quarta-feira, 30 de março de 2016

CURA ESPIRITUAL - TRIBUTO A GEORGE CHAPMAN & WILLIAM LANG



Nota Pessoal


Conheci pessoal e directamente o médium e assisti à acção levada a cabo pelo espírito que o controlava, o falecido Dr. William Lang, oftalmologista (1852-1937) quando a ele recorri em busca de auxílio a parente, em finais de 1990, em Machynlleth, no condado de  Aylesbury, no país de Gales. Conheci George no estado de vigília, senhor de uma serenidade notável, e vi-o sob controlo da entidade, completamente diferente, figura afável e simpática, com uma aparência muito mais velha e traços de uma personalidade completamente distinta. A eles dedico este trabalho, iniciado com base na estima que granjearam da minha parte, como um tributo a um importante trabalho que pude testemunhar em primeira mão.


Amadeu António

Prefácio


Este é um livro invulgar, escrito com a perícia de um talentoso escritor acerca da cura espiritual, um tema que poderia correr o perigo da rejeição, caso não tivesse uma introdução preliminar.

É uma narrativa verdadeira dos “milagres” levados a cabo pela cura espiritual conseguida através da devotada cooperação de dois homens, o famoso cirurgião clínico William Lang, que viveu no século dezanove e princípios do vinte, e que é conhecido por um certo número de médicos ainda vivos, e o seu médium, George Chapman, que devota a sua vida à mediunidade, através da qual, o doutor Lang – como ele gostaria de ser tratado -- e seus colaboradores espirituais são capazes de aplicar forças curativas que não se enquadram no âmbito dos tratamentos ordinários.


A maior parte dos médicos tem consciência das limitações de que padece em trazer alívio à doença e ao sofrimento, e este livro deveria mesmo ajudar a convencê-los da cura espiritual e das potencialidades que tem. Contudo, o âmbito de que este livro goza é amplo e carrega uma mensagem de esperança para todos quanto s se acham enfraquecidos e desesperados, a despeito da dedicação prestada por médicos e enfermeiros.


Não posso realçar o suficiente que não se trata de um livro de Espiritualismo, mas de uma narrativa muito humana e comovente dos “milagres de cura.” O autor inclui o próprio milagre que vivenciou e admite que, como a maior parte das pessoas, nunca tinha ouvido falar acerca do corpo espiritual, que é conquanto seja invisível é parte integrante de todos nós. Para muitos, tal proposição parecerá invulgar, mas ciente disso, o Dr. Lang transmite a todos quantos o visitam a simplicidade dessa ideia e a razão óbvia por que é possível receber através do corpo espiritual, tratamento que auxilia o corpo físico.


Nada contém o presente livro que deva ofender qualquer forma de credo religioso que seja, ou ausência dele, nem qualquer intenção de devastar emoções. Tudo quanto é nele relatado são factos comprovados. Estou convencido de que os “milagres” descritos não são invenção da imaginação. Eu sei o quanto é duro para os médicos aceitar que isso não seja verificável pelos métodos usuais de avaliação, mas este é um livro que devia estimular ambos, médicos e pacientes a uma pesquisa adicional imparcial. Quanto maior for o cepticismo inicial maior será a sólida convicção final. Não hesito em dizer que, da própria experiência que tive na minha carreira cicúrgica, aceito sem questionar que milagres possam ocorrer e que na realidade acontecem sob as condições tão fielmente apresentadas por Mr. Hutton no seu livro, que, acredito, no devido curso será visto como uma referência pioneira da até agora pouco conhecida “Ciência de Cura.”


Edward Townley Bayley (Cirurgião ortopédico clínico)

Nota do Autor


Quando me deparei, por acaso, com o nome de George Chapman e li que a entidade controladora dele era o falecido William Lang, do Hospital de Oftalmologia de Middlesex e Morfield, eu pouco ou nada sabia sobre cura espiritual. Tinha dificuldade em aceitar algumas declarações como: “As operações espirituais e tratamentos semelhantes são capazes de tratar casos incuráveis ou complicados, que não tivessem reagido à acção médica ortodoxa.” Eu não acreditava em milagres. Não era pois, de surpreender que, tendo marcado um encontro com George Chapman, para 6 de Janeiro de 1964 eu fosse a Aylesbury com certas reservas. Eu ia “conhecer o médico espiritual” Lang.


Mas a visita resultou gratificante. Depois de ter recebido tratamento do doutor Lang, fiquei sem dúvidas de que a sua operação espiritual tivesse provocado resultados não só assombrosos como convincentes. Quanto mais evidente se tornava a melhoria da minha condição, mais forte se tornou, na minha mente, o desejo de conhecer minuciosamente o que de intrigante tem a cura espiritual. Dei o primeiro passo e estudei algumas evidências disponíveis acerca do trabalho do doutor Lang e de George Chapman. Descobri que a própria experiência por que tinha passado era semelhante a muitos milhares de casos nos quais o doutor espiritual tinha obtido êxito e conseguido resultados extraordinários.


Contudo, havia muito, muito mais que eu precisava conhecer, caso pretendesse apresentar um relato autêntico e destituído de preconceitos acerca do trabalho conjunto de Lang e Chapman. Ambos me disseram que me ajudariam da forma que pudessem. O cenário estava determinado e eu encontrava-me pronto para ir adiante com a entediante, embora gratificante satisfatória tarefa que eu próprio tinha determinado.


Muitas foram as entrevistas que gravei com Mr. Lang enquanto ele controlava o médium em estado de transe e as reuniões que tive com George Chapman no seu estado de vigília. Frequentemente, essas entrevistas adoptaram a forma de um interrogatório, de um questionário obstinado, e pedidos de provas de quaisquer declarações proferidas. Viajei milhares de quilómetros pela Inglaterra para entrevistar os pacientes de Lang que tinha escolhido ao acaso, dos arquivos históricos de Chapman. À medida que o tempo passava, eu reunia bobines de declarações gravadas por pessoas a afirmar que Lang as tinha curado. Algumas alegavam que tinham sido completamente curadas de doenças que os médicos nos hospitais tinham afirmado ser incuráveis. Além de entrevistar os pacientes, também confrontava os seus estados com os seus historiais médicos. Eu queria estar completamente seguro de estar na posse de factos e dão relatos emocionais profundamente tendenciosos (e possivelmente inexactos). 


Todos os nomes e lugares de residência publicados neste livro são autênticos. Aproveito esta oportunidade para agradecer a cada um deles pelo amável auxílio e cooperação, porquanto se essas pessoas desinteressadas não tivessem permitido gravar os seus casos individuais e divulgar as suas identidades verdadeiras, a autenticidade e a credibilidade dos feitos de Lang e de Chapman teriam sido sujeitas a sérias dúvidas.


Também quero agradecer a William Lang e a George Chapman pela infatigável assistência que me prestaram, porque sem a sua inestimável ajuda não teria sido capaz de escrever este livro. Expresso uma dívida de gratidão para com Liam Nolan pelos conselhos e auxílio que me estendeu na elaboração deste livro – esforços que foram além das funções de um amigo.


Ciente de ter escrito um livro invulgar, quero deixar plenamente claro que não tenho a menor intenção de tentar influenciar ou converter quem quer que seja a uma nova maneira de pensar. A minha tarefa termina com a apresentação de um trabalho objectivo sobre a verdade acerca do tema em questão.

J. Bernard Hutton 


Prólogo

Era um dia de Outono de 1963, e à medida que o ano findava, a vida parecia esvair-se de mim também. O doutor, de pé à beira da minha cama falava numa voz calma e grave. Mantínhamos relações de amizade, e dado que nunca na minha vida me tinha sentido tão doente como agora, sabia que ele seria honesto comigo quando lhe perguntei o que se passaria de errado comigo.

“Tu padeces de um tipo de poliomielite que não provoca paralisia,” disse ele. “Mas eu quero que faça algumas análises sanguíneas.” As palavras deixaram-me apavorado. Poliomielite – poderia eu padecer disso? A parte do “não provoca paralítica” não me aliviou o temor. Não sabia o que dizer. Senti como se a minha cabeça tivesse sido rachada. As minhas pernas e os meus braços latejavam devido às fortes dores que sentia, e quando procurava levantar-me, fui acometido de tonturas.

Poliomielite. A palavra martelava e ecoava pelo meu cérebro. Atravessei um período em que os detalhes e o tempo se fundiam. Era o hospital, as análises ao sangue, os tróleis, o sono, a fraqueza, a confusão e a dor. Os antibióticos provaram-se inúteis, E então comecei a cegar. Toda a minha vida tinha sofrido de uma visão deficiente, e de Julho de 1958 para cá tinha estado sob os cuidados do notável especialista oftalmológico Mr. Hudson, que tinha sido perfeitamente franco comigo desde o início, pelo que eu começara a aceitar o facto de haver uma chance, embora pequena, de melhorar a minha visão.

Agora, em 1963, tendo-me sido diagnosticado o caso de poliomielite, tinha de enfrentar também a perspectiva da cegueira. Começava a ficar tão má que, eventualmente, tudo quanto podia distinguir da figura de uma pessoa de pé, afastada de mim dez metros, não passava de um perfil indistinto. Por fim apresentava sinais de visão dupla.

Numa certa manhã, numa altura em que me sentia completamente desolado, a minha esposa Pearl, atirou-me um exemplar do Psychic News para as mãos: “Lê a história desse homem de Aylesbury,” disse-me ela. Nessa altura eu encontrava-me de temperamento pouco animado, sempre rabugento com Pearl e as crianças. A ideia de esforçar a vista para distinguir as palavras pequenas do jornal era demais. “Não sejas ridícula,” disse, “sabes o quão difícil me é ler nem que seja um livro com letra grande; sem precisar mencionar que isso não passa de um disparate sem sentido.”

“Não, faz favor de ler isso,” insistiu ela. Resmungão, peguei no jornal até à ponta do nariz e tentei focar as palavras. Sentia-me dolorosamente ciente do facto de que, quem quer que me visse nessa posição, pudesse ver-se tentado a rir. Isso, mais que tudo, tinha-me induzido a abandonar a leitura excepto quando me encontrasse completamente só. Mesmo então, o esforço e a dor que sentia nos olhos constituía uma provação. Eu tinha que procurar a página da história que Pearl queria que eu lesse e estava quase para atirar com o jornal para longe de mim num acto de cólera e de frustração, quando notei um fragmento sobre alguns acontecimentos notáveis que tinham ocorrido em Aylesbury, que se prendiam com operações dos olhos, os quais, reivindicava o jornal, eram levados a cabo por algum médico espiritual.

Voltei ao início da história e com um enorme esforço lá comecei a ler. Falava sobre um doutor Lang, que tinha sido um notável especialista oftalmológico na última metade do século dezanove e na primeira metado do vinte. Ele morrera em 1937, mas agora, reclamava o jornal, estava a operar através de um médium em Aylesbury. Pousei o jornal com um comentário ridículo. Pearl, contudo, pensava de outro modo e disse: “Porque não tentas, Joe? Podíamos ir de carro e pelo menos ver.” A princípio eu encontrava-me firme na minha recusa, mas finalmente cedi. Concordei em escrever a marcar um encontro.

O médium era um homem chamado George Chapman. Dois dias depois obtive uma resposta dele dizendo para os devidos efeitos que o doutor William Langa me poderia receber a 6 de Janeiro de 64 às duas horas da tarde. Bom, pensei, se se tratar de uma brincadeira, pelo menos esse Mr. Chapman fá-lo de uma forma elaborada. Olhei para a carta outra vez. O doutor Lang ia-me receber, dizia. Não o Sr. Chapman mas o doutor Lang. Eu conhecia o suficiente acerca do Espiritismo para compreender que isso significava que Mr. Chapman tinha que estar em transe, controlado pelo doutor espiritual.
A 6 de Janeiro saímos de casa cedo. Devido ao estado em que os meus olhos se encontravam, Pearl há muito que se encarregara da função de condutor, e como ia ser um dia longo fora de casa, as crianças também foram. Cerca das duas menos cinco, bati à porta da casa do Sr. Chapman. Penso que no meu íntimo havia a ideia de que, mesmo que essa atitude resultasse falsa, deveria dar uma história importante para os jornais de Domingo. 

Fui conduzido para a sala de espera e, passados alguns minutos, a recepcionista disse: “Mr. Hutton, o doutor Lang vai recebê-lo agora.” Lá estava outra vez, o doutor Lang ia-me receber. Olhei atento através das minhas lentes grossas, para a figura de casaco branco em pé junto da janela do consultório. A face parecia enrugada e ter uma certa idade, e os olhos permaneciam firmemente cerrados. Só tive tempo para me sentir surpreendido quando, sem abrir os olhos, o homem de bata branca se me dirigiu para dizer: “Bem, que é que o incomoda, jovem?” Eu estava novamente admirado. Eu não era jovem; decerto não tão jovem quanto o médium, Chapman, cuja fotografia tinha visto no jornal.

Agora que me encontrava a alguns passos no interior da sala, podia constatar a semelhança entre a figura que se encontrava de pé e a foto de Chapman. Mas o rosto parecia de uma pessoa muito mais velha. As rugas e as linhas eram de uma pessoa verdadeiramente avançada na idade, mas eu sabia que Chapman rondava a idade de quarenta e poucos anos. A figura de branco moveu-se na minha direcção, olhos ainda cerrados. 

“Sou Mr. Lang,” disse. Até mesmo a voz soa a velho, pensei. “Você queria ver-me, não queria?”
“Sim,” disse eu. Ele estendeu a sua mão direita na minha direcção e eu erguia minha própria mão na direcção da dele, mas só a meia distância. Observava a sua cara. Os seus olhos não se abriram, mas a sua mão, sem tactear nem hesitar, veio ao encontro da minha.

“Estou encantado por conhecê-lo,” disse ele “Sente-se aqui, por favor.” Gesticulou e apontou para uma cadeira que se encontrava à face da janela. Lá fora o dia estava cinzento e o frio e a luz, ou o que dela restava, caiu sobre a minha face.

“Os seus olhos, jovem, estão a causar-lhe problemas,” disse ele. “Sim,” respondi, “e nos últimos dois meses eles têm vindo a piorar. Actualmente acho quase impossível ler. Não posso escrever. O meu trabalho chegou a um termo e…”

“Posso vê-los, por favor?” interrompeu ele, removendo os meus óculos da cara. Ainda não tinha aberto os seus olhos. Segurou nos óculos em frente à sua cara dando a impressão de estar a olhar através deles.

“Ah, meu caro!” exclamou abanando lentamente a cabeça. “Menos dezoito.” Estava absolutamente correcto – as lentes que eu usava tinham uma graduação menos dezoito, mas eu não lhe tinha contado nada acerca disso. Ele colocou os óculos no seu bolso de cima do casaco, depois abaixou-se para perto de mim, ergueu os polegares e apalpou-me os olhos. Nem uma só vez abriu os seus. Depois de um minuto ou isso endireitou-se.

“Você sofreu uma operação de fixação em ambos os olhos, quando era criança. Um trabalho perfeito.” Eu estava aturdido. Como podia ele ter sabido disso? Nem mesmo Pearl, a minha mulher, sabia disso. Eu nunca falara a cerca disso. De facto já nem pensava nisso há anos. Tinha acontecido há muito tempo atrás – quando eu tinha seis anos. O cirurgião que tinha realizado a operação, o Professor Elschenick do Sanatório Gottlieb de Praga, já havia morrido.

Ele inclinou-se sobre mim novamente, tocando os meus olhos enquanto falava durante todo o tempo. A torrente de frases e de termos médicos que usou inundava-me. “… e a sua vista deteriora-se a cada passo… o sistema de drenagem linfático não está a trabalhar correctamente…diplopia…” As palavras eram compreendidas pela metade “…devido à perturbação do equilíbrio muscular dos dois olhos… escotoma central…”


Eu não sabia o que fazer, dizer ou pensar. "E uma certa lesão na retina assim como dilatação da conjuntiva devido à presença de fluído... uma mancha a turvar-lhe a visão..." Por fim endireitou-se uma vez mais.

"Você também está com um problema com respeito à visão dupla, jovem, não está?" A esta altura eu só podia assentir com a cabeça. "Que profissão exerce?" perguntou de repente.
"Sou escritor e jornalista," respondi.

Ele franziu os lábios e balançou a cabeça umas três ou quatro vezes. "Bom, certamente você depende muito dos seus olhos. Farei o máximo que puder para o ajudar."

"Obrigado, muito obrigado," disse eu, "qualquer coisa que possa fazer será profundamente..."
"Está muito bem, muito bem," disse ele evitando que eu manifestasse a gratidão que sentia. "Agora, há algo para além dos seus olhos a incomodá-lo. Deixe-me fazer-lhe um pequeno exame."

Eu esperava que ele me pedisse para tirar o casaco e a camisola, mas ele não o fez. Sentado onde eu me encontrava, ele tocou-me delicadamente com as suas mãos. Durante o que me pareceu alguns minutos não se escutava o menor ruído na sala. Os olhos dele permaneceram cerrados o tempo inteiro. Ele não os tinha aberto desde que eu entrara na sala. Eventualmente prosseguiu:
"Ora bem, o vírus responsável pela sua doença, o qual o seu médico acredita ser de um tipo não causador de paralisia, desapareceu. Mas você tem algo muito sério, um vírus de hepatite que lhe perturba o fígado. Devido a isso, ocorrem alterações na temperatura do seu corpo, pelo que o equilíbrio do fígado não poder ser mantido. Este vírus da hepatite esgota-lhe as energias."

Se eu ficara assombrado antes, agora estava mudo. Não tinha dito nada a Chapman sobre o meu médico quando lhe escrevi, nem tinha mencionado o facto de me encontrar doente. Contudo, aqui estava o médium a dizer-me algo que só o meu médico e a minha mulher podiam possivelmente conhecer. E nenhum tinha estado em contacto com George Chapman. Era um mistério.

A tentação de aceitar por completo todas as pretensões acerca do cirurgião, agora a operar através do seu médium, tornou-se subitamente premente. Mas o instinto jornalístico reafirmou-se. Palavras tais como telepatia, transferência de pensamento, clarividência, e tudo o que isso significava surgiu de repente no meu cérebro. Algures por entre estes aspectos poderia estar a resposta para o conhecimento misterioso de factos acerca de mim, que o médium citava. Mas ainda assim, o que dizer dos termos médicos? Ele certamente não poderia tê-los obtido da minha parte. Eu jamais tinha ouvido falar na maior parte deles, antes.

Ele estava outra vez a conversar com aquela peculiar naquela voz de idoso, com os estalidos secos da dentadura, numa voz que tinha tanto de fraco quanto de cansado. "Para o ajudar terei que realizar uma operação aos seus olhos. Não precisa preocupar-se, jovem, porque todos possuem dois corpos - o físico e o corpo espiritual. Operarei o seu corpo espiritual e tentarei produzir um efeito correspondente no seu corpo físico. Você pode ouvir-me a pronunciar nomes e pedir instrumentos. Não se alarme. Serei assistido na operação por meu filho Basil e por vários outros colegas meus que não será capaz de ver por eles também terem passado para o espírito. Mas você não sentirá qualquer dor. Agora quero que se deite ali naquele divã."

As impressões que colhi daquela pequena narrativa eram, no mínimo, divertidas. Aquilo estava tornar-se cada vez mais numa charada, mas pensei que também devia tentar resolvê-la.
Quando o médium me pediu para me deitar no divã esperava que ele me dissesse para me despir. Mas não o fez. Deitei-me, inteiramente vestido, com os olhos amplamente abertos. Ele aproximou-se do divã e erguendo as mãos começou a movê-las e a estalar os dedos, mesmo por cima dos meus olhos. Os seus olhos continuavam firmemente cerrados. Ele movia os dedos das suas mãos abrindo-os e fechando-os, dando a impressão de estar a pegar e a utilizar instrumentos.

De repente senti um impulso quase incontrolável de desatar a rir. A mímica que ele executava era engraçada. Tive de morder firmemente o lábio para suportar a gargalhada que me acometia. Depois forcei-me a prestar atenção àquela voz idosa outra vez.

"Afastei levemente o seu corpo espiritual do físico e estou agora a operar no seu corpo espiritual... estou a fazer uma incisão através da dobra da supratarsal e estou a examinar os fluídos e as  partes situadas por detrás dos olhos... o cristalino, a retina, e assim por diante." E assim prosseguiu. A vontade de rir subitamente abandonou-me.

"Tratei o seu globo ocular e os próprios músculos, por ter verificado que os músculos ciliares se encontravam contraídos..." Então, por mais incrível que possa parecer, comecei a experimentar a sensação física de incisões feitas nessa área. Eram indolores, mas susceptíveis de serem sentidas. Os olhos do homem nunca se abriram, e ele nunca chegou a tocar-me. Mas então, um pouco mais tarde senti como se ele estivesse a costurar-me a ferida. Agora tudo estava longe de ser engraçado.
Tão logo quanto os meus olhos estavam tratados, ouvi-o chamar a atenção dos seus assistentes invisíveis e inaudíveis para o facto de que, se o vírus da hepatite não fosse atendido, a operação das vistas poderia não ser de grande valia.

"Agora vou realizar uma operação no seu corpo espiritual," disse-me ele. Tentarei eliminar o vírus." Uma vez mais, pude ver as mãos dele suspensas por cima de mim. Uma vez mais elas pareciam estar a manusear instrumentos invisíveis, e de novo tive aquela sensação indolor de incisões a ser feitas sobre carne anestesiada. Quando aquilo passou, senti a mesma sensação de uma agulha a ser inserida, puxada, e inserida de novo. 

Quando me foi pedido para me sentar senti-me tonto e aturdido. E de seguida um alarme terrível apossou-se de mim, ao descobrir que não conseguia ver em absoluto. Só conseguia distinguir luz e escuridão. De súbito veio-me ao espírito o que o Dr. Hudson, o especialista oftalmológico que me atendia desde 1958, me dissera certa vez, sobre a única possibilidade da minha visão residir numa série de complicadas operações que tanto podiam ser bem-sucedidas como não. E enfatizou que, se não fossem bem-sucedidas, eu poderia ficar permanentemente cego. Outros médicos tinham confirmado a sua opinião, e eu decidi não correr o risco. Tudo isso me acudiu à mente assim que me sentei, sem poder enxergar, naquele divã em Aylesbury. Havia o medo pavoroso de que a interferência desse chamado médium tivesse resultado naquilo que Mr. Hudson me tinha advertido. Em pânico comecei a exclamar alto: "Que se passa de errado comigo? Não consigo ver. Faça alguma coisa, pelo amor de Deus!"

A voz serena com o mesmo bater de dentes de antes, chegou aos meus ouvidos: "Não se preocupe, jovem, é temporário e em breve passará, e irá notar uma considerável melhoria." Depois acrescentou: "Não prometo restituir-lhe a visão normal, jovem, mas posso prometer que melhorará a visão consideravelmente. Continuarei a visitá-lo no seu estado de sono, por poder então separar mais facilmente o seu corpo espiritual do seu corpo físico e aplicar-lhe o tratamento necessário. Asseguro-lhe de que farei todo o possível para melhorar a sua visão."

"Só espero que esteja certo," disse-lhe eu em desespero.

"Não se preocupe; não se preocupe, jovem," repetiu ele. "Gostaria de o ver de novo daqui a três meses. Acha que será capaz de vir?

"Oh, sim, eu virei," confirmei eu. "Mas agora não consigo nem ver onde fica a porta."

"Não se preocupe, jovem," disse uma vez mais e ouvi uma campainha soar algures, lá fora, e depois a porta a abrir-se.

"Sim," disse uma voz feminina.

"Ah, Margaret, pode conduzir o Joseph, se faz favor?"

"Obrigado, Dr. Lang. Espero que tenha razão e eu seja capaz de ver."

"Ah, você vai ver, você voltará a ver; não irá levar muito tempo."

A voz dele era tranquilizadora. Fui conduzido ao exterior e pedi para me indicarem a porta da frente. Era com a maior das dificuldades que tateava o caminho até ao sítio onde tinha deixado o carro. Sentia uma intensa dor de cabeça e sentia-me tonto, e tinha o corpo todo a tremer. Que tolo fui em me submeter à insistência de Pearl para vir até aqui, pensei. Podia não ser capaz de ver muito, mas pelo menos era capaz de enxergar alguma coisa antes deste embuste me ter retribuído com a cegueira.
Sentei-me no carro. Pearl e as crianças tinham ido algures dar um passeio para esticar as pernas e comer qualquer coisa. Eu procurei desajeitadamente pelos meus cigarros e o isqueiro, queimei-me na mão ao tentar acendê-lo e fiquei deprimido e a praguejar.

Mas então começou a acontecer. Eu contemplava meio-cego diante de mim quando muito lentamente a forma de uma árvore começou a materializar-se. A princípio pense que fosse imaginação, mas não, não se tratava da imaginação. Como um daqueles truques cinematográficos, a silhueta da árvore tornou-se nítida e completamente distinta, e logo era capaz de distinguir os ramos largos e depois os pequenos, e por fim os pequeninos, os ramos despidos de folhas do inverno. Fechei os olhos incrédulo. Quando os voltei a abrir, reparei que o para-brisas estava sujo e precisava ser limpo. O PARA-BRISAS ESTAVA SUJO E EU CONSEGUIA VER ISSO! Quase gritei as palavras. Olhei para fora pelo vidro traseiro, e longe à distância pude ver algumas pessoas a aproximar-se. E então, com uma onda de emoção, reconheci as pessoas. Eram minha mulher, Pearl, e os meus próprios filhos, e mesmo a essa distância eu conseguia reconhecer os rostos deles. Então, chorei, livre e copiosamente, ali sentado, enquanto esperava por eles.

CAPÍTULO UM
O MILAGRE

Sentado no banco da frente junto a Pearl, enquanto ela nos conduzia de volta a Worthing, descobri, para meu enorme regozijo, que era capaz de ver mais longe do que antes. E tão logo a escuridão encobriu a luz do dia e os candeeiros das ruas e os faróis dos automóveis foram ligados, descobri que não mais me ofuscavam nem feriam os olhos conforme me faziam há algum tempo. Tinha o espírito e o coração em fulgor. Falei de forma ininterrupta e depois calei-me. Pearl compreendeu e deixou-me com os meus pensamentos. Tinha sido um dia repleto de acontecimentos e de uma louca agitação emocional, e Pearl sabia quando devia manter-se calada.

Na manhã seguinte, terça-feira, encontravámo-nos calmamente sentados a tomar o pequeno-almoço tendo de fundo o som familiar da voz de Jack de Manio (locutor de rádio) no nosso programa de serviços domésticos “Today.” Eu estava a ler o jornal da manhã mas logo senti uma mão pousando suavemente no meu braço, e virei-me para ver Pearl de pé, a sorrir serenamente para mim. Passado um bocado ela disse: "Já notaste o que estás a fazer? Estás realmente a ler o jornal. Não é maravilhoso? E estás a pegar-lhe a, pelo menos, uns vinte centímetros dos teus olhos." Ela tinha razão. Eu não tinha reparado o quão rapidamente a normalidade se restabelecera e havia começado a ser aceite sem reflectir. Nenhum de nós falou depois disso. Não era necessário.

Na manhã seguinte acordei a sentir-me estranhamente diferente. Levei um bocado a compreender porquê. A cruel dor de cabeça e as tonturas que tinham sido meus companheiros do despertar por muitas semanas, tinham desaparecido. Tinha também desparecido do meu corpo a fadiga dolorosa que tinha suportado longamente e estava de tal modo satisfeito com a sensação crescente de bem-estar que decidi ali mesmo ir a Londres durante o dia e mostrar aos meus colegas e amigos o excepcional homem novo em que Joe Hutton se tinha tornado.

Agora que todas as dores e aflições associadas à minha condição de fígado tinham desaparecido, uma certa conclusão me era repetidamente sugerida. Mas consciente e repetidamente a desviei da ideia. Eu era prudente. Eu precisava de provas. Não queria deixar-me levar por uma metamorfose imaginativa. Quando contei a meus amigos, em Londres, as coisas extraordinárias que me tinham sucedido, a princípio sentiram-se pouco inclinados a mostrar qualquer entusiasmo, conquanto estivessem obviamente satisfeitos por me encontrarem em tão boa forma. Também eles, senti, precisavam de provas. Até então tinham-me conhecido como um pateta de vistas curtas, pelo que decidi deixar que julgassem por si mesmos.

Sentei-me à máquina de escrever e comecei a dactilografar, e eles viram de imediato que não mais tinha que me inclinar com o nariz sobre o teclado, nem tinha que me dobrar para a frente, para ler o que tinha escrito. Era capaz de me sentar na vertical como qualquer outro. Eles agruparam-se à minha volta excitados e murmurando congratulações aos meus ouvidos. Então eu tive a certeza.

Nessa noite, quando me despi para me deitar, notei uma longa marca, uma linha pronunciada de cerca de doze centímetros de comprimento no meu corpo. Fui até ao espelho para ver o que seria aquilo. Cor-de-rosa, apresentava uma série se pontos acima e abaixo da linha. Parecia exactamente a costura de uma incisão cirúrgica. Passei os dedos sobre aquilo e senti ser bastante macio e liso e que não apresentava qualquer relevo, como se tivesse sido uma operação ao meu fígado!

A 22 de Janeiro fui de novo a Aylesbury, desta vez com alguém que estava precisando de auxílio que queria ser visto pelo médico espiritual. Eu próprio fui dado como bom, e depois do exame no divã, foi-me dito:

"A operação foi um sucesso, jovem." Mas não tinha sido preciso dizê-lo. Eu sabia-o! Foi um milagre o que sucedeu em Aylesbury num dia frio de Janeiro de 64.

CAPÍTULO DOIS
O DOUTOR ESPIRITUAL E O SEU MÉDIUM

Poderá alguém negar que o que aconteceu tenha sido um milagre? Não sei como uma asserção dessas poderá ser refutada, mas sem querer ser impertinente, não ligo. Estou convencido que se deu um milagre. De início desloquei-me a Aylesbury na qualidade de cético, preparado para escarnecer - cheio de menosprezo e desconfiança. Fui lá como um homem que se encontrava seriamente doente e perto da cegueira. Vim de lá com a visão restabelecida e a saúde renovada. Estes são os factos. 

Para mim, a prova de milagre é mais do que conclusiva. Também estou certo de que o falecido William Lang foi um instrumento na minha cura. Jamais tinha ouvido falar dele antes. O nome de George Chapman nada significava para mim. Mas estou convencido de que, quando George Chapman entra em transe como médium, é controlado pelo seu espírito, William Lang. 

Não espero que acreditem no que digo, nem é meu propósito convertê-los à minha maneira de pensar. Quero que isso fique bem claro desde o início. Tudo quanto estou a fazer é registar neste livro aquilo com que me deparei ao longo do ano de viagens e de pesquisa que empreendi. Encontrei-me com toda essa gente cujas evidências pretendo apresentar, mas as palavras aqui transcritas são deles e não minhas. Não lhes estou a oferecer uma história acabada. É sem qualquer esquema formal, e conquanto apresente um princípio e um meio, não tem um epílogo, por ainda continuar. È assim que acho que essas coisas devem ser narradas, e que agora é tempo de o fazer.

Um outro aspecto que gostaria de mencionar é que decidi, por uma questão de conveniência e não como tentativa de influenciar qualquer leitor, tratar George Chapman quando em transe como Mr. Lang.

Em Maio de 1964 voltei ao Dr. Lang para um exame, e depois conversei com ele por bastante tempo. A conversa que tivemos abrangeu vários assuntos, mas descobri nele uma pessoa encantadora e um orador inteligente. Eventualmente conduzi a conversa para a possibilidade de eu escrever acerca dele e do seu médium. Quando lhe coloquei a questão evidenciou um certo acanhamento. Esboçou um leve sorriso reservado e deixou descair a cabeça a reflectir. Depois disse: 

"Bom, suponho que um dia destes um livro desses venha a ser escrito, Joseph, e se tem que ser feito, gostaria que você o fizesse. Vá em frente, jovem, e escreva-o, mas há uma coisa que quero que tenha sempre em mente - que o George e eu somos somente instrumentos de Deus. É através da Sua ajuda e da Sua ajuda somente que sou capaz de usar a minha destreza, enquanto médico espiritual, para aliviar o sofrimento."

Eu sabia. todavia, que o projecto podia ser levado a cabo caso Mr. Lang concordasse em falar bastante comigo e de uma forma livre, acerca da sua vida na Terra e no mundo espiritual, e da associação que tinha com o médium George Chapman. Mencionei que tal preparativo não poderia ocupar muito do seu tempo.

"Oh, não se preocupe com isso, jovem," respondeu-me ele. "venha em qualquer altura. Apraz-me muito vê-lo e à sua querida esposa. É bom conhecer pessoas com quem se pode falar tão despreocupadamente."

Agradeci-lhe e disse que tinha várias perguntas a fazer a George Chapman, embora nunca o tivesse conhecido no seu estado de vigília. "Isso não será problema. George é um homem encantador e você irá gostar dele, estou certo. Sugiro que lhe escreva a sugerir-lhe a marcação de um encontro consigo."
"Haverá alguma objecção que ele possa fazer ao uso de um gravador?" perguntei. "É mais fácil do que ter que fazer um monte de apontamentos."

"Claro que não," disse ele, "tenho a certeza de que tudo correrá satisfatoriamente." Esse foi o fim da conversa e assim que voltei para Worthing escrevi de imediato a George Chapman. Foi muito mais tarde, e por acaso, que fiquei a saber que várias solicitações de autores bem conhecidos, jornalistas, escritores de roteiros de cinema e de produtores de televisão tinham sido recebidos no passado, e que todos tinham sido recusados.

Quando minha mulher e eu eventualmente nos encontramos com George Chapman na sua casa de Aylesbury, deparamo-nos com um homem jovem extremamente bem apresentado que parecia encontrar-se na casa dos trinta. Ele estava de facto com 43 anos de idade. Durante as três visitas que fiz ao médico espiritual tive ampla oportunidade de o estudar de perto. Apresentava um distinto porte de cabeça levemente erguido, à maneira de escuta de um homem muito idoso. Uma outra indicação do suposto peso dos anos era a inclinação demasiado acentuada do corpo. Essas eram as características do Chapman enquanto médium, mas agora não se achavam mais presentes. Esta era uma pessoa que caminhava erecta e com facilidade. Apresentava um rosto macio e uma individualidade um tanto tímida. o contraste na conversa evidenciou-se igualmente notável.

A voz de Chapman inequivocamente de acento do tipo Merseyside, era a de um homem bastante novo e ele falava serenamente devido a um inerente acanhamento, enquanto a conversa de Lang, por outro lado, era culta e segura, caracterizada por forte sotaque sulista, polvilhada por termos médicos e de uma frequência elevada, à maneira dos idosos.

Havia, contudo, certos atributos que eram posse comum: excepcionais qualidades de amabilidade e de bondade, uma absoluta magnanimidade, e uma poderosa devoção à ajuda daqueles que tivessem sido considerados incuráveis pelos médicos. Logo no primeiro encontro que tive com Chapman, fiquei com a impressão de o conhecer há muito tempo.


CAPÍTULO 3
MUITO ANTES DOS BEATLES

A neblina envolvia tudo num torvelinho a 4 de Fevereiro de 1921. Era arrastada do mar por um vento tempestuoso que chicoteava as esquinas e penetrava nos ossos de qualquer um que se aventurasse pelas ruas. Rio abaixo, ouvia-se uma cacofonia lúgubre das sinetas dos navios. Ao longe, nas docas, guinchos gemiam nos convés encharcados, cargas moviam-se de um lado para o outro, na ponta de amarras precariamente presas em cabos que rangiam, e homens que, de mãos inflamadas amaldiçoavam o inverno.

Alto, por entre o aglomerado cinzento escuro dos edifícios que dominavam o Pier Head e todo o rio em frente, o Liver Bird dourado e descarnado olhava com sobranceria sobre a ensopada e deprimida Liverpool. Mais além, ao longo do rio, no distrito de Bootle, uma mulher padecia das dores de parto, e quando os seus suores e agonia terminaram, tinha junto a si uma cara comprimida de um bebé que viria a ser baptizado George William Chapman. 

Eram tempos difíceis, aqueles. Na Irlanda reinava a inquietação, a pobreza e a sombra negra da guerra civil. Em Inglaterra havia muitos jovens que pareciam velhos devido ao que a guerra mundial lhes causou, e muitos de meia-idade mais pareciam cadáveres ambulantes. As pessoas desmembradas e desiludidas pelas ruas, e os pobres, como sempre eram atingidos forte e repetidamente. 

Mas George Chapman era muito novo para ter consciência disso. Assim, foi amamentado e cresceu forte e aprendeu a gatinhar e a falar. E de repente o bebé não era mais um bebé mas um rapazinho de seis anos que via e sentia muitas coisas. Nas ruas de miséria confrontou-se com a pobreza e a dureza da vida, companheiros constantes a qualquer hora e por toda parte. Escutava o sotaque dos Irlandeses, vivia por entre rixas de Católicos e de Protestantes, e ficou eternamente chocado com as coisas que as pessoas faziam aos animais, quer por gozo, quer por maldade.

Sempre que via um garoto aproximar-se sorrateiramente de um cão ou de um gato que farejava um caixote de lixo à procura de comida, dava um berro a avisar o animal desprevenido, na esperança de o poupar à dor de um tijolo atirado de forma certeira. Havia alturas em que era visto como um desmancha-prazeres. Seria falso dizer que ele não se importava, porque se importava, e ficava tão assustado como qualquer menino de rua sempre poderia ficar, só que ele parecia não aprender a lição.

À medida que se tornava maior e mais forte, o instinto de sobrevivência tornava-se igualmente mais predominante, e, cheio de confiança, aprendeu a fazer uso dos punhos e dos pés com destreza, de maneira que chegou a ser respeitado. Mas lutava apenas quando se fazia necessário, e mais vezes do que queria, caso a vida de um gato ou de um cão estivesse em perigo. Era assim que ele costumava ser. Contudo, havia mais cães e gatos feridos e vadios em Bootle e nos arredores do que George Chapman podia mesmo ter esperado salvar. E os quartos de abrigo de George eram demasiado restritos para consentir até mesmo um pequeno número daqueles sinais que George queria resguardar. Ele tinha necessidade de toda a sorte de sítios para poder abrigar os animais vadios. Mas não só tinha falta de acomodações como não havia reserva de dinheiro tão pouco para comprar alimentos para os animais que ele amava. Mas um dia encontrou uma ideia. Porque não ir pelas portas e pedir se queriam que fizesses recados.

As primeiras cinco ou seis portas foram-lhe fechadas na cara. Não teriam eles bocas suficientes para alimentar sem tentar dispensar moedas para dar a um garoto vagabundo que fazia recados? Mas George Chapman não era de ser dissuadido facilmente, e quando se voltou para a casa das mulheres idosas que tinham famílias numerosas que trabalhavam fora de casa todo o dia, ele próprio encontrou uma mão cheia de pessoas inclinadas a contribuir. 

Nem meio penny gastou consigo próprio mas em comida para animais. Então, num dia magnífico, uma senhora ofereceu-lhe o uso do porão dela como abrigo para os seus animais de estimação. Em troca ela queria que ele fizesse as compras e uma porção justa de limpezas domésticas. Para George Chapman, isso parecia um acordo justo.

O abrigo animal do jovem George em breve era bem conhecido no distrito. As pessoas começaram a falar do rapaz que empreendia qualquer recado ou tarefa para ganhar alguns cobres extra para comprar comida para os seus gatos e cães vadios, e que lhes colocava talas nas patas quebradas e os curava quando os encontrava feridos. Ele também fazia o que podia para ajudar os bichinhos de estimação doentes dos vizinhos, quando os traziam ao "garoto veterinário." Até hoje, algumas pessoas em Bootle falam acerca do rapaz altruísta que curava animais com ternura.

George deixou a escola aos catorze anos, quando foi lançado para o mundo frio e severo do desemprego em que entrou, e por mais tempo do que era devido para a sua mente e corpo, andou pelas esquinas das ruas e ouviu as conversas de sarjeta dos companheiros. O futuro, tal como as coisas paravam, parecia sombrio e destituído de esperança. Ele não conhecia nada nem queria saber. Com que motivação? O que teria feito o mundo por ele? Ele era um vagabundo que começava a deixar-se levar pela corrente, que diabo!

Mas certo dia ouviu falar de passagem num emprego, e quase antes de ter chance de pôr os cabelos em ordem, estava a correr para a garagem onde estavam a pedir um empregado de abastecimento e para serviços gerais. Chegou lá antes de qualquer um dos seus companheiros e eles deram-lhe o emprego. Não era excelente mas era melhor do que andar pelas esquinas. E o que era melhor, ele gostou do emprego, por lhe fazer sentir que tinha um lugar no mundo. Até ao dia em que, deitado debaixo de um camião, a tentar aliviar um parafuso que não cedia, no reservatório do óleo. Os cantos da chave encontravam-se gastos, as facetas do parafuso arredondadas, e a chave não conseguia demovê-lo. Assim, agarrou-a bem, e puxou com toda a força com ambas as mãos. Num instante a chave escorregou e caiu-lhe sobre a cara com toda a força. O gosto do sangue a escorrer-lhe pela garganta deixou o jovem doente, e ele foi arrastado para fora com o nariz gravemente lacerado. Mas recebeu escassa simpatia da parte do proprietário da garagem, e o rapaz ficou sem salário. "Um acidente sangrento estúpido," foi tudo quanto o patrão disse, e George Chapman encontrava-se uma vez mais nas ruas.

Poucas semanas mais tarde ele teve sorte suficiente para arranjar um emprego como assistente de carniceiro, e se bem que precisasse trabalhar das seis da manhã até às onze horas da noite, ele gostava do trabalho. Cedo, porém, recomeçaram os rumores de guerra, e quando isso se tornou numa realidade, ele disse ao patrão que pretendia alistar-se. George tinha metido na cabeça a ideia de se juntar aos Guardas Irlandeses, e tão logo recebeu o salário, apanhou um autocarro para o departamento de recruta em Renshaw Hall. Ali viu os guardas altos, cerimoniosos e erectos com os gorros pontiagudos baixados até à testa, e tentou imaginar-se no mesmo uniforme. Mas o desapontamento aguardava-o. Assim que Chapman passou em frente de uma mesa, o oficial de recruta lançou os olhos pelo seu impresso de recrutamento e depois olhou para o rapaz. "Tu és muito novo, moço. Precisas de mais um ano para poderes alistar-te no exército." George estava mesmo para apelar por uma oportunidade quando lhe disseram: "De qualquer modo, só tens 1,73m, e a altura mínima para a Guarda Irlandesa é de 1,76. Lamento."

Mas a reputação de George como pugilista salvou-lhe o dia de uma maneira inesperada. No outro lado do Hall, um funcionário, que tratava do exame dos inscritos, reconheceu-o e chamou-o ao oficial. "É o George Chapman, senhor, não é? Ele é um bom boxer e podia ser um bom companheiro para se juntar a nós." O oficial olhou para Chapman. "Então, tu és meio pugilista, não é verdade, jovem?"
"Sim senhor, sou um pouco," disse George.

"Hmm." O oficial lançou um olhar ao impresso uma vez mais.
"Vejamos. Encoste-se à parede, sim?"

George agora apressou-se de encontro à parede, por detrás da mesa do oficial e este mediu-lhe a altura. "Parece-me que alguém cometeu um erro quanto à sua altura," disse ele. de acordo com o modo como a leio, tu tens exactamente 1,76m. E que me dizes do facto da tua data de nascimento estar errada? nasceste em 1920, dizes tu, e não em 1921?"

"Sim senhor, está certo senhor," disse George, captando a deixa com sagacidade. Desse modo alistaram George Chapman, deram-lhe um xelim, e mandaram-no para a reserva do Q.M., e ele foi colocado nos depósitos da Guarda Irlandesa. No devido curso, foi enviado para Caterham, e foi-lhe imposta a regra do cabelo cortado, uma refeição de fígado e presunto e uma transferência para um pelotão de treino. 

"Mas, a primeira vez que estive na parada," revogou ele, encontrava-me no centro de um grupo de tipos de 1,85cm, quando constatei ser o mais pequeno. Senti-me como um pigmeu na companhia de gigantes."

"Alguns dias após ter ido para lá, encontrava-se entre uma multidão de companheiros na caserna quando alguém entrou. Todos se puseram de pé num salto, mas eu estava a fazer uma tarefa qualquer e permaneci sentado. Aquilo de que tive consciência a seguir, foi da presença de um jovem oficial que, à minha frente olhava para baixo. Estás cansado ou doente, ou alguma coisa assim? disse. Eu disse que não. Ele quase se sentiu lançado ao telhado próximo e perguntou-me se sabia que estava a falar com um oficial, e continuou algo alarmante, após o que se voltou e saiu enfurecido. O sargento veio ter comigo e usou uma linguagem que nunca esperei repetir pelo simples teor da obscenidade que encerrava. De qualquer modo, uns dias mais tarde, foi-me dito que iria ser transferido para os Reais Fuzileiros Irlandeses, e eu tive que ir ao quartel general para conseguir os meus papéis. O oficial que me recebeu não era o mesmo que me tinha repreendido, mas olhou para mim e disse:
"Deixa-me cá ver, chamas-te George William Chapman? Eu respondi: "Sim, senhor." E ele lá continuou: "A sua data de nascimento, Chapman?" Ao que sem pensar eu respondi: "4 de Fevereiro de 1921, senhor." Aí ele começou a rir. "Aah!" disse. "Era o que eu pensava. Bem, lamento Chapman, mas tu não tens idade. Nós podíamos usar o teu espirito de companheirismo, mas os regulamentos têm que ser cumpridos, compreendes? Lamento." E eu fui excluído.

Novamente de volta a Merseyside, Chapman tratou de arranjar emprego nas docas mas ainda desejava intensamente alistar-se, e depois de pensar nisso por mais umas semanas, decidiu tentar alistar-se na R.A.F. Pela altura em que as formalidades estavam completas, o seu baptismo tinha cegado, e o George Chapman civil tornou-se no Cabo Chapman. 

A vida na RAF foi uma período repleto para um jovem de Bootle. O primeiro cargo que teve foi em  Blackpool, onde ele se tornou num instrutor militar. Depois, seguiram-se transferências para Tangmere e Merston. Ele defrontou-se com o lutador de pesos pesados Tony Mancelli, o pugilista de Birkenhead, Jackie Parnell, e vários outros que eram bons executantes no ringue, e em pelotão eles faziam exibições de boxe para os acampamentos estabelecidos em torno da costa sul. 

Em seguida veio uma transferência para Portsmouth com o propósito de treino de artilharia no H.M.S. Excellent. Ele deu atenção aos testes práticos e estudou muita teoria, passando eventualmente como Instrutor de Artilharia. 

Um dia, quando um grupo de trabalho agitado de Worthing chegou para preparar uma pista de aterragem para Spitfires, um dos engenheiros, aparentemente em busca de um tema de conversa, casualmente perguntou ao cabo Chapman se alguma vez tinha considerado a possibilidade de vida depois da morte. 

Antes que ele conseguisse responder, a sua mente dele foi inundada de recordações, muitas delas pertencentes à infância. Recordou, por um instante, como um dos seus tios, um tipo de semblante sisudo, era capaz de falar sobre a vida depois da morte e o Espiritismo. Mas o seu sobrinho recusou-se a interessar-se por questões que estavam para além do seu entendimento. "Eu não estou realmente interessado nessas coisas," disse ao engenheiro, e deixou o assunto por aí.
O outro disse-lhe: "Mas devias estar, sabes?"

Chapman rodopiou rapidamente para ele: "Não me venha com nada disso, companheiro" Já há por aqui muita coisa sem que tenha que me apoquentar com respeito ao que me vier a suceder quando soar a hora do destino. Entende? Por isso, deixe isso de lado, está bem?" E o engenheiro lá desandou e foi à vida dele.

Em 1943 G.W. Chapman foi transferido para a RAF Halton, em Buckinghamshire, onde foi promovido a Sargento. E foi, lá estacionado lá, que encontrou a garota que viria a tornar-se sua esposa. Um ano após o casamento, Margaret presenteou o seu marido com uma garotinha que foi baptizada Vivian Margaret Chapman. O acontecimento trouxe a dose usual de orgulho aos corações dos noivos, mas todo o seu júbilo foi, em breve, endurecido pela tragédia, quando o doutor chamou George à parte para o prevenir de que infelizmente o bebé não viveria mais do que um mês.

"Lembro-me das lágrimas que chorei pelos bosques em redor do hospital de Ashbridge no dia em que o doutor me trouxe a notícia," lembrou Chapman. "Não era um tipo religioso nem um crente no que a religião ensina, mas estou certo de que ninguém jamais rezou com maior fervor a Deus do que eu, nessa altura. Mas quando não mais se tornava possível ter esperança, eu costumava pensar que não podia ser um Deus deixar um bebé inocente morrer assim. Compreende? Eu estava louco de dor.”
“Mas ela morreu. Sabe, dizem que a tragédia nunca nos deixa conforme éramos antes. Eu constatei que isso era verdade. Ambos constatamos, Margaret e eu. De qualquer modo, a morte do bebé juntou-nos, aproximou-nos e quando nos resignamos com a perda, foi como se tivéssemos sido fortificados espiritualmente."

Como a guerra estava a chegar ao fim, o Sargento Chapman tornou-se ciente do problema do desemprego que confrontaria quando viesse a sair da Real Força Aérea. Ele não possuía quaisquer qualificações especiais que lhe proporcionassem um emprego civil, e não queria continuar no serviço militar. Ele estava ansioso por arranjar um lar permanente para Margaret como ela e as crianças ansiavam ter. As minas de carvão estavam a recrutar, mas ele não tinha intenção de gastar o resto da sua vida debaixo do chão a derrubar os veios de metal e a inalar o pó negro para os pulmões. As duas únicas ocupações que o atraíam, embora vagamente, eram a polícia e os bombeiros. Em parte nenhuma havia esperança de emprego. Uma vez mais, a falta de idade jogou contra ele, devido ao convite que recebeu para se juntar à polícia de Aylesbury estipular um mínimo de 1,90m para os pretensos recrutas. Havia uma única saída. A 2 de Maio de 1946 o sargento Chapman da RAF foi desmobilizado. Dentro de poucos dias mudou de uniforme e tornou-se no bombeiro Chapman dos Bombeiros de Aylesbury.

(continua)


De J. Bernard Hutton
Obra intitulada “Healing Hands”
Traduzido por Amadeu António


O doutor Lang discorre acerca da mediunidade

O doutor Lang frequentemente falava acerca da mediunidade nos encontros em que a minha mulher e eu tínhamos com ele, e aqui narro algumas das observações que chegou a fazer.

“A ambição faz-se necessária na vida, a fim de estimular o esforço e a determinação por alcançar objectivos que ajudarão ao progresso da pessoa na vida terrena. Por, tratar de conseguir experiência, conhecimento, qualificações numa ocupação que conduza a um serviço digno prestado à família ou mesmo remotamente à humanidade, seja credível.

A disciplina e a auto-negação envolvida possui um impacto espiritual dependente da sinceridade com que tal ambição seja perseguida e os resultados empregues. Isso é óptimo. Se o homem na Terra não puder usar o cérebro e a mente de uma forma bem-sucedida, tão pouco o poderão as pessoas espirituais. Alguém que não possua ambição, e que, contente em se recostar sem alcançar nada, não sinta interesse algum pela vida nem busque oportunidades,  quando voltar para o espírito e se voltar para trás, dirá: “Valha-me Deus, se eu ao menos tivesse sido mais ambicioso para me realizar na vida e torná-la digna!”

“Quando estive na Terra, embora fosse ambicioso na careira que exerci, não era u homem de negócios de forma nenhuma. Na verdade, conversava muito pouco, conforme aqueles que me são chegados na terra poderão confirmá-lo, o que representou um transtorno para a minha mulher. Eu era um homem religioso e não tinha qualquer contacto com o Espiritualismo, e frequentava a Igreja do Estado de vez em quando, mas não estava ligado a atitudes ortodoxas.

“A minha vida era preenchida pelo trabalho e pelo retiro subsequente para o meu estudo, para a leitura e para a minha música, que prezava muito. Assegurava-me de que a minha família era zelada – ainda há quem, na terra, esteja a ser tratado em virtude de arranjos feitos por mim. Os meus que se encontravam comigo no espírito não desejariam que eu fosse de outra maneira – tornámo-nos espiritualmente iluminados, porém, não seres espirituais magníficos.

“Deviam perceber que os seres iluminados magníficos que se encontram deste lado fazem muito pouco em relação a um trabalho com os médiuns na Terra. As responsabilidades repousam sobre nós, que aprendemos o suficiente para ser capazes de satisfazer os requisitos e sentimos a dedicação pelo serviço pela humanidade. Os mais avançados permanecem em segundo plano a exercer uma supervisão.

“Eu não tenho um corpo físico, porém, possuo partes correspondentes à circulação sanguínea e ao batimento cardíaco, assim como uma alma, Ainda amo o trabalho que exerço e os pacientes que tenho na Terra. Mas tenho u amor ainda maior pelo George o meu instrumento; ele foi  meu irmão numa vida passada. Nesses dias discutíamos muito e estávamos sempre em desacordo. O George é livre de discordar de mim agora, e ocasionalmente fá-lo. Foi muito divertido quando ele certa vez me disse: “Vai para o diabo.” Eu não fui por não gostar do cavalheiro. Mas se o George examinasse a sua árvore genealógica haveria de descobrir que não se poderia ver livre de mim facilmente, por fazer parte da minha alma, e isso representar a base do nosso presente relacionamento.

“Conforme provi para a minha família, é meu dever agora assegurar-me de que o George seja bem tratado, e não o deixarei ficar mal com respeito a isso. Se o George tivesse que me dizer: “Dr. Lang, não quero que me controle mais,” eu acataria a sua vontade e deixá-lo-ia, mas ele haveria de permanecer como um reservatório vazio lançado num mar revolto, e partiria para o espírito rapidamente. 

“Tu poderás discordar de algumas das minhas opiniões em diversos assuntos que isso deverá querer dizer muito pouco. Tudo quanto faz parte do nosso trabalho parte de um plano estabelecido aqui, no qual desempenho um papel. No âmbito desse plano não iremos fazer nada que venha a prejudicar ninguém na Terra. Se nós, da banda da cura, por vezes parecemos rígidos, e o nosso médium é encarado por alguns na Terra com uma certa dúvida, pergunto o que poderemos fazer com as pessoas que conduzem continuamente o sofrimento a si.

“A mediunidade representa um potencial na natureza da pessoa, infelizmente um potencial que geralmente se encontra profundamente submerso pelas exigências da vida na Terra que deixam muito pouco ou nenhum interesse pela pesquisa sobre a nossa natureza, origem e destino.”
O doutor Lang sempre realça a santidade do serviço espiritual exercido por parte do Espírito, e a enorme responsabilidade que repousa sobre quantos na Terra possuem a capacidade de cooperar de uma forma objectiva enquanto canais e têm consciência disso, mas também mencionou algumas ciladas e erros comuns.

“O clarividente que audaciosamente diz a alguém: “Tu possuis poder de cura,” por constatar uma cor azulada característica na sua aura e ao redor da cabeça e dos ombros, pode provocar incompreensão. A evidência de tal aptidão poderá não ir além de um reflexo de uma natureza simpática para com as pessoas no geral, e por aqueles que padeçam de sérios problemas em particular, para além da doença. Tal aura azulada nem sempre é indicador de mediunidade física, embora constitua um atributo importante e digno. Há muita gente saudável que goza de uma abundância excessiva de energia – uma qualidade física e não psíquica nem espiritual. Se uma pessoa dessas colocasse as mãos sobre alguém que se encontrasse doente ou deprimido ou exaurida nas suas forças, poderia dar-se uma transferência de energia que provocasse no doente um estímulo que o fizesse sentir–se melhor, mas uma cura raramente é obtida.

“Quem quer que, a despeito de tal sinceridade, não possua tal abundância implícita, não devia praticar o método de cura da imposição das mãos. Se o fizer, poderá ter uma altura em que se encontre numa maré mais baixa que a do paciente, e se isso suceder, então o pretenso curador irá retirar energia ao paciente, e este irá sentir-se com menos energia que antes. Dá-se uma inevitável transferência do mais forte para o mais debilitado. E se o aspirante a curador estiver longe de ser adequado, nem que seja temporariamente, e o paciente se encontrar num estado baixo e negativo, o próprio curador poderá ficar indisposto, ou pior do que estava, e o sofredor mais reduzido na sua energia. Quando existir antipatia entre ambos, por qualquer que seja a razão, não existirá afinidade, e nenhum deles poderá beneficiar em qualquer dos casos; isso reflectir-se-á na cor de ambas as auras, por se tingirem de vermelho.”

Ele começou por explicar que levou vários anos a coordenar os laços existentes entre ele e o George, de modo a torná-los numa parceria efectiva ao mais alto nível possível. O trabalho tinha  envolvido uma média de 20 a 30 pacientes por dia, além de milhares de pacientes tratados à distância. Mas ele prosseguiu:

“Encontramo-nos ocupados sete dias por semana. Para além disso, tenho o trabalho que exerço num vasto hospital deste lado, e não poderia suportar todo o trabalho envolvido sem o auxílio constante da minha equipa de médicos cirurgiões ao mesmo tempo. Simplesmente não me é possível empreender trabalho  com outros médiuns mesmo que me sentisse inclinado a isso, coisa que não estou. Além disso, há um limite espiritual para o que podemos empreender – contrariamente ao que alguns possam dizer, o espírito afadiga-se devido ao esforço e às energias gastas e não resta tempo para o relaxamento nem para a recuperação.

“Os meus pacientes são a minha preocupação... Não me associo a nenhum médium para além do George, nem tão pouco alguma vez tive vontade de o fazer. Muitos médiuns induzem as pessoas em erro com afirmações de que eu me encontro presente e a comunicar por diversos modos, que eu sou o terapeuta que opera por intermédio de mais alguém para além do George, etc. Todas essas afirmações são inverídicas. Não estou a dizer que tenham a intenção de enganar, mas interrogo-me da razão porque tais médiuns fazem tais declarações e com base em que fundamentos.

“A representação pode ocorrer sem o meu conhecimento, possivelmente com óculos pequenos e uma barba grisalha são apresentados de forma errónea, de modo que não posso dizer que os médiuns estejam conscientemente em erro, mas errado está. Actividades para além da cura e a cirurgia que pratico, e a companhia de que aqui gozo, não têm interesse para mim, e eu não seria levado a tentar a escrita automática por intermédio de outro médium. A escrita automática, assim como o tabuleiro Ouija, prestam-se muito à representação, a menos que conduzidos por um poder da mais elevada qualidade.

“Há outras razões convincentes para o trabalho que empreendo com o George e mais nenhum. Há um ciclo cármico que me envolve a mim e ao meu filho cirurgião Basil, que trabalha comigo, e ao George e o seu filho curandeiro Michael. Todos nós estivemos previamente associados noutras vidas, e irá prosseguir deste lado, e através da reincarnação na Terra. Quando o George passar para este mundo, passado algum tempo eu reincarnarei na terra, seguido por Basil e por Michael no seu devido curso, de modo que o ciclo cármico irá seguir o seu curso.

“Não conheço o indivíduo que trouxe isso a conhecimento, não o conheço de jeito nenhum nem nunca estive associado com ele; não o culpo pelas declarações que fez, mas gostaria de saber que evidência terá ele obtido. Se alguém tivesse que ser informado por um médium que eu, William Lang, esteja com eles, deveria receber em resposta a pergunta se eu tive alguns irmãos ou irmãs, quais os seus nomes, além de perguntarem com quem terá casado essa irmã; qual tenha sido o nome da minha mãe, a data da sua passagem, etc. Tais elementos são passíveis de verificação e a comprovarem estar correctos, deveriam constituir uma boa prova. Os médiuns deveriam ser capazes de fornecer os detalhes que possibilitassem isso.”

Posso acrescentar que frequentemente o doutor Lang expressa a sua firme opinião de que a comunicação através dos vários meios ao seu dispor deveriam fornecer provas substanciais da sua identidade, e não concorda com aqueles que adoptam pseudónimos, considerando, ao invés, que se estivessem na disposição de assumir o trabalho deveriam estar preparados para dizer quem são e prová-lo. Em relação às crianças, ele disse-me:

“Uma criança nasce sem pecado, mas a partir desse momento encontra-se sujeita às influências. Se um pai alimentar más ideias, elas poderão sem qualquer intenção passar a ser implantadas na mente da criança e o anjo da guarda – caso queiram usar essa expressão – ver-se-á forçado à retaguarda. As influências oriundas do mundo do espírito debater-se-ão, e muito dependerá da extensão  do que for absorvido pela criança do ambiente criado pelos pais. Assim, a criança atrai boas e más influências. Muitos jovens que se encontram em instituições de detenção constituem o produto disso. Algumas terão tendências psíquicas e até mesmo mediunidade, e ao envelhecer poderão chegar a sentir-se atraídas e interessadas por questões ligadas ao Espiritualismo. 

“O mal poderá chegar a ter algum peso na sua vida, assim como poderá encontrar-se num estado de indecisão, mas seja como for, ainda se deverá dar um choque entre as influências do bem e do mal. Ainda poderá subsistir algum bem nele, mas e o mal tiver supremacia, e se obtiver algum desenvolvimento psíquico, não alcançará mais do que um tipo inferior de clarividência, ou seja, quaisquer impressões que possa receber do espírito será da parte dos espiritualmente menos desenvolvidos, daqueles que se encontram no limiar, (talvez maliciosos ou perniciosos ou vingativos) assim como poderá apresentar evidência de fenómenos físicos de baixo padrão.

“Jamais se envolverão na cura espiritual, nem virão a tornar-se oradores inspirados. Quando as pessoas adequadas tiverem sido bem preparadas na terra, na linha correcta, conforme virá a ser exposto no seu trabalho, então uma corrente de influência e de suporte da parte do espírito será formada e tais influências perniciosas irão à sua vida em qualquer altura. Certas pessoas, mas poucas, são seleccionadas pelo criador para cumprir a missão de Cristo, de Deus que quiserem, mas ninguém se acha livre do conflito espiritual na sua vida sobre a Terra.

“As pessoas no vosso mundo em especial médiuns em potencial, deveriam compreender a importância do controlo pessoal. Não só do temperamento – a referência do costume – mas do controlo das operações da mente, das ideias que entretém. Se incapazes de se controlar por esses processos, se destituídas da compreensão da necessidade constante de dirigir as energias mentais para a compreensão do puro e do verdadeiro na vida que Jesus ensinou, então não deveriam penetrar neste domínio a qualquer nível que fosse, nem tão pouco no da mediunidade, porquanto seriam influenciadas por forças oriundas do meu mundo que não são boas. Poderiam, por todos os meios, conversar com as pessoas espirituais por intermédio de médiuns, como os outros fazem, poderiam receber cura, mas jamais deveriam propor-se a um desenvolvimento nem deveriam juntar-se a um círculo familiar que estivesse em desenvolvimento.

“Há gente tola que penetra neste trabalho, devido à falta de compreensão, mas se agirem de forma idiota ou insensata ou colocarem perguntas insensatas receberão respostas insensatas e mesmo perigosas da parte do espírito. É fácil abrir as portas psíquicas pessoais mas as influências de muito podem penetrar. Mas as pessoas de confiança não brincam com isso.”

COMO O DOUTOR LANG COOPERA COM GEORGE CHAPMAN

Não é possível estabelecer uma demarcação clara entre a experiência de transe experimentada por George e a do doutor Lang. Ambos os caracteres acham-se de tal modo interligados que nunca podem dizer: ”Este é o meu lado; aquele é o teu.”

Para completar a história do transe, William Lang disse-me que podia encontrar-me com ele para lhe fazer perguntas relativas às questões aqui apresentadas. Fomos para a sala de consultório e o meu encontro começou com um pedido de esclarecimento relativo ao que o Dr. Lang  faz para assumir o controlo do seu médium. Eis o que me disse:

“Vou começar com o exemplo do dia de hoje. Percebi, pelo George, que se encontraria comigo depois de amanhã, de modo que não considerei que quisesse falar comigo hoje, apesar de também saber que o George não tinha qualquer mudança em mente. Quando ele discutiu isso consigo hoje, poderá ter notado que ele se ausentou  por uns instantes do escritório lá de casa. Foi para uma outra sala onde emitiu pensamentos dirigidos a mim a indagar se hoje calharia bem, uma vez que não havia pacientes e ele se sentia relaxado. Ele estabelece contacto comigo tipo telefone. Eu concordei, e ficamos junto dele para a viagem  até ao aeroporto para nos assegurarmos de que ele conduzia adequadamente e de que permanecia relaxado. Quando chegou eu estava preparado mas não regateei por ele ir aqui ou acolá com o Michael.


“Continuando, quando aqui chegou com o George ao consultório, eu já tinha estabelecido contacto com ele, de modo a combinar a minha vibração com a cor da sua aura. Na sua mente, ele conseguia divisar a minha face tão logo se sentou na cadeira, e eu sorri-lhe. Ele encontrava-se preparado e relaxado; o seu corpo espiritual deslocou-se eu simplesmente avancei e assumi o controlo. Sempre que asseguro o controlo asseguro-me de que o seu corpo físico continua a viver, e a minha banda de cura representa igualmente uma protecção. Eu encontro-me em sintonia com este trabalho de cura, sou simplesmente eu próprio mais as minhas expressões, as minhas próprias ideias, como se estivesse num consultório – que para o efeito é meu mesmo – e eu sinto-me completamente à vontade no corpo dele. Foi assim que cheguei a falar consigo hoje.”

Em resposta à minha pergunta, ele disse que não se apossa dele por estágios:
“O George por vezes interroga-se se será ele próprio ou o Dr. Lang – e há alturas em que eu sinto o mesmo em relação a ele, mas em transe isso não sucede. Recentemente, o George teve um problema com o seu braço direito; contraiu aquilo de que eu padeci, que provoca um tremor na minha mão direita, de modo que tinha que usar a esquerda mais nas operações cirúrgicas. Mais tarde o meu filho, que foi cirurgião, passou a trabalhar comigo com frequência e conseguia operar sob a minha orientação.

“Quando desejo contactar o George em qualquer altura, deixo o que estou a fazer e venho até onde ele me consiga ver. Desse modo ele obtém conhecimento e presta atenção. No caso de uma sessão de cura, que evidentemente é previamente combinada e tem o meu conhecimento e concordância, eu conduzo a mim os membros da minha equipa e revelo-lhes o propósito. Passamos para o consultório. Sempre que me aproximo o George tem consciência de luz e assim que me nota eu falo com ele. O seu corpo espiritual precisa deslocar-se antes que eu possa assumir o corpo. Ao fazê-lo, é aplicada uma pressão por entre os olhos e o cérebro do George, que abranda de modo a não captar pensamentos da sua mente enquanto se encontrar do lado do espírito.

Se o George estiver cansado, serão precisos uns empurrões daqui e dacolá, da minha parte a ajudar, a fim de completar o processo. O maior impedimento é a preocupação – se ele tiver passado por um período de preocupação, talvez com respeito aos afazeres domésticos, acúmulo de trabalho etc., isso ainda permanecerá ao redor do cérebro dele e impedi-lo-á de relaxar adequadamente.


A interferência será ligeira mas ficará a pairar e agarra-se à aura com a qual preciso completar a integração. A mina própria mente espiritual sente isso como uma intromissão e precisamos tratar o George a fim de lhe remover essa energia de preocupação. Nessas alturas não quero que os pacientes acorram em rápida sucessão porque até que o problema esteja resolvido preciso dispensar tempo junto dos primeiros dois ou três pacientes a fim de conseguir assegurar-lhes que a cura não estará por forma nenhuma em falta, nem nunca esteve.”

Perguntei se a preocupação retornava após o transe e o doutor Lang disse que sim, que começava de novo, como quando se coloca os problemas que temos para trás das costas e eles regressam.
“Quando todos os pacientes tiverem sido vistos e for tempo de deixar o George, fazendo ainda uso dele dou graças a Deus pelo privilégio que me é concedido e pela faculdade que e é prestar este serviço de cura, e expresso gratidão pela mente do médium, o meu instrumento, que me permite utilizar o seu corpo físico. A essa altura, membros da equipa dizem ao George que é tempo de regressar, e encaminham-no até aqui. Ao se aproximar eu sorrio-lhe e dirijo-lhe umas quantas palavras, como: “Voltarei a ver-te; agora alguém permanecerá contigo para te assegurar que nenhum espírito desnecessário interfira.” Nessas alturas o George sente paz e harmonia, sente-se completamente relaxado e gradualmente apossa-se do próprio corpo, retornando assim ao estado consciente, enquanto eu me ajusto às condições em que vivo.”

William Lang falou pessoalmente da passagem desta vida por que passou, a mim e à minha esposa. Tal como nas ocasiões anteriores, ele expressou o desejo de conversar connosco em nossa casa, de modo que combinamos com o George. Sentamo-nos no salão, o George numa poltrona. Após uma conversa de minutos o olhar dele tornou-se vidrado e ele deixou a conversa, que cessou, sentou-se erecto, inclinou-se ligeiramente para a frente três vezes e a seguir afundou-se um pouco na poltrona, e ficou em transe. William Langa falou, primeiro com respeito ao filho Basil, cuja morte prematura tinha sido motivada pela pneumonia, conversou também acera de sua filha Lyndon, a quem se sentia muito agradecido por se ter devotado durante tantos anos a tratá-lo, por ele ter vivido até idade muito avançada (85) e ter-se tornado frágil antes de passar desta vida. O médico prosseguiu:
“Tenho o prazer de me ver concedida a oportunidade de entrar no vosso lar para lhes falar, e pretendo falar-lhes acerca do meu mundo. Quando passei para este mundo o trabalho de cirurgião que eu exercera ajudou-me com respeito a certas ideias vagas que se prendem com a continuidade da vida das pessoas. Embora eu não antecipasse o modo, a par com a firma crença que tinha em Deus. 

Eu sabia que estava em busca, que estava a conseguir abranger, porém, não sabia o quê. A seguir cochilei durante muito tempo e enquanto o fiz, vi a minha mulher Susan, o meu pai, a minha mãe e a minha irmã. Estavam todos muito satisfeitos por me ver e eu a eles. Perguntei-lhes: “Onde é que estou? Estou a sonhar?” E a Susan disse: “Anda comigo.” Eu não tinha noção de a estar a acompanhar mas aquilo que vi a seguir foi uns enormes portões a uma certa distância, semelhantes aos portões de ferro das mansões adornados com complexas decorações. Não recordava ter visto qualquer suporte a sustentá-los. Caminhei na sua direcção mas não tenho ideia do que teria sob os pés; os portões era tudo quanto podia divisar, e uma vez junto deles, coo que vinda do nada, surgiu muita gente alegre e acolhedora que não consegui identificar, mas sentia-me satisfeito e tranquilizado por os ver, ao sentir que emanavam uma efusão de amor por toda a parte.

“Eu senti uma libertação. Sentia-me completamente livre dos cuidados e do fardo que tinha sido um corpo físico esgotado. Aquilo que vim a conhecer como o meu corpo etérico, a fonte de energia na Terra, deixou-me, por não mais necessitar dele, vi o meu corpo físico como uma caixa vazia e ele desvaneceu-se. Tinha sido o meu verdadeiro “Eu” que tinha atravessado aqueles portões. A vós, minha querida senhora, tenho referido muitas vezes o imenso amor que vejo em vós, de modo que se fosse capaz de sentir um amor que jamais pudesse ser posto em palavras, um amor espiritual não só por uma pessoa mas por todas as pessoas que vê, isso equivaleria ao que senti ao passar por aqueles portões, pois aí pude ver aqueles que tinha operado e aliviado ou curado. Eles tinham passado porventura motivados por doenças, mas ocorreu-me também, talvez vitimados por erros cometidos por mim. Era capaz de recordar cada um, e assim me revelaram o seu amor.

“Para além dos portões entrei num caminho em que agora me encontrava só. Toda aquela gente tinha desaparecido da vista e não mais conseguia sentir-lhes a presença. Pensei que estaria a sonhar e que dentro de pouco tempo acordaria. Mas não. Percorri o caminho e havia muitas outras veredas de ambos os lados. Fiz uma pausa a pensar e a tentar decidir, mas enquanto ali estava tive a percepção de que tinha mesmo morrido. Estava morto, tinha de estar, mas estaria a experimentar morte alguma? Estava surpreendido por nada de estranho me ter acontecido. Decerto que não deveria passar da condição em que me encontrava até que Deus viesse e se pusesse diante de mim com uma presença impressionante conhecedor de todas as coisas, que eu não iria suportar, para me dizer que eu não iria para o céu, ou, se eu acreditasse ser o destino a ter, um inferno de sofrimento e de penitência. Mas por mais que esperasse, nenhum Deus me surgiu enquanto olhava por entre a trepidação e névoa era a única coisa que vislumbrava. Nenhum Deus me surgiu, o que me levou a pensar que talvez não fosse assim, não fosse uma presença, de modo que prossegui.

“De imediato a minha mente tornou-se viva e alerta. Não mais parecia estar morto mas dotado de uma nova energia, e a névoa agora apresentava brilho. Surgiu uma senhora sorridente ao meu encontro que chegou bem perto e me pegou pelo braço para me conduzir por um dos caminhos que ela escolheu. Movi-me lenta mas facilmente, imaginando o que viria a seguir. Chegamos a um amplo hall; não tinha tido consciência de me aproximar de um edifício, somente de entrar no amplo hall, onde a senhora me deixou. Vi médicos e enfermeiros presentes, gente da minha própria profissão que me reconheceu ao chegar-se a mim, e que me disse que tinha passado para o mundo espiritual, mas como eu não compreendia os meus novos arredores, as actividades nem a minha própria situação, encontrava-me presentemente num plano inferior.

“Disseram que eu era livre de fazer perguntas, de modo que andei por ali e conversei com alguns e fiz perguntas; disseram-me para nada recear, mas que quando se morre e se passa da vida no corpo, se não tivermos um pouco de discernimento poderemos abrigar temor, e eu sentia receio, receio de Deus por ter consciência dos erros que tinha cometido. A seguir fui levado por essa gente da minha profissão e vi-me numa estrada comprida que percorri sozinho, uma vez mais a imaginar o que me iria suceder e onde iria dar. Agora conseguia perceber as redondezas: uma zona rural, havia trabalhadores nos campos, árvores de diversos tipos. Achava-me em meio à beleza, uma abundância de flores, criações de um tipo que não encontram na Terra. Encontrava-me mais decidido à medida que avançava. Então, ouvi uma voz clara e distinta que me disse: “É um bom espírito o que tens em ti, o que te guia e mantém no caminho recto.”

“Pareceu-me que caminhara por um tempo demasiado longo a pensar no que tinha sucedido, procurando captar o sentido. Então, irrompeu em mim um amor profundo como jamais tinha sentido antes, e com ele sobreveio a compreensão de coisas espirituais, que me limparam os problemas da mente. As névoas afastaram-se de mim e eu senti-me no limiar da descoberta de uma realidade espiritual. Em primeiro lugar, soube que estava vivo. A seguir fiquei meio suspenso, porque mais do que alguma vez antes, estabeleceu-se em mim uma profunda consciência das omissões, negligências, rejeições e outros erros cometidos na Terra porque que era responsável. Mas nenhum Deus veio até mim, julgar-me. Encontrava-se só e dispunha de toda a prova que me corria pela alma e me levava a julgar por mim próprio com sinceridade e a té ao mínimo detalhe. Nada além da revelação da verdade. A minha alma estava a ser purificada.

“Era agora meu desejo realizar a minha vida ao serviço dos meus semelhantes – um desejo avassalador – e então os céus pareceram abrir-se e foi-me permitido entrar num céu de beleza. Uma voz clara disse-me que com o amor que tinha descoberto e o conhecimento que possuía, poderia ajudar muita gente no espírito que tinha trazido consigo as condições de que padecera. Assim, fui tratar de lhes restituir a saúde dos eus corpos enfermos. Enquanto trabalhava apercebi-me que desejava ajudar os enfermos na Terra, e que para o fazer, precisava voltar por intermédio de um médium adequado e disposto a tanto. E conforme pude constatá-lo, fiz exactamente isso.

“Deixem que lhes conte um pouco acerca do mundo do espírito para o qual passarão. Não temos telégrafo nem jornais, telefone, e toda a gente aqui aprende a usar a sua mente e pensamento para comunicar com os demais. Além disso, as pessoas são treinadas para usar a mente, de modo que a informação possa ser prestada àqueles que na Terra disponham do dom de a receber. Também esses são treinados deste lado a desenvolver o dom, se o desejarem. Quando deixam a terra e passam para o espírito não acharão nada estranho; o mundo espiritual não apresenta nada de estranho. O vosso tempo aqui está destinado a esgotar-se e acham-se tão estreitamente ligados um ao outro que o intervalo entre a sua passagem e a da sua esposa será muito curta. Aqueles que os amam juntar-se-lhes-ão e viverão numa grande felicidade; obterão uma enorme compreensão das coisas.

“Enquanto estiverem na Terra obtenham conhecimento por isso ser muito importante quando retornarem ao vosso lar espiritual, mas por ora permitam que divague um pouco e permitam que o guia deste instrumento converse convosco numa voz que eu amei, mas que pedirei que mantenha tão suave quanto possível, antes de partir. Neste compartimento encontra-se muita gente espiritual esplêndida que demonstra um enorme amor; poderá tentar transfigurar o rosto deste meu instrumento, mas agora – Estrela Solitária.”

George Chapman ergueu-se lentamente e dando uns quantos passos deteve-se em frente à lareira, de frente para a parede do lado com os pés afastados e os braços abertos. Ergeu lentamente os braços para os lados até ficarem estendidos acima da cabeça. Ao empreender esses movimentos o que testemunhamos era impossível – o seu corpo físico alagou e cresceu em altura uns 45 cm. Os braços alongaram e o peito expandiu metade do seu tamanho normal. Quer isso tenha sido uma impressão mental depositada na nossa mente ou não, é coisa que não sei, mas o sucedido foi suficientemente real para nós, e estávamos em plena luz do dia naquela tarde. Erguendo lentamente a face para o tecto saiu do George uma voz num volume de profundidade de barítono como jamais ouvira nada igual. A esta altura a minha mulher encontrava-se verdadeiramente assustada, e a primeira reacção que teve foi imaginar o que a vizinha do lado pensaria daquela voz, enquanto ao mesmo tempo tinha a esperança de que não se encontrasse em casa. Então, ergueu-se da cadeira em que se encontrava num lanço e apressou-se a sair da sala dizendo que ia fazer uma chávena de chá. A voz extraordinária disse: “Eu, estrela Solitária, o guia deste instrumento, saúdo-os a partir do meu mundo no espírito. Conforme o Lang lhes disse, que controla este instrumento, não há razão alguma para que sintam medo. O vosso Deus é um Deus poderoso e enquanto utiliza esta mesma sala convosco, estende-lhes a Sua protecção; jamais temam. Deus é todo-poderoso, Deus, o Grandioso Espírito Branco, derrama o Seu amor pelos seus filhos, e não deseja que nenhum deles na terra padeça de sofrimento. (A minha esposa tinha regressado depois de ter posto a chaleira ao lume)

“Para si, senhora Cross, minha senhora, que emite excelentes condições do seu próprio corpo físico e da alma espiritual, se se sentasse num círculo com mais gente do seu género, desenvolveria em breve o dom da clariaudiência. Para o senhor Cross, o senhor emite a partir do seu corpo um poder magnético tal que, quanto certas pessoas com quem se cruza conversam algum tempo consigo, esse poder é-lhe tirado e o seu estado de saúde diminui. É por meio disso que a doença se instala nos músculos da língua e lhe causa dilatação e outros estados. Isso é produzido pelo espírito. Possui uma mente que o ajuda a pensar e a conversar com sensatez. Continue a aprender por meio da literatura conforme o Lang lhe disse, e jamais se sentirá só com respeito ao espírito.

“O homem destrói os animais que adoramos. Neste mundo os animais deambulam com o homem mas não o destroem conforme poderão pensar. O homem come-lhe a carne e adopta as vibrações do medo, o que provoca doença. Amor e compreensão fazem-se necessários se o homem quiser livrar-se dos alimentos que lhe são prejudiciais, e o homem aproximar-se-á uma vez mais de Deus. Agradeço-lhes.”

George lentamente baixou os braços para os lados ao mesmo tempo que retornava à sua estatura normal e voltava a ocupar o assento. Estrela Solitária tinha partido e William Lang regressou dizendo: “Agora que retorno a esta sala constato raios maravilhosos que iluminam o meu mundo. Estrela Solitária é o Padrinho Espiritual do George. Ele possui muitas actividades espirituais e é um curador ainda maior do que eu. Vocês os dois podiam ir de mãos dadas procurar mais, com consciência de que aquilo que fazem é certo. Deus caminha a vosso lado todos os dias, e chegará tempo em que os vossos espíritos constatarão a sobrevivência.

“Queremos que as pessoas na terra conversem mais connosco no espírito; não nos temam como algo mau, conforme muitos dos meus amigos hoje fazem nas Igrejas. Então, a religião ocupará um lugar apropriado nos corações das pessoas e elas seguirão uma religião de bondade e de amor e de gentileza para com as criaturas companheiras. Se o Arcebispo Lang, que indagava acerca do Espiritualismo há muitos anos atrás, pudesse voltar a gozar do seu tempo na Terra de novo, haveria de falar acerca da verdade do que descobriu. Lamentamos que a vossa gente não venha a público revelar a verdade. Conforme dissemos antes, as pessoas que frequentam as Igrejas poderão ser profundamente sinceras naquilo que dizem e no que acreditam seja certo, mas muitas das suas crenças não possuem verdade. Não há qualquer garantia de verdade em parte alguma. Busquem sempre no vosso coração e na história dos diferentes povos. Deus é amor. 

“Vejo diante de vós os dois um grupo de homens reunidos como numa Igreja. Vocês entram e escuta-se uma música maravilhosa como jamais terão ouvido na Terra, que comporta amor, sentimento e beleza, e enquanto falo, uma bela senhora, a senhora Cross, estende ambas as mãos e toma as suas nas dela. O poder do amor escorre dessa criança para si.

“Na Terra, uma irmã que não chegou a casar e que sempre seguiu o caminho da ajuda aos outros, como fazem todos os homens e mulheres da profissão médica. Ela deu a sua vida pelos outros; agora, a vida brota fortemente dela. Ela possui conhecimento do mundo do espírito e se vocês se interessarem em profundidade por este mundo, essa senhora será uma das que os guiarão, guardarão, falarão convosco e os deixarão comovidos. O seu nome foi Joana. Também vejo uma irmã de caridade com uma cruz sobre ela – ela ajudá-los-á a compreender o verdadeiro significado de Deus.

Senhor Cross, parecer-lhe-á estranho que um homem dotado de uma mente poderosa e repleta de conhecimento se lhe venha a dar-se a conhecer á medida que se estender neste trabalho. Ele é um mestre que irá contribuir para a sua mente com muitas coisas maravilhosas, que virão a ser postas por escrito. Fico grato a ambos.”

Do Livro: "Facts not Fiction" de WR. Cross
Traduzido por Amadeu António 2016



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