar a fazer uma aproximação do potencial inato que tem e não centrar-se apenas no desenvolvimento do cérebro que se prende com o cultivo da leitura, da escrita e da matemática.

O desenvolvimento do irracional tem, na infância, tanta importância quanto a racionalidade tem na idade adulta, por poder contribuir para a formação de um equilíbrio sadio pelo confronto inicial com os lados sombrios do ser.
Daí que constatemos que, responder directa e positivamente com respeito à afirmação ou negação das fantasias aimentadas na infância seja contraprodutivo e denote uma ambivalência por evidenciar uma antítese fundada na lógica. Mas a a lógica não responde pela totalidade do ser. Podemos formar grandes engenheiros e doutores, porém, não podemos formar o Homem Interior sem o sufocar, porquanto precisa desenvolver-se de dentro para fora, naturalmente e com base no genuino apreço por so mesmo e pela vida.

Grande parte do nosso ser radica no inconsciente, pelo que se requer mais do que um trabalho com o intelecto para abordarmos o sentido que se pretende, acrescido da sensibilidade que exige para o cultivarmos na criança. Sem romper com a antítese do sim e do não, o educador jamais poderá educar para a liberdade mas tão só para o conformismo. E aquilo de que o homem mais carece é da liberdade com respeito ao dualismo a que a lógica obriga, que deve justamente ser objecto de consideração logo na infância, para evitar que o adulto venha a padecer de comportamentos compulsivos e disfuncionais.

Amadeu António

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