sábado, 20 de agosto de 2016

VERGONHA - ADOLESCÊNCIA



Esta noite vamos focar-nos na continuidade do debate, na continuidade da exploração que na verdade teve início há um ano atrás, em Maio. Esta noite vamos tratar de um dos mais importantes e porventura dos mais insidiosos temas que pode, num certo sentido, “estragar a bebida,” e que pode romper o lado mágico da pessoa, que estão para criar. Esta noite vamos dar continuidade ao debate da vergonha, com uma ênfase particular no que chamamos de terceira vaga da vergonha: a vergonha pubescente ou a vergonha que ocorre durante os anos da adolescência.
Bom; a vergonha enquanto termo, é muito difícil de definir, certamente, mas ainda mais difícil e refinado é tratar dela, compreendê-la e deslindá-la. É por isso que não discutimos a vergonha numa simples noite, mas em vez disso, ao longo de uma série do que chamaremos quatro noites espaçadas por quatro anos, e mesmo por um seminário intensivo que foi feito em Fevereiro para muitos no sentido de curarem essa mesma vergonha, por não se assemelhar a outras moléstias e por serem contrárias a outros obstáculos ao se revelar mais complexa, mais difícil de tratar do que um monte de outras moléstias, obstáculos, bloqueios, e padrões de crença negativos que de outro modo estabeleceríam.
E é difícil por diversas razões, só que tais razões são exclusivas e pessoais. E por conseguinte não se aplicam a cada um de vós do mesmo modo, certamente. Mas a vergonha é particularmente complexa e difícil, particularmente intricada de tratar por diversas razões, tais como o facto da vergonha se auto perpetuar. Para alguns de vós a dor decorrente da vergonha é de tal modo intensa, profunda que parece um poço sem fundo, e para além disso é simplesmente demasiado dolorosa; a vergonha dói demais, e produz demasiada vergonha. E por isso mantêm-se apartados dela, ou deslizam quando muito pela superfície muitas vezes recuando somente quanto à possibilidade de lhe dar uma olhadela, de pensar tratar dela, por se auto perpetuar dessa forma.
Já dissemos antes mas vamos recordar-lhes de novo que muitos assistem a seminários nocturnos com regularidade, sem realmente precisarem saber o tópico por certamente aprenderem algo acerca deles próprios, ou senão tecnicamente sobre elas próprias, talvez acerca daqueles que os rodeiam, de qualquer modo para tornar a sua realidade mais elegante, certamente. Sempre queremos estar certos de haver um folheto de qualquer tipo, um título e um pouco de descrição, o que fazemos a partir do respeito que temos por vós, por com esse respeito disporem do direito de entender e de saber, certamente. Mas muita gente vem que qualquer modo... Mas não quando é sobre a vergonha. A vergonha constitui um daqueles tópicos que mais frequentemente as pessoas dizem:
“Bom, não se aplica a mim, de modo que não vou assistir, poderia aprender qualquer coisa subordinada a esse tópico que não adiantaria coisa nenhuma e ficar distante, ou assistir porventura a um, e aprender acerca da vergonha do estado pré-verbal da primeira infância; mas quando tivesse que ver com os anos terríveis da infância propriamente dita, não, não, não, não. Isso já não se aplica a mim.”
Por tender a auto perpetuar-se tanto, por ser tão doloroso para alguns, a vergonha produz a sua própria vergonha e por isso, contribui para a complexidade e a dificuldade, e isso pode representar uma dificuldade para alguns de vocês aqui, e por isso os felicitamos pela coragem e estilo que demonstraram ao vir escutar e trabalhar, muito embora possa ser muito doloroso para vós.
Para outros pode ficar a dever-se à particular debilidade da vergonha. A vergonha afecta-os emocionalmente, mas aí já tinham conhecimento disso. Mas também os afecta fisicamente, o que representa algo que muitas vezes não sabem ou que prontamente esquecem. A vergonha produz uma reacção química no cérebro; a vergonha altera o funcionamento do sistema endócrino, altera o funcionamento do sistema nervoso, altera o sistema de comunicação, a rede de comunicação existente entre as várias porções do cérebro e por isso, as funções do organismo. A vergonha pode chegar a afectá-los ao nível fisiológico, alterar-lhes os próprios padrões do crescimento, mas assim como os afecta emocional e fisicamente, a vergonha não só afecta aquilo que pensam e sentem como no caso de alguns de vós afecta a forma como pensam e sentem, a maneira como o fazem. Assim, não é só a observação dos pensamentos e dos sentimentos que surgem, mas aquilo que fazem com isso, a forma como lhes respondem, a forma como lhes reagem, que é igualmente afectada pela própria vergonha.
Mas talvez essa função de debilidade seja mais incapacitante para vós do que, digamos, para outros, em determinadas delimitações que poderão experimentar na vossa realidade. Além disso, o acúmulo de vergonha, em muitos casos é internalizado; internalizar é um adorável termo psicológico, mas aquilo que traduz é que se tornam na fonte da vergonha. Vejam, alguns de vocês carregam vergonha desde aquela fase pré-verbal, desde a infância e desde os anos da adolescência, e mesmo além disso foram-na acumulando como uma bola de neve que foi crescendo sem parar e que tinha que ir desembocar a qualquer parte, e desse modo internalizam tanto a ofensa quanto o ofensor. Por isso, não se trata simplesmente de esquecerem o que lhes aconteceu ou de esquecer quem lho tenha feito por um estratagema psicológico qualquer de entorpecimento, de anestesia; vai mesmo além disso, em que se tornam no ofensor. Vós sois a fonte da vergonha que sentis, e tornam-se naquele que perpetra a ofensa.
Assim, quando começam a olhar para a vossa pré-infância e para a infância propriamente dita, e mesmo para os anos da adolescência, parece que não conseguem descobrir o que lá resida, por vocês serem o ofensor, e por estarem a perpetrar a ofensa. Torna-se demasiado difícil, por exemplo, para uma pessoa que é abusada ou abandonada de uma forma que produza vergonha, enfrentar, confrontar e tratar da própria vergonha que sente; quando agora a representa e a está agora a ultrapassar, quando é o ofensor. E para alguns de quantos aqui se encontram presentes que passaram por isso, e porventura por entre aqueles que possam estar a escutar-nos na privacidade do seu próprio lar, ao obterem a cassete num envoltório de papel acastanhado de um tipo qualquer (riso) isso poderá parecer demasiado desconcertante.
Além disso, e em quarto lugar, a vergonha não é coisa estática. A vergonha é uma coisa dinâmica; não sucede apenas uma vez e num período definido de tempo para de seguida os deixar magoados para o resto da vida – não. Seria porventura bom, e alguns gostam de acreditar que sim, mas a vergonha continua a suceder, não é estática; não é só:
“Eu fui abusado,” ou:
“Fui abandonada,” ou:
“Fui, de algum modo enganada durante esse período da minha vida, e desse modo não antes, e parou depois.”
Não é que se contenha, porquanto continua a suceder uma e outra vez. De facto a vergonha sucede em quatro vagas distintas, a primeira das quais geralmente ocorre entre o período que vai dos dezoito meses aos trinta e seis meses, a período chamado dos “terríveis dois”, mas num período em que a vergonha pela primeira vez se torna aparente, durante essa fase pré-verbal, não obstante disporem de uma linguagem limitada. Mas depois volta a surgir, geralmente entre os seis e os oito anos – para alguns, entre os dez e os doze, quando procedem àquele primeiro corte em relação à mãe e se apegam ao vosso pai, quer se ache presente ou não; quer seja capaz de tratar de vós ou não; quer ela seja capaz de lidar com isso ou não desse modo resultando muitas vezes em contractos psíquicos de dor, mas não se detém aí.
Ela continua até onde nos vamos focar nesta noite, àqueles anos da adolescência, geralmente associados à puberdade, por essa altura, a vergonha pubescente (idade em que surgem os pêlos púbicos) mas de seguida não se detém aí e volta a surgir, numa outra vaga ainda a que chamamos surgimento da idade adulta, que é passível de ocorrer a qualquer altura ao longo dos anos de crescimento. E surge por estas quatro distintas vagas e não somente uma vez para terminar e terem a esperança de poder voltar a lidar com ela. Ela continua a ocorrer. E caso uma dessas fases passe por atender, ela tende a acumular-se e a tornar-se, para muitos, demasiado pesada, demasiado difícil de lidar.
Além disso, a tendência actual de lidarem com a vergonha, constitui num certo sentido uma focalização numa vaga, e somente numa vaga. Bom; por favor não nos interpretem erradamente, por nos sentirmos tremendamente excitados por haver gente por aí que está a lidar de uma forma aberta; há uma década atrás não seriam capazes de falar disso da forma que nós e outros andam a falar disso – não!
Mas sentimo-nos bastante gratos pelos John Bradshaw deste mundo, e pelo trabalho que ele e outros como ele fizeram em relação à vergonha; mas o problema pode ser, e virá a ser, para muitos, que possam focar-se numa dessas vagas, e que ensinem, e aqueles que os escutam e aprendam, a lidar com uma vaga. E fazem-no maravilhosamente e de uma forma bem-sucedida. E desobstruem e libertam a vergonha que terá tido origem no abuso que sofreram aos cinco meses ou aos dois anos, ou cinco ou dez ou do abandono, ou do que lhes contaram, dos pais alcoólicos que tiveram e do filho adulto que foram, etc. E são bem-sucedidos e muitos de vós também, mas muitas vezes dão pelo vosso êxito sabotado pelos níveis não atendidos.
“Por eu ter removido o facto de ter sido vítima de abuso quando estava com três anos e de seguida ter pensado ter posto um fim na culpa, para então ser golpeada pelas costas com o que sucedeu quando tinha sete ou dez – ou catorze anos; ou aos trinta e dois! Fui sabotado pela vergonha, pelos níveis não vigiados e, não o consegui suficientemente bem, e realmente tenho defeitos, realmente tenho imperfeições e assisti a este e àquele seminário que me garantia que funcionava, mas no meu caso não funcionou.”
Por não terem tratado de todas as quatro! Não basta fazer “girar um prato”, mas precisam manter todos os quatro a girar e depois mantê-los a girar até acabarem com a vergonha.
Além disso, o que representa uma razão para alguns, que se torna particularmente difícil, é que o trabalho com a vergonha exige intensidade – e paciência. Requer não só um sentimento dotado de raiva, mas sentir a raiva na intensidade e profundidade e com a fúria que a raiva detém. Não só sentir-se um pouco magoado, mas sentir a ferida provocada pela ofensa. Não é só sentir-se assustado, mas ir até ao próprio osso, até cada susto súbito. Não é só a solidão, mas o vazio da solidão. Não é só o desespero, mas a ficar presas do desespero que precisamos chegar. Não é só a falta de esperança, mas a aflição do vazio da ausência de esperança. E não é só a própria vergonha nua e crua, mas a debilitante profundidade da vergonha – a intensidade precisa ser sentida, e não só intensidade como paciência – querendo dizer não esperar sentado, mas em vez disso prestar atenção ao detalhe, observar com intensidade e paixão aquilo que aprendem sobre vós próprios e sobre a vergonha que sentem. E muita gente teme a intensidade, entendem? E teme a paciência, e a sociedade tende a desencorajar tanto a intensidade quanto a paciência. E por isso, muitos ficam a saber da vergonha que sentem, mas não a finalizam.
Alguns descobriram, em Fevereiro, com o seminário intensivo subordinado à Cura da Vergonha, e depois da noite ter terminado voltaram para os seus aposentos no seu lar e penetraram sentimentos e por vezes passaram horas a chorar, sem terem noção de carregarem tanta dor dentro delas, desconhecendo esse reservatório que requer esse tipo de intensidade; alguns temem essa intensidade e essa paciência requeridas e por isso aprendem mas desconhecem e não a libertam. E por conseguinte parecerá nunca estar acabada.
Mas uma outra razão que mencionamos: A vergonha é uma das poucas, senão mesmo a única enfermidade que requer tanto um pedido como o acolhimento da ajuda, da parte de alguém que seja mais capacitado – alguém físico, mas alguém que seja mais capacitado, e não melhor. Muitas vezes da parte de alguém que é mais, por entre os amigos invisíveis, independentemente do quanto tratardes dela, ver a vergonha elevada pelo vosso Eu Superior, ou por Deus, a Deusa, o Todo ou por qualquer forma ou representação que venha a vós. Mas a pessoa que tem por base a vergonha, é a que tem mais dificuldade do que qualquer outra em pedir ajuda. Mas ainda assim devem pedi-la. Mas para além de a pedir, há esta outra parte que as pessoas tendem a esquecer – que muitos de vós esqueceis – que é a recepção. Vós podeis pedir, mas alguma vez vos detivestes para receber? Pedir não chega. O pedido torna-se num grande passo para a pessoa envergonhada, sem sombra de dúvida, mas é a parte do acolhimento que se torna particularmente lamacenta.
“Se eu pudesse ao menos pedir, mas depois tenho que me dispor a receber essa ajuda.”
Mas por causa da dificuldade que muitos de vocês têm, a vossa vergonha torna-se mais difícil de tratar.
Mas nós assinalamos estes exemplos e utilizámo-los como exemplos do que queremos dizer, mas a vergonha é mais complexa, mais difícil de tratar do que algumas outras enfermidades; não para lhes darmos uma desculpa, nem licença. Não. Falamos disso para que percebam a razão por que a vergonha que têm se revela tão difícil de tratar por se dever ao facto da vergonha… essas dificuldades constituem um fenómeno, uma função, da vergonha, e não do vosso defeito, nem da vossa falha. Para limparem a raiva ou o medo, com isso poderão lidar, se o quiserem, de uma forma muito directa, mas lidar com a vergonha torna-se mais difícil, não por que não estejam aptos para a tarefa, nem porque sejam verdadeiramente imperfeitos ou tenham defeitos, mas por causa do fenómeno e da singularidade da vergonha – por ela por si só ser mais difícil, e por isso precisarem conceder a vós próprios alguma paixão, alguma compaixão, algum perdão, à medida que tratam da vergonha. Por a complexidade da vergonha ser agravada pela necessidade de lhe pôr cobro, entendem?
E para poderem manifestar o vosso sonho pessoal, o sonho que nutrem em relação ao vosso mundo, para manifestarem esse sonho que têm em relação ao planeta, precisam tratar da vergonha, por a vergonha produzir pesadelos e mediocridade e não sonhos. E para criarem o sonho que tanto desejam e que estão destinados a criar, precisam tratar da vergonha, tratar do impedimento que a vergonha representa. Para serem os cartógrafos que são, para serem os sonhadores, os tecelões de sonhos, o co-criador, o produtor da realidade, para serem os criadores de visões que estão destinados a ser, precisam confrontar a vergonha, e transmutar ou transformar, ou mesmo transcender a sua energia. E uma vez aberta a porta do destino, não a podem voltar a fechar de novo. Assim que abrirem a vossa porta para o destino, ela requererá que a deixem aberta.
Alguns de vós terão conhecidos que tenham estado envolvidos na metafísica e na espiritualidade, e depois eles veem ao vosso encontro e dizem:
“Bom, durante um certo tempo fiz isso, mas agora estou voltado para outras coisas.”
E vocês olham e indagam:
“Como poderá ele andar noutras coisas?” (Riso)
Não é que tenham aberto a porta à espiritualidade e ao destino e a tenham voltado a fechar (riso) mas desde logo não chegaram a abri-la, sequer. Porque assim que abrem essa porta, entendem, não apenas ficar a saber umas coisas acerca do potencial humano e sobre como fazer as coisas correctas e desenvolver algumas técnicas metafísicas, mas quando realmente abrem essa porta para a vossa espiritualidade não podem voltar a fechá-la de novo, nem podem dizer:
“Bom, eu sei que o meu destino é tornar-me cartógrafo, mas penso que vou ignorar isso.” (Riso)
É que torna-se numa parte intrínseca de vós – não como se fosse um castigo – simplesmente não o podem fazer. E assim parecerá incrédulo que os outros o consigam; mas mais, que não a tenham chegado sequer a abrir para início de conversa. Vocês, contudo, abriram-na, e não a podem voltar a fechar; mas quer igualmente dizer que precisam lidar com a vergonha. E a beleza disso reside no facto de o poderem fazer; de facto existem muitas fontes disponíveis para tal trabalho.
E para poderem tratar da singularidade da vergonha, existem basicamente quatro coisas que em conjunto precisamos fazer esta noite, a primeira das quais já completamos – que consta da importância de saberem por que razão a vergonha, enquanto conceito genérico que é, é mais difícil de tratar. É preciso que olhem – não é memorizar nem inventariar por mais que sejam – mas saber o que é. Será que é demasiado dolorosa para vós? Para a pessoa do lado pode não ser tão dolorosa, mas para vós, será por ser...? Ou será que a debilidade é não só mental mas também física, não só o quê, mas a forma como pensam e sentem que tenha sido alterada? Ou porventura no vosso caso dever-se-á ao facto de se ter acumulado e de se terem tornado, seja por que via tiver sido, no vosso próprio ofensor e transgressor; será que internalizaram a vergonha, uma vez que não tinham mais onde a colocar, ou que simplesmente presumiram que fosse estática ou que tenham pensado em limpá-la sem terem noção do quão dinâmica é? Ou que se tenham focado numa dessas vagas e tenham sido bem-sucedidos, mas tenham acabado por sabotar a seguinte? Ou será por a intensidade... por a paciência ser mesmo demasiado... Poderia dar-se o caso de ainda não estarem dispostos a pedir, mas mesmo que tenham vontade de pedir, precisam conhecer a razão que têm - não as razões todas, não - uma mais do que a outra, mas ainda assim poderão haver algumas que não tenhamos mencionado; nós propusemos estas a título de exemplo, mas desses exemplos talvez um catalisador que os leve a compreender a razão por que a vergonha que carregam será para vós peculiar e particularmente tão difícil de trabalhar.
Para além disso, precisamos ver o que haverá de tão singular em relação a esses anos da adolescência, por que razão serão esses anos (mais do que a vergonha da fase pré-verbal, ou da fase da infância ou da adulta) por que razão serão esses anos tão distintos e únicos. Depois precisam saber o que a vergonha provoca durante esses anos, que seja diferente da fase anterior ou da subsequente; torna-se importante compreender, entendem? Não é só verbalizar o termo. Não. É diferente, e ocorre durante esse grupo de anos, e sucede dessa forma única durante esses anos - isso é o que a torna tão difícil; mas se a conseguirem compreender e deslindar, poderá tornar-se incrivelmente fácil de tratar. E assim como entenderem por que razão é tão difícil para vós compreender o que esse período de tempo tem de tão único e o que a vergonha provoca durante esses anos que seja diferente das outras alturas.
Depois, evidentemente, uma técnica que lhe ponha cobro que seja única em relação a esses anos e que se aplique à vossa parte de bebé, de criança, e que seja diferente das outras; diferente mesmo das técnicas que aprenderão, quando lidarem com a vergonha indefinida de adulto ainda porvir. Mas se conseguirem essas quatro coisas que devem operar em conjunto, então poderão de uma forma bem-sucedida pôr um termo à vergonha desses anos da adolescência, para a juntarem aos vossos troféus do êxito. (Riso) Não é conquistar mas defrontar e transmutar, transformar e transcender a vergonha.
Como demos uma vista de olhos à primeira, vamos considerar a segunda: que é que acontece durante esses anos da adolescência que torna a vergonha tão peculiar, tão singular por essa altura? Mas basicamente existem quatro coisas – claro que para alguns poderão existir muito mais, mas existem basicamente quatro coisas que correm mal. Durante o período da puberdade, que nalguns têm início lá por volta dos onze ou doze anos, mas que acima de tudo com a parte biológica da puberdade, é quando atingem aquela incrível fase chamada dos adolescentes – dos treze aos dezanove anos caso o alastrem, mas que na maior parte dos casos compreende esse período. E que terá ele de singular? Antes de mais, embora as causas da vergonha sejam sempre as mesmas, são mais mordazes e causam um maior impacto durante esses anos.
As causas da vergonha. Falamos delas com frequência: são ensinados pelo pai mais que humano, pela mãe perfeita, pelo adulto perfeito, a superar, a cumprir de forma estrita, a exigir perfeição de vós próprios; pais que inculcam em vós, aos três e aos seis e aos treze que são imperfeitos e que têm defeitos caso não sejam tão bons quanto eles, caso não sejam igualmente aptos ou não alcancem na perfeição quanto a vossa mãe ou vosso pai perfeito são falhos, imperfeitos. Esses pais mais que humanos muitas vezes ensinam-lhes que essa é a verdade relativamente a vós, ou os pais subhumanos, os pais furiosos, os pais alcoólicos, os pais abusivos, os pais incestuosos, os pais que não têm vergonha com os comportamentos subhumanos que adoptam, que indirecta e muitas vezes directamente os instruem no sentido de serem imperfeitos.
Mas, quando são crianças captam essas mensagens, entendem, só que quando as apreendem na adolescência elas revelam-se mais mordazes e causam um maior impacto. Entendem melhor aquilo que lhes é inculcado do que quando eram catraios, ou do que quando eram bebés ou crianças o que é causa de vergonha ou de abandono; sim, é devastador para um menininho ou para uma criança perder um parente materno ou paterno devido a causa de morte, ou de divórcio ou de deserção, ou de abandono emocional – é devastador. Mas quando um adolescente o perde pelo abandono, talvez não por morte, mas pelo abandono emocional, percebe que a mãe ou o pai terão desistido dele ou dela, ou que tende a dar mais atenção a um irmão mais novo ou a uma irmã mais velha. Esse tipo de abandono causa sofrimento a um nível mais profundo e mais áspero. Uma criança conseguirá que o pai ou a mãe tenha ido para o céu, ou que não prestava, mas um adolescente sente-o de uma forma mais mordaz e o impacto que isso lhe provoca é mais devastador.
E para cúmulo, é suposto que o adolescente consiga enfrentar isso. Quando um catraio de três anos perde um pai pela morte ou pelo divórcio, todos os parentes se preocupam; mas quando um adolescente de quinze anos perde o pai pelo divórcio:
“Olha, tu praticamente és crescido, tu consegues enfrentar isso...”
E ninguém presta atenção – mas a dor é igualmente profunda, ou mesmo mais profunda em muitos aspectos, por entender o abandono e as emoções que o rodeiam. De modo similar os que sofrem abusos, o que é ainda mais mordaz e que causa um maior impacto… Mas sem dúvida uma criança que é atirada pelas escadas abaixo ou queimada ou que é espancada... Muitas vezes sentem vontade de regressar, para corrigir o que tiverem feito mal – que é o que a vergonha provoca neles – mas o adolescente que tenha sofrido isso, senti-lo-á com um impacto mais mordaz e mais devastador quando isso lhes sucede durante esses anos.
De modo similar, a injustiça (qualquer que seja a injustiça) aquelas causas que lhes são inculcadas, pelo abandono, que sofrem nesse nível do abandono, de terem sido abusados – quer tenha sido física, mental, emocional ou sexualmente, de terem sido prejudicados, produz essa vergonha de uma forma mais mordaz e mais devastadora nesses anos da adolescência. Para um adolescente tudo é maior do que a vida. Quando têm catorze anos, se não conseguirem usar as botas adequadas na escola, sentem-se devastados. Agora imaginem o que um divórcio ou abandono ou um espancamento lhes provoca!
“Se eu não usar aquelas sandálias estúpidas, morro!”
Quanto mais não doerá ter que ir para a escola com um olho pisado e dizer que caíram da escada abaixo, sem poderem contar o que o pai ou a mãe lhes fez! É mais pungente e causa de maior impacto.
Os efeitos da vergonha são igualmente sempre os mesmos, só que causam um impacto maior e têm um alcance mais vasto no período da adolescência. Os efeitos – veem-se furtados aos dons do ser humano: já falamos deles antes: são a percepção, a concepção, o pensar, o sentir, o conhecimento das vossas necessidades e desejos, a imaginação, a cura, o amar. Esses são dons humanos que os animais, por exemplo, não possuem, que os mamíferos para além dos seres humanos não possuem. E vocês envergonham-se caso se vejam furtados deles. Mas se uma criança de três anos se vir furtada na capacidade de conceber, não perderá tanto quanto isso, entendem? Mas já quando um adolescente de quinze anos se vê furtado na capacidade de perceber, muito lhe será tirado. Sim, essa carência que ocorre aos três, não surgirá até talvez os dezasseis, e é exactamente essa a questão. Uma criança ainda não se encontra muito voltada para o sentir e o amar, entendem, mas uma adolescente podia estar, caso não tivesse sofrido danos há muito tempo e não tivessem continuado, por causa da vergonha. A faculdade que têm de conhecer as necessidades e os quereres em criança são uma coisa, mas ver-se furtado dela na adolescência é mais devastador e tem um alcance mais abrangente do que nos casos em que tiver ocorrido nesses anos.
A química, que é alterada pela vergonha; durante o furor das hormonas gera-se igualmente o furor na química, e se essa química se fundar na vergonha, também produzirá um furor fundado na vergonha, que não ocorreu na primeira infância ou na infância propriamente dita. Sim, sentiram-se separados de vós próprios, mas com toda a franqueza, um catraio de dois anos não contempla o significado de se separar de si mesmo, só que um adolescente de doze sente, e a toda a hora! Encontram-se separados da sua espiritualidade, mas entendam, na infância acham-se envoltos numa espiritualidade automática, como se tivessem uma placenta de espiritualidade continuamente a envolvê-los, que diminui ano após ano e que se esvai – não é? Durante esse período da adolescência. E aí, separar-se da espiritualidade pode exercer o impacto de toda uma vida sobre vós; sentir que são imperfeitos e que não têm correcção, e que por conseguinte não podem pedir nem receber auxílio significa mais para um adolescente do que para uma criança ou um bebé. Sentir que a única solução reside em corrigir o mundo ou em abandoná-lo. Para além do efeito causado, da vergonha; tornar-se envergonhado e depois passar essa vergonha para diante – e não são muitas as crianças que são capazes de passar a vergonha adiante – mas os adolescentes conseguem.
E por certo que, se a vergonha os tiver assaltado na primeira infância ou na infância e continuar de uma forma incontestada, irá repercutir-se exactamente nesses anos da adolescência, e essas causas e efeitos contínuos atingirão agora um impacto devastador e de um alcance muito mais abrangente que é singular nestes anos, e é por essa razão que estes anos peculiares em particular possuem tal importância vital, quanto ao que acontece em associação com a vergonha.
Agora, para compor essa aspereza e impacto, os adolescentes têm que lidar com o pânico do crescimento. Bom, alguns de vós pensarão:
“Mal posso esperar! Mal posso esperar por ser capaz de conduzir e de o conseguir sozinho.”
Quando tinham dez ou doze anos costumavam moer os dentes à noite enquanto esperavam crescer e sair daquele inferno ou buraco a que chamavam casa. E quando chegaram aos treze e aos catorze:
“Ah, já tenho treze anos! Doze não era suficiente, mas treze, caramba; e quando tiver dezasseis já estarei quase lá. Vou ser capaz de deixar de ir obrigatoriamente para a cama a determinadas horas e de dar contas. Poderei sair e embriagar-me e fazer todas as coisas que quero fazer com os meus amigos e poderei pernoitar a toda a hora.”
Alguns de vós mal podem esperar, entendem, já outros nunca sentem vontade de crescer. Querem ser meninos para sempre – sentar-se no colo da mamã a receber beijinhos e abraços e estar bem próximo à mãe e ao pai, bem juntinhos, muitas vezes com ciúmes dos irmãos mais novos:
“Quero ser catraio para sempre; Peter Pan, voar para a terra do nunca e ter por único problema o Crocodilo Tick Tock e o Capitão Gancho – só isso. É tudo quanto a vida representa. É um maravilhoso conto de fadas.”
Mas logo chega a puberdade, e a súbita investida dos pelos no rosto, nos braços, no peito e na barriga, e o crescimento do vosso pénis ou o desenvolvimento dos seios, e começam a ter aquela coisa chamada o período menstrual em que recebem nomes que lhe associam, mesmo da parte da mãe, mas subitamente, quer o pretendam ou não, encontram-se situados bem no meio do crescimento. E quer chamem uma ilusão ou uma ameaça à vossa fantasia, é o pânico total. E não interessa que o vosso ego venha crescer paticamente lá por volta dos catorze ou se aos dezasseis ainda fingirão ter seis, gera-se o pânico do crescimento que os afecta a cada um. Gera-se um caos – todo o adolescente, independentemente da medida em que o lar tenha sido estupendo ou horrível - atravessa o pânico do crescimento e em que a instabilidade e o caos são tratados com crenças e atitudes de carácter absoluto.
Os adolescentes encontram-se num estado constante de instabilidade e de caos e isso cria instabilidade em associação com os absolutos. Prestem atenção aos adolescentes: tudo é taxativo, sem quaisquer tons de cinzento, sem alternativas, sem considerações em contrário; tudo é bom ou mau, certo ou errado, meu ou teu – é tudo branco no preto, sem nada entre os contrários. E por tentarem responder à instabilidade, não por que sejam estúpidos ou “adolescentes”, e tudo se encontrar lá no alto - caso consigam ter uma fundação qualquer na crença absoluta – tudo quanto os homens são, tudo quanto as mulheres são, tudo quanto as raparigas são, tudo quanto os professores são, tudo quanto os pais são, tudo quanto os Americanos são, tudo quanto os Russos são, tudo quanto os democratas são, tudo quanto os republicanos são – sem qualquer variação no tom cinza. Crença e atitude de carácter absoluto que adoptam para poder criar estabilidade e pôr termo ao caos. A incerteza e o caos são assegurados por meio de juízos. Provavelmente, os adolescentes são aqueles que mais julgam. Eles não têm qualquer sentido com respeito a esses juízos, mas esses juízos possuem um carácter absoluto:
“Bom, se são maus deviam morrer! Se forem bons devem viver! Este é o meu melhor amigo, o mais estupendo, o mais inteligente, a pessoa mais fantástica – até esta tarde chegarem a dizer que é estúpido, e que nunca será coisa nenhuma, que é feio, lerdo.” (Riso)
Mas: “Tu és o maior, o mais maravilhoso, fantástico e o mais que tudo, e como teu amigo eu sou ainda mais do que isso; tu és o meu melhor amigo - até amanhã...”
Juízos de carácter absoluto, acerca de tudo e mais alguma coisa. Os adolescentes lidam com o desconforto e o caos – e tornam isso confortável em relação a decisões importantes. Eles decidem – e vós, muitos de vós, mas já esqueceram? Mas decidem:
“Eu nunca irei gostar daquela pessoa! Mas podia...” “Eu jamais falarei mal dos outros, como me fizeram a mim. Nunca mais na vida! Tu sabes o que disseram a meu respeito...?” (Riso)
Mas seja como for:
“Eu defini a escolha categórica, a decisão de uma vida. Não importa o que faça a seguir, eu defini-a...”
Isso torna a coisa confortável, entendem? Crenças categóricas, ideias e sentimentos absolutos, decisões importantes irrevogáveis:
“Eu nunca voltarei a ser feliz! Eu nunca mais voltarei a ter amigos! Eu jamais confiarei em ninguém de novo! Jamais amarei de novo!”
“Lembras-te de ter dito que não ias ao baile depois do jogo, sexta-feira à noite; e que melhor seria que morresses ou que fosses viver para outra cidade, por nunca mais vires a ser feliz de novo.”
Absolutos destinados a instaurar conforto, a estabilidade e a certeza num mundo completamente caótico. E os adolescentes fazem isso a toda a hora – o que faz parte do pânico do crescimento, do pânico que os atinge a todos – a todos vós - independentemente dos factos e dos vultos que rodeiam isso. Além disso, parte desse pânico do crescimento provém da própria investida das hormonas. Conforme sugerimos, quando nos referimos à vergonha da infância, o que sucede quando sofrem esse tipo de dor provocado pelo abuso ou pelo abandono, ou pelo que lhes foi inculcado mesmo nessa época infantil… Quando nessa época são enganados, a dor é tal que o vosso cérebro liberta endorfinas - as endorfinas assemelham-se à morfina. O problema está em que nessa altura, o vosso cérebro é demasiado frágil e demasiado novo; as ligações neuronais ainda se encontram numa fase indelével. E quando subitamente sofrem uma sobredose de endorfinas, ele pode, num certo sentido, ser reduzido a cinzas; partes da vossa estrutura neuronal, partes dos terminais nervosos. Pode alterar os padrões da química do cérebro.
Ora bem; vocês sabem que, se tomarem um pouco de morfina ela conseguirá matar a dor, e se tomarem uma dose excessiva ela poderá matá-los a vocês. Sabem, aqueles que são tentados pelas drogas alucinogénias, que se ingerirem um pouco elas os podem deixar nas nuvens e a sentir-se fantásticos, mas se tomarem uma sobredose disso elas os poderão matar. Pois bem, o mesmo sucede naturalmente com o cérebro. Quando libertam endorfinas, o que fazem quando riem e quando comem chocolate, quando se sentem felizes e sorriem - quando estimulam o timo ele liberta endorfinas, e isso deixa-os a sentir-se bem. Mas se o sobrecarregarem ele pode levá-los a sentir-se mal.
E nós falamos já de um tipo de bateria de endorfinas que é duzentas vezes (duzentas vezes!) mais potente do que a morfina, e que são encontradas por entre os pacientes suicidas, não aqueles que o dizem ser para atrair a atenção da mãe, mas dos verdadeiros suicidas, que apresentam essa bateria de endorfinas, que é duzentas vezes mais potente o que a morfina. Conseguem imaginar o tipo de dor que devem ter sentido para forçar o seu corpo a libertar esse tipo de endorfinas?
Além disso, a serotonina que é libertada pelo triptofano, (um aminoácido codificado pelo código genético) a serotonina leva-os a sentir-se calmos e frescos e senhores de si sob uma situação de fogo, mas também pode afectar o organismo de uma forma adversa, e quando passa a dar-se uma sobrecarga de serotonina, ela pode provocar danos neuronais, prejudicar os terminais nervosos, causar prejuízo físico. Por que razão aqueles de vós que foram catraios sofreram um tal nível de vergonha que lhes provocou alterações na química do cérebro? Tic, tic, tic, tic, o relógio biológico a avançar pela infância até atingirem a puberdade, e subitamente – Ca Bum! – as hormonas abrem-se e inundam o corpo, a química inunda o organismo e isso representa algumas das razões porque alguns adolescentes são genuinamente suicidas, e não estão apenas a inventar, nem estão a ser excessivamente dramáticos; alguns são, em absoluto, mas outros são legitimamente suicidas por de repente o seu corpo se ver inundado de uma bateria de endorfinas duzentas vezes mais poderosas do que a morfina, e deixam de ver razão para viver.
Sim, isso é misturado com juízos de valor absolutos e com ideias e sentimentos de carácter absoluto e com decisões categóricas para a vida inteira. Sim, fazem um drama excessivo e revelam-se melodramáticos e tudo o mais, mas alguns deles, por baixo disso, são genuínos suicidas, ou são em grande medida perturbados, por se encontrarem bem, e não saberem o que lhes terá acontecido. Eram uns amorzinhos, eram crianças adoráveis e de repente viraram um tipo de monstro psicológico qualquer – que pode ser químico, e que pode representar vergonha.
E para aqueles de vocês que se recordam e que conseguem olhar para trás com embaraço e com um certo sentido pessoal de vergonha:
“Ah, os meus anos de adolescente; como poderei eu ter-me comportado assim?”
Pode muito bem ter sido a vossa vergonha que tenha produzido a investida juntamente com a arremetida que se deu por parte das hormonas que tenha produzido esse comportamento errático. Após esse período, após esses anos em que se tornaram adultos endireitaram e tornaram-se de novo uma pessoa meritória – reparem na frase – e casaram-se para corrigir a confusão que armaram, para compensar a vossa fúria química.
E agora um outro componente que tentou dificultar a química. Durante a infância a vossa glândula do Tálamo e a glândula do Hipotálamo, no cérebro, constituem os reguladores do cérebro e do (…) com o propósito de fazer crescer o corpo. O Tálamo fica encarregado do crescimento do corpo – não de uma forma linear, nem de uma forma lógica - mas exponencial. Toda aquela gente que olha para a metafísica e a despreza por não obedecer a uma linearidade nem a uma lógica, coisa a que tampouco vocês obedecem, mas graças a Deus que assim seja, porque, se crescessem de uma forma lógica acabariam numa trapalhada. (Riso)
De que forma faríam crescer o corpo de uma maneira lógica? Começariam pelos ossos? Percebem a confusão que seria se de súbito os vossos ossos se tornassem ossos crescidos, sem os músculos ou as veias ou a pele, e de repente tivessem o esqueleto a sair-lhes pelo fundo dos pés? Bom, sabem bem: “O bebé está a crescer – de uma maneira lógica!” (Riso) Em poucos anos a pele diria: “Vamos acompanhar o crescimento dos ossos.” Não é? Logicamente! Porque lado começariam? Por que pé começariam – pelo direito ou pelo esquerdo? Agora, quando fazem crescer o rosto, fazem crescer um olho primeiro… não, isso é uma tolice, primeiro fazem com que cresça o suporte; mas depois se se inclinarem, os olhos cair-lhes-ão, portanto... (Riso) Mas depois as veias terão que crescer e as artérias, e tudo terá que ser conseguido em conjunto, numa sinfonia, que nada tem de lógico, nem de linear, mas de exponencial.
E a última glândula é a glândula que supervisiona tudo isso. Quando atingem os vossos anos da adolescência, que é que sucede?
“Bom, em grande medida alcançamos a nossa estatura de adultos.”
Sim, podem obter ou reduzir peso, e durante uma série de anos ficarão com osteoporose e poderão encolher, mas para além disso passam a ter a estrutura do vosso corpo quando alcançam esses anos da adolescência. E o que sucede nesse sentido, a elegância do sistema, o Tálamo aposenta-se e agora altera a sua função, não para o crescimento do corpo mas para a protecção do corpo; fica a cargo do sistema imunitário. E se o sistema endócrino for afectado de uma forma adversa pela vergonha, ele poderá alterar-lhe o padrão do crescimento, sem sombra de dúvida. Mas mais, e de modo ainda mais característico, é capaz de alterar o padrão da saúde. E é aí que reparam num certo número de adolescentes que se tornam débeis durante esses anos da adolescência. Pareciam saudáveis em catraios, e podiam comer de tudo, conseguiam fazer qualquer coisa - e se comiam e não faziam sujeira, e comiam vermes, pegavam em toda a sorte de coisas da borda da cadeira (riso) mas depois atingem os anos da adolescência e então apanham um vento ligeiro e contraem uma constipação, uma gripe, isto e mais aquilo. “Ah, é por estar a interagir com tanta...” Não, é devido a que a vergonha tenha penetrado no sistema imunitário! Por constituir uma resposta química provocada no organismo. Isso é o quanto é capaz de se tornar penetrante. E alguns tornam-se débeis durante esses anos da adolescência e jamais chegam a recuperar.
Mas alguns de vós conseguem olhar para trás e perceber:
“Sabes, quando eu estava com 17, foi quando... nunca o cheguei a fazer... sempre tive um... desde então...”
Absolutamente. Faz parte do pânico do crescimento, que torna esses anos tão singulares. Igualmente com relação ao pânico, está toda a psicologia e biologia do sexo, da sexualidade, das preferências sexuais. Um adolescente precisa lidar com isso, ir falar com a mãe ou com o pai...
“Estás doido? Eles poderão falar-me do Conto da Cegonha, sobre a função biológica do Quem Coloca o Quê Onde e Quando, e pode mesmo espertar-se que cheguem a falar de doenças transmissíveis e de SIDA e de coisas assim, e isso ajudar os adolescentes a tomar pílulas e preservativos, e ensinar-lhes tudo sobre isso. Mas não se fala com eles sobre preferências sexuais. Não se fala com eles sobre a sexualidade e a identidade sexual... não se conversa com eles sobre...”
E durante esse período, talvez alguns consigam, mas a maioria não consegue, durante esse período dá-se toda a investida da biologia e da psicologia. Apenas há uns meses, para alguns de vós, as raparigas eram coisa provinciana. Agora? Já não as conseguem tirar da ideia. Os rapazes? Animais nojentos, malcheirosos e sujos. Agora? São sensuais e atraentes! (Riso)
Como hão-de lidar com isso? (Riso) E não acontece gradualmente aos poucos, “É um pouco sensual,” mas de repente: “Preciso ter um na cama agora!” Não é o que todos os adolescentes fazem mas é o que todo adolescente sente. E lidar com a biologia e a psicologia do sexo, da sexualidade e da identidade sexual – isso corresponde ao pânico do crescimento. Além disso, combinado com a intensidade das emoções, que é desencorajada pelos pais e pela sociedade, em grande parte por ser tão traumático, sim, absolutamente, precisa ser assim traumático; caso não seja, belisquem-nos, cutuquem-nos, façam por que o for preciso, por causa desse sentido de drama e de identidade, e se não o tiverem, o que sugerimos é que algo estará mal. Talvez não o drama destrutivo, mas todo o adolescente precisa sentir paixão e intensidade, e se não o sentir algo estará mal.
Mas ninguém quer que os adolescentes sejam adolescentes:
“Porque não cresces? Porque não te portas com um adulto?”
Por não serem adultos!
“Eras tão giro quando eras garoto; cooperavas tanto, sempre fazias o que te dizia...”
Pois, mas graças a Deus que não são mais assim. Ou quando estivessem nos trinta e cinco ainda fariam tudo o que lhes dissessem e sentar-se-iam no vosso colo. E vocês não querem isso. Bom, talvez alguns o prefiram, mas seja como for, não quererão tal coisa. (Riso) Mas é tão raro permitir-lhes ser adolescentes!
De modo que defrontamos agora uma época mais pungente de vergonha, acrescido do pânico inerente ao crescimento. E como se isso não bastasse, ao mesmo tempo que isso sucede colocam-nos no colégio ou no secundário (riso) e o que sugerimos é que o trauma do liceu é absolutamente... bom, dizem-lhes que é do zero aos seis, não? Não vamos discutir isso, o que dizemos é que nesses anos do liceu competem pelo primeiro lugar (para irem para Harvard) ou então logo em segundo (para Yale, ou vice-versa).
“Que queres dizer? Foram os melhores anos da minha vida.”
É pena! Na verdade é de lamentar. (Riso) Se esses foram os melhores anos da vossa vida, terão que ter representado um verdadeiro trauma! A menos que ainda estejam no liceu, algo deverá estar muito errado. (A rir) Independentemente do que os vossos anos do liceu tiverem representado. Mas alguns de vós foram alunos estupendos, os animaizinhos de estimação dos professores, e eles adoravam-nos; obtinham boas notas e todas as escolas os requisitavam e ganhavam prémios do presidente deste clube ou pelo menos um excelente nível e uma série de actividades, etc.
Mas outros de vós posicionaram-se no outro extremo do espectro, para quem esse foi um período verdadeiramente traumático. Provavelmente não muitos de vós aqui presentes, mas há aqueles pelo mundo fora que se encontram no fundo na classificação, para quem o liceu representou um buraco do inferno, e o período mais horrível e um pesadelo. A maioria de vós não consegue lidar com isso por não terem tido amigos nesse grupo, mas para alguns foi o mais trágico dos traumas. Mas foi um trauma para todos.
Bom, existem muitos factos ligados ao trauma do liceu que não tentaríamos enumerar na totalidade, mas os mais profundos estão ligados ao trauma da popularidade. É a questão mais importante para toda a gente. No liceu precisam enquadrar-se, pertencer a algo ou a alguém. E vocês sabem, como todo o garoto de liceu sabe, qual será o garoto mais esperto do que o intelectual? Espertos e fixes, espertos e lerdos, os espertos e totós. Existem tantas subdivisões de grupos: os progressistas, os retardados, os completamente desenquadrados, os das drogas, os do sexo, os delinquentes, os que acabam por cair nas prisões. Conhecem todos esses grupos, mas procuram enquadrar-se, pertencer a um, mesmo aqueles de vós que são mais reservados e solitários; até mesmo esses podem pertencer ao grupo dos solitários que não ligam a coisa nenhuma. Têm uma relação de pertença afastada, mas ainda têm - em patrocínio sénior, sem tutela alguma, sem professor algum que os considere, mas seja como for têm, o seu grupo, o grupo dos solitários que não se enquadram. A popularidade é crítica.
Os estudos. Mesmo que tenham boas notas, a pressão... Quando estão na escola primária, em particular muitos de vós que se encontram agora a crescer, e que estão na casa dos vinte e dos trinta, frequentaram escolas progressistas que não lhes atribuíam notas; passavam mas era como se não passassem, de modo que tiveram problemas que precisaram enfrentar, mas de súbito foram despejados no liceu onde foram colocados na nona cadeia, na décima cadeia, décima primeira cadeia, décima segunda cadeia e passaram a ter classificações A e B, nota média, 3,75 e sei lá que mais. E torna-se muito difícil de orçar S e U, torna-se muito difícil sair com um algarismo, e além disso no liceu os professores falam mais sobre notas: “Tu tiraste um A; tu falhaste!” E os professores nada dizem sobre aqueles que não acompanham, nem todos eles, mas muitos deles nada dizem sobre os que não acompanham.
“Não te fica bem? É para te motivar com a consciência de que todos saberão que fracassastes!”
Essa humilhação faz-lhes muito bem! Podem não saber mais, mas seja como for, quando muitos de vós cresciam não sabiam mais.
Os estudos. Nem conseguem imaginar como é para alguém que falhou em tudo. Talvez a maneira de estabelecerem uma relação seja a de terem um emprego, agora. Como seria se todas as manhãs, assim que chegassem ao emprego, fossem criticados, e lhes dissessem o quão idiota são, o estúpido que são e que nunca conseguirão; que nunca conseguem fixar-se num emprego e que vão ser despedidos, e às dez horas já lhes tivessem repetido isso umas doze vezes, às duas da tarde já tivessem recebido trinta olhares de reprovação e se tivessem rido de vós, e já tivessem cochichado a vosso respeito, tivessem sido criticados rebaixados? Que teriam feito? “Desisti!” Mas não podem desistir do liceu! Não até terem dezasseis. Mas para alguns garotos esse foi o liceu que tiveram – um constante andar de canto em esquina. E alguns desses garotos teriam estudado... “Ah, eles não estudavam.” Sim, alguns aborreciam-se, mas outros fartavam-se de estudar e não conseguiam o que precisavam para se enquadrar nesse sistema. O trauma dos estudos – quer se tenham saído bem ou não – representou um trauma.
Além disso há a pressão resultante do que chamamos de “consequências para a vida.” Quando estão entre os seis ou sete, ou mesmo os oito ou dez e armam confusão no recreio, jogam lama à cara de alguém ou derrubarem alguém, isso será considerado um problema de ajustamento. Mas quando com dezoito ou dezasseis empurram alguém, passam a ser delinquentes, não prestam, acabam na prisão. Quando armam uma baralhada com os trabalhos de casa na quarta classe, bom:
“Tem vergonha, não está certo, não queiras que a mamã fique aborrecida. Quando deixam de fazer os trabalhos de casa aos dezasseis são uma desgraça completa, são completamente reprovados, completamente desrespeitadores, falhos, procrastinadores, nunca conseguirão ser nada e acabarão a trabalhar nalgum quarto de fundos de alguma fábrica a forjar ferro para o resto da vossa vida – se tiverem tal sorte! Tudo se torna numa consequência para a vida. Se tiverem boas notas poderão avançar para a grandeza. Se tiverem feito um golo no último jogo de futebol irão obter uma bolsa de estudos e tornar-se num bom profissional e ganhar milhões de dólares e sair na NFL ou seja o que for.
Tudo – seja o que tiverem feito bem ou mal – tudo terá consequências para a vida quando estão no liceu; muito mais do que quando estão na primária, entendem? Tiveram tudo A na primária: “Grande coisa!” Mas no liceu:
“Ena, és brilhante, vais ser um estudante aprimorado, vais deixar a tua família orgulhosa, vais obter uma bolsa de estudos para não teres que suportar os custos dos estudos.”
Tudo apresenta uma consequência para a vida, tanto na extremidade superior como na inferior. E isso representa um trauma que tem lugar no liceu.
Mas depois, claro que há toda a crise de identidade. Toda a crise de identidade não só de não saberem quem são como de não serem capazes de falar com ninguém. Não conseguem conversar com os vossos pais mas conseguem conversar com os vossos professores (a rir). Certamente, bom, senão os vossos professores, os vossos concelheiros do liceu: “Ora, vamos lá!” Talvez tenham tido um ou dois concelheiros de colégio na província, que eram maravilhosos. (Riso) Mas sabem o que esses conselheiros... Eles cumpriam a sua tarefa e vocês andavam a tirar aqueles cursos,
“Tu vais para a faculdade? Óptimo, óptimo! Vai lá embora.” (Riso)
Não iam conversar com eles acerca de:
“Eu não sei quem sou!” (Riso)
“Óptimo!”
Conversem com o conselheiro do colégio que ele espalhará por toda a escola e por todos os professores... Não podem nem sequer falar... “Conversa com os teus amigos, então.” Não. Os adolescentes representam para os amigos – não conversam com eles! Pensem nisso, vocês representavam até para o vosso amigo mais íntimo; sim, eram amigos, não estamos a dizer... Mas não podiam conversar com eles acerca de quem eram e esperar que isso não fosse divulgado por toda a escola, nem ver isso usado contra vós por eles ou por mais alguém, caso virassem. Não se podem sentar junto com a vossa amiga de semestre e descarregar toda essa carga por presumirem que durante o verão venha a fazer uma nova amiga, ou vós, ou que algo corra mal, ou tenham comprado o último fio de algodão e ela venha a odiar-las para sempre e depois venha a “vomitar” tudo pelos quatro cantos. No colégio não conversam com amigos adolescentes mas representam para eles.
E para cúmulo do trauma associado ao crescimento, para cúmulo da enorme agudeza da vergonha que foi acumulada ou que teve início, acrescentamos uma outra, que é a ferida da alma. Isso sucede por volta do mesmo período de tempo, e são derrubados não só pela vergonha – talvez a vergonha tenha sido a ferida, mas aparte disso foram derrubados e foram esmagados e queimados. E isso é o que torna esses anos tão incrivelmente impactantes. E a maior parte disso é ignorado, por a maioria dos adultos esquecer os próprios anos de adolescência, ao quererem esquecer o pânico, ao quererem esquecer o trauma, ao quererem esquecer a ferida, ao quererem esquecer a mordacidade, e recordarem apenas aquele jogo, aquela tarde, o arremesso, a festa, e quererem somente o algodão-doce e dizer:
“Ah, os anos do colégio foram os meus melhores anos; aquela adolescência, quem dera que fosse garoto novamente.”
Tudo isso prossegue e vocês esquecem.
Aqueles de vós que têm adolescentes que estejam agora a passar por isso, que vocês reviram os olhos a indagar por que razão não agem como vocês... Eles provavelmente estão a agir tal como vocês agiram, quando estavam na situação deles. “Ah, mas eu jamais...” Diferença na forma, diferença no contexto, mas as mesmas coisas. Só que vocês esqueceram, e assim, neste período tão mordaz, tão poderoso, tão causa de pânico e de trauma e de dilaceração, nesta arena largamos a vergonha.
Que foi que a vergonha lhes causou? Quatro coisas: Antes de mais, alguns de vós olham os efeitos da vergonha e exclamam:
“Caramba, eu apresento essas propriedades. Sinto-me distanciado de mim próprio, separado de Deus, da Deusa, do Todo, não consigo pedir auxílio, nem me permitirei recebê-lo mesmo que peça, sinto mesmo ser imperfeito e ter defeitos e isso tem vindo a representar o meu segredo mas eu sinto-o. Não tenho esses dons humanos, não sinto nem penso dessa forma, não percebo nem concebo. Devia ser um dom mas eu acuso todas as propriedades da vergonha, pelo que provavelmente terei vergonha; examino a minha infância e verifico que os meus pais não eram sobrehumanos nem subhumanos, nem me ensinaram a sentir-me falho nem imperfeito; não fui abandonado por ninguém e tive um óptimo núcleo família, até mesmo emocionalmente, por terem sido gente boa que, embora não fosse perfeita deu o seu melhor. E não passei por nenhum abuso, físico, emocional ou sexual. Posso ter gozado de uma maior abertura e conversado, mas caramba, nada foi tão... Não sofri injustiças na minha pré-infância. E na minha infância? Devo ter sofrido; devo ter sido violada quando tinha seis meses de idade. Devo ter sido, pois de que outro modo poderia explicar a vergonha que sinto? Bom, se as pessoas me perguntarem e eu disser que não sofri, elas ficarão genuína e tristemente desapontadas e perguntar-me-ão se tenho a certeza e se não quererei verificar de novo. Talvez tenha sido o meu tio, ou o meu pai; alguém me deve ter violado.” (Riso)
Não, alguns foram, mas por vezes não, porque por vezes a vergonha não surge na pré-infância ou aparece na infância, mas sucede nos anos da adolescência. Mas durante os anos da adolescência, quando o vosso pai ou mãe sobrehumano vo-lo exigem, ou o vosso pai ou mãe subhumanos, os ameaçam com a implicação de que se irão tornar como o velho que é, ou iguais à mãe, o que é considerado um despertar rude, o que é considerado como parte do crescimento. Quando são abusados isso é chamado disciplina, profilaxia. Quando se tornam abusivos, chama-se a isso preocupação. Quando vos cometem uma injustiça ou erram em relação a vós, chamam a isso pais que actuam de forma estúpida, mas ninguém disse que é vergonha. Quando um pai subitamente abusa de uma rapariga adolescente, isso é chamado de estupro, ou quando um irmão mais velho viola uma irmã mais nova ou um irmão – isso não é chamado de vergonha, nem é chamado abuso sexual à mesma. Quando de facto um pai golpeia um filho ou uma filha, ou quando reclama e se enfurece e rasga a roupa por ela gastar demais trás, trás, trás, e lhe descompõe o guarda-roupa, isso não é chamado vergonha devida ao comportamento, nem é chamado comportamento indutivo de vergonha, mas antes um pai chateado, sobrecarregado de tensão.
Assim, muitas vezes a vergonha que tem início nos anos da adolescência é chamada de inquietação ou preocupação exagerada ou um despertar violento, ou algo com que seria suposto conseguirem lidar e que não deveria provocar-lhes qualquer impacto prejudicial – só que provoca! E representa vergonha, tal como se estivessem com três meses de vida ou dois ou cinco ou sete anos de idade. Ironicamente é mais prejudicial, mas menos admitido. E assim o que a vergonha provoca, ela desparece na função do crescimento – mas ainda causa danos, e muitos de vós hão-de deixar escapar essa vergonha por chamarem a isso “Pais Idiotas e Loucos” ou preocupação exagerada, ou despertar rude, ou simplesmente “É a vida!” Ao passo que se essa mesma coisa lhes tivesse sucedido aos seis anos de idade haveriam de as conhecer como vergonha e tratariam de trabalhar essa vossa vergonha e haveriam de a limpar. Não teriam que procurar nenhuma violação fantasiosa nem abuso, mas seriam capazes de lidar com a verdade e de a limpar. E é o que a vergonha faz, quando surge por uma primeira vez, ao se evaporar frequentemente ou se tornar invisível.
A segunda coisa que ocorre no caso da vergonha é que a vergonha acumulada altera-se, muitas vezes altera-se durante esses anos da adolescência e pode tornar-se mais evidente. Um pai que não tenha considerado tomar parte com a filha ou com o filho; um tio, um avô, um irmão, uma mãe… mas agora que já é adolescente talvez já devesse – abuso sexual, ou abuso físico.
“Não tem importância bater no meu filho adolescente por ele praticamente ser quase tão alto quanto eu. Teria sido um acto de perversão bater-lhe quando ele estava com seis, mas agora que está com dezasseis tenho o direito de o esmurrar por ser o pai dele.”
Mas ainda constitui um abuso físico! E o impacto que causa é de se sentirem defeituosos e imperfeitos, tal como se ainda estivessem com seis anos. Talvez não quebre tantos ossos, mas haverá de lhes deixar igualmente destroçados de coração ou ainda mais.
Muitas vezes pode tornar-se evidente:
“Ora bem, vou exigir de ti, deixei-te ser um rapaz mimado em catraio mas agora na adolescência o melhor é que não saias da marca. O melhor é que te tornes no superhomem que tenho vindo pacientemente a esperar que te tornes, ou aceitar que venhas a tornar-te num indivíduo sem concerto tal como o teu velho,”
no seu comportamento subhumano, ou como a velha senhora, ou vossa mãe, e o seu comportamento subhumano. Se repente essas pressões podem tornar-se mais evidentes, o abuso, o abuso sexual e o engano podem tornar-se mais evidentes. Também pode tornar-se mais encoberto; pode alterar-se e tornar-se mais encoberto, e não mais terem a mãe a xingá-los para obterem uma educação universitária e para se tornarem numa esposa ou num médico. Agora fica em silêncio, e adopta aquele olhar: “Precisas...” e os suspiros, e põem-se a provocar-vos meneios e contorções dentro de vós e a comer-vos vivos “Vai embora.”
Aos seis anos pode berrar convosco para que se tornem mais do que num cogumelo na aula de sapateado (riso), mas agora são os suspiros. Não se parece com vergonha, parece-se?
“Não. Ela não me esmurra, nem me faz andar para cima e para baixo; quem me dera que mo fizesse, por não conseguir aguentar aquilo; eu podia lutar contra isso, podia berrar-lhe de volta, mas que se poderá fazer a uma pessoa que se põe assim?”
“Não ma faças uma coisa dessas!”
“Que é que te estou a fazer, adolescente reaccionário? Que é que te estou a fazer?”
Agora tornam-se no agente do abuso, e isso pode tornar-se mais encoberto ainda. O abuso sexual pode tornar-se mais encoberto. O progenitor que costumava conhecer todos os detalhes íntimos da sexualidade da filha ou do filho, agora:
“Bom, estou somente preocupado com a Sida.”
Pode preocupar-se com a Sida sem saberem onde ele os terá tocado, o que ele lhes terá feito ou o que ele lhes terá dito; a forma como sentiram isso nada tem que ver com a Sida.
“Gostaste do sexo que fizeste com ele?”
Isso nada tem que ver com a Sida. Ou em relação a qualquer outra doença contagiosa, doença social, ou qualquer doença do novo acordo. Isso nem sempre é, mas pode ser demasiado pessoal e demasiado invasivo e igualmente abusivo. Muitas vezes – talvez não seja muitas vezes, mas num número significativo de vezes as mães podem sentir-se muito enciumadas em relação às filhas.
“A minha filha… com seis jovens atrevidos; ela não tem celulite, a cabra, (riso) não apresenta rugas. Se ela tivesse dado à luz conforme eu dei, ela haveria de apresentar. E ela traz todos aqueles garanhões e gatos de dezasseis e dezassete anos atrás dela. Eu, por meu turno tenho seios flácidos, tenho banhas de gordura que me crescem ao redor dos quadris, (riso) tenho rugas sobre as minhas estrias, (riso) e tenho aquele filho de uma (...) que nem sequer me deixa um bocado durante o dia. Não me importava de ter algum gato louro bonito e alto de dezoito anos e de olhos azuis atrás de mim.”
Mas algumas mães que exigem às filhas que namoram que levem um desses tipos às festas delas, sentem-se muitas vezes enciumadas, e nesse ciúme podem tornar-se sexualmente abusivas. Ou física, ou emocionalmente.
Do mesmo modo, os pais podem chegar a sentir-se relativamente invejosos em relação aos filhos:
“Ele é jovem, e tem todas estas jovens de corpos atrevidos, enquanto eu tenho-a a “ela.” (Riso) Quisera que todas essas jovens me prestassem atenção a mim. (Riso) Não estou morto, ainda tenho forças, ainda tenho (...).”
E ficam com ciúmes dos filhos, e podem chegar mesmo a tornar-se competitivos, conforme os homens tendem a tornar-se com relação a “o tamanho representa tudo”, nesse mundo de competição. E podem ficar curiosos por filhos poderem ser mais homens – o exacto eufemismo referente ao pénis – do que eles são. E caso o sejam, Deus me livre! Por isso parecer que pudesse dar lugar a muito abuso. Nem todos os pais (vamos lá ver), mas alguns de vós passaram por isso, e questionaram-se do que haveria de errado convosco para o vosso pai fazer troça de vós, por serem mais homens do que ele: “Ao dependuro, como um cavalo,” ou seja como for que a frase fosse dita, ao ridicularizá-los com um significativo sentimento de vergonha com que os deixavam embaraçados.
Isso representará um abuso? Sim, é abusivo! E pode ser mais encoberto, entendem? A mãe que irrompe pela casa de banho adentro:
“Ena, não sabia que estavas aqui!”
Ou a mãe que precisa arrumar-lhes o quarto e que vasculha todas as gavetas e a cama e por entre todos os pósteres e todas as camisolas no guarda-fatos. Ela também terá conhecimento desses lugares? Tem! É esse tipo de abuso da invasão encoberto.
E outra coisa que pode ocorrer no caso da vergonha acumulada é que ela pára. E isso por vezes pode ser do mais devastador que há – não por ter terminado, graças a Deus – mas por parar, como às vezes, num engarrafamento – bang! - em que lhes bate na traseira com o que estava a suceder. O pai que costumava espreitar no vosso quarto, não mais o faz por ser uma coisa desagradável e uma sordidez – que é que isso os levará a sentir?
A mãe que não mais faz esse tipo de coisa, entendem, por ser coisa imunda, perversa, mas o progenitor que não vem a vós e lhes diz:
“Olha, eu tenho abusado de ti todos estes anos...”
Esperava-se que o fizesse, mas seja como for... E quando param de fazer isso assim de repente, de forma unilateral, vocês acabam mantendo toda a vergonha. E quando isso para, é como o ar condicionado, que quando é fechado percebem o quão elevado estava! Quando o abuso ou o abandono param, é quando por vezes alguns têm um acidente em que batem contra si próprios, por de repente receberem o “golpe,” por de súbito terem estado envolvidos num comportamento vergonhoso todos estes anos – e que os levará isso a sentir?
E isso é o que pode acontecer com a acumulação da vergonha, quando se altera, se encobre, descobre ou detém. Adicionalmente, o que acontece sabem, quando pela primeira vez falamos sobre a vergonha em Maio do ano passado, sugerimos que o que acontece é que a fundação do remorso é removida. Deixam de ter a sensação que têm de ser humano que pode cometer erros, e de que sejam dignos de perdão e de que poderão estar preparados e por vezes não preparados. Não têm a percepção de que as vossas necessidades e quereres sejam viáveis e válidas e dignas de ter. Não têm qualquer sentido de conseguirem criar a partir da acção - mas apenas com base na reacção – por não terem qualquer base para o carácter, por não terem uma base para princípios e ideais, por não terem base alguma para a espiritualidade. E esse alicerce do remorso é-lhes dado na infância; a fundação, o ingrediente. Mas é nos anos da adolescência que o remorso se torna real ou irreal.
Nos anos da adolescência não sentem: “Não sou humano,” nem “Não posso cometer erros,” entendem? Tomam a defesa ou tornam-se indefesos; tornam-se arrogantes. Durante a adolescência não dizem. “Ora, eu sou imperdoável.” Vocês são indesculpáveis, mártires, sentem autocomiseração, são vítimas. Não decidem simplesmente estar despreparados para lidar com a vida; começam a controlar os outros para encobrir o facto de estarem completamente despreparados. Começam a oprimir, a ameaçar ou a manipular. Não é que simplesmente pensem não ter necessidades nem desejos, mas adquirem uma orientação completamente diferente exterior à validação, vivem das ilusões e da exponenciação e por vezes quase se tornam esquizofrénicos ao tentar agradar a todos – e nunca a vós próprios. Não é que nunca sintam jamais agir por conta própria ou por mote próprio, mas passam a viver dessa força uma vez mais, ou são por completo apanhados na ilusão do:
“Um dia destes, quando conseguir o meu golpe de sorte...”
Não é só que padeçam de falta de carácter, sabem, não têm é carácter nenhum, ou então gozam de uma total falta de princípios ou de ideais em que possam edificar esse carácter. Não é só o facto de se encontrarem separados da vossa espiritualidade, mas andam atrás de um arco-íris cujo pote de outro jamais encontram. Estão sempre em busca dos pastos verdes, jamais se satisfazem, andam sempre atrás da pessoa ideal, da realidade ideal, da circunstância ideal que de algum modo permita que a vossa vida funcione. O remorso não é só a abstracção de uma fundação ausente, mas representa então um factor tangível que lhes falta. E é nessa altura que aqueles de vós que agora sabem que esta atitude teve início nesses anos.
“Eu sou uma pessoa que está sempre na defensiva; alguém me critica e eu ergo o meu escudo.”
Sim, na infância o alicerce do remorso achava-se ausente, mas nos anos da adolescência o remorso real esteve em falta e por isso tomaram a defesa, tornaram-se numa pessoa controladora, tornaram-se nessa pessoa manipuladora e agora sentem:
“Como poderei eu parar?”
Vêem, foi isso que a vergonha lhes fez. Não é a vossa natureza nem é a natureza da condição humana, mas um produto da vergonha, que não só os furtou a esse alicerce como os despojou do remorso. De forma que acabam na defensiva, arrogantes, controladores, mártires, acabam a viver na ilusão e da exponenciação, sem carácter, e sempre à espera do golpe de sorte na esperança de vingarem tudo quanto tenha transpirado.
Bom, não é que cada um de vós padeça disso tudo, não. Mas na medida em que parte disso se ache presente, e não é fenómeno estranho; mas a falta de remorso de que foram furatos pela vergonha.
A quarta coisa que a vergonha provoca durante esse período da adolescência, diferentemente de qualquer outro da vossa vida... Uma vez mais, quando falamos em Novembro acerca da criança portadora de vergonha, sugerimos na altura que lhes terá tirado o alicerce da integração, da actualização, da individuação; tirou-lhes a capacidade de serem a própria pessoa que são. É durante os anos da adolescência que vocês se tornam na própria pessoa que são – ou em que isso deixa de acontecer! Ora bem, podem sempre corrigir isso mais tarde, sem dúvida, mas é aí onde começam a ser aquele que são. É aí que, não só a fundação, como a função da individuação ocorre. É a altura das crises de identidade, conforme sugerimos, em que não têm com quem falar. Os adolescentes, por mais barulho que façam, falam menos do que qualquer outro grupo etário.
“Ah, mas ela passa o tempo ao telefone.”
Isso não passa de representação! Os garotos conversam; as crianças lactentes, assim que começam, não conseguem... mas os adolescentes... Servirá de ajuda pensar nos vossos anos de adolescência? Pensem naqueles que têm adolescentes:
“Que tal foi a escola, hoje?”
“Óptima.”
“Mas... como é que correu?”
“Bem, foi fixe. Impecável.” (Riso) “Foi em grande.” “Foi o máximo.”
Eles não falam. São vocês que o faz. Afeiçoam-se uns aos outros, mas não conversam convosco. Quando eram adolescentes, quão faladores eram vocês? Talvez alguns de vós tenham sido muito verbais, mas que é que contavam aos vossos pais acerca do dia que tiveram?
“Bom, que vi fulana e sicrana, e elas usavam isto e aquilo e disseram assim e… Queres acreditar no que fulana de tal contou acerca de beltrana?”
“Que é que sentes acerca disso tudo?”
“Na maior.” (Riso) “Tá-se bem.” Impecável.” “Excitante.” “Avant-garde.” (Riso)
Dependendo da idade que tivessem. Mas vocês não falavam! E é a altura em que mais precisam de falar. É a altura em que precisam conversar a toda a hora. Por não saberem quem são nem terem forma de o descobrir.
A segunda coisa que ocorre e que faz parte desse processo de individuação, é que os vossos contractos amadurecem junto convosco. O contracto que reza:
“Eu nunca me tornarei melhor do que tu, pai.”
O contracto que diz:
“Não importa quanto isso me venha a custar, eu nunca te desagradarei, mãe.”
O contracto que diz:
“Não importa, jamais te farei orgulhosa.”
Seja o que for que tais contractos rezem, eles amadurecem junto convosco e nenhum se torna num roteiro de vida. É a substância de que as bombas relógio são feitas. É a substância de que as avalanches (que não se abaterão por mais outros quarenta) anos são feitas, e que tem início nesse período. Por não terem qualquer alicerce para assumirem a pessoa que são, nem perceberem, senão mais tarde, que dispõem das vossas “matérias-primas”. Que crenças, atitudes, pensamentos, sentimentos, escolhas e decisões terão?
A maioria dos adolescentes não sabe. Assumem as das outras pessoas, e como tal não se tornam nelas próprias. É aí que os comportamentos repetitivos têm início, os comportamentos destrutivos dotados de fases. Sabe-se, por exemplo, que pais abusivos muitas vezes abusam dos próprios filhos; que pais sexualmente abusivos provavelmente foram alvo de abuso. Porquê? Como poderia uma pessoa possivelmente agir assim? Interrogam-se a eles próprios vezes sem conta acerca disso. Se um pai que abusa do filho ou da filha se interroga vezes a fio, como será tal coisa possível? Ele sabe, por o mais das vezes ter sido alvo de abuso. E prometeu a si mesmo vezes sem conta nunca mais irromper pelo quarto do catraio ou da catraia adentro em plena noite. É um caso de fases dessas repetitivas. Uma estrutura neuronal bem dentro no cérebro, no tronco cerebral, despoleta mecanismos que, a despeito de tudo quanto disserem e do quanto desejarem, não conseguem deter. Até desfazerem a repetição, o mecanismo.
Assim, o pai que foi objecto de pancada ou a mãe que foi objecto de sovas diz:
“Eu jamais irei bater nos meus filhos, prometo-te que jamais farei isso.”
Como foi que isso aconteceu? Como é que se desfaz ou anula uma coisa destas? Ainda se encontram estagnados a indagar-se, enquanto desencadeiam um hábito repetitivo desses.
“Nunca mais o vou fazer, nunca mais. Estou tão arrependido, eu prometi que nunca mais o faria mas juro-te que não consigo parar. Porque não acreditas em mim?”
Padrões repetitivos, a menos que obtenham auxílio. Entendem? O marido mal tratado, a esposa maltratada, a criança maltratada. Eles não irão parar, a menos que obtenham ajuda. Mas nenhuma quantidade de alegações e de conversa sã e lógica iriam deter um vínculo desses. Esses laços foram estabelecidos nesses anos da adolescência, por falta de alicerces e da função da individuação, naqueles períodos em que uma pessoa decide que não consegue amar e que é incapaz de amar, incapaz de se tornar num indivíduo ou de conseguir interessar-se. Uma altura em que outros decidem ser capazes de mostrar interesse e de amar e de conseguir imitar, mas em que não o fazem por ainda não terem encontrado a pessoa certa. Mas assim que o conseguirem, precisarão tomar cuidado com eles! Ainda não terão assistido a um amor como o amor que eles conseguem dar - só não encontraram a pessoa certa, a circunstância apropriada, a situação correcta, a ambiência acertada, a disposição correcta; assim, jamais terão visto um amor até verem o deles. Claro que jamais encontram o cavalheiro correcto ou a dama perfeita e passam a vida à procura da situação apropriada e da circunstância acertada.
Mas claro que, se os interrogarem eles responderão que conseguem amar, e que são simplesmente a pessoa mais amaldiçoada à face da terra; que são únicos e que se encontram bem e que vocês é que estão lixados. Têm havido muitos desses que trepam ao topo das torres e que se põem a disparar para todos quantos saem de casa para se dirigir a um MacDonald's ou a uma área de estacionamento ou a um recreio de escola e que derrubam todas essas crianças extraviadas por causa dos equívocos:
"Eu estou bem; o que acontece é que mais ninguém está!"
É aí que tem início a função da vergonha, e é isso que a vergonha lhes provoca - furta-os à capacidade de serem a própria pessoa que são; tira-lhes a capacidade do remorso. Ela altera-se e torna-se ostensiva ou dissimulada ou sofre uma interrupção; e torna-se insidiosa ou invisível caso tenha início durante esses anos.
E durante esses anos, para cúmulo do período em que isso se revela mais pungente e causador de um maior impacto e possui uma maior abrangência, quando sentem o pânico de crescer com o trauma do liceu e se serem delicerados na alma,… É por isso que esses anos são de importância tão vital e tão crítica. Sim, certamente que é em criança, e na infância, que em certos casos isso tem início; foi quando teve início ou sofreu um acúmulo. Mas não podem parar por aí. Amem-se o suficiente, respeitem-se o suficiente para perceberem que precisam ir além disso e que precisam chegar a essa adolescência.
"Mas, porque será isso difícil? Porque será único para mim?"
Todos vocês sofreram profundos traumas no liceu, entendem? Outros padeceram do pânico inerente ao crescimento. E para alguns, aqueles que costumavam manipular, foi o “dilaceração” que lhes provocou isso. Precisam saber o que de único a vergonha lhes terá causado.
"Terá começado nessa altura e eu ter-lhe-ei chamado outra coisa?"
Que terá ela acumulado, dissimulado, ostentado ou detido? Terá sido aí que desenvolveram aquele padrão negativo de pessoa que têm? Terá sido por essa altura que terão perdido e jamais se terão tornado naquele que são - e ainda não têm consciência disso? Precisam averiguá-lo e esses anos são críticos. E se o conseguirem, então conseguirão terminar com ela. Poderão pôr cobro à vergonha, e ver-se livres dela.
Mas por ora queremos que façam um intervalo. Não tentem memorizar coisa nenhuma. Deixem somente que fique em barrela. Deixem que tombe à medida que começarem a ir para a fila do quarto de banho; deixem que caia por terra à medida que cumprimentarem os amigos e procederem ao alargamento. A questão está em os ter deixado irritados, e a achar ridículo... A questão está em tê-los levado a pensar que iríamos dizer:
"Porque não se levantam e mostram como foi, uh?" (Riso)
Aqueles que dão o fora e que não conseguem lembrar-se. Pensem nisso; deixem que a coisa fique a rolar.
Após o intervalo vamos enumerar de uma forma mais detalhada como tratar dessa forma de vergonha única, de modo a pôr-lhe côbro e a livrar-se dela, a ser curados dela. E depois claro que para concluirmos a noite vamos proceder a uma mistura das nossas energias com as vossas, que poderá não ter nada que ver com este particular conteúdo da noite, nem com algo que queiram criar ,embora o provável será que tenha.
...
No caso de alguns de vocês, sabem exactamente se foi num quarto particular ou se foi no porão ou no sótão ou debaixo de uma árvore ou na garagem, ou no velho carro que passou a ser vosso quando estavam com dezasseis anos, ou se foi na vizinhança ou (…) Já outros, poderá ter sido aqui ou acolá ou num tipo de reviravolta qualquer… Não faz mal, não se condenem nem se votem ao ridículo nem decidam que tenham estragado tudo ou fracassado; não façam isso.
Alguns de vós sabiam e por isso tiveram que se contentar com o quarto de dormir, mas muitas vezes foi a forma como se deu; talvez não durante o dia, por poderem não os deixar ir para o vosso próprio quarto de dormir, mas só pela noite: “O melhor é que entres aí…” Mas por vezes no caso de alguns de vós… Não faz mal. No caso de outros as imagens foram claras como água; já noutros… Em certos casos têm recordações muito vagas, não sabem onde tenha sido, não revisitaram assim tanto a sua adolescência. Não se desconsiderem, não façam isso a vós próprios porque, mesmo que a experiência por que tenham passado tenha sido apenas fugaz, a mente subconsciente agora carrega o padrão, e coisas ocorreram profundamente dentro de vós ainda que não soubessem disso, mesmo que não o tenham percebido durante uns quantos dias ou semanas – mas estão a decorrer. E se fizerem a experiência, se fizerem a meditação, chegarão a compreender e isso tornar-se-á mais claro e mais vívido.
E podem utilizar a meditação no sentido genérico da vergonha que carregam, assim como podem especificá-la; podem tratar de uma questão qualquer ou ter consciência do tempo da adolescência, de um incidente que tenham tido na véspera do grande debate ou na noite antes de eleição do Regresso a Casa ou em que iam ser selecionados para isto, ou do grande teste… E foi o período em que se sentiram morrer de medo. E poderão assenhorar-se desse período específico, ou do período específico por que passaram no geral, mas tratam disso e isso tornar-se-á mais familiar, apossar-se-ão mais disso. Assim, não se intimidem nem se desconsiderem nem decidam - no tom absoluto em que o adolescente ainda vive – que nunca o tenham feito nem que nunca o venham a fazer…
Mas para o efeito e propósito queremos referir o que poderão fazer, as abordagens específicas que poderão assumir que ponha termo à vergonha que procede desses anos da adolescência, a vergonha decorrente desta terceira vaga. E há vários procedimentos que recomendamos empregar tão rápido quanto lhes for apropriado, por cada um de vós ser único.
Porém, o primeiro passo... os outros, é sempre o mesmo, independentemente da velocidade com que os implementarem. A primeira coisa que é importante é identificar e reconhecer antes de mais, a dificuldade da vergonha que sentem. Identificar e reconhecer que porventura se auto perpetua e que seja demasiado vergonhosa de enfrentar. Perceber e reconhecer as debilidades igualmente físicas e consequentemente não só o que pensam como a forma como pensam. Ou que se lhes caberá notar e reconhecer a qualidade dinâmica ao invés da qualidade estática que assumiram, perceber e reconhecer que tendem a ignorar a área da vergonha mais significativa de todas – quer tenha sido em criança ou na adolescência ou naquele período da infância. Ou que a intensidade ainda se afeiçoa demasiado assustadora, ou a ausência de paciência, ou que ainda lhes custa demasiado pedir auxílio.
Identificar e reconhecer qualquer desses exemplos ou a razão que tenham – independente desses exemplos, por a vergonha no geral se lhes mostrar tão confusa e complexa. E com esse passo inicial reconhecer identificar e igualmente ver o que tenham tido de tão único nos vossos anos da adolescência. Alguns de vocês, conforme costumamos dizer, não sentiram um pavor por aí além relativamente ao crescimento, mas o liceu já terá representado um trauma e um pesadelo, em qualquer dos lados da consideração. Para alguns de vocês o liceu terá representado um trauma como o do Vietname e os tenha afectado por se encontrarem nos anos da adolescência, nos dezoito, nos dezanove ou mesmo a entrar na casa dos vinte. Talvez o trauma do liceu não os tenha afectado até terem entrado na faculdade - alguns de vocês já repetentes.
O que terão tido de único nos anos da adolescência? Talvez tenha sido principalmente o trauma do liceu, de que não tenham conseguido estar à altura, ou a guerra… Talvez tenha sido o pânico inerente ao crescimento e o arremesso das hormonas e a mudança, as exigências biológicas e psicológicas e o sexo e a sexualidade e a identidade que os tenha deixado numa verdadeira confusão. Muitos de quantos descobriram, durante a fase adulta, uma sexualidade distinta da que o consenso diz que deve ser, tê-la-ão sentido nessa altura. Talvez não o queiram admitir – alguns de vocês não terão tido consciência disso na altura – mas muitos passaram por isso, e vocês sabem. Preferiam as mulheres, quando era suposto quererem homens, ou tinham preferência pelos homens quando era suposto quererem mulheres. Negaram-no possivelmente e cumpriram o papel, e representaram, mas vocês sabiam. Para vós talvez isso tenha representado o pânico que envolveu o crescimento.
Ou talvez tenha sido o dilacerar do Eu que tenha sido de tal modo profundo, ou talvez o facto da acumulação de vergonha por fim ter revelado a sua face repulsiva, com a mordacidade das causas e o poder do impacto que envolve. Mas vocês precisam definir por vós próprios quais destas combinações lhes terão produzido, um território único, um conjunto único de definições chamado adolescência, para poderem reconhecer e identificar o que tenha sucedido na vergonha que sentem. Terá iniciado por essa altura? Terão sido um de quantos tenham gozado de uma infância e de uma adolescência relativamente boas, isentas de vergonha, para depois atacar a toda a força por meio de algo chamado “alguma outra coisa”? Ou ter-se-á acumulado e tornado manifesta ou dissimulada. Ou terá cessado por essa altura, e terão pensado:
“Caramba, graças a Deus que a mãe não está mais a fazer isso, ou os meus irmãos foram para o liceu, ou a minha irmã casou…”
Só que agora que se encontram mais sós, precisam lidar com a vergonha. Terá sido isso que lhes terá provocado? Mas que é que vocês terão feito - enfrentaram-na cara-a-cara ou com remorso e identificando-se? Terá sido quando decidiram nunca mais voltar a amar? Ou que tinham que encontrar o companheiro ou companheira perfeita, o amante, a alma-gêmea, ou que fossem suficientemente bons, ao contrário de toda a gente, que para vós não o seria. Ou a síndrome do “Eu sou bom; toda a gente é má.” Precisam reconhecer essas três coisas: A razão por que é difícil, a singularidade da época, e a profundidade da própria vergonha.
Esse reconhecimento e a identificação desses componentes constitui o primeiro passo. O segundo passo passa por sentir: Como é que vocês, em 1991 sentem acerca do facto disso lhes ter sucedido?
“Bom, eu crio a minha própria realidade…”
Pois! Mas como se sente com relação ao facto de lhe ter sucedido? Não use o “Eu criei-o,” isso como desculpa; como se sente? “A forma como o tiver criado virá mais tarde, está bem? Agora, como é que se sente? Isso deixa-o irritado? Tê-lo-á-á deixado zangado? Como é que se sente? Agora que o reconhecem e identificam, como é que isso é sentido? E, parte desse componente é igualmente, como é que se irá sentir quando terminar? Como virá a ser? Se olharem e perceberem:
“Olha para isto. Consigo mesmo ver o que sucedeu. Vejo que aquele comportamento adoptado pela mãe ou pelo pai produziu isto em mim e me deixou dilacerado, e que me senti tão repleto de raiva, de ódio e de fúria que tomei este tipo de decisões de carácter absoluto com relação à vida ser horrível e eu nunca chegar a prestar para nada, nem nunca chegar a ser feliz nem bem-sucedido. E vejo o que isso me provocou trinta, quarenta, cinquenta anos depois; vejo o que me está a provocar exactamente agora ao me deixar dilacerado. E isso deixa-me tão irritado!”
Mas sabem o que terá sanado?
"Nunca mais voltarei a ser dilacerado. E vou tratar de descobrir quem sou. Vou ter as minhas próprias crenças, porventura pela primeira vez em toda a minha vida. E essas crenças assim como as atitudes e ideias que produzem… Caramba, estou tão entusiasmado que… É emocionante. Nunca mais precisarei tomar a defensiva com relação a isso, atacar ou recuar; poderei… diferente… Caramba, o meu relacionamento! Como ele pode mudar!”
Assustador! (Riso) Mas é entusiasmante ao mesmo tempo. Mas é assustador!
Mas precisam sentir ambas as coisas: o entusiasmo e o medo. A resistência e o positivo. Precisam sentir esses dois. O que se sente ao passar por isso que lhes aconteceu, e como se vão sentir quando for eliminado, por vir a ser eliminado. E a partir desse segundo passo serão capazes de se elevar até uma terceira força. A primeira força é como me sinto com a vergonha; a segunda força tem que ver com a forma como me virei a sentir quando a vergonha desaparecer. A terceira força é o facto de precisar perdoar o ofensor pela razão por que tiver feito o que fez. Não necessariamente pelo que tenha feito!
“Não vou perdoar o meu pai por me ter batido quatro vezes por semana. Mas vou perdoá-lo pela razão porque o fez. Poderei nunca vir a ser capaz de o perdoar pelo que fez, mas vou perdoá-lo pela razão que o levou a fazê-lo.”
Isso é significativo e tem uma importância vital porque, recordem que o vosso mundo físico constitui uma ilusão, mas o que é real é a emoção, a intenção, a motivação, o pensamento e o sentimento. Isso deixa-os derrotados a cada dia que passa. Por mais doloroso que tenha sido (e não queremos reduzir-lhe nem um jota) por mais impacto que tenha tido (em relação ao que também não pretendemos diminuir seja o que for) ainda constitui uma ilusão. Mas a razão por que o fez – isso é a verdadeira coisa.
“É acerca disso que quero perdoar-lhe. Porquê! Porque é que a mãe o fez, porque é que o pai o fez – quem quer que o transgressor tenha sido, o professor no terceiro ano, ou o director do teatro que estava por detrás do palco e me fez isto ou aquilo. Não os vou perdoar pelo que me fizeram. Eles deviam ter pensado melhor… Não, isso de nada serviria. Mas posso perdoar a razão que o tenha levado a fazê-lo – não por ele, mas por mim! Por não estar disposto a passar o resto da minha vida a carregar isso. Vou perdoar-lhe a razão que o tenha levado a fazer aquilo, mas não necessariamente o quê. Talvez com o tempo o perdoe quanto a isso também, mas não é isso que importa – o que importa é a razão.”
Agora, um erro que cometem, de dois enormes erros potenciais, é dizerem:
“Bom, estou a ouvir-te. Está bem, eu perdoo-lhe a razão, mas também vou perdoar-lhe quanto ao que fez. Afinal sou tão espiritualmente evoluído! Vou dar esse passo em frente, vou ser o verdadeiro animal de estimação e perdoar-lhe igualmente o que me fez.”
Não façam isso a vós próprios!
Vejam bem, se decidirem neste instante que lhes vão perdoar a razão e o acto, dir-lhes-emos de caras que estarão a mentir a vós próprios. Ou que estarão a deixar-se seduzir pelo ego e a levá-los a pensar ser capazes de o fazer. Se realmente compreenderem o que a vergonha envolve não concordarão em dispor-se rapidamente a perdoar o que eles lhes fizeram. Se estiverem, não terão cavado suficientemente fundo.
“Bom, o meu pai fez-me isso, e eu perdoo-lhe o facto de mo ter feito.”
Não cavaram o suficiente na vergonha para a sentir, porque se o tivessem feito não estariam preparados – não ainda. Talvez nunca venham a estar, mas não vão estar preparados para já.
“O meu irmão abusou de mim, e eu perdoo-o por me ter feito isso. Consigo perceber a razão, e consigo perdoar-lhe essa razão, em particular quando reconheço e admito, e sinto essas forças. Aí consigo perdoar a razão.”
Essa pode representar uma referência legítima, mas saltar para aquilo que foi feito… Ou estão a fazer o jogo da arrogância ou ainda não terão tocado nisso em profundidade. Por isso, preocupem-se apenas com a razão por que o tenha feito, que se o que fez for de perdoar, isso acontecerá e um dia saberão que conseguem perdoar o que tenha feito e a coisa será sanada num piscar de olhos. Ou será perdoado a um outro nível sem que bem cheguem a percebê-lo. Mas ocorrerá naturalmente. Isso é o que poderão forçar, isso é o que terão que fazer; é um erro que cometem tentar fazer o outro em vez disso. Porque o fizeram?
O outro erro que cometem é dizer a vós próprios que tenha sido por não saberem que seja assim. Essa não é a razão. Mas infelizmente certos terapeutas (que na maioria são fantásticos) têm tanto medo de lidar com a intensidade que o objectivo que têm não é o de praticar terapia mas de os levar a não atingir a intensidade. Muitos terapeutas têm imensa dificuldade em lidar com a emoção e levam as suas vidas de terapeutas a tentar convencer-se de que as emoções não têm qualquer importância seja como for. Ou que devam ser negadas, ou tratadas até se tornarem gente normal e ajustada, semelhantes a autómatos.
Assim muita vez sucede, e é terapeuticamente acertado:
“Bom, o seu pai abusou de si por não saber de nenhuma outra forma melhor de lhe demonstrar amor. A razão por que entrou no seu quarto e a levou a tocar-lhe e a levou a fazer aquelas coisas; a razão por que lhe introduziu o pénis na vagina, muito embora estivesse somente com dois anos de vida, deveu-se ao facto de não conhecer nenhuma outra maneira de experimentar amor.”
Pobre pai!
Ou então:
“A razão por que a mãe lhe bateu, ou o pai, ou a razão por que o ridicularizaram a torto e a direito deveu-se a que se sentissem tão inadequados que tenha sido a única forma de lhe mostrar amor. Não sabiam que não é assim.”
De uma forma descarada, quase explosiva. Talvez tenha sido um pai esquisito ou dotado de uma mente distorcida que não soubesse efectivamente pensar de outra maneira, mas o que nós sugerimos é que 99,99 por cento das vezes é que eles sabiam mesmo que não é assim! Não há ninguém aqui entre vós que pense que bater numa criança seja uma maneira de lhe dar a entender que a ama. Ou que ter um encontro sexual com uma criança ou um adolescente – ou com qualquer um – sem consentimento, constitua um acto de amor.
O estupro não constitui um acto sexual, o estupro constitui um acto de violência. É daí que resulta a ideia de que certas mulheres “estejam a pedi-las,” ou que se vistam de uma maneira sensual, razão por que… Não, caso se vistam de forma sensual poderão estar a sugerir que querem fazer sexo mas não estarão à espera de ser violadas. O conceito chauvinista de que, seja como for, toda a mulher que é vítima de violação o tenha pedido, como se estivesse à-vontade, etc., teria porventura um nível qualquer de mérito se o estupro fosse um acto sexual. Mas o estupro não constitui acto sexual nenhum, mas antes um acto de violência. O abuso, seja de carácter físico ou sexual não constitui um acto sexual ou de amor mas um acto de violência. Um pai abusa da sua filha ou filho sexualmente por causa da hostilidade que sente, por causa da raiva, por causa do ódio que sente – não por não saber expressar amor de outro jeito qualquer!
Uma mãe, um tio, um vizinho, um professor de ginásio ou um treinador que se tenha familiarizado demais no vestiário… Essa não é a maneira de lhes promover a carreira atlética, nem de dizer que se importam convosco, mas um acto de violência, um acto de hostilidade. E vocês precisam dizer a vós próprios a verdade:
“Olha, esta não foi a única maneira por que sabiam expressar o amor mas o modo doentio e perverso de expressar a hostilidade que sentia, em relação aos homens, em relação às mulheres, em relação a ele próprio, em relação aos seus filhos, ao mundo; seja o que for, mas não é modo adequado de expressar amor."
E isso é um erro muito importante que muitos terapeutas os encorajam a cometer, mas um que é fatal.
Mas outros que também ensinam com respeito à vergonha, e que sentem receio da intensidade do que lhe associam, e que querem que o disfarcem com a pequena técnica arrumadinha, muitas vezes dirão a mesma coisa. Mas não é verdade, e no mínimo vocês devem a verdade a vós próprios.
“Se eu conseguir revelar a mim própria, este abuso físico, a razão por que o meu pai, tio ou mãe, quem quer que o ofensor tenha sido, me fez isto, foi por um acto de violência ou de ódio, ou uma perversão decorrente da própria raiva e mágoa, do próprio medo que sentia. Então, não sentirei pena dele, mas raiva, sinto mágoa, mas consigo perdoá-lo pela razão pelo que o me fez.”
E com o tempo talvez consigam perdoar o acto, ou talvez não.
"Não tenho que ser amiga, não preciso reconciliar-me, não preciso voltar a vê-lo mais; não, não. Mas pela minha parte, preciso perdoar a razão por que mo fez. Exijo a verdade. Ele fez-mo com base na hostilidade, com base na perversão da própria vergonha que sentia; fê-lo para se livrar da vergonha que sentia. Descarregou-a em mim! Esse não foi um acto de amor, nem um acto de desconhecimento quanto à maneira de comunicar, mas uma decisão consciente ou subconsciente de se livrar do próprio lixo e de me passar a carregá-lo. E eu perdoo-lhe pelo motivo que o levou a fazê-lo. Eventualmente perdoar-lhe-ei “o acto,” mas de certeza o motivo.”
Talvez ainda não o consigam ainda, mas não faz mal; em todo o caso, saibam que isso representa o terceiro componente aqui, e vocês poderão avançar até um quarto componente, e voltar a esse quando necessitarem fazê-lo. Mas é um dos componentes – reconhecer e admitir, sentir o estado em que se sentem e como virão a sentir, e depois perdoar.
O quarto componente, que poderá ajudá-los com o terceiro, consta de precisarem tratar do adolescente no seu próprio mundo. Frequentemente tratam dele na vossa própria esfera, trazendo-o para o vosso lugar seguro, o vosso mundo interior, o vosso sítio de meditação, o plano causal e a outros… Mas agora precisam ir até à esfera dele, ao mundo dele. E tanto pode ser uma situação genética como uma específica, conforme sugerimos: Antes do teste, antes disto ou daquilo, após um horrível acidente que tenha ocorrido quando se encontrava completamente desamparado e não sabia como lidar com isso… Vão até ao seu mundo, mas não se tornem em pai nenhum; ele já possui demasiados pais, no estado em que se encontra. Ele não precisa de aconselhamento, mas sim de um amigo, precisa de um confidente. Não um amigo adolescente, precisa de um confidente: alguém que consiga compreender e que não venha a dizer:
“Olha aqui, isso vai passar.”
Isso irá passar, mas ele não precisa ouvir isso agora. Isso denotará tão só que não estão a escutar.
“Se te portares bem e fores bom, isso passará…”
Pois sim! Quantos professores, quantos pais, quantos pais de outros miúdos não terão dito o mesmo? Estejam presentes para ele, somente. Escutem somente.
“Eu tenho este problema…”
Olha aqui, isto que é que devias fazer…
Não façam isso! Porque a mãe e o pai e os professores já o fizeram; os amigos dos amigos, toda a gente faz isso. E ele não precisa disso. Precisa de alguém que escute.
“Eu estou com este problema…”
“O que é?” Essa é a resposta.
“Bom, tenho isto e mais aquilo, e não sei o que fazer com isso…”
Isso é um problema! Essa será uma resposta, entendem? Ele poderá dizer:
“Hei, ele está-me a entender.”
Agora: “Não faz mal; eis o que deves fazer…” Isso não resulta, mesmo que tenham razão, mesmo que o que tenham sugerido seja exactamente o que precisa fazer. Mas ele precisa passar por isso.
“Sinto-me aterrado.”
“De que tens medo? Pois, é mesmo assustador. Na verdade é mesmo aterrador. “Tu tens que te sentir mais do que assustado; tens que te sentir como que diante do Juízo Final.”
Estarão a tornar isso pior?
Não! Revelar empatia nunca piora a coisa.
Toda esta minha conversa terá reparado alguma coisa?
Não. Ele não expressou aquilo que o estejam a tentar ajudar a ver. Ele sabe que é aterrador, e leva-los a vocês a reconhecê-lo dar-lhe-á a ideia:
“Puxa vida, talvez ele não seja tão esquisito, tal como todos os outros adultos. Talvez seja alguém em quem eu possa confiar!”
Sugeriríamos mesmo que não tentassem dizer-lhes que não faz mal chorar, por essa ser uma declaração paternalista.
“Consigo perceber que tem vontade de chorar e que não quer fazê-lo, por sentir medo, mas digo-lhe que não faz mal…”
Digam-lhe que soa verdadeiramente assustador. Ou que é realmente comprometedor chorar neste momento, ou que parece que tem mesmo vontade de chorar. Conseguem distinguir a diferença existente entre isso e o facto de dizerem: “Tudo bem, podes chorar. Chorar não faz mal. Tens o direito de te sentir zangado”? Isso são afirmações paternalistas. Ele não precisa do encorajamento da permissão resultante da linguagem a omitir, da vossa parte.
“Eu estou com raiva e não procuro o certo mas alguém que me ouça.”
“Tu tens o direito de te sentir com raiva!” Pronto, cometeram o erro! (Riso)
Se ele tivesse coragem, não? O mais provável será:
“Sim, eu sei, torna-se-te demasiado árduo sentir-te com raiva neste momento. É realmente assustador senti-lo neste momento. Pareces estar mesmo a debater-te para evitares sentir-te com raiva.” “Por vezes torna-se muito difícil chorar. Pareces querer chorar. Parece que não te estás a permitir chorar, mas não dificultes.”
Essas não são declarações críticas nem paternalistas.
 “Anda lá, podes chorar.” Ele não responderá! Ah, podia responder, mas não o faz. Escutem apenas.
“Que devo fazer?”
“Eu não sei o que deves fazer; que é que achas que deves fazer?”
“Pode-me ocorrer isto e mais aquilo, mas não tenho a certeza de qual será a resposta apropriada. Que pensas?”
“Eis algumas soluções…” e sugerem-lhas.
Ser confidente, amigo… Como lhes teria parecido aos dezasseis anos se tivessem tido alguém com quem pudessem falar?
“Sinto receio; sinto-me um estranho.”
Porquê?
“Por ter ideias estranhas como esta.”
Creio que se pensasse assim isso também faria de mim um estranho. Mas porque pensas que sejas um estranho?
“Tenho vontade de matar a minha mãe.”
Ai sim? Porque pensas que isso seja estranho? (Riso) Ter vontade de o fazer, de vez em quando não tem nada de estranho. Toda a gente tem ideias dessas de vez em quando. Ela já a teve com relação a ti! (Riso) Querer fazê-lo pode ser estranho mas pensar nisso não é estranho.
“A sério? Pois é, conta-lhe isso. Que devo fazer com respeito à ideia?”
"Não sei. Que achas que deves fazer? Eis o que eu no meu caso fiz; poderá resultar no teu. Que pensas?"
Sejam confidentes, não um pai nem um conselheiro nem um guia no sentido de quem tem todas as respostas. Mas estejam presentes como um amigo, como um confidente, como alguém com quem possa falar. Como acham que seria se tivessem alguém com quem falar nessa altura? Faria toda a diferença. Adivinhem porquê. A vossa vida seria muito diferente. Porque quando mudam aí… Quanto mais velhos serão vocês? Para aqueles que tiverem saído há poucos anos da adolescência, a mudança poderia dar-se nesta medida. Aqueles de vós que tiverem passado faz tempo a vossa adolescência, a mudança poderá assomar uma medida assim… (Riso) Sempre colhem um certo benefício com a idade. (Riso) Estes jovens que se encontram na casa dos vinte, etc... Mas vejam, a quantidade de mudança que é capaz de produzir tem o mesmo impacto. Se transmitirem ao adolescente em vós essa confiança, a vossa vida alterar-se-á de forma dramática, e tão mais dramática quanto mais se acharem porventura afastados na altura. Transmitam-lhe essa confiança; estejam presentes. Ajudem-nos a resolver os problemas mas auxiliem-nos a resolver os seus problemas; não os resolvam por eles, mas deixem que eles os resolvam por si mesmos.
O quarto passo passa por serem confidentes assim. São incríveis as experiências que aqueles que já tiverem começado a trabalhar com isso experimentaram. Mas também vocês poderão experimentar.
O quinto passo passa por os ajudar a compreender a vergonha; ajudá-los a perceber - a razão é esta, assim que falarem e o resolverem - deve-se à vergonha. Foi isso que ela te fez. É o que ela me fez a mim. Falem com eles, e ajudem-nos a conquistar e a perceber que não têm defeitos. Quando as pessoas os tratam assim, a única maneira que têm de o conseguir suportar é dizendo que têm defeitos, que são imperfeito, que não prestam para nada. Quando se veem furtados ao remorso, quando se veem furtados à individuação, claro que podiam expressar as vossas próprias crenças:
“Como te atreves? Não és defeituoso nem és estúpido! A vergonha furtou-te à tua identidade, furtou-te ao remorso. É por isso que adoptas a defensiva, não por seres um qualquer estranho. A vergonha fez-te isso!”
“A sério?!”
Ajudem-nos a compreender.
O sexto passo, que para alguns de vós poderá parecer muito difícil, passa por deixarem que o vosso eu superior trate deles. Deixem que ambos partam nessa empreitada.
“Onde é que vão?” (Riso)
Tratar da vergonha da adolescência.
“Porque não poderei eu acompanhá-los?”
Por se tratar da vergonha deles. Vocês não são pais dele. Ele pode ter vida própria, e pode ter uma relação com o vosso… Lembrem-se que se trata igualmente do seu eu superior! (Riso)
“O meu eu superior!” (Riso)
O eu superior dele!
“Pois é, mas eu descobri-o primeiro.”
Não estejam tão certos disso; mas seja como for… Mesmo assim, vá lá, partilhem…
“E se o meu eu superior gostar mais dele do que de mim?”
Isso não irá suceder. Ele são vocês!
“Pois sim…”
Poderão sentir-se ciumentos ou com inveja: “Que está ele a fazer?”
Está a curar a vergonha. Mas talvez um dia destes o adolescente em vós lhes diga o que ele terá feito, o que sucedeu. E talvez não.
Que foi que o meu eu superior te disse?
“O nosso eu superior.”
Está bem, está bem, que foi que o “nosso” eu superior te disse?
“Um dia destes eu conto-te.”
Conta-me agora. (Riso)
Tratem disso. Deixem que seja dinâmico mas tratem disso. Mas uma vez mais, talvez percebam: “Bom, gostaria de ter o meu eu superior na altura.” Mas, é isso que estão a fazer agora! "Estou a transmitir ao adolescente em mim um relacionamento com o seu eu superior, nessa altura, em vez de ter que esperar até… agora.
“Se eu tivesse sabido na altura aquilo que sei agora…”
Vocês sabiam. A questão está nisso, entendem? Vocês sabem na altura aquilo que sabem agora, caso transmitam a esse adolescente o vosso eu superior.
“Eu teria sido uma pessoa completamente diferente.”
Mas, virão a sê-lo! A mudança opera instantaneamente. Contanto que se produza, a vossa vida será uma vida como a que nunca tiveram.
“A sério? Sem asteriscos? Não acredito. Isso não acontece.”
Sim, sem asteriscos! Mas, pensando melhor, existe uma cláusula, sim: a crença, que de qualquer modo precede toda a realidade! Talvez isso não seja asterisco nenhuma mas se ache destacado a letra negrito.
Mas se transmitirem ao vosso eu superior e ao adolescente em vós um relacionamento desses, deixem que ele sane a vergonha por si só. Talvez o eu superior lhe reestruture o cérebro; talvez lhe refaça o sistema endócrino, talvez lhe mude isto ou mude aquilo. E talvez o adolescente em vós lhes diga algum dia: “Adivinha, conseguimo-lo numa meditação.” Talvez o vosso eu superior lhes diga um dia destes, mas se não o fizer, não faz mal. Deixem que ele cure a vergonha; deixem que ele tenha o relacionamento – por ser o vosso relacionamento. E esse é o sexto passo.
O último componente, consiste em devolverem essa vergonha; ter noção dela enquanto um saco, e perceberem:
“Muito bem, pai, tu passaste-me a hostilidade que carregavas. Tu és uma pessoa fundada na vergonha e estás repleto de todo o tipo tendências para a raiva e a fúria mas eu recuso-me a aceitar a raiva que carregas. Ela é tua, não me pertence.”
E deem-lha de volta.
“Tudo bem, eu compreendo, pai, mãe, tio, (seja quem for) eu compreendo que tenhas tido uma infância distorcida e dolorosa. Mas francamente, não tenho que arcar com ela, não me diz respeito, é um problema teu. Tu tentaste passar-me o teu problema; tentaste descarregar a vergonha que carregavas, e isso dói de verdade, mas devolvo-ta. Percebo agora que o meu irmão adquiriu medos do mais distorcido que há e que tentou descarregar esses medos em mim. E eu acatei-os, por ser o que um irmão ou irmã mais nova faz! Mas chega! Devolvo-te o medo (ou o que quer seja aquilo em que a vergonha se encontrar enraizada). Aquela pessoa abusiva conhece a hostilidade; recuso-me a aceitá-la. Ela tentou passar a vida a fingir ser livre da vergonha, mas eu recuso-me a crer que o seja, enquanto carregar a vergonha resultante do que me fez.”
“Ah, mas isso vai magoá-la…”
Isso é problema dela! Isso é problema dela!
E talvez suceda que, se vir a vergonha restituída ela venha, tal como vós, por qualquer via que seja, a perceber que isso seja intolerável e a devolva também á procedência. Mas entendam, vocês vão fazer uma de duas coisas com isso. Ou vão devolvê-la, ou passá-la adiante. Ou a vão devolver ou passar aos vossos filhos. Nisso reside a vossa escolha.
“Acho que não quero magoar o papá; em vez disso acho que o vou transmitir aos meus filhos.”
Ou então:
“Ah, eu sou a única pessoa na história da humanidade que não passará a vergonha adiante; ela morre comigo.”
Não morre, não! A menos que a devolvam. Caso contrário irão passá-la aos vossos filhos. Por mais que aleguem, “não, jamais farei tal coisa,” questionem-se: Quererão passá-la em frente, ou quererão…?
“Eu não tenho filhos! Jamais casarei nem virei a ter filhos.”
Terão amigos? Porque não a passam unicamente aos filhos, entendem? Podem passar a vergonha aos amigos, aos colegas de trabalho… A questão está em que, se não a devolverem irão passá-la a alguém.
Afirmamos, de tempos em tempos, que não há problema tão grande de que não consigam fugir. Mas fazemo-lo de propósito, a esse respeito, embora não seja por completo exacto, mas a questão que estamos a tentar destacar é a seguinte: Quando conseguirem lidar com a vergonha poderão pegar nela (quando conseguirem reconhecê-la e compreendê-la) e devolvê-la. Não têm que viver com ela para sempre. Não têm que resolver cada problema que circunscreva. Apenas precisam reconhecê-la e identificá-la, tratar dela e compreendê-la, na diversidade de fases que apresenta, e depois devolvê-la.
“Mas eu não considerei cada pequeno incidente do abuso.”
Não precisam fazê-lo!
“Não terei que contar todas as vezes em que fui sexualmente abusado, física ou emocionalmente? Não terei que contar todos os episódios de abandono porque passei, todas as coisas horrendas que me tenham sido ditas. Não terei que passar em revista cada pequeno detalhe da dilaceração e do erro?”
Assim que tiverem isso e o conhecerem, poderão devolvê-lo. E então será com ele, ficará ao seu critério enfrentá-lo ou não. E se optar por a carregar, é opção que lhe cabe por direito próprio. Mas se optar por a sanar e a devolver à procedência, também é opção que só a ele dirá respeito. Mas a opção que diz respeito a vós é a de se enfrentarem a vocês. Devolvam-na. Esse é o sétimo componente e esse componente precisa vir em último lugar; com os outros serão capazes de lidar, do primeiro ao sétimo; mas quando por fim chegarem a este, então poderão devolvê-lo e afastar-se. E afastar-se! E assim pôr cobro e flectir e terminar a vergonha em vós.
FIM
Transcrição e tradução: Amadeu António

                                                                                                      

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