terça-feira, 28 de junho de 2016

A PSIQUE E O ESTADO DO SONO


A PSIQUE DO ESTADO DO SONO ACHA-SE DESPERTA



Vocês deixaram-se hipnotizar, de modo que lhes parece existirem enormes fossos entre as vossas experiências do estado de vigília e do estado do sono. Todavia, todos vós caem no sono pela noite e passam por experiências que esquecem somente por lhes terem dito que não as conseguem recordar. Contudo, muitas das outras dimensões da vossa própria realidade surgem com clareza quando se encontram adormecidos. Quando dormem, esquecem todas as definições que atribuem a vós próprios e à vossa própria experiência através do treino. Durante o sono utilizam imagens e linguagens na sua forma pura. No estado do sonhar a linguagem e as imagens acham-se ligadas de uma forma que lhes parecerá estranha unicamente por terem esquecido a grande aliança que as caracterizava.
Inicialmente, a linguagem destinava-se a expressar e a libertar, e não a definir nem a delimitar. Assim, quando sonham, frequentemente as imagens e a linguagem misturam-se de forma que cada uma se torna na expressão da outra, e cada uma preenche a outra. As ligações internas existentes entre ambas são usadas em termos práticos. Quando despertam, tentam comprimir a linguagem da psique em termos de definição. Imaginam que a linguagem e as imagens sejam duas coisas distintas, de modo que procuram “juntá-las.” Contudo, nos sonhos, vocês usam a antiga linguagem do vosso ser.

A “psique” que sonha parece sonhar somente por vocês não reconhecerem esse estado particular da consciência como vosso. A psique que “sonha” acha-se na verdade tão desperta quanto vocês estão no vosso estado normal de vigília. Contudo, a organização do estado de vigília é diferente. Vocês chegam ao sonhar por um ângulo diferente, por assim dizer. A qualidade desfocada pressentida na actividade onírica ou no estado de coma, os diferentes pontos de vista, as mudanças de perspectiva, tudo isso pode contribuir para um quadro caótico quando o estado do sonhar é visto da perspectiva do estado desperto.

Há séculos atrás, nos vossos termos, tanto as palavras como as imagens apresentavam uma estreita relação - agora um tanto embaciada – e essa velha relação surge na textura do sonho. Vamos usar o Inglês aqui a título de exemplo. A grandiosa natureza descritiva dos nomes, por exemplo, pode dar-lhes uma indicação da ligação existente entre a imagem e a palavra, conforme se evidencia nos vossos sonhos. Um homem que certa vez costurava roupas era chamado Taylor (alfaiate, costureiro). Um outro que fosse ladrão era chamado Robber (larápio). Se fossem filhos de um homem que tivesse um certo nome, então acrescentavam um simples “son” (filho) de modo que acabavam com Robberson.

Agora, os nomes não são tão descritivos. Todavia, poderão ter um sonho em que vejam uma alfaiataria. O alfaiate poderá estar a dançar, ou a morrer, ou a casar-se. Mais tarde, no estado de vigília, poderão descobrir que um amigo vosso, um certo Taylor dê uma festa ou se encontre às portas da morte, ou esteja a casar-se, seja qual for o caso. Contudo, poderão não ligar o sonho a eventos subsequentes por não terem compreendido a forma como as imagens e os nomes podem encontrar-se associados nos vossos sonhos.

A vossa vida do estado de vigília constitui o resultado do tipo mais preciso de organização mantido de forma competente e com uma incrível clareza. Enquanto cada um encare essa realidade de um enfoque ligeiramente diferente, ainda assim ela ocorre dentro de certas faixas ou frequências. Vocês conduzem-na a um foco claro quase do mesmo modo com que ajustam a imagem do vosso televisor. Só que nesse caso não são o som e as imagens que são sincronizadas mas fenómenos de muito mais elevada complexidade.

Seguindo essa mesma analogia, cada um percebe um quadro ligeiramente diferente da realidade e segue o próprio programa – contudo todas as “configurações” são as mesmas. Todavia, quando vocês sonham, experimentam em certa medida a realidade a partir de uma “configuração” completamente diferente. Agora, quando tentam ajustar a configuração do vosso sonhar do mesmo modo que fariam com a do estado de vigília, acabam com estática e imagens turvas. Contudo, a configuração em si mesma é tão eficaz quanto a que utilizam quando se acham despertos, mas possui um alcance muito maior. Pode introduzir muitos programas.

Quando assistem ao vosso programa habitual de televisão, talvez da tarde de sábado, assistem ao programa enquanto observadores. Deixa que trace um exemplo: O Ruburt e o Joseph frequentemente assistem a repetições do Caminho das Estrelas enquanto tomam a refeição da noite. Sentam-se confortavelmente na sua poltrona da sala de estar com o jantar na mesa, rodeados por toda a parafernália caseira que lhes é querida e que é habitual na vossa sociedade. Enquanto permanecem abrigados assistem a dramas em que planetas explodem e em que inteligências de um outro mundo surgem a fim de intimidar ou auxiliar o destemido capitão da excelente nave Enterprise e o destemido “Spock” – mas nada disso ameaça os nossos amigos Ruburt e Joseph enquanto bebem o seu café e a sua sobremesa.

Bom, a vossa realidade normal do estado de vigília pode ser comparada a um tipo de drama televisivo em que participam directamente em todos os dramas apresentados. Vocês criam-nos, desde logo. Vocês formam as vossas aventuras privadas a conjuntas e conduzem-nas à experiência ao fazerem uso do vosso aparato físico -- o vosso corpo -- de um modo particular, em sintonia com a vasta área de programação, todavia têm muitas estações diferentes. Nos vossos termos, essas estações ganham vida. Vocês são o drama que experimentam e todas as vossas actividades parecem girar ao vosso redor. Vocês também são o observador. No vosso estado de sonhos é como se ainda dispusessem de um televisor diferente ligado, apesar de tudo, ao vosso. Ao usá-lo, conseguem perceber eventos não só do vosso ponto de vista como do ponto de vista de outros focos. Fazendo uso desse aparelho podem saltar de canal em canal, por assim dizer – não só percebendo mas experimentando o que sucede noutros tempos e noutros lugares.

Os acontecimentos são, pois, organizados de uma forma completamente diferente. Vocês conseguem não só experimentar dramas em que se encontram intimamente envolvidos, como na vida caracterizada pela consciência desperta, como o alcance das vossas actividades é multiplicado de modo a verem os acontecimentos como que do “exterior” do vosso contexto usual. Podem, por um lado, observar em baixo, um drama, por exemplo, e tomar igualmente parte nele. Quando lidam com a vossa realidade desperta, vocês estão a operar num dos diversos níveis inerentes à vossa própria psique. Quando sonham, do vosso ponto de vista, estão a entrar noutros níveis de realidade igualmente inerentes à vossa psique, embora geralmente ainda estejam a experimentar esses eventos através do vosso “canal desperto.” Os sonhos que vocês recordam são coloridos ou alterados ou mesmo censurados até certo ponto. Não existe necessidade alguma psicológica ou biológica disso. Contudo, as ideias ou crenças que têm, com respeito à natureza da realidade e à sanidade, resultaram de um cisma desses.

Mas voltemos ao exemplo citado, do Ruburt e do Joseph que assistem ao seu programa do Caminho das Estrelas ou a um dos seus programas favoritos. Eles têm noção de que o Caminho das Estrelas não é “real.” No ecrã do seu televisor poderão explodir planetas que a sala de estar se encontrará bastante segura contra as catástrofes imaginárias que se dão apenas a uns metros do sofá. Contudo, de certa forma, o programa reflecte certas crenças da vossa sociedade no global, de modo que se assemelha a um sonho desperto massivo – real, mas sem ser real. Por um instante, todavia, mudemos o programa para o vosso show favorito de polícias e ladrões. Uma mulher é abatida em plena rua. Agora, esse drama já se torna mais “real,” mais provável no imediato e menos confortável. Ao assistirem a um programa desses, poderão sentir-se ligeiramente ameaçados a nível pessoal, contudo, ainda amplamente despreocupados.

Alguns dos meus amigos poderão não assistir a programas desses, mas em vez disso a sagas sadias ou a dramas religiosos. Um pregador poderá assumir um aspecto ou um olhar compenetrado enquanto exalta os méritos da bondade e condena as legiões do diabo – e para alguns dos meus leitores esse diabo que permanece invisível e jamais evidente, ainda assim poderá parecer bastante real. Vocês formam, pois, certos enfoques, e displicentemente ignoram certos perigos televisionados como pura aventura, ao passo que outros poderão feri-los até ao âmago, como se fossem “demasiado reais.” Assim, nas experiências que empreendem no estado desperto e no estado de sono procederão ao mesmo tipo de distinções. Sentir-se-ão tocados ou inabalados em relação aos acontecimentos do estado desperto e com relação aos do estado onírico, de acordo com o significado que lhes atribuem. Se não gostarem de um determinado programa televisivo poderão mudar para um outro com um mero movimento de pulso. Se não gostarem da vossa experiência física, também podem mudar para outra, para uma posição mais benéfica – mas somente se reconhecerem o facto de serem o seu produtor.

No estado dos sonhos muita gente aprende a evadir-se de um sonho mau despertando, ou alterando o enfoque da consciência. O Ruburt e o Joseph, uma vez mais, não se sentem ameaçados pelo Caminho das Estrelas. O programa não os leva a sentir-se menos seguros. Contudo, quando se veem no meio de uma experiência assustadora, ou presos por entre os estertores de um pesadelo, então gostariam de saber como mudar de posição. Podem muita vez sentir-se empolgados com um drama televisivo de forma que, por um momento esqueçam que “não é real,” e na concentração que nele mobilizam podem temporariamente ignorar a realidade maior que lhes diz respeito.
Por vezes deixam-se assustar de uma forma deliciosa por um programa de horror, por exemplo. Poderão sentir-se compelidos a ver como venha a terminar, e dão por vós incapazes de se ir deitar até que a situação horrenda seja resolvida. Mas durante esse tempo têm consciência de que a salvação se encontra próxima. Podem sempre mudar de programa. Se alguém que esteja a assistir a um especial cruel da meia-noite de repente se puser aos gritos e aos pulos na cadeira, quão cómico isso não parecerá, por a acção ser apropriada não à situação “real” mas dizer respeito, ao invés, a um pseudodrama. O berreiro e a gritaria não terão qualquer efeito nos actores, nem tão pouco alterarão um jota ao programa. A acção apropriada seria desligar a estação televisiva.

Neste caso, o observador assustado sabe plenamente que os terríveis acontecimentos a que assiste no televisor não explodirão de súbito no quarto. Contudo, quando se deixam prender pelos eventos físicos assustadores, é igualmente imprudente gritar ou berrar ou mesmo bater o pé, por não ser aí que a acção reside. Uma vez mais, só precisam mudar de “canal.” Mas muitas vezes deixam-se ficar de tal modo absorvidos pela vossa situação de vida, que nem percebem a inadequação da resposta que estão a dar. Nesse caso vocês próprios são o programa, mas a verdadeira acção não se encontra onde parece estar – mas sim na psique, ao invés, onde estão a redigir e a representar o drama. No estado dos sonhos vocês estão a escrever e a desempenhar muitos dramas desses.

Recorrendo à analogia uma vez mais, o cérebro, é amplamente capaz de operar inúmeras “frequências,” cada uma das quais é caracterizada pelo seu próprio quadro de realidade para o indivíduo, cada uma das quais actua, de certo modo, sobre os sentidos físicos, e organiza a informação disponível no seu próprio modo especializado, cada uma das quais lida de modo um tanto diferente com o próprio corpo e com os conteúdos da mente. De um modo geral, vós usais a vossa própria frequência na vida do estado de vigília. Por conseguinte, parecerá que não existe mais nenhuma realidade do que aquela que vocês reconhecem – nem exista informação mais significativa ao dispor além daquela com que estão normalmente familiarizados. Parece-lhes frequentemente que os eventos lhes sucedem, parecem que não possuem mais controlo sobre o drama da vossa própria vida do que aquele que têm sobre o programa de televisão. 

Contudo, por vezes, os vossos próprios sonhos ou inspirações deixam-nos sobressaltados ao lhes fornecer informação normalmente não disponível na ordem reconhecida dos eventos. Torna-se sobremodo difícil explicar tais ocorrências à luz das tramas e das cenas fornecidas pela vossa programação mental habitual. Encontram-se tão condicionados que mesmo enquanto dormem tentam monitorizar as vossas experiências e interpretar eventos oníricos de acordo com a frequência habitual que aprenderam a aceitar como único critério de realidade. Literalmente, porém, quando dormem encontram-se em sintonia com diferentes frequências e biologicamente o vosso corpo responde-lhes a variados níveis.

Aliás, o corpo acha-se naturalmente bem equipado para lidar com “projecção de consciência,” ou viagem fora do corpo, seja o que for que prefiram chamar-lhe. A vossa composição biológica inclui mecanismos que possibilitam que uma certa porção da vossa consciência abandone o corpo e regresse. Tais mecanismos fazem igualmente parte da natureza animal. O corpo encontra-se equipado para perceber muitos outros tipos de experiência que não são oficialmente reconhecidos enquanto inerentes á experiência humana. De um ou de outro modo, pois, vocês aprendem a monitorizar constantemente o vosso comportamento de modo que ele se conforme ao critério estabelecido para a experiência sã ou racional. Vós sois criaturas sociais, como os animais o são. 

A despeito de muitas das crenças erróneas que acalentam, as vossas ações existem em resultado da cooperação, e não da competição, como acontece em todos os agrupamentos sociais. Ser ostracizado não é brincadeira. O conforto do discurso social representa um dos maiores pilares das famílias e das civilizações. O critério definido da realidade, por conseguinte, opera enquanto estrutura organizativa psíquica e material. Existe ainda assim uma maior flexibilidade nessa estrutura do que a que é reconhecida. Vocês ainda procuram, por exemplo, carregar as vossas próprias versões culturais da realidade para o estado de sonho, só que a herança natural de corpo e mente escapa-se a tal repressão, e apesar de vós próprios, nos sonhos que têm vocês entram em contacto com um quadro mais vasto de realidade que não é posto de lado.

Não existe nada inerente ao estado desperto que o leve a ser tão limitado. Os limites definidos são vossos. O corpo, por exemplo, cura-se naturalmente a ele próprio. Muitos são os que tecem grandes teorias em relação a tal crença. Na verdade, porém, a maioria de vós acredita – e experimenta – um quadro amplamente diverso, em que o corpo precisa ser protegido a todo o custo da tendência natural para a doença ou a enfermidade. Os vírus precisam ser repelidos, como se não dispusessem de protecção contra eles. A cura natural que comummente ocorre no estado de sonhos é desfeita no estado de vigília, em que tais curas são vistas como “miraculosas” e contrárias à “regra.”

Contudo, nos vossos sonhos, vocês apuram correctamente as razões das vossas dificuldades físicas e dão início a uma terapia de que poderiam tirar vantagem no estado consciente. Contudo, ao despertarem vocês esquecem – ou não confiam naquilo que lembram. De vez em quando curas físicas bem definidas ocorrem no estado de sonho, embora possam pensar que gozem de intelecto e de conhecimento quando se encontram despertos, e que sejam ignorantes e insanos durante o sonhar. Se são assim tão “estúpidos” no estado de vigília, então deveriam encontrar-se em muito melhor estado de saúde. Em tais sonhos entram em sintonia com outras frequências que se encontram efectivamente mais próximo da vossa integridade biológica, mas não há razão para que não possam consegui-lo no vosso estado desperto. Quando tais milagres aparentes ocorrem, isso deve-se ao facto de terem transcendido as crenças oficiais habituais que têm com relação ao vosso corpo, à saúde e à doença, e assim terem permitido que a natureza seguisse o seu rumo. Muitas vezes no estado do sonhar despertam verdadeiramente, e apreendem de modo acentuado a vossa condição de criatura e de espírito, e compreendem que cada um desses aspectos possui uma realidade mais vasta do que tenham sido levados a supor.

Com frequência, contudo, surgem apenas vislumbres desfocados e panoramas atormentadores de um tipo de experiência mais expansivo. Para tornar a questão ainda mais confusa, poderão automaticamente tentar interpretar os acontecimentos oníricos de acordo com o vosso quadro habitual de realidade, e mudar de canal, por assim dizer, ao despertarem. Suponham, por exemplo, que ligavam o televisor para assistir a um programa e que descobriam que por meio de um mau funcionamento, uma interferência massiva qualquer teria misturado os canais, mas ainda assim ela surgisse de imediato sem sentido ou razão, sem um tom aparente e em que algumas das características pudessem parecer familiares e outras não. Um homem vestido de astronauta poderia aparecer a montar um cavalo atrás dos Índios, enquanto um velho chefe Índio pilotava um aeroplano. Se tudo isso fosse transposto para o programa com que estariam a contar, seriam efectivamente levados a pensar que nada faria qualquer sentido. Contudo, cada personagem ou porção da cena representaria de uma forma fragmentada um outro programa ou realidade bastante válida.

No estado de sonhos por vezes vocês têm consciência de demasiadas posições. Quando procuram fazer com que se enquadrem no quadro da realidade que reconhecem, elas poderão parecer caóticas. Há maneiras de trazer isso à evidência; existem maneiras de sintonizar essas frequências bastante naturais, de modo que lhes apresentem uma perspectiva mais expansiva tanto do mundo conforme vocês o definem, como dos seus aspectos mais significativos. A psique, no vosso caso, não se acha encerrada numa estrutura demasiado frágil para o expressar. Somente as crenças que têm com respeito à psique e ao corpo lhes limitam a experiência no seu presente grau.
Nos sonhos vocês são tão “obtusos” que chegam a acreditar que se pratique um comércio entre os vivos e os mortos. São tão “irracionais” que chegam a imaginar que por vezes conversam com parentes que se encontram mortos. São tão “irrealistas” que parecem que visitam velhas habitações há muito deitadas abaixo, ou então que viajam para lugares estrangeiros exóticos, que na verdade nunca terão visitado. Nos sonhos são tão “insanos” que não sentem estar fechados num armário temporal e espacial, mas sentem ao invés, como se todo o infinito apenas aguarde um sinal da vossa parte. Se fossem tão conhecedores e engenhosos quanto são quando se encontram despertos, então levariam as vossas religiões e as vossas ciências, por compreenderem a realidade mais vasta da vossa psique. Saberiam onde reside a acção.

Os vossos cientistas físicos estão com a mão na maçaneta da porta. Se eles prestassem mais atenção aos seus próprios sonhos saberiam que perguntas fazer. A psique constitui uma gestalt de energia consciente na qual reside a vossa própria identidade imaculada, contudo em constante mudança à medida que vocês satisfazem os vossos próprios potenciais. Os vossos parentes falecidos sobrevivem, e frequentemente aparecem-lhes no estado de sonhos. Geralmente, porém, vocês interpretam as suas visitas nos termos da própria posição que assumem na realidade. Vocês veem-nos conforme tiverem sido, confinados ao relacionamento que tiverem tido convosco, e geralmente não percebem ou recordam outros aspectos das suas próprias existências que não fariam sentido nos termos das crenças que têm. Assim, muitas vezes tais sonhos representam como que dramas programados para revestirem tais visitas com acessórios familiares.

Uma experiência fora do corpo num outro nível de realidade transforma-se, por exemplo, numa visita ao céu, ou a até então não reconhecida voz da vossa Identidade Maior transforma-se na voz de Deus, ou num ser espacial, ou num profeta. A vossa experiência onírica, contudo, traça-lhes uma directriz que os ajudará a compreender a natureza da vossa própria psique e a profunda realidade em que tem o seu ser. Uma vez mais, a psique que sonha encontra-se desperta, e lida com um tipo diferente de experiências daquele com que se acham fisicamente familiarizados, embora tal experiência também constitua uma parte da vossa psique.

A vida diária constitui um enfoque mobilizado naquela porção da psique que designam por “eu,” mas existem muitos outros enfoques. A psique jamais é destruída; tão pouco a vossa própria individualidade é alguma vez minimizada. As experiências da psique transpõem as ideias que fazem do tempo, contudo, parece-lhes bastante certo que vocês adquirem uma vida e que morram. No vosso enfoque particular de consciência nenhuns argumentos lhes bastarão para os convencer do contrário, por se lhes apresentar por toda a parte a evidência física do “facto.” Podem acreditar em certa medida numa vida após a morte, assim como poderão estar ou não convencidos da teoria geral da reincarnação. Mas decerto que a maioria de vós estará unida na aparentemente irrefutável crença de que se encontram definitivamente vivos agora, e não mortos. Os mortos não ditam livros – ou será que ditam?

De uma forma estranha estou a dizer-lhes que a vossa “vida” constitui simplesmente uma única porção da existência de que se acham presentemente cientes. Em termos mais significativos, vocês encontram-se vivos e mortos ao mesmo tempo, tal como eu. O meu enfoque, contudo, tem assento numa área que vós não percebeis. Uma vez mais, as existências assemelham-se a notas tocadas conjuntamente com certas frequências. Vós achais-vos em sintonia com uma cantilena terrena, para recorrer à analogia, mas só acompanham a vossa própria melodia. Só que geralmente não têm consciência da orquestração mais vasta em que também tomam parte.

Por vezes, os sonhos sintonizam um quadro mais vasto, mas uma vez mais, certas coisas parecem constituir factos, mas contra esses chamados factos até mesmo experiências precisas poderão parecer ridículas ou caóticas. Na noite passada o nosso amigo Joseph teve uma experiência onírica que o deixou intrigado, apesar de ter parecido altamente distorcida. Ele acreditou terem sido elementos da família embora só tenha reconhecido alguns. Os seus pais, tidos como mortos, achavam-se presentes. Um irmão e uma cunhada que se encontram vivos, também estavam presentes. O irmão era definitivamente ele próprio, contudo, um tanto alterado na aparência, por apresentar feições de matiz oriental. Todo o sonho foi muito agradável, e assemelhou-se a um retorno a casa.

Contudo, o Joseph interrogava-se quanto à mistura de mortos e vivos. Teria sido fácil pensar que o sonho deixasse pressupor a sua própria morte e a do seu irmão e cunhada. Contudo, vocês seguem as vossas sequências temporais; porém, a psique não se acha tão limitada. Para ela, a tua morte já ocorreu, do teu ponto de vista. Contudo, é igualmente verdade que, do seu próprio ponto de vista o teu nascimento ainda não se efectuou. Tens, pois, uma experiência maior da estrutura reconhecida de tempo e existência. Aí podes encontrar-te com parentes há muito falecidos assim como com crianças que ainda não nasceram. Aí podeis encontrar-vos com outras porções da vossa própria individualidade que existem em simultâneo com a vossa. Nesse contexto, os chamados vivos e os chamados mortos podem misturar-se livremente. Em circunstâncias tais vocês tomam literalmente consciência de outras perspectivas de vós próprios. Reviram cantos do ser e descobrem profundezas multidimensionais da psique.
Os artistas usam a perspectiva sobre uma superfície plana para tentar capturar aí as sensações e experiências de profundidade que em si mesmas são estranhas à tela plana, ao papel e ao quadro. O artista poderá vividamente evocar a imagem de uma estrada a desaparecer, que num primeiro plano poderá dar a ideia de ser larga, só para diminuir à medida que se desvanece em algum ponto distante oculto. A formiga que percorra essa tela precipitar-se-ia sobre uma outra superfície plana sem ter qualquer noção da estrada convidativa ou de quaisquer campos ou montanhas.

Ora bem; de vez em quando, no estado do sonho tomam consciência de uma perspectiva maior. Tal perspectiva não pode “resultar” no vosso nível comum de consciência mais do que a perspectiva do artista poderá operar em relação à formiga, embora haja muito que pudessem aprender em relação à consciência de uma formiga. A vossa própria consciência desperta lida especificamente com determinados tipos de distinção. Eles realçam-lhes a vida e também lhes proporcionam um tipo de estrutura. Muito simplesmente, vocês querem experimentar um certo tipo de realidade de modo que impõem limites aos eventos de forma que lhes permitam concentrar-se neles. Quando um artista pinta um quadro ele emprega ou faz uso da discriminação. Escolhe uma área de concentração; tudo no quadro se enquadra. Mas vocês fazem o mesmo nas vossas vidas físicas. O artista sabe que muitos quadros poderão ser pintados, mas mantém na ideia quadros já produzidos assim como aqueles que se encontram na fase de planeamento. Pois bem, a psique também retém vidas em progresso, vividas ou ainda por viver, e lida com uma perspectiva maior, de que a vossa perspectiva comum emerge.

Frequentemente falo-lhes da vossa psique como se ela existisse em separado, mas é evidente que esse não é o caso. Vocês constituem aquela porção da vossa psique que presentemente reconhecem. Muita gente dirá: “Eu quero conhecer-me,” ou então: “Quero descobrir-me,” quando na verdade poucos são os que realmente querem dedicar algum tempo ou esforço a isso. Contudo, há um sítio por onde começar. Procurem familiarizar-se mais com aquele que são agora. Parem de dizer a vós próprios que não se conhecem. Será de pouca valia procurar descobrir outros níveis da vossa própria realidade se insistirem em aplicar as leis da vida material à vossa própria experiência mais vasta, porque assim ver-se-ão num dilema constante, e nenhum factor se enquadrará. Contudo, não podem insistir em que as leis da vossa própria existência mais vasta, à medida que as forem descobrindo, substituam as condições físicas da vida conhecida – porque então, nenhuns factos se aplicariam. Esperarão viver para sempre no mesmo corpo físico ou pensar que poderão fazer levitar o vosso corpo à vontade. Vocês podem efectivamente levitar, mas não com o vosso corpo físico, para falar em termos práticos, e o colocar em termos operacionais. Vocês aceitaram um corpo e esse corpo morrerá. Ele possui limitações, mas elas também servem para realçar certos tipos de experiência. O corpo em que o nosso amigo Joseph viu os seus familiares no referido sonho não era operacional. Contudo, era bem real, mas num outro nível da realidade era operacional e achava-se ajustado ao seu ambiente.

Bom; em muitos aspectos vocês possuem uma atenção de curto alcance. Os “verdadeiros factos,” são que vocês existem nesta vida e fora dela em simultâneo. Vocês encontram-se no espaço “entre vidas” e “nessas vidas” ao mesmo tempo. As profundas dimensões da realidade são tais que os vossos pensamentos e acções não só afectam a vida que conhecem como também alcançam todas as outras existências simultâneas. Aquilo que pensam agora é inconscientemente percebido por um aspecto do vosso ser hipotético do século 14. A psique acha-se em aberto. Nenhum sistema se encontra cerrado, e os sistemas psicológicos muito menos. A vossa vida constitui uma experiência de sonho em relação a outras porções da vossa realidade maior que se encontram focadas noutras partes. As suas experiências também fazem parte da vossa herança onírica.
Poderão perguntar sobre a realidade dessas outras existências, mas se assim for, precisam equacioná-lo isso nos termos de “quem.” A existência possui uma versão física. Nesse âmbito, vocês nascem e morrem, e numa sequência definida. A morte constitui uma realidade física. Contudo, é real, apenas em termos físicos. Se aceitarem tais termos como critério único de realidade, então certamente parecerá que a morte constitua o término relativo à vossa consciência.

Se, contudo, aprenderem a conhecer-se melhor na vossa vida diária para se tornarem mais plenamente cientes até mesmo da vossa vida terrena, então receberão efectivamente outras informações que indiciarão uma realidade mais profunda e caracterizada por um maior apoio, em que a existência física assenta. Darão por vós a ter experiências que não se enquadram nos factos reconhecidos. Elas poderão contribuir para um conjunto alternado de factos ao apontarem um tipo diferente de realidade de uma existência interior, e apresentam provas que obtêm precedência sobre as premissas de carácter material. Contudo, faz-se necessário um certo tipo de critério e de compreensão. Basicamente, a realidade interna é a fonte criativa da realidade física. Contudo, em certa medida, as regras físicas também são imaculadas – no seu respectivo nível.

Vocês podem aprender a enriquecer amplamente a vossa própria experiência. Teoricamente, podem mesmo tornar-se conscientes de outras existências, numa outra medida. Podem viajar no estado de sonhos até níveis de realidades separados da vossa. Podem aprender a usar e a experimentar o tempo de novos modos. Podem obter conhecimento de outras porções do vosso próprio ser e explorar os recursos da psique. Podem melhorar o mundo em que vivem, assim como a qualidade de vida. Mas enquanto se encontrarem na matéria, ainda experimentarão o nascimento e a morte, a aurora e o poente, assim como a privacidade dos momentos, por isso corresponder à experiência que escolheram.

Todavia, mesmo nesse contexto aguardam-nos surpresas e encantos, se simplesmente aprenderem a expandir a vossa consciência e a explorar não só o estado de sonho como também a vossa realidade desperta por formas mais venturosas. A vossa psique dos sonhos encontra-se desperta. Muitos de vocês permitiram que a consciência de vigília se tivesse tornado turva – inactiva, falando em termos relativos, de modo que se encontram apenas meio conscientes da vida que têm. Vocês são a expressão viva da vossa psique, a sua manifestação humana. Contudo, muitas vezes permitem-se cegar para com os aspectos esplendorosos da vossa própria existência.

No sonho do Joseph, as feições do irmão apresentavam traços orientais. O Joseph sabia que o seu irmão vivia na sua pessoa assim como na de um oriental, desconhecido para o Joseph na sua presente vida. Caso o Joseph tivesse visto duas pessoas – uma na forma do seu irmão e outra na forma de um oriental - não teria reconhecido o estranho, de modo que no seu sonho a imagem predominante do seu irmão impôs-se, enquanto a afiliação oriental foi meramente sugerida. Nas vossas próprias vidas usarão essas abreviações psíquicas ou utilizarão símbolos em que tentarão explicar as dimensões mais significativas de uma realidade nos termos do conhecido. Uma vez mais, as dimensões da psique precisam ser experimentadas, seja em que grau for. Elas não podem ser simplesmente definidas.

(Seth – Capítulo 2 - Sessões 755 a 759 In The Nature of Psiche)
Traduzido por Amadeu António

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