sábado, 20 de agosto de 2016

VERGONHA - PRÉ INFÂNCIA



A vergonha - termo bem carregado, tão conotado de aspereza que nos leva quase a sentir vontade de nos aninharmos perante o tom que encerra. Mas trata-se de um conceito muito importante - e assustador para muita gente – para muitos que sentem uma enorme quantidade de vergonha e que atravessam a vida fingindo o contrário, enquanto se esquivam da própria palavra e do próprio conceito; mas, talvez de uma forma irónica e triste, os que mais precisam atender à natureza do que vai ser referido acerca da vergonha e os que mais se coíbem de o fazer.
O termo em si mesmo é de difícil definição, é certo, e ainda mais difícil é a compreensão da vergonha, mas mais difícil que tudo é compreender e tratar do sentimento que encerra. E muito embora a vergonha constitua um problema da vida presente, diferentemente de outros que possivelmente poderão ter, cada um de vós desenvolve o seu sentido de vergonha numa altura anterior à do desenvolvimento da linguagem verbal – daí a definição resultante!
A vergonha é estabelecida na infância pré-verbal. Cada um de vós carrega vergonha; sim todos vocês possuem (sentido de) vergonha, em grau variável, é certo, e para alguns tem representado uma vergonha saudável, mas para a maioria de facto tem sido uma vergonha pouco salutar e restritiva. Mas toda a gente, todos quantos se encontram na condição humana conhecem a vergonha.
A vergonha representa uma emoção real; e consequentemente tem um impacto potencialmente positivo, assim como um impacto óbvia e manifestamente negativo. E essa será porventura uma primeira questão que se revela de vital compreensão – o facto de a vergonha constituir uma emoção real; a culpa não passa de uma invenção e só possui implicações negativas, mas a vergonha constitui uma emoção real, e como emoção real que é, possui um lado positivo e um lado negativo, uma face luminosa e uma face sombria; uma parte visível e uma parte invisível. Quando a vergonha é positiva e é expressada, é parte imensamente poderosa e vital importante no desenvolvimento humano. Quando é negativa, pode ser imensamente, e de facto é quase por completo destrutiva nesse mesmo desenvolvimento humano.
A vergonha é uma emoção que pode facilitar a definição ou instigar a vossa própria negação. A vergonha constitui igualmente um estado de espírito. Mas é mais do que uma emoção, porquanto não obstante começar por um sentimento, transforma-se num estado de espírito. Conquanto possam inicialmente sentir vergonha, quando ela é internalizada, a certo ponto deixam de sentir vergonha – passam a ser a própria vergonha! É um estado de espírito que pode facilitar o vosso desenvolvimento ou destruição. E por isso a vergonha, nas suas diferentes fases, tanto pode definir e desenvolver o Eu, como o pode negar ou destruir. Agora, quando a vergonha é positiva, quando é expressada, quando é tratada de uma forma franca e sincera - à semelhança de qualquer emoção que é expressada e tratada com franqueza e sinceridade - é positiva, e representa o que chamamos justamente e de forma concisa de remorso. A vergonha positiva constitui o remorso. E o remorso constitui uma parte poderosa e muito importante do vosso desenvolvimento infantil e humano.
A primeira introdução à vergonha tem início ou ocorre – no caso de cada um de vós - algures lá por entre os dezoito e os trinta e seis meses, ou entre o ano e meio e os três anos de idade. É naquela fase que se costuma designar por “terrível fase dos dois”, quando na verdade a criança descobre:
“Eu não sou a minha mãe; eu existo separada da minha mãe.”
Que descoberta mais prodigiosa – e terrífica, quanto a esse aspecto! Mas que descoberta mais prodigiosa!
“Eu existo à parte da minha mãe.”
Mas mais do que isso:
“Também existo à parte de tudo o mais. Eu sou a minha própria pessoa.”
Claro que não tem a menor ideia do que isso queira dizer, nem tem a articulação linguística para o expressar, mas tem o sentido, a percepção de existir apartada da mãe e de tudo o que existe no mundo. E é por isso que esse período é chamado da “terrível idade dos dois,” devido a que subitamente se veja a explorar toda essa separação e a tocar nisso e a derrubá-lo, e se veja a meter-se em tudo e mais alguma coisa, por ser tudo distinto dela, o que deixa a mãe enervada até à ponta dos cabelos; no entanto, realça esse maravilhoso sentido de separação que é explorado por essa altura.
E é por essa altura que a mãe precisa dizer:
“Não. Má! Errado! Não faças isso!”
Assim como, ocasionalmente:
“Sim! não tem importância,” e por vezes lá podem avançar. E é durante esse período que a vergonha é introduzida. Agora, quando ela é introduzida, a criança tem duas opções: Tanto pode crescer à luz da positividade e florescer nessa coisa maravilhosa que se chama de remorso – a faculdade de saberem que estão errados; de cometer um erro e de o admitirem; de se sentirem embaraçados e envergonhados pelo comportamento que tiveram, pelas acções que cometeram e pelo impacto que isso tenha exercido. Assim como essa vergonha introduzida pode ser retida, pode ser suprimida, oprimida, reprimida, deprimida. Pressionada de múltiplas formas até se tornar numa face negativa a que chamaremos, para os propósitos desta noite – vergonha!
A vergonha positiva representa o remorso, e a vergonha negativa representa a vergonha propriamente dita. Pode ser reprimida e pressionada até àquele estado designado por vergonha. E embora seja reforçada e internalizada após esse período, sempre é introduzida por altura dos dezoito até os trinta e seis meses; do ano e meio até aos três anos de vida. Agora, durante esse período em que reconhecem existir separados, descobrem essa vergonha e ela torna-se positiva e transforma-se em remorso. E o remorso constitui uma energia poderosa e positiva por provocar inúmeras coisas; é uma energia vital e importante na vossa realidade, entendem? Antes de mais, o remorso permite que cometam erros; permite que sejam humanos. Em segundo lugar, o remorso constitui a base e o combustível para toda capacidade de perdoar, e por conseguinte, para se perdoarem a vós próprios. Se não sentirem qualquer remorso, nada terão a perdoar – nem coisa alguma por que ser perdoados. O remorso é uma parte integrante, um ingrediente importante; é a base e o combustível dessa capacidade do perdão e da remissão, ou indulgência.
Além disso, o remorso é o que os ajuda a definir e a conhecer aquelas partes da vida para que estão preparados, e as partes da vida para que não se encontram preparados. Na verdade não é o único ingrediente, mas é um ingrediente vital e importante para os ajudar a discernir onde estarão preparados e onde não estarão preparados. Quando se comportam de uma forma que produza acções que os levem a sentir remorso percebem não estar preparados. E noutras áreas em que não haja acções que produzam remorso, isso indicará que estarão preparados.
Em quarto lugar, o remorso cria a fricção, o remorso cria o atrito que lhes permite precisar e querer e saber em que consistirão esses querer e essa necessidade. Por ser aquela fricção, aquele calor, aquela energia que aquece que muitas vezes lhes permite definir as necessidades que têm, ao invés das necessidades dos outros - e que desejos serão esses que têm, ao invés dos quereres dos outros. E o remorso provoca aquele atrito que lhes permite determinar o querer e a necessidade.
O remorso também motiva a escolha e a mudança. Quando consideram um determinado comportamento que tiveram, uma parte específica desse comportamento, e decidem querer mudá-lo, porque será? Por se tratar de um comportamento estupendo? Por gostarem tanto dele? Por ser encantador? Não! É por sentirem essa sensação de remorso, constrangimento, vergonha, acanhamento, que é tudo com que o remorso tem que ver. E por sentirem remorso, sentirão motivação para mudar, e sentirão motivação para assumirem opções diferentes das que tenham assumido antes. Sem esse remorso, teriam muito pouca - se alguma mesmo – motivação para fazerem alguma coisa que não o que já tenham feito.
Para além disso, mais tarde ao longo da vida, o remorso vai combinar-se com os princípios a fim de produzir o carácter; confere profundidade ao carácter; daí ser um ingrediente importante e vital. E por fim, é o remorso que planta as sementes da consciência de si:
“Eu produzo impacto.”
E é o remorso que planta as sementes da realização pessoal:
“Eu posso direccionar esse impacto. Porque, embora não seja Deus, a Deusa, o Todo, eu sou uma parte d’Ele que se está a tornar numa parte maior.”
E por isso, com a presença desse ingrediente que é o remorso no vosso sistema, que começa (e prossegue, mas que começa) a desenvolver-se entre os dezoito meses e os trinta e seis; com esse remorso podem ser humanos, perdoar, conhecer o preparo ou falta de preparo que reúnam, ter necessidades e quereres, escolhas e mudança, carácter, e na verdade todo um sentido, um sentido sincero e real de espiritualidade, que não seja unicamente uma religião nem uma filosofia, uma teoria ou uma prática, mas que constitua uma forma de vida. E mesmo mais do que um modo de estar na vida, que seja vida, que embora reconhecidamente não constitua o único ingrediente, constitui ingrediente vital e importante em todos esses componentes.
E por isso, o remorso – o aspecto positivo da vergonha – é uma parte vital do desenvolvimento físico, emocional, mental, e eventualmente espiritual mesmo. Mas se essa mesma vergonha, que foi introduzida durante esse período da vossa vida tiver sido reprimida, suprimida, oprimida, deprimida, negada, ocultada, enterrada, então ter-se-á tornado vergonha, e tal como o remorso constitui uma energia positiva, também a vergonha será uma energia destrutiva. Porque com a vergonha, não terão permissão para cometer erros – vocês serão um erro! Não terão sentido de perdão – vocês não serão dignos de perdão; serão imperdoáveis, não só pelo que tenham feito mas pelo que são! A pessoa baseada na vergonha sente isso, e embora consiga cultivar técnicas de perdão, jamais permitirá que funcionem, jamais acreditará que resultem, por saber que é indigno de perdão.
Estará preparada para a vida? Esqueçam isso! Não se encontra preparada para a vida. A vida é uma experiência de completa falta de preparo, por se achar alienada e isolada, abandonada; e por isso, os objectivos que tiver a longo da vida serão no sentido de a atravessar pelo melhor que for capaz – e não de tentar preparar-se, nem de estar pronta para lidar com o que quer que lhe seja arremessado no caminho. Quererá passar pelas ciladas e pelos tumultos com vontade de chegar ao outro lado e morrer, sem demasiada dor nem agonia, sem grande peso ou preocupações em relação àqueles que a rodeiam. Quererá andar tão entorpecida quanto puder, ser tão obcecada e viciada quanto puder, pôr termo a esta experiência de vida para atingir o outro lado - para quê? Para morrer. Mas com a esperança de que haja alguma coisa de melhor, do outro lado – mas não pode ter a certeza disso!
Preparada? Nem brinquem com isso! A pessoa nessa condição não tem qualquer sentido de preparo. Necessidades e quereres? Ah, ela tem-nos, mas constituem mais fontes de vergonha, fontes adicionais de constrangimento e de humilhação:
“Eu não devia ter necessidade alguma. Não devia ter nenhum querer. E decerto que não devia senti-los antes de toda a gente, antes dos de mais ninguém à face do planeta; antes que toda a gente à face do planeta tivesse as suas necessidades e quereres satisfeitos, e então talvez eu pudesse ver umas quantas necessidades satisfeitas, pela minha parte.” Talvez!
Mudança? Nada muda, nada apresentará qualquer diferença. Poderá proceder a todas as escolhas do mundo, poderá fazer escolhas até ficar careca, que isso não irá adiantar nada. Nada muda; nada será diferente. Tudo será sempre o mesmo.
“A vida é uma cadela, e depois morremos!”
E é tudo. Não vos enganeis, pois fazer o contrário não passará de fantasia, procurar enterrar a cabeça na areia.
Carácter? Isso é algo que é estranho à pessoa envergonhada. E a vergonha deixa-os fora de muita espiritualidade sincera. Ah, podem juntar-se à religião que quiserem, e ser bem acolhidos; podem aderir ao grupo que quiserem, que em grande parte também os acolherão bem; poderão respeitar todos os rituais da espiritualidade que quiserem – de cor – mas não terão qualquer direito a eles.
E embora possam meditar e ter intimidade com o vosso Eu Superior, e entre os vossos amigos possam gabar-se de que vós e o vosso Eu Superior sejam bons amigos e que sejam muito íntimos, sabem, nos recessos dos vossos segredos que o relacionamento com o Eu Superior que têm será, na melhor das hipóteses, duvidoso, e que provavelmente não terá existência, por a vergonha os ter apartado. Poderão ler os livros e as técnicas, mas elas não parecerão resultar, pessoalmente. Processam e programam mas não parecem obter o mesmo tipo de resultados que os outros obtêm, ou que ouvem os outros contar-lhes; Por terem sido postos de lado. E por isso, tudo quanto existe de técnica e de ritual, nada terá realidade. Esperam que seja porventura um dia destes, mas com a vergonha jamais chega a tornar-se real; jamais chega realmente a resultar.
Ora bem; estamos reconhecidamente a ilustrar ao extremo, mas vocês sentem vergonha de uma forma contínua, isso é bem verdade, e por isso esses efeitos debilitantes afectam-nos de uma maneira igualmente continuada, mas sugerimos que essas sejam as características das situações em que o remorso se terá tornado negativo, em que o remorso se terá tornado numa vergonha enclausurante, numa vergonha debilitante. Mas alguns de vocês sentem de uma forma intensa e outros sentem por graus de intensidade variável.
Existe um escudo negativo, entendem? Um escudo negativo que se coloca entre vós e tudo quanto podiam ser, tudo quanto podiam ter. A pessoa envergonhada ouve dizer que podem ter tudo, e pensa:
“Ah, se isso pudesse ser verdade! Talvez para os outros, mas com certeza que não para mim.”
E existe um escudo que se posiciona entre vocês e Deus, a Deusa, o Todo; entre vocês e o vosso Eu Superior; entre vocês e as outras realidades; entre vocês e os sonhos que o futuro pode conter. E esse escudo é feito de muitos componentes e vocês constroem-no, e se tivessem que o esquematizar deveria parecer-se com algo do género: Um círculo que representa tudo quanto não é suficientemente bom. A primeira parte que vemos é a linha de acesso do meio, e isto (...) acima da linha representa aquilo que o mundo vê em vocês. E o primeiro nível que é percebido, o primeiro nível que aparece é o da relutância, ou da recusa para receber amor. Esse é a porção mais evidente do escudo; a parte com que a maioria se consegue identificar e que é capaz de admitir e ver nos outros.
A seguir, por debaixo, vem a camada que diz: “Autopunição,” onde dão por vocês e pelos outros a fazer coisas de uma forma autodestrutiva, a castigar-se com palavras de escárnio, a castigar-se com dúvidas, preocupações, receios, ansiedade, e exigências de perfeição em que sempre falham; a punir-se com o fracasso. Vocês fazem isso; vocês veem isso, e têm conhecimento íntimo disso. Mas então torna-se emocional e mesmo físico à medida que as pessoas infligem punição a si próprias quando à beira do sucesso partem uma perna; quando à beira do sucesso têm um acidente de automóvel ou descobrem uma doença, ou de uma forma qualquer se debilitam e se castigam ao perderem todos os amigos que têm, ou tudo quanto teria importância.
E vocês veem isso e dizem:
“Olha para mim, olha para a punição que estou a infligir a mim próprio e o nível que alcança.”
E veem isso na debilitante influência que exerce. Abaixo disso, menos óbvio mas muito presente, está a auto sabotagem que prossegue, onde dão por vocês na noite anterior ao primeiro encontro incapazes de dormir, e acordam completamente exaustos; ou têm aquela enorme discussão com a pessoa que tanto significa para vós na noite antes do encontro mais crítico das vossas vidas, em que tudo, em que o vosso futuro parece ser engendrado, e esta é a noite em que escolhem ter aquela discussão sobre algo perfeitamente inconsequente. Ou então, mesmo às portas de um acontecimento qualquer em que a vossa vida é exposta, ou em que a manipulação vem à superfície, ou em que fazem algo a vós próprios para sabotarem, para desmembrar o que tiverem vindo a construir, ou se arruínam ou dizem a coisa errada: levantam-se a fim de fazer a apresentação e – zás! Ou derramam tinta ou esparguete na blusa que iam usar, mesmo antes de o fazerem; algo desse tipo, ou mesmo mais embaraçador do que tinta.
Sabotam-se sem sombra de dúvida. Essas coisas acontecem e todos estão habituados a elas em grau de constrangimento diversificado. E isso faz parte desse escudo negativo, desse bloco de negatividade. Abaixo disso, mesmo acima e abaixo da linha, estão os vícios, as obsessões, os venenos, as compensações, as perpétuas compensações de que estamos sempre a falar, mas conforme dissemos, se deixarem de as aceitar deixaremos de as debater. (Riso) Mas nesse sentido, o vício do álcool, o vício das várias drogas, as obsessões que têm, os vícios do que quer que seja de abstracto ou de tangível que ganham na vida; alguns deles vêm à superfície enquanto outros permanecem ocultos - mas igualmente viciantes e destrutivos. Frequentemente aqueles de vós que tiverem frequentado uma reunião verão isso com toda a clareza, aquela gente que padece de profundos problemas de bebida e que se viciou no álcool, parte da qual tem vindo a manter-se sóbria há anos. Podem ir às reuniões e começar a fumar tabaco aos pacotes e começa a beber vinte cafés por dia, ou a comer dezasseis refeições ao dia e a dizer que não estão mais viciadas, e que abandonaram o vício, e que já não bebem há dez anos, mas o que conseguiu foi unicamente substituir um vício por outro vício, e chegar mesmo a ficar viciada nas reuniões e a chegar a participar em sete reuniões em quatro dias, ou todas as semanas da sua vida, e a dizer:
“Não, não estou mais viciado.”
Claro que não, entendem? Os vícios surgem e voltam a desaparecer.
Mas depois, abaixo desse nível, por baixo da superfície, no nível seguinte, que se rompe, existe, claro, a negatividade, a culpa que paralisa, a culpa que destrói, a culpa que leva a realidade a degenerar, e que se detém, em muitos de vós, por baixo do merecimento proverbial do sentimento:
“Culpado ou não, eu não mereço. Eu não mereço a realidade de que a vergonha certamente faz parte.”
Mas o ponto de partida, o núcleo, a própria base disso assenta na própria culpa. E é onde isso tem início, e isso permeia todos esses níveis e passa pela vergonha, pela depressão, pelos vícios, pela sabotagem, pela punição, pela recusa e pela negação do amor.
E isso é o escudo, a forma como é erguido no caso da maioria de vocês, e é isso que se coloca entre vós e todas as coisas no exterior, todas as coisas boas que a metafísica lhes promete, todas as coisas boas que a espiritualidade lhes promete, todas as coisas boas que o potencial humano lhes promete. Está tudo aí e é o que Deus, a Deusa, o Todo são; é o que o vosso Eu Superior é; é onde todos os vossos sonhos maravilhosos residem. Mas o que se posiciona entre vós é esse escudo de negatividade. Mas nós trabalhamos isso ao longo dos anos; vocês trabalharam isso; o movimento do potencial humano tratou de posicionar o material correcto aqui, tratou da aprendizagem das técnicas acertadas aqui; procurar manipular isto, livra-los da culpa, dominar o vosso merecimento, que muitas vezes é tratado dizendo:
“Ah, toda a gente o sente.”
Como se de algum modo quisesse dizer que não precisa ser tratado.
Mas a vergonha é a última coisa, a vergonha é aquele aspecto de que ninguém quer mencionar, até mais tarde, graças a Deus. Nestes últimos anos tem havido quem tenha revelado suficiente coragem, tal como vocês foram suficientemente corajosos para vir até aqui esta noite, corajosos o suficiente para ouvir falar da vergonha como algo de real e tangível e como algo de que precisa tratar. Por residir no âmago, e isso envolver uma enorme dose de intensidade. Uma coisa é falarem da dificuldade que têm em acolher o amor, entendem, ou falarem em se punirem a si mesmos, ou até mesmo de se sabotarem, o que é um pouco mais embaraçoso; É mesmo mais valente falar dos vícios, e por conseguinte, muitas vezes necessitam de grupos de apoio que lhes dê coragem para falar disso e para admitirem o que estiver acima da superfície, mas depois, de forma mais clara, necessitam de intensidade para lidar com aquelas que permanecem abaixo da superfície.
A culpa, nesse sentido, constitui uma emoção embaraçosa, assim como o merecimento; mas acima de tudo a vergonha. Quando isso se apresenta no caminho, não atingem esses outros lados; ou poderão em certas ocasiões perfurar o escudo, rodeá-lo por um tempo, mas parece estar sempre a postos para os assombrar, para os seguir, como um tipo qualquer de sombra que ameaça surgir em qualquer altura, aquela sensação:
“Eu não sei; algo vai correr mal. As coisas estão a correr demasiado bem e facilmente. Tudo parece estar a correr na perfeição. Algo vai dar para o torto. Algo vai acontecer...”
E subitamente - bum! Aí a têm. Correu mal. Tinham razão. Mas isso é demasiado perigoso, entendem? Mas quando o escudo se torna verdadeiramente perigoso é quando dá uma volta sobre si próprio, quando roda 90 graus e se torna assim (esquematiza no quadro), com a linha do meio aqui, em que a vossa vergonha se mostra, em que a falta de merecimento, a culpa e os vícios se tornam parte da vossa condição física.
Considerando que nesta posição isso permanece abaixo da superfície, quando se volta, então tudo isso se revela, e é quando têm noção de se encontrar verdadeiramente em apuros, e numa situação devastadora. Não que estejam além da censura, nem que estejam além da recuperação, nem além do alcance, mas quando se volta dessa maneira aí sabem estar verdadeiramente em sarilhos e o melhor é que comecem rápido. Não têm tempo para pôr isso de lado até ao Verão seguinte, nem até quando tiverem mais tempo para tratar dessas coisas, por elas lhes estarem agora a executar a vida.
Tratamos do amor por muitas formas, e continuaremos a fazê-lo, no sentido de os ajudar a receber, e de se abrirem ao acolhimento de mais amor; tratamos da autopunição e da auto sabotagem em workshops de título alusivo. Tratamos, embora não directamente, dos vícios, mas certamente dos venenos e das compensações enquanto energias de dependência, e por certo que falamos da culpa e da falta de merecimento. Aludimos à vergonha em vários workshops, e mencionámo-la em diversas alturas como o ponto de partida, mas esta noite pretendemos dar uma olhadela ao que ocorre, ao que corre mal.
Por que razão a vergonha, que de outra forma poderia vir à superfície e florescer sob a forma de uma belíssima energia chamada remorso, por que razão vira coisa ruim? Por que será que ingressa, e se internaliza a ela própria? E por que razão não só sentem vergonha como se tornam na própria vergonha que sentem? Há razões para isso acontecer, bem específicas e explicáveis, razões acessíveis, que assim que começarem a entender poderão começar a inverter. E a primeira razão parece tão óbvia que poderia ser ignorada; a primeira razão é que lhes é incutido, é-lhes ensinado a sentir vergonha e não remorso. A gente crescida, entendem, a certa altura passou por uma idade compreendida entre os dezoito e os trinta e seis meses; os vossos pais, acreditem ou não, antes, foram bebés. E durante esse período tão crítico, eles também experimentaram vergonha. Mas, em vez de ser elevada ao remorso, foi reprimida, pelos pais deles. Os vossos avós, a determinada altura também tiveram dezoito e trinta e seis meses, tiveram a vergonha suprimida e reprimida, e isso passa de geração em geração, fazendo parte da herança que é passada. Não é só genética nem ambiental, essa herança, como faz parte da herança que é passada.
De modo que aqui temos agora esta pessoa que encheu os aliados de vergonha, que é uma pessoa que padece de vergonha, que agora conseguiu atravessar a infância, que conseguiu trazer à superfície por meio de lições e meios os quais possivelmente não vos poderia contar, e ela é empurrada para o mundo, e que é uma pessoa crescida que carrega vergonha, e ela procura alguém que a ame, alguém que lhe tire a vergonha. “Que vergonha?” Ela não irá admiti-la. E assim, numa bela noite, numa sala silenciosa (riso) descobre-a – uma outra pessoa que padece de vergonha (riso).
“Não sei o que é mas há alguma coisa em ti com que me sinto relacionado. Parece existir aqui um tipo qualquer de química, uma energia maior do que a vida; talvez seja carma, talvez sejamos almas-gêmeas, talvez estivéssemos destinados a encontrar-nos.”
Já tivemos ocasião de sugerir que se encontrarem alguém e se apaixonarem loucamente por ele ou ela na primeira noite, e ao fim do primeiro dia comtemplarem o casamento – tenham cuidado – porque essa não é a coisa de que os relacionamentos bons e sólidos sejam feitos. Conversamos com uma mulher que a esse respeito nos contou acerca de um homem que conheceu e com quem de algum modo teve uma noite encantadora e gostosa que não conseguiu compreender – e ela era suficientemente sensata para ser ardilosa, mas em vez de o ser inquiriu-nos com respeito a isso. Nós estávamos conscientes do homem de quem falava, que também vinha assistir aos seminários, e o que lhe apontamos de uma forma fascinante foi que o seu maior problema, a sua maior némesis era o martírio, aquele que foi escolher de entre um milhar de pessoas era um dos mártires mais clássicos que alguma vez conseguiriam imaginar. E aquele imediato entusiasmo aberto representara um ego a ligar-se a outro. (Riso) E sugerimos que a encorajamos a separar-se, mas a questão está em que uma pessoa com vergonha encontrará uma outra pessoa envergonhada e muitas vezes sentirá que ela seja “A tal”. E então duas pessoas envergonhadas casam-se; ambas negam e encobrem a vergonha que sentem, ambas embaraçadas pela vergonha que sentem, à espera que o outro, de certo modo intuitiva e automática o alivie, sem saber o que esteja mesmo a fazer para a aliviar. Quando isso sucede, essas duas pessoas envergonhadas muitas vezes decidem ter um filho, e têm um filho e avançam no sentido de descarregar toda a vergonha que sentem na criança.
As pessoas que sentem vergonha procuram deixar de a sentir – razão porque dizemos que cada um de vós sente vergonha, e aqueles de vós aqui presentes que fazem disso um problema talvez sintam mais vergonha do que aqueles que relutante ou francamente admitam que sim, que sentem vergonha. Por uma das pistas mais evidentes de uma vida repleta de vergonha se achar na declaração do despudor ou do descaramento. E pais que agem com base na envergonha afirmam não carregar vergonha, e durante o processo de declaração do despudor descarregam toda a vergonha que carregam na criança, ou numa multiplicidade de crianças, por diversos modos. Aqueles de vós que possuem pais que carregam vergonha, tiveram a vergonha deles despejada em vós, através das suas tentativas parentais de alcançar o despudor. De que forma a aceitaram? Alguns de vós desdenharam e conseguiram dar o salto, e por conseguinte foram capazes de escapar a esse período crítico – que é de supressão – e por isso permaneceram mais ou menos incólumes. Mas esses foram muito poucos, muito, muito poucos. A maioria de vocês levou com essa vergonha, e assim, a vossa vergonha, que podia ter-se tornado remorso tornou-se numa vergonha enclausurante e negativa em vez disso, e carregaram-na em vós.
Agora em relação àqueles pais que tentam não sentir vergonha, existem basicamente dois modos; um dos modos por que um pai ou ambos tentam não ter vergonha é transformando-se em mais do que humanos – no pai perfeito:
“Eu vou criar este catraio correctamente; vou ser o pai que jamais tive; vou amar esta garota e tomar conta dela e tratar dela de forma que cresça uma pessoa decente que não sinta a... vergonha (sussurrado) que eu sinto. Vou ser uma mãe perfeita; não posso fazer nada de errado nem cometer erros. Eu sou o pai perfeito. Mas se o catraio não for perfeito isso será culpa sua; não se deverá a nada que eu tenha feito, não se deverá ao comportamento que eu tenha tido – não, eu terei sido o pai perfeito. Eu terei feito tudo acertadamente – o defeito estará nele, ela é que é má.”
Ou então transformando-se – senão no pai perfeito – no pai ou mãe controlador:
“Vou controlar a educação desta criança por completo; cada faceta, cada fase. Vou controlá-la para que acabe por se tornar perfeita e absolutamente às direitas. Vou controlar cada detalhe, cada nuança, tudo quanto fizer e tudo quanto disser; vou pôr-me a presenciar cada passo que der, não a vou perder de vista de modo que nada possa dar para o torto. Vou controlá-la, escolher a escola que frequenta, escolher os amigos que irá ter, os pais desses amigos, as festas a que vai ou deixará de ir, as roupas que irá vestir, as actividades que vier a empreender; vou escolher com quem irá namorar, quem irá ver, os eventos sociais em que se irá envolver; vou decidir o que for melhor para ela, se será chefe de claque ou capitão da equipa de futebol. Vou controlar por completo a sua vida de forma que nada possa dar errado. E vou-me tornar numa super mãe ou num super pai – mais que humano.”
Ou então no pai corretíssimo, no pai completamente correcto, totalmente perfeito, para quem o que quer que aconteça no mundo o leve a sentir-se justamente indignado, justamente furioso, justamente confundido por o que quer que estiver a acontecer no mundo, o pai completamente recto, que jamais comete erros e que jamais faz algo de errado, que nada diz de errado, que jamais tenha cometido um erro por menor que seja.
Ou então, na mãe que se destaca; na mãe que se levanta às 6:30 para preparar os catraios para ir para a escola e voltar às sete e meia para proceder às limpezas da casa, e que deixa o almoço preparado no frigorífico, para que quando eles voltarem mais tarde... e para que possa ir ao seu jogo de golfe das 9:30 até às 10:30, após o que tem que ir ao clube das floristas fazer arranjos até às 11:30 para depois ir almoçar até às 13:30, para regressar para costurar um vestido do balé para a filha e para que às 2:45 possa encontrar-se lá quando os catraios regressarem da escola e pegar neles e ir brincar até às quatro menos um quarto, altura em que tem que ir tratar do jantar. E depois do jantar trabalha no seu próprio projecto no aperfeiçoamento dela própria, lê, marca livros de uma ponta à outra. Tem que fazer todas essas coisas sofisticadas e maravilhosas para poder ser uma mãe sobre que supere as expectativas. E para cúmulo disso, ela ainda trabalha entre as oito e as cinco, e consegue conjugar tudo isso. (Riso)
Ou então no pai sobrehumano que mantém dois empregos e que joga golfe ao Sábado e ténis ao Domingo e que todas as noites lê o jornal até às onze da noite e que depois ainda vai para o pátio jogar futebol com o filho, ou sentar-se a conversar ou a balançar a filha sobre os joelhos, a leva ao balé e às aulas e entretanto leva o filho à equipa de softebol e aos escuteiros, executa todas essas actividade para depois ainda ir para o segundo emprego aparte, para enviar os filhos para as escolas apropriadas e poder garantir que sejam admitidas, com o elevado custo que comportam, porque se pagar cinco mil dólares por ano deve ser uma escola boa, em vez de a enviar a uma escola básica, e para depois as mandar para o colégio apropriado ou internato, ou escola preparatória, de forma que possam chegar a levar uma vida decente. O progenitor que supera a medida constitui o progenitor que carrega vergonha ao se obcecar com a vida perfeita, com uma vida em que tudo seja perfeito; e tais progenitores passam a exigência sobre humana, mais que humana, aos seus filhos. E depois vós, enquanto filhos, precisais ajustar-vos à perfeição exigida, e deixar a mãe e o pai orgulhosos com o que quer que façam.
“Não nos desapontes; não nos deixes ficar mal. O teu pai sustenta dois empregos para ser capaz de pagar isso, não o deites por terra. Eu costurei o teu traje de coelho com o tecido mais caro, é melhor do que o de alguma outra aluna da sala; não tropeces com ele. Sê a menina perfeita. Eu consegui que te alistasses na liga do softebol, paguei as cotas extra para me assegurarem de que jogavas; não estragues tudo. Eu comprei-te o melhor uniforme, o melhor taco, não quero saber que só tenhas seis anos, trata agora de seres a estrela da tua equipe de basebol ou de futebol. Fica na posição ofensiva, e senão avançado então passa à dianteira, mas seja como for, não fiques na reserva, por favor!” (Riso)
“Sê um filho controlado; sê uma filha perfeita; não repliques nem faças cenas; não faças nada de inesperado; não faças nada que a mãe ou o pai não querem que faças. Sê um filho honrado e brilhante; aprende francês aos três anos, cálculo aritmético aos cinco, trigonometria aos sete anos para eu te poder mostrar a todos os meus amigos, por seres à minha medida, e por eu te poder dar um soco e tu cumprires, e eles poderem dizer como sou um excelente pai, que pais maravilhosos somos, por seres capaz de recitar este poema ou falar numa outra língua...”
Aqueles que se deixam enamorar pelos filhos sobrehumanos e pelos filhinhos perfeitos cujas mães ensinam os filhos a virar cartas em seis meses, estão a incutir vergonha nas crianças, por exigirem algo que não pode ser feito. Nenhuma criança poderá ser completamente perfeita, completamente controlada, recta ou brilhante, e sentir-se bem consigo própria. Mas muitos de vocês passaram por isso, os vossos pais deram-lhes um tratamento desses, e suplantaram a medida, comportaram-se na perfeição, fizeram tudo correctamente e sentiram-se vazios e ocos por dentro e sentiram que algo estivesse muito errado convosco: a anorexia, um fenómeno comum que ocorre mais no caso das jovens do que dos rapazes, constitui uma tentativa da criança ser mais do que humana, e de se elevar acima da própria necessidade do alimento, da própria necessidade de um corpo:
“Tornar-me impuro com comida é tão vil; preciso ser perfeito,”
Por conseguinte:
“Tenho que existir sem comer, sem excessos...”
Pais mais que humanos são os pais que carregam vergonha que tentam não ter vergonha de modo que descarregam a vergonha que sentem em vós.
No outro extremo está o progenitor que é menos que humano. O pai ou mãe que se enfurece. Mais frequentemente visto no caso dos pais mas também evidenciado em mães. Enfurecem-se e erguem a voz em altos brados à menor coisa:
“Não importa o que fizeste; derramaste o leite, porque diabo fizeste uma coisa dessas? Porque fizeste isso de propósito, para eu fazer por ser má? Como poderei viver assim, com isto e aquilo para fazer – e tu entornas-me o leite! Estás completamente estragado! És ingrato e não agradeces o leite que te dou, e agora que tenho que ir trabalhar, tudo quanto fazes é entorná-lo sem te importares. E depois ainda adormeces com ele no colo. E se eu te der um tapa na cara? Como te atreves a ser tão insolente? Que tens a dizer em tua defesa? Nada, conforme o costume. Estúpido. Idiota. Depois de tanto que fiz por ti, todo o tratamento especial que te dediquei é isto que me fazes? Tu nunca serás nada, idiota estúpido.”
Somente por causa do leite!
Ou pior do que isso, chegam a casa cinco minutos atrasados, e o pai entra num estado de furor como se o mundo tivesse para acabar ou como se tivessem assassinado alguém:
“A tua mãe disse que fizeste alguma coisa de errado. Queres-me deixar mais irritado?”
O pai furioso, menos que humano. O progenitor abusivo – física, emocional, mental, sexualmente – o progenitor que adopta um comportamento sub-humano assim, sem sombra de dúvida. O progenitor que alimenta o bebé que chora e que bate na criança:
“Para de chorar; não suporto tanto barulho! Tens que estar sempre a chorar?”
Esse tipo de fúria e o abuso que normalmente brota de uma fúria dessas. O progenitor que espanca o filho:
“É só asneira; por falar em asneira, tu estragas este rapaz, está bem? Por isso, vou dar-lhe uma sova para que o deixe marcado para toda a vida; para que não fique mimado. Pode ficar morto, mas não ficará mimado.”
O progenitor menos que humano que abusa, por meio do incesto, sem dúvida, do abuso sexual. E pelo abandono. O progenitor que atira as mãos para o alto e volta costas e abandona a família; ou então que não volta costas mas que ainda assim atira as mãos para o alto e simplesmente desiste:
“Desisto. Não vou mais ser mãe; não vou mais ser pai, desisto.”
E muitas vezes pais com vergonha enquadram-se no papel do pai perfeito, ou melhor, no papel do pai sobrehumano quando são pais sub-humanos. E haverá mães que se desdobram e pais que gastam tudo no jogo ou no álcool ou que desperdiçam o rendimento, de modo que ela trabalha em dois empregos além de ter que fazer tudo em casa, para poderem ter comida na mesa e roupa lavada. E vocês, no meio dessa dinâmica mais do que humana e menos que humana, veem-se repletos de vergonha. Por vezes têm dois progenitores que se desdobram em afazeres, outras vezes poderão ter dois progenitores sub-humanos. O que vale dizer - qual será pior? O que será pior para vós, que produza a vergonha entorpecente e mortífera? E consequentemente, são ensinados a sentir vergonha:
“Tu não prestas, tu não prestas; nunca serás ninguém.”
Certamente que uma afirmação pronunciada pela metade por aqui ou ali não o irá fazer, mas quando tais métodos são repetidos uma e outra vez, e quando são ministrados entre os dezoito meses e os trinta e seis, isso é internalizado. Isso é internalizado. E aqueles de vós que se lembram dessas declarações de quando tinham quatro ou cinco anos, porque pensam que apenas tenha começado nessa altura? Talvez não recordem tais declarações, mas sugerimos com clareza que o progenitor que aos quatro anos lhes diz que não prestam para nada e que nunca virão a ser nada, que são uns patetas avessos, não lhes terão começado a proferir tais coisas por essa altura, mas ter-lhes-ão transmitido essas mensagens nessa altura mais crítica. Teve início por volta dessa época e foi repetido e reforçado, mas terá começado por essa altura.
A primeira causa da vossa vergonha assenta no facto de o sentimento dela lhes ter sido inculcado por pais com vergonha. A segunda causa reside no abandono, e sugerimos que cada um de vós aqui presente - não lhes iremos pedir para o admitirem, mas cada um de vós aqui presente que se veja presa da vergonha tenha sofrido abandono, de uma forma ou de outra. Esse abandono pode obviamente assumir o aspecto concreto do abandono por parte de um progenitor, da deserção de uma mãe ou de um pai, da parte de uma família monoparental em que o pai simplesmente se tenha levantado e ido embora, mas isso carrega em si filhos portadores de vergonha – sem sombra de dúvida! Agora, bem sabemos que actualmente há mulheres solteiras que optam por criar filhos sozinhas, mas isso já refere uma situação completamente diferente. Elas partem do princípio de que não vão ter um pai; elas partem do facto de engravidarem sem terem um marido e pretendem criar esse filho como único progenitor.
Não, estamos a referir-nos àquela mulher que casou pensando que ele se iria tornar num príncipe encantador, ou pelo menos num bilhete de saída da vergonha que carrega, e que depois um, dois ou três filhos, ele deixa de estar presente, foi-se embora; ou da mãe que abandona o lar – o que acontece menos.
Pode mesmo estar associado à morte de um dos pais; em particular àquela morte que sucede por entre os dezoito e os três anos, em que constitui uma enorme fonte de abandono, porque nessa idade a criança não dispor de lógica, entendem? Não começam a desenvolver a razão e a lógica senão até atingirem os quatro ou os cinco anos de idade. E por isso, quando a mamã morre aos dois anos, podem sentar-se junto à criança a conversar com ela até ficarem azuis, a explicar-lhe a morte e o facto de a mamã ter ido para o céu, e de Deus a ter chamado e todo esse género de coisa, que tudo o que ela irá compreender será que a mamã a terá deixado. Isso será tudo quanto ela irá ficar a saber, por ter sido o que lhe sucedeu. A lógica não conta, não importa, e podem mesmo dizer-lhe:
“Estás a compreender?”
Ela responderá que sim, o que simplesmente quererá dizer que não quer falar mais nisso. O que não quer dizer que compreenda.
“Bem, eu expliquei-lhe e ela disse que tinha compreendido.”
Mas não compreendeu!
Uma morte que ocorra – uma mãe que morra durante o parto – pode mesmo despoletar nessa criança um sentido de abandono. Muitos de vós que foram adoptados - aqueles que não foram adoptados não entendem muito bem, sabem? Os garotos adoptados crescem, descobrem ter sido adoptados e sentem aquele terrível sentido de:
“Por que razão a minha verdadeira mãe não me manteve?”
Outros de vós dirão:
“Mas, de que estás a falar? Pelo menos foste escolhido, pelo menos aqueles que te escolheram deverão ter-te amado, senão mais ainda, do que aqueles que te trouxeram ao mundo, que te tiveram por omissão.”
Sim, é verdade. Mas para a criança com vergonha, entendem, esse abandono representa:
“Eu fui abandonado, eu FUI ABANDONADO! E preciso saber porquê.”
Mas não recebe qualquer resposta. E internaliza isso em termos de vergonha:
“Algo se passa de errado comigo.”
Abandono por questão de morte ou de divórcio naqueles períodos iniciais da vida – não que tais mortes não ocorram ou que tais divórcios não devessem ter lugar – mas não aleguem que não provoca impacto, não venham com o pretexto de que não produzem vergonha – porque produzem, devido ao abandono físico que geram. Mas mesmo quando esse abandono sucede mais tarde na vida, na forma física, muitas vezes acha-se atado a um abandono emocional – que constitui o segundo tipo de abandono. Quando uma criança sofre abandono emocionalmente:
“Eu não te desejei; tu foste um acontecimento acidental.”
Mesmo antes dessas palavras serem proferidas, a criança já o sabe. Ela compreende-o. As crianças nascidas do despeito e da vingança:
“Vou engravidar somente para o agarrar, para agarrar fulano ou beltrano e o forçar a ficar e a fazer com que nos suporte.”
Ou o abandono emocional que simplesmente ocorre devido a que duas pessoas com vergonha se preocupem tanto em encobrir a própria vergonha que não têm tempo para a criança.
Entre o período em que a criança nasce e até aos dezoito meses, a criança necessita virtualmente de um amor incondicional, entendem? Precisa receber um amor absoluto. Quando faz sujeira, quando descarrega na fralda, quando chora a noite toda, quando se porta da maneira que o faz, mesmo assim entre a nascença e os dezoito meses o bebé necessita de um amor incondicional. Mas ninguém diz isso à mãe; ninguém disse isso à moça de quinze anos de idade que engravidou; ninguém lhe disse que assim que a criança nascer, irá precisar de um amor incondicional, pelo menos durante dezoito meses; ninguém o diz à mulher adulta que engravida ou, a propósito, esta coisa da gravidez dura nove meses e depois termina, mas depois tem início o verdadeiro trabalho; agora precisam dedicar um amor e uma devoção total à criança durante dezoito meses. Para além disso, não necessita de uma dedicação assim incondicional e completa, mas pelo menos precisa ser amada e ela não está presente. E isso produz esse abandono emocional em muitos.
Bom; talvez cada um de vós possa dizer que não tenha recebido isso durante os primeiros dezoito meses, mas isso afecta-os de forma diferente, entendem? O ficar sozinho não irá produzir a vergonha sufocante, mas irá representar um ingrediente, e quando combinarem esse ingrediente do abandono com o que supostamente deveriam ter obtido, então conseguem algo que se pode tornar devastador.
E assim é tal abandono físico e emocional: o progenitor alcoólatra que abandona a criança; o progenitor viciado no jogo, o progenitor viciado nas drogas, o progenitor obcecado que abandona emocionalmente a criança:
“Eu faço isto por causa do meu filho; eu venho para casa todas as tardes depois da escola!”
“Vens, mas vens alcoolizado!”
“Bom, um pouco, somente.”
Mas vêm alcoolizados e a criança sabe-o, e sente o abandono.
“Eu estou em casa, mas estou ocupado com o meu terceiro emprego.”
E ela sente-se abandonada. Quererá isso dizer que toda a mãe precisa ficar em casa? Não! Não estamos a afirmar isso, em absoluto; o que estamos a dizer é que esse tipo de abandono emocional - do mesmo modo que o abandono físico - produz um sentido de vergonha. E se essa vergonha não for considerada tornar-se-á factor de enclausuramento; e se essa vergonha for combinada com outros ingredientes, tornar-se-á numa prisão.
Mas depois há o abandono que se provem do abuso; o abuso produz abandono. Quando espancam uma criança, votam essa criança ao abandono. Quando batem emocional ou mentalmente abandonam essa criança. Quando abusam sexualmente de uma criança, abandonaram-na. E aqueles que sofreram um abuso desses, foram abandonados. A segunda fonte da vergonha consta do abandono.
A terceira origem consta do próprio abuso; o abuso produz vergonha. O abuso físico - o mais óbvio, espancar uma criança, partir ossos, magoar uma criança, cortá-la, torturá-la. Essas coisas acontecerão? Acontecem! E aconteceram a alguns dos aqui presentes. Bem sabemos que não o desejarão admitir, e não lhes pediríamos tal coisa por ser fonte excessiva de vergonha. Por a criança os considerar como um deus, enquanto pais, entendem? Da vossa perspectiva, esquecem isso por não serem mais crianças; mas da perspectiva da criança, quando vocês eram crianças, a vossa mãe era cinco vezes maior do que vós. Bom;  se estiverem com metro e meio actualmente, imaginem alguém com uma altura cinco vezes superior, e com um peso de quatrocentos quilos a dizer-vos que não prestam e que não passam de um pedaço de lixo. Percebem o quão devastador isso seria? Se tivessem que ir para casa pela noite, com alguém com sete metros de altura e quatrocentos quilos que lhes perguntasse:
"Onde diabo é que andaste? Que terás a dizer a teu favor? O melhor é que digas a coisa acertada ou esbarro-te a cara."
Sentiriam medo, e concluiriam que teriam algo de errado.
"A razão por que a minha mãe me partiu o braço deve-se ao facto de eu ser mau. A razão por que ela me bateu na cara com tanta força, ou me partiu o maxilar, ou me partiu três dentes deve-se a que eu seja mau. A razão por que o meu pai me golpeou no estômago e tenha feito com que o meu baço sangrasse, ou me tenha batido por trás até fazer com que os meus rins sangrassem deve-se ao facto de eu ser uma má pessoa. Eu sou falho, tenho defeitos, porque se esta gente me amasse não me faria isso; caso eu fosse digno de aprovação. A minha mãe e o  meu pai são gente boa e correcta, sobrehumana ou sub-humana, mas seja como for, eu tenho defeitos e sou falho.”
E as queimaduras:
“A mamã e o papá beberam a noite toda enquanto decidiam como seria e se gostariam de ver-me com queimaduras nos pés, provocadas pelo cigarro.”
A criança percebe que tem algo de errado. E quando batem na criança ou a deixam fechada num quarto e lhe dizem:
"Nunca mais volto para ti, nunca mais."
Como se acreditassem nisso! Mas a criança não sabe disso - vocês não sabiam disso; isso representa um abuso mental e físico. A mãe que agarra na mala e se mete no carro e desaparece, sem lhes dizer que o terá feito para ir apanhar o pai, e que lhes diz que voltará dentro de quarenta e cinco minutos... Terão pensado que o dissesse de verdade, por terem acreditado nela, por ela ser Deus, por ela ser a mãe, e por ela ser perfeita. Isso é abuso físico e mental. Mas o abuso físico e mental não lhes causa danos apenas mental e fisicamente, mas produz vergonha, e leva-os a concluir que sejam uma pessoa com defeitos, e que sejam uma pessoa dotada de imperfeições, um acidente que jamais deveria ter acontecido.
O abuso sexual é tanto um abuso mental quanto físico mas supera isso devido à força devastadora que apresenta. A maioria de vós pensa no abuso sexual como uma forma explícita de abuso. O causador da ofensa, na família, mãe, pai, irmão, tios, primos, etc. O agressor, que os leva a tocá-los em sítios que não deveriam tocar, ou que os tenha tocado, a masturbação, o coito, isso comportam uma incidência inequívoca de abuso sexual. No caso de alguns dos que carregam vergonha, de algum modo sentem intimamente que tenham sido abusados sexualmente, e por vezes cometem o erro de tentar descobrir o incidente:
"Quando foi que o papá ou a mamã me terá feito isto?"
Procuram apurar o incidente de violação, o incidente sexual do incesto, o incidente do abuso físico, e investigam, mas muitos não o descobrirão; sim o abuso sexual pode ser muito explícito, e muitos de vós aqui presentes sofreram abuso sexual manifesto, mas não é uma questão de tentarem descobrir o incidente quando tinham dois anos. Ele simplesmente foi um incidente recordado da altura em que estavam entre os dez e aos quinze anos. Vocês sabem quando sofreram o abuso:
"Foi todas as noites, durante cinco anos da minha vida, ou todos os fins de semana, ou toda a vez que a avó ou o avô vinham a casa, ou que a mãe se embebedava e o pai ia ter com ela; ou quando a mamã e o papá brigavam e a mamã não dormia com o papá, de modo que ele vinha para a minha cama. Eu sei o que esse abuso representa!"
Não precisam esmiuçar todos os episódios da infância que tiveram. Alguns de vocês foram abusados fisicamente muito novos; sexual e fisicamente, sim, mas também foram vítimas de abuso sexual dissimulado, que frequentemente é tão negligenciado, e que nesse sentido pode ser igualmente nocivo, e num certo sentido mais mesmo, por não poderem pôr mão nisso, por não o poderem corrigir. Não podem descobrir a altura em que o papá pegou em vós e os levou para a cama da cave e os obrigou a fazer certas coisas, o quando a mamã lhes fez isto ou aquele primo ou aquele tio - seja quem for. Mas em todo o caso sofreram abusos sexuais dissimuladamente.
O abuso sexual encoberto acontece em casos como a forma como os pais falam do sexo, a forma como se referem aos órgãos sexuais, os nomes que lhes dão, a forma como falam da própria sexualidade ou se referem à vossa. A forma como a mamã ou o papá falam dos vossos seios que estão a desenvolver-se e imaginam como se vão tornar grandes, se vão ficar muito peitudas ou não; se vão tornar-se nalguma galdéria a que toda a rapaziada venha a deitar a mão.
"Imagino como virão a tornar-se enormes. Espero que não se tornem grotescos."
Ou então:
"Espero que não fiquem muito pequenos,” etc.
Ou quando fazem referência à vossa vagina em termos bastante grosseiros, que façam parte de uma linguagem de sarjeta, o que também é desmoralizante para as mulheres. Ou quando falam do rapaz e referem o tamanho do pénis; de como já é grande e do quão maior se tornará. E em particular quando as raparigas jovens atingem a puberdade e os pais e mães conversam abertamente ou suscitam uma conversa animada acerca da sexualidade numa antecipação das suas proezas sexuais, e quando tecem comentários aparte acerca do vosso pénis:
"Imagino quão felizes vais deixar as raparigas todas assim que virem esse monstro."
Ou ao contrário, façam comentários acerca do seu tamanho reduzido e do embaraço que representa:
"Espero que seja um início tardio e que cresça um pouco, porque se ficar por aí irá representar um embaraço."
Isso representa um abuso sexual; não lhes tocaram fisicamente, mas representa um abuso sexual. O pronunciamento verbal relativo ao sexo, à sexualidade parental ou ao vosso sexo, de uma forma erótica ou semi-erótica pode constituir um abuso num certo sentido, caso seja com propósitos sexuais ou de excitação sexual.
Se a mamã gostar de falar do jovem em que irão tornar-se, ou sobre o vosso pénis, ou sobre os pelos que têm nos braços, sobre o aspecto que venham a ter e no quão sensual isso venha a ser, e disser que as raparigas não virão a conseguir manter as mãos longe, como se de algum modo fosse uma fantasia que ela tenha, de um belo dia não conseguir manter as mãos afastadas de vós. Ou quando o papá fala da sua adorada princesa, e diz que todos os rapazes vão querer meter a mão nas vossas calcinhas, com base no seu próprio tipo de excitação sexual e nas suas fantasias sexuais - isso é abuso sexual.
Além disso, a invasão de privacidade constitui uma forma de abuso sexual. Os pais que não fecham a porta do quarto quando fazem amor ou quando não a fecham à chave, quase como se quisessem que a criança entre e os apanhe no acto, e isso os deixe de alguma forma ainda mais excitados, ainda mais quentes, por saberem que a garota ou o garoto de seis meses ou de dois ou três anos os está a observar, está a observar o papá a fazer aquilo à mamã. As crianças em torno dos três anos tornam-se muito cientes dos corpos, entendem, dos deles e do corpo dos pais, e nessa medida, muito embora não disponham de um vocabulário fazem sentido que que esteja a ocorrer; mas certa gente gosta, tal como certos indivíduos apreciam a energia de voyeurismo (NT: Observação velada dos aspectos da vida privada) de certos actos públicos, pelo que também gostam de o fazer em frente dos filhos. E muitas vezes colocam isso em termos:
"Bem, esta é uma função natural, e eu não quero que o meu filho fique tenso em relação a isso, de modo que quero que me observe."
Muitas vezes isso não é verdade, e não passa de uma desculpa, por o que realmente estão a fazer é tentar excitar-se mais e com um maior ardor ao saberem que o catraio deles de seis anos os está a observar.
Ou pais que exibem uma sexualidade exacerbada na sala de estar, ou em partes públicas da casa em que as crianças não conseguem evitar reparar ou inspecionar - isso é abuso sexual. Pais que mimam os filhos até tarde, mães que insistem em mimar os filhos até aos nove, dez e onze anos de idade, ou os pais que similarmente o fazem em relação às meninas, e que lhes invadem a privacidade e não lhes permitem que fechem a porta do banheiro, ou que não permitem que a criança tenha privacidade e mantenham o banheiro para uso próprio. O pais que olham os corpos das crianças de uma forma lasciva - a criança tem noção disso. O garoto de treze anos ou seja o que for, ele sabe que a mamã está a olhar, ou como o papá está a olhar, e percebe a lascívia, caso se ache presente – e isso é abuso sexual.
O abuso sexual dissimulado também pode chegar a tornar-se machismo; as atitudes que as mães e os pais adoptam em relação ao sexo, de um modo sensual, e que transmitem de forma dissimulada na conversa da mesa de jantar, quando falam do jeito de ser dos rapazes ou das raparigas, de uma forma sexualmente depreciativa. Isso são tudo formas de abuso sexual. Não representam estupro nem coito, nem masturbação, mas ainda constituem um abuso sexual, e produzem vergonha, quando vocês são sexualmente abusados, abandonados, instruídos, ou abusados, sob as diversas formas que o abuso pode adoptar.
A quarta causa, que incorpora muitas das outras, consta da injustiça, muitas vezes pela vergonha que foi despejada em vós, pelo abandono, pelo abuso. Nós compreendemos que nas questões da metafísica ninguém queira lidar com o facto de existirem coisas erradas.
“Ah, não, não existe nada de errado, é tudo uma questão de interpretação. Tudo ocorre com a finalidade do bem. Está tudo bem com o mundo. Tudo está destinado a ser. Tudo aconteceu da forma que tinha que acontecer e não existe negatividade no mundo – não existe mal nenhum.”
Mas isto é o que nós sugerimos que representa a metafísica idiota. É um pedaço de grude com açúcar. Simplesmente não é verdade. Nem tudo acontece pelo melhor. A única maneira por que poderá ocorrer com o propósito do bem é se activa e conscientemente o criarem dessa forma. Se acontece algo de hediondo no mundo, podem dar-lhe a volta, podem recriar isso, reestruturá-lo, torná-lo em algo com que aprendam, algo que seja propositadamente bom, mas não precisa ser aprendido dessa maneira, e fingir o contrário representa simplesmente deixar-vos cegar com respeito à verdade.
Podiam ter aprendido essas lições da vergonha de uma forma menos negativa:
“Bom, a única forma que teremos de aprender sobre a dor é passando pela devastação que provoca...”
Não é, não senhor! Talvez tenham passado pela devastação que provoca, mas não precisava ser desse jeito. Não era uma coisa que estivesse predestinada. O facto de a terem tornado numa experiência positiva constitui uma força da vossa parte. Não representa um comentário acerca da natureza da realidade, mas um comentário acerca da vossa resistência. No vosso mundo ocorrem coisas que criam ou coisas que permitem que ocorram. E vocês podem dotá-las de um bom propósito mas elas não o assumem automaticamente. E além disso o mundo comporta negatividade; talvez não tenha começado desse modo, também argumentamos que não, mas sugerimos que a energia destrutiva da vergonha é tal, que uma pessoa com vergonha eventualmente se destruirá. E a pessoa destruída pode tornar-se numa pessoa maldosa. Não em muitos casos, reconhecidamente, mas o que sugerimos é que fingir que não existe constitui simplesmente uma inverdade. Não têm que ter disso na vossa realidade e podem trabalhar em prole da eliminação disso, pela criação de sonhos em vez de pesadelos, mas existe injustiça. E aqueles de vós que foram enganados ou ofendidos, sentem vergonha.
Há certos comportamentos que os pais e os colegas, amigos ou conhecidos, a sociedade, a religião, o sistema escolar adoptam, que podem ser objecto de compreensão e mesmo racionalizados, mas o delito, o mal, é coisa que não serão capazes de racionalizar. Poderão compreender a razão por que sucede mas isso não o torna aceitável. Há certas coisas que são prejudiciais, que uma vez compreendidas poderão aceitar; isso não é ser injustiçado. Mas aquelas coisas que, independentemente de as conseguirem explicar, não se podem justificar são incorrectas. E ser alvo de abusos sexuais ou físicos é errado, é mau. E aqueles de vós que sofreram injustiça não têm onde colocar isso excepto em vós próprios. E desse modo, enquanto crianças e adolescentes, decidem ser injustos, falsos, defeituosos, falhos, malvados. Estas coisas produzem essa sensação de vergonha: a instrução, o abuso, o abandono, a injustiça.
Mas depois o que acontece com essa fonte é que é reforçada, e uma vez reforçada torna-se internalizada, e essa é que é a questão, quando a emoção da vergonha se transforma em vergonha enquanto estado de espírito. Todos vocês sentem vergonha, mas nem todos se terão tornado na vergonha, entendem? Alguns de vocês sentem vergonha e essa vergonha foi de tal modo reforçada, internalizada, que acabaram por se tornar na vergonha. É quando ela se torna destrutiva e mortal. E a seu tempo matá-los-á, sem sombra de dúvida. Ao longo do tempo as pessoas morrem por motivos de vergonha,.
Geralmente ela é reforçada quando abandonam o lar, ou mesmo que ocorre no exterior, nos sistemas escolares. Não é que a escola esteja em conluio com pais portadores de vergonha; as escolas têm as suas próprias agendas, têm as suas coisas a tratar e não têm vontade de tratar da vossa vergonha. Bom, mais recentemente, educadores mais inovadores e esclarecidos, perceberam que isso faz parte do processo da educação e envolvem-se, mas na maior parte dos casos não querem ter que lidar com isso, não querem envolver-se com o abuso, com o vosso braço partido; não irão dizer que foi o papá quem lhes terá torcido e quebrado o braço. Irão dizer que caíram das escadas, e eles vão querer acreditar em vós, compreensivelmente. Mas um sistema escolar que exige perfeição e exige que pensem e que não sintam, acaba reforçando a vergonha que carregam para esse sistema.
Pressão por parte dos colegas. Os colegas reforçam-na. Não têm vontade de contar aos vossos amigos o que a mamã e o papá realmente lhes terão feito, a forma como os trataram, os nomes que lhes chamaram, por se sentirdes demasiado envergonhados, por sentirem demasiada vergonha, de modo que não o transmitem. Quando são uma adolescente de treze anos, e conversam com as vossas amigas acerca do sexo e se questionam acerca dos rapazes, se falarem demais elas poderão indagar como poderão saber tanto acerca do assunto e assim não irão contar-lhes que nos últimos três anos têm ido para a cama com o vosso pai. Ou irão fazer-se inocentes ou passar a informação da promiscuidade que têm com alguns rapazes da vossa idade ou mais velhos. Querem ocultar a vergonha que sentem, mas aí claro está que ela é enterrada e reforçada por essa pressão sofrida por parte dos colegas.

Do mesmo modo no caso dos rapazes que sofrem abusos, eles não irão contar onde terão arranjado as costelas partidas, ou queimaduras nas costas, nem irão ter vontade de tirar a camisola. Não quererão que ninguém saiba e a pressão sofrida por parte dos colegas reforça-lhes a vontade de esconder essa matéria, de a enterrar, o que prova que são falhos e imperfeitos. Escola, colegas, mas certamente a religião também a reforça, por precisarem procurar a salvação de Deus por serem pecadores, quer se trate da Igreja Católica, do Templo Judaico ou da Igreja Protestante; elas reforçam o facto de, se sofrerem dessas coias malignas isso se dever ao facto de serem maus. A sociedade também o faz. A filosofia, fá-lo em absoluto.
Mas triste e infelizmente, certos aspectos da metafísica reforçam a vergonha. Quando dizem a uma pessoa com vergonha que ela cria a própria realidade – com os diabos, ela já sabe disso desde os três anos de idade! Foi-lhe dito uma e outra vez que era tudo culpa dela, e que ela criara isso. Quando dizem a uma pessoa com vergonha que ela cria a própria realidade não lhe estão a dizer nada de novo, por corresponder ao pior receio de que consegue ter ideia. E é justamente onde sugerimos que a metafísica simplista provoca maior dano. Dizer ingenuamente que não existem vítimas e que não existe nada de negativo no mundo; mencionar que criam a vossa própria realidade sem mencionar a outra metade da coisa, o outro lado da questão. O que realmente isso quer dizer é que a criam tanto pela causação directa de certas coisas como pela permissão dessas mesmas coisas. As coisas acontecem e vós podeis votá-las ao vosso próprio benefício, assim como podem representar coisas negativas na vossa realidade – e existem coisas negativas no mundo, não produzidas por Deus, pela Deusa, por Tudo Quanto Existe, mas produzidas pela própria negatividade que as pessoas permitem que tenha lugar dentro de si próprias. Dizer a uma pessoa com vergonha que ela cria a própria realidade, sem qualquer outra explicação, representa apenas um reforço do que ela já sabe. Dizer-lhe que devia ter amor por si que assim tudo iria dar pelo melhor – quando é incapaz de amar – reforça a natureza imperfeita de que padece, a natureza falha, o erro que representa.
Dizer às pessoas que elas são Deus – e nós dizemos que não são Deus, mas um pedaço de Deus que pode aprender a tornar-se num pedaço maior e eventualmente tornar-se Deus, a Deusa, o Todo. Outros contestarão dizendo que sim, que eventualmente se irão tornar n’Isso, mas como todas as coisas existem em simultâneo, num nível qualquer já o são – por isso que mal haverá em dizer isso agora? O mal está em que, se forem uma pessoa com vergonha isso irá reforçar-lhe a vergonha que carrega; por toda a gente ser Deus, e ela ser Deus, e Deus ser assim imperfeito, e um erro, falho, por ser a mutação do ser humano, e isso produzir uma maior alienação, uma maior separação.
“Quanto mais sair dos meus pompons e dar vivas por ser Deus, mais desesperado me sinto, mais oco me sinto, mais vazio me sinto, mais miserável me sinto.”
Assim, a metafísica simplista e idiota tristemente reforça a vergonha, juntamente com a sociedade, com a filosofia, juntamente com a religião, a educação e os colegas.
Uma vez reforçada é internalizada e aí tornam-se na figura da vergonha. E que é que ela lhes faz então? Como se o que descrevemos não bastasse para compreenderem o que a vergonha provoca em vós, torna-se importante ter noção de que provoca, de um modo conciso e preciso, coisas devastadoras. Alguns de vós aqui presentes, conforme dissemos, sabem ser prisioneiros da própria vergonha que carregam, e sabem que é por isso que a vossa metafísica da forma que está não funciona e que o relacionamento que têm com Deus, a Deusa e o Todo e com o seu Eu Superior não é o que se esperava ou o que esperavam que fosse para toda a gente. Outros de vós não se acham aprisionados, mas encontram-se feridos, foram magoados pela vergonha que carregam; ainda funcionam muito bem, mas encontram-se feridos. Precisam saber o que a vergonha lhes provoca, porquanto:
“Os abusos não estão a suceder agora, nem o abandono. Bom, agora já sou crescido e não preciso de pais. Da vergonha que senti, por ser uma pessoa imperfeita, já me encontro eu livre, e ninguém mo aponta mais.”
Ou não pensem tal coisa!
Certas coisas bem específicas ocorrem, acontecem certas coisas específicas. Antes de mais, a pessoa com vergonha perde as liberdades. Vocês enquanto seres humanos dispõem de certas liberdades que também representam poder, e quando carregam vergonha, ela corrói e eventualmente destrói essas liberdades e poderes. A primeira dessas liberdades é a liberdade de perceber e de conceber – a liberdade de ser criativo; e isso é-lhes tirado quando carregam vergonha.
A segunda expressão dessa liberdade é a liberdade de pensar e de avaliar, e a pessoa com vergonha é defeituosa e falha, e não tem o direito de pensar, e decerto não tem o direito de avaliar.
A terceira dessas expressões de liberdade que é perdida é a liberdade de sentir – essa paixão e compaixão, mas para poder sobreviver, a pessoa com vergonha precisa conter os sentimentos; tem que deixar de sentir. Os pais com vergonha já terão deixado de sentir faz bom tempo, e ao lhes passarem a vergonha, vocês também deixam de sentir.
Em quarto lugar possuem a liberdade de querer, de precisar, de preferir – a liberdade de escolha, que uma vez mais é negada à pessoa com vergonha, que sente não ter alternativa, por ser imperfeita e por ter defeitos, por ser um erro mutante.
A quinta liberdade é a da imaginação – a capacidade de imaginar, que é uma liberdade e um poder que lhes são negados, porquanto imaginar equivale a despertar de novo a ferida. Entrar nas profundezas da meditação...
“Estás a brincar? Eu não vou abrir outra vez isso; não quero ouvir aquele ranger da porta nem a voz a perguntar se estou acordada. Não quero relembrar essa figura sombria a saltar-me para a cama para se deitar comigo de novo. Não quero voltar a sentir as queimaduras de cigarro, os ossos partidos, não quero voltar a abrir essa porta; quero-a fechada, não quero tocar nisso, não o quero sentir, não o quero imaginar.”
A sexta liberdade é a liberdade de dar e de receber, que constitui igualmente uma forma de poder, mas a pessoa com vergonha simplesmente não é capaz disso.
E a sétima é a liberdade de sanar, a liberdade de se curarem a si mesmos e aos outros, o dom, o poder da cura. A pessoa com vergonha não tem isso ao dispor, por sentir ser falho e não conseguir curar-se, já para não falar em curar alguma coisa na sua vida ou em mais alguém. Alturas há, sabem, e nós estamos cientes disso, por trabalharmos directamente com as pessoas, em que indagamos: “Que é que desejas?” e elas realmente não têm qualquer desejo. Bem sabemos que algumas se põem, com joguinhos como se:
“Eu não sei; não consigo imaginar o que seja que desejo...”
Bom, estamos a falar das situações realmente verdadeiras. Que é que desejas na vida?
“Eu não sei.”
A pessoa com vergonha não faz piada nem joguinhos de modéstia, não está a ser manipuladora, a pessoa que carrega vergonha não sabe mesmo aquilo que quer, por os seus quereres lhe terem sido tirados.
Que é que desejas fazer da tua vida?
“O que for suposto que eu faça!”
A pessoa portadora de vergonha fala a sério e não está a manipular com isso, nem está a tentar ter pena de si mesma nem está a tentar obter algo com que faça com que a sua vida resulte. Ela realmente quer dizer isso e não tem qualquer desejo; foi-lhe tirado, foi objecto de abandono por parte dela, foi-lhe arrancado verbalmente se não mesmo fisicamente.
Há mesmo quem nas meditações diga não conseguir imaginar; no caso da maioria das pessoas isso não passa de um jogo. Mas há aqueles de vós que realmente não conseguem imaginar, devido à vergonha. Essas formas de liberdade, esses dons, essas formas de poder foram verdadeiramente esmagadas – não só enterradas – mas esmagadas, de modo que não têm mais existência.
“Eu já não tenho mais suficiente imaginação para manter o mundo ao meu redor.”
Isso não passa de um veredicto, de uma decisão.
“Não tenho desejos nem preferências; não sinto nada.”
Que é que sentes?
“Não sei o que sinto.”
E se isso for dito com base na vergonha é mesmo o que querem dizer. Que é que pensas?
“Que será suposto que pense? Diz-me as regras; diz-me o que sentir e pensar e darei o meu melhor para o conseguir. Mas não é meu. Posso pensar o que a minha mãe pensa, ou o que o meu pai pensa, mas nada disso será meu. Por me ter sido esmagado e arrancado pela própria vergonha.”
A primeira vergonha efectiva é representada pelo facto de perderem as vossas liberdades – por debaixo. A segunda é que a vergonha danifica-lhes o cérebro, a sua química e mecânica.
...
A pessoa portadora de vergonha danifica a função do seu cérebro. O vosso cérebro acha-se dividido basicamente em três componentes - para o colocarmos nos mais simples dos termos: o cérebro reticular, que representa o cérebro réptil em vós, que para o efeito, constitui o sobrevivente perpétuo. Depois existe o cérebro límbico, que representa o centro emocional. E por fim o córtex cerebral que é o cérebro que raciocina. Esses três segmentos do cérebro acham-se ligados e é suposto operarem em conjunto, e por isso, as mensagens provenientes do córtex cerebral e dos lobos frontais direccionados para o sistema límbico, para o cérebro que sente, transferem-se para o cérebro da sobrevivência, e de volta para o córtex cerebral e de volta para o cérebro límbico num tipo de introdução contínua que será suposto ligar, mas no caso da pessoa portadora de vergonha o cérebro límbico acha-se encerrado. Os portais existentes entre os cérebros acham-se fechados, por conseguinte não conseguem sentir. Por isso, ou dependem totalmente do cérebro réptil, e descobrem um modo de sobreviver e conseguem-no uma e outra e outra vez. Não fazem mais nada, não “entornam o caldo”, não mudam isso:
“Isto resulta; deixa-me em paz.”
Mas como se posicionam por completo no cérebro que raciocina, pensam e pensam e pensam, e analisam sem parar, mas temem fazer, temem experimentar, por os portais existentes entre o cérebro do pensar e do sentir e o cérebro da sobrevivência terem sido cerrados devido à intensidade do que lhes foi incutido, do abandono, do abuso, do comportamento injusto. Além disso, o vosso cérebro liberta peptídeos neuronais e outras hormonas endócrinas. E obviamente que elas são vitais para o desenvolvimento do organismo; sabem disso e estão actualmente a ficar a saber mais. Sugerimos ainda há uns anos atrás que os segredos para a longevidade e a imortalidade provirão do sistema endócrino e dos químicos que liberta na qualidade de hormonas e peptídeos. Um desses químicos em particular que é libertado pela mente é chamado endorfinas. As endorfinas são libertadas a fim de cobrir a dor, de anestesiar a dor. Há certas endorfinas – e algumas são libertadas sob a forma de felicidade, alegria e coisas desse gabarito, desses tipos diferentes; mas uma das endorfinas que é libertada em particular é quarenta e oito vezes mais poderosa do que a morfina. E quando sentem dor e no vosso mundo físico lhes é injectada morfina, vocês possuem químicos no vosso cérebro que são quarenta e oito vezes mais poderosos do que a morfina.
As pessoas dotadas de vergonha e aquelas que sofrem severamente de vergonha, segundo o que as análises químicas revelam, apresentam duas vezes mais endorfinas dessas no seu sistema sanguíneo do que a média das pessoas. O que significa que a dor é de tal modo severa que precisam libertar esse potente químico no seu organismo que é quarenta e oito vezes mais potente do que a morfina, como uma situação normal. E para cúmulo, muita gente com vergonha torna-se viciada em drogas, alcoól, torna-se obcecada. Percebem a intensidade da dor que precisam sentir que uma dose quarenta e oito vezes superior de morfina não inibe? E para cúmulo da situação precisam consumir álcool ou drogas, ou adoptar um vício qualquer obsessivo, num esforço por mascarar essa dor. Entendem?
Existem outros químicos, ou hormonas no vosso sistema cerebral, um outro peptídeo neuronal que é duzentas vezes mais potente do que a morfina. E descobriram nas pessoas seriamente suicidas – que muitas vezes são institucionalizadas por causa das tendências suicidas que apresentam, nos casos que apresentam veravidade e não nos de estratagemas melodramáticos, nos casos verdadeiramente suicidas – que esse químico particular existe em grande excesso no seu sistema orgânico; descobriram que eles libertam esse químico que é duzentas vezes mais potente do que a morfina a fim de reduzir a dor nos casos à beira do suicídio, e que ainda assim sentem uma dor intensa. Essas hormonas, esses peptídeos neuronais que são lançados em excesso danificam o funcionamento do organismo, tal como se tomassem morfina todos os dias, porquanto se tornariam viciados na morfina e isso afectar-lhes-ia o juízo, afectar-lhes-ia o comportamento, a capacidade de funcionar no mundo. Tal como aqueles que se tornaram aficionados pela cocaína ou viciados em determinadas drogas que consomem para pôr termo à dor, que não funcionam adequadamente.
“Bom, eu não tomo drogas.”
Tomam sim. Caso carreguem vergonha. Andam drogados o tempo todo, e por conseguinte certas pessoas dotadas de vergonha dão por si incapazes de funcionar como uma pessoa normal, o que força e reforça a atitude:
“Vês? Eu sabia. Eu sou um fracasso! Eu não tenho um discernimento apropriado, eu não gozo de uma coordenação adequada entre o olho e a mão, não gozo de uma função física adequada.”
E isso envolve química, elas andam deprimidas. Como se sentiriam se tomassem Valium todos os dias? Andariam deprimidos. A pessoa com vergonha muitas vezes deprimida, a depressão crónica de baixo grau, por causa dos químicos que se encontram no cérebro que o seu organismo liberta a fim de responder à vergonha. Podem tornar-se esquizofrénicos, podem tornar-se paranoicos. Isso reforça, por toda a gente dizer:
“Não sejas tolo; porque estás a ser paranoico? Ninguém anda atrás de ti, não sejas tolo.”
Mais vergonha!
Afecta-os quimicamente. Mas o que também provoca, além de cortar ao sistema límbico um funcionamento adequado, para além de os drogar, e de prejudicar a vossa capacidade de funcionar no mundo, por estarem sob a influência – mesmo antes de ingerirem uma droga ou uma bebida – também estabelece uma repetição comportamental em que recriam a vergonha vezes sem fim, recriam os incidentes da vergonha. Se tiverem sido abandonados pelo vosso pai estarão continuamente a ser abandonados pelos homens, ou por figuras paternas; ou caso tenham sido abusados pelo vosso pai, estão continuamente a ser alvo de abuso por parte dos homens, em que namoram alguém que abusa de vós e se interrogam o que haverá de errado convosco. Isso é uma cilada interminável que foi estabelecida devido ao funcionamento que o cérebro adopta para recriar a vergonha. É isso que sucede.
Em terceiro lugar, separa-os de si mesmos. A pessoa com vergonha não tem sentido de identidade, não faz ideia de quem é. Ou está presa na criança ou no adolescente ou no pai, mas não é ela mesma. Não sabe quem é e a vergonha bloqueia-lhe tal descoberta.
Em quarto lugar separa-os de toda a espiritualidade. Separa-os da vossa espiritualidade. Podem cumprir com os rituais, mas não os fazem por terem o direito de os cumprir; cumprem-nos por não quererem ficar de fora nem ser alvo do ridículo por quererem fazer parte da equipe. E por isso lêem o livro que versa sobre o contacto com o Eu Superior, vêm frequentar um seminário e cumprem com a meditação, sentam-se sob aquela árvore, não conseguem sentir realmente a árvore, mas fingem que sim, e estendem as mãos para reduzir a ideia e chegarem meio caminho até essa árvore. Mas não o conseguem. E depois dizemos-lhes que vão sentir as mãos do Eu Superior sobre as vossas mas não as sentem, realmente não o percebem mas fingem sentir. E quando os chamam de volta àquela árvore não vêem lá o Eu Superior, mas não o vão admitir, e o que sugerimos é que foram colmatados, pela vossa vergonha. E sentem mais vergonha ainda, por não admitirem que estão a ser enganados com a vergonha que sentem. E é isso que os detém.
Impede-os de pedir ajuda. A última coisa que uma pessoa com vergonha dirá, é:
“Eu preciso de ajuda.”
Por não pensar merecê-la, por achar que é imperfeita e não haver ajuda para ela. Nesse sentido poderíamos aplicar aqui uma piada. Há duas portadas: uma é a porta para o céu e a outra é a porta para um seminário acerca do céu. (Riso) Toda a gente que carrega vergonha alinhará para a porta do seminário.
“Preciso aprender acerca desse lugar, preciso corrigir-me por não ter o direito de passar por aquela porta.”
A pessoa com vergonha não quer trabalhar no momento, mas ir para casa trabalhar. Então poderá anotar tudo quanto aprendeu:
“Esta noite não vou fazer coisa nenhuma, lembra-te; não vou mesmo. Não, esta noite não vou fazer nada. Quando chegar a casa faço-o sozinho em meio à minha privacidade por não querer (...) que saibam que tenho vergonha. Dá-me um livro.”
As pessoas com vergonha lêem de uma forma incessante a ver se descobrem algo num livro qualquer que constitua a resposta que as corrija, por poderem fazer tudo por elas próprias, e isso diz muito mais respeito a muitos de vós do que estarão dispostos a admitir. Mas as pessoas brincam com a vergonha que vocês sentem, é verdade. Atiram-lhes cenouras. A pessoa que carrega vergonha não pode pedir auxílio.
Em sexto lugar, as pessoas com vergonha precisam ou consertar o mundo ou abandoná-lo. Tornam-se super consertadores, e consertam toda a gente, e tornam toda a gente feliz e bem-sucedida, tornam toda a gente completa e íntegra e então talvez tenham o direito de ter alguma coisa para elas próprias. Ou então percebem a impossibilidade de tal tarefa e abandonar o mundo e voltam-se para os seus próprios vícios e para as suas próprias obsessões e fantasias.
Em sétimo lugar, a pessoa com vergonha, numa tentativa de encobrir a vergonha que sente, torna-se desavergonhada, e passa essa vergonha a mais alguém, tal como lha terão passado a ela. É isso que acontece.
...
Não dizemos que toda a gente que sente vergonha deva fazer uma meditação mas ao invés oferecemos-lhes uma miscelânea de opções quanto a coisas com que trabalhar, diferentes abordagens a tentar e combinações a reunir que se enquadrem na vergonha singular que sentem. A primeira que recomendaríamos é a de basicamente reeducarem. O que é importante que aqui compreendam relativamente à vergonha é que foram feridos, sofreram um corte profundo, quer pelo facto do que lhes foi incutido por pais desavergonhados que descarregaram a vergonha em vós, ou por um avó ou por um ofensor basicamente, seja quem for que tenha sido. Eles descarregaram a vergonha em vós, numa tentativa de se livrarem da que sentiam. Foram profundamente golpeados, apunhalados, se quiserem, retalhados, quer pelo abandono ou pelo abuso nas suas múltiplas formas, ou pelo acto injusto, pela situação de engano, repetidamente a cavar e a cortar.
Aquilo que fizeram foi ocultar essa ferida particular. Lembram-se de quando eram catraios, e a mãe lhes dizia para não andarem descalços, ou cortavam os pés? Claro está que tinham que andar descalços! Precisavam mesmo livrar-se daquelas sandálias, não é? E correr pelo quintal e pisar um prego ferrugento ou uma lata ou um osso ou um espeto ou algo assim e cortar-se no pé. E ficavam verdadeiramente assustados por ela os ameaçar matar, e voltarem a calçar as meias e as sandálias e fingir que não se passou nada.
“Estás a mancar?” “Não, só prefiro caminhar assim.”
Até por fim terem que lhe mostrar:
“Agora estás em apuros! Agora é que vais ficar fechado e de boca calada! Ou ainda te amputam o pé.” (Riso)
Fizeram a mesma coisa em relação à vergonha, por ter representado uma tal ferida que a encobriram e fingiram que não existia até ela ter infeccionado e crescido. E que é que precisam fazer? Precisam abrir a ferida. Precisam lá voltar e abrir a ferida e deixar que supure, para deixar que as toxinas que lhes envenenam o organismo e a mente e as emoções e a vossa espiritualidade, saiam. É como um obsesso que drena todo o seu veneno no vosso sistema, e que precisam abrir para deixar que o pus, o veneno, a infecção saia. E assim regressam a incidentes ligados à vergonha e sacam-nos um de cada vez, e reabrem-nos. Voltam a experimentar a dor – não é voltar a encobri-la de novo como se não mais lá estivesse. Contem a vós próprios a verdade – ela está lá e dói, e vocês vão golpear esse obsesso, lancetá-lo e deixar que todo esse pus saia voltando a senti-la, a experimentá-la, limpando-a para que possa curar sem infecção e de uma forma adequada.
Assim, o que fazem é regressar ao incidente e reabrir a ferida e voltar a sentir toda a dor e toda a agonia, todo o horror, todo o pesadelo, toda a infelicidade que lhe esteja associada; e ao abrirem essa ferida limpam-na com o vosso poder, com a vossa força, com o que conhecem agora, com o que são capazes de fazer agora. Aos cinco anos não poderiam dizer à vossa mãe:
“Olha, tu és uma pessoa carregada de vergonha, e estás a descarregar toda essa vergonha sobre mim. A razão por que te embriagas fica a dever-se ao facto de não deixares de te esvaziar sempre ao redor do teu próprio vómito! Deve-se a que te sintas menos do que humana e a que despejes isso tudo em mim, mas eu não vou acatar isso!”
Não o conseguiam proferir quando estavam com cinco anos. Mas agora gozam da faculdade de fazer isso. Quando vos erguem uma mão para a esborrachar na vossa cara devido seja ao que for, por terem estado demasiado barulhentos ou calados, activos ou inactivos, para lhes “ensinar uma lição,” agora dispõem da força física para lhe agarrar a mão e dizer:
“NÃO! Não me vais bater mais!”
Agora gozam dessa faculdade, e podem desligar o “interruptor” e dizer:
“Vamos parar de brincar! Isto que fazes é doentio e eu não estou mais disposto a aturá-lo, nem a aceitá-lo mais.”
E podem alterar o padrão.
O incidente constitui um exemplo. Pode ter sido o caso de em catraios terem saído todas arranjadas e terem acabado de aprender a usar a maquilhagem e de pôr batom, e terem deixado a cara borratada de maquilhagem e o cabelo todo... e a vossa mãe ter dito:
“Ai não; pareces uma vadia. Se cresceres assim nenhum rapaz do quarteirão te quererá pôr a mão, sua imunda... Começa a tirar o batom e tira-me essa porcaria da cara!”
Nessa altura não podiam fazer nada e sentiam-se tão humilhadas quanto envergonhadas... Mas agora podem! Agora podem entrar nesse incidente e dizer:
“Pára! Talvez não o esteja a fazer adequadamente; talvez tenha ido além da medida nisso, talvez não tenha parecido pelo melhor que podia. Mas a forma como o estás a tratar só deixa a coisa em pior estado. Diz-me aquilo que queres ou o que pensas, diz-me como faze-lo, mas não me trates como um tipo qualquer de ser humano inferior.”
Podem interceder.
Ou quando o vosso pai vos dizia quando eram jovens:
“Vais conseguir tornar-te num zero à esquerda, num débil, num fracote, e não vais prestar para nada. Por que terás que ser tão repugnante, por que não poderás ser um homem como os outros rapazes, ora diz lá?”
E numa conversa poderão dizer:
“Pára com isso! Estás a tentar viver a tua vida através de mim, e estás a querer que eu te compense as tuas próprias deficiências. Eu não sou tu nem vou ser como tu, por isso pára com isso.”
Podem deter isso. Podem agora com essa intersecção dizer-lhes o que vos estão a fazer. Podem responder e reagir, podem ripostar, mesmo que na meditação isso signifique que o façam em termos físicos. Detenham-nos, empurrem-nos para trás, comecem a berrar-lhes, comecem a deixar que levem por um lado e pelo outro. “Isso não os magoará?” Não, é só com o propósito de limpar a vergonha.
Assim, abrem a ferida, entendem? Experimentam-na da forma que sucedeu, dão um passo atrás para administrarem o anti-séptico, a purificação através das vossas próprias forças. Voltam a experimentá-la mudando a resposta que davam, reescrevendo-a ou editando-a, se preferirem. E a seguir devolvem-lhes a vergonha. E sentem-na como um saco, que lhes pertence:
“Fica com ela. Não vou acatar com a tua vergonha! Lá por te sentires completamente inadequado não vou nisso; fica com a inadequação para ti, pois eu recuso-a.”
E ao usarem de um processo de reeducação desses, e concluírem com a devolução do “saco da vergonha, “ o saco” vil e flácido da vergonha; devolvam-lho, devolvam-lho.
“Mas, isso não os deixará a sentir vergonha?”
Isso já eles estão a sentir!
“Não deixará a coisa em pior estado?”
Não! A intenção que têm é a de se livrarem da vergonha, de modo que lha devolvem.
Agora, precisarão fazer isso em relação a cada incidente que tenham tido? Não! Aqueles de vós que foram sexualmente abusados, uma vez por semana durante quatro anos da vossa vida, “Meu Deus, isso representa 52 vezes 4, o que dá um resultado de duzentos e oito...” Não! Poderão precisar sintonizar três ou quatro incidentes de abuso sexual ou de abuso físico, ou de abuso emocional ou mental, de modo que poderão precisar entrar em contacto com alguns dos incidentes de abandono, ou umas quantas vezes em que de facto esses incidentes, aquele pesadelo de raiva e aquelas expectativas de precisarem ser super-homens, ou de precisarem exceder-se na realização (ser brilhantes) ou ser a criança perfeita de forma que os vossos pais fiquem orgulhosos de vós. Nos casos em que tenham que tirar boas notas e ganhar acesso a todos os clubes e tornar-se presidentes de tudo para cúmulo do resto, para que a mãe sinta ser uma pessoa decente. E se ficarem aquém de alguma dessas coisas isso irá deixá-la magoada:
“Isso é vergonha minha!”
É por isso que tanta gente que alcança um tremendo sucesso, em termos de (...) sinais externos de sucesso, e de serem brilhantes e de chegarem em primeiro lugar, enquanto por dentro sentem um contínuo vazio e depressão, por corresponder à maneira como a vergonha opera. Assim, poderão precisar voltar a pegar em três ou quatro incidentes; alguns poderão ter que pegar de novo num total de vinte incidentes diferentes a tratar. Outros poderão pegar em quatro ou cinco, dependendo da intenção e do grau de intensidade, mas pegam em três desses incidentes e abrem-nos um a um, o que poderá exigir uma ou duas meditações – e pronto, está feito!
Um outro incidente poderá exigir quatro ou cinco meditações, outro ainda poderá levar um mês ou dois, se for verdadeiramente intenso e grave. Mas mesmo – não dizemos todos os dias nem nada disso, mas ao partirem para o trabalho neste enorme estado... e perceberem que é tão significativo que os pode apanhar por completo. Quando terminar, quando fizer um clique, senti-lo-ão, saberão disso, por não disporem de termo nenhum por que o possam denunciar; mas sentirão que esse incidente estará completo. Poderão tratar dele, voltar-vos para uma outra ocupação e posteriormente voltar a ele por disporem do próprio padrão da vossa singularidade, mas precisam reeducar – reeducar – por meio da abertura, da purificação, da selagem e da permissão para que a ferida cure. Essa é primeira técnica destinada a pôr cobro à vergonha.
A segunda técnica passa pela necessidade de substituir o pai ou mãe da criança. Muitos de vós que sentem vergonha têm crianças por pais, embora biologicamente sejam crescidos; encontram-se numa posição em que podem procriar, os seus órgãos sexuais operam (claro que não existe teste que confirme se uma pessoa pode ser mãe ou pai, por o poderem fazer biologicamente, o que não significa que o consigam emocionalmente). E alguns de vós têm crianças como pais, ou quando muito, adolescentes como pais. Por conseguinte a criança em vós nunca terá tido a experiência decente de obter o amor e de obter a atenção e o cuidado.
Tal como dissemos quando falamos dos momentos de tratamento da criança interna para lhe substituir os pais, para lhe atribuir pais, ou no sentido de se tornarem o pai ou mãe que ela nunca teve. Dar-lhe aquele amor incondicional durante os primeiros quinze meses, dar-lhe aquele sentido de pai ou de mãe adorável que não exige perfeição e que consegue permitir que seja aquilo que for – substituir o pai ou a mãe dessa criança. E para alguns essa será a única técnica – e vocês precisarão literalmente passar um tempo com a criança e segurar nela, embalá-la, entoar-lhe cânticos, deixar que essa criança cresça por intermédio de um período de processos meditativos em que talvez passem as duas ou três primeiras meditações com o bebé em que simplesmente lhe dediquem uma admiração e uma atenção total. Após o que, três ou quatro meditações, a criança já assume o aspecto de uma criança pequena que passa pelo terrível período dos dois anos em que lidam com ela de forma diferente da anterior, em que se torna numa criança até aos seis ou sete anos, em que lhe dão aquilo de que ela precisa, e lhe dão aquilo que lhe falta ou que não teve, durante esse período mais amadurecido que vai dos sete aos treze, ao entrar na puberdade e passar pela explosão hormonal da adolescência.
E talvez passe por um processo, aqueles que usam a via da substituição ao invés da via da reeducação, em que se ocupam dessa substituição durante um período de uns dois ou três meses, durante os quais tratam do crescimento da criança que foram a fim de fazer com que recupere e se torne livre por si só. E nesse sentido despendem do tempo, depende de, em todo esse tempo todo a soltarem e lhe alterarem o padrão. Assim, essa substituição constitui uma outra abordagem com que poderão trabalhar. Alguns poderão dispor-se a trabalhar com ambos.
Uma terceira técnica importante que recomendaríamos a muitos de vós, é que atribuam à criança (que foram) um sentido de remorso. Muitos de vós, quando a vergonha penetrou nas vossas vidas – numa altura em que se tenham sentido envergonhados de vós próprios ou em que se tenham sentido tolos – esses sentimentos foram suprimidos e empurrados para baixo, por poderem estar enganados só por os sentir. E desse modo, aquilo que poderia não ter passado de remorso, em vez disso tornou-se numa vergonha enclausurante em desenvolvimento. Por isso precisam voltar atrás e falar com a criança interior, que já estará com cinco ou seis anos, e dizer-lhe que não faz mal que cometa erros, dizer-lhe que são os vossos erros, e que não têm importância; e que são os erros dela, mas que não faz mal, que é aceite que se seja humana. Conversem com ela com relação ao perdoar e ao perdão, conversem com ela sobre certas coisas que vão ser preparadas para enfrentar e que irão ser coisas na vida para que ainda não estará preparada para enfrentar – mas não faz mal. E à medida que conversarem com essa criança sobre a naturalidade que é não estar preparado, será aceitável dizer:
“Não sei o que fazer numa situação destas, sinto-me perdido. Não estou preparado."
Até que se sinta bem.
“Não pode ser! Afinal de contas temos que estar preparados!”
Porquê?! Quem o disse? Alguma mãe morta? (Riso) O credo frio do escuteiro:
“Prepara-te!”
Não! Por vezes não estão; por vezes passaram por um crescimento infeliz. Acontecem coisas com que não estão preparados para lidar. Mas não faz mal! Não tem importância que tenham uma certa quantidade de caos na vossa vida, uma certa dose de incerteza quanto ao que fazer:
“Posso descobrir, mas agora não sei o que fazer. Vou ter que avançar; vou ter que voltar a isto.”
Não faz mal. Mas ao conversarem com a criança interna acerca disso, deixem que saiba disso, transmitam-lhe o sentido disso, e façam por que saiba que pode ter necessidades e desejos e preferências, e que podem estabelecer escolhas e que podem mudar, e que com o tempo desenvolverá - não agora, por um catraio de seis anos não desenvolver o carácter, o que não faz mal. Tampouco saberá o que sejam princípios para além daqueles a que se acha sujeito na escola, ao ser tratado de modo grosseiro e áspero – esses serão todos os princípios que conhece. (Riso) Mas não conhece princípios, por isso não lhos exijam!
“Olha, não precisas ter princípios; eu adopto-os por ti. No devido tempo obtê-los-ás, e não faz mal. E não faz mal sentires-te embaraçado; não faz mal sentires vergonha pelo que fizeste ou pela forma como te comportaste ou por teres sido apanhado com a mão na botija, ou o que for que isso queira dizer. Tudo bem.”
Deixar que a criança interna saiba disso, e de que existe um sentido de Deus, da Deusa, de Tudo Quanto Existe, que não representa simplesmente uma abstracção qualquer que seja tão abstracta que possivelmente nem consigam ter qualquer relação com Ele, e que não representa um ser humano que se ajuste à imagem que a criança tem de um Deus no Céu, pronto a julgá-la, mas que existe uma energia adorável, viva, natural. Transmitir isso à criança para a voltar a treinar para que pegue na vergonha e deixe que floresça através do remorso.
Do mesmo modo, uma quarta técnica consiste em pedir ao Eu Superior por auxílio. Para aqueles que se veem crivados de vergonha isso irá parecer impossível, pelo que não devem começar por aí. Comecem por alguma das outras até que consigam dizer:
“Tudo bem, eu consigo pedir, de uma forma legítima, ao meu Eu Superior.”
Dissemos há dois anos atrás, num seminário chamada “Eu Mereço!” que o merecimento é um daquelas questões que poderão praticamente aclarar, mas em última análise, antes que se livrem de toda a falta de merecimento precisam pedir auxílio, precisam que alguém mais do que vós o faça alçar-se.
Isso fica a dever-se ao facto de muita da vossa falta de merecimento se achar repleta de vergonha. Por a vergonha ser uma daquelas coisas que não pode ser por completo erradicada por vós; precisam pedir auxílio, da parte de uma energia qualquer ou de uma parte qualquer de vós, ou de alguém que seja “mais” do que vós, mais forte do que vós, mais amoroso que vós, tudo. E o que nós sugerimos é que peçam ao vosso Eu Superior, àquela parte de vós que é mais do que aquilo que sabem ser. Peçam-lhe, ao se deitarem à noite, peçam-lhe para remover parte da vergonha, enquanto dormem. Ou através desta meditação ou daquela experiência, para alçar a vergonha. Ou depois de terem trabalhado este aspecto e terem conseguido aclarar aquele aspecto e sentirem que lhe tenham posto termo, agora voltam-se para o Eu Superior e pedem-lhe para remover a parte que resta, e para lhe dar o último bocado, o último saco da vergonha que prevalece em relação a esse problema. Pedir auxílio.
Para outros, a vergonha ainda não atingiu esse nível de firmeza, ma podem consegui-lo com razoável facilidade. Já para outros, é como se falassem uma língua morta. Para que, no devido tempo, sejam capazes de pedir esse auxílio, e a seguir façam isso.
Em quinto lugar, também recomendamos uma outra técnica que poderão combinar com o que já têm vindo de outro modo a fazer, que é devolver a vós próprios as liberdades que perderam; devolver a vós próprios o direito de perceber e de conceber. Até mesmo sentar-se e dizer:
“Tudo bem, eu tenho o direito, eu consigo conceber algo novo. Assim, deixa-me entrar numa meditação simplesmente para pedir por algo novo. Eu quero conceber uma ideia diferente, uma reviravolta diferente, uma resposta diferente.”
E entrar no que muitas vezes designamos por micro meditação em que penetram num silêncio total, numa tranquilidade total, e em que nada experimentam de directo, mas tão só um silêncio, e em que muitas vezes irrompem dela com uma compreensão, com uma ideia, com uma gestalt, com um entendimento percebido e fruto de uma concepção, e em que de repente passam a ver as coisas de uma forma diferente, e possam conceder a vós próprios de novo essa liberdade. E pensar, perceber que podem pensar, muito embora tenham sido condicionados a dizer a vós próprios que não conseguem. E que podem ter opiniões.
Uma vez mais, foi tanta vez dito: “Não condenes, não ajuízes,” mas por as pessoas serem incapazes de discernir ou decidir em que consiste o acto de julgar, vocês jogam mais ou menos tudo fora – as críticas, as opiniões, as avaliações, os próprios pensamentos que têm, etc. -- jogam tudo fora. E aceitam que tudo seja verdade – “Afinal num nível qualquer será, etc.” Sim, bom, caso isso for verdade, vocês não funcionam em todos os níveis; estão a funcionar neste nível, nesta realidade. E por conseguinte, embora a certa altura isso possa vir a ser verdade, se não tiver lugar aqui, de que lhes servirá isso? Precisam permitir-se ter opiniões.
Concordamos em que não devam julgar, mas podem ter opiniões e fazer avaliações e apreciações a fim de discernir, e nós encorajámo-los a isso. Encorajamo-los a restituir aquela liberdade de volta a si mesmos para sentirem, para tratarem de sentimentos, para mergulharem no nível do sentir, para mergulharem bem fundo no charco da emoção, para trabalharem o sentimento, para despertarem o fogo da vossa alma - a paixão, uma vez mais. Para se permitirem ter ideia de que não faz mal necessitar, querer e preferir. E se derem por vós a dizer: “Não faças isso,” detenham-se por um instante e devolvam essa liberdade a vós próprios e imaginem; comecem a permitir-se flexibilizar o músculo da imaginação de novo, para se permitirem trabalhar com o amar, o dar e o receber, e para concederem permissão a vós próprios. Que se podem curar, que conseguem curar a vergonha que sentem; não é algo com que tenham que viver, nem é algo que deva permanecer preso a vós em termos cármicos. Podem defini-la nestes termos e voltar costas.
Concedam a vós próprios de novo estas liberdades, e talvez mesmo meditem de forma a obterem percepção ou a reactivarem a mente e a calibrarem de novo o cérebro e reduzir aquelas endorfinas particulares que são tão entorpecentes, viciantes. Talvez procedam a um sono mágico, por saberem que ao se deitarem pela noite o vosso Eu Superior e os vossos amigos invisíveis se reúnem à vossa volta, para trabalharem em vós durante a noite toda; a fim de restituirem essas liberdades:
“Eu não sei aquilo que fiz; não sou capaz de o dizer, por ter estado a dormir. Mas acordarei amanhã e saberei que recuperarei essas liberdades ou parte delas. E começarei a ter esperança de que acabem por surgir na minha vida.”
Uma outra técnica destinada à libertação da vergonha, a pôr termo à vergonha.
Em sexto lugar sugeriríamos que se permitam ensaiar o futuro. Muitas vezes lhes é dito que a vida devia ser completamente espontânea, por conseguinte não a deviam ensaiar, não deviam planeá-la com antecedência. Mas o que nós sugerimos é que não faz mal planear com antecedência, não faz mal tentar calcular:
“Ora vamos lá ver, vou a esta entrevista de emprego, mas geralmente deixo que a vergonha que sinto se intrometa e contribua para a minha própria negação. Assim, como irei ser capaz de lidar com ela de modo diferente? Eu projecto a figura de um pai neste potencial patrão, e por isso fico à espera de ser ridicularizado e rebaixado como o meu pai e a minha mãe faziam. E sinto a língua presa como se fosse um incompetente. Assim, de que forma irei ser capaz de o fazer de uma forma diferente agora, conforme me reeduquei e conforme me substituí aos parentes que tive, depois de ter pedido por forças ao meu Eu Superior, depois de me ter permitido reaver a minha liberdade de volta? De que modo irá isso ser diferente desta vez? Como irei eu ser capaz de lidar com esta situação?”
Nos relacionamentos… Muitos de vós que tiveram que crescer a tomar conta dos pais; muitos de vós que nasceram em famílias disfuncionais e que por conseguinte isso tenha produzido vergonha; ou em famílias de pai ausente, em que tiveram que se tornar no pai… E assim, quando casaram, esperaram que o esposo – marido ou mulher – de algum modo os compensasse por tudo isso, e tomasse totalmente conta de vós, de forma a não precisarem tomar conta de mais ninguém de novo. Mas assim que se viram necessitados de auxílio e de cuidados, subitamente tudo lhes rebentou na cara, por não ser suposto terem que voltar a passar por tudo isso. Mas se conseguirem encarar a situação recordem que ele ou ela não é o vosso pai nem a vossa mãe, e tão pouco quem seja suposto fazer a vossa vida resultar. Que é aquele com quem partilham a vida e com crescem juntos – que não é quem faz com que a vossa vida funcione, mas que é aquele com quem juntos, fazem por que a vossa vida resulte.
Contudo, nesse sentido específico, permitam-se ensaiar, praticar:
“Como irei consegui-lo de um modo diferente? Consigo ver onde a vergonha que sinto produz este padrão. Mas como irá isso dar-se de uma forma diferente. Deixa-me praticá-lo na minha mente; deixa-me passar por isso na minha meditação; deixa-me experimentá-lo; criar esse futuro e experimentá-lo, antes de o viver de uma forma efectiva no concreto.”
Não faz mal ensaiar a vossa vida e permitir-se fazer isso.
Por fim sugerimos que, se se concentrarem na vossa espiritualidade, se admitirem o facto de que aquilo com que esta vida tenha que ver é com o desenvolvimento de um relacionamento com Deus, com a Deusa, com o Todo, que não é coisa que façam uma noite por mês, nem algo que façam num entardecer particular, durante umas horas, nem uma vez por semana, ou quando se juntam três ou quatro amigos numa atitude de:
“Agora de repente tornamo-nos espirituais.”
É algo que vivem; é algo que compreende a totalidade da vossa vida, a toda a hora. Não quer dizer que comecem a andar por aí a pregar nem a falar de vós e de Deus; mas a forma como interagem com os amigos, a forma como encaram o mundo, a forma com que assistem às notícias e leem o jornal e falam ao telefone – tudo quanto faz parte de um sentido mais vasto do relacionamento que têm com Deus, com a Deusa, com o Todo; do relacionamento que têm com o vosso Eu Superior. E se se concentrarem numa espiritualidade dessas e tiverem consciência de que toda a coisa que fazem, por mais mundana que seja, faz parte disso – talvez não uma parte muito grande nem discernível, mas parte da aproximação, de se tornarem mais, de abraçarem mais a vossa espiritualidade.
Ora bem; essas sete abordagens, conforme dissemos, não é que venham a tonar-se num metafísico perfeito e que se sobressai, que consegue tudo. Trabalham com aquilo que resultar no vosso caso. Poderão experimentar e tentar uma e outra coisa:
“De todas estas técnicas, esta é a que parece resultar, de modo que é a que vou experimentar. E vou tentar isto e aquilo, e estes dois métodos são os que realmente funcionam; assim são os que vou empregar. E enquanto emprego esses dois por um tempo poderei perceber que consigo pegar num terceiro por um certo período. E talvez, então, pegue numa quarta, por já ser tempo de considerar estes problemas de determinada perspectiva, ou de trabalhar a partir de determinado ângulo. Talvez ainda não consiga pedir auxílio. Pois sim, eu vou pedir ajuda, mas primeiro vou para casa e vou corrigir-me, de modo a poder merecer pedir auxílio.”
Tudo bem! Nesse caso não tentem pedir por ajuda logo de caras.
“Não resultou, está bem? Vês, sou de tal modo terrível que mesmo as técnicas que supostamente deveriam resultar e que operam com toda a gente não resultam no meu caso!”
Peguem numa técnica diferente. (Riso) Não faz mal, não tem importância.
“Então, talvez trate destas feridas e de uma reeducação, e agora já consigo… Agora já me sinto bem por pedir auxílio, e de seguida prossigo um pouco mais. E agora já faz sentido exercitar o acto de ir conhecer esta pessoa nova ou arranjar este novo emprego ou regressar a casa e tratar da minha esposa ou da querida com quem partilho a minha vida actualmente, por modos diferentes.”
Abrirem-se e utilizarem essas técnicas que se apresentarem; não precisam saltar de repente e tê-las todas praticadas na próxima terça-feira. Mas trabalhar com elas, explorá-las. Ao participarem na meditação desta noite, alguns de vós perceberam o incidente da vergonha com uma clareza que os deixou assustados. Já no caso de outros foi uma tanto mais vago, e apenas ficaram com uma ideia, e não conseguiram sentir muito bem. Mas não culpabilizem por isso. A ideia não era a de seguirem a meditação na perfeição, mas em certo sentido permitirem que funcionasse convosco. Mas mesmo que tenham tido, nem que seja um ligeiro vislumbre, ele terá durado menos de um décimo de segundo antes de tudo se tornar enovoado e distorcido, a intensidade da meditação foi tal que deu início ao trabalho e começou a alterar a vergonha no vosso íntimo.
Assim, se voltarem atrás e o fizerem de novo poderão surpreender-se com a forma como funciona. Nas cassetes em que falamos… (Não se recorda do título, o que provoca riso da parte da plateia) Na que saiu no mês passado, que fala de deixarem que os sonhos do vosso Eu Superior se tornem numa realidade, em se permitirem descobrir os sonhos que o vosso Eu Superior tem para vós. E nela vem uma meditação em que permitem que essa bolha rebente e os inunde. Mas alguém redigiu uma maravilhosa carta acerca da experiência em que contou que ouviu o primeiro lado da cassete de um determinado seminário ao regressar a casa enquanto conduzia, e depois após ter chegado a casa fez a meditação, e não viu nada nem percebeu nada com a meditação – nada aconteceu. Mas o mais estranho de tudo foi três ou quatro dias depois foi de repente derrubado ao se ver inundado por todo um discernimento e por percepções em que viu, percebeu, o que era isso de sonho que o seu eu superior tinha para ele. Por vezes funciona assim para alguns. E a meditação resulta sem que ainda o suspeitem, mas mais tarde regressam a ela; por isso não exijam perfeição. Nós jamais a exigimos da vossa parte. Deixem de a exigir de vós próprios e trabalhem com essas sete técnicas - não uma a uma por ordem para se tornarem no melhor metafísico, mas trabalhar com aquela que se lhes ajuste e que sintam ser a correcta e a que opere na singularidade da vossa circunstância ou situação. E é assim que põem termo à vergonha. Não sucede de repente, e após terem trabalhado com ela, aí acontece de repente, e de súbito ter-se-á desvanecido. Um pedaço dela. E depois mais um pedaço. E a seguir outro.
Mais livres a cada pedaço que se desvanece e que derruba a escuridão a fim de poderem descobrir a luz do sol do outro lado.
FIM
Transcrição e tradução: Amadeu António

Sem comentários:

Enviar um comentário