quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

LAO TZU - TAO TE CHING 1ª PARTE



Tao Te Ching
de   Lao Tzu
Tradução, apresentação e comentários da autoria de
Amadeu António 2002
TRATADO DO CAMINHO, DA VIRTUDE E DA VIDA
Um Clássico de Ética e Excelência
Um código de Conduta Subordinado
À Arte de Viver

Apresentação
                
  Esta é uma obra de extraordinária importância e actualidade, tanto do ponto de vista cultural como humano, portadora como é duma exuberante psicologia, bastante anterior à eclosão do cristianismo, facto esse que é denunciado, desde logo, pela ausência de conceitos teístas, e por isso pretende superar o terreno escorregadio da subjectividade e da suposição. Mas, justamente por isso, dá prova da perfeição de todo um conhecimento cosmológico e metafísico que se propõe alargar horizontes rumo a um entendimento mais amplo e consistente do homem, sem deixar de apontar (por entre a denúncia dos valores vigentes, subjacentes aos preceitos doutrinários do dogma religioso e científico, de um certo puritanismo, da mera representatividade e da institucionalização e de toda uma moralidade gratificante ao ego) razões dum mal-estar dominante, tanto ao nível social como individual, de que de resto é um reflexo. Um tratado pois, que se mantém actual, exacto e imperecível, tanto pelo seu carácter intemporal como pelo contexto cosmogónico em que se insere.

   Contudo, trata-se também e essencialmente de um ensaio sobre sabedoria e arte de viver, imbuído que está dum inestimável cunho singular assente na autodescoberta e na abertura de espírito, indispensável para o desenvolvimento de todo aquele que nutra um profundo sentimento de reverência e sensibilidade pela vida, tanto no seu todo como no particular. Não se trata de nenhum tratado moral, como poderá parecer à primeira vista - é fundamental realçá-lo - porquanto não tem a preocupação de veicular qualquer noção de dever, juízos de valor nem preceito doutrinário, mas tão só realçar, em traços um tanto ímpares, uma ética intrínseca à realização da consciência pela atenção plena.

   Assim, se o leitor pensa aqui encontrar encorajamento moral, ao estilo das correntes espiritualistas inerentes a toda a religião ou culto - “pensamento positivo”, prática da virtude, do “amor fraternal, encorajamento da observação de preceito, etc..” - desengane-se. Do mesmo modo se notará a ausência de qualquer apologia favorável à sobrevivência à morte física, à preexistência da alma, a Deus, à reincarnação, etc., porquanto tudo isso, para além de se enquadrar num contexto cultural e religioso algo distinto e mesmo peculiar de cada época, se favorece a especulação e a disputa de quantos se inclinam contra ou a favor, resultando da tendência para a defesa com base na lógica, para além de espiritualmente ser pueril por primar essencialmente pela argumentação (assente na convergência e na divergência das ideias) - inserida como ainda está no campo do relativo, pois do mesmo modo que a palavra não é a coisa (exactamente como o descrito não se acha na descrição) também a explicação falha em substituir a experiência directa ou a compreensão intuitiva instantânea (revelação).  O que não quer dizer que o produto dessa subjectividade possa ser considerado menos real – em absoluto! Não obstante isso configurar-se-á sempre à crença, (algo cuja veracidade jamais poderá tornar-se objecto de prova nem tampouco de imposição).

   Pretende-se, ao contrário, numa sociedade rendida em extremo ao cálculo e satisfeita com suas conquistas e superstições, em que nos é dado assistir a uma confusão e perversa interpretação arbitrária dos valores (embora permeada duma crescente inquietação e mesmo de uma inquirição), suscitar mais interrogações do que fornecer respostas porquanto se torna imperativo que aprendamos a pensar por nós próprios (o que não significa ter opiniões definidas, convenhamos) – e sobretudo a considerar de maneira diferente, coisa que as religiões, com os seus apelos à fé cega e à rejeição da dúvida (que têm por objectivo unicamente o controle das massas, junto com a ciência e a política) não estimulam. Mas para tal fim temos que aprender COMO pensar - ao invés DO QUE PENSAR - sem o que sempre seguiremos os que se investem de autoridade, e se arvoram em nossos intermediários e representantes. E no terreno da verdade (subentenda-se por isto espiritualidade, consciência, conhecimento) não existe autoridade alguma para além da que auferimos pelo esclarecimento; ninguém tem qualquer supremacia e como tal toda a noção de superioridade será redundante!

   O conteúdo não se presta a eufemismos, como à primeira vista poderá parecer, nem estabelece qualquer premissa, porquanto não parece preocupar-se com a fútil e inconsequente acção moralista do juízo de valor gratuito; por isso mesmo não faz o menor apelo a uma saída fácil dos problemas com que nos debatemos - nem à negação ou sublimação implícitas que parecem caracterizar, de forma sub-reptícia, a corrente do pensamento positivista, constituindo antes uma afirmação absoluta e categórica do carácter libérrimo, pleno, perfeito e equilibrado do Ser, ou Natureza, carácter esse que circunscreve a um só tempo Homem, Consciência, Mente, Universo, Ordem, Globalidade e Vida, e que – somos levados a crer – exprime, senão o sentido último, pelo menos a glória da criação.

   Gostaria de procurar realçar que o seu escopo primordial tem por objectivo a realização da suprema liberdade, que reside em nos tornarmos a própria “lei” (sermos uma luz em nós próprios) e não em submeter-nos, quer pela sujeição quer pela mera reacção à falsa autoridade, que pavimentam os caminhos de toda a realização parcial e menos crível. Mas, consciente de não se poder alcançar o esclarecimento partindo do ponto de vista de uma qualquer assunção positivista, filiando-se num partido, ou seguindo um culto qualquer (presunção dogmática, opinião formada, preconceito ou encorajamento da crença que tais sistemas comportam) isso requer todo um trabalho de desconstrução de toda a estrutura idealista, lógica e supersticiosa atrás do que o “eu” negativo e mesquinho se oculta e com o que se mascara, em meio às metamorfoses subjacentes ao temor e à desconfiança. Constitui, portanto, como que um grito de dignificação do homem perfeitamente comum e anónimo, e em favor da maximização da condição de abertura para com o sentido real da vida e da consciência na sua inteireza. Afinal, nós somos maiores do que a vida, ou não sejamos nós os seus arquitectos!

    No plano literário, este trabalho constitui, antes de mais, uma tentativa livre e despretensiosa de elaboração da síntese.
   Ao longo dos últimos anos tem surgido uma panóplia de traduções populares desta obra no ocidente, tanto em idioma francês como, mais predominantemente em inglês, que na sua globalidade representam um modelo daquilo que podemos depreender como representações dum suposto “original."

Pessoalmente, todavia, não tive o cuidado de seguir essa orientação dita “original.” E se, por um lado, de algum modo omiti pela falta duma exposição mais concisa - pelo menos na forma afecta aos moldes que todos os autores procurariam preservar (porquanto é sinal de génio tratar ou expor assuntos difíceis com a máxima simplicidade) tendo-o alargado, de forma talvez até mesmo desmesurada em determinadas passagens, ficará isso a dever-se ao facto de pensar que, por mais elegante e sinóptica ou resumida que essa brevidade possa ser jamais poderá, pela natureza das coisas, levar em conta a complexidade intrínseca à sua natureza, além do que, tratando-se de um tema com tal profundidade de carácter, só se pode ser breve à custa da omissão e do excesso da simplificação. E, se por um lado, a omissão e a simplificação nos ajudam a compreender, a compreensão daí resultante poderá resultar defeituosa (justamente por ser uma compreensão de noções nitidamente demarcadas, ao invés da realidade vasta e intricada a partir da qual tais noções são, por assim dizer, abstraídas). Depois, essencialmente porque destino este trabalho ao leitor principiante e menos culto (à imagem da minha própria condição, de resto), destituído de uma desenvoltura psicológica ou filosófica cabal, mas igualmente capaz de apreender todo um sentido que infere na natureza do seu ser.

   Não obstante, procurei sempre escolher o exemplo adequado e a comparação esclarecedora a fim de procurar suscitar tal efeito junto do leitor. Por outro lado achei tornar-se necessária a combinação de todas as traduções já realizadas a fim de revelar a riqueza latente do Lao Tzu.
 
   Por tais razões, não o posso sugerir como uma cópia exacta do texto original - além do mais, volto a frisar, por ser impossível determinar com precisão e absoluta certeza que alguma vez tenha existido um formato original, por entre o emaranhado de transcrições de textos anteriores, reinterpretações, interpolações, etc. Ainda assim, talvez possa referi-lo em termos mais exactos como uma tradução elaborada de forma a apurar uma versão fiel ao espírito que deixa implícito, que procuro aqui tornar tão inteligível quanto possível e que possibilite reavivar o seu conteúdo a par das referências culturais actuais, sem com isso deixar de corresponder ao escopo primordial de sentido que se depreende de cada uma das variadas traduções. A obra, em si mesma monumental, tanto pelo conteúdo quanto pelo cunho singular que a caracteriza ao longo de toda a sua extensão, exige desde logo um profundo trabalho de reflexão, de forma a nos tornarmos capazes de intuir a sua essência viva, sem o que correrá o risco de parecer  dotada de um sentido hermético e obscuro.

  Ressalta também deste estudo o facto de o pensamento não poder expressar a totalidade daquilo que nós somos, bem como a particularidade da harmonia interior constituir o único garante do equilíbrio a todos os níveis do ser e do viver. Todavia, a sua realização - que se constitui na razão central de tudo quanto é aqui tratado - escapa às formulações de toda a motivação ou esforço, que se traduz pelo móbil do desejo, por não circunscrever à partida quaisquer traços de acção exclusivistas ou sectárias (uma vez que a natureza da verdade, tão cara ao autor, é incriada e não se cinge ao campo do tempo nem do espaço mas traduz uma grandeza transcendental e impessoal) passando antes pela reeducação do indivíduo sob a premência de uma busca vital e sentida de significado para toda uma vida finalmente apreendida nos exactos limites do contraste e do paradoxo.

   O sentido primordial do autor focaliza-se no “Tao”, que significava, originalmente Caminho”; Tao é o caminho, ou processo do universo, a ordem cíclica da natureza, a realidade última e indefinível; é o processo cósmico, a dinâmico no qual todas as coisas se acham envolvidas e pelo que se tornam indissociáveis; tal processo alcança especial relevo, no aspecto da realização dessa consciência “original”, por meio do “não-saber” - da descoberta e da consequente negação de todo propósito separatista ou elitista (o “não-pensamento”, desconhecimento ou autenticidade isento da afectação do juízo, ou da duplicidade assente em bem e mal, certo e errado) que constitui um estado de virtude por excelência, anterior que é à consciência (e por isso Inconsciente) também caracterizado por uma anulação das distinções dos contrários psicológicos, bem como da subjectividade primordial inerente ao eu e tu - nós e eles. A essência da sua mensagem consiste em fazer-nos perceber que só podemos colher de verdade por meio de uma abertura total da atenção não linear - que comporta todo o tempo, por nenhum outro existir - e jamais em função de uma objectivo ou fim, enquanto projecção dos opostos psicológicos. E isso faz toda a diferença. A via do apego, a via da imagem, da sensação, são condutoras ao reforço da ilusão e do sofrimento. Por tudo isso consiste numa mensagem que aponta para uma atitude de questionamento geral e de indagação sobre os fundamentos da separação que conduzirá finalmente ao silêncio interior onde o sentido da unidade e do sagrado se fazem ouvir.

   Contrariamente ao que se instituiu tanto pela prática duma tradição secular, como mesmo da cerimónia religiosa, o sistema vigente debruça-se sobre si próprio, ou seja, peca pela excessiva ênfase que confere à desordem e à dicotomia, para completa subversão de uma ordem cujo carácter se adivinha indiscutivelmente superior a toda a elaboração meramente mental, empírica e fortuita, tendo-se tornado, por isso mesmo, dessacralizado. Contudo, a realização do “Princípio” aqui enunciado não deve brotar do exercício da vontade nem da arquitectura da imagem, mas eclodir, ao invés, de uma qualidade singular de discernimento, de uma percepção não diferenciada e responsável mas dotada de um carácter absoluto; da Ideia, que não se circunscreve ao terreno do pensamento por si só mas existe para lá de toda a atrapalhação e anseio fútil por soluções, aquilo que, em última análise, constitui um simples produto da criação subjectiva do temor e do hábito conformista, ou seja, é anterior à projecção e assertivo por ser o que é (veículo da transcendência).

   Tal facto resume - sem precisarmos deixar-nos resvalar para os declives do niilismo - uma certa preocupação por salientar a importância da transformação pessoal bem como fazer ver a total ausência de função que a aparência pode desempenhar nesse processo de transformação da consciência, e o quanto o factor "vontade" isoladamente, não concorre para a mudança daquilo que É tal como É -- íntegro em si mesmo -- e que, qual espéculo da nossa condição original e eterna, requer somente que desenvolvamos uma apurada sensibilidade para com a sua totalidade de sentido e amplitude fenomenológica.

   A verdade do nosso caminho é, sob variadíssimos aspectos, única, porquanto se reporta a nós próprios: nós que o criamos de modo consciente ou complacente com a distracção; nós que o trilhamos melhor ou pior; nós que temos que optar e proceder a escolhas, que tanto mais difíceis se anunciam quanto mais tendemos a abordá-las de forma frívola, etc. Contudo, engloba ela um conjunto de disposições que cumpre ter bem presentes a fim de não incorrermos no risco de a tomarmos pelo que não é, caindo desse modo num devaneio ingénuo, ou de cedermos às garras da ambição cega e insensata. E nisso somos constantemente postos à prova no que de mais inconsistente nos caracteriza, sob o peso das nossas ânsias de realização (quer sejam melhor ou pior fundamentadas) aspecto crucial esse que nos conferirá “têmpera” ao carácter e determinará a firmeza interior, sem os quais não poderemos suplantar os estágios superficiais como a vaidade e o temor por meio dos quais somos levados a vacilar ao longo da jornada. Trata-se assim de uma verdade tão intemporal quanto é certo sermos nós a ter que (mais tarde ou mais cedo) aprender a resolver os nossos próprios problemas e a responder aos nossos dilemas e paradoxos, desenvolvendo para o efeito a necessária intensidade de aplicação, de abertura e de entrega que eles requerem, tanto sob o ponto de vista moral como ético.

Essa provação, repito, constitui um desafio imbuído do mais elevado propósito: o de nos levar a encontrar “respostas” que a um só tempo compreendam a magnanimidade da inteligência e da sensatez presentes em toda a questão que requerem equilíbrio e a atitude correcta, respostas que devem brotar de um espírito de desprendimento, de espontaneidade e aceitação de si próprio, na sua condição natural desafetada, e que requerem unicamente uma atitude de elegância e de recusa da violência e do esforço.

   É um tanto mais fácil (e nem por isso menos legítimo, diga-se de passagem) seguir a via do ajustamento ao séquito, às massas, por a noção de pertença nos garantir sensação de alívio e segurança, e nos satisfazer a complacência com as suas promessas de reconhecimento e de louvor. Muito poucos se sentem inclinados a deixar-se assaltar pela dúvida, a deixar-se ficar aparte, em silêncio, já que nada disso garante qualquer das anteriores prerrogativas. No entanto, é nesse terreno que toda a semente de descoberta deve germinar, em que nós nos capacitamos de igual modo a abraçar um mais pleno sentido de ser e de viver. Por outras palavras, a vida - que em coisa nenhuma tende a ser estática nem permanente - sempre nos empurra, por obra de contingências múltiplas, eleitas no fulgor do propósito pessoal, para um despertar do adormecimento deste doce embalo que é a letargia dos sentidos, rumo a uma condição cristalina, qual gema rara e sem jaça que só reflecte a luz uma vez perfeitamente polida.
Muitos podem ser os caminhos conquanto um só seja o processo do viver; esse somos nós que temos de apurar, por uma “resposta” adequada, dada no nosso próprio ritmo e segundo a nossa capacidade.

  Não pode subsistir sabedoria sem virtude (e o oposto é passível de ser válido); do mesmo modo, porém, também não se pode esperar criar harmonia se não usarmos de uma atitude equilibrada; o que infere no facto de ambos os aspectos poderem somente ser sustentados numa postura sensata e concisa, isenta de arrogância e presunção e sobretudo desse veneno tão comum da incoerência – que consta de dizer uma coisa e praticar outra totalmente contrária! Efectivamente o desejo que brota da percepção dos sentidos não pode, de modo algum, concorrer para o processo de florescimento do que emerge basicamente do desenvolvimento da integridade da maturidade. O conhecimento a que me refiro não é o conhecimento que vem nos compêndios. Contudo, o conhecimento está onde depositarmos a nossa obstinada persistência a fim de o descobrirmos, na exacta medida dos nossos propósitos e objectivos!

  Valendo-nos do paradoxo - esse estilo tão característico ao pensamento oriental milenar (os sábios da antiguidade evitavam expor os seus ensinamentos de forma sistemática, preferindo falar por paradoxos, temendo poder desse modo proferir meias-verdades) - realça-se ainda a noção do quanto a virtude decorre (contrariamente ao recurso à observação de regras e à fidelidade a preceitos, que não passam de meros artifícios em meio à magnanimidade do carácter “original” e “incriado” do que é uno em si mesmo), da reciprocidade, da complementaridade e da transcendência subscritas na sua própria dinâmica. A mente sã resulta da atenção para com o pensamento, equilibrada pela acção livre e espontânea, o que não significa uma acção distinta e discriminativa mas tão só natural.

   Torna-se claro que isso endereça o leitor para a necessidade de investigação sobre aquilo com que aqui se depara, a fim de poder intuir o sentido correcto implícito à palavra impressa, confrontando-o abertamente com o exercício diário das suas convicções, dúvidas, incertezas, temores e opiniões preestabelecidas, tanto no plano da realidade pessoal como colectiva - assim como o endereça para a necessidade de uma abordagem equidistante e experimental que, em todo o processo cognitivo responde pela descoberta da natureza real de todo um significado situado para lá das noções edificadas sobre o terreno empírico dos pressupostos, da credulidade e do obscurantismo caprichoso.

Talvez, para sermos mais exactos, enuncie uma necessidade que passa comummente despercebida: a de que a felicidade e o bem-estar interior assentam na base duma disciplina ou higiene sóbria e natural, (destituída de artifícios e de compulsão), presente no equilíbrio entre a acção, a reflexão e a meditação, mais concretamente entre o natural exercício do raciocínio e a atenção incondicional, disciplina essa sem a qual não poderão jamais resultar uma mente e um corpo sãos, e em que unicamente deve alicerçar-se toda a conduta correcta e sentido de plenitude. Acima de tudo, ressalta o ditado, que refere: “Não importa o quanto o mundo clame pela transformação ou a despreze; homem, transforma-te a ti mesmo. Desse modo descobrirás teres transformado o mundo!

  Desde logo pretendo deixar o leitor de sobreaviso para o facto de que os conceitos empregues, não obstante pretenderem visar o arquétipo e a essência, não traduzem, de modo algum a verdade que se pretende que veiculem; nunca será demais realçá-lo, porquanto pretendemos evitar toda a artificialidade e pretensão gratificantes, tão caros a todos os modelos de vaidade e autoridade, mais ou menos inconsistentes.
  
  Segundo uma velha máxima, todo o conteúdo profícuo que alcançarmos sem termos despendido um esforço justo para a sua obtenção, não denuncia eficácia, além de dificilmente propiciar o resultado esperado, por não ter sido verdadeiramente conquistado (talvez pela natural e compreensível ausência da correcta intensidade ou motivação, que só pode brotar de um interesse inato, quiçá irreprimível e inadiável). Esse princípio ou lei aplica-se a todas as esferas do nosso viver. Para podermos colher faz-se necessário, antes de mais, que devamos dar - dedicação, entrega, paixão, seja o que for que essa dádiva represente; uma coisa não existe sem a outra, em absoluto. Conseguimos apenas aquilo em que concentramos as nossas energias.

Goethe justificava o dispêndio da sua fortuna da seguinte forma: “Cada predicado que possuo custou-me uma bolsa de ouro. Meio milhão do meu próprio dinheiro, a fortuna que herdei, o meu salário e a enorme renda proveniente duma publicação de cinquenta anos das minhas obras foram gastos para instruir-me naquilo que agora sei. Além disso, observei bastante.”

E no que toca à descoberta do nosso caminho, devemos empenhar todas as nossas energias no uso da atenção a fim de chegarmos a um esclarecimento lúcido da realidade do que nos permeia e cerca; temos de semear para podermos “colher;” precisamos empreender o simples movimento de buscar o novo, estabelecendo as bases do interesse correcto, bem como a compreensão das prerrogativas do sistema, sem o que tal jamais poderemos superá-lo.

   A exposição desta matéria corre, obviamente, sempre riscos de variada ordem, para além do de uma interpretação fortuita e deformada (porque desde logo o é toda aquela que tanto se torna objecto da racionalização que se torna redundante) quando não mesmo o de concorrer para o contrassenso de mover certa propensão para o romantismo. Não é minha intenção competir nem desonrar qualquer outro sistema de crença, estabelecido por seu próprio direito, pois não cabe nos meus horizontes estabelecer qualquer filosofia nem manifestar o menor traço de sobranceria. Não obstante, este testemunho brota, em larga medida, da experiência directa, singular, autêntica e inalienável de estados de epifania e transcendência que me propiciaram a base de uma conhecimento directo e de propriedade que, de outro modo, talvez não tivessem eclodido deste modo.

   Por último, mas não menos importante, devo ressalvar que jamais se deve seguir ou aceitar o que vem escrito - neste como em qualquer outro tratado - sem que se desenvolva um bem alicerçado espírito crítico e sem se incorporar uma certa inclinação para um cepticismo saudável e inquiridor, sobretudo por meio duma percepção aguda do sentido de que se reveste. É justamente com base numa disposição desse tipo que se pretende justificar esta alusão; requer-se uma boa dose de interesse aliada a uma não menor capacidade de bom senso para que se possa desenvolver a atitude harmoniosa de compreensão e reeducação pessoal, bem como uma vivência interior íntegra, sem o que não poderemos evoluir em nenhuma esfera do conhecimento ou da experiência humanos.  

                                                                                                                                                                                          
                                                                                                            Amadeu António
                                                                                                                           2008 
      
Prólogo

   A totalidade inconsciente parece-me ser o verdadeiro spiritus rector de todos os fenómenos biológicos e psíquicos. Ela tende para a realização total e, no que concerne ao homem, à tomada de consciência total. A tomada de consciência é cultura no sentido mais vasto do termo, e por conseguinte, o conhecimento de si-mesmo é a essência e o coração desse processo. É indubitável que o Oriente atribuiu ao Si-Mesmo um valor divino e segundo a velha concepção do cristianismo o autoconhecimento é o caminho que conduz à Cognitio Dei.

   Para o homem a questão decisiva resume-se a isto: a coisa toda refere-se ou não ao infinito? Tal é o critério da sua vida. Se eu souber que o ilimitado é essencial então não me deixarei prender a futilidades e a coisas não fundamentais. Se o ignorar, insistirei para que o mundo reconheça em mim certo valor, por esta ou aquela qualidade considerada como propriedade pessoal: os meus dons, a minha beleza, etc.
Quanto mais o homem acentua um falso sentido de posse, menos poderá sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a vida. Sentir-se-á limitado devido a que as suas intenções sejam cerceadas e disso resulta inveja e ciúme. Se compreendermos e sentirmos que já nesta vida estamos relacionados com o infinito, os nossos desejos e atitudes modificar-se-ão. No fim, só valemos pelo essencial, e se não tivermos acedido a ele, a vida terá sido verdadeiramente desperdiçada. Nas nossas relações com os demais é igualmente decisivo que tenhamos consciência de o infinito se exprimir ou não.

Porém, só alcanço o sentimento do ilimitado se me limitar ao extremo (remete-se o leitor para o verso 22). A maior limitação do homem reside em si mesmo, pelo que se manifesta na constatação vívida do: “Sou apenas isto!”. Somente a consciência da minha estreita limitação no meu Si-Mesmo me vincula ao ilimitado do inconsciente. É quando me torno consciente disso que me sinto ao mesmo tempo limitado e eterno. Ao tomar consciência do quanto a minha combinação pessoal comporta de unicidade - i.é., em definitivo, de limitação - abre-se para mim a possibilidade de conscientizar também o infinito. Mas somente desta maneira.

   Numa época exclusivamente orientada para o alargamento do espaço vital, assim como para o aumento do saber racional a qualquer preço, a suprema exigência consiste em ter consciência da própria unicidade e limitação. Ora, unicidade e limitação são sinónimos. Sem tal consciência, não poderá resultar percepção do ilimitado - e, portanto, nenhuma tomada de consciência do infinito - mas tão só uma identificação completamente ilusória com o ilimitado, que se manifesta na embriaguez dos grandes algarismos e na reivindicação sem limites dos poderes políticos.

   A nossa época colocou a tónica no aspecto humano visível, suscitando desse modo uma impregnação demoníaca do homem e de todo o seu mundo. O surgimento dos ditadores e de toda a miséria que trouxeram provém do facto dos homens terem sido despojados de todo o sentido do além, pela estreiteza de visão de seres que se acreditavam muito inteligentes. Desse modo, o homem tornou-se presa do inconsciente. A sua maior tarefa, porém, deveria ser a de tomar consciência daquilo que, provindo do inconsciente, urge e se impõe a ele, em vez de permanecer inconsciente ou de com isso se identificar. Porque em ambos os casos permanecerá ele infiel à sua vocação, que é a de criar consciência. À medida que vamos sendo capazes de discernir, o único sentido da existência consiste em acendermos nas trevas a luz do ser puro e simples. Pode-se mesmo supor que, da mesma forma que o inconsciente age sobre nós, o aumento da nossa consciência tem, por sua vez, uma acção de ricochete sobre o inconsciente...

   O significado da vida terrestre e o valor considerável daquilo que o homem leva daqui “para o outro lado” no momento da morte reside, em parte, no facto de somente aqui, na vida terrena, se chocarem os contrários, razão porque o nível de consciência pode elevar-se. Essa parece ser a tarefa metafísica do homem - embora sem mitologizar ele apenas a possa cumprir parcialmente. O mito é um degrau intermediário inevitável entre o inconsciente e o consciente. Está estabelecido que o inconsciente sabe mais do que o consciente, porém, o seu saber é de uma essência particular, um saber eterno que, frequentemente, não tem qualquer ligação com o “aqui e agora”, e não leva absolutamente em conta a linguagem que o nosso intelecto fala...

   Quando Lao Tzu diz: "Todos os seres possuem clareza de entendimento; só eu permaneço obscuro e indiferente", exprime o que sinto na minha idade avançada. Lao Tzu é o exemplo do homem de sabedoria superior que viu e fez a experiência do valor e da ausência de valor, e que no fim da vida deseja voltar ao próprio ser, no sentido eterno e incognoscível. O arquétipo do homem religioso que contemplou suficientemente a vida é eternamente verdadeiro: idêntico tipo aparece em todos os níveis da inteligência, quer se trate de um velho camponês ou de um grande filósofo como Lao Tzu.
A idade avançada é... uma limitação, um estreitamento. No entanto, a mim acrescentou tantas coisas: as plantas, os animais, as nuvens, o dia e a noite e o eterno no homem. Quanto mais se acentuou a incerteza com relação a mim próprio, mais aumentou o meu sentimento de parentesco com as coisas. Sim, é como se essa estranheza que há tanto tempo me separava do mundo se tivesse agora interiorizado, revelando-me uma dimensão desconhecida e inesperada de mim mesmo.           
                                                                                                                                                                                                                                       
                                                                              Carl Gustav Jung
   

Introdução

   “Em nenhuma outra coisa na vida creio tão profundamente, nenhuma outra imagem do mundo me é tão sagrada quanto a da unidade, a ideia de que a totalidade do mundo consiste numa unidade divina e de que todo o sofrimento, todo o mal que nela existe reside apenas no facto de já não nos sentirmos individualmente como partes indissolúveis desse todo, do eu se conferir demasiada importância.

   A unidade que venero por detrás da multiplicidade não é uma unidade aborrecida, triste, pensativa, uma figura de retórica. Consiste antes na própria vida cheia de acção, cheia de dor e riso. Podemos aceder a ela em qualquer momento porquanto sempre que deixamos de ter consciência do tempo, do espaço e da ignorância ela pertence-nos; quer pela sabedoria, ou então quando nos afastamos do convencional e escutamos com veneração e dedicação todos os deuses e a humanidade inteira, todas as eras do mundo. Pois é exclusivamente nisso que, para mim, consiste a vida – num meio-termo entre os dois polos, entre as duas colunas mestras do mundo.

   Enlevado pelo seu doce encanto gostaria constantemente de chamar a atenção para o bem-aventurado colorido do mundo e lembrar como se baseia na unidade; gostaria de mostrar de que modo o belo e o feio, o claro e o escuro, o pecado e a santidade só por momentos constituem uma contradição - constantemente em transformação, como se acham, uns nos outros. Para mim, as mais elevadas palavras da humanidade são aquelas poucas em que essa duplicidade se manifesta por meio sinais mágicos - aqueles poucos provérbios e parábolas em que as grandes contradições do mundo são, ao mesmo tempo, reconhecidas como necessidade e ilusão. Lao Tsé elaborou vários desses provérbios em que, pelo espaço dum instante, ambos os polos da vida parecem tocar-se. O mesmo milagre opera-se de forma ainda mais nobre, mais simples e cordial em muitas das palavras de Cristo. Não conheço nada mais emocionante na vida do que o facto de uma doutrina, uma religião ou escola da alma ter elaborado através dos milénios uma formulação sobre o bem e o mal, o justo e o injusto, sempre com maior propriedade e exactidão, sempre a impor exigências mais elevadas com relação à justiça e à obediência, para atingir finalmente o seu ápice no conhecimento mágico de que noventa e nove justos valem menos perante Deus do que um único pecador, no momento da conversão.

   Mas talvez seja um erro, um pecado que cometa, pensar que tenha que servir à promulgação dessas intuições mais elevadas. Talvez a infelicidade do mundo actual resida justamente no facto de essa mais elevada sabedoria se achar sujeita à maior banalização, encontrando-se à venda em todos os becos; no facto de, em toda a igreja do Estado ser pregada, juntamente com a crença na autoridade, na bolsa e na futilidade nacional, a crença no milagre (...)

Talvez essas expressões do mais elevado discernimento e intuição inauditos, subtis e mesmo espantosos, devessem ser cuidadosamente guardados e cercados contra os intrusos. Talvez fosse preferível que o indivíduo, para poder experimentar uma dessas palavras poderosas, devesse arriscar a vida durante anos, do mesmo modo como tem de fazer com relação a outros valores importantes. Este é o meu dilema. Muito se diz com relação a tal questão, porém, não se soluciona o problema.

Para os pensadores asiáticos, mestres que são da síntese, o facto de utilizarmos de forma alternada, critérios opostos, confirmando-os ambos e com eles concordando, constitui um jogo habitual de máximo aperfeiçoamento do espírito.

   A religião e a filosofia representam, para as necessidades humanas mais profundas, o mesmo que a moralidade representa para a forma externa de vida, o viver satisfatório e cómodo no seio das regras da tradição e da convenção. Não basta ao homem deixar-se reger pelos usos e costumes, pelo modo de vestir e de se divertir, seguindo uma forma/padrão válida, ou qualquer outro ideal. Nas camadas mais profundas do seu ser ele tem necessidade de ver um sentido estabelecido para toda a sua obra e realização; para a sua existência, vida e inevitabilidade da morte.

   Nos nossos dias podemos observar uma impaciência e decepção generalizadas tanto em relação aos conhecimentos religiosos tradicionais como às filosofias dos sábios; é extremo o carácter da demanda por novas formulações, novas interpretações e justificações. A vida espiritual do nosso tempo é caracterizada pelo enfraquecimento dos sistemas convencionais, por uma busca selvagem de novos significados para a vida humana, pelo florescimento de inúmeras seitas com hordas de seguidores, profetas, fundadores de comunidades e êxito total das mais absurdas superstições (...)

   Mas a nossa vida é um tecido ininterrupto de altos e baixos, declínio e reformulação, decadência e ressurreição, e a todos esses sinais tristes e lamentáveis do colapso da nossa cultura se opõem sinais mais claros, que indicam um novo despertar das necessidades metafísicas, a formação de uma nova espiritualidade, um esforço apaixonado por um novo sentido de vida. E tanto a moderna poesia como a arte contemporânea se acham prenhes desse tipo de sinais. Mas predomina principalmente a necessidade de substituição dos valores desaparecidos da cultura por novas formas de religiosidade e comunhão entre os homens.

   Não devemos subestimar a importância e o valor desse movimento pelo simples facto de, a ladear essa torrente da alma e enlevada por uma sincera aspiração, surgir toda uma panóplia de propostas de mau gosto, artificiais e grotescas, perigosas e nocivas, em que fervilham os videntes e fundadores de seitas; charlatães e impostores são confundidos com santos, a vaidade e a cupidez. Não ousaria traçar os limites entre o francamente grotesco e o quiçá discutível, mas, ao lado das instituições sempre um pouco duvidosas das ordens secretas, das lojas maçónicas, das irmandades, da superficialidade impávida das novas religiões americanas, da inconsciência dos inabaláveis espíritas, encontram-se outras manifestações elevadas, extremamente elevadas como a tradução dos textos sagrados budistas e a ampla divulgação das traduções dos chineses de Richard Wilhelm; o estonteante acontecimento do súbito regresso de Lao Tsé, que, desconhecido na Europa durante séculos, em três décadas apareceu em inúmeras traduções em quase todas as línguas europeias, e arrebatou o pensamento europeu (...)

   Ainda é muito pouco conhecido o facto de terem existido na China grandes filósofos e especialistas em ética, cujo conhecimento não tem para nós menos valor do que o dos gregos, de um Buda ou dum Cristo. No entanto, o maior sábio da China não foi realmente popular no seu próprio país e ao lado de Confúcio, seu contemporâneo um pouco mais jovem, sempre ficou um pouco relegado à margem. Refiro-me a Lao Tsé, cuja doutrina nos foi legada através do seu livro Tao-Te-Ching. A sua doutrina, proveniente do Tao (o princípio original do Ser), poderia deixar-nos indiferentes como princípio filosófico, ou no máximo atrair apreciadores interessados, se não comportasse uma ética possuidora de tal força pessoal,  tão grande e bela que o último estudioso alemão dessa doutrina, para além de ser professor de teologia, colocou Lao Tsé em paralelo com Cristo (...)

   Comparado à imagem que o europeu médio mantém da cultura chinesa, e superficialmente considerado, Lao Tsé quase não parece chinês pela sua vivacidade. De qualquer modo, não existe de facto, entre os pensadores mais conhecidos do Extremo Oriente, outro cujos ideais éticos se achem mais próximos e ligados a nós, arianos ocidentais, do que os dele. Ao lado da filosofia da Índia, distanciada do mundo e muitas vezes excessiva e subtilmente inquiridora, que nestes últimos tempos está a ser de novo tão estudada entre nós, essa sabedoria chinesa parece-nos absolutamente prática e simples. Podemos mesmo adquirir a impressão envergonhada de que este chinês secular reconheceu melhor os valores elementares e laborou, com maior grandeza e propriedade, para o desenvolvimento da humanidade do que muitos ocidentais entregues aos instintos em meio às suas anárquicas filosofias especializadas e das muitas ramificações degeneradas da acrobacia ocidental do pensamento (...)


“A persuasão não é eficiente; a eficiência não persuade.
O sábio não é erudito; mas, do mesmo modo, o erudito não é sábio.
Não são belas as palavras verdadeiras, nem tampouco são verdadeiras as palavras belas.
Aquele que é chamado não acumula bens; quanto mais para os outros realiza, tanto mais possui;
Quanto mais dá, mais tem para dar.
O sentido do Céu consiste em abençoar sem prejuízo;
o do que foi chamado consiste em agir evitando toda a oposição e contenda.”


   Este ideal chinês é de tal forma oposto aos nossos ideais ocidentais modernos, que deveríamos regozijar-nos por possuirmos no outro lado do globo um pólo tão firme e digno. Ridículo seria se, com o tempo, toda a gente viesse a ser educada à europeia ou segundo a moda chinesa. Mas, diante desse espírito que nos é estranho devíamos ter todo o respeito, sem o qual nada se aprende nem se poderá absorver. Lao Tsé tem o mérito de nos fazer ver que, a despeito da divisão do homem sob a forma de raças e culturas, a humanidade constitui uma unidade, dotada como é de potenciais, possibilidades ideais e objectivos comuns.”

                                                                                                                                                          
                                                                                                         Hermann Hesse


                        Prefácio

              O Tao Te King consiste num conjunto de sentenças sobre a vida e o ser, escrito na aurora da civilização. Este tratado exibe-nos numa linguagem em torrente, num arrojo e numa exuberância de expressão tais que só podem tomar a forma do paradoxo e da dicotomia como meios mais adequados. Isso porque para os antigos Taoístas o Real situa-se para lá de toda a medida e expressão, sendo acessível unicamente pela apreensão da mente que permanece em silencio. O maior dom deste trabalho consiste, a meu ver, na qualidade de alongamento da mente que proporciona, que nos desafia a cada passo a expandir as nossas perspectivas acerca da vida.

           Três heranças moldaram o pensamento não só da China como de toda a vasta porção da Ásia antiga; a primeira ajusta o homem ao seu semelhante, a segunda situa-o em meio à natureza e a terceira coloca-o em paralelo com o Absoluto. O Confucionismo e o Taoismo completaram-se mutuamente apesar de, à primeira vista poderem conter aspectos incompatíveis; e se por um lado o Confucionismo situa o homem em relação com o seu semelhante, o Taoismo coloca-o numa posição adequada face à natureza. Uma terceira influência, conhecida como Budismo, apesar de importada da Índia para a China, lidou com a questão do sofrimento humano e a questão do seu destino final. O ditado popular que reza que "todo o chinês usa um gorro Confuciano, um robe Taoista e umas sandálias Budistas", contém, portanto, uma certa verdade.

           Se Confúcio aconselhava as pessoas a trabalhar infatigavelmente pelo bem e pela dignidade do homem em sociedade, Lao Tzu e Chuang Tzu por seu turno acautelavam-nas com relação a toda a interferência excessiva. Na sua perspectiva o ímpeto para mudar aquilo que por natureza é já bom, só aumenta a soma da infelicidade do homem. O impulso por "fazer alguma coisa" sempre rivalizará em contenda - na nossa natureza - com o "não fazer demasiado", porém, aquele que conseguir manter um correcto equilíbrio entre ambos, estará no caminho da maturidade social intelectual e espiritual. O Tao Te King é o primeiro protesto articulado contra a mecanização e a organização excessiva do homem, e, se abriga incorrectas noções acerca da noção do progresso inevitável, não deixa de relembrar que todas as coisas regressam à sua origem; que "ir longe significa voltar para trás". O Taoísmo refere que vulgarmente o pronunciamento exacerbado da palavra falha onde somente o toque da luz pode ser bem-sucedido. O mundo possui lugar à expressão da humildade, da cedência, da gentileza e da serenidade, porém para se poder tirar proveito do seu benefício devemos: Aprender a desaprender aquilo que aprendemos.
                                                                               
                                                          A. W. Hummel
                                                          Libraria do Congresso, Washington, D. C

Tao Te Ching

1
Realização da Verdade


Nenhuma verdade passível de ser enunciada constitui a Verdade Eterna!
Nenhuma descrição dela pode revelar-se duradoura ou inalterável.
Inominável, torna-se origem da totalidade de "céu e terra"; 
Pela designação se dá lugar à dualidade
De contrários e acção inesgotável;
Desprovidos de anseios e de intenções apreendemos a sua essência;
Por meio do conhecimento, do intelecto e da palavra
Chegamos a apreender as suas manifestações.
Ambos os aspectos derivam de fonte idêntica,
E só se diferenciam pelo nome;
Quando tal mistério se intensifica,
Torna-se portal para o subtil e o maravilhoso.

Comentário

   Toda a problemática da verdade resume-se, desde logo, ao seguinte: a verdade não precisa de ser proclamada nem publicitada. Se o for será tudo menos verdade, por se encontrar comprometida com a projecção subjectiva. Por outro lado, a palavra, a intenção, a imagem, jamais substituem a coisa! A palavra presta-se ao uso gratuito, pelo que se torna instrumento fácil da demagogia e da retórica, além de ser instrumento precioso para a manipulação e o encobrimento. Para além disso, na eloquência da expressão, a intenção não possui qualquer função; os actos falam por si só.

 Portanto, a natureza última dos fenómenos – ou vacuidade – está para além de todo o conceito e escapa a toda a descrição; nenhuma descrição da verdade poderá vingar. Todos os conceitos que empregamos na descrição da natureza são limitados pelo binómio observador/coisa observada, subjacente ao condicionamento de uma realidade separada do sujeito. Tal condicionalismo assenta (culturalmente) no determinismo filosófico cartesiano, que descreve a divisão fundamental entre o “eu” e o mundo, e que posteriormente veio a tornar-se no ideal da ciência.
   Desse modo, compreender que todas as coisas são, em si mesmas, destituídas de uma independente de “ser”, e não existem por si só, em separado, mas são aspectos de grandezas constitui objecto de um conhecimento supremo.

   A “Filosofia Perene” (designação cunhada por Leibniz) sustenta que o mundo material pode ser apreendido pelos cinco sentidos e pela mente racional, porém, a sua essência – ou conforme nós designamos, Deus - é imaterial e está para além de toda a forma, possibilidade e imagem (imaginação), podendo ser apreendida unicamente pela intuição ou conhecimento directo (sentidos subtis). O Tao, que no contexto da nossa cultura pode grosso modo ser traduzido pelo conceito da totalidade inefável, representa a fonte de toda a manifestação. Não obstante e a despeito dos nossos maiores esforço essa fonte jamais poderá ser completamente expressada ou assimilada nos moldes restritos das nossas crenças ou linguagem sem ser distorcida, precisando ser directamente experimentada por todo aquele que adoptar a harmonia com as vistas alargadas, por meio do silêncio e da atenção (êxtase, sonhos, etc.), o que completa o ciclo de realização da Consciência Eu.

   Outorgando a nossa autoridade e poder a outros - quer entidades externas quer conceitos subjectivos e abstractos - fazemo-lo numa base constante de desatenção para com o significado de tal acto. Todavia nós somos aquilo que projectamos, o que infere necessariamente em que nos achamos investidos das mesmas faculdades criativas, poder e responsabilidade. Dentro de nós, bem nos recessos do nosso ser, se acha todo o poder que habitualmente (e de forma condicionada) outorgamos quer à imagem quer ao líder ou à divindade da nossa veneração – facto tanto mais passível de se tornar controverso quanto mais formos dados a crer nas múltiplas interpretações deste singular fenómeno da existência, em exclusivo. A Consciência é una e indissociável mas estabelecer diferenciações até ao infinito é uma propriedade que em nada desvirtua ou destitui a sua natureza essencial e que mais se assemelha a um jogo.

 Nos recessos da nossa consciência acha-se a porta para toda a compaixão, desenvolvimento e esclarecimento. Essa porta abre-se a partir de dentro e os seus caminhos conduzem não para longe mas, ao invés para NÓS próprios. Este enunciado nada tem de original pois existem passagens nos evangelhos que o podem corroborar como aquela em que se afirma: “Vós sois deuses” João 10:34 e “Pedi e ser-vos-á dado;” “Procurai e encontrareis;” “Batei e a porta se vos abrirá, pois quem pede recebe, e quem procura encontra, e àquele que bate hão de abrir-lhe a porta” Mateus 7:7. No entanto o seu profundo sentido e o apelo que lança passa, o mais das vezes, despercebido, quando não mesmo convenientemente relegado à exegese de quantos professam doutrinas depuradas e deturpadas de mal e pecado e atributos afins. Na verdade, porém, estamos a abrir-nos cada vez mais a dimensões do ser que nos dão conta de que somos (não co-criadores mas sim) criadores da nossa realidade. Tais conceitos foram infundidos ao tempo do Jesus dos evangelhos, numa tentativa de substituição da velha noção de um “Deus hierárquico, movimentador e sacudidor” pelo conceito de fraternidade – o que deu lugar à noção de “Filhos de Deus,” muito mais acessível à mentalidade dotada de profundas convicções religiosas da época.

   A consciência é altamente proficiente, em todos os aspectos intrincados do seu espectro criativo. A ilustrá-lo temos o fenómeno da cura, que assenta em bases tão mal compreendidas quanto controversas; toda a problemática que rodeia o campo da saúde começa por assentar na ênfase que a medicina empresta à doença, (que se alça ao exagero) acentuando-a de uma forma quase neurótica, esquecendo desse modo os fundamentos holísticos (refiro-me ao alinhamento, com base numa postura de equilíbrio entre as diferentes expressões do ser; corpo, mente e espírito; pensamento, intenção, acção) em que começou por se firmar. Não importa qual o “agente” a que as pessoas se entreguem na sua crença – o que conta é a convicção e a determinação que consigam (fé). Podem acreditar que é Deus, Jesus Cristo, o dr. Sousa Martins, este ou aquele santo do seu fervor que opera a cura; podem ter confiança no médico (da medicina alopata ou convencional), na homeopatia, na quiropráctica, num regime alimentar macrobiótico, enfim... Na realidade são elas próprias que “movem” ou impelem a própria cura, a despeito duma vasta consideração dos factores envolvidos, que não caberia nesta curta exposição. Ninguém cura ninguém mas pode tão só propiciar ou influenciar essa cura, e o amor, a expressão da verdadeira aceitação, constituir a pedra basilar da cura. E a fé e a dinâmica inconsciente que põe em marcha dá conta desse exacto mecanismo. Depois, é claro, é considerado como se de um “embuste” ou de um “milagre” se tratasse, consoante a tendência de cada intérprete; todas as variações se tornam possíveis ad infinitum...

   No campo científico, mais concretamente o da física quântica - termo cujo significado etimológico deriva do latim “quantus” (ou quanto, quantificação) e que refere uma entidade indivisível de energia - (ramo da Física que investiga todo o movimento subatómico em termos de níveis de energia electromagnética, onde se pensa que todas as coisas da vida sejam fundamentalmente não sólidas e existam num campo unificado, ramo esse que veio deitar por terra o determinismo absoluto, introduzindo a noção de probabilidade nas leis de causa e efeito) parece vir provar - não especular mas provar matematicamente, ao nível das ondas e partículas subatómicas - que a realidade é produto da criação da mente - e constitui uma ilusão, portanto, uma ilusão alicerçada no campo das possibilidades, segundo a interpretação do Instituto de Copenhaga. Experimentos levados a cabo segundo o método “duplamente às cegas” (ou dupla revisão por partes às cegas)* vêm por si mesmo provar, de forma  conclusiva embora indirecta, que nós criamos a nossa própria realidade e que esta é um produto da consciência, porque se um experimento só é aceite mediante as rígidas condições que visam afastar a influência do experimentador (razão porque não deve ter consciência do que procura) então deixa perceber implicitamente a dinâmica da sua acção. Os cientistas da física quântica, que podem com maior precisão ser considerados os xamanes da ciência, ao apontarem os factores do desconhecido inerentes à realidade em busca de um sentido, começam finalmente a descortinar a possibilidade deste mundo ser constituído por dois aspectos inalienáveis – o actual, por um lado, e aquele que se acha o tempo todo em estado de potência, pelo outro.

A física quântica tem que ver com o acto de medir ou a atribuição de números e valores em aproximação a escalas convencionais de grandeza-padrão; medição essa que desde logo infere no campo da observação e interpretação humana, e serve de modelo para a acção da criação, uma vez que na justa medida do que queremos e esperamos ou pedimos ou desejamos realizar também vemos implementado, talvez para nosso contentamento, surpresa ou mesmo consternação. Isso forma toda a lei e verdade, porquanto a realidade começa por ser a ilusão do que percebemos e imaginamos – que difere de indivíduo para indivíduo, porque nenhuma perspectiva é partilhada exactamente nos mesmos moldes nem tampouco uma mesma coisa é vista exactamente da mesma forma por dois indivíduos que a observam – o que infere por seu turno indirectamente na existência de “realidades” paralelas e na existência multidimensional de uma ordem infinita de possibilidades e de disposições. Isto vem igualmente derrubar o absolutismo de filosofias e teologias que defendem a inelutável autoridade de leis como a da Causa e Efeito, por meio do que somos confrontados com noções de Carma ou punição e a do merecimento. Não que isso seja completamente distorcido no seu sentido pois que acaba por encontrar eco num fundo de verdade que obtém da parte da interpretação colectiva, expressões culturais, religiosas, etc., mas de uma consideração mal orientada.

   Por outro lado, Deus, ou a veracidade de qualquer questão que transcenda a análise jamais poderão ser comprovados em laboratório, essencialmente porque precisam ser “interpretados” por meio da “estrutura” da concepção.
Por um lado, isso constitui a “ponte” que toda a crença estabelece. A observação é de importância crítica para a definição da realidade e da acção. As “ondas” de luz são convertidas por meio da interacção do observador (quando as frequências atingem os instrumentos) instantaneamente e em simultâneo em partículas, frequências vibratórias que podem de seguida ser amplificadas. Com o observador o processo de “conversão” é análogo. Tanto pode tratar-se do inspirado, ou do crente nas imagens de uma fé particular, como do iconoclasta iluminado; ambos estabelecem a ponte com as frequências incorpóreas do nada em existência, e nesse processo convertem a própria “massa” numa gama de vibrações mais refinada – o crente converte a inspiração em termos de uma “estrutura” da concepção inteligível, (ícone, imagem) e o iluminado em termos de experiência directa pura.
  
   Num outro nível, a noção que sustentamos do divino radica em grande medida na condição da dor e angústia inerentes à nossa condição humana, no afastamento que promove de si mesma. Não decorre necessária nem directamente da alegria, da ausência de temor e de confusão mas seguramente de noções de erro, de culpa, da falta de mérito e da imperfeição, tão profusamente arraigadas na psique que corroboram a sujeição e o sofrimento. Da mesma forma, o conceito da Criação (bem como o da Evolução das Espécies, aliás) permanecerá para sempre um mito, uma teoria não comprovada, e em alguns casos, objecto de falsa corroboração. Nesse sentido, toda a manifestação poderia constituir Deus em busca de si próprio, pois que enquanto totalidade necessita da relatividade que o tempo /espaço facultam a fim de poder conhecer-se em todo o seu esplendor e magnificência. Nesse âmbito, a divisão e a separação têm por objectivo o realce da relatividade e a singularidade da experiência.

   Mas numa perspectiva mais terra a terra, conforme referi atrás, Deus constitui mais um lugar-comum, um cliché, uma projecção dos nossos temores e esperanças, à imagem, portanto, da nossa condição. Nessa medida somos nós que o criamos e não o oposto porquanto a evolução dos deuses representa fielmente a evolução da consciência humana projectada para o exterior. Não se trata de cinismo nem de negação tampouco, mas de uma constatação equidistante com relação a toda a paixão e crença irracional. Na mesma medida assume, entre outras, a projecção de aspectos de uma ambivalência paternalista e chauvinista a encabeçar noções como a tutela,  o juízo e as noções de castigo e de recompensa - binómios que propiciam tanto o recurso à autoridade de quem diz saber, como a desresponsabilização e o desencorajamento e também a consequente fuga aos problemas, pela parte dos acólitos. Paradoxalmente, porém, ** assume também a representação do nosso potencial, uma vez que pode ser tudo aquilo de que dermos testemunho na nossa vivência pessoal. Todavia creio que nada daquilo que foi referido anteriormente sofrerá qualquer corroboração fora dessa dicotomia. A Consciência existe num todo e não comporta qualquer evolução (que compreenderia tempo). Como tal, devíamos tornar-nos “uma luz em nós mesmos” ao invés de penhorarmos as nossas energias no líder religioso ou no político, no salvador, no governante, na autoridade - que, escolhidos e eleitos por nós, devem necessariamente elevar-se à estatura da nossa confusão. Abrindo-nos desse modo a um entendimento mais amplo e profundo de nós próprios.

   Assim, a verdade está igualmente estritamente associada a factos, a condições, situações e sentimentos ao invés de conceitos abstractos. Se formos honestos para connosco próprios haveremos de dar-nos conta do quanto geralmente nos iludimos justificando procedimentos e juízos sob a premissa de que os meios justificam os fins; porém, se detivermos o fluxo interior e prestarmos um pouco de atenção podemos surpreender-nos com as divergências evidentes. Numa palavra, prende-se mais com a abertura para com a Mente (subentenda-se Vida) do que com a actividade do intelecto, e de modo bastante particular, com o alargamento da percepção de nós próprios e do mundo, por meio dum exercício de atenção para com o sentido e verdade dos próprios pensamentos, palavras e actos. O conhecimento da verdade provém de dentro. A obediência a ritos estéreis, a recitação de máximas e textos como prova inequívoca e “superior” de fé mais não fazem que atentar contra a inteligência e desvirtuar o propósito.

   Portanto, e para clarificar o exposto, o conceito de criador, segundo a distinta abordagem com relação à criação, só faz sentido segundo os velhos paradigmas da religião; ou seja, o próprio carácter de distinção é ambíguo por assentar numa dicotomia. Ora, isso infere automaticamente - não na negação do princípio enunciado - mas na qualidade do que é imanente, inerente à manifestação.

   A aproximação mais exacta que fazemos desse conceito de Totalidade - de forma implicitamente sujeita à estrutura da ideia e da palavra, inscreve-se na singularidade do sentido de presença: “Eu Sou” ou o Si-mesmo, o Self, a Talidade ***- que nos aproxima do legado dos Gnósticos e das Religiões dos Mistérios, sustentadas pelos antigos Caldeus, Sumérios, Egípcios, pelos Gregos órficos e pitagóricos (2) uma vez que a natureza subordinada á nossa concepção geral, formulada nas bases dos actuais paradigmas, se apresenta controversa e mesmo alvo de polémica (a saber, p. ex., a questão da plausibilidade da tolerância divina para com as tremendas injustiça e iniquidade praticadas pela humanidade, imperfeições aberrantes e bizarras e questões afins assentes numa base racionalista) senão mesmo um conduto para a contrapartida da crença, como é expressão inequívoca disso mesmo - a dúvida.
   “Eu Sou” ou sentido de presença esse que representa a nossa Verdade, o nosso caminho, a nossa vida e perfeita liberdade (cuja expressão máxima infere no livre-arbítrio). “Eu Sou” que brota do abandono momentâneo do pensamento errático e da paz e do fulgor que o antecedem, ausência de desejo; a paz perfeita que nada pede, que não abriga desejo de ser nem se agarra à ilusão. “Eu Sou”, por fim, que é referido como sentido nuclear no Salmo 46:10, bem como em Isaías 43:10 onde se alude à Consciência como sendo Una - ou Deus – “...sem que exista outro deus antes ou depois de Mim”.

   Num tempo em que se torna tanto mais difícil saber onde reside a verdade ou o que será Real quanto mais se desdobram as vozes a proclamar certezas e “verdades”, requer-se enorme perspicácia a fim de se não deixar conduzir por nenhuma. Pode ser que aqueles mesmos que apregoam “O Verdadeiro” o não tomem por aquilo que representa mas unicamente pelo conceito que dele fazem. E o facto de se repetir sentenças não nos torna argutos. Aqueles que apontam o engano e a ilusão fazem-no do ponto de vista da sua posição e convicção, como única e verdadeira. Ora, a singularidade é a qualidade do que tem por hábito ser uma coisa só, em si e por si mesma, destituída de separação e fragmentação. E que singularidade comporta a afirmação discriminatória? Estarão eles certos de se acharem ao abrigo de seguir “falsos Cristos” contra os quais tão veementemente apregoam?

   Não existe “um só caminho” que seja válido, do mesmo modo que não existe uma só maneira de olhar as coisas, mas tantas quantas as exigências da nossa experiência o exigirem. O mesmo vale dizer quanto às religiões, porquanto temos a tendência para nos afirmarmos como detentores da mais perfeita e verdadeira expressão religiosa. Bom, o que dizer quanto a isso? Quando vejo menções à superioridade de certos “caminhos” de realização, religião, aprendizagem e valor isso suscita em mim um misto de desconfiança e riso. Se alguém vos disser que só existe um caminho verdadeiro não acrediteis; também deveis poder examinar o que aqui é referido de forma crítica e profunda, sem o aceitar com leviandade. Se isto contiver alguma verdade - e para o poderdes apurar deveis apreender o alcance de cada proposição - então seguramente será capaz de resistir aos abalos da inquirição e da dúvida.

Temos o péssimo vício de acreditar que a ideia, o intelecto, constitua sinal máximo de distinção e conhecimento, mas tal só evidencia a profunda credulidade e ingenuidade (quando não mera pretensão mesmo) com que abordamos a complexidade da existência. Por outro lado, não é errado sustentar crenças e práticas religiosos sectárias, em absoluto, se com isso estamos a atender a um ímpeto interior inolvidável de aperfeiçoamento – segundo a óptica daquilo em que acreditamos e o nosso próprio ritmo; muitos elevam-se verdadeiramente pela via da observação do culto dos mais variados arquétipos e mitos conseguindo desse modo a realização dos mais perfeitos padrões (tanto de conduta como de equilíbrio) de moderação, firmeza de carácter e de saúde, quer mental, quer mesmo física. De resto, não é possível existirmos sem acreditarmos; tal caracteriza de forma singular a nossa existência. Mas, basicamente, não existe uma única “crença verdadeira” que seja superior às demais. Isso corresponde à mais crassa distorção e estreiteza de vistas que conduz invariavelmente ao ódio, à segregação, à violência e a formas análogas daí decorrentes. Todas essas formas de crença, todavia, expressam um corpo mínimo fundamental de verdade e se prestam a servir de reflexo à unidade implícita à diversidade.

   A consciência repousa na sua inteireza em nós; é isso precisamente o que os textos litúrgicos dos diferentes credos atestam, ainda que por meio de metáforas. Assim, devemos abrir-nos a todo um sentido novo disso mesmo pela noção de que a separação é ilusão que aponta para uma realidade de implicações infinitamente mais vastas. Do mesmo modo podemos inferir que a crença numa figura tutelar (que a corresponder à imagem, deveria parecer demasiado estúpida, obviamente, mediante as vastas contradições manifestas) que controla as nossas vidas de forma caprichosa e irada não passa de mera projecção da nossa psique, repito, e não existe em absoluto enquanto tal. Somos nós os únicos responsáveis pela criação da nossa realidade e experiência; isso é facto inequívoco e incontroverso, muito embora nos possa passar inteiramente despercebido, pois nós somos essencialmente consciência e a consciência não comporta divisões nem qualquer separação. Tampouco existe qualquer elemento que seja exterior à consciência nem bem que lhe seja superior pois todo o bem refere nós próprios. Não somos nem sequer co-criadores, pois isso inferiria na limitação de se conceber a existência dum agente externo que responderia pela outra parte, e equivaleria à imposição dum tremendo bloqueio na nossa liberdade original! Em termos de consciência não existe co-criação alguma; a consciência É Tudo (e é anterior mesmo à essência ou espírito). Ao ser Tudo não comporta qualquer separação entre acção e essência. Também não inclui nenhuma expressão que seja mais elevada ou melhor do que outra, pois tal discriminação é uma fabricação dos sentidos, que se presta à possibilidade duma experiência mais pura. A consciência assume variadíssimos aspectos e estende-se por inúmeras áreas, porém, em si mesma não constitui coisa nenhuma propriamente. No entanto, toda a manifestação brota a partir dessa “Coisa Nenhuma”. Sendo assim, (ou seja, se não existe separação) então nós e a consciência somos uma só coisa, que anula as noções de Deus pai ou mãe; um EU SOU, sem limites, porquanto a liberdade é intrínseca à consciência.

   Nesta imensa rota pela busca da nossa verdadeira identidade, em que tudo acontece por ciclos, escolhemos esquecer a “condição original” a fim de encetarmos “caminhos” de auto-descoberta, de forma tão apurada quanto possível, com o claro objectivo de alargarmos os horizontes da percepção, de modo que nós formamos o “palco”, os actos e as representações que escolhemos a fim de experimentar a grandeza infinita num mais vasto e variado grau, fazendo-o com base nas perspectivas, expectativas, impressões, anseios e convicções que alimentamos e sustentamos.

   Atrever-me-ia a declarar, em termos mais poéticos, que o universo é obra da Inteligência Cósmica ou Consciência Infinita, e constitui como que um pensamento, numa extensão do estado de sonho, uma espécie de projecto de arquitectura multidimensional; objecto, em simultâneo, da beatífica acção de infinitas expressões da Essência (Espírito) em perpétua expansão, obra do afeiçoamento de entidades de consciência que o moldam e formam, e depois cindem em divisões menores de consciência, representam roteiros, fundem, separam e recriam ad infinitum sem jamais perderem as propriedades originais, do que resultam supernovas e outras formações estelares visíveis como pálidos reflexos.

   A Totalidade permanece, pois, um mistério inapreensível no que toca àquilo que ultrapassa a estrutura das nossas concepções antropológicas e antropomórficas (3) e potencial alvo de especulação infrutífera, e deve-se isso ao facto de não comportar paralelo, i. é., não ser duas coisas distintas, mas uma só grandeza – intemporal! Tal realização implicaria a intrusão de uma dualidade empírica: a da coisa apreendida e daquele que a apreende como distintas. Mas a realidade não é distinta da mente. Nada existe em separado; aliás, tudo o que se tem provado cair na separação mais tarde ou mais cedo se torna factor de degeneração e fragmentação! Seja ao nível biológico, ecológico, social ou individual. A ciência está a começar a comprovar que até a mais pequena partícula de matéria é portadora de consciência (denunciada pela manifestação de um padrão de comportamento específico).

   Todavia, a intenção do autor desta obra centra-se em fazer referência ao princípio que se regula a si mesmo, emana de si mesmo e se regenera como totalidade e fonte de toda a Verdade, a que chama Tao.

   Mas, do mesmo modo que a Verdade não reside na palavra nem no conceito criado pela mente, também a liberdade que dela decorre não advém por nenhuma forma unilateral de representação porquanto o pensamento (que prevalece na base da nossa consciência dialética) não é capaz de a realizar, sem projectar um contrário para o que é, por acção da dualidade psicológica; o sentido que lhe confere há de ser sempre proporcional à “medida” que emprega como bitola na conceptualização; de certa forma isso também não deixa de tornar a Verdade como matéria inquestionavelmente pertencente ao foro do transcendente.

   Nenhuma descrição poderá, portanto, traduzir a verdade inefável e absoluta sem a trair. A palavra - que tanto pode prestar-se a transmitir a sinceridade quanto o embuste - serve para distinguir e para clarificar determinada exposição, porém, facilmente pode dar origem à abstracção e à complexidade, pelo que não a devemos tomar como fonte de autoridade, antes duvidando dela enquanto procuramos perscrutar para além da estrutura em que assenta, sem aceitarmos aquilo que se propõe representar.

   Diante desta demasiado extensa exposição ressalta que de nada vale especular a respeito do intangível, se com isso nos desviarmos da nossa responsabilidade de auscultarmos as razões da ilusão, da dor e do sofrimento.
   Se adoptarmos os meios adequados jamais experimentaremos o arrependimento e poderemos ser conduzidos à realização desse potencial que beneficiará todos e cada um.


* Um tipo de pesquisa que tem por objectivo impedir que o experimentador tenha conhecimento directo de qualquer informação crítica para a experiência, a fim de evitar a deturpação da mesma, segundo o conceito de que uma vez presente qualquer expectativa de resultados, por parte do experimentador, devido a que tenha eleito e tomado determinadas escolhas e decisões, não mais seja capaz de usar da objectividade necessária com relação aos resultados. Com tal propósito pretende-se proteger o experimento do efeito placebo, e como o experimentador é parte activa na sua criação, deve imperar uma circunstância de não manipulação

** Realce-se o paradoxo porquanto para respondermos de forma cabal a todo o dilema precisamos aceder à dinâmica de ambos os dois aspectos aparentemente contraditórios referidos no paradoxo, sem o que qualquer resposta deixará de ter qualquer eficácia, mais constituindo uma continuidade diferenciada.

*** Talidade, ou a verdadeira natureza dos fenómenos; tal como são, decorrente do Budismo.







2
A Origem dos Contrastes

Quando a beleza é ostentada,
Torna-se origem de fealdade.
Quando se reconhece o bem
Como aquilo que é subjacente ao bom e ao agradável,
Isso torna-se causa de padecimento de um mal.
Ser e "não-ser" complementam-se um ao outro,
E alternam entre si;
O fácil e o difícil definem-se entre si;
Alto e baixo acompanham e contrastam com o oposto;
A existência dá lugar à não-existência;
Acima e abaixo formam consciência relativa;
"Cumprido" e "curto" são relativos;
Tom e ressonância criam a harmonia;
Situar-se adiante ou atrás dá a ideia de posições distintas.
Por isso é sábio aquele que se atém à não-acção,
 E trata as questões sem interferir no seu curso.
Não conduz nem prescreve orientações,
Mas ensina por meio da acção e do silêncio.
Aceita a corrente natural das coisas, bem como o seu declínio
E nutre-as sem delas se apossar,
Pela compreensão de que todas as coisas mudam
E eclodem de modo natural, no seu devido tempo.
Sem que uma única deixe de se revelar e desenvolver.
Age sem intenção e não sustenta expectativas,
Nem noção alguma de pertença ou de alcance de resultados.
Uma vez empreendida a tarefa, abandona a questão.
Justamente por não reclamar qualquer crédito,
Não é desacreditado.
 Desse modo o seu ensino perdurará e será tido em elevada estima.


Comentário

  Duas observações distintas faz este versículo: Uma, que é tratar a natureza relativa da abordagem mantida na base do espírito crítico – a subjectividade com que abordamos o viver e dos aspectos do ser, de que decorre toda o sentido de separação, sofrimento e dor. Outra, que é subjacente, é a de traçar todo um quadro para o espírito de unidade acedido por uma abordagem holística, ou seja, não sectária nem parcial mas abrangente por circunscrever todo o acto numa criatividade caracterizada pelo não-restrito. A primeira inteiramente legítima e natural e a segunda a circunscrever a anterior e conferindo-lhe um sentido de grandeza e valor inato.

Não se pode simplesmente abrigar noções de arbitrariedade e dispor-se paralelamente a buscar a verdade porquanto não a realizaremos como uma coisa distinta e separada, enquanto conceito abstracto - que, com a busca sempre nos mostrará o dorso (porquanto a busca se apoia primordialmente na dicotomia formada pelo pensamento e pela imagem). Munidos da afirmação e da negação dos opostos só poderemos deparar-nos com o reflexo das nossas projecções que brotam da insatisfação, do temor e da fantasia.
   Unicamente pela realização “directa” e intuída da unidade por detrás dos contrários psicológicos e do pensamento poderemos perceber o Real e as suas qualidades; não por meio da categorização nem da sistematização mas unicamente por meio da união dos contrários psicológicos, e da consequente negação da aparência.

   O conhecimento procede, em grande medida, da comparação psicológica; esta, por sua vez, consta de um processo subjectivo (relativo ao sujeito às diferentes circunstâncias em que se acha bem como à sua situação num tempo e espaço definidos) que conduz à abstracção, à dualidade, à contradição. Se pudermos suplantar toda a intenção ingénua através da compreensão da natureza de todas as coisas, sujeita que se acha às leis causais da mudança, designadamente, aquilo que, aparentando liderar, que sob uma outra perspectiva pode também seguir atrás - então, o que fizermos não será fácil nem difícil, maior nem menor, mas acção total, livre, empenhada, criativa.


3
Causalidade

Se não se lhe exaltar o mérito,
O povo alhear-se-á da rivalidade e da contenda.
Não valorizando as coisas preciosas,
Manter-se-ão os homens alheios à cobiça e ao roubo.
Não expor considerações sobre o desejável,
Poderá conduzir as pessoas a manter-se alheias à confusão.
Assim, o sábio domina enfraquecendo no homem o desejo
E assegurando-lhe a subsistência.
Enfraquecendo as suas ambições,
E robustecendo-lhes a firmeza de carácter.
(pureza de sentimentos)
Desse modo chega-se a possibilitar
Que prescindam do conhecimento e do desejo de ser.
(inocência)
Se ensinarem os espíritos sagazes a ousar agir sem esforço,
 (decorrente do conhecimento dualista)
E praticarem a não-afirmação em meio à acção, 
(deixar ser)
A ordem poderá ser restabelecida.

Comentário

   “Não exaltar noções de mérito” pretende realçar a tendência para a orientação positivista com as tão falaciosas distinções de superioridade intelectual que tanto inebriam como embaraçam a sociedade nas suas diferentes expressões de filosofia e de regência, condicionando desse modo as consciências a os padrões de avaliação, interacção e comportamento e distorcendo e viciando-os. Contrariamente, é encarecedor enaltecer as qualidades do indivíduo ao invés de lhe apontarem defeitos e soluções (ao jeito da dialética de Hegel,* que se traduz, grosso modo, pelo postulado da tese, antítese e síntese) sem jamais se escavar suficientemente fundo até às causas ou razões subjacentes a condutas e inclinações. Assim, de nada adianta punir ou condenar, se não se descobrirem essas raízes. Porquanto aquilo que somos é, em certa medida, um produto das circunstâncias; mas o bem e o mal dependem dos factores da nossa compreensão ou desordem, tanto individual quanto colectiva.

*Curiosamente, contrariamente a Hegel, para quem se traduzia pela síntese dos opostos, a dialética em Platão tem um sentido de método de divisão, um diálogo entre pessoas comprometidas com a busca da verdade, enquanto em Aristóteles assenta na lógica do provável, quer dizer, é constituída por um raciocínio não demonstrativo, propenso ao silogismo, que em vez de partir de premissas fidedignas, tem como orientação premissas prováveis, ou o que é admitido e parece ser aceite pela maioria ou pelos “académicos.Ora, a finalidade desta visava não a verdade mas a demonstração, a argumentação.

   Se não adulterarmos o sentido de valor, subvertendo-o como o fazemos ao da utilidade, da função e das premissas consensuais mas preservarmos a humildade, reduziremos o risco de rivalidade e conflito. Se formos flexíveis sempre poderemos reter um sentido de dignidade, fortalecer o carácter e obter a compreensão da relatividade de todo o conhecimento, em meio a qualquer situação. Não agiremos com base na reacção mas, com atenção, preservaremos a harmonia interior e a satisfação. O cultivo do discernimento robustece a firmeza interior e leva ao esmorecimento da volúpia e da puerilidade. Refiro-me não à atenção sobre o exterior em concreto mas mais para com o nosso íntimo – sobre os nossos próprios processos de pensar e sentir que se acham na base de toda a identificação. É claro que ambos podem achar-se contaminados pelo preconceito mas este em particular visa a fonte da ilusão primordial. Assim, chega a exercer verdadeira influência aquele que procura esclarecer os demais, ao invés de os tentar convencer ou persuadir.

4
Abertura de Espírito

O cultivo do caminho da virtude brota do vazio interior.
No entanto, torna-se causa de acção inesgotável.
Através do seu uso cuidamos de nos resguardar
De tudo quanto alcance a demasia.
Conquanto insondável e profundo,
Tal estado revela-se como essência de toda a acção perfeita.
Por meio da sua prática poderemos:
Chegar a suavizar toda a aspereza,
(esforço, resultante do conflito)
Desatar todo o emaranhado,
(confusão)
Harmonizar todo o esplendor,
(entusiasmo, euforia)
Empregar compreensão para com os outros,
E reunir o mundo num todo.
Oculto no subtil e imperceptível,
O Sentido prevalece na pureza.
Ignora-se quando ou como surge
Mas assemelha-se à Existência Original.

Comentário

   O vazio da abertura interior significa aqui justamente a plenitude do sentido de presença (ou transcendência do pensamento, o centro a partir do qual sempre consideramos ou atendemos a periferia), decorrente da negação natural e sadia, isenta de motivo, de toda a afectação do conhecimento dualista e separativo, e que resulta da profunda inquirição sobre a nossa natureza (embora não da acção da vontade nem do desejo, todavia). Somente a pureza desse estado, que basicamente assenta na atenção não discriminativa nem direccionada, poderá suplantar a cadeia da causa e efeito sediada no pensamento primordial "eu".

   Um recipiente vazio sempre se presta à utilização; quanto mais ao uso se prestar mais disponível será. Uma vez cheio, será de relativa valia. Do mesmo modo, só aquele que permanece "inculto" e "vazio" (a saber, com relação ao conhecimento psicológico fragmentado e da dicotomia resultante da acção do pensamento) pode prestar-se ao esclarecimento e ao verdadeiro auxílio. Uma outra analogia dá-nos conta de que o que se acha vazio pode sempre receber (o novo), ao contrário daquele que permanece cheio! (Veja-se nisto uma analogia idêntica à do dito evangélico de quantos alcançaram a sua medida)

Só a percepção procedente da higiene mental pode revelar a natureza prístina original e a beleza subtil destituída da afectação do conhecimento separativo - a percepção do falso como falso e da verdade em meio ao falso. Não permitir que as impressões alicerçadas na dicotomia do eu ganhe raízes é um processo que exige toda uma corrente de atenção destituída de sentido e esforço. Se cultivarmos o vazio interior pela compreensão (da relatividade concernente a todo a categorização positiva) obteremos clareza de entendimento e preservaremos a liberdade original. O mecanismo da acção desse estado não é causal e não faz fronteira com nenhum outro, sendo, portanto, destituído de princípio e fim.

   No plano científico, com os novos paradigmas que surgem, designadamente no campo da biologia e da cibernética, podemos traçar um paralelo empírico, com o enunciado pela Teoria de Santiago por exemplo, que, ao identificar o processo cognitivo com o processo duma visão unificada da mente, matéria e vida, refere não ser o cérebro imprescindível para que a mente se ache presente. Qualquer bactéria ou planta, a despeito de não possuir cérebro dispõe de mente. Os organismos mais simples são capazes de percepção e, portanto, cognição. Muito embora não sejam capazes de ver, ainda assim podem perceber mudanças no seu meio ambiente, como diferenças entre luz e sombra, quente e frio, concentrações mais ou menos elevadas de substâncias químicas e coisas semelhantes. Na nova concepção da cognição o processo do conhecer é, pois, muito mais alargado que o do pensar, envolvendo percepção, emoção e acção, o que constitui todo um processo de vida. No domínio humano a cognição envolve igualmente a linguagem, o pensamento conceptual e os demais atributos da consciência.

   O cérebro não é, naturalmente, a única estrutura por meio da qual o processo da cognição se processa; toda a estrutura dissipativa do organismo participa desse processo - quer o organismo possua ou não cérebro e sistema nervoso superior. Diz-se existirem casos de indivíduos que apesar de possuírem as cavidades cranianas cheias unicamente de líquido, levam uma vida normal - muito embora subsistam como excepções... Além disso, recentes investigações dão-nos conta de que o sistema nervoso, o sistema imunológico e o endócrino, tradicionalmente concebidos como distintos, formam, na verdade, uma única rede cognitiva – inteiramente centrada e comandada pela nossa consciência. Outro aspecto passa pela sede das memórias, que não se cinge ao cérebro, mas nas células dos órgãos; senão veja-se os casos dos efeitos que surgem nos sujeitos a transplantes de órgãos, que passam a carregar traços da personalidade dos dadores que por vezes lhes alteram diametralmente a personalidade. A interdependência entre matéria, processo e estrutura permite-nos curar a ferida aberta entre mente e matéria, que tem assombrado a nossa era moderna desde Descartes. Mas nada – nenhuma entidade, nenhum objecto nem nenhum conceito - pode existir em si mesmo e por si mesmo mas unicamente sob o aspecto duma “grandeza superior” à qual está ligado por uma sinergia, e sem cuja interpenetração não se poderia manifestar.






5
Espírito de Imparcialidade

O Caminho do Céu age sem parcialidade,
Pelo que não se poderá referir que o faça com benevolência ou falta dela,
Porém, trata as coisas sem favor nem intenção
De modo idêntico o sábio,
Ainda que pareça agir com generosidade e benevolência,
Fá-lo de modo imparcial e destituído de intenção,
Pois é amoral e permanece indiferente.
(a toda a discriminação)
A essência do Caminho assemelha-se a um fole de ferreiro
 Vazio e inesgotável;
Quanto mais se desdobra, mais dele brota.
Demasiado discurso conduz à exaustão do sentido;
Melhor será preservar a essência.

Comentário

    Os procedimentos do Céu são misteriosos, justamente por lhes desconhecermos a natureza e os propósitos. Naturalmente, não podem ter qualquer peso no nosso sistema de medidas, pelo que podemos unicamente presumir que os “caminhos dos homens” melhor servem o seu propósito quando mais se ajustam ao sacrifício pela Verdade.

  Humilde é a comum condição de todo o homem nos estágios iniciais da sua vida, antes de conjurar noções de poder e atributos de significado. Tal ilustra o sentido da pessoa em oposição ao da diferenciação individualista. Valor e ausência de valor complementam-se na expressão de um significado que apenas perpassa a percepção fugaz, não obstante poder ser tão palpável quanto rocha sólida.

   O indivíduo sensato detém-se na serenidade da compreensão e não se deixa perturbar de modo infundado. A afirmação constitui um precursor da negação; demasiado discurso trai a eloquência. Melhor é meditar sobre cada questão, de modo a realizar a justiça e a equanimidade inerentes.

   Faz-se necessário que aprendamos a abeirar-nos das ocorrências despojados do imperativo intencional de as modificar (tendência tão cara a todo o neófito) pois tal instinto representa uma tendência superficial condicionada e uma deformação adquirida pela cultura e pela educação que não corresponde necessariamente aos mais caros anseios da alma, que anela pela descoberta da liberdade e do Real. Nesse ínterim, o requisito primordial constitui a observação, a atenção, que congrega a um só tempo o estado de “aprender” (o desnudar da ignorância inerente a todo o saber empírico) e o silêncio do estado de vazio, em que tudo pode ocorrer. Isso é essencial para que não se detenha nos limites do conhecimento adquirido mas prossiga rumo à descoberta do absoluto.

   Não é sensato idealizar a acção mas agir espontaneamente segundo os parâmetros que a situação permite ou impõe. Se não preservarmos a energia primordial, não poderemos sustentar o vigor para esclarecermos os que de nós se acercam em busca de orientação. Justamente por preservarmos o vazio é que nos revelaremos inexauríveis no auxílio.




6
 Serenidade

O espírito da fonte não perece jamais, mas
Permanece idêntico e age em concordância com a sua natureza,
Sem diminuir nem se deter.
Chama-se-lhe o Princípio Feminino em todos os seres;
O portal desse misterioso Princípio é a origem do céu e da terra.
Se penetrardes o estado de serenidade,
Livres de todo acervo da dor sereis
E o seu poder prevalecerá de forma íntegra e duradoura.


Comentário

   À semelhança do vale abrigado e fértil, o estado de vazio é sereno e desse modo preserva a sua energia. Desde que vigor e serenidade não possuem um padrão definido nem traços contrastantes, não poderão ser descortinados por meio do uso dos sentidos. Se nos recolhermos ao estado meditativo, a mente deixará de reforçar a diferença entre estados de existência análogos ou dissemelhantes e assim não se verá extenuada. O acesso para o conhecimento do coração reside exactamente na raiz da dualidade; no que é – só que por uma abordagem assente na atenção, no discernimento do sentido de presença.


7
Abnegação

O Céu é eterno e a Terra permanente.
Qual será o segredo da sua durabilidade?
Deve ser por não viverem para si mesmos que prevalecem.
Assim também o sábio prefere considerar-se por último
Permanecendo, desse modo, adiante.
Não leva em consideração a sua pessoa
E desse modo prevalece são e salvo.
Não será devido ao desinteresse que nutre por si mesmo
Que os seus propósitos se realizam?


Comentário

   Este capítulo serve de transição entre a exposição puramente cosmológica e referente à criatividade universal do Princípio (referidos nos versículos 4,5 e 6) e a questão da ética (nos dois capítulos subsequentes).

  Em última instância, viver em função de si próprio radica na contradição, pois ninguém é uma ilha em si mesmo e se tal condição circunscrever a separação então também falha no objectivo pretendido de considerar o sujeito. Por outro lado, a via da ausência de esforço e conflito traduz-se na mais directa via para a consecução de tal realização; a via da atenção para com o íntimo revela-se verdadeiramente eficaz onde a compreensão impera como a ponta angular, o cerne da efectiva acção.

   O homem sensato não precisa imitar posturas, mostrar-se compassivo, empreender grandes façanhas, ritos, cerimoniais, nem idealizar métodos a fim de se desenvolver espiritualmente, pois sabe que tudo o que é capaz de apurar sobre a sua natureza e se manifesta através do pensamento e dos sentidos - a par da sua inteireza de ser – se reduz a zero. Contudo isto refere precisamente um paradoxo porquanto se pode inferir na dicotomia entre “integridade ” e “ser íntegro”; ora, o aspecto central reside na percepção. Por não considerar as coisas em função de si próprias, mas de forma impessoal é que o homem sensato permanece como reflexo daquilo por que se interessa. Desapegado, permanece íntegro; por ser destituído de interesse próprio, realiza-se e perdura.


8
 Pureza Original

A Justiça Superior assemelha-se à água corrente,
Que tudo beneficia sem exclusão nem rivalidade.
A água aloja-se nos baixios desprezados pelos homens
E por isso situa-se próximo à Essência.
O melhor dos homens encontra no viver a felicidade da vida
E o lado bom das coisas.
A Excelência da mente reside na consolidação da paz e da serenidade.
Para cultivar a aprendizagem mergulhai nos recessos do coração.
Nas associações com os outros procurai as pessoas dotadas de virtude.
No falar sede sinceros e honestos.
No governar preservai a ordem.
Nos negócios privilegiai a competência.
Nas acções escolhei o momento oportuno.
Desse modo evitareis rivalidades com os outros
E não entrareis em confrontos.
E quando dessa forma um indivíduo não questiona
A humildade da sua posição,
Permanece livre da contradição e da acusação.

Comentário

   Característica de “bem” superior, é aqui referida segundo a ideia da atenção, da abnegação e da pacificação. Atenção indiscriminada que constitui a verdadeira medida dessa abnegação (sem o que não passará de pau de cabeleira para o cultivo  da vaidade) e espontaneidade. Não voluntariedade nem tampouco discriminatória em termos morais.

   Justiça é sinónimo de sensibilidade, capacidade de pensar no outro como em si mesmo com inteireza e carácter; num todo! Tudo o que, em larga medida reside na abnegação e na aceitação de si próprio, tal qual se é. Não deve ser apontada na sociedade (como tudo o mais, aliás) enquanto factor absoluto se não brotar de um posicionamento e de uma relação individual correctas. A justiça, à semelhança da compaixão, da ordem e da verdade, é mais um aspecto que refere a compreensão, a atitude do indivíduo; só depois é um direito social (a sociedade é o conjunto dos indivíduos que a formam e permanece pois uma entidade mais ou menos abstracta enquanto unicamente o indivíduo é real). Assim, onde começará a justiça que se almeja implementar fora senão dentro de cada um – na sua atenção e compreensão, ao invés da reivindicação e da revolução?

   Na verdade, porém, quando os valores sociais tendem a ser afirmados em detrimento do indivíduo, distorce-se o seu espírito e implanta-se  o despotismo – seja no tipo de regime político que for. Por outro lado, quando a ordem social e a norma se tornam primordiais assistimos ao declínio da cultura e da educação; o indivíduo passa a ser encorajado a confiar no sistema, na sociedade, ao invés de confiar em si mesmo e a tornar-se responsável. Mas o indivíduo não aprende a confiar meramente por o instigarem a confiar em si... È preciso implementar o terreno adequado e não somente dizer para confiar e depois actuar em prole do sistema. A confiança é mais importante do que as habilitações e do que a conquista porquanto nada há que não se consiga com profunda confiança – aí reside o elevado sentido do valor que lhe associamos. Consequentemente, as instituições proliferam junto com o acto representativo e tendem a substituir a acção espontânea individual e a fortalecer a dependência externa, o que decididamente contribui para o empobrecimento do próprio bem como da comunidade no seu todo.

   Aspecto igualmente fulcral referido neste versículo é o de empenharmos o viver sempre que o adiamos em nome do “melhor”, do “mais nobre”, da segurança futura, etc... Isso não é o viver referido, absolutamente, mas apenas aspectos diferenciados de carência. Tal segurança não passa duma miragem, e não existe em absoluto.  A virtude da vida está em vivermos no momento, com profundidade de sentir e de experimentar – com presença de espírito; está em aproveitarmos a vida agora e não em empenharmos esta rica herança e potencial criativo em nome de ilusões que podem não pertencer-nos, não obstante podermos acreditar nelas. Simplesmente não existem pontos de chegada ou términos. A vida é movimento contínuo, sem fim á vista. O mais das vezes somos levados a crer no resultado de uma vida de empenho e de disciplina, esforço, impelidos pelo zelo de alcançar ou conquistar, e isso comummente faz-nos desconsiderar os demais estágios de evolução de quantos nos rodeiam, quando não desonrar a própria natureza do pensar e sentir, enlevados, como digo, por sentimentos de respeitosa superioridade. Porém, como é frequente descobrirmos por própria iniciativa, cedemos lugar unicamente a uma depressão da motivação. No viver não existe o que se possa considerar em si mesmo como o propósito mais nobre ou a posição privilegiada; isso não passa da extensão da nossa projecção subjectiva. Na realidade existe unicamente uma experiência diferenciada, que não assume aspectos de “melhor” nem “pior” mas é tão só aquilo que é.

   O homem sensato assume posição humilde e cultiva o recolhimento e a atenção pelo momento como único meio para a consolidação da confiança e da paz. Na reflexão deixa-se orientar pela honestidade, no discurso acolhe a sinceridade, nos seus relacionamentos segue a gentileza, nos negócios vale-se da correcção e sentido de oportunidade.
   Justamente por não actuar com vista à satisfação dos próprios fins nem causar conflitos desnecessários é tido na conta de justo em todas as acções que empreende junto dos demais.
   A mente sã não se detém em nenhuma forma de cultivo particular mas expõe-se na sua inteireza; não segue os caminhos da estultícia mas mantém-se una diante do que é, sem formular juízos parciais de certo e errado, bem e mal nem tampouco se queixar nem vitimizar; tal constitui a mais elevada forma de ética. Não permanece nos meandros da simulação nem se ocupa de interesses superficiais mas mantém-se penetrante e acutilante, e não obstante a alteração nada empreende de "profundo". Tal é a condição propícia à eclosão da inteligência.








9
O Meio-Termo

É preferível deter a opulência antes que conduza à desgraça.
É impossível manter uma taça completamente cheia
Sem nada derramar.
O melhor é não buscarmos os extremos;
Uma lâmina demasiado afiada
Não pode preservar o gume;
Uma casa cheia de ouro e jade
Não poderá achar-se segura.
Reclamai mérito e honra e facilmente vos arriscareis a perdê-los.
Uma vez terminada a tarefa e realizado o mérito,
Oportuno é retirar-se.
Isto é o que o Caminho do Céu ensina.

Comentário

    A natureza dinâmica de toda esta filosofia depõe maior ênfase no processo através do qual se procura a perfeição do que na própria perfeição em si enquanto tornada objectivo em si mesma, exactamente do mesmo modo como a verdadeira beleza só pode ser vislumbrada por quem complete mentalmente o incompleto.

   Assim, à semelhança de uma vasilha que se torna mais fácil de transportar quando não está demasiado cheia, ou uma lâmina cujo poder de corte se torna mais efectivo se não for demasiado temperada, o melhor é evitarmos o elogio e a má fama a fim de podermos consolidar a firmeza e a estabilidade interior. Orgulhamo-nos de ter conquistado a matéria, e esquecemo-nos de que foi ela que nos agrilhoou. Quantas atrocidades não perpetramos em nome do ideal e do bem!

   Nesta nossa época, os homens clamam pelo que é comummente considerado o melhor, pagando pela indiferença para com os seus próprios sentimentos. Almejam aquilo que é mais refinado, ao contrário do que é nobre; o que está em voga, ao contrário do que é significativo. Certo dito antigo cita que as gentes apreciam pelo ouvido, o que denota falta de apreciação genuína de sentido e por isso nos inclinamos tanto a deixar de perceber o indivíduo em função do colectivo.

   A temperança alude não ao mero domínio da adversidade mas à realização da firmeza interior. É demasiado fácil acomodar-nos se evitarmos tudo o que nos espicace o conforto e a conveniência. Por outro lado, é demasiado tentador devotarmos as nossas energias a uma causa que por essa justa via pode bem tornar-se segregadora de toda a riqueza interior.   
   A “Via Média” é a medida mais eficaz como garante da justiça e da formação interior e a medida indispensável para a realização do Insondável.











10
Harmonia

Não podereis assegurar a unidade de "corpo e espírito"
Preservando a sua integridade original?
Se puderdes preservar a energia vital mantendo-vos flexíveis,
Atingirão o estado de inocência próprio da criança.
Ao clareardes a vossa percepção interior
Podereis percebê-la livre de toda a impureza?
Podereis amar o povo e governar o Estado prescindindo do conhecimento?
Podereis permanecer imperturbáveis,
Diante das portas do céu a abrirem-se e a fecharem-se perante vós?
Conquanto pelo uso da inteligência vos possais esclarecer
Na compreensão de todas as coisas,
Não conseguireis permanecer desafeiçoados e desconhecedores?
O Caminho produz e nutre todas as coisas
E age desse modo sem reclamar mérito nem possessão.
Sobre tudo preside sem exercer qualquer controle
A isso se chama "Qualidade da Virtude Suprema".

Comentário

   A criança procura respostas para mil questões que coloca num natural afã de curiosidade. Nós, todavia, acomodámo-nos aos limites estreitos do nosso conhecimento, aceitando-o como um dado adquirido, o que limita um desenvolvimento para “fora da corrente”.
   A noção de harmonia brota da concepção do Todo representado pelas partes, mas que, todavia, é mais do que o seu produto. Sem tal grandeza, qualquer delas, por acção da sua própria natureza, incorre no contrário. O equilíbrio é primordial em todos os aspectos do viver.
   Preservar a harmonia, em qualquer prática de autoconhecimento, é fundamental pois o interior é um com o exterior da acção e das coisas; unilateralidade equivale a risco. 

  Somos aquilo que pensamos, obviamente, mas não só! De igual modo, tornamo-nos potencialmente naquilo a que entregamos a nossa atenção; conseguimos aquilo em que nos concentramos. Mas pela desatenção para com esse facto, perdemos a oportunidade de perceber o quanto somos deformados na nossa integridade por acção da inveja, da cobiça e do ódio. Do mesmo modo passamos à margem da realização do enorme poder que o pensamento contém, porquanto é o instrumento responsável pela realização mais elevada - ou mais ridícula! O homem sensato evita a dicotomia que os contrários psicológicos imprimem. Através da aceitação do mundo expõe-se à Totalidade; por meio da serenidade torna-se sereno; através da preservação da clareza de pensamento obtém lucidez de espírito; devido à sua abertura torna-se aceite; por adoptar o benefício incondicional, chega a prestar verdadeiro auxílio.
   No cultivo da serenidade, o melhor é preservar a perfeição do estado original. Para obtermos o insight o melhor é prescindirmos de todo o conhecimento psicológico racionalista. Realizar a excelência sem exercer qualquer cargo de autoridade psicológica é expor-se a sublime virtude.      







11
  Justa Avaliação

Trinta raios convergem para a abertura no centro da roda,
Mas é devido a essa abertura que ela pode ser utilizada;
A argila pode ser moldada numa vasilha,
Porém, é do espaço vazio que depende o seu uso;
Construímos portas e janelas nos compartimentos de uma casa
Contudo, são esses espaços que as tornam habitáveis.
Desse modo, conquanto o tangível possua vantagens,
É o intangível que confere utilidade e eficácia.

Comentário

          A harmonia de linhas de uma obra de arte reside no equilíbrio entre o que se retira e acrescenta. Desse modo, aquilo que permanece visível e confere sentido de indução é conjugado com a ausência de definições, assegurando-lhe assim a subtileza. Nesse sentido, a parte possui mais valor do que o todo.
Hesíodo dizia precisamente a esse respeito: “Como são tolos por não perceberem o quanto a metade tem mais valor do que o todo”! 

   Eficácia sem compaixão conduz à crueldade e à frieza. Do mesmo modo, conhecimento sem aplicação prática leva à ilusão e ao desperdício. Definição e sentido são aspectos irreconciliáveis; porém, na corrente assunção do sentido de valor são habitualmente pouco considerados na sua complementaridade. Considerar o aparente como primordial conduz à perda de equilíbrio e harmonia. A prática do vazio assegura a existência do homem e confere-lhe profundidade, perspectiva e sentido real.

12
Desejo

A combinação das cinco cores cega;
A mistura das cinco notas musicais ensurdece o ouvido;
A mistura dos cinco sabores corrompe o paladar;
A ambição e a competição entorpecem o coração
E podem desencadear paixões incontroláveis;
A procura de bens preciosos incita à cobiça e à loucura.
Assim, o sábio cuida do íntimo
Ao invés de se deixar incitar pelo externo
E prefere aquilo que conserva, ao que provoca corrosão e desgaste.


Comentário

    Os primeiros três versículos aludem à preservação da singularidade da natureza de ser.
A utilidade das coisas, bem como o valor da vida, não é atingida pela realização nem pela abundância ou magnificência, mas pela manifestação de algumas partes e pela omissão de outras; pela moderada e discreta eliminação de todo o excedente. Uma mistura de todas as cores obscurece os contornos; uma mistura de sons pode tornar-se uma cacofonia, etc.

   A apetência da uniformidade aliena do “natural” por deformar a observação; a ânsia pela diversidade corrompe a pureza. Como explicar tal dicotomia?
A busca do refinamento não cegará e não conduzirá ao exagero – bem como à subsequente necessidade de reforma? A ânsia pelo requinte não entorpecerá os sentidos? A implementação da uniformidade (sob a forma de regulamento) não corromperá a singularidade do carácter original? A busca da diversidade também não nos desviará dessa mesma singularidade? Como resolveremos o paradoxo?

   Não quererá tudo isso dizer que a justa medida provém do exercício da atenção focada em nós próprios? É como olhar a floresta e não ver as árvores. Todavia, a vida é tal qual se processa.
   Todo o exagero comporta a própria negação do almejado e possibilita que cheguemos a encaminhar-nos para a perda da simplicidade e da autenticidade do sentir. A ânsia pela diversidade comporta a cegueira da semelhança e a perda de todo o sentido do puro e genuíno. O cultivo do aperfeiçoamento pessoal conduz tanto ao desvio quanto o do prazer gratuito, pelo prenúncio dos contrários psicológicos; comporta a premeditação ao invés do não-saber espontâneo e inquiridor, da honestidade e da pureza de intenção. Demasiado saber (psicológico; relativo a bem e mal; certo e errado) reforça a ignorância básica (da separação do sujeito e da sua qualidade intrínseca de ser) e constitui a prisão da dicotomia presente na escolha, sujeita à aceitação e à rejeição.
O homem sensato atende à flor ao invés do fruto.


13
Firmeza Interior

Devemos evitar o favor e temer a honra
Do mesmo modo que a calamidade.
Porque devemos evitá-los?
Porque a condição humilde é um benefício.
Devemos acolher a desgraça com assombro
E estimar a calamidade como a integridade do nosso ser.
Porque devemos acolhê-los desse modo?
Porque uma posição humilde constitui uma dádiva;
Acolhê-la é tão assombroso quanto perdê-la.
A conquista do favor causa apreensão
E a sua perda provoca anseio por mal maior
Mas porque inquietam da mesma forma
É que nós os devemos evitar.
Que queremos dizer com:
"Honra e favor devem ser encaradas como condições a evitar"?
Aquilo a que chamo "eu"- sede da identidade pelos sentidos,
Torna-se causa de sujeição.
Se não possuíssemos um "eu", que infortúnio nos acometeria?
Por isso, só àquele que honra o mundo como o seu corpo
Se poderá confiar a custódia do governo.
Somente aquele que ama o mundo como a si mesmo
É merecedor de ser seu timoneiro.

Comentário

   Tanto o favor como a desgraça brotam ambos do medo e podem tornar-se causa de humilhação. Que significará isso? Que podemos subverter a ordem ou a justiça mas nem por isso aplacaremos os nossos mais caros anseios, uma vez subvertidos ao temor.
   Devemos aceitar de bom grado a desgraça e o infortúnio, como uma oportunidade incomparável de cumprir um desígnio superior; o de vencermos a inércia da matéria cristalizada pela corroboração do “conhecido”. Os obstáculos servem para desencadear uma resistência natural à reacção condicionada, de modo a que possamos transmutá-los. Se nos esquivarmos à natureza de “ser” e “não-ser” da realidade objectiva, por uma via de menor resistência, mais difícil tornaremos a eclosão apoteótica da luz da unidade em meio aos opostos; esta é inata e não depende de factor nenhum nem de nenhum agente externo; tampouco de alteração ou modificação, apontando justamente o Si-Mesmo (o que é como É) Então, poderemos descobrir a sua vertente subjectiva e transcendê-la.

   Todavia, se não aplicarmos o princípio da indução (análogo ao da metáfora do filamento na lâmpada) a um dado desafio e consequente reacção, preferindo ao invés assegurar uma saída fácil e confortável, também não realizaremos o potencial de transformação, crescimento e felicidade que encerra. Esse é o sentido do “abraçar” os obstáculos e as dificuldades. Quanto maior o desafio, mais resistência se requer para fazermos frente à reacção – que pode sobrepujar as nossas capacidades. A supressão de emoções conduz, a longo prazo, ao estresse; a emoção suprimida é robustecida, a pressão cresce e a situação explode. A reacção produz uma luta momentânea, mas quase instantaneamente acabamos por nos ver livres do que nos assaltava. Ainda consta dum princípio de desatenção e fuga. A resistência (no sentido de uma indução) propicia o efeito penetrante da percepção não-direccionada.

   Aquilo que valorizamos e o que tememos são relativos à estreiteza dos anseios. Ambos procedem de idêntica fonte de preocupação (e comprometimento no terreno da dualidade) pois são igualmente passíveis de provocar esperança e medo.

  O homem comum busca a honra e o sucesso e repudia os seus contrários; preza a vida na mesma proporção com que teme a morte. O sábio não considera isso do mesmo modo, pelo que vive com simplicidade. Aceita a falta de importância pessoal e não se preocupa com ganho nem perda. Honra e calamidade procedem da mesma fonte de encadeamento do desejo, mas sucedem-se numa ordem invariável, idênticos pelas cadeias da separação. Sabe que o bom e o mau são idênticos, no sentido de que tanto o repúdio como o elogio dependem das tendências originadas nas convenções; que as acções são iguais, no sentido de que a oposição e a harmonia dependem do tempo exacto de cada uma. Quando conhece isto, conhece a o modo segundo o que as pessoas e a natureza agem, desse modo dispondo dos meios necessários para atravessar o mundo. Se conhecer a natureza mas não as pessoas, deixará de dispor de meios para interagir com a sociedade. Se conhecer as pessoas mas não conhecer a natureza, não disporá dos meios para atravessar o mundo.
Se dispusermos de um controle interno estável e formos capazes de nos expandir externamente, movendo-nos juntamente com as coisas, então poderemos evitar o fracasso em todos os nossos empreendimentos.

   Por outro lado, o benefício e o prejuízo procedem de fonte idêntica; tanto a calamidade como a fortuna se acham na mesma vizinhança, no entanto só os sábios e os santos são capazes de os distinguir. Por isso se afirma que a boa sorte depende da calamidade e esta governa aquela; quem poderá avaliar o desfecho de ambas?

   O homem comum, não obstante, procura tornar-se alvo de atenções; o sábio toma o seu centro no que é; porque ama, permanece insensível às fontes de preocupação comuns. Toma a riqueza pela profusão da vivência interior ao contrário do anelo pela propriedade que a abundância pressupõe, por apurar que nutrir muitos desejos conduz a demasiada carência.

   Por último, se tratarmos os outros como a nós próprios, seremos dignos de confiança. Contudo, porque podemos tratar-nos de formas que nem suspeitamos, convirá defini-lo nos seguintes termos: se formos verdadeiros connosco próprios, jamais seremos falsos com os demais.

   A melhor política, em qualquer situação, é a da contenção e da calma. O homem sensato não recorre à reacção mas procura preservar o recolhimento e a paz. Todavia, uma vez impelido a defender-se é inteiramente capaz de dar prova de destemor, ao apontar o verdadeiro adversário.

14
Essência Inefável

Apontado não o conseguimos perceber; 
Por ser destituído de forma é tido na conta de "invisível".
Escutando-o não o podemos entender;
Por não ser parcial o chamam "inexprimível".
Procurando-o não o podemos captar;
Por não ter forma nem conteúdo o chamam intangível.
Esses três atributos permanecem insondáveis
E combinados formam a unidade.
Uma vez revelado, não resultará claro;
Por passar despercebido não quer dizer que seja obscuro.
Eterno e inominável, remonta além do reino da existência;
Provido e desprovido de forma é ele,
Ao mesmo tempo, indistinto e indecifrável.
Confrontando-o não lhe percebereis a face;
Uma vez perseguido não lhe notareis o dorso.
Contudo aquele que apreende o Sentido Intemporal,
Dominará sobre as contingências presentes.
Conhecer tais Origens significa iniciar-se no Caminho da Vida!

Comentário

    A primeira parte deste versículo faz recordar indirectamente a alusão de Isaías, em que refere: “ouvindo, ouvireis, porém não compreendereis; E vendo, vereis, mas não percebereis...” e transmite um sentimento idêntico de inacessibilidade pelos sentidos.

   O Incriado, a verdade absoluta, está além de toda a descrição e apreensão dos sentidos exteriores. Ele não pode ser percebido nem escutado; tampouco tocado. Contudo, permanece idêntico por toda a parte, na qualidade de inominável, a lei cósmica, a ordem do mundo que molda todas as coisas visíveis. Kant referia-se à forma do sem-forma como a “Forma Pura” o que significa a forma do que carece de contornos perceptíveis e se assemelha ao que os budistas chamam de “Arupa”, “Sunyata” ou Subjectividade Pura.
A Mente não pode ter um vislumbre directo desdobrado de si própria do mesmo modo que o dedo não pode tocar a própria ponta, porque não é duas coisas distintas – facto que a percepção dita directa teima em fazer valer e que implicaria na divisão entre observador e observado.

   Será de estranhar que a descrição que Lao Tzu faz do Tao encontre ressonância no Fédro de Platão (3), onde ele descreve a presença de um ser puro num local celestial, um ser imperceptível aos sentidos e unicamente apreensível pela mente; esse “piloto da alma”? Tal presença é descrita enquanto essência real, destituída de tez e forma. Refere ele o seguinte:
“Nenhum poeta compôs ainda um hino em louvor desta região supra-celeste. Ela é como passarei a descrever, pois se há ensejo de dizer a verdade esse é, mais do que nunca, aquele em que falamos da própria verdade”...

   Aí reside a verdade que não tem tom, nem rosto, e se mantém intangível; aquela visão que só é proporcionada ao condutor da alma que é a razão.
   Só a poderemos incorporar se não nos movermos com base em parcialidade de intenção alguma. As mais profundas questões da filosofia são, no geral, bastante simples, conquanto as suas aplicações superficiais tendam a obscurecê-las pela complexidade. Aquele que afirma saber, não sabe. Mas se nos abrirmos pela vulnerabilidade poderemos vencer as dificuldades e conhecer o sentido primordial do Amor. Desse modo não seremos desamparados mas descobriremos o sentido da força na fraqueza.

15
Acção da Virtude

Os sábios da antiguidade eram dotados de subtileza de acção,
Versatilidade e perspicaz  compreensão
E possuíam uma mente de tal modo insondável
Que só podiam ser descritos pela aparência
Como se situavam além do entendimento comum
Descrevê-los-ei da seguinte forma:
Eram hesitantes como quem atravessa;
Uma corrente de água gelada no Inverno;
Prudentes como aquele que se precaveu dos vizinhos;
Reservados, possuíam a dignidade e a cortesia de um convidado;
Evanescentes como o gelo que se derrete;
Simples e directos como um bloco de madeira por talhar;
Possuíam uma aparência tão vaga como uma caverna,
E obscura como águas turvas.
Contudo, quem à semelhança deles,
Será capaz de passar serena e gradualmente do turvo à clareza?
Deixemos repousar aquilo que está turvo  e assim resultará claro.
Quem, à semelhança deles poderá assegurar tal condição de serenidade?
Aquele que preza a pureza
Não procura o autopreenchimento nem a satisfação.
Deixemos que o movimento prossiga
E gradual e naturalmente resultará no repouso.
Aquele que conserva esse princípio não desejará realizar-se
Nem terá pressa de amadurecer antes do tempo.

Comentário

  O filósofo pode pensar ter realizado o significado do “mistério” em todo o seu significado, unicamente para perceber a seguir que aquilo que realizou não passa de um aspecto num conglomerado de aspectos sem fim. Assim, a busca jamais pode atingir o estado completo do ser.

  Mas se velarmos pela serenidade poderemos manter presença de espírito, de modo que não sofreremos anseios nem temores pessoais fúteis. Se permanecermos despertos não incorreremos em situações de perigo; se formos dóceis não seremos acometidos pela contradição; se preservarmos a pureza do coração clarearemos toda a perturbação - deixando-a passar! Não podemos preservar uma quietude apartada da acção. Se preservarmos a serenidade em meio à actividade não desperdiçaremos as energias mas renová-las-emos.

   Aquele que mantém a serenidade permite-se conquistar a lucidez; aquele que sabe quando deve deter-se, pode avançar com firmeza, no momento justo. Aquele que deseja menos do que aquilo que pode consumir resguardar-se-á da presunção; esse poderá envelhecer mas não se tornará decadente. Aquele que observa tais princípios não busca a satisfação gratuita; desse modo não sofrerá a influência do desejo de mudança.


16
Benefícios do Silêncio

Devemos elevar o estado de "fazer nada"
(não intervir)
Ao mais apurado grau
E perseguir a imobilidade de espírito com incansável vigor.
Se alcançarmos o Vazio Absoluto
Chegaremos à Paz interior.
Ainda que todos andem permanentemente atarefados,
Contempla a essência das coisas.
Todas elas adquirem expressão e desenvoltura,
Mas pela passividade da atenção percebereis como se diluem.
Retornar à origem é reencontrar a imobilidade de espírito;
Reencontrar a imobilidade de espírito significa 
Cumprir fielmente o próprio destino.
Alcançar o Eterno é tornar-se sábio,
Ignorá-lo é incorrer em dano;
Conhecer a Ordem que governa todos os seres,
Significa tornar-se justo e tratá-los com equanimidade,
Segundo a sua natureza. 
Da comunhão com todas as coisas,
Procede a generosidade de carácter.
Aquele que, pela consideração que revela, se assemelha a um rei,
Será endossado com a posse dum reino.
Esse assemelhar-se-á ao Céu, que é uno e fiel ao Todo
E será exempto de toda a decadência.
Assim, ainda que perca a sua vida não perecerá.

Comentário

   O silêncio é o verdadeiro precursor da alegria. A presença de espírito (ou consciência de presença) e a espontaneidade radicam na observação do silêncio. O silêncio é a verdadeira afirmação superior (não afirmação) de que se fala no texto. Pode não se tratar dum silêncio separado da acção, absolutamente, consoante o momento.

   Consolidai o vazio do espírito e preservai a mobilidade como uma só coisa indissociável (Quer dizer, não deveis empregar uma como trampolim para a outra). Se não insistirmos no jejum do pensamento (higiene mental efectiva que nada tem que ver com a negação do pensar) não poderemos implementar a condição que propicia a clareza de espírito; se reagirmos de forma extemporânea e gratuita a todo o pensamento não poderemos preservar o distanciamento saudável e indispensável para possibilitarmos o discernimento. Pela serenidade nos manteremos livres do desejo de ser (outra coisa além do que somos) e seremos capazes de auxiliar no retorno ao caminho da paz e da simplicidade. Preservar a quietude significa retornar à essência. Quando alcançarem a consolidação da paz a mente tornar-se-á receptiva aos estados de mudança. Se a preservarmos, não abrigaremos nenhum preconceito com relação aos demais. Desse modo livrai-vos do vosso próprio ego e abraçai a paz. Ainda que o mundo prossiga sem se deter jamais, retornai à serenidade. Isto traduz o ciclo eterno da decadência e da renovação.

   A aceitação disso produzirá esclarecimento; a sua ignorância produzirá infelicidade. A natureza é inalterável; conhecendo-lhe a constância obter-se-á insight e abertura de espírito. Desse modo obter-se-á um carácter franco e sincero e poderemos agir com suma sabedoria. Assim também nos ateremos ao divino, e seremos um com o Todo eterno da Vida.

Creio definitivamente existir um propósito tão vasto e incomensuravelmente abrangente de sentido que engloba a vida e a morte que uma sem a outra não fazem sentido, o que à luz da totalidade que subscreve assume um significado verdadeiramente transcendente que somente por alusão reflecte o conceito de Deus - que em si mesmo tem por função servir de metáfora para a realidade que engloba todos os contrastes numa dinâmica de inimaginável grandeza e glória.

17
Subtileza

Os diferentes níveis de confiança seguem-se por esta ordem:
O governante mais digno e competente
Passa despercebido e dirige pela própria integridade do ser.
Em seguida vem aquele que o povo ama e louva
E que dirige pela justiça e bondade.
Depois vem o que se faz temer pelo povo,
E dirige pela eficácia e pelo saber.
Por último vem aquele que o povo despreza e desobedece
Por dirigir pela imposição e pela injustiça.
Quando não se revela confiança,
Não se pode exigir confiança dos demais;
 Consequentemente, eles são infiéis para connosco.
O sábio mostra-se irresoluto e apaga-se a si mesmo
E escassas são as palavras de que faz uso.
 Quando a sua obra é realizada e todas as coisas são completadas
As pessoas afirmam terem sido elas a alcançá-lo, por si mesmas!

Comentário

   Se não formos sinceros podemos ser desacreditados. Se não usarmos de confiança nos outros eles também não poderão ter confiança em nós; se não liderarmos pela confiança não seremos dignos dela. O homem "superior" não impõe o seu critério, nem espera que os demais o utilizem. A acção de um instrutor sábio dificilmente será mal sucedida junto daqueles que instrui, pois actua sem recorrer a comparações nem a reprimendas, de modo que as pessoas acharão que conquistaram as coisas por sua própria acção.

À partida isto tudo denuncia uma acção bastante exacta porquanto se estrutura justamente sobre uma “lei” tanto mais inexorável quanto resulta da acção directa da nossa consciência. É frequente exigirmos confiança dos demais a fim de validarmos a própria realização e sentido mas justamente nessa medida é que não “avançamos” pois a confiança não se exige, por não ser passível de se estruturar fora da rede da percepção. A ideia “ver para crer” constitui uma deformação originada pelas mais diversas razões, todavia é uma impressão distorcida, porque na realidade só podemos “ver” aquilo que “acreditarmos”; jamais o contrário. A percepção, uma vez mais, é a chave para a compreensão disto. A menos que acreditemos em nós - nas nossas capacidades, no nosso merecimento, ou na plausibilidade do nosso “sonho”, e o sintamos em toda a integridade do seu sentir, não poderemos exigir a sua validação a aplicabilidade.

Mas, em que assentará a diferença, perguntar-se-á? Bom, na razão porque repito frequentemente não precisarmos alterar circunstâncias nem reconfigurar padrões de pensamento porque na verdade o sucesso não depende em absoluto de quaisquer condições específicas, como parecemos inclinados a acreditar pela experiência (tenhamos em mente que a experiência por si só não educa). Se as condições apontadas se acharem reunidas, tudo o que precisaremos será começar a implementar a acção, pelo lado que se mostrar mais favorável, com a certeza inequívoca do resultado, por mais que na aparência geral as condições se afiancem inadequadas.

Na verdade nós somos continuamente “bem-sucedidos” em meio a cada acto da criação do que “esperamos”, do que acreditamos, e do que sentimos com todas as fibras do nosso ser, a despeito de tal acção poder manifestar aquilo que menos nos agradará. Afirmo-o positivamente! Podemos não gostar do resultado que colhemos com determinada acção, mas isso não invalida a possibilidade de termos concorrido positivamente para tal fim, quer directa quer indirectamente, por meio duma atitude de admissão passiva.

O método do “Pensamento Positivo”, da repetição da afirmações positivas e construtivas, etc., revelam-se tão pouco consistentes (conquanto possam justamente revelar alguma eficácia) pela razão de que, por meio do seu uso a maior parte das vezes mais não fazemos do que reforçar o contrário do almejado, devido a que basicamente não percebamos no quê assenta a “acção directa” de toda a intenção, bem como nos revelemos falhos na percepção do que manifestamos. E como basicamente isso perfaz uma coisa só, torna-se demasiado tentador apurar o carácter de qualquer coisa pela fímbria, ou seja, pela aparência, sem atender aos laços profundos em que se estruturam. Por outro lado, o pensamento não é mais do que a tradução duma dinâmica existente entre componentes como a expectativa, o sentir e a percepção que, esses sim, operam a acção num todo. Por si só o pensamento não cria mas unicamente traduz movimentos interiores que denunciam todo um potencial.

A percepção constitui, assim, a fundação em que assenta o potencial da eleição de todas as possibilidades, porquanto toda a probabilidade assenta unicamente na escolha e esta brota da clareza daquilo em que acreditamos. E nós tornamo-nos naquilo em que concentrarmos a nossa atenção, e recebemos exactamente o que transparecemos e termos de convicção. Portanto, a pedra angular da concretização da realidade que almejamos reside naquilo que esperamos conseguir, à partida, sem quaisquer condicionalismos, pois isso responderá pela verdade do “coisa” na sua inteireza (os velhos paradigmas distorcidos da religião que assentam na esperança e na fé, e que embora deturpados na sua orientação não deixam de referir, com alguma exactidão, o quadro da realidade). Assim, em que é que acreditamos? Ou seja, importa que enderecemos a atenção para as disposições da nossa inclinação ou tendência que respondem pela criação do campo actual da manifestação, sem o que de nada adiantará culpar situações, os demais nem a nós próprios pela efectivação do que nos desagrada.





18
 Sinais de Decadência

Quando o Caminho, a bondade espontânea
E o espírito de equanimidade se perdem,
Surge a benevolência e a justiça.
Quando se enleva a moral e o saber,
Surge a dissimulação e a hipocrisia.
Quando no relacionamento e na família se perde a harmonia,
Surge a respeitabilidade e o favor; a lealdade e o dever filial.
Quando os homens são isentos destas qualidades
Fazem alarde delas.
E singram os clãs e a desordem.


Comentário

   A falta de consciência do “natural” revela-se superior à consciência da virtude. Nós só tomamos consciência efectiva e nos votamos a qualquer coisa quando nos separamos dela. Todavia, a virtude brota da mesma origem do “natural”; quando se revela na sua perfeição enraizada no Tao chamamos-lhe “natureza”, quando se evidencia torna-se “virtude”.
O natural, sendo inconsciente, não comporta qualquer esforço e revela-se bem-sucedido; a “virtude”, sendo consciente, esforça-se e fracassa. Deste ponto de vista a chamada progressão do natural rumo à virtude, pela conscientização, estabelece a tendência incontornável para a sublimação, a supressão ao contrário da paz. Uma vez “conscientes” das virtudes encorajadas, estas logo se tornam objecto do desejo e da ambição à semelhança de qualquer outro objecto, e assim deixam de ser “virtudes” pois que se reportam ao sujeito que passa a assumir um valor central em meio à questão. Este torna-se consciente de ser o agente dessa virtude e aí tem início justamente a vaidade (vazio) Mas a virtude não refere qualquer sujeito mas uma verdade.

   Chuang Tzu dizia que os homens perfeitos da antiguidade não tinham consciência do mal nem da imperfeição, razão porque não precisavam cultivar o humanismo nem a virtude. Não abrigavam qualquer noção de moral e eram naturalmente bons. Actualmente, torna-se mais difícil distinguir, por entre os povos ditos “primitivos” sinais dessa magnânima generosidade e simplicidade que ilustraria esse retracto, devido a que a civilização e os seus meios de comunicação tenham massificado as consciências, nivelando-as segundo os padrões dominantes.

   Quando passamos a considerar o valor das coisas por si mesmos, certo será que se tornarão dignas e meritórias e a sua conquista alcançar-se-á mediante a atribuição de um preço. Do ponto de vista da honestidade e da harmonia, contudo, se as considerarmos em função da comunidade elas deixarão de possuir o carácter preponderante que exercem sobre a identidade e não serão objecto do apego.

   Em tempos de carência, tanto material quanto ética, é comum aparecerem lado a lado a moralidade e a hipocrisia; a eficácia a par com a desarmonia; a lealdade e a hipocrisia. Porém, a palavra gratuita não expressa necessariamente a coisa, e como tal cumpre perceber a grandiloquência e a demagogia, e evitar a pretensão da auto-importância. Quando impera o carácter, nada disso se faz necessário.
   Nenhuma expressão singular de desenvolvimento poderá ser considerada como superior ou inferior a qualquer outra. Somente a mente racional poderá arbitrar tal distinção unicamente com o propósito de estabelecer a referência. Agora, quando a referência concorre como regra, através da qual todas as outras são medidas, então é natural e compreensível que passem a surgir níveis comuns de complicação, ao estabelecer-se níveis de dualidade como correcto e incorrecto; autêntico e falso.
   Cumpre ter presente todo um vasto universo de possibilidades como a matriz a partir da qual simplesmente elegemos a experiência singular como válida e autêntica, por se firmar no terreno da totalidade. Nesse sentido, a dignidade pessoal e a auto-estima não deverão ser forjadas com base nas construções do dever porquanto somos muito mais do que a soma de todas as partes constitutivas do nosso ser (do mesmo modo que Somos mais do que a totalidade das partes do nosso organismo corporal - pois somos uma pessoa completa).
   Se refrearmos a tendência para a vitimização e expandirmos os horizontes da percepção talvez possamos aperceber-nos de que somos quem modela a própria realidade a uma escala que simplesmente não comporta qualquer estupidez obtusa mas que assume traços de verdadeira mestria dum criador, no uso da diversidade da experiência humana.

19
Retorno à Simplicidade

Rejeitai a sagacidade e abandonai a astúcia
E o povo colherá múltiplos benefícios;
Abandonai a piedade e a moralidade
E o povo retornará à sua tranquilidade
E à afeição natural pelo semelhante;
Renunciai á perspicácia e ao artifício;
Rejeitai o espírito utilitário e a gratuidade
E deixará de haver ladrões e bandidos.
Estas são três coisas em que a cultura é insuficiente
Contudo, não passam de preceitos.
A ética e a moral só se destinam a curar os sintomas;
É importante agarrarmo-nos ao que suporta
Ser-se simples e autêntico,
Ter mão no egoísmo próprio e refrear o desejo.

Comentário

  É preferível vivermos a nossa vida e realizar o próprio potencial de forma natural a procurar uma realização extrema. Aquele que vive com atenção e compreensão não necessita de adoptar códigos de ética moral nem angariar predicados.
   Se a sagacidade da exclusividade do interesse e do proveito pessoal deixarem de ser estimados, desaparecerão o roubo e a fraude.
   Melhor é de longe preservar a simplicidade e ser-se natural. É preferível a beleza do que é tosco e manter-nos íntegros para com o outro. O melhor mesmo é sermos um com a Vida!

   O trabalho de edificação do ser passa pela penetração ou abertura ao Inconsciente – àqueles 99% que excedem o perímetro da nossa consciência dita desperta - e opera-se de modo vinculativo por um reforço dum sentido de visão, alegria, determinação, dum poder de ser cuidadoso e compassivo, responsável, livre e ainda assim humilde; duma coragem de ser vulnerável e amável, de encontrar o esplendor da nossa beleza; duma compreensão (que constitui inegavelmente um aspecto do poder) e da sabedoria. As “ferramentas” para modelar tais grandezas são o sentido de elegância, de escolha, de vontade, de elegância e de excelência. Também pode operar-se por meio da imaginação activa e dos sonhos e da intuição. Mas para desenvolver a intuição há que confiar nos impulsos e na espontaneidade.

   Podem sempre desenvolver um outro tipo de qualidades que se circunscrevem num propósito idêntico e que responde por uma consciência: de si e da realização do impacto que exercemos; do valor pessoal e da compreensão que não temos que obter mas trazer à luz da percepção; da auto-estima ou o valor que se conquista por meio da honestidade, da responsabilidade e da autoconfiança;
do amor-próprio, do amor que também não se obtém mas que nos é conferido por meio do estabelecimento dum sentido constante de amor por nós próprios; da autoconfiança, a habilidade de se achar à altura, uma combinação de humildade e confiança, esperança e coragem na criação duma energia confiante de nos acharmos à altura de lidar com a nossa realidade;
do respeito por nós próprios – que, à semelhança do sentido de valor pessoal, não se obtém mas tem de ser descoberto, e que se centra no honrar das nossas emoções; da auto-realização, ou sentido de impacto que podemos dirigir em qualquer direcção que desejemos, e que resulta do processo quase alquímico de desenvolvimento das qualidades anteriores.
À medida que desenvolvemos a harmonia, o equilíbrio, a graça, a alegria, a criatividade e o amor, a que os antigos gregos chamavam de musas, também nos tornamos capacitados para nos valorizarmos devidamente com a segurança que tem origem no amor-próprio bem como no conhecimento da nossa verdadeira natureza – o que contribuirá para nos tornarmos mais naquilo que somos.

20
Liberdade Primordial

Eliminai a instrução e livres vos tornareis de todo o cuidado!
Entre o sim e o não,
Pouca diferença deverá existir.
Mas estabelecei os parâmetros
Em termos de bem e mal; certo e errado,
E enorme abismo os apartará, pelo resultado!
A presunção do saber circunscreve a ignorância.
Sem dúvida alguma, aquilo que os homens temem é um facto.
Contudo, por que deverá ser temido?
Como é vasto e interminável o leque de questões a ser abrangido.
E quão longe vem, ainda, o raiar da aurora.
Todavia, os homens andam radiantes e alegres
Como se vivessem em festa ou subissem a um ermo
E contemplassem vistas primaveris.
Somente eu permaneço indiferente e tranquilo,
Sem possuir qualquer objectivo concreto na vida.
Como uma criança que ainda não aprendeu a sorrir
Permaneço indeciso e desamparado,
Como quem não tem para onde se dirigir.
Todo o homem possui mais do que o suficiente
Somente eu pareço nada possuir;
Desfazendo-me de toda a inutilidade e assemelho-me a um idiota,
Tal o modo como procuro tornar-me sensível.
O povo parece culto, esclarecido e sagaz
E só eu permaneço completamente embotado e ignorante.
Vagueio ao sabor da corrente sem parecer ter para onde ir,
Como brisa passageira, sem propósito definido.
Todos possuem as suas aptidões, só eu pareço obstinado e desajeitado;
Assim permaneço; contudo, distinto dos demais!
Pois defendo que devemos procurar esclarecimento junto à Fonte!

Comentário

   “Demasiado saber comporta demasiado cuidado; aquele que aumenta o seu saber aumenta o seu sofrimento.” (Ecle.)
Na verdade a aprendizagem traz o saber e este conduz a preocupação e o cuidado. Tal qual na analogia do avarento, que vê os seus cuidados elevados à medida dos bens amealhados, nós também nos recusamos a despojar das cadeias do saber que nos inibe a liberdade original.
O saber aqui realçado reporta-se ao conhecimento psicológico do “mal” (implícito à dualidade dos contrários) a duplicidade do juízo que reside na origem da condição humana, e que toma assento em toda a forma superficial de preconceito e juízo. Esse saber tende a complicar ao invés de resolver os problemas. Na verdade este saber constitui a base dos nossos problemas! Não substitui o desconhecimento franco nem o arrojo de afrontar os desafios de forma profundamente inquiridora, alicerçada na dúvida, sem se contentar com as respostas dum conhecimento de segunda. É claro, ele está na base das concepções escatológicas do pecado e é assumido automaticamente pela educação e condicionamento social. Mas desde que toda a oposição e diferença brota de um terreno comum e são desde a origem idênticas, quanto poderão distar entre si?   

Sejam as vossas palavras “Sim, sim; Não, não”. Tudo o que for além disso...

Este versículo presta-se a representar o retracto do sábio e ilustra a natureza do dito que popularizou Sócrates: “Só sei que nada sei”. Trata-se da ilustração da condição de sereno deslumbramento que serve de anteporta para o despertar do sentido do Real e do Sagrado.

  Se o conhecimento não for alicerçado numa base de compreensão abrangente conduzirá à complexidade e à contradição. Devemos abordar as diferentes condições de forma desnudada e com a pureza dum coração aberto ao invés de investir com o peso morto da autoridade do saber alheio, a fim de podermos implementar as bases da liberdade e da justiça. Isso é o que implica a atitude do Não-saber.

   "Ser" e "não-ser" são aspectos que, cindidos pela dicotomia do dilema da escolha (e todo o dilema indicia uma paradoxal e efectiva falta de escolha espontânea, cerceados que nos encontramos na nossa liberdade), comportam uma infinidade de possibilidades que não conduzem a um conhecimento de primeira mão, pela fragmentação inerente que circunscrevem. A presunção do saber (juízo formado, opinião, preconceito) regra geral esbarra com as implicações do imprevisto, devido a que a nossa educação se veja condicionada a partir do berço, e se requeira um desaprender antes da possibilidade da eclosão de qualquer saber real. A menos que neguemos todo o saber psicológico gratificante à imagem separativa com que nos identificamos e nos tornemos debutantes no terreno da aprendizagem – coisa pouco provável enquanto se revelar processo gratuito - jamais qualquer forma de conhecimento ou princípio estabelecido nos responderá à questão: "Quem sou eu?".

   A experiência, feliz ou infelizmente, não educa; trata-se de um facto comprovado que não carece de confirmação porquanto refere um conhecimento essencialmente alheio! Baseados nas constatações e "instruções" dos outros poderemos, quando muito, ser conduzidos rumo à constatação dos mesmos princípios que os orientam e cerceiam na acção - todavia, isso circunscreve-se justamente no "terreno comum" do condicionamento básico: a distinção entre o pensador e o pensamento! Isto resume a primeira parte do versículo, a par com a implícita alusão à negação da autoridade do saber (que pertence sempre ao passado, e jamais é actual, novo) como via de abertura ao “que é”, ao facto, inextricavelmente ligado como se acha ao real.

   Todo o indivíduo se deixa guiar pelo brilho do que reluz e se esforça por conseguir um lugar ao sol; precipitamo-nos desenfreadamente para o “novo” impelidos por um sentimento de crescente de mal-estar, de descontentamento e de agitação batendo-nos numa luta de gigantes pela ânsia de poder e de riqueza, enquanto o mundo permanece às-cegas na sombra do egoísmo e da vulgaridade. O conhecimento e a vantagem obtêm-se com uma má consciência, enquanto que a benevolência se pratica por amor ao utilitário. Não vivemos mais daquilo que possuímos mas de promessas; não vemos mais a luz do dia presente, mas perscrutamos as sombras do futuro, esperando a verdadeira alvorada. Não constituirá isso um verdadeiro padecimento?

   É desarrazoado pensar que a sabedoria se encontre nos compêndios ou entre os que cortejam o saber e detêm vasto espólio de conhecimentos; a sabedoria alcança-se alicerçando-se com firme e inabalável determinação no estudo de nós próprios, por meio da atenção, sem pré-requisitos. A presunção do saber sempre constitui sinónimo de ignorância porquanto radica na convicção pura e simples oriunda do pressuposto, facto que não deixa de ser amplamente notável por parte de todo o bom observador. Se não sabemos e nos sentimos perdidos, não devemos procurar afastar tal condição, como o fazem os hipócritas, mas simplesmente constatar essa inclinação momentânea. Numa hora incerta é sensato reconhecer a incerteza. Ocultar uma verdade humana equivale a dar-lhe força para além da resistência. Negar a natureza humana é negar a particularidade de sermos homens.
Conhecer a natureza é situar-se em perfeita harmonia com o universo. Nós somos a fonte misteriosa referida no final do versículo.

   Não existe tal coisa como " liberdade de pensamento." Paradoxalmente, a opinião, o parecer, são responsáveis pela maior parte da confusão e radicam no hábito e na repetição.
   Na inocência reside o maior tesouro a que podemos aceder. Contudo o mundo passa ao largo, sem considerar o sentido do conhecimento. Ao invés de aprisionar, a inocência é dotada de carácter libérrimo. Com isto não se pretende dar azo a interpretações do cunho da sublimação, porquanto se formos inocentes poderemos alcançar qualquer estado, ao passo que por intermédio da ambição e do conhecimento podemos quiçá confirmar e reforçar os laços de separação e dualidade que caracterizam toda a experiência.

   Há sabedoria na humildade; humildade é a capacidade de não-afirmação, ou seja, não acatar resultados nem grandezas ou pessoas em tom definitivo e categórico mas considerar num todo. Se não formos humildes não podemos alcançar o cerne do "que é" por si mesmo, sem carência de suporte nem agente (fonte de Conhecimento), nem tampouco liberdade dos constrangimentos do ego. Por mais paradoxal que pareça a linearidade dos processos de autonomia do pensamento impede a clareza de entendimento daquilo que é real e imediato. Tal conquista da liberdade não pode ser conseguida pela acção da vontade. É natural que, quando somos novos tenhamos a pretensão do saber e nos comparemos com os demais, todavia tal acção incorre invariavelmente na pena de criação de complexos, que constituem uma forma de autolimitação. 

   A real evolução infere no “retrocesso”. Rumo ao quê? Trata-se do processo de interrogação e inquirição pessoal acerca dos “como” e “porquê” do ser e da existência que caracterizam a segunda fase do processo de tornar-se (individuação). Na verdade, quanto mais avançado o nível do desenvolvimento íntimo da pessoa mais ela retrocede aos níveis da simplicidade, do serviço ao semelhante; tal é a implicação da evolução autêntica, que refere uma condição de ser ao invés da mera distinção pelas noções de identificação com a propriedade. O que distingue o indivíduo não é o saber mas a atitude (orientada por um propósito)! E a humildade constitui a actividade da sede de conhecimento - que não compreende limites nem barreiras! Cada coisa vale pelo que é. A quem importará que saibamos muito ou pouco, isto ou aquilo? O que ressalta, isso sim, é a atitude - que é o que justamente dá prova daquilo que somos. Se, como factor determinante prevalecesse a conquista, então jamais teríamos tempo para conquistar o devido reconhecimento porquanto outros mais hábeis já deram prova de inatingível saber, antes de nós, e outros, que ainda não nasceram, o deverão fazer muito melhor que nós!

   Existirá, pois, alguma diferença entre a afirmação e a negação, a confirmação do conhecido, se ignorarmos a credulidade e a ingenuidade implícita à presunção do saber? Deveremos temer o que é usual só porque é comum ser temido? Ou será que devemos iniciar todo processo de compreensão pela “negação”, pela atenção para o significado de toda a presunção? Quanto contrassenso!

Aquele que busca a sabedoria deve apreçar-se a abandonar os preceitos doutrinários, os métodos comuns e a sagacidade. Só então poderemos entender a verdadeira diferença entre o saber e o conhecimento; a experiência e a ignorância. Assim se deixará de temer o vulgar e julgar com espírito parcial. Afirmar significa a aceitação da nossa própria complexidade milagrosa; significa dizer “Sim” ao nosso próprio ser e a aceitação da nossa realidade. Enquadrado nessa nossa complexidade possuímos o direito de dizer “Não” a certas situações e de expressar os nossos desejos e comunicar os nossos sentimentos. E se o fizermos em sintonia com a nossa condição eterna isso haverá de dinamizar uma corrente de amor e de criatividade. A afirmação “superior” consiste na aceitação do nosso próprio presente como a pessoa que somos. Tal aceitação torna-se magnânima ao não rejeitar características nem hábitos indesejáveis. Não devemos albergar noções de perfeição distanciada no tempo nem no espaço de outras circunstâncias porquanto tal noção de perfeição consiste num estado de realização que se acha para lá da qual deixa de haver possibilidade de crescimento, além duma espécie de negação da dinâmica gestalt da consciência em fluxo, coisa que simplesmente não existe.

Se formos sensatos seremos despojados de artifícios e de aparências; aos olhos do mundo, contudo, sempre pareceremos mais como perfeitos idiotas destituídos de razão e confusos. Conquanto o mundo gire num corrupio sem parar haveremos de preferir preservar a sensatez e a distinção de buscar o equilíbrio entre acção e inação e o sentido pleno que só ele pode conferir!

   Se fossemos dotados de sabedoria... Mas se não é o caso, devemos ser capazes de o reconhecer. O "saber" que é aludido neste trecho é o dos limites da convicção imatura, das opiniões e formulações gratuitas de juízo.
    É bastante improvável (porque basicamente inconcebível para a mente racional) que experimentemos o sentido de completa ausência de utilidade associado à nossa existência, bem como do "espírito" de que parece imbuído (conforme este versículo parece sugerir). Utilidade é termo que se acha imbuído de má conotação – como se devêssemos alinhar todos pelas linhas pré-estabelecidas pela convenção doutrinária, o que trai por si só todo autêntico espírito de apreciação e aceitação
A experiência da completa exposição ou total nudez da condição do vazio - conquanto aparentemente terrífica e niilista como na prática se nos possa afigurar - na verdade constitui um dos mais elevados estágios de transformação: o da transposição do pensamento discursivo, nas suas limitações, interesses mesquinhos, temores, esperanças e anseios vãos.

   Atrever-me-ia a afirmar que somente nesse estágio está finalmente o homem pronto a largar mão das "bóias de salvação" inerentes ao domínio do ilusório de que se vale desesperadamente e por todos os meios, a fim de abandonar o campo da prisão a que se sujeita - por acção do pavor e do sofrimento proporcional á sua acção de apego. Só aí nos elevamos para o estado de verdadeiro deslumbramento por que podemos dar graças pela bênção e riqueza, sentido da existência. Trata-se de algo completamente intransmissível de tão inefável e pessoal que é, não obstante ser uma coisa perfeitamente exequível com que todos teremos, numa ou noutra altura de nos confrontar, ao longo do percurso do nosso desenvolvimento.

   Não vos afasteis da vossa condição natural de desconhecedores porquanto aí reside o "centro" do verdadeiro conhecimento em potencial. Por maior que seja o nosso desconhecimento, se nos apossarmos da condição que nos impõe possuirá maior valor do que todo o conhecimento que pela imitação obtivermos, pois será nosso e como tal será uma pedra basilar no desenvolvimento da nossa percepção. A presunção do conhecimento é ignorância, porquanto o conhecimento autêntico não pressupõe conhecimento prévio mas atenção e presença de espírito apenas, porquanto tudo o que importa é já conhecido e se resume apenas a um processo de relembrar.

21
Essência da Vacuidade

É próprio da Suprema Virtude dar livre curso à sua natureza,
Todavia, a sua natureza é indistinta e indeterminada,
De tanto parecer difusa e ilusória.
Mas assim mesmo como é, possui uma forma:
"Difusa e indeterminada".
Possui em si mesmo uma substância:
"Sombria e turva".
Contém em si uma essência de vitalidade
Que se expressa através da realidade.
Dotada de inabalável autenticidade
O seu nome foi preservado por eras
A fim de fazer lembrar a origem de todas as coisas.
Como poderei saber que essa seja a sua origem?
Pela compreensão do que é oriundo do Absoluto!

Comentário

   A suprema virtude está em incorporar a Verdade. Só ela alcança a realização sem idealizar! A sua essência não possui forma específica nem se circunscreve na imagem; através do não-ser encontramos-lhe tanto a forma como a imagem. Esta pode chegar a ser conhecida apenas se não tentarmos conhecê-la - apesar de indistinta e indeterminável nos moldes conceptuais e através da abstracção intelectual - abrindo-nos ao "que é". Os antigos gregos encaravam a intuição como a mais elevada forma de expressão da verdade; verdade que nos liberta na justa medida em que abrimos para o conhecimento interior. A verdade emana de si mesma e permanece oculta à percepção dos sentidos, porém, exprime-se em toda a natureza. Ela é imutável, contudo deixa perceber todo um sentido de movimento. Para lá das sensações e da memória, a verdade é a fonte do mundo. Só pela aceitação do mundo podemos alcançá-la.
O nível mais profundo da verdade abrangido (quer pela filosofia quer pela ciência) consiste na realização fundamental da unidade. Tanto ao nível subatómico das partículas como da estrutura do “eu”, somos indistintos, e, portanto, um só. É a esse noção ou consciência de unidade que vamos colher o sentido verdadeiro da espiritualidade.

   A verdade assume a grandeza do eterno presente, à luz da qual adquire uma miríade de possibilidades e expressões que a maior parte das vezes nos confundem. Porém, nós somos tudo, e a um só tempo somos tanto o recém-nascido quanto o velho. Tudo aquilo que é dual e não-dual coexiste neste presente eterno; o imaginável bem como o inimaginável, o pai e o filho, aquele que está para nascer e o que acabou de falecer - tudo isso existe na simultaneidade do instante presente; a semente e o carvalho têm ambos uma existência simultânea. É claro que tal asserção desafia as noções de evolução e do progressivo desenvolvimento através de estados sucessivos. Mas tal é a natureza do Todo que só se pode aferir através dos murmúrios do silêncio da mente tranquila.


22
O Incremento da Humildade

Dobra-te e permanecerás erecto.
Deixa que torça e manter-te-ás firme.
Sê humilde e permanecerás íntegro.
E desse modo o que estiver desordenado poderá conhecer a ordem.
E o que se achar incompleto será repleto;
Assim, se te tornares flexível conseguirás manter a postura.
Esvazia o espírito e permanecerás repleto;
Desenvolve a compreensão e renovar-te-ás.
Aquele que nutre menos desejos é o que os verá cumpridos;
O que comporta demasiados, desvia-se do principal.
A simplicidade comporta sabedoria;
Demasiado saber conduz à dúvida e ao embaraço.
Procedendo assim, o sábio abraça a Unidade,
E torna-se modelo do mundo.
Evita expor-se e por isso resplandece;
Não se afirma e por essa razão sobressai.
Não ostenta mérito e desse modo ele lhe é creditado.
Não se exalta brandindo o sucesso;
Dessa forma resiste e torna-se respeitado
Não condescende na auto-indulgência;
Desse modo alcança superioridade.
Não compete com ninguém;
Desse modo ninguém rivaliza com ele.
Reza verdade o seguinte ditado:
Sê humilde e manter-te-ás íntegro! (coeso)
Conservando a integridade, tudo fluirá espontaneamente.

Comentário


   Os primeiros três versos do poema aludem, de forma abrangente, a um princípio dotado da idêntica e singular magnanimidade de carácter, enunciado num outro contexto, da seguinte forma:
  “Felizes os que choram, porque serão consolados; felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados...” (Mat. v.4) “não há-de quebrar a cana fendida” Mat. XII 20) “e o que permanece torto será endireitado” ( Is.)

   Aquilo que se achar em falta, será incrementado; em contrapartida, o que for em demasia conduzirá à perplexidade!

    Contudo, devo chamar a atenção para o facto de este enunciado ser demasiadamente fácil de ser subvertido na sua essência, e não denotar o sentido nuclear do poema. Na verdade, a preocupação do autor não se centra na esperança ( que em boa verdade representa o espírito do mesmo princípio, a par com a confiança que a caracteriza) mas na dinâmica da unidade, operação essa que é intemporal e ultrapassa toda a medida. Seria demasiada condescendência aquiescer ao mero cultivo do inverso (fazendo da esperança e da paciência meio para o fim objectivado, que por essa via não opera de modo satisfatório); tal revela-se insuficiente. Não é que seja uma atitude errada mas primordialmente por ser uma espécie de factor condutor a uma letargia fatal para a alma: a da condescendência na dor e no incumprimento dos mais elevados desígnios da realização espiritual, a saber, a realização da unidade implícita a toda a manifestação da vida. A diferença é substancial, porquanto impele o indivíduo, não para a resignação - nem para a aceitação passiva – mas para o imediato; a própria negação do tempo na consecução da verdade. Nesse sentido não conta se poderemos ou não satisfazer os nossos anseios de plenitude e felicidade, se com isso pudermos trilhar a via da compreensão mais ampla (espiritual), atrever-me-ia a dizer.

   Entretanto, é próprio da Lei que se cumpra todo o desígnio segundo os seus parâmetros naturais, movidos na cadeia da causalidade. A psicologia analítica (não confundir com a psicanálise) estabeleceu um paralelo incontornável ao formular alguns princípios básicos inerentes ao funcionamento da Psique como princípios que regem a Energia Psíquica: o Princípio da Equivalência, (similar à primeira clausula das Leis da Termodinâmica), que refere que todo o acréscimo de energia numa determinada área se faz acompanhar de um decréscimo da mesma numa área oposta, e vice-versa. O Princípio da Entropia (também similar à segunda clausula das Lei da Termodinâmica), que refere que a distribuição de toda a energia busca sempre, e de forma inevitável, o equilíbrio. E o Princípio dos Contrários, que pode ser melhor formulado com a declaração de Hegel de que “ tudo comporta a própria negação” e que a única forma pela qual podemos chegar a conhecer alguma coisa só se pode fazer por intermédio do contraste (e assimilação) com ou do seu oposto - tal como consciente/inconsciente; bom/mau, luz e sombra, etc. Se compreendermos tal natureza poderemos ter confiança suficiente para deixar que actue - com a certeza inegável de assentar em bases duma efectividade inexorável.

   Pela aceitação podemos nos tornar íntegros; se cedermos poderemos transpor os obstáculos - no exacto ponto que a sua natureza o determina; se nos esvaziarmos de todo o bulício e confusão, renovar-nos-emos certamente.
   Aqueles que pouco possuem (conhecimento) muito terão a ganhar; aqueles que conquistam demasiado, muito podem deixar-se enganar pela identidade oriunda do sentido de propriedade (como a saber, por ex., sobre a dicotomia entre dominar e ser dominado). O indivíduo sensato chega à aceitação do mundo por meio da compaixão e da unidade de espírito e desse modo estabelece-se como um exemplo. Não procura justificar-se e desse modo pode chegar a ser distinguido; não se vangloria e assim pode atingir a excelência; sendo o que é chega a receber reconhecimento; não se gaba nem vangloria e jamais chega a ficar em falta. Sê um com a vida (...) e todas as coisas virão a ti.

A humildade constitui a essência de toda a virtude e consiste mais exactamente na aprendizagem, aprendizagem essa que não inclui qualquer hierarquia e que toda a autoridade não só nega como garante que todo o seguidor jamais chegue a aprender.
Muitas pessoas que se consideram verdadeiros buscadores espirituais acham-se cheios dum sentimento de falsa humildade. Amiúde utilizam termos como: “Eu por mim próprio não sou ninguém – mas o Espírito de deus repousa em mim e se algum bem faço é por obra desse espírito Divino e não por mim”, ou por exemplo, “Não possuo talento próprio, só o poder de Deus possui talento”. Mas a esse respeito somos o poder manifesto de “Deus”. Ele é parte intrínseca nossa e ao negarmos a própria valia também o negamos a Ele.

23
Não Interferência

Falar pouco e agir sem esforço é o natural;
Só as palavras simples e serenas frutificarão.
Uma ventania não pode durar toda uma manhã;
Uma tempestade não dura um dia inteiro.
Qual será a razão disso?
Deve-se isso à harmonia de "Céu e Terra".
E se nem mesmo Céu e Terra
Podem produzir tais coisas de forma compulsiva
Quanto mais os homens com os seus esforços conjurados!
Assim, aquele que se conforma ao Princípio vive de acordo com ele;
Aquele que pratica a virtude, possuidor de virtude se torna;
Aquele que corteja a ignomínia sujeitar-se-á à sua acção.
Conformar-se a qualquer destes preceitos é criar-lhe franco acesso.


Comentário

   Exprimir o que sentimos sem artifícios nem dissimulação é desde logo um empreendimento e tanto, mas pode ser um caminho para a realização do objectivo mais nobre: o do contacto e o da comunicação (comunhão). Abandonar a pretensão e a justificação constitui um meio para a virtude da unidade. Através do desenvolvimento de um carácter aberto e franco, não haverá por onde não possamos passar. Se nos abrirmos à verdade, seremos por ela acolhidos. E aquele que acolhe a harmonia torna-se por seu turno harmonioso.

   Os antigos diziam que o homem não esconde. Talvez o facto de nos revelarmos demasiado nas pequenas coisas se deva a que tenhamos tão pouco de grandioso a ocultar. Os pequenos incidentes da nossa rotina diária falam tão alto quando os elevados voos da poesia ou da filosofia.

   Enquanto não desenvolvermos confiança como poderemos comandar a confiança dos demais? Se, por nosso lado formos incapazes de fazer melhor; se não formos diligentes na consciencialização pessoal bem como da dos demais, como poderemos exigir isso deles, se a sua conduta não nos satisfaz? Por meio da contradição?
Se a nossa humilde experiência pessoal de vida não pode permitir-nos que nos situemos acima de quem quer que seja, dada a condição comum que partilhamos, como poderemos esperar que a exclusividade, a autoridade, a crítica e a não-aceitação nos tragam prestígio? Se espalharmos a infâmia, a ignomínia, certamente isso nos acolherá ao longo dos percursos do nosso caminho.
   Aquilo que somos expressa-se naquilo em que centramos a nossa atenção e preocupação, bem como no modo como o fazemos... Mas teremos consciência do quanto isso significa de proporcional a uma ordem limitada e finita - quando subordinado ao auto interesse - e do quanto isso representa "uma má escolha", por denotar tão pouco?






24
Esforço

Permanecer na ponta dos pés conduz à perda de equilíbrio.
Se esticardes demasiado ao passos
Não podereis avançar muito longe.
Aquele que se ostenta não encontra reconhecimento;
Aquele que se justifica não possui mérito.
Pois ao impor-se, perde a influência;
Aquele que se vangloria não alcança superioridade.
Na verdade esses modos constituem um abominável desperdício.
Assim, o indivíduo que busca o Caminho da virtude
Não confia neles, nem tampouco os adopta.


Comentário

  Este versículo dá como que seguimento á anterior noção de realização da harmonia como máxima expressão de fé e equilíbrio e realça aspectos comummente despercebidos que em muito respondem por uma certa disfuncionalidade - quando não mesmo patologia, como se torna cada vez mais frequente no actual estágio da presente civilização – aparentemente com origem na contradição e no conflito, que nos condicionam a percepção e a expressão das nossas mais elevadas pulsões criativas.

   É perfeitamente comum alimentarmos ideais e apreciar o objecto das nossas mais variadas crenças e noções morais como únicos. Contudo, a despeito da elevada noção pessoal que alimentamos, de sagacidade, capacidade e merecimento, é frequente não nos darmos conta do quanto a desatenção para com aspectos sub-reptícios que decorrem da consciência exacerbada desse significado e acção pode contribuir para a crise e o reforço do conflito. Consequentemente, podemos ser surpreendidos e quedar-nos perfeitamente consternados por todo um quadro de aparente falta de sentido e incompreensão para com tais resultados, questionando-nos de forma inusitada sobre as razões de ser disso mesmo. Estarão os nossos valores errados justamente quando acreditávamos de forma tão fervorosa e apologética na sua vigência? Tratar-se-á, de algum modo, de falta de honestidade da nossa parte, ou o que é que estará mal?

   Com efeito, a questão central não indicia de forma directa as crenças nem os valores morais nem noções de juízo mas se ao formularmos e sustentarmos tais noções o faremos com uma efectividade que fale por uma consonância e harmonia que traduzam simultaneamente a realização duma postura profunda e autêntica, não assente em empirismo algum nem qualquer duplicidade de propósito mas na qualidade da abertura de espírito e consciência. Tal efectividade (ou falta dela) é o que poderá permitir-nos apurar a verdade do que defendemos e vivemos, cientes de que o insucesso e a luta denunciam sempre contradição separação e conflito, o que se revela constantemente um pretexto para darmos mais atenção para connosco próprios. Afinal, somos nós quem, seguros de que tomar um atalho é preferível a seguir a via ampla, não? Por obra das múltiplas e distorcidas crenças somos nós quem toma nas nossas próprias mãos o insucesso dos objectivos propostos, não seremos? Como? Pois, tratando o tema de forma genérica, diria que, deixando-nos guiar pela ânsia apressada, pelo fervor desmedido ou fé cega podemos, o mais das vezes, propiciar condição que quereríamos ver arredadas à distância porque indesejadas ou tornadas alvo da nossa aversão. Mas, impõe-se uma apreciação de todas as forças em concurso se quisermos chegar a um entendimento cabal da ordem essencial que tudo rege (e porque dotamos tudo o que criamos distinto).

   Como actuaremos em face da consciência que albergamos? Limitar-nos-emos a emitir apreciações gratuitas baseadas numa mera consciência formada na opinião, no juízo moral e no consequente escamotear da verdade relativa à confusão e incerteza íntimos, ou indagar-nos-emos sobre o significado profundo da consciência, da acção e das suas implicações? Não da efectividade de nos tornarmos naquilo que tememos, porque isso é imaturo, mas da responsabilidade que exercemos na condução consciente dos nossos destinos, e do potencial que nos assiste na sua criação.

   Essencialmente não existem absolutos. Além disso, os desafios denunciam uma ordem tal que, ao contrário de parecer votar-nos à vitimização e à completa subjugação, nos parece reforçar todo um sentido de intrínseco de inelutável significado e acção, de que queixar-nos não parece fazer contribuir em nada para a nossa felicidade. O potencial que denunciam refere-se-nos por em cheio; a nós que acreditamos nas forças grandiosas das divindades e do universo (ou da matéria) e que, de forma perfeitamente díspar e contraditória nos arrastamos pelos vales da impotência, da violência e do sofrimento num contra-senso sem par.

   Curiosamente, fala-se de consciência e distingue-se diferentes graus dessa mesma consciência no que toca à problemática dos estados patológicos, porém, muito haveria a referir que, a ser dissecado dentro do contexto, muito haveria de contribuir, de forma inequívoca, para uma noção mais avantajada da problemática. Basicamente, devo referir que a tomada de consciência tem assento de modo mais efectivo na abertura espontânea da mente para com conteúdos de outro modo inadvertidos e do carácter da sua acção sobre a personalidade, quando, p. ex. nos damos conta da manifestação de determinados padrões de comportamento e reacção inconsequentes ou atípicos e do efeito que geram sobre o humor. Tal percepção pode dar origem a um desenvolvimento salutar da atenção que cria as fundações da compreensão.

    O significado das posições antagónicas afirma-se pela relatividade que assumem entre si.
    O pé há de ser a verdadeira medida de todo o chinelo! A verdadeira medida do homem revela-se na temperança e no equilíbrio, na moderação. O indivíduo que procura exceder a sua natureza perde o centro.
   Do mesmo modo, também a serenidade interior é o estado que permite apurar o “nível” de domínio das dificuldades.
   Através da gabarolice e da hipocrisia se alcança falso respeito. A moderação é regra e naturalidade em tudo; a chave da harmonia e a firmeza do carácter.

25
Criativo

Existe algo indefinido, e ainda assim perfeito em si mesmo,
 Desde muito antes da existência de Céu e Terra.
(dualidade)
Silencioso e sem limites; singular e inalterável,
Que deve ser considerado como a mãe de tudo.
Desconhecendo-lhe o nome chamo-lhe Caminho;
Na falta de melhor termo poder-se-ia chamar-lhe Infinito.
Sendo infinito pode avançar; avançar é chegar longe;
Chegar longe significa retornar.
(ao vazio)
Assim, o Céu é grande; a Terra é grande;
Aquele que domina a si mesmo é igualmente grande;
Ele deve a sua grandeza à Terra,
 (que o sustenta)
A Terra deve-a ao Céu,
(que a fecunda)
O Céu deve a sua grandeza ao Caminho;
(que é a sua essência)
O Caminho da virtude segue a sua própria via.

Comentário

   O caminho de retorno ao vazio expressa um movimento rumo a si mesmo, agora expresso não através da diferenciação mas do alargamento do campo da identificação, rumo à individuação plena. Significa a observância da serenidade e da compreensão do eu, que precede toda a harmonia e criatividade. Mas também pode muito bem ser entendido como a morte, pois Lao Tzu numa versão chinesa refere o Caminho como “esse grande Além, que é o nosso lar”. Os seres humanos seguem os princípios da terra; a terra segue os princípios do céu; o céu segue o princípio da unidade; a unidade está no modo de ser de todas as coisas. O caminho da criatividade une os mundos interno e externo e origina o aparecimento e o desaparecimento de todas as coisas. As suas marés estendem-se pelo infinito. Paralelamente, progredir significa retroceder, ideia que envolve o aspecto em que todos os desenvolvimentos na natureza, tanto do mundo físico como das situações humanas, exibem características cíclicas mutáveis, ao invés da linearidade aleatória com que tendemos a reger-nos. “Olhar para a frente” não é distinto de “olhar para trás”, mas um complemento temporal inalienável. Conceber um percurso sem se ter noção dos antecedentes, parece-nos a mais imprópria das atitudes.

26
A Dignidade de uma
Postura Equilibrada

A gravidade é a raiz da alegria;
O pesado é a raiz do leve.
A serenidade domina a inquietação,
E governa sobre todo o movimento.
Desse modo, ainda que o sábio viaje para longe
Não se afastará da sua origem!
Conquanto rodeado de promissoras perspectivas de vida fácil,
Permanece na paz da sua casa e não abdica da sua maneira de ser.
Poderá o homem de bem menosprezar o que é importante e pleno de sentido,
Sendo mais precipitado do que precavido?
A irreflexão conduz à perda da serenidade;
Agitar-se implica perder o autodomínio e a dignidade.

Comentário

   Psicologicamente, ambos os aspectos acham-se encadeados, manifestando-se justamente com base na dinâmica dos contrários. Porém, na verdade referem uma realidade transcendental.
Se não conhecêssemos o pesar não poderíamos falar da alegria, pois esta seria totalmente inconsciente. Através da fuga à dor, por meio do preenchimento pessoal jamais colmataremos o abismo que separa aquela do prazer, e os contrários psicológicos. O sofrimento prevalecerá inexpugnável. Por meio da dualidade psicológica e da consequente comparação reforçamos a ordem de alternância da causação, e a consequente ilusão da separação. Ambos os extremos, no cadinho do desejo, gravitam entre os seus contrários.

   Assim, realça-se todo um sentido de honrarmos as disposições da nossa natureza, por mais díspares e tal qual se apresentam, porquanto tal acção adquire vasta ressonância no plano da integridade do ser, ao assumir o verdadeiro aspecto do afecto e do respeito por si mesmo (i.e. do outro). As disfunções - primordialmente psicológicas – passam muitas vezes por aspectos de profunda rejeição, negação e ambivalência no campo da auto-estima, supressão indelével de conteúdos, e o afecto constitui verdadeiramente o factor de alívio por excelência. Muitas vezes faz-se mister criar todo um campo de indução em que essa afectividade opere e faça ressoar determinados timbres no indivíduo, que, de outro modo permanece fora de alcance aparente.

   O Amor, o afecto, a atenção autêntica, são a melhor terapia! Mas... de que modo viveremos? Focando a atenção em que alvos ou objectivos, que nos obliteram a percepção? Enquanto argumentarmos a favor da mudança irreflectida não actuaremos de forma perceptiva, e assim também sustentaremos os pressupostos do dever e do vir-a-ser, baseados que estamos na ideia do “melhor” e do “bem”; conquanto sejam inoperacionais por si mesmas. Toda a acção de transformação interior deve processar-se na justa medida, pois do contrário podemos incorrer em que a exacta intensidade de energia que empregarmos pode assomar-se na exacta medida do obstáculo a vencer; assim, subjacente a todo o espírito de transformação pessoal deve alicerçar-se o justo propósito, que se traduz por um exercício activo de percepção não direccionado.

   O sobrepujar do condicionamento da dualidade subjectiva, representa o término - ou compreensão - do conceito, enquanto criação dessa subjectividade, assente essencialmente numa atitude unidireccional para a critica e o pré-conceito. Somente pela expressão equilibrada dos “dois pólos”, inerente ao perfeito equilíbrio da dualidade de factores psicológicos, poderá a energia da unidade ser realizada.
  A actuação do sábio, contudo, é equilibrada e não dada ao cultivo bipolar de estados de excitação nem de tristeza. Ainda que se desloque para o reino da abundância sempre manterá a própria postura e recolhimento, plenamente conscientes de assim conservar as suas raízes. Desse modo não se inquieta nem perde a compostura natural.
   O bom líder não deve agir com leveza nem entusiasmo; se actuar com frivolidade perderá contacto com o facto (mundo); se agir com precipitação perderá o domínio de si. A calma é mestra sobre a pressa. A compostura domina sobre toda a instabilidade.


27
A Luz da Harmonia

Avançar correctamente significa não deixar rasto;
Ser eloquente equivale a não deixar o que possa ser refutado
Nem causar mágoa a ninguém;
Calcular adequadamente assemelha-se a não ter que recorrer a cálculos;
Fechar bem quer dizer prescindir de chave e de ferrolho;
Não obstante, ninguém o abrirá.
Boas amarras não necessitam de corda nem laço;
Não obstante, ninguém as desata.
Por isso o sábio sempre é prestável no auxílio que a todos estende;
Exímio no aproveitar, nada deixa que se desperdice.
A isto se chama Abraçar a Luz!
Logo, o homem de bem é mestre do homem vulgar;
Mas este constitui a lição daquele.
Pois não revelar deferência pelos outros,
Nem reverencia pela instrução,
É não tirar proveito da sua lição,
Mas percorrer a via errada,
Sem que importe o quanto se possa parecer inteligente.
A isto se chama subtileza essencial; os caminhos cruzados do Mistério!

Comentário

   O bom mestre não distingue com superficialidade; desse modo sempre será escrupuloso no trato com os alunos, sem usar de crítica mas tendo sempre enorme apreço pela clareza. Se não considerarmos o aluno como sendo um com o professor, (porquanto reunimos efectivamente a um só tempo, e na mesma pessoa, aluno e mestre) por mais inteligentes que sejamos, cairemos no logro da distinção subjectiva de perceber os defeitos do outro sem distinguir os próprios (o que conduz à hipocrisia). Mestre e discípulo existem em igualdade de circunstância em cada um. Daí procederá a autêntica compreensão e empenho.
   A virtude está em seguir o caminho natural, sem se opor nem obstruir o seu fluxo com particularidades, segundo o que nos é requerido para atingir a raiz da questão, e tudo considerando na sua devida proporção. Se preservarmos tal virtude poderemos dar o exemplo. Se soubermos pronunciar-nos quando tal for requerido e manter-nos discretamente em silêncio quando for o caso, seremos capazes de ser um exemplo para o mundo.

   Fundamentalmente, porém, o tema central deste versículo alude á diferença entre a razão e a certeza absoluta, o conhecimento directo; a diferença que se estabelece entre o raciocínio calculista e a confiança intrínseca a determinadas “características” (na falta de palavra mais adequada) que respondem por uma efectivação de resultados com total abertura e sem esforço algum. Aquilo que responde por um razoável equilíbrio tanto emocional e racional como também um sentido espiritual e que assenta na percepção e desenvolvimento de qualidades tais como a auto motivação, a confiabilidade, a iniciativa própria, a capacidade de escutar a “voz interior” seja por que meios for, ser aberto à exploração do novo, persistência, a facilidade de canalizar emoções para situações positivas, a clareza de comunicação, a auto valorização, o entusiasmo, o dom de interpretar impulsos, a imaginação, a superação de limites, a capacidade de se deixar arrebatar pelo belo, a bondade de carácter, carisma, etc., etc., etc. Tudo isso são “ferramentas úteis que “fecham” e “amarram” com uma firmeza e eloquência que dispensam a dúvida. Mas precisam ser reconhecidas e fortalecidas até se tornarem na pedra basilar em que faremos assentar o edifício da criatividade consciente.
  
28
Equilíbrio

Ter consciência do princípio masculino
(virilidade e afirmação intelectual ou física)
E ainda assim conservar o principio feminino
(receptividade e intuição)
É tornar-se ravina profunda para o que tudo o mais fluirá
E mover-se constantemente no caminho da excelência,
Reforçando, assim, a simplicidade original.
(participando desse princípio inefável)
Ser esclarecido e ainda assim conservar a modéstia
É converter-se numa referência para o mundo.
Proceder dessa forma é afirmar a virtude original
Sem vacilar num único movimento,
Retornando, desse modo, ao infinito.
Conhecer aquilo que é digno de glória
E ainda assim permanecer na modéstia,
Preservando assim a humildade,
É tornar-se fonte para o mundo;
Viver a vida abundante da virtude
E retornar à simplicidade natural.

Comentário

   As primeiras duas estrofes deste versículo encerram um sentido inquestionável de ligação com a preservação da energia vital pelo domínio da ejaculação sexual, tão caro aos iogues taoístas, sempre contrária à supressão dos fluxos do erotismo, expressões da mais potente força do universo. Contudo passa, o mais das vezes, despercebido nas interpretações actuais. Devido a isso, e mesmo porque tal menção é muitas vezes suprimida nas interpretações da maioria, desenvolvi uma outra abordagem não menos actual e significativa: desenvolver a criatividade sem deixar de preservar a receptividade representa a preservação da mente da criança, que flui como a água corrente.
 
   A expressão do feminino comporta as características da imaginação, do sentimento, da concepção e da percepção. A percepção não significa tanto o desenvolvimento unilateral do intelecto e da compreensão que ele nos proporciona, porquanto não é mais válido pensar do que sentir, como, de resto, o inverso. Na verdade, necessitamos desenvolver ambas as expressões num equilibrado sentido que nos permita alçar-nos além da compreensão e do significado da intelectualização e do emocionalismo. Depois, devemos lidar com as emoções de forma indistinta, se quisermos chegar a conhecer-nos efectivamente, de forma independente do género. É comum atribuir-se a expressão da raiva ao homem e da mágoa à mulher; na verdade porém, o homem expressa a mágoa não por meio das lágrimas, como a mulher, todavia também precisa lidar com a expressão da mágoa sem negar o seu lado ferido e sem receio de denotar fraqueza, porque de outro modo não sanará satisfatoriamente a raiva.

   Perceber é dar um passo atrás e contemplar sob perspectivas de um todo; é deixar que o sentido e a compreensão nos acolham ao invés de corrermos atrás deles. É perceber e obter compreensão de reinos onde a palavra não pode penetrar, para lá das imagens, dos sentimentos e das concepções.

   Os padrões religiosos que se revestem dum carácter paternalista habituaram-nos a uma imagem do divino sob traços de um chauvinismo machista. Tal tem vindo a satisfazer o homem na medida em que este se tem contentado com os resultados da atribuição do seu próprio conceito de poder ao guru, ao sacerdote, ao mestre, ao ministro e ao psiquiatra. A partir de certa altura, a Igreja estabelecida (dita cristã) passou a alienar, anatematizar e a diabolizar todas as imagens que visassem o feminino associada à religiosidade e à espiritualidade, por achar que esta estaria a ameaçar a sua estrutura e ascensão, predominantemente masculinas, do que resultariam inúmeras práticas de iniquidade como a caça às “bruxas”, a completa aniquilação e destruição de culturas e povos que desafiavam e contradiziam o seu poder temporal e espiritual, a inquisição, em nome de Deus, da Verdade, etc., etc. A história está repleta de ultraje, distorções e enganos. (4)

   Mas vejamos, a orientação específica de género, no que toca às questões da identidade pela sexualidade, por exemplo, nas mais diversas épocas e culturas, reflecte uma divisão básica da consciência que não só separa, em larga extensão, o homem das suas intuições e emoções, como também a mulher que tende a ser separada do seu intelecto. Tal unilateralidade de distinção tende a propiciar uma civilização em que a mente e o coração – sede do facto e da revelação - resultam completamente divorciados, como se todo o indivíduo se achasse em estado de guerra com a psique, uma vez que neste esforço todas as características humanas do indivíduo precisam ser negadas a fim de se ajustarem àquelas que são consideradas “normais” pela identidade sexual. Mas tal acto de sublimação provoca um verdadeiro padecimento a nível social, ao dividir os impulsos criativos do intelecto e da intuição por alturas da puberdade, precisamente quando mais necessárias são. Tal tipo de especificidade tem início quando o menino é ensinado a identificar-se exclusivamente com a imagem do pai, e a menina com a imagem da mãe - processo que instila uma noção insidiosa e indirecta de culpa, que se reflecte por todo o crescimento e leva a fazer crescer o sentimento íntimo de rebeldia.

   Considerar cada coisa sem perder de vista o seu contrário (vale dizer, o finito, sem perder de vista o infinito) significa preservar a integridade e a abundância no campo do ensino; mover-se num estado isento de precedentes.
   A afirmação do "ser" de cada condição sem a consciência da sua contrapartida, em termos de negação (num todo indissociável) comporta de forma inelutável uma condição de simplismo!
   Se formos íntegros conheceremos a honra mas preservaremos a humildade. Se a constância na integridade for completa, retornaremos ao estado original de consciência indiscriminada e honestidade - isenta da afectação do eu - e preservaremos o vazio; uma vez vazios preservaremos a abundância de recursos. Por tudo isso se diz que o bom alfaiate é aquele que corta pouco, e o bom escultor não o que acrescenta mas o que retira somente o que está a mais.
Aquele que não volta as costas à própria ignorância de si mesmo pode alcançar a luz do esclarecimento e tornar-se modelo do mundo.


29
Expressão do Sagrado

Esperais tomar o mundo de feição e transformá-lo?
Não vejo como possais ser bem-sucedidos;
O mundo é um recipiente sagrado
Em que nem o desejo nem a vontade devem intrometer-se!
Intrometer-se, procurar dominá-lo,
Significa deformá-lo, deitá-lo a perder.
O que estava na frente passa para trás;
Aquilo que é beneficiado a seu tempo será abandonado
E o que foi amealhado ridicularizará o esforço empregue;
Frequentes vezes a força procede da fraqueza e do infortúnio.
Em verdade há um tempo para cada coisa
Seguir adiante ou permanecer atrás;
(agilidade, lentidão)
Um tempo para a passividade e um tempo para a euforia;
(entusiasmo, apatia)
Um tempo para o crescimento e um tempo para a decadência;
Um tempo para estar em cima e um tempo para estar por baixo.
Assim, o sábio deixa todas as coisas seguir o seu curso,
Procura evitar o excesso e a arrogância
E afasta de si os extremos e a extravagância.

Comentário

   O mundo é um receptáculo sagrado porquanto é a representação de manifestações do Desígnio Perfeito Original.
O que, sob o véu aparente da ilusão e da multiplicidade, percebemos como pluralidade de forças em confronto e negação mútua, esconde o carácter sem par da singularidade e da unidade, condição em que, situada para além de toda a divergência e contraste, reside a essência do inefável. Tudo constitui uma só dinâmica: a da mutação - inimaginável fonte de bênção, alegria imorredoura e de júbilo sem limites.

   Impelidos pela subjectividade de uma "realidade" moldada pelos sentidos, deparamos com um mundo ajustado ao que fomos preparados para encarar. E nessa medida nós somos seus criadores passivos. Mas o mundo é, antes de mais, aquilo que nós formos! Contudo, não será a vida verdadeiramente sagrada? A mudança só refere o seu aspecto superficial. Se quisermos realizar a sua unidade temos de reaprender a abrir mão de tudo o que julgávamos saber com relação ao que não se revelou tão eficaz quanto as expectativas. Não se pode simplesmente correr sobre chão de vidro sem esperar causar danos irreparáveis. A natureza é frágil, sensível, e dispensa atropelos; intrometer-se com a natureza do que é delicado equivalerá a arriscar-se a deitá-la a perder. Não será isso assim devido ao facto de a subvertermos com a intervenção de meros subprodutos da distorção como a intenção e o desejo?

   Não devemos negar as verdades que nos preenchem o caminho, próprias do nosso ritmo e percepção.
Dominar equivale a ser dominado. A alteração que as coisas podem sofrer, no curso do restabelecimento da ordem original, há de ser natural porquanto o sagrado assenta no Incriado, e na integridade do que é sem suportes, exactamente “tal qual é” . Não há razão para sentirmos medo infundado. Há forças em movimento às quais nada poderemos acrescentar e às quais também nada poderemos subtrair. Só há um caminho a seguir para o homem sensato; a via do correcto não-interferir. O homem sensato não procurará deter as manifestações tal qual se apresentam mas percebe-as como elos indissociáveis de uma cadeia vasta em termos de valor e sentido; tampouco procurará mudar a sua natureza por meio do desejo ou da supressão pois sabe que isso só reforçará o antagonismo e a agitação e por isso evita os extremos, o excesso e a complacência por meio do desenvolvimento da compreensão e da compaixão.
Não interferir e deixar seguir o curso natural do desenvolvimento de cada coisa, dentro da ordem manifesta, é o que empreende aquele que desenvolve a sensibilidade.


30
Descartar o Uso da Força

Aquele que sabe conduzir o governo pela via da Justiça
Ignora o uso de armas,
Pois é próprio da sua utilização sair-mos feridos.
Onde estacionarem exércitos crescerão somente cardos e espinhos;
Após uma grande batalha seguir-se-ão anos de fome;
O homem de bem cuida de servir à protecção do seu povo,
Todavia, procura vencer sem auto-engrandecimento.
Após atingir a vitória não exibe sucesso,
Nem se orgulha da habilidade empregue
Arrependendo-se sim da incapacidade de impedir o conflito.
Não deves pensar em conquistar os demais pela força
Porquanto isso é contrário à natureza!
Ao apogeu de poder sucede invariável e inevitavelmente a decadência.
Tudo o que é contrário à vida caminha para o seu fim!



Comentário


   Abandonai o uso da violência pois ela só gera antagonismo e resistência. A compreensão do natural e infinito equivale à sensatez e inibe a vaidade da identificação gratuita. Todo o indivíduo que procurar mudar o mundo pela força, será responsabilizado em consciência.

   A aceitação, pelo contrário, não significa resignação diante das disposições do inconsciente mas, ao invés, acção positiva e ser-se resoluto. A aceitação construtiva não é fácil nem difícil mas decorre naturalmente da abertura meditativa conseguida. Não se trata de disposição deliberada para acolher as coisas pelo que são, antes representando um exercício de flexibilidade e exposição ao “que é”, uma disciplina do inconformismo e da atenção básicos inerentes a todo processo de autoconhecimento, indispensável à transformação pessoal. Tal aceitação significa uma quebra no padrão repetitivo e limitativo da identificação pessoal inerente ao processo do pensar.

31
Preservação da Paz

Armas de guerra são instrumentos do mal;
O homem de bem não confia nelas.
Em tempo de paz, o governante confia a esquerda
Como lugar de honra para ministros.
Em tempo de guerra, confia a direita
Como lugar reservado para generais. 
Sendo as armas instrumentos nefastos
Não são próprios para o homem de bem;
Só quando forçado deverá ele recorrer a elas.
Àquele para quem a paz e a serenidade são caros ao coração
Mesmo uma vitória não constitui causa de júbilo;
Esse regozijo diz respeito ao morticínio.
Assim, aquele que se regozija com a matança
Não pode esperar evoluir no domínio do mundo. (si mesmo)
Deve reservar-se sempre o lado esquerdo para os momentos propícios 
E o lado direito para as ocasiões de pesar.
No exército, o lugar de Tenente permanece à esquerda
E o de Capitão à direita;
Isso significa que a guerra é tratada em paralelo com o serviço fúnebre!
Aquele que muito matou cumpre ser chorado com tristeza e desgosto
Por isso mesmo se assemelha a vitória a um funeral.

Comentário

   A meditação propõe-nos a paz interior da aceitação, de forma a podermos alargar as portas da percepção e da sensibilidade, que conduzem à unidade do Amor. Somente por meio do amor poderá ocorrer a transformação e o desenvolvimento pessoal que, não obstante, mais nenhuma via consegue.
A meditação não refere nada de extraordinário, além de constituir uma dimensão extra da observação do carácter pessoal reflectido no relacionamento, obtido por meio da atenção focalizada, dimensão essa indispensável ao desdobramento criativo bem como ao desabrochar da compreensão. Sem meditação não podemos desdobrar-nos na compreensão/resolução dos conflitos que nos atormentam e que encontram sede no terreno da dualidade psicológicas, nem tampouco transcender os limites do “eu” e a identificação com o pensamento.

32
Espírito Crítico

A Verdade é eterna;
O Caminho da Vida é destituído de atributos.
Porém, insignificante como é na sua simplicidade original,
Não fica abaixo de coisa nenhuma neste mundo.
Se os governantes pudessem cingir-se a ele,
Céu e Terra resultariam em harmonia
E reinaria a paz entre os homens
Sem que se sentissem constrangidos.
Quando se perdeu a Simplicidade Original
 Houve necessidade de dar nome às coisas,
Porém, a diversidade de nomes não refere o inominável.
É apropriado suster a discriminação;
A verdade está para o mundo como o mar para os rios.


Comentário

   Desde logo, o Caminho da Vida refere a singularidade implícita ao QUE È – isento de julgamento e como tal destituído de atributos.
  Depois, a contrapartida indispensável da confiança reside justamente no discernimento; na faculdade de discernir em quem se deve confiar e, ou, que tipo de situações deve tomar como certas. Avaliamos segundo a óptica de uma duplicidade de bem e mal, de certo e errado, e nessa exacta medida também restringimos a nossa confiança pessoal, liberdade e integridade. A diferença do autêntico discernimento responde pela disparidade patente entre o homem livre que considera antes de mais segundo uma perspectiva humana (o homem e a sua verdade intrínseca em primeiro lugar) e só depois os princípios e as noções de valor moral - e o tacanho que usa e abusa da arbitrariedade lógica para justificar a sua estreiteza.

  A preservação da autenticidade não conduz à fama; o seu valor, aos olhos dos demais, insignificante parecerá. Contudo, a sua eficácia transcende toda a medida e ilusão decorrente do tempo.
   Se fosse passível de ser definida poderia prestar-se à utilidade. Talhai um bloco tosco e ele resultará vistoso; educai o homem simples e ele poderá perder a simplicidade. A utilidade conduz ao desgaste; a inutilidade ao crescimento. Todavia, ambos são aspectos inseparáveis de uma dinâmica, cujo rompimento somente movido pela acção irreflectida e gratuita do homem, alicerçada no seu desejo separatista e exclusivista pode assumir tal carácter isolador de gravidade e dano. Quando se subverte o significado ao sentido de utilidade perdemos a sua essência. Procurar obter demasiado saber, conduz à perda de perspicácia.

33
Sabedoria

Aquele que conhece os outros é sagaz
Mas quem conhece a si mesmo possui sabedoria.
Aquele que consegue prevalecer sobre os outros é poderoso
Mas quem conquista a si mesmo, possui força.
Todo aquele que sabe contentar-se é rico;
Aquele que for capaz de perseverar no Caminho da Virtude,
Sem perder o seu “norte”, possuirá firmeza de carácter.
Aquele que preservar a sua integridade
Sem perder o equilíbrio, perdurará.
Poderá ter de enfrentar a morte, porém, não perecerá
Mas gozará de verdadeira longevidade.

Comentário

   A fronteira que separa o conhecimento da ignorância é subtil. Que conhecimento se referirá? Sem percepção do "eu" não se pode falar em discernimento. A capacidade de discriminação, por si só, não denota conhecimento nem formação; a eloquência não se traduz pela oratória mas através da condição de simplicidade e abertura de espírito. Falar, é próprio do domínio do saber; escutar, é um privilégio da sabedoria.

   O conhecimento, qual jóia em bruto, se não for “polida” com esmero e refinado cuidado pode constituir uma lâmina de dois gumes e ferir aquele que o utiliza de forma indiscriminada. Assim como somos aquilo que pensamos e proferimos também aquilo que por via do conhecimento cultivado passamos a acreditar tende a moldar a nossa própria realidade. Isso é inegável, muito embora o leitor possa não se dar conta do facto.
   Em contrapartida, o desconhecimento não significa ignorância!
   O poder da vontade pode conduzir-nos à fama, todavia sem moderação e equilíbrio nada poderá perdurar. Aquele que alcançar o cerne da paz, alcançará também influência no ensino.
   Quem se contenta é verdadeiramente abastado; aquele que se concentra na conquista de posses habilita-se a ser por elas “apossado”. Perseverança equivale a verdadeiro poder, quando não se identifica com obstinação e voluntariedade.

   Contudo, em que pilares, no quê exactamente, encontraremos o centro dessa firmeza de carácter? Bom, cumpre perceber que a firmeza a que se alude deve resultar de um intercâmbio entre o ser interior e o exterior, numa simbiose que responde por uma unidade que passa habitualmente percebida como conceitos e entidades distintas. Para tal apresentam-se várias vias de comunicação, bastante expressivas que precisamos aprender a observar com uma sensibilidade que dispensa requisitos prévios tais como o conhecimento de outros, de condições, etc., mas tão só da atenção e de alguma determinação da vontade. São eles: a imagética contida na linguagem dos sonhos; as emoções; o sentido interior da empatia e da conceptualização; os impulsos, as impressões e a própria imaginação. Quanto mais aprendermos a abordarmos estas “vias de comunicação”, tanto mais facilmente entraremos em sintonia com o ser interior, que dispõe de informações úteis tanto ao nosso desempenho e realização do potencial (definição da vocação, descoberta de recursos, sentidos anteriormente despercebidos, et.) que nos auxiliarão a resolver os problemas com que nos deparamos, porque esses problemas, - que somos nós que criamos – resultam da perda dessa comunicação com a “fonte” interior.

34
Magnanimidade

A Virtude Sublime é universal e assemelha-se a um dilúvio.
Como poderá voltar-se para a direita ou para a esquerda?
Todas as criaturas dependem dela
Sem que lhes recuse coisa nenhuma.
Realiza a sua obra sem reclamar posse sobre ela;
Sustenta todas as coisas e nutre-as
Sem dominar sobre elas;
Por isso é tido na conta de Humilde.
Todas as coisas retornam a ela e a aceitam como um refúgio
E ela nada lhes exige;
 Por isso o chamam Grandioso.
E justamente por não esperar nenhum reconhecimento
É que a sua grandeza é plenamente realizada.

Comentário

   Todas as coisas, pela sua ordem, se cumprem sem excepção nem exclusão, de acordo com a sua natureza de ser, e assim satisfazem o seu propósito em silêncio, sem exigências. Sendo um aspecto dessa ordem natural não exercem domínio sobre quem quer que seja nem coisa alguma, prevalecendo antes como fonte irrestrita e incondicional de nutrição. Se o seu princípio não inclui qualquer reserva nem excepção, deverá ser de importância primordial; na medida em que não favorece nenhuma parcialidade revela-se infinito.

35
Fidelidade de Espírito

Aquele que se conserva fiel à Virtude Sublime atrai o mundo para si.
E se todos acorrem a ele, não encontram qualquer dano
Mas paz e harmonia.
Musica e petiscos podem constituir uma pausa para o viajante,
Porém, as palavras expressas com verdade possuem efeito duradouro.
Embora ténues e carentes de sabor,
Não podem ser percebidas com os olhos
Nem escutadas com o ouvido.
Mas o seu uso prevalece inesgotável.

Comentário

   Aquele que possui sensatez age de acordo com a natureza, e nunca vai de encontro a ela, conhecedor que é de que desse modo encontrará paz de espírito e realização; esse, procura a compreensão do coração e assim avança sem risco de injúria. Por tal será procurado pelos demais.
   Se oferecerdes bom alimento ou musica, os viandantes pararão á vossa porta; contudo, se agirdes com justiça e virtude, poderá ser que ninguém dê por isso, mas seguramente todos sairão bem mais beneficiados. A vida age sem favor nem benevolência; todavia, se praticarmos a virtude, o seu benefício tornar-se-á inexaurível.

   A única paz que o mundo conhece é a da distracção e do desinteresse, a da ocultação dos factores de perturbação. À medida que aprendemos a encarar a nossa impotência e temores de modo mais consciente e afável também nos desdobramos na paz da aceitação criativa, e isso afectará os sentimentos e as preferências de quantos preferem a ilusão à paz. Aquilo que a paz exige vale bem pelo que tem a dar.

   Cultivai o ócio e a meditação e procurai a compreensão e nessa medida podereis causar, àqueles que vos rodeiam, a percepção da diferença dos vossos actos. Uma boa parte dessa paz reside em sermos prestáveis; a cada passo podemos deparar-nos com situações que se prestam ao auxílio, através das quais podemos plantar sementes de compreensão, de gentileza e serenidade.
Ainda assim, e apesar de não podermos evitar ser levados na conta de tolos, ao procurar empreender o que ninguém parece apreciar (mais do que justificar as suas convicções e opiniões de juízo formado) é como se buscássemos visualizar o vento, que é invisível e infindo, e corre por onde lhe apraz. É justamente em tornar-nos como ele, e não em persegui-lo, que reside a paz. Estendei as asas e voai no seu amor e na sua luz que nos advém da vontade de o fazer, e do desejo de a manifestar em toda a sua glória.







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