segunda-feira, 10 de outubro de 2016

AMAR


Muito bem. Bom, esta noite vamos falar sobre o amar, embora não vamos falar sobre amar a mãe, certo? Também não vamos falar sobre como conseguir um homem nem como encontrar aquela mulher. Não se trata de encontrar uma pessoa a quem amar e ter uma relação e com quem partilharem a vossa vida. Vamos falar de amar, coisa que infelizmente poderá parecer bastante vago, o que queira dizer, como isso funciona e:
“Não sei nada acerca disso.”
Que de facto constitui a declaração subjacente que denuncia que muito pouca gente sabe muito acerca do amar. Supomos que podíamos começar por algum tipo de piada brejeira relativa às demonstrações de amor que ocorrem nos intervalos ou algo assim, mas de facto trata de um tópico bastante sério e importante.
Já falamos em inúmeras ocasiões, e por vezes de forma específica, sobre a Grande Promessa que foi feita, ou o Sonho Americano. A Grande Promessa que a ciência, por meio da Revolução Industrial proporcionou. Uma promessa que jamais devia ter sido feita, uma promessa que jamais poderia ser mantida, mas que foi feita mesmo assim, de que a ciência no seu desenvolvimento e em particular através da Revolução Industrial subsequente, os avanços tecnológicos da vossa sociedade, a promessa feita por esse grupo de energias, uma Promessa Grandiosa sem dúvida, uma promessa que lhes oferecia domínio da natureza, com recursos naturais ilimitados, uma promessa que lhes oferecia uma riqueza material ilimitada, na verdade um consumo ilimitado, uma promessa que na verdade propunha a maior das felicidades para o maior número – competição velada. Uma promessa que na verdade propunha liberdade para fazerem tudo quanto quisessem fazer – egocentrismo velado. Essa promessa jamais deveria ter sido feita por nunca poder vir a ser mantida, mas que apesar disso foi feita, mas que falhou. O Sonho Americano falhou.
Bom; alguns sabiam disso faz tempo, e tinham vindo a ter consciência disso ao longo dos anos, e infelizmente nos passados dois anos, enquanto sociedade, vocês tornaram-se incrivelmente conscientes da promessa que fracassou, que conforme dissemos, produziu uma quebra na confiança e rompeu com a esperança; tudo quanto tem vindo a evidenciar-se em 81, 82 e a agora mesmo por 83, à medida que o vosso mercado de acções recupera e o desemprego cai um décimo de um por cento. Os dias felizes estão de volta à excepção de que não estão nada, por a confiança ter sido quebrada e a esperança rompeu-se.
Pois bem, nós não culpamos a ciência nem culpamos a Revolução Industrial, nem advogamos em parte alguma um retorno a algum estado pré-científico, ou à Idade Media ou à Idade das Trevas que alguns sugerem, ao defenderem que se deva desprezar toda a tecnologia de que dispõem e tudo quanto a ciência lhes tenha dado, o que se afigura como bastante ridículo e uma tolice, porque na verdade a ciência veio trazer um enorme benefício ao vosso modo de vida, à capacidade que têm de existir numa realidade que pode ser bela. E da Revolução Industrial não precisamos nem falar, por esta não ser uma lição de história.
Mas bastará dizer que a ciência forneceu aquilo que podia e o mesmo o fez a Revolução Industrial mas foi sobrecarregada, ao esperarem que fornecesse uma promessa que não podia fornecer. O fracasso não está na ciência nem na tecnologia; o fracasso está na expectativa que foi depositada em ambas. Mas houve mais baixas resultantes desse sonho destruído, dessa promessa deitada por terra, dessa promessa que falhou. Mas à medida que as pessoas cada vez mais despertam para o facto de que a Grande Promessa, o Sonho Americano fracassou, estão de facto não só a teorizar mas a sentir as outras baixas.
Porque, ao tomarem consciência desse fracasso, a filosofia e a natureza do género humano torna-se desafeiçoada. Por muitos já se terem tornado, e já têm vindo à muito tempo a ver-se desprovidos de amor. Porque em vez de esquecerem essa promessa rompida, em vez de a esquecerem, vocês preferem culpar-vos a vós, enquanto género ou raça humana:
“De algum modo ela não falhou, fui eu que falhei.”
De modo a conseguirem agarrar-se desesperadamente, por um tempo ou para sempre, a essa promessa quebrada e fracassada. Mas o que isso envolve é que, quando decidem que se resume tudo a vós e se culpam por não terem conseguido viver uma promessa que nunca deveria poder ser mantida, vocês alteram a filosofia da humanidade, e com a filosofia alterada também a natureza do género humano é alterada. E quando os recursos ilimitados de súbito se tornaram limitados, vocês culparam a vossa própria estupidez e a autodestruição e desse modo a humanidade tornou-se estúpida e autodestrutiva. Quando o consumo, que se pensava ser ilimitado, de repente se tornou limitado – uma brusquidão que surgiu nos últimos cinquenta ou sessenta anos – vocês culparam a vossa própria hostilidade intrínseca e a vossa ganância, e desse modo a natureza humana tornou-se intrinsecamente hostil e gananciosa.
Quando a felicidade deixou de ser tanto a maior como destinada ao maior número vocês culparam a elite, e subsequentemente tornaram-se elitistas, atolados no vosso próprio ego negativo, a tentar ser melhores que os outros. E quando a liberdade para fazer tudo quanto queriam fazer simplesmente não teve lugar, vocês culparam a falta de merecimento de que padeciam e a vossa estupidez intrínseca, destrutividade, ganância, e tornaram-se desafeiçoados.
A outra vítima foi que se tornaram numa humanidade que acreditou ser destituída de amor, e que a natureza básica do género humano era egocêntrica, negativa, destrutiva, gananciosa. E perderam aquela consciência de que a natureza humana básica seja a de amar, e que a natureza básica seja a de amar. Pois bem, esse pequeno problema foi agravado com o fenómeno característico do mundo ocidental chamado Ascensão Social. Esse é de facto um fenómeno que é muito mais característico do mundo ocidental, muito mais característico dos Estados Unidos na verdade, embora outras partes do mundo ocidental o tenham adoptado. Mas é um fenómeno estranho porquanto como oportunidade é brilhante, é maravilhoso, é absolutamente espantoso – acalentar os sonhos e as esperanças de se tornarem mais que a vossa ascendência.
Antes desse conceito da Ascensão Social na verdade o sucesso passava por ser quase tão bons quanto os vossos pais nos seus negócios – no caso dos homens; e para as mulheres o sucesso passava por replicar a família, tal como a mãe tinha feito, ter tantos filhos e com sorte do mesmo sexo que ela teve. Essa era a medida do sucesso, e uma pessoa podia chegar a conhecer tal sucesso se fosse quase tão bem-sucedida quanto o pai e seguisse as suas pegadas, e se tivesse uma prole saudável, como a mãe.
Mas depois graças a deus que surgiu esse conceito da Ascensão Social como uma oportunidade de ser mais, de ser diferentes da vossa linhagem tanto no que fazem como na forma como o fazem. Conceito que na verdade é velho mas que foi activado na vossa sociedade Americana da forma mais ambiciosa, e que passou da oportunidade de avançar pela ascensão, ser melhores que o vosso pai, ganhar mais do que o vosso pai, mas que passou de uma oportunidade para uma obrigação. E quando a ascensão social se tornou numa imposição vocês passaram a viram-se na obrigação de se saírem melhor do que o vosso pai e do que a vossa mãe. Deixou de ser uma oportunidade e uma alternativa e passou a ser uma necessidade.
Mas à medida que essa imposição de ascender na vossa sociedade me rápido movimento cresceu, como uma espécie qualquer de tumor, algum tipo de cancro, ela começou a consumi-los por aquilo que fez foi eliminar o sucesso; porque de facto um pai ganhava dez mil dólares no seu auge e vocês ganhavam quinze mil, daí inferindo a ascensão e que vocês eram melhores. Mas com toda a tecnologia e toda a inflacção, porque não vinte mil? E se atingissem o marco dos vinte mil, porque não atingir os vinte e cinco mil? E se por altura em que atingisse os sessenta tivesse alcançado os vinte e cinco mil dólares/ano, porque não atingir os trinta mil, quando tivessem com quarenta? A idade costumava ser uma medida de sucesso, assim, porque não duplicam ou triplicam agora a idade que têm?
Mas independentemente do sucesso que obtiverem com a ascensão social, nunca se mostra suficiente, porque para tudo quanto não tiverem alcançado, porque não terão atingido um patamar mais elevado? Lembrar-se-ão de regressar a casa cheios de orgulho com uma nota Bom e um relatório de aproveitamento escolar e a mãe não terá dito:
“Por que razão não conseguiste um Excelente?”
Quando a ascensão social passou de oportunidade a uma imposição, começou a crescer e a putrefazer-se e a consumi-los, e agora vocês aferem o vosso sucesso e não o conseguem encontrar, não em função da quantidade de dinheiro ou de ovação ou de fama ou de felicidade, mas porque não conseguiram mais, e mais cedo e de uma forma mais grandiosa?
O problema aqui torna-se quando acatam a crença na perpétua ascensão social enquanto imposição e a opõem à crença de um lugar restrito no topo, vocês criam uma batalha, uma guerra, e a perda, o perdedor são vocês, o perdedor é o amor:
“Só existir um melhor, e eu tenho que o atingir em teu lugar.”
Embora sorriam e usem palavras de carinho e o façam num tom de ternura, mas por baixo disso pretendessem derrotá-los, por não importar o quão avancem na ascensão social, se mais alguém estiver à vossa frente, vocês poderiam ter conseguido mais. Não mais se sentem satisfeitos com o fazer melhor do que os pais, por precisarem fazer melhor do que os vossos pares e têm que conseguir mais do que o próximo, e o amor fenece, enquanto perda provocada pela imposição da ascensão social. Mas uma vez mais, não estamos a afirmar que a ascensão social seja má e que devam retornar à profissão do vosso pai, mas estamos a sugerir que quando se torna numa obrigação enquanto crença que choca com a crença da sociedade de que existe somente um espaço reduzido no topo, se torna mortal, e vocês fenecem, e o mesmo sucede ao amor.
E com a invenção do bronzeado e da aveia instantânea surgiu a metafísica instantânea. Uma humanidade moribunda, por nunca se livrar de uma promessa que não resultou e continuaria em vez disso a agarrar-se a uma promessa que fracassou; moribunda por preferirem destruir-se do que abandonar uma promessa que nunca deveria ter sido feita. E a metafísica instantânea surgiu como um remédio, como uma solução: Um fim-de-semana e recuperarão todos os vossos problemas. Um curso, um livro, e todos os vossos problemas serão tratados. Em trinta e seis horas serão uma pessoa renovada.
Bom, Fritz Perls, de quem muitos de vós ouviram falar, ao falar do valor e da velocidade com que o trabalho da gestalt pode alcançar, sugeriu que viria um tempo nos anos sessenta e setenta, da terapia instantânea. Em vez de passarem anos na abordagem do Freud, ou meses, na abordagem humanista, através da gestalt ou da análise transacional, ou da terapia emocional emotiva, vocês poderiam em minutos a resolver tudo, e acertou. Mas também previu a devastação da metafísica instantânea, da terapia instantânea. E de uma devastação se trata, por pensarem que tudo quanto têm que fazer seja pagar o custo e preencher o lugar na cadeira e redigir o vosso nome de forma legível no formulário de inscrição, pelo que de algum modo tudo lhes venha a acontecer, e venham a corrigir o que os tenha vindo a corroer toda a vossa vida ou vem a corroê-los hà uma série de vidas numa questão de algumas horas.
Nós nunca sugerimos nem advogamos a metafísica instantânea: sugerimos que poderiam mudar em profundidade numa tarde; que poderiam mudar em profundidade e possivelmente transformar e transcender certos aspectos do vosso ser num fim-de-semana. Mas nunca sugerimos que isso seria tudo quanto tinham que fazer. Sempre sugerimos que há este passo e a seguir outro, e depois outro, e que ainda não terão terminado mas que poderão chegar perto de terminar; leva tempo na vossa realidade, e instrução e pensar e crescimento. Mas a metafísica instantânea surgiu nos anos sessenta e setenta, e ainda agora ainda há quem se atenha à metafísica instantânea. Há um seminário em que passam um fim-de-semana a cantar, como forma de resolver todos os vossos problemas. A sério, ficam sentados a entoar La, la, la; não palavras nem cantigas, apenas La, la, la uns para os outros, e raiva e felicidade e medo, e após os dois dias de algum modo terão sofrido uma transformação.


Transcrito e traduzido por Amadeu António

Sem comentários:

Enviar um comentário