quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

TERÁ A EDUCAÇÃO POR OBJECTIVO A LIBERDADE, E A LIBERDADE A META DA EDUCAÇÃO?






Quem nada conhece, nada ama.
Quem nada pode fazer, nada compreende.
Quem nada compreende, nada vale.
Mas quem compreende também ama, observa e vê…
Quanto mais conhecimento inerente a uma coisa se tiver, tanto maior será o amor…
Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas, nada sabe a respeito das uvas.
Paracelso


Erich Fromm

Acerca do experimento da Escola Summerhill



Durante o século dezoito, as idéias de liberdade, democracia e autodeterminação foram proclamadas por pensadores progressistas; e por altura da primeira metade da década do século vinte, essas idéias chegaram a ser concretizadas no campo da educação. O princípio básico da autodeterminação assentava na substituição de autoridade pela liberdade, ensinar a criança sem recurso à força mas ao apelo da sua curiosidade e necessidades espontâneas, captando desse modo o seu interesse pelo mundo que a rodeia. Essa atitude marcou o início da educação progressiva e representou um passo importante no desenvolvimento humano.

Contudo, os resultados deste novo método foram muitas vezes decepcionantes. Nos últimos anos instalou-se uma crescente reação contra a educação progressiva. Hoje, muitas pessoas acreditam a própria teoria esteja errada e que deva ser posta de parte. Há uma forte tendência para conseguir uma maior disciplina, e até mesmo uma campanha para permitir que os professores de escolas públicas apliquem castigos corporais aos alunos.


Talvez o factor mais importante nessa reação seja o sucesso notável no ensino realizado na União Soviética. Aí, os antiquados métodos de autoritarismo são aplicados com todo o rigor; e os resultados, no que se refere aos conhecimentos, parecem indicar que seria melhor voltarmos às velhas disciplinas e pôr de parte a liberdade da criança.

Estará a ideia da educação sem força errada? Mesmo que a ideia em si não esteja errada, como explicar o seu relativo malogro?

Acredito que a ideia da liberdade para as crianças não seja errada, mas foi quase sempre pervertida. Para discutirmos este assunto com clareza, devemos antes de mais compreender o natureza da liberdade; e para tanto precisamos estabelecer a diferença entre autoridade manifesta e autoridade anônima.

A autoridade manifesta é exercida directa e explicitamente. A pessoa em posição de autoridade fala com franqueza àquele que se acha sujeito a ela, "Você deve fazer isto. Se não o fizer, certas sanções ser-lhe-ão aplicadas." A autoridade anónima tende a esconder a força que está a ser empregada.

A autoridade anónima finge que não existe nenhuma autoridade, que tudo é feito com o consentimento do indivíduo. O professor do passado dizia ao João, "Tens que fazer isso. Se você não, eu vou punir-te;" o professor de hoje diz: "Eu tenho certeza que vais gostar de fazer isso." Aqui, a sanção por desobediência não assenta no castigo corporal, mas no rosto penalizado dos pais, ou, o que é pior, transmitir a sensação de não ser "ajustado", de não agir como os demais. A autoridade manifesta usava a força física; a autoridade anônima emprega a manipulação psíquica.

A mudança da autoridade manifesta, do século dezanove, para a autoridade anônima do século vinte foi determinado pelas necessidades de organização da nossa moderna sociedade industrial. A concentração de capital levou à formação de empresas gigantes geridas pelas burocracias hierarquicamente organizadas. Grandes conglomerados de trabalhadores e de funcionários trabalham em conjunto, em que cada indivíduo é uma parte de uma vasta máquina de produção organizada, que no interesse de uma boa execução, deve funcionar sem problemas e sem interrupção. O trabalhador individual torna-se apenas numa engrenagem da máquina. Numa organização de produção dessas, o indivíduo é gerido e manipulado.

E na esfera do consumo (na qual o indivíduo supostamente expressa liberdade de escolha), ele é também gerido e manipulado. Quer se trate do consumo de alimentos, vestuário, bebidas, cigarros, filmes ou programas de televisão, um poderoso aparelho de sugestão trabalha com dois propósitos: primeiro, para aumentar constantemente o apetite do indivíduo por novas comodidades; e em segundo lugar, para dirigir estes apetites para os canais mais rentáveis para a indústria. O homem é transformado no consumidor, a amamentação eterna, cujo único desejo é o de consumir mais e "melhores" coisas.

O nosso sistema econômico precisa criar homens que se adaptem às suas necessidades; homens que cooperem sem problemas; homens que desejem consumir cada vez mais. O nosso sistema precisa criar homens cujos gostos sejam padronizados, homens que possam ser facilmente influenciadas, homens cujas necessidades possam ser antecipadas.
O nosso sistema precisa de homens, que se “sintam livres e independentes,” mas que, apesar disso, estejam dispostos a fazer o que deles se espera, os homens que se ajustem à máquina social, sem causar atrito, que possam ser guiados sem emprego da força, que possam ser conduzidos sem líderes, e que possam ser dirigidos sem qualquer objetivo a não ser o "ter sucesso." Não é que a autoridade tenha desaparecido, nem sequer que tenha perdido o seu vigor, mas que tenha sido transformada de autoridade manifesta da força numa autoridade anônima de persuasão e de sugestão. Por outras palavras, a fim de se adaptar, o homem moderno é obrigado a alimentar a ilusão de que tudo é feito com o seu consentimento, mesmo que tal consentimento lhe seja extraído através da subtil manipulação. O seu consentimento é obtido, por assim dizer, por trás das costas, ou para além da sua consciência.

Os mesmos artifícios são empregados na educação progressiva. A criança é forçada a engolir
a pílula, mas a essa pílula é aplicada uma cobertura de açúcar. Pais e professores têm confundido a verdadeira educação despida de autoritarismo com a educação por meio da persuasão e da coerção ocultas. A educação progressiva viu-se assim degradada. Não conseguiu tornar-se no que pretendia ser e nunca se desenvolveu como se esperava.

O sistema de Alexander Sutherland Neill constitui uma abordagem radical no que diz respeito à educação da criança. Na minha opinião, o seu trabalho é de grande importância, pois representa o verdadeiro princípio da educação sem medo. Na escola Summerhill a autoridade não mascara um sistema de manipulação. A escola Summerhill não expõe uma teoria; relata a experiência real de quase 40 anos. O autor afirma que "a liberdade funciona."

Os princípios subjacentes ao sistema de Neill são apresentados de forma simples e inequívoca neste trabalho. São estes, em resumo:

I. Neill mantém uma fé inquebrantável "na bondade da criança." Ele acredita que a criança média não nasce deformada, covarde, nem um autômato destituído de alma, mas que tem plenas potencialidades amar a vida e por ela se interessar.

II. O objectivo da educação – que na verdade vem a ser o objectivo da vida - é trabalhar jubilosamente e descobrir felicidade. A felicidade, de acordo com Neill, significa ter interesse pela vida; ou como diria eu, responder aa apelo da vida não apenas com o cérebro, mas com a própria personalidade inteira.

III. Na educação, o desenvolvimento intelectual não é suficiente. A educação deve ser tanto
intelectual quanto emocional. Na sociedade moderna, encontramos uma separação cada vez maior entre o intelecto e o sentimento. As experiências do homem de hoje são principalmente experiências de pensamento ao invés de uma compreensão imediata do que o seu coração sente, os seus olhos vêem e os seus ouvidos ouvem. Na verdade, esta separação entre intelecto e sentimento levou o homem moderno a um estado esquizóide em que se tornou quase incapaz de experimentar qualquer coisa, exceto pelo pensamento.

IV. A educação deve ser orientada para as necessidades psíquicas e capacidades da criança. A criança não é altruísta. Ela ainda não ama no sentido do amor maduro do adulto. É um erro esperar de uma criança algo que ela só pode exibir apenas de forma hipócrita. O altruísmo desenvolve-se após a infância.

V. Disciplina, dogmaticamente imposta, e punição criam medo; e medo gera hostilidade. Esta hostilidade pode não ser consciente e manifesta, mas apesar disso paralisa o esforço e a autenticidade do sentimento. A extensa disciplina imposta às crianças é prejudicial e impede um desenvolvimento psíquico sadio.

VI. Liberdade não significa licenciosidade. Este princípio muito importante, enfatizado por
Neill, diz que o respeito pelo indivíduo deve ser mútuo. Um professor não utiliza força contra a criança, nem a criança tem o direito de usar da força contra o professor. Uma criança não pode intrometer-se com o adulto só por ser uma criança, nem pode a criança usar a pressão que de várias maneiras que tem ao seu alcance.

VII. Intimamente relacionada com este princípio, está a necessidade de uma verdadeira sinceridade por parte do professor. O autor diz que nunca, nos seus 40 anos de seu trabalho em Summerhill mentiu a uma criança. Quem quer que leia este livro ficará convencido de que esta declaração, que pode soar como jactância, é a simples verdade.

VIII. O desenvolvimento humano saudável faz com que seja necessário que uma criança eventualmente, rompa os laços primários que a ligam ao pai e à mãe, ou posteriormente aos substitutos na sociedade, a fim de se tornar verdadeiramente independente. Deve aprender a enfrentar o mundo como um indivíduo. Deve aprender a encontrar a sua segurança não em nenhum apego simbiótico, mas na sua capacidade de compreender o mundo intelectual, emocional, e artisticamente. Deve usar todas as suas forças para descobrir a união com o mundo, ao invés de procurar a segurança através da submissão ou do domínio.

IX. Os sentimentos de culpa têm principalmente a função de vincular a criança à autoridade.
Os sentimentos de culpa são um impedimento para a independência; eles iniciam um ciclo, que oscila constantemente entre a rebelião, o arrependimento, submissão e uma nova rebelião. A culpa, como a maioria das pessoas na nossa sociedade a sentem, não constitui principalmente uma reação à voz da consciência, mas essencialmente uma consciência de obediência contra a autoridade e medo de represálias. Não importa se essa punição é física ou uma privação do amor, ou se a pessoa é simplesmente levada a sentir-se um estranho. Todos esses sentimentos de culpa geram medo; e medo gera hostilidade e hipocrisia.

X. A escola Summerhill não propõe uma educação religiosa. No entanto, isso não significa que Summerhill não se interesse com o que poderia ser vagamente chamado de valores humanísticos básicos. Neill coloca a questão de maneira sucinta: "A batalha que se trava não é entre crentes e descrentes na teologia; é entre os que acreditam na liberdade humana e os que acreditam na supressão dessa liberdade humana." O autor continua:" Um dia destes, uma nova geração deixará de aceitar a religião obsoleta e os mitos de hoje. Quando a nova religião vier, ela irá refutar a ideia do homem ter nascido no pecado. A nova religião irá louvar a Deus por ter tornado os homens felizes. "

Neill é um crítico da sociedade atual. Ele enfatiza que o tipo de pessoas que desenvolve é massificado. "Estamos a viver numa sociedade insana" e "a maioria das nossas práticas religiosas constituem uma impostura. "Logicamente, o autor é um internacionalista, e detém a posição firme e intransigente de que a prontidão para a guerra constitui um atavismo bárbaro da raça humana. Na verdade, Neill não tenta educar as crianças para se encaixar bem no ordem existente, mas se esforça por criar crianças que se tornem seres humanos felizes, homens e mulheres cujas noções dos valores não seja a de ter muito, não usar muito, mas a de ser muito. Neill é um realista; ele consegue ver que mesmo que as crianças que educa não venham necessariamente a ser extremamente bem-sucedidas no sentido mundano, tenham adquirido um sentido de autenticidade que impeça que efectivamente se tornem desajustados ou mendigas esfomeados. O autor tomou a decisão entre o desenvolvimento integral humano e o êxito integral de mercado - e é intransigentemente honesto na forma como persegue o caminho para esse objetivo.

A leitura deste livro deixou-me bastante estimulado e incentivado. Espero que o mesmo aconteça com muitos outros leitores. Isso não quer dizer que concorde com todas as afirmações do autor. E certamente a maioria dos leitores não lerá este livro como se fosse um Evangelho, e tenho a certeza que o autor seria o último a gostar que isso aconteça.

Posso referir dois pontos sobre os quais faço as minhas principais reservas. Eu sinto que Neill pouco subestima a importância, o prazer e a autenticidade de uma compreensão intelectual em favor de uma compreensão artística e emocional do mundo. Além disso, o autor encontra-se mergulhado nas suposições de Freud; e, ao que me parece, ele subestima a importância do sexo, como os freudianos tendem a fazer. No entanto, mantenho a impressão de que o autor é um homem dotado de uma verdadeira compreensão, do que se passa numa criança pelo que estas críticas referem-se mais a algumas das suas formulações do que à sua abordagem actual que faz da criança.

Sublinho a palavra "realismo" porque o que mais me impressiona na abordagem do autor é a sua capacidade de ver, discernir por entre o fato da ficção, para não se deixar levar pelas racionalizações e ilusões pelas quais a maioria das pessoas vive, e com as quais elas bloqueiam a experiência autêntica.
Neill é um homem possuidor de uma espécie de coragem rara nos dias actuais, a coragem de acreditar no que vê, e de combinar realismo com uma fé inabalável na razão e no amor. Mantém uma intransigente reverência para com a vida, e um respeito pelo indivíduo. É um experimentador e um observador, não um dogmático, caracterizado por uma participação egoísta por aquilo que faz. Combina educação com terapia, mas para ele a terapia não é questão separada cujo fim seja o de resolver alguns "problemas" especiais, mas simplesmente como processo de demonstrar à criança que a vida é para ser entendida e aproveitada, e não para fugirmos dela.

Ficará claro para o leitor que o experiência aqui relatada não é necessariamente uma que possa ser repetida muitas vezes na nossa sociedade atual. Isso depende não só do facto de ser realizada por uma pessoa extraordinária como o Neill, mas também por alguns pais terem a coragem e a independência de pensar mais na felicidade das crianças do que no seu "sucesso". Mas tal facto de maneira nenhuma diminui a importância desta obra.

Mesmo que não exista nenhuma escola como Summerhill nos Estados Unidos actualmente, qualquer pai poderá colher proveito com a leitura deste livro. Ela vai desafiá-lo a repensar a abordagem que usa para os seus filhos. Perceberá que a maneira que o Neill tem de lidar com as crianças é bastante diferente da maioria daquelas que as pessoas com desdém põem de lado como "permissivas". A insistência que Neill faz num certo equilíbrio caracterizado por uma liberdade sem licença do relacionamento pai-filho constitui o tipo de pensamento que pode mudar radicalmente as atitudes de casa.

Os pais reflectidos ficarão chocados ao perceber a extensão da pressão e do poder que involuntariamente usam contra a criança. Este livro deve fornecer novas definições para os termos amor, aprovação e liberdade. Neill revela um intransigente respeito pela vida e pela
liberdade e uma radical negação do uso da força. Crianças criadas por tais métodos desenvolvem em si as qualidades da razão, do amor, da integridade e da coragem, que são
os objetivos da tradição humanista ocidental. Se isso pôde acontecer certa vez em Summerhill, pode acontecer em toda a parte uma vez as pessoas estejam prontas para isso. Na verdade não existem crianças problemáticas, como diz o autor, mas apenas "pais problemáticos" e "humanidade problemática." Acredito que o trabalho de Neill seja semente que germinará. Com o tempo, as suas idéias irão acabar por obter o reconhecimento geral numa nova sociedade, na qual o próprio homem e a sua expansão constituam o objectivo supremo de todos os esforços sociais.

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