sábado, 20 de agosto de 2016

VERGONHA - FASE ADULTA



Esta noite pretendemos uma vez mais examinar a questão da vergonha. Esta noite vamos querer explorar o que poderá porventura representar o nível mais devastador, talvez o mais ilusório, e de facto a mais insidioso, e porventura a vaga mais prejudicial da vergonha que poderão experimentar. E nas vagas anteriores, conquanto devastadoras e perturbadoras, e por mais que lhes tenham feito balançar o barco e os tenho entravado, e mesmo por vezes os tenha aparentemente afectado de uma forma profunda, nenhuma dessas vagas anteriores os terão efectivamente voltado do avesso. Todavia, contrariamente a essas vagas anteriores, esta quarta vaga da vergonha – da vergonha adulta – com a dor entorpecedora que encerra pode conseguir exactamente isso, pode levá-los a capotar, pode representar uma forma de vergonha e uma força completamente destrutiva.
Em cada um dos níveis anteriores, apesar da vergonha da primeira infância, ou da vergonha do primeiro rompimento da infância, ou daquela vergonha dos anos de adolescentes, com certeza que elas lhes terão atrapalhado o passado, e decerto que continuam a danificar, a perturbar e a romper o próprio funcionamento da criança interior sempre presente, e do adolescente interior sempre presente. Decerto que essas vagas anteriores da vergonha, das várias maneiras em que sucederam e em que foram acumuladas, lhes terão causado um impacto devastador, os furtaram a várias partes válidas e porções preciosas do vosso passado. E na medida em que o passado ainda exerce influência, na medida em que o passado para alguns de vocês parece ainda exercer controlo, essas vagas anteriores podem tornar-se tremendamente perturbadoras para a vossa presente realidade.
Com certeza que essas vagas anteriores terão distorcido e deturpado a própria fundação do seu ser, e assim continuam a distorcer e a deturpar a própria função e a própria estrutura do vosso presente e potencialmente a armação do vosso futuro. Mas de facto, a vergonha da fase adulta, com a sua dor mortal não representa algo que lhes tenha acontecido, nem é algo que tenha rompido ou danificado, algo que tenha distorcido ou deturpado, mas algo que está a distorcer e a deturpar, que está a romper e que actualmente está a provocar danos. É uma vergonha que não ocorreu no passado mas que de facto está a suceder exactamente agora, no vosso próprio presente, e que está a ameaçar gravemente o vosso próprio futuro.
Com as vagas anteriores da vergonha poderão avaliar quando terão sucedido e o dano que terão causado; com a actual vaga, com a vergonha da fase adulta e a sua dor mortal, poderão somente antecipar, poderão unicamente imaginar quando irá atacar por completo, e podem somente imaginar e antecipar a dimensão (...) do dano que venha a provocar. Tão difícil quanto tenha sido tratar dessas vagas anteriores, ou trabalhar com elas actualmente, vocês estão a operar com elas de forma retrospectiva, estão a tratar delas em regime de pós facto. Não são mais um bebé nem são mais um criança, nem são mais adolescentes entendem? Mas de facto são crescidos que trabalham com o bebé e com a criança, com o adolescente e de facto têm a tarefa que um crescido teria, o trabalho que a retrospectiva lhes confere. Mas com a vergonha da fase adulta, com esta vaga corrente, com a dor mortal desta fase adulta não dispõem do trabalho em retrospectiva, não dispõem da tarefa de estar além dela, ou fora dela. Nas vagas anteriores vocês situam-se, num certo sentido, fora do contexto conjuntural, entendem? Compreendem e têm conhecimento decorrente da teoria do conjunto, assim que se encontram fora dele; compreendem minuciosamente o conjunto e trabalham com ele. Mas no caso da vergonha da fase adulta encontram-se no meio do conjunto. Ah, certamente que supomos que poderão esperar até morrer. Supomos que consigam esperar até então e após terem abandonado esta vida encontrar-se-ão suficientemente fora do contexto da vergonha de adulto e olhem para trás em retrospectiva e gozem da completa vantagem de... mas aí será um pouco tarde demais!
Depois, poderão voltar numa outra vida e supostamente lidar com isso a esse ponto, mas, não é disso que andam à procura nem é o que pretendem; tal solução será porventura a mais fácil, mas não é uma solução adequada. Encontram-se bem no meio do conjunto, bem no meio da própria vergonha, e consequentemente torna-se mais complicado, é mais complexo e na verdade mais necessário de tratar; mas não tem que ser mais difícil.
...
Ao lidarem com esta informação, ela poderá suscitar a questão ou a suposição: “Porque não pegar simplesmente nesta informação e usar estas técnicas que tão adequadamente operam nessas fases pré-verbal, da infância e da adolescência da vergonha, e porque não adaptá-las simplesmente e usá-las em relação à vergonha que sucede agora?" Gostaríamos de sugerir que a questão e a suposição decerto possuem mérito, porque de facto se usarem essa informação e se usarem essas técnicas poderão ir longe rumo ao tratamento da vergonha e da dor mortal da vergonha adulta – isso é verdade. Mas ao escutarem esta informação e ao tomarem consciência desses outros níveis percebem que cada um deles é, a seu modo, único, e que as técnicas proporcionam, a seu jeito, um modo único. E embora tal informação e tais técnicas possam ser efectivas e possam percorrer um longo caminho, a forma mais elegante para terminar e curar verdadeiramente a vergonha será trabalhar as técnicas e a informação que se voltam especificamente para estes níveis adultos da vergonha, em que se encontram a meio, e não que tenham ocorrido no passado; a que está a suceder exactamente agora.
Por mais complicado que seja - por uma vergonha presente que influencia o futuro, ao contrário de uma vergonha passada que esteja a influenciar o presente. Por mais complicado que seja pela perspectiva actual (ao contrário da retrospectiva do passado) por mais complicado que seja por uma vergonha que sucede agora, em meio ao conjunto (ao contrário de fora do conjunto) a vergonha adulta é ainda mais complicada pelo facto de no meio dela se estarem a tornar-se ou se terem tornado num ofensor.
Bom é claro que não estamos a sugerir que todos vós aqui estejais a molestar os vossos filhos, ou que estejam a molestar quem quer que seja. Não, não estamos a sugerir tal coisa, em absoluto. Infelizmente aqueles (alguns dos quais no plano consensual, que) padecem de vergonha adulta, estão a fazer justamente isso. Não, não estamos a sugerir isso em relação ao vosso caso, mas o que estamos a sugerir é o seguinte: Que enquanto adultos que são e que se encontram em meio à vossa vergonha adulta, estão a passar essa vergonha para diante, na vossa realidade. Estão a passá-la em frente, quer através do que ensinam, ou do abandono ou do abuso, quer através  do engano – e senão aos vossos filhos, então aos vossos pares, porventura àqueles pares por quem se interessam mais e que amam mais.
Estão a passá-la, e se a não tiverem passado já, passá-la-ão a outros. Esse é o fenómeno que envolve a vergonha. E quando se tornarem num ofensor, lidar com a vergonha adulta tornar-se-á ainda mais complicado. Mais complicado por causa desse factor, do que pelo presente em vez do passado, da perspectiva em vez da retrospectiva, de se situarem no conjunto em vez de se situarem fora dele. Assim que se tornam num ofensor torna-se mais complicado lidar com esta vergonha mortal e a dor mortal que carrega. Esse é o fenómeno dessa particular enfermidade, que ao contrário de tantas outras enfermidades que podem experimentar ou de que possam padecer, se não curarem a vergonha poderão infectar outros com ela. Se não puserem cobro a essa vergonha em vós, passá-la-ão a outros, tanto quanto lhes tiver sido passada a vós, por quantos antes não tiverem chegado a curá-la ou não tiverem chegado a pôr-lhe cobro neles próprios.
...
Não tratem dessas vagas anteriores para depois deixarem esta escancarada, a vaga mais devastadora de todas, para acabarem por a passar a outros, a despeito de vós próprios, e os infectarem com ela. É, pois, tempo, e vocês estão mais do que preparados, para verdadeiramente pôr cobro a essa vergonha, para verdadeiramente curarem essa dor, e à medida que este ano da exploração corre mais depressa do que pensam para o fim e à medida que o ano novo da realização já parece estar a mexer convosco, é tempo de pôr já cobro, de uma forma conclusiva e terminante, total e completamente a essa enfermidade da vergonha.
E é disso que vamos tratar convosco esta noite. E de modo a podermos fazer isso de forma adequada, certas coisas devem ser percebidas. Primeiro, é importante que cheguem a fazer as pazes com a vergonha enquanto função humana que representa. E em segundo lugar, é importante que cheguem à paz em relação à presença – não ao conteúdo – em relação à presença da vergonha adulta em vós. Em terceiro lugar, é importante que compreendam por completo o impacto devastador que tem e o que terá corrido mal em relação à vergonha com a sua dor entorpecente, nestes anos de adulto. E por fim, é importante que aprendam a técnica específica orientada precisamente para este tipo de vergonha e para pôr termo à vergonha de uma forma completa e conclusiva. E é com esse fim que exploramos juntos esta vaga final da vergonha adulta e da sua dor entorpecedora.
A primeira coisa que dizemos ser importante é fazer as pazes com a presença da vergonha, da necessidade enquanto parte da condição humana da vergonha que é. Porque para muitos surge a questão – que se já não tiver surgido antes, surgirá:
“Bom, se de facto crio a minha realidade, por que razão haveria de ser tão estúpido, tão ingénuo, tão volúvel para dar lugar à vergonha? Por que terá a humanidade sempre sido míope quanto à criação de uma idiotice tal como a vergonha?”
Mas com isso sobrevém, claro está, a vergonha pela própria vergonha. Por ser importante compreender que se pretendia que a função da vergonha fosse uma coisa positiva; que fosse uma coisa que tivesse ramificações positivas, e não dolorosas e perniciosas quanto os pesadelos, por mais horrendos que tenham sido. Pelo menos inicialmente pretendia-se, enquanto parte da função humana que é, que produzisse alguns efeitos ou resultados admiráveis na vossa realidade. E embora a vergonha se tenha tornado tóxica, e por isso mesmo venenosa e devastadora e mesmo entorpecedora, sugerimos que se pretendia que a sua força ou propósito original fosse produtiva. Por a vergonha constituir uma emoção real, muito embora possa parecer restritiva e negativa; ela contém potenciais positivos. E é importante chegar às pazes com o facto de a realidade ter precisado incluir a vergonha como parte do processo do crescimento. Infelizmente, deu horrivelmente para o torto, e infelizmente tornou-se tóxica e destrutiva, mas pretendia-se que fosse uma influência positiva.
É suposto que a vergonha produza o fenómeno do remorso; é suposto que estabeleça a fundação inicial do remorso na infância. É suposto cultivar a sua implementação durante a infância e a adolescência, e é suposto instaurar a aplicação do remorso na idade adulta. O remorso constitui o sentimento autêntico do pesar, entendem? Quando cometeram um erro, quando fizeram algo de mal, quando tiverem magoado alguém, inclusive vós próprios, o sentimento genuíno da perda, da dor, do arrependimento... Agora, podem cultivar a palavra - toda a gente a aprende desde muito cedo na vida:
“Eu peço desculpa; eu estou arrependida; sinto remorso.”
Os termos fazem parte do vosso vocabulário, isso é certo, só que a maioria das pessoas realmente não sente remorso, mesmo quando utiliza o termo.
Muitas vezes, por lhes faltar a fundação, ou a implementação ou a aplicação como parte da vossa própria experiência de humanidade, e acabam em vez disso por realmente dizer:
“Eu tenho pena de mim próprio.”
Ou então:
“Sinto ser uma mártir. Sinto-me culpada. Sinto-me à defesa. Sinto-me honrada, íntegra. Sinto-me Feia, medonha, autopunitiva.”
Mas não quer dizer que sintam pesar, que sofram. E frequentemente quando fazem algo que de outro modo os levaria a sentir dor ou arrependimento, o que acabam em vez disso por sentir é sentir-se muito tristes, muito martirizados, muito culpados, muito à defesa, muito autopunitivos ou sabotadores ou mesmo autodestrutivos. Mas isso, meus queridos, não é dor. Sentir dor genuína, sentir-se verdadeiramente triste ou arrependido de uma forma isenta de culpa e de pena e de rectidão moral ou culpabilização, sem martírio, isso é o que representa o remorso.
E embora, conforme poderão entender, tenham aplicado os termos muitas vezes, e o tenham feito com emoção, na verdade isso era acompanhado pelo fenómeno da autocomiseração, etc., e como tal, não representava um remorso genuíno. Para poderem sentir um remorso genuíno, precisam saber sinceramente que podem cometer erros, entendem? E assim também os outros – e assim também os outros! Precisam saber que é compreensível e que não faz mal que não sejam perfeitos. Também não tem importância que os outros não sejam perfeitos. Mas uma vez mais, não apenas entoar as palavras nem render penitência ao conceito, mas ter noção disso de uma forma genuína. E saber igualmente que são dignos de perdão, que não existe nada que possam fazer por que não sejam dignos de perdão, e que nada existe que os outros possam fazer por que não possam ser, tão pouco, perdoados. E que haverá alturas em que irão estar preparados para lidar com a vida e alturas em que simplesmente não irão estar preparados. Mas não faz mal. Poderá ser fonte de desconforto, de desagrado, de embaraço, mas não faz mal.
E os outros por vezes vão encontrar-se no mesmo barco; por vezes estarão preparados e noutras ocasiões não irão achar-se preparados, mas também não tem importância. E que têm necessidades e desejos que por vezes são prioritários, e que noutras alturas vêm depois das necessidades e dos desejos dos outros; e noutras ocasiões vêm após as necessidades e vontades do mundo que os rodeia, e vêm mesmo depois das necessidades e vontades de um mundo interior, íntimo. Mas que têm necessidades e vontades que são flexíveis, suaves e maleáveis; por vezes imediatas e por vezes postergadas, mas que são as vossas necessidades e desejos.
Os outros têm necessidades e desejos diferentes dos vossos, e por vezes o seu atendimento vem primeiro que o dos vossos, e por vezes o atendimento dessas necessidades e vontades vêm a seguir às de mais alguém, ou às do mundo, ou às do mundo interior, segundo a perspectiva da realidade que tiverem. Compreender que por vezes poderão reagir a um mundo que os rodeia, e que por vezes podem agir nesse mundo, e que noutras alturas podem ser pró-activos (tomar a iniciativa da acção em vez de o fazerem pela reacção) nesse mesmo mundo, e que iniciam e planeiam acções sem necessidade mas por uma questão de desejo. E que poderão ter tudo de uma forma gratuita mas que poderão ter circunstâncias e situações em que reagirão, em que agirão, e outras alturas em que serão pró-activos. E o mesmo é igualmente verdadeiro em relação aos outros.
É compreender que podem desenvolver um carácter, um carácter pessoal e um carácter espiritual dotado de integridade e de estima, tanto quanto os outros. É perceber que podem desenvolver um relacionamento vivo com Deus, com a Deusa, com o Todo, não apenas filosófico nem como uma abstracção que tenha existência num ideal qualquer inatingível, mas um relacionamento bem presente, embora aquém da perfeição. Quando possuem conceitos genuínos desses, não como algo de que simplesmente têm noção, nem como algo que podem recitar ou repetir mas como algo que vivem e que constitua uma parte automática e viva do vosso ser, então, quando cometem um engano sentem dor, tristeza, amargura; sentem-se arrependidos, sem sentirem culpa, sem autocomiseração nem martírio, sem precisarem defender-se e sem se torturarem ou se castigarem seja por que modo for - físico, mental, emocional ou espiritual.
Mas quando não possuem fundações dessas, então não conseguirão sentir remorso sem que importe o quão consigam repetir a palavra ou repetir que se sentem verdadeiramente tristes, por que isso não o vai substituir. Quando em criança começam a cometer erros e a sentir-se mal em relação a esses erros, é aí que essa fundação é estabelecida, entendem? E isso é implementado na infância e na adolescência de forma a poder ser aplicado aos anos do crescimento, e é isso que é suposto que a vergonha lhes forneça. Mas de facto em muitos de vós a vergonha tornou-se tóxica, demasiado rápida e pesada e vibrante, e por conseguinte jamais chegaram a cultivar nem a estabelecer essa fundação. E agora, quando é esperado que sintam remorso, realmente não sabem como senti-lo. Mas é isso que a vergonha supostamente devia proporcionar, quando é retribuída e aplicada na intensidade apropriada.
Para além disso, a vergonha, quando tratada de modo apropriado, deve igualmente fornecer uma base de integração. Integração, actualização, individualização, tudo palavras multissilábicas adoráveis que são utilizadas por psicólogos e terapeutas que soam importantes - mas que será que querem verdadeiramente dizer? Para o colocar do modo mais directo e sucinto, significa encaixar na ilusão, entendem? Vocês são consciência, e isso é real, só que têm uma existência num mundo ilusório a que chamam de realidade. Precisam descobrir uma forma de pegar nessa coisa real que são, e de a encaixar na ilusão, para fazer com que encaixe dentro dessa ilusão.
Ora bem, já falamos tanta vez sobre os segredos da manifestação, o primeiro dos quais consta de perceber que quando manifestam qualquer coisa, pegam no real e conduzem-no até à ilusão, e não ao contrário, por que descobririam uma ilusão qualquer e a tentassem tornar real; de facto descobrem o real algures e tentam torná-lo numa ilusão. Pois bem, vós sois a realidade algures, enquanto consciência, que possui um corpo que constitui uma função da ilusão, que existe num plano físico que constitui uma ilusão, e precisam descobrir como conseguir encaixar isso de modo que consiga operar nesta ilusão - é isso que a integração representa: fazer com que a realidade que os caracteriza se enquadre na ilusão. A individuação é isso; é isso que representa a actualização - tornar-se real; tornar o real presente na ilusão. E a vergonha não é o único mecanismo, mas faz parte do mecanismo que pode possibilitar que isso suceda, de modo que consigam descobrir um lugar para as vossas "matérias-primas" e para as vossas crenças – não para as crenças das vossas mães e pais, nem para as crenças dos vossos professores e superiores ou das vossas autoridades, mas para as vossas crenças – não para as atitudes deles mas para as vossas; não para as ideias e sentimentos nem escolhas e decisões deles, mas as vossas.
E é a introdução à vergonha, a percepção de que podem fazer coisas por que se sintam envergonhados e de que podem fazer coisas de forma diferente por que não terão que se sentir envergonhados, e de que podem encontrar o vosso lugar em que esse realismo da consciência que sois vós, que se enquadra nesta ilusão, se torne parte desta ilusão e consiga operar nesta ilusão. Como integrar, encontrar um lugar para as vossas "matérias-primas" e para as vossas ferramentas, os vossos desejos, expectativas e imaginações – não as dos outros, não as de mais alguém excepto as vossas. Descobrir um lugar para a vossa própria energia causadora, para a vossa confiança, gratidão, o vosso sentido de valor, a vossa felicidade e alegria – não as da sociedade nem as do consenso geral, nem as do governo nem as do mundo mas para as vossas. Descobrir um lugar para a vossa energia de sustento, para a vossa disciplina, para o vosso direito à propriedade, para vossa intimidade e na verdade para o vosso amor – o vosso amor, e não a ideia que as outras pessoas tenham. E a presença da vergonha, defrontar-se com o cometimento de erros, defrontar-se com o preparo e a falta de preparo, esbarrar com as vossas carências e necessidades e fazer com que se ajustem à primeira ou à segunda, à terceira ou à quarta; agir ou reagir ou ser proactivo, é aí que aprendem, é aí que experimentam, é aí que exploram a tentativa de se ajustarem a esta ilusão, de se integrarem, de se individualizarem, de se actualizarem.
Mas quando essa vergonha é exagerada e se torna demasiado forte e rápida e furiosa, e é composta por outros fenómenos, em vez de se ajustar, tornam-se mais alienados, mais separados, mais distantes, mais disfuncionais e incapazes de operar na ilusão que é chamada de realidade do mundo físico.
A terceira coisa que é suposto que a vergonha provoque, é fazer parte do desenvolvimento da consciência, desenvolver a consciência do método da descoberta do justo – do que para vós seja correcto, da acção correcta, do modo correcto, o sentido correcto do ser, para vós - mesmo que neste mundo completamente relativo como é o vosso tenham certam coisas que sejam correctas para vós – podem não ser correctas para mais ninguém, para toda a gente, mas serão correctas para vocês. E para desenvolverem uma consciência e se motivarem com base nessa consciência (não a partir da culpa nem do medo, nem por fazerem algo por que receiem ser apanhados, ou receio do que ocorra caso não o façam, ou por virem a ser punidos ou magoados) mas por ser correcto. Mas é tanta a gente, no consenso geral, que funciona com base na culpa e no medo! Mesmo nas principais religiões do mundo essa motivação assente na culpa e no medo foi internalizada como a motivação adequada, como amar a Deus, por temor do que lhes possa suceder caso não o façam. Fazer coisas por não quererem ser pecadores, ou por não quererem ser apanhados com a mão no pote ou não sei que mais - com base na culpa. Mas de facto, a motivação mais clara e mais correcta, nesse sentido, é a motivação que procede da consciência, ou seja, que brota do vosso carácter pessoal e do vosso carácter espiritual:
“Eu faço isto por ser a coisa correcta a fazer e não por ser a acção mais popular, nem por os outros aprovarem, nem por me acrescentar pontos embora possa fazer parte disso, mas faço-o por representar a coisa acertada para mim, com base no meu carácter pessoal e espiritual.”
Isso é consciência!
E a vergonha é um dos ingredientes, um dos temperos, uma das maneiras por que obtêm esse sentido de consciência. E sem ela, ou quando a vergonha se revela avassaladora, as pessoas parecem não ter consciência, e desse modo precisam relegar a motivação para o medo ou a culpa, ou tornar-se a seu modo no que é suposto que os sociopatas sejam.
A quarta coisa que a vergonha supostamente deve causar como parte da função humana, é paixão, as coisas por que se apaixonam. Também é suposto produzir compaixão – o fogo e o sopro da vossa alma – a paixão e a compaixão da vida. E tanta gente é destituída de paixão. Bem que podem querer isto ou aquilo; podem desejar realmente isto e aquilo, mas não sentem a paixão genuína por ninguém nem por coisa alguma. Tampouco sentem uma compaixão genuína. E na vossa realidade a vergonha é suposto ser o ingrediente que forja a paixão, o fogo; e a compaixão, o sopro da vossa própria alma. Supostamente devia instigar empatia e compreensão, a faculdade de sentir empatia e de ser capaz de sentir o que os outros sentem – não simpatia, mas empatia e compreensão. Não só condescendência e concordância, mas uma compreensão autêntica. É suposto servir de estímulo, de motivação, para serem e para se tornarem naqueles que realmente são.
Em reacção, em resposta a uma vergonha saudável, desenvolvem uma motivação para serem e para se tornarem tudo o que são. Isso é o que é suposto que a vergonha provoque: remorso, integração, consciência, paixão e compaixão, empatia, compreensão, estímulo e motivação. Mas no caso de muitos de vós sucedeu em sobrecarga, por formas tóxicas que lhes abanaram o barco e que os desviaram do curso e que os cegaram e perturbaram de tal modo e de forma tão completa que o remorso, a integração e a consciência, a paixão e a compaixão, a empatia e a compreensão não se estabeleceram da forma que deviam.
Mas é importante tratar realmente da vergonha agora - não quando eram bebés ou quando eram crianças; não quando eram adolescentes mas agora em adultos, chegar de facto às pazes com isso. O adolescente em vós poderá não chegar às pazes com isso e pode consequentemente não ser absolutamente válido sentar-se e conversar com o adolescente acerca do quão supostamente a vergonha deva ser coisa positiva na sua vida. Ele irá entender que não compreendem, que são o inimigo, que são exactamente como toda a gente, pelo que não tentem convencê-lo do valor nem da função que a vergonha supostamente deva desempenhar.
A criança em vós nem sequer consegue chegar ao entendimento, de modo que não tentem forçá-los a isso. Mas vocês não são nada disso; não são o bebé nem a criança nem o adolescente. Agora são crescidos, pelo que num certo sentido se torna importante substituir a influência que a consideração em retrospectiva lhes possa ter dado e substituir essa influência pela paz do saber que conquanto a vergonha tenha sido devastadora para vós, pretendia-se que fosse uma força, uma influência positiva que podia - caso tivesse sido tratada nas doses apropriadas - operar para vossa vantagem. E esse é o primeiro passo na cura desta vaga final da vergonha adulta.
A segunda coisa que é de importância vital, é chegar a um termo pacífico com o facto da vergonha adulta constituir parte da vossa realidade. Bom, em cada uma das vagas anteriores falamos e por vezes chegamos mesmo a gracejar com o facto de por vezes as pessoas dizerem:
"Ah, a vergonha da infância nada tem que ver comigo. Não; nada se passou comigo na infância. Bom, talvez a tenha sentido nessa altura, mas certamente na mocidade; e por altura da minha adolescência já a tinha passado há muito."
Apenas para descobrirem e escutarem e enfrentarem o:
"Deus do céu; eu realmente tinha mais do que sabia. Eu passei por vergonha durante esses períodos."
E de facto chegou mesmo a acumular-se - no caso de alguns de vós - de uma para outra, até à terceira vaga. E agora, numa visão retrospectiva, numa visão fora do contexto, uma vez tais experiências passadas, podem olhar para trás e dizer:
"Bom, sim, é certo que posso constatar que fui abandonado num tal grau de profundidade e de intensidade que fui realmente abusado; se porventura não sexualmente, fui abusado física ou emocionalmente de tal forma que tudo quanto consigo agora apurar enquanto criança adulta, ou pai alcoólico ou pai abusivo ou detentor de um lar desfeito, é que na verdade me foi inculcado que era imperfeito e falho."
Só que isso ocorreu nessa altura, não entendem? Isso ocorreu então.
"Tudo bem, finalmente posso admiti-lo, mas não admito que esteja a decorrer agora. Não quero dizer que o esteja a sentir aqui - não, não, aconteceu no passado. E é quase como se quisesses dizer que o abandono nessa altura tenha produzido vergonha, mas que o abandono agora, não."
Porque não? Porque será que se tiverem sido abandonados em criança e na adolescência isso tenha produzido vergonha mas se forem abandonados em adulto isso não produza? Ora, com certeza que nem todo e qualquer abandono produz a vergonha, sem dúvida, mas tão pouco terá produzido então. Mas há certos níveis de abandono que vocês sentem exactamente aqui e agora, na vida de adultos, que são igualmente passíveis de produzir vergonha.
Se estiverem com cinco ou quinze anos, e sofrerem abusos... Se alguém mais alto que vós os atirarem pelas escadas abaixo e os socarem no estômago ou lhes partirem uma costela... Só que há muito adulto a praticar abusos a outros adultos; esposas e maridos agredidos e violados, e isso são fontes de vergonha.
"Não, não, não; só se tivermos aí uns dez anos..."
Uma mulher adulta que é estuprada sente tanta vergonha senão mais; para um homem que sofre abusos físicos ou sexuais, muito embora seja homem e um homem se porte como um homem em relação a isso, é igualmente abusivo e passível de causar vergonha. O abuso emocional que tem que ver com os adultos pode deixar-lhes a estima e a identidade e o sentido que têm de pessoa em frangalhos, e porventura de uma forma mais devastadora do que em criança. Essa presunção de que:
"Não, não, não, isso foi coisa que ocorreu no passado, e não pode estar a ocorrer agora."
Mas pode-lhes ser inculcado, podem sofrer abusos, podem sofrer prejuízo agora, e isso produzir vergonha - agora! E se o tiverem sofrido no passado, o mais provável é que a sintam agora. Mas mesmo que não o tenham sofrido então, podem senti-lo agora. O facto de existir vergonha em adulto não significa que ainda não tenham desvendado alguma coisa que lhes tenha acontecido em criança. Pode estar a acontecer exactamente agora no vosso mundo, nas interacções que têm e nos relacionamentos que têm, em que lhes é inculcado, em que sofrem abandono e abusos e são prejudicados dessa forma.
"Mas, alto lá; se eu crio a minha realidade..."
Criam sim! O que não quer dizer que o que tenham criado não os tenha enganado, abandonado, abusado, tornado imperfeito ou desumano. E é importante, não apenas fazer a suposição que tantos sadicamente fazem, que se sentirem vergonha agora isso deva proceder dessa altura, e que a resolução resida nesse período; que se o abandono, que se sofrerem abandono e abusos na vossa relação actual e se sofrerem agressões de uma maneira qualquer isso se deva à infância ou à adolescência - talvez isso também, mas também tem assento agora e isso é que comummente é negligenciado.
A esposa agredida que busca auxílio, muitas vezes procura na infância, na adolescência, busca no relacionamento que teve com a mãe ou o pai - o que certamente poderá provar ser um indicador, só que ela também está a ser agredida agora, e é agora que isso está a produzir vergonha. E aqueles de vós que sofreram abandono – agora – que sofrem mágoa agora, isso é vergonha adulta. E muito embora possa ser um embaraço admitir e os leve a parecer fracos, é no entanto importante chegar às pazes com ela. Mesmo que tenha sucedido então e não consigam descobrir evidências disso agora – acha-se presente – e torna-se importante, enquanto passo secundário que representa; fazer as pazes com a vossa vergonha adulta. Bem como admitir, caso na vossa infância ou meninice ou adolescência tenha sido verdade, fazer as pazes com a vergonha de adulto.
Algumas pistas, algumas pistas fortíssimas. Entram em pânico quando alguém lhes diz que os ama, quando alguém precisa a sério de vós, quando alguém depende de vós? Quanto não terão desejado ter uma relação? Quantos livros não terão lido, em quantos seminários não terão participado, quantas fitas não terão escutado, quantas vezes não terão tentado criar:
“Eu quero ter um relacionamento íntimo; eu quero ter alguém a quem amar; quero ter de quem cuidar; quero que alguém me ame."
E de repente:
“Olha, não faz mal, eu amo-te."
"Ena lá; alto aí. Santo Deus, não estava a contar com isto! Ai que a coisa está a correr tão depressa e eu estou a envolver-me tanto; ai que não estava preparado para este tipo de comprometimento. Ah, deus meu que isto está a andar tão rápido. Ai meu deus, que estou a ser amado por alguém. Não sei o que fazer. Sei como tentar fazer com que alguém me ame; sei como programar e criar uma situação dessas, mas não sei bem o que fazer se realmente me amarem. Não estou preparado para lidar com esse facto. Estou preparado para buscar o amor, mas não para o sentir! Sinto-me preparada para criar um relacionamento, mas não para ter um.”
Pânico, pânico, pânico! (Riso)
“Ah, meu Deus, tu amas-me? Não sei.”
“Não faças isso; não te apresses. Vamos voltar atrás e tratar disso.” (Riso) “Alguém precisa de mim? Ah, não, não aguento a pressão! Não aguento isto. Estou a ser usado; é isso que isto representa.”
“Não, estão a necessitar de ti!”
“Estão a tentar pendurar-se em mim? Vais-te arrepender. Não devias fazer isso! Eu pretendo preparar-me para ser fiável, não que para dependam já de mim. Eu gosto de me preparar, de frequentar cursos, gosto de estudar o modo de nos tornarmos... Mas não estou verdadeiramente pronto para que dependam de mim, para que necessitem de mim e para que me amem.”
Se derem por vós em pânico quando alguém lhes disser de uma forma genuína que os ama e que depende de vós, isso representará uma pista inequívoca de se encontrarem em meio à vergonha adulta – não a infantil, a de menino ou a de adolescente – exactamente aqui...
Se derem por vós em estado de ansiedade quando se encontram sob ameaça do êxito, quando os vossos sonhos estão realmente a começar a tornar-se reais... Uma vez mais, enquanto conseguirem programar e fazer pela coisa, enquanto puderem fazer por que isso seja um sonho – não uma realidade – enquanto conseguirem ter isso como um objectivo – não como uma função actual – então estarão bem, e terão a coisa controlada. Conseguem programar, meditar, processar, poderão fazer o que ninguém terá alguma vez visto. Mas de súbito o sonho adquire realidade – não só fragmentos dele, não apenas pedaços mas a coisa começa toda a acontecer, e ficam esmagados pela ansiedade que sentem, por se sentirem ameaçados pelo próprio sucesso de que durante anos andaram em busca. Descobrem estar sob ameaça, descobrem estar a sentir ansiedade, quando o sucesso sinceramente ameaça ocorrer – isso é vergonha de adulto, uma pista incontornável. Se derem por vós a odiar-se, a menosprezar-se, a ridicularizar-se sem misericórdia quando cometem o mais inconsequente dos erros, e mais ligeira das transgressões como se fosse coisa muito significativa que demonstre a total falta de interesse que têm, a total falta de amor, a vossa falsidade total, a vossa completa estupidez – ainda que não passe de uma coisa insignificante; cometeram estragos aqui e ali, esqueceram-se disto, não fizeram aquilo correctamente:
“Não, não! Não vamos minimizar isto. Não vou varrer isto para debaixo do tapete; eu fui baixo, eu fui como a escumalha, eu nem humano fui; isto foi tão terrível que decidi que precisava ser punido, devia ser ostracizado da sociedade, que jamais deveria ter uma outra oportunidade, que jamais deveria sentir interesse ou amor por mim próprio de novo; que devia ser enviado para qualquer parte...”
Unicamente por uma coisinha de nada!
“Olha, não te ponhas a minimizar a coisa! Não me estejas a proteger. Não me estejas a apadrinhar. É uma coisa muito importante sim, é um pequeno sintoma, mas um sintoma de um problema descomunal, e eu detesto-me por causa disso.”
Se derem por vós numa situação dessas, isso representa vergonha de adulto. E ao mesmo tempo, quando cometem um erro penoso, defendem-no, negam-no, distraem-se, enchem-se de ilusões, reduzem-no como coisa insignificante, dizem que se está a fazer uma tempestade num copo de água; e do que despedaçou com a autoestima que tinham vocês dizem:
“Olha aqui, não foi culpa minha; afinal trata-se da tua realidade, foste tu quem a criou e não eu. Porque me levaste a criá-la por ti? (Riso) Foi autoria tua e não minha.”
Nos casos insignificantes, dão cabo de vós, mas quando dão significativos:
“Ah, não. Não fui eu. Nada tenho que ver com isso!”
Para se iludirem, para se distraírem, para negarem o próprio erro quando é grave. Quando tem significado, quando é um erro grande. Mas é igualmente uma pista do facto de se encontrarem embrulhados em meio ao aqui e agora; exactamente no centro do estabelecido pela dor entorpecente da vergonha de adulto.
Uma outra pista: Dão por vocês sobrecarregados de inveja, de ciúme ou mesmo de fúria com o sucesso dos outros? Por mais que lhes digam:
“Ah, que óptimo, fico tão contente, fico tão satisfeita, ah fico tão satisfeito por ti.”
Enquanto por dentro se sentem completamente enciumados em relação a eles:
“Que foi que ele fez? Porquê ela e não eu? Está errado. É injusto. Deus está-me a fazer isto."
E sentem inveja, sentem ciúme e mesmo raiva com o facto de obterem êxito, com o facto de obterem aquilo que querem; com o facto de a sua metafísica resultar, a despeito dos sorrisos e das felicitações superficiais, quando por baixo grassa este tremendo fogo - mas por mais que odeiem não adiantam nada – isso é um indicador de se encontrarem imersos na vergonha.
Um outro exemplo: Se derem por vós desesperadamente a observar esses mesmos êxitos a escapar-se-vos por entre os dedos:
“Quase aconteceram; quase o tive na palma da minha mão."
Mas evaporaram-se, e desfiaram-se por si sós diante dos vossos próprios olhos:
“Eu não fiz coisa nenhuma; apenas me sentei ali a vê-los a desfiar-se, a ver o próprio sucesso a descambar, a ver a coisa que vós próprios criastes e deslizar-me por entre os dedos."
Ou exactamente a coisa que queriam, que talvez não tivesse correspondido àquilo que tenham criado, mas justamente a coisa que queriam, que quase ocorreu:
“Não entrei em pânico, mas observei aquilo impotente, enquanto me deslizava pelos dedos."
Isso é vergonha – vergonha de adulto.
Um outro exemplo, um óptimo exemplo: Vocês sentem-se sempre separados? Sentem quase sempre não ter cabimento, não pertencer a coisa nenhuma? Decerto que todos vocês sentem pertencer a qualquer coisa. Mas sentem sempre existir à parte? Dão por vós, independentemente da forma como a realidade se apresente, a nunca se sentirem verdadeiramente felizes? A recusar-se a ser felizes? Sempre a deparar-se com a escusa:
 “Pois, mas...Podia ser... Não contes com os ovos no cú da galinha.”
Insistem sempre em ser infelizes, em ter sempre a sensação de separação, de um modo qualquer, como um pária, alienados? Sempre se dão por apartados do vosso Eu Superior? Ouvem falar dos outros, e de como conseguem às “mil maravilhas” e da beleza... mas no vosso caso nunca chega bem a suceder; sempre vagos, sempre um tanto alienados, sempre infelizes, independentemente do quão boas sejam as coisas?
Essas são as pistas que lho indicarão, e se essas pistas ou aquelas que essas pistas lhes recordarem, embora possam não vos dizer propriamente respeito a vós... Mas se esses tipos de coisas se derem convosco, então padecerão de vergonha de adulto. Pode ser uma transferência, um agravamento, mas representa vergonha de adulto. E precisam chegar às pazes com o facto de se achar presente; não com o seu conteúdo, não com o que porventura façam com isso, mas precisam chegar às pazes com o facto de se achar presente. Que tiveram – não só vergonha na vossa infância, que nos estágios pré-verbais mal conseguem recordar contractos (...) da infância na primeira separação, dos seis aos oito ou dos dez aos doze, e não só o resíduo dos vossos anos de adolescência embora essas coisas possam lá se encontrar – vocês carregam vergonha de adulto, que necessita de atenção, que precisa ser tratada, que precisa de um termo. Senão, por meio do abandono que cometem, por meio da educação que promovem, ou por meio dos erros que cometem, passá-la-ão, e irão infectar outros.
Ao conseguirem chegar às pazes com a necessidade de vergonha inerente à condição humana, ao conseguirem chegar às pazes com a presença da vergonha em vós próprios, a terceira coisa que é importante para lhe pôr termo de uma forma conclusiva, é reconhecer o prejuízo que lhes causa. Não o prejuízo que esteja a provocar filosoficamente, nem que esteja a provocar academicamente, mas que lhes está a provocar a vós. Bom, nós sempre dissemos, ao longo dos dois últimos anos, que os efeitos da vergonha se traduzem manifestamente pela vergonha, seja quando for que ocorra. Que a vergonha, em primeiro lugar os furta aos dons humanos – aos dons, aos poderes que os tornam únicos: à capacidade que têm de perceber e de conceber. Lembram-se? A capacidade de pensar, de sentir, de conhecer os quereres e as necessidades específicas que têm, e a capacidade de dispor deles, pessoalmente, face aos outros no vosso mundo e no mundo interior. A imaginação. Amar-se conscientemente e a outro; amar o mundo e amar o mundo interior. Curar-se conscientemente.
Decerto que outros reinos, plantas e animais, conseguem curar, conseguem amar – mas nenhum o consegue conscientemente. Perceber, conceber, pensar, sentir, ter consciência dos vossos quereres e dispor deles, ou adiá-los, conscientemente; imaginar e utilizar essa imaginação – isso é humano e é aquilo que os distingue de todos os outros reinos. E não só são os dons que possuem como representam os vossos poderes. E a vergonha furta-os a isso. Mas em adulto, esses dons, são da maior importância, entendem? Decerto que a capacidade de conceber e de perceber, de pensar e de sentir, de conhecer os desejos é importante para uma criança e para um adolescente, mas nenhuma é tão importante quanto para um adulto. E por isso, quando se vêm furtados dessas coisas, quer na infância, na mocidade ou na adolescência, isso torna-se devastador, triste, pungente, muito infeliz, mas quando lhes sucede agora, em adultos, isso pode tornar-se devastador.
Vocês precisam, mais do que nunca no vosso mundo, e em particular agora, nesta que é a mais monumental de todas as décadas (anos 90), de perceber e de criar, de imaginar, de pensar, de sentir e de ter esses desejos e de ser capaz de os dispor ou de os preterir. Curar e amar é tão crítico à medida que crescem que quando se vêm furtados disso a sua perda se faz sentir de uma forma perfeitamente pungente e evidente em adultos. Isso é uma fonte de poder, conforme referimos no seminário Caminhos Secretos Para Um Poder Ilimitado, a faculdade de agir, de criar, de manifestar tem origem nesses dons, e a vergonha que sentem furta-os deles e estropia o vosso próprio poder. E em adulto é mais profundo do que em qualquer outro nível.
Um outro impacto que mencionamos é que a vergonha que carregam altera-lhes a química do cérebro, e a função do sistema endócrino do organismo, e a libertação de endorfinas, a libertação de triptofano, a libertação de serotonina são tremendamente alteradas pela presença da vergonha. Não se trata de mera acção psicológica mas de uma coisa fisiológica. E para alguns de vós agora, nos vossos anos de crescimento, essa alteração química encontra-se de volta, de volta ao poleiro, e têm que lidar com ela agora de um modo mais profundo do que alguma vez. Do mesmo modo, a vergonha afecta-lhes o sistema imunitário, pode deixá-los doentes, pode matá-los.
A criança possui um sistema imunitário agressivo; o bebé não possui virtualmente nenhum, e por isso precisa ser bem protegido, mas eventualmente a criança possui um sistema imunitário agressivo. O adolescente possui um sistema imunitário incrivelmente agressivo, com todo o crescimento das hormonas e inundação que o organismo provoca e que os deixa doidos quando atingem os anos da puberdade, mas, seja como for, é imensamente agressivo, belicoso. Mas nos anos de adulto, precisam proteger o vosso sistema imunitário, precisam olhar por ele, precisam protegê-lo ou ele poderá exaurir-se. Mas é claro que iremos conversar mais sobre isso amanhã quando tratarmos da longevidade e da questão do prolongamento da vida. Mas em adultos, o vosso sistema imunitário não é assim tão agressivo. Os adolescentes têm este sentimento da imortalidade, e pensam que vão viver para sempre. A morte não chega a ser coisa real para eles, até que alguém chegado morra... Aí torna-se incrivelmente devastador por não pensarem na morte nem nunca terem reflectido na morte, e conseguirem comer café frio e piza ao pequeno-almoço três dias mais tarde e conseguirem sair disso e passar por cima sem qualquer problema. Podem perder a noite três dias seguidos, conseguem comer comida pouco saudável e ter energia abundante. Mas vocês já não conseguem mais isso. Não porque seja o problema da velhice, mas devido a que, enquanto adultos precisarem proteger o vosso sistema imunitário. E se não o protegerem... E a vergonha pode devastar-lhes o sistema imunitário, e é por isso que assistem actualmente no vosso mundo à proliferação de doenças do foro do sistema imunitário que se estão a tornar desenfreadas – não só as óbvias como a SIDA, mas outras deficiências que se prendem com o sistema imunitário tal como a diabetes, a hipoglicemia, a candidíase, a síndroma da fadiga crónica, a artrite – que são doenças do foro da imunodeficiência, induzidas por via de vírus. Não se trata apenas de uma função da idade avançada, mas trata-se de doenças do foro da imunodeficiência induzidas por via de vírus como a artrite reumatoide, a esclerose múltipla e outros tipos de doenças debilitantes que até aqui se pensava serem simples doenças, mas que constituem doenças do foro da imunodeficiência.
E a vergonha pode furtá-los ao sistema imunitário, pode debilitá-los, pode arruiná-los. E se na adolescência e em crianças, que possuem um sistema imunitário feroz o impacto não se faz notar, quando se tornam adultos o impacto por vezes não só se revela como pode tornar-se devastador.
Do mesmo modo, a vergonha separa-os de si mesmos, e quando são crescidos precisam ser adultos; uma criança não consegue funcionar no vosso mundo, nem tampouco um adolescente - podem funcionar nos seus respectivos mundos, mas não no vosso. E quando se separam de si mesmos e deixam de poder contar convosco e passam a ter que depender de uma criança ou de um adolescente – com toda a franqueza eles não conseguem lidar com a complexidade e dificuldades inerentes ao vosso mundo. Quando são adolescentes nenhuma adolescente lhes passa a perna. Há muitos adolescentes que são terrivelmente infantis. Aqueles de vós que forem pais, se olharem para os vossos próprios adolescentes revirarão os olhos com a infantilidade que por vezes demonstram. Parecem muito mais jovens. Mas não são mais infantis do que quando vocês foram adolescentes. (A rir) Os vossos pais também pensaram o mesmo de vós. Por ser assim que o adolescente consegue despistar, funcionando e agindo como uma criança. Mas um adulto, uma pessoa crescida não consegue.
Do mesmo modo, o impacto causado pela vergonha é o que de que sentem não conseguir ter volta, de terem atingido uma situação que não tem emenda, não conseguem receber amor. Em crescidos, esse ditame, essa conclusão, esse dogma torna-se factor de enclausuramento. Mais, com vergonha sentem como se tivessem que consertar o mundo antes de poderem ter conserto ou que precisam abandonar o mundo. Sentiam isso em criança mas não havia muito que pudessem fazer. Sentiam isso em adolescentes mas o que podiam fazer em relação a isso era muito limitado. Mas em crescidos, quando sentem que precisam abandonar ou consertar o mundo, há muito que podem fazer em relação a isso e que pode ser imensamente devastador para vós e para os que vos rodeiam. Têm o potencial de desenrolar esse ditame de um modo mais profundo nesses anos do crescimento. Além disso, uma das formas mais devastadoras do impacto que a vergonha causa - que mencionamos toda a vez - é que a passam; se a não devolverem, se a não detiverem nesta fase, transmiti-la-ão.
Uma criança passa a vergonha a outros catraios. Aqueles que alguma vez assistiram às brincadeiras dos catraios, ou que dão ouvidos ao que os vossos filhos contam ao chegar a casa relativamente a certas coisas que outros catraios lhes tenham dito, ou que eles tenham dito a outros catraios, sim, podem constatar como passam essa vergonha. As crianças podem ser brutalmente cruéis umas para com as outras, quando querem sê-lo. Mas suplantam isso; os catraios não são frágeis, e se de alguma coisa são feitos, são feitos de borracha e saltam isso. É por isso que dizemos ao pais que se cometerem um erro, não os terão arruinado para toda a vida, eles não quebrarão; poderão cair mas saltarão de novo para trás enquanto catraios. De modo que dispõem de uma certa extensão. (A rir)
Os adolescentes podem chegar a ser incrivelmente cruéis uns para os outros, e passar a vergonha aos outros, mas uma vez mais, isso tende a passar. Mas quando são crescidos têm o poder de realmente prejudicar os outros – muito mais do que alguma vez a criança ou o adolescente tem. E assim, o fenómeno da vergonha na pré-infância, na infância e na adolescência, que consta de a passar, não chega verdadeiramente a atingir a maturidade senão nos anos de adulto. No caso de alguns de vocês, entendem, o ofensor que tiveram na vida foi na adolescência: uns em criança, no caso de um irmão mais velho ou de uma irmã mais velha. Ou o irmão mais velho e a irmã mais velha de um amigo poderão ter sido a origem da vossa vergonha. O abuso físico ou mental ou mesmo o abuso sexual pode ter sido originado por um colega mais velho na adolescência, ou por um mais crescido. Contudo doeu mais quando procedeu das figuras de autoridades que os rodeavam, não foi? Da mãe, do pai, do avô, do professor, do treinador, seja de quem for. E nesse sentido, essa vergonha foi muito mais devastadora para vós. Decerto que aqueles de vós que foram espancados pelos vossos melhores amigos ou por um irmão ou irmã mais velhos, esse abuso físico foi verdadeiramente prejudicial e pode ter produzido vergonha. Aqueles de vós que tenham sido sexualmente abusados por um irmão mais velho, decerto que não pretendemos desvalorizar a cicatriz nem o impacto que isso tenha tido, mas os que tiverem sido abusados seja por que forma tiver sido por um crescido, essa marca cortou ainda mais fundo, e consequentemente agora que revertem isso, como se experimentassem o reverso da medalha, talvez passem a vergonha enquanto criança ou adolescente a outros, mas em crescidos, as cicatrizes que podem produzir ao fazer tal coisa são ainda mais profundas, são ainda mais profundas. E por isso torna-se importante perceber que estes sete efeitos que a vergonha pode causar, o facto de a passarem, é mais potente e poderoso na vergonha de adulto do que é nos outros níveis.
E torna-se importante que observem e vejam que impacto terão exercido com a vossa vergonha actual no vosso próprio poder, por meio dos dons, na vossa própria química, na vossa própria saúde física, no vosso sentido de separação, na vossa flexibilidade comprometida, no abandono do mundo ou de vós próprios, na vergonha que já terão passado a outros, aos colegas ou às crianças. E reconhecer que o potencial ou o facto é agora muito mais potente do que em qualquer altura do vosso passado, e possuir essa verdade por vós próprios no preparo, no movimento rumo ao tratamento desse nível de vergonha, para chegarem às pazes com a presença e a necessidade, para chegarem às pazes com a sua presença nos anos de adulto e para se assenhorarem do degrau de devastação que o impacto pode agora exercer, ao contrário de em qualquer altura do passado.
E com isto torna-se igualmente importante compreender o que correu mal. A primeira coisa que correu mal foi que durante muitos anos a vergonha evidentemente não devia ser mencionada e era tema tabu, algo que mantinham escondido nos armários da vossa família. Ninguém queria admitir que lhe tinha sido inculcada, ou que os pais eram subhumanos ou sobre humanos e que consequentemente lhes tinham ensinado que eram imperfeitos e falhos e que nunca seriam suficientemente bons. Ninguém quis admitir que o abandono teve um impacto tão profundo ou que tenham sido mesmo objecto de abuso ou de injustiça, para início de conversa. Agora isso pode ser admitido, graças a uma sociedade mais esclarecida, e aos valentes esforços de terapeutas e de psicólogos e daqueles que pelo mundo se dispuseram a falar da própria vergonha e ajudaram as pessoas a entrar em contacto com ela – desde o Bradshaw e os seus livros, e de outros e do trabalho que promoveram, que prestou um tremendo trabalho à humanidade, é verdade.
Mas mesmo assim, mesmo apesar de toda essa abertura actual e de toda a disponibilidade actual que as pessoas descobrem para falar disso, não se presume que padeçam de vergonha de adulto – isso era esperado que terminasse quando crescessem, quando saíram de casa, quando acabaram o liceu, quando se casaram e arranjaram um trabalho e por fim tiveram os vossos próprios filhos – era suposto que não tivessem mais vergonha. E por isso era suposto que estivesse acabada; o que quer que lhes tenha acontecido na infância, na adolescência, isso não era suposto causar mais nenhum impacto e por isso vivem num mundo em que não têm permissão para ter vergonha de adulto, aqui e agora.
Mesmo aqueles que, crescidos, vão assistir a seminários em que decorrem terapias de grupo em que se levantam e pegam nos ursinhos de pelúcia e redigem as cartas com a mão esquerda dirigidas à criança neles, eles estão a lidar com a vergonha de adulto, estão a lidar com a vergonha de adolescentes, estão a lidar com a vergonha da infância mas não estão a tratar da vergonha que está presentemente a decorrer. Por no vosso mundo ainda não lhes ser permitido sentir vergonha agora; uma vez que cresceram e arranjaram trabalho, assim que obtiveram uma carreira, uma casa, uma família, uma esposa, um marido e filhos espera-se que essa vergonha por qualquer acto de magia desapareça. E assim, por não terem permissão para sentirem vergonha de adulto, torna-se na mais enganadora, insidiosa e potencialmente (e por conseguinte) na mais destrutiva e prejudicial vergonha de todas.
Em segundo lugar - mas já dissemos isto tantas vezes antes, mas ainda se aplica, vivem num mundo onde existe cada vez menos permissão para sentir e cada vez menos permissão para pensar com qualquer tipo de intensidade. É-lhes dito que simplesmente não há tempo, há simplesmente demasiado a sentir e demasiado a pensar para poderem abrandar e faze-lo com um tipo qualquer de intensidade. Precisam faze-lo de uma forma resumida, e resumir pensamentos e sentimentos muito rapidamente, saltando ao longo da superfície como um xisto, por haver simplesmente demasiado a pensar e a sentir. E as pessoas deterem-se a sentir com um tipo qualquer de intensidade e a pensar com um tipo qualquer de intensidade, isso ser considerado inapropriado, ser considerado melodrama, ser considerado demasiado sensível no vosso mundo da actualidade, e por isso suscitar tal coisa chega mesmo a ser considerado destrutivo ou contraproducente, uma perda de tempo. Para poderem lidar com a vergonha de uma forma que não lhes faça mal precisam lidar com intensidade de pensamento e intensidade de sentimento.
A terceira coisa que dá para o torto é que vivem num mundo onde é suposto já saberem como receber amor. Uma coisa é dizer:
“A criança, o adolescente em mim não sabe como faze-lo. Mas devo ser capaz de receber amor. Não devo admitir que ainda não sei como faze-lo, e que embora possa ter aprendido e existam técnicas, ainda não o consegui. E assim finjo que recebo...”
Mas claro que curar a vergonha requer a recepção dessa ajuda e desse amor.
“A criança em mim necessita de auxílio, o adolescente em mim precisa de ajuda. O jovem adulto em mim precisa que o ajudem, mas eu... Eu não devia. Mas preciso. Talvez precise ainda mais do que a criança e o adolescente em mim; mais do que o jovem adulto em mim, não obstante isso ter sido há poucos ou há muitos anos atrás.”
“Já estou nos meus quarenta e cinquenta e sou uma pessoa especial que não carece de ajuda. Eu devia já tê-la recebido – mas não recebi.”
A quarta coisa que dá para o torto, a vergonha - que é singular e que a passam caso não a curem - é também única por constituir uma das poucas, não a única, mas uma das poucas enfermidades que representa claramente mais um problema espiritual do que um problema psicológico. Bom a psicologia deu reconhecidamente um passo em frente e como que pegou o touro pelos cornos e tornou a vergonha na sua área de especialidade, na sua área de autoridade, e existem terapeutas a surgir por tudo quanto é canto, e a lidar com a vergonha e a focar-se na vergonha, e especialistas a lidar com o abuso e com a vergonha e com o abuso sexual. Há clínicas e organizações dedicadas a extirpar o tempo em que foram sexualmente abusados – quer o tenham sido ou não – que o descobrem e o extirpam. E a psicologia como que declarou: “A vergonha é uma área que nos diz respeito!” Mas na verdade, a vergonha constitui um problema espiritual, e por conseguinte em última análise só poderá ser curada espiritualmente. Mas aqueles terapeutas que têm obtido algum sucesso genuíno lidam com problemas espirituais como o relacionamento com o Eu Superior, o relacionamento com Deus, ou conforme dizemos Deus, a Deusa, e Tudo Quanto Existe, lidam com esse problema espiritual.
Em última análise a única forma por que conseguirão lidar com a vergonha, por mais que a consigam extirpar, por mais que consigam identificar e por mais que consigam de uma forma articulada e elegante elaborar com base nela, a única forma por que a conseguirão curar é através da espiritualidade e precisam receber ajuda da parte de forças espirituais, mais do que de vós. Mas no vosso mundo, a espiritualidade é desvalorizada, e as experiências espirituais são desvalorizadas. Cada vez mais, a despeito da nova era e a despeito da espiritualidade, a verdadeira experiência espiritual, pessoal ou de outro tipo, é desvalorizada.
Sim, no apogeu do ataque, durante os anos oitenta, nesse sentido, quando os relatórios da revista Time e Newsweek davam conta de que toda a gente estava a conseguir a sua paz na nova era, não estavam a relatar notícias mas a atacar; mas isso era aceitável e não tinha importância. Caso a revista da Time tivesse publicado um religioso fanático na capa e continuado a examinar as franjas da Igreja Católica, e algumas das práticas estranhas daqueles que sofriam e se martirizavam e subiam escadarias de joelhos, e pessoas que oravam a estátuas que apresentavam sangue, e tivesse retractado esses grupos religiosos que teriam sido classificados como idolatria religiosa, e a revista Time teria sido ridicularizada, e chamada de blasfema no tocante ao que é de se publicar no jornalismo. Caso essas revistas tivessem posto na capa certas ordens ortodoxas e judias e tivessem feito troça delas e rido com o que pareceriam ser as suas práticas tolas, teriam sido consideradas o topo da actividade anti-semita. Mas publicar alguém que segurasse um cristal nas mãos e risse de algumas das velhas orlas estranhas da nova era seria não só aceitável com teria sido esperado, já que fazer o contrário teria sido considerado suspeito.
E embora essa fase tenha sido apertada nesse sentido, ainda há a presença da desvalorização do espiritual, e por conseguinte da eliminação da vossa própria vergonha. Com a desvalorização da espiritualidade sucede a desvalorização da experiência pessoal. Dissemos na “Alquimia da Adversidade” (Seminário que durou um fim de semana inteiro) que versou sobre as crises espirituais, que parte da razão porque as crises estão a aumentar tanto se deve a não admitirem mais a noção das crises espirituais - colapsos psicológicos sim, mas não crises espirituais. Mas a vergonha constitui uma crise espiritual que não se permitem. E por isso, independentemente de todo o trabalho psicológico que poderá ser feito que pode conseguir coisas maravilhosas não a irão curar, até que aprofundem e atinjam a vossa espiritualidade, onde as soluções e a cura poderão ser encontradas.
Uma outra razão, uma outra coisa que correu mal, foi que com a desvalorização da singularidade que os caracteriza, e com a valorização da uniformidade, da normalidade, da igualdade (massificação) para todos, toda a gente encaixada no próprio molde, sem ninguém a fazer ondas, sem que ninguém se torne demasiado pessoa nem demasiado excêntrico – poderão haver uns quantos, mas não um bando de indivíduos e singulares – mas que valorizam a semelhança. Mas na verdade são únicos, e para curarem a vossa vergonha precisam entrar em contacto com a singularidade que os caracteriza, num mundo que não lhes permite tanto isso. Além disso, uma outra dificuldade, uma outra coisa que corre mal nisto que o torna tão complicado no vosso mundo, é que cada vez mais funcionam num mundo de chavões (NT: “Sound bites”, que no jornalismo é caracterizado por frases curtas, que captam a essência das informações) de resumos informativos. As pessoas não querem lidar com as coisas em profundidade mas ficar pela superficialidade somente.
Há várias semanas atrás, num Domingo de manhã acordaram a ouvir nos noticiários um palpite, o acontecimento mais fenomenal e espectacular que deu a volta aos acontecimentos e desfez parte do passado e da história, e que tanto faz parte daquilo de que temos vindo a falar (e que podia representar um sinal desta década única). Mas sabem que nesse mesmo Domingo (de Agosto de 91) a caminho da costa leste (New England) a quatro mil e oitocentos quilómetros daqui, ocorreu um furacão chamado Bob. (Riso) Nada de exótico, é verdade. Decerto não tão divertido nem ameaçador quanto sobressaltos nem permanecer de pé num tanque; nada tão melodramático quanto o facto de Gorbatchov estar ou não vivo, ou se estará aqui ou não, nada tão excitante quanto o que se está a passar – mas o que sugerimos é que o furação subiu pela costa leste acima, mas algo que provavelmente nenhum de vós percebeu em relação a isso, é que esse furacão foi o segundo furacão mais devastador deste século. Provocou mais estragos do que qualquer outro furacão salvo um ano ou menos antes. Mas ninguém sabe disso, por não haver espaço para isso, entendem? Só posssuem determinado espaço para o cabeçalho, só possuem determinado espaço nos cinco minutos de bits noticiosos das notícias das manchetes. E por isso precisa ser preenchido com os palpites – não que isso não tivesse validade, porque de facto quanto mais informação e mais reportagens melhor – mas o que acaba por acontecer, entendem, é que outras notícias são deixadas de lado. E por conseguinte o segundo fenómeno mais devastador que provocou biliões de dólares de danos, o segundo a seguir logo ao furacão Hugo (em 1989), os dois furacões mais devastadores do vosso século – e ninguém soube disso. Claro está que isso também sucede devido aos bits sonoros, por causa dos resumos informativos da vossa realidade.
E tanto do que nesse sentido fazia os cabeçalhos há seis meses atrás ou há dois anos atrás, as pessoas presumiram que o problema terá sido resolvido por não mais fazer parte dos cabeçalhos. Mas eles só podem editar uma manchete por dia, entendem? As notícias de primeira página tentam fazer algo em relação ao facto mas só reportam uns pequenos chavões informativos. Bom, o mesmo se passa em relação à vida nesse sentido:
“Eu quero tratar da vergonha e pôr-lhe um fim.”
Temos vindo a falar sobre a vergonha há dois anos! E começamos por cada uma das fases, e entretanto procedemos a um seminário intensivo destinado a tratar disso durante quatro dias completos. E ainda assim continuamos a falar sobre ela, por não poderem simplesmente falar sobre a vergonha num instante, e depois lidar com ela num ápice, por precisar de mais do que um chavão, mais do que um chavão informativo, e por exige exploração e experiência em profundidade, e por precisar de tempo. E por viverem num mundo onde o tempo não é permitido e onde tudo é esperado nos moldes:
“Se não conseguirem vender o produto em dez segundos então não o conseguirão vender. Se não o conseguirem transmitir em cinco minutos então não será transmitido. Se o não conseguirem resolver em cinco minutos, então continuará por resolver.”
E isso cria o problema que o torna mais difícil no que se passa de errado com a vergonha, em particular no caso da vergonha de adulto.
E claro que, por fim, não dispõem de uma técnica; não sabem com lidar precisamente com a vergonha que está actualmente a influenciar-lhes o presente e o futuro, em vez de serem influenciados pelo passado relativamente ao presente. Não estão certos de saberem como lidar com a vergonha na perspectiva actual, por não ser em retrospectiva, ou como lidar com a vergonha enquanto se encontram no meio do seu contexto conjunto, ou como lidar com a vergonha quando já são transgressores relativamente a essa mesma vergonha. E por conseguinte, torna-se complicado, mas consiste numa falta de técnica, numa falta de método, para finalmente o curarem.
E por isso irão encontrar muita gente por aí que tratará da própria vergonha de criança e de bebé, e mesmo da sua vergonha de adolescente, e que se sentirá perdido quanto ao que fazer a seguir. E por fim, a forma derradeira da vergonha, o desapontamento mais pesaroso, que por mais que façam continuará presente, e que eles estarão a passar; talvez não de forma tão potente quanto fariam de outro modo, mas que de qualquer forma passarão à geração seguinte, ou aos companheiros. E por isso importa que reconheçam:
“Tudo bem, está presente, muito embora não fosse suposto estar. E eu preciso permitir-me pensar e sentir com intensidade, muito embora o meu mundo não o deseje. E preciso admitir que não sei muito bem como receber, não obstante ser suposto saber.”
E reavaliar a vossa própria espiritualidade, e a vossa própria experiência espiritual para encontrarem a sua definição; e valorizar a vossa singularidade – não apenas como uma frase, nem como algo que imprimem num cartaz, mas como algo que vivem. E ir além da informação sonora (dos chavões informativos); usá-la, sim. Não a desprezem, não lhe voltem as costas, mas cavem mais fundo, no vosso próprio processo e em especial em vós próprios. E aprendam a técnica.
À medida que fizerem as pazes com a necessidade da vergonha, à medida que chegarem às pazes com a presença – não com o conteúdo mas com a presença da vossa própria vergonha de adulto; à medida que se apossarem por vós próprios da singularidade da sua devastação e do que tiver dado errado – a razão por que não desaparece – aí estarão preparados e prontos para dar o passo final – aprender, e mais do que isso, aplicar a técnica para realmente lhe porem cobro agora, terminar com a vergonha, curá-la, e acabar com ela de uma forma final, completa e conclusiva.
...
Tal como a vergonha de adulto pode ser enganosa também a meditação destinada a libertá-la o pode ser. Uma é enganadora na complexidade que apresenta enquanto a outra é enganadora na sua simplicidade. Vós completastes uma enorme quantidade de trabalho com a consideração da vergonha que tanto lhes afectou a primeira infância, a infância e a adolescência para que quando chegados a este nível que é o mais devastador de todos, aquele que os pode virar do avesso, que pode literalmente destruí-los, mais do que qualquer dos outros níveis - por ser tão insidioso quanto pode ser – a técnica da libertação poder deixar de sobrevir suave e elegantemente.
A meditação pode bastar, reconhecidamente, e podem repetir a experiência, por ser tão simples que a poderão recordar e faze-la sozinhos, e podem usar a meditação no geral, em relação à sensação global da vergonha sempre que derem por vós a entrar em pânico quando alguém que os ame ou dependa de vós ou precise de vós, sempre que derem por vós cheios de ansiedade por o sucesso ameaçar ou sentirem esse sentimento de ódio por vós próprios e de castigo por causa do mais insignificante dos erros ou engano ou quando derem por vós em negação ou a defender-se – e tiverem realmente concordado com esse erro – quando verificam que o ciúme se ergue (ou mesmo inveja, ou busca de vingança, ou de execussão da raiva) e isso os deixa surpreendidos, podem usar a meditação no global.
Também a poderão usar de uma forma bem específica relativamente a uma forma da vergonha particular, a uma expressão particular dessa vergonha, e podem empregá-la e direccioná-la para uma utilização específica que lhes recorde a semente que é plantada no vosso coração e por trás do vosso coração, e a semente que é plantada na própria haste, na raiz do vosso cérebro; e para voltarem a conectar-se com o mecanismo impulsor.
A meditação poderá mostrar-se suficiente mas percebam também que alguns de vós quererão algo um pouco mais concreto do que isso. Por conseguinte fazemos acompanhar a meditação da técnica. Também propomos uma certa técnica a que chamamos de “fundação da técnica” que recomendamos que todos ponham em prática, para tratarem especificamente da vergonha de adulto, que é um tanto singular e único daquilo que escolhem no tratamento da vergonha pré-verbal ou da ruptura inicial ou da vergonha de adolescente. A acrescentar a essa fundação, sugerimos algumas opções que alguns poderão achar mais apropriadas do que outros. E por conseguinte envolve uma miscelânea devido a que alguns de vocês na singularidade que os caracteriza trabalharem melhor de uma maneira do que de outra, e não por pretendermos limitá-los dizendo que essa seja a única forma por que possam trabalhar.
Por isso, entendam que não precisarão fazer tudo quanto vamos enunciar, mas apenas partes que resultem para vós. A primeira porção, o primeiro passo para realmente chegarem a libertar a vergonha de adulto remete às noções básicas do reconhecimento, da identificação, do perdoar e do mudar. Mas torna-se importante lidar com a vergonha de adulto para poderem contar a vós próprios e para chegarem a considerar qual terá sido a vergonha efectiva que lhes tenha sido transmitida. Qual terá sido a vergonha real - não o veículo que essa vergonha possa ter adoptado, mas a vergonha real - que lhes tenha sido transmitida? Mas o que pretendemos dizer com isto é o seguinte: Que muitos de vós ao lidarem com a vergonha descubram que tenham sido porventura abusados sexualmente em criança; que um pai ou um agressor qualquer do género masculino ou uma figura autoritária qualquer tenha abusado sexualmente de vós. E frequentemente pensam:
"A vergonha que sinto deve-se a que tenha sido abusado sexualmente."
E outros de vós:
"A vergonha que sinto deve-se a que a minha mãe tenha sido uma alcoólatra que andava a cair de bêbeda de cada vez que eu chegava a casa," ou: "Os meus pais tiveram uma relação horrível repleta de discussões e brigas absolutamente incríveis e violência, e eram gente destrutiva - essa é a minha vergonha." Ou: "Eu fui abandonada, eles não me bateram nem se interessaram por mim e de facto disseram-me o fardo e o horrível erro que eu tinha representado. Essa é a vergonha que carrego." Ou: "Eu fui injustiçado desta ou daquela maneira, e essa é a vergonha que carrego."
E para a criança e adolescente que se encontra em vós, isso poderá muito bem ser adequado, dizer a vós próprios que essa tenha sido de facto a vergonha, mas o que é importante para o adulto em vós é que percebam que não - isso terá representado o veículo, o método por que a vergonha terá sido transmitida. Qual terá sido a vergonha que terá estado por detrás da acção, por detrás do que tiverem cometido? Porque terá ocorrido? Qual terá sido a vergonha que se terá encontrado presente? Ou por outras palavras: Se sofreram um abandono terrível enquanto criança ou enquanto adolescente, ou mesmo agora, na vossa realidade actual, o abandono por mais doloroso, nocivo e prejudicial que tenha sido, constitui o veículo. Que terão sentido por detrás do abandono? Ter-se-ão sentido inadequados, repulsivos, estúpidos, ter-se-ão sentido como um fracasso total, ter-se-ão sentido como um a pessoa inútil? Se tiverem sido sexualmente abusados, isso terá representado o veículo, por mais repulsivo que tenha sido. Que será que lhes terá sido efectivamente transmitido? Terá sido que eram imundos? Terá sido que eram reles, ordinários? Terá sido que eram inúteis? Ter-se-á assemelhado a um nada inexistente, a um objecto a ser destinado ao uso e a ser pisado, a uma escória, um lixo? Que terão sentido? O que é importante é compreender que o agressor, seja por que espécie de veículo que tenha usado, estava a transmitir-lhes uma emoção; ele estaria a passar-lhes o ódio ou a imundície que sentia, ou a sua inadequação, ou a fúria, ou a raiva, ou o seu desespero, ou o sentido que tinham de inutilidade, de desvalorização. Terá escolhido um veículo particular por meio do qual consegui-lo por não estar disposto a confessar ou por não estar disposta a admitir a própria sordidez ou a imundície, a inutilidade, o ódio, a vingança,a raiva, o desespero, o medo, a solidão ou seja o que for que tenha transmitido.
Eles não terão querido admitir abrigar tais sentimentos ou sentir tais coisas acerca deles próprios, e por conseguinte terão usado esse veículo particular, da injustiça ou do abandono ou do abuso ou de chegar a vós de maneira a transmitir-lhes isso, de forma a não terem que o sentir. Eles deram-lhes isso; e essa é uma distinção importante que enquanto adultos poderão fazer, que provavelmente não terão conseguido, e em relação ao que nem sequer teria sido aconselhável fazer em criança ou enquanto adolescentes. Reconhecer:
"Sim, eu sofri abusos, mas o que realmente sucedeu foi que eu assumi o ódio dele ou dela, eu assumi a inadequação que sentia, eu assumi a fealdade que o caracterizava. Essa foi a vergonha que assumi. E é isso que eu preciso devolver! Não preciso devolver o abuso; não preciso devolver o abandono, não preciso devolver a injustiça - preciso devolver aquilo que isso produziu em mim."
Assim como perceberem:
"Tudo bem, pai, tu sentiste-te completamente inadequado e transmitiste-me esse sentimento. Mas caramba... Eu não o aceito! Não acato a inadequação que sentes, nem vou passar o resto da minha vida a processar a inadequação que sentes, e vou-ta devolver antes que a passe, seja por meio do veículo que for, a mais alguém. Não vou viver a minha vida a carregar o peso morto que carregas. Por mais que o queiras, eu não vou carregar o peso que carregas, por isso devolvo-te o teu peso de volta antes que o passe a mais alguém. Tu sentes-te manchado; e eu lamento que te sintas assim, mas não me sinto suficientemente desolado para o andar por aí a carregar, para to tirar das costas, e por isso devolvo-te isso.”
E por isso, o primeiro passo fundamental quanto à vergonha de adulto, ao contrário das outras formas, consiste em que a devolvam enquanto adolescentes - lembram-se? Embrulharam-na num saco miserável que encontraram e devolveram-lho.
Agora precisam de conduzir o passo adiante e de o fazer de uma forma limpa e de contar a vós próprios a verdade:
"Olha, que é que estamos a devolver? Não é o abuso, mas isto e isto e isto; Aqueles constituem simplesmente o veículo por que me foi transmitida. O que realmente me foi transmitido foi isto, e isso é o que estou a devolver."
E quando o devolverem numa meditação, não se sentem a seus pés. Ouçam! Isso não é devolver. Devolver é dizer:
"Olha cá, pega nisso nas tuas mãos; não to vou colocar sobre a mesa, nem numa parte qualquer da sala e correr a fugir; não to vou colocar aos teus pés, mas justo nas tuas mãos, exactamente às tuas costas, na tua realidade."
"Ah, não iria querer magoá-los."
Então quem iriam querer magoar? Quem quereriam magoar em vez deles? Porque se não a devolverem, irão passá-la a alguém.
"Ah, poderá ser que não o faça através de um veículo semelhante."
É verdade! Poderão ter sido abusados em criança,
"Mas caramba se em resultado disso eu vá de alguma forma tocar nos meus filhos!"
Mas irão passar o sentimento de inadequação, não? Foi-lhes transmitido por intermédio do abuso sexual, e vós passai-la aos vossos filhos por meio da negação emocional, ao se recusarem a tocar-lhes por não quererem abusar deles sob pretexto algum; ao não quererem abraçar o filho ou filha por isso poder ser interpretado como um abuso sexual - de jeito nenhum! Mas ainda estarão a transmitir a inadequação:
"Eu posso ter sido espancado em criança e sofrido queimaduras de cigarro nos pés e ter tido ossos partidos e costelas fracturadas e sofrido ferimentos internos; por isso, de jeito algum irei fazer isso aos meus filhos nem a quem quer que seja. Jamais me aproximarei deles. Mas poderei passar-lhes a fealdade seja como for. Poderei passar-lhes a sensação de não passar de um monte de lixo, sem sequer chegar a tocar algum com a mão."
Se não a devolverem, irão transferi-la, entendem? E uma atitude tipo: “Ah, detestaria faze-lo,” não passa de uma simples forma de sublimação. Contem a vós próprios a verdade, devolvam-na, mas precisam dizer a vós próprios o que é, não o desvio, mas a vergonha real que reside por detrás do desvio, e reconhecê-lo como um padrão. Eles sentiram-se assim; sentiram-se inadequados, sentiram-se sujos, sentiram-se ordinários, sentiram-se repulsivos, sentiram-se odiosos. E não devolveram a vergonha à procedência mas interiorizaram-na:
“Deus, ele impingiu-ma. Mas eu não a vou passar adiante, vou devolvê-la.”
E se levarem a coisa a esse pé, a um nível mais profundo e mais sincero do que o que poderiam ter enquanto criança ou adolescente, então estarão a concluir a coisa e estarão a devolvê-la. E esse é o primeiro passo na fundação que encorajamos todos a dar. Chegar a reconhecer de verdade em que consiste isso e de seguida devolvê-lo, numa meditação, para a procedência.
O segundo passo na fundação consta de transformar através do impacto. Dizer sinceramente a vós próprios a verdade:
“Que me estará agora a provocar? Qual será a vergonha actual que sinto? Estou ciente do que a vergonha de infância provocou; vi como envolveu a infância que tive, como a torceu e distorceu e me deixou na posse de certas crenças e atitudes, certas tendências na abordagem da vida, uma certa agonia. E percebo o que me provocaram aos anos de adolescência e como o absolutismo da adolescência ainda se encontra em acção; o trauma que atravessei, que saiu agravado. Vi como a vergonha lhe deu início ou o acumulou e por meio do incremento ou da diminuição ou da mudança se tornou devastadora. Sim, vejo aquilo que provocou, mas tenho que dizer a mim próprio o que está a provocar agora. Que poderes me está a furtar agora, ou como me está a alterar a química, preso como me vejo nos laços do comportamento onde assisto a mim próprio a destruir-me repetidas vezes. Como me está a alterar a saúde. Preciso dizer a mim próprio a verdade quanto a isto. Não assustar-me nem ameaçar-me nem motivar-me com base no medo, mas perceber sinceramente o impacto genuíno que causa. Como me separa de mim próprio de modo que nem eu próprio chego a ser, enquanto vivo pela criança que fui ou pelo adolescente que fui, neste meu mundo adulto, sob o pânico agudo que produz. Que impacto específico me causa aqui e agora? E de que forma já o estarei a passar à frente? Quem estarei eu a abusar ou a abandonar? Quem andarei eu a enganar, ou a fazer com que se sinta perpetuamente inadequado? Talvez seja um companheiro, talvez a minha esposa, o meu amante, o meu sócio nos negócios ou na vida. Talvez os amigos que me rodeiam e que me aturam. Ou talvez sejam os meus próprios filhos, a quem já terei passado uma certa quantidade de vergonha. Que poderei fazer com respeito a isso?”
Parem!
“De que forma poderei compensar isso?”
Parem! Podem desfazer o que foi feito mas antes precisam parar o que estão a fazer, e ao se apropriarem do impacto do que lhes esteja a causar e do que esteja a causar aos outros, desse impacto poderão então afastar-se, quando se apropriarem dele. E poderão decidir:
“Basta!”
E devido ao trabalho anterior que tiverem feito conseguirão afastar-se. Por conseguinte, o segundo passo, para além daquilo que represente a vergonha verdadeira que agora devolvem, passa por apurar o impacto que essa vergonha real exerce em vós e nos outros, e em afastar-se dela.
A terceira técnica fundamental passa por voltarem a estabelecer contacto convosco próprios. Aquilo que a vergonha força, com tudo quanto comporta de destrutivo, é a separação de vós próprios, quer na infância, enquanto crianças, adolescentes; agora separa-os de si mesmos de uma forma profunda. E o vosso mundo é verdadeiramente entusiasmante, gente, o vosso mundo acha-se repleto de mudança; esta década monumental é por demais monumental para ser passada separados de vós próprios. Quando se olha para os acontecimentos da semana passada, mesmo quando as coisas pareciam estar a assentar e a voltar à mundanidade, têm esta sugestão magnífica que rompe com todos os precedentes e todos os peritos a rodopiar em todas as direcções, enquanto tentam adivinhar o que diabo se terá passado. Aceleraram um progresso como muitos tinham dito que provavelmente nunca ocorreria. E mesmo no dia de hoje, em que o presidente vai à televisão pela noite a fim de redirecionar toda a filosofia do vosso programa de defesa e falar de um futuro que está para chegar, proveniente da sua prudentemente calculada boca no sentido de criar um futuro. Isso deixa antever um futuro a criar, diz ele, e um destino, não que se deva esperar mas a eleger. Soa a uma segunda olhada, hesitante. (Riso)
Estão à beira de uma nova era em que há um futuro a criar e um destino de que não se deve ficar à espera mas viver, escolher. E é demasiado excitante, o tanto que está a ocorrer para sentir como separado, mas para que se tornem parte disso, e a vergonha separa-os. Precisam voltar a estabelecer comunicação com isso.
“Bom, isso soa formidável, mas como é que se consegue?”
Supomos que haja muitas formas, mas uma há que pode resultar absolutamente magnífica, que é a seguinte: Voltar a estabelecer comunicação convosco próprios significa, antes de mais, fazer reviver o sonho que tinham, e nesse sonho que revivem contar a vós próprios a verdade, qual a parte que constitui fantasia de criança; que parte do sonho não passa de fantasia de adolescente, e livrar-se dessas partes. Em criança sonhavam para poder sobreviver, entendem? E muitos dos vossos sonhos estavam repletos de formas de justificação e de sobrevivência:
“Quando eu crescer eu vou ser… (Seja o que for) e vou ter a maior fama e vou sair na capa desta revista, vou ser o mais rico, o mais poderoso, mais isto, mais aquilo…”
Mas muito disso tinha que ver com a sobrevivência, para lidarem com a situação.
Depois, na adolescência incrementaram esse sonho com certos aspectos de fanfarronice e de arrogância e de uma alienação absoluta, mas isso foi necessário para sobreviverem a esse trauma e ao pânico que provocou. Quando cresceram, olharam para esse sonho e disseram que não passava de lixo e que jamais poderia acontecer e que não passara de uma tolice e de balbuciação inconsequente de catraio, e arremessaram com ele. Precisam voltar atrás e voltar a pegar nesse sonho, e separar a parte que era própria da fantasia de infância, de adolescência, e deixá-las de lado. Poderão precisar lamentar as perdas deles; poderá tornar-se bastante triste e trazer-lhes lágrimas aos olhos o facto de não virem a ser a pessoa mais rica do planeta, ou de não virem a ser o maior sucesso de qualquer mega corporação do mundo, ou de não virem a casar com o super-homem, alto, galã, ou bonito, ou que não venham a descobrir a mulher mais perfeita à face do planeta. Precisam libertar isso e talvez mesmo prantear a perda desses fragmentos, mas não os lamentem demasiado.
Ao se despojarem da fantasia de infância e de adolescentes, ainda terão determinados fragmentos, certos pedaços de sonho. Precisam começar a edificar com base nesses fragmentos, nesses pedaços, aquilo que constitui agora o vosso sonho - não o sonho da vossa mãe ou pai, não o sonho das autoridades, mas o vosso sonho. E se o fizerem, ressuscitem o sonho, despojem-no das fantasias da infância e da adolescência e deplorem a suas perdas se o quiserem, mas não o lamentem, e aí comecem a implementar os fragmentos que lhes tenham sobrado a fim de criarem o vosso próprio sonho. Esse será um dos modos por que poderão voltar a estabelecer contacto convosco de novo. Comecem a tecer o vosso próprio sonho a partir dessas peças.
...
A quarta das técnicas fundamentais que recomendamos que todos vocês empreguem no trato e por fim na conclusão desta vergonha de adulto, é que usem a semente que foi plantada no vosso íntimo, que tenham noção de não ser uma simples coisa que tenham imaginado numa meditação, mas que é algo que é bastante real. Vocês entendem, em última análise a vergonha só poderá ser sanada por via espiritual, para além da ponte da crença se quiserem; e por conseguinte, imaginem, e saibam - para além de imaginarem - que o vosso eu superior terá semeado uma semente por detrás da vossa arcada e na raiz do vosso cérebro. E ambas essas sementes, por mais pequenas que sejam, vão brotar e criar raiz, e ao criarem raiz vão crescer, e ao crescerem vão florescer. E recordem periodicamente o crescimento dessa semente que sana a vergonha.
Por vezes é a meio de um período em que são invadidos pelo pânico ou pela ansiedade ou em que se debatem por um erro qualquer que tenham cometido, ou em que se encontram totalmente tomados por uma disputa intransigente pela retidão, e na defensiva; por vezes será quando sentem essa raiva e mesmo inveja e vingança contra aqueles que estejam a obter sucesso... Detenham-se por instantes e recordem de que não precisam passar por isso. Existe uma semente dessas, mas talvez queiram que o vosso eu superior semeie essa semente uma outra vez, mas permitam que essa semente esteja lá, essa semente da cura.
E percebam o seguinte: que a vergonha do bebé, da criança, do adolescente pode ser melhorada, pode ser libertada, pode ser solta, mas nunca poderá ser por completo curada até que curem a vossa. E quando sanarem a vossa vergonha actual, então tudo quanto tiverem feito em relação a essas outras vagas poderá ser completado. Mas repousam sobre vós; elas dependem de vós. Lembrem-se da semente, lembrem-se da semente, e sintam-na.
Soa bastante místico... por o ser! Situa-se por completo para além da lógica e da razão, e talvez seja precisamente por isso que resulta, mas funciona! Essa há-de ser a fundação, a vergonha actual e não só o que a veicula, mas a vergonha actual de volta, o aprimoramento do impacto que provoca em vós e nos outros, e a utilização disso para transformar, para afastar. Voltar a estabelecer contacto convosco próprios por meio do vosso sonho, ao dissociarem o pranto e abrirem mão dos pedaços que não passam de fantasia, e voltarem a tecê-lo, e usarem o misticismo de toda uma semente que foi semeada e que pode continuar a ser plantada no sentido de lhe pôr cobro.
Para além disso só queremos sugerir três coisas que também poderão querer fazer ou não: Uma é o próprio mecanismo de causação. Recriar esse mecanismo ou clarificá-lo e de seguida usá-lo de uma forma tangível e literal. E quando derem por vocês em meio à vergonha ou com temor do que a vergonha lhes tenha provocado, a incapacidade, a mancha, o ódio, a falta de merecimento, seja o que for... Para usarem esse mecanismo de causação para travarem isso exactamente aí:
"Não preciso desempenhar mais este; posso utilizar essa causa para chegar ao que quer que me tenha sido ensinado, para chegar. E com um pouco de força nesse sentido chegar a deter isso neste instante. Quando der por mim a passá-la, a descarregá-la nos meus filhos, ou a descarregá-la na minha esposa ou num outro par qualquer que tenha significado, em vez de ter que passar pelo horror que envolve, poderei detê-la exactamente nesse instante; poderei mesmo reconhecer que estou a descarregar a vergonha que carrego neles, mas detenho isso."
Esse mecanismo de causação pode resultar.
A outra técnica que poderá revelar-se opcional para alguns de vós consta de restabelecer o que a vergonha supostamente lhes tiver causado. Tratarem de restabelecer o remorso, a integração, a consciência, e não a culpa nem o medo. Os princípios, os ideais que estabelecem o vosso carácter pessoal e espiritual, fazer a coisa certa por constituir a coisa certa a fazer. Restabelecer a ligação com essa noção de consciência, voltar a entrar em contacto com a paixão, com a compaixão, com a empatia e com a compreensão, com a motivação e com o ímpeto para ser tudo quanto são e podem ser.
"Era suposto a vergonha transmitir-me tudo isso, mas em vez disso resultou no oposto e desviou-me do caminho aparentemente e de uma forma infeliz por muitos anos. Mas posso voltar a encarreirar, e voltar a obter o que seria suposto a vergonha transmitir-me, há tanto tempo atrás."
Mas essa é uma técnica opcional, certamente.
A técnica opcional final, um tanto a título de guarda-chuva, consta de perceber que podem doá-la ao vosso Eu Superior. Deixar que Ele se chegue e pegue nessa vergonha. A vossa alma, os vossos conselheiros, qualquer tipo de amigos invisíveis, ficarão mais do que satisfeitos por isso - e embora jamais o tenhamos estabelecido de tal forma que o exigissem - podem doá-la a nós. Alguém que seja mais do que vocês poderá ficar com essa vergonha. Por conseguinte, clamem sempre por auxílio, clamem sempre por amor, clamem sempre pela capacidade de receber auxílio e amor. Simplesmente desistam - se não a devolverem, desistam.
E essas técnicas opcionais, juntamente com a fundação poderão concluir a vergonha que têm vindo a tratar diligentemente de vez em quando e esporadicamente ao longo dos últimos dois anos. Sim, falaremos da vergonha e de a libertarem e de a sanarem no futuro, mas este é o quarto componente e o final no processo de lhe pôr termo, e ao pôr-lhe termo, e ao curá-la, certificarem-se de que a não transmitem. Não preencham esse sonho, não só em prole das gerações futuras, não preencham esse sonho em função de vós próprios - com vergonha.
Mais intricado, mais complexo, mas não realmente mais difícil. E vocês podem pôr fim a ela de uma forma conclusiva
FIM
Transcrição e tradução: Amadeu António

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