sábado, 14 de maio de 2016

DEPRESSÃO




A depressão assusta as pessoas, por ser tão intensa; por debaixo da sua superfície sossegada corre uma torrente de hostilidade, uma torrente de furor, terror, um terror que detém aqueles que se encontra deprimido num aperto de tal modo apertado que por vezes não pode nem mexer-se. Nessa pressão há um terror de tal modo pavoroso que a maioria dos que alegam lidar com problemas da terapia psicológica e psiquiatra sentem vontade de o drogar ou de o negar ou então atribuem-lhe todo o género de nomes invulgares, por o terror que comporta também os deixar assustados. A pessoa deprimida é tão sossegada tão calma, repleta de terror, repleta de furor, repleta de correntes de raiva, que ninguém parece compreender.

Depressão... O mais das vezes a depressão constitui uma raiva tão intensa que se a expressarem se irão meter em apuros. A culpa é raiva que não sentem legitimidade para sentir. A preocupação é raiva que antecipam. A depressão é raiva que se afigura tão aterradora até mesmo para vós, tão perturbadora, tão reprovadora que se sentem mesmo no direito ou aliciados a deixar que essa enorme dor e agonia lhes traga um enorme transtorno, por os levar a um enorme apuro. Por conseguinte, não estão a ver que a pressionam por antecipação, suprimem-na, oprimem-na, reprimem-na, pressionam-na dentro de vós; (de)primem-na. E assim ela torna-se mais potente, torna-se mais aterradora, mais aterrorizante, mais concentrada, quase como um caldo a ferver, que quanto mais ferve mais o líquido se evapora e mais espesso e mais condensado se torna.
E assim, ao oprimirem, suprimirem, reprimirem, pressionarem, também a raiva que sentem se torna num xarope mais denso.

A depressão aparece rapidamente e de forma invisível, por frequentemente não estar associada a nada de significativo, a nada de maior, não é associado a um trauma, muita vez, que é preocupante por produzir raiva e fúria, a que têm todo o direito, e em relação ao qual já se terão (implicitamente) metido em apuros, pelo que não faz sentido retê-lo mais. A depressão muita vez aparece silenciosamente pela noite como que por camadas de gaze de raiva. Uma camada, outra e outra, etc. E uma bela manhã acordam incapazes de sair da cama, incapazes de acordar, incapazes de adormecer, incapazes de se vestir, sem se importarem - deprimidos! De onde é que terá vindo no silêncio da noite? Foi acumulada nas suas camadas de gaze de raiva, ah sim, até que se torne demasiado pesada para erguer. A depressão esgueira-se para cima de vós.

A depressão também surge quando se dá uma mudança súbita na vossa vida, quer essa mudança seja de natureza positiva ou negativa, não importa, por haver sempre o sentimento de depressão, geralmente quando esse sentimento é bastante positivo, o sentimento de depressão que advém numa mudança rápida e súbita. Rapidamente se converte em culpa ou numa belíssima tristeza, ou mesmo numa sensação de perda de um passado que detestariam, mas que terão perdido na mesma. Quando a mudança rápida e súbita é negativa ela aloja-se sob a forma de depressão e é estufa e condensa-se e permanece a assombrá-los. Camadas de gaze de raiva que se acumula, numa rápida ou súbita mudança de qualquer tipo.

Depressão... Cada um preenche-a; uns lidam melhor com ela do que outros.
Depressão... Quando se sentem deprimidos sentem como se houvesse algo de errado convosco, que são péssimos, em particular quando os outros lhes dizem que precisam encontrar algo de criativo para fazer, quando lhes dizem que tudo quanto precisam fazer é dobrar o chapéu e sair à procura de um emprego, ou ir ao encontro dos amigos. Tudo quanto lhes transmitem é que não entendem nem estão a caminho de entender o que está a suceder. E vocês chegam mesmo a interrogar-se se realmente quererão saber, ou se também estarão saturados convosco que nem vontade têm de lhes vir com banalidades nem de os despachar. Outros dir-lhes-ão para alistarem todas as coisas por que sentem raiva, sem perceberem que por vezes se encontram demasiado deprimidos para sequer segurar no lápis, ou sequer para se darem ao trabalho de fazer exercício. Não são péssimos nem estão errados por se encontrarem deprimidos.


Colocá-la em perspectiva; afastar-se de vós próprios e tentar vê-la à distância ajuda.

Transcrito e traduzido por Amadeu António

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