quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

SOBRE A EXPECTATIVA





SETH, SESSÃO 76, 3 DE AGOSTO DE 1964

Tradução: Amadeu António

Vou começar com um tratado breve relativo à importância da expectativa, não só no que diz respeito à construção de objectos físicos a partir de dados (informação) de carácter interior como também na importância desempenhada pela expectativa no exame dos dados interiores que são recebidos e da importância que a expectativa tem na interpretação dos dados de carácter interior após o processo de análise ter sido efectuado.

A expectativa, talvez mais do que qualquer outra qualidade caracteriza o indivíduo e representa os aspectos mais recônditos da sua personalidade. Constitui a estrutura das suas construções de natureza física, e mais do que átomos e moléculas, ela representa o “tijolo de construção” psíquico com base no que as suas construções se erguerão.

Já falamos de construções psíquicas e referimos que as formas físicas são erguidas sob estruturas interiores psíquicas. As emoções, pois, no seu próprio domínio não percebido pelos sentidos exteriores possuem a sua própria solidez e forma, e é a partir delas que as vossas expectativas são formadas.
Tais emoções com efeito formam as expectativas, e não o contrário.

Tal como os objectos físicos podem ser manipulados, assim também podem ser manipuladas de modo a serem combinadas em variadas formas e construções psíquicas. As expectativas de um homem constituem o resultado da sua herança emocional e da capacidade que tenha de compreender e de manipular essa herança. Caso esse a manipule bem, então as suas expectativas funcionarão a favor dele. 

As emoções são para ser usadas e desfrutadas coo “tijolos de construção” psíquicos. Contudo, não há lei alguma que diga que o homem não possa deitar esses tijolos aos quatro ventos, em vez disso, e esperar que quando caiam possam possivelmente cair no formato de um castelo.

Uma vez mais, as expectativas são, não só vitais na formação das construções materiais como também determinam que a informação interior, por entre toda a disponível, seja acolhida pelo indivíduo. Depois o indivíduo interpretará essa informação nos termos dessas mesmas expectativas.

O âmago da individualidade, pois, é constituído pelas expectativas que tenha, por ele vir verdadeiramente a receber aquilo que quer, tanto individual quanto colectivamente. Caso um homem deseje alterar o seu destino, o desejo não chegará, mas a expectativa sim. O desejo pode vir a tornar-se expectativa, mas por si só não é suficiente. A expectativa constitui o factor de desencadeamento principal na activação da informação interior no domínio da construção física. Sem ela, nenhuma construção material resulta.

Esta é uma informação extremamente valiosa, particularmente no que concerne à parte representada pela expectativa na análise da informação disponível.

A expectativa é igualmente um tanto influenciada pelas existências passadas, mas ainda assim, não o suficiente para vincular a presente personalidade. Uma expectativa de perigo criará perigo efectivo. Uma expectativa de sucesso criará sucesso. Isto é colocado em ermos bem simples, no entanto não há nada, em termos práticos, que seja mais válido, uma vez que a expectativa tem por trás de si a força motivadora da personalidade e utiliza ao nível subconsciente fortes capacidades e formas de compreensão. A expectativa representa, pois, a força que desencadeia realidades psíquicas em construções físicas.

Na vossa área material - e esta limitação é importante – na vossa área material as verdades são frequentemente originadas, ou constituem o resultado de expectativas trabalhadas. Por conseguinte, se acreditarem, por exemplo, que excelentes artistas estejam destinados a ser acometidos pela pobreza, então isso deverá passar a fazer parte do quadro das expectativas generalizadas que venham a ter, e para vós virá efectivamente a ser e a existir como uma realidade.

Se se tivessem tornado ricos, ver-se-iam, pois, em risco de perderem essa capacidade, dado que no domínio das expectativas que têm uma capacidade dessa natureza e a riqueza não terem existência simultânea. Para protegerem, pois, a capacidade que têm, bater-se-iam, pois, fortemente, para reter a vossa pobreza.

Caso um outro indivíduo, por exemplo, não acredite que o talento artístico de alta craveira não possa coexistir lado a lado com a riqueza, então aquilo que representar uma verdade para vós não representará para ele, e ele não se sentirá ameaçado pela riqueza, nem tão pouco a capacidade que tem. Pode mesmo sofrer um melhoramento.

Uma vez que referi que as expectativas são formadas pelas emoções, então serão as próprias emoções básicas que deverão ser objecto de manipulação, uma vez que as expectativas constituem o enquadramento formado pelas emoções. Esse é o ponto de partida.

Seria inútil ignorarem o facto de se sentirem odiados, muito embora o ódio represente uma distorção de uma mobilidade psíquica básica. A menos que aprendam a jamais distorcer a sobrevivência básica da consciência em termos de ódio, sempre terão que lidar com ódios e agressões aparentemente não resolvidos.

As agressões constituem meramente o resultado de energia não dirigida (canalizada) com clareza, padrões de sobrevivência inválidos. Caso tais padrões não sejam tratados com um certo grau de sucesso, tornar-se-ão expectativas, em que passarão a deixar o seu poder na formação de construções de infortúnio.

Emoções, ou a energia emocional, são passíveis de ser facilmente transformadas de uma coisa em outra. A energia usada no ódio pode ser usada no amor, por exemplo. Contudo, as agressões podem ser transformadas em termos construtivos, caso se faça uso de atenção. As agressões deviam, tão logo quanto possível, e após o seu pronto reconhecimento, ser transformadas em construções. Se não forem, esquecem conscientemente a agressão, e a energia acumular-se-á até explodir no que chamaremos de construção isenta de acompanhamento… 

Exemplo: A reacção quase instantânea que a Jane teve a seguir ao anúncio do G.I foi excelente quanto a isso. O sentimento agressivo desatrelado teria causado dificuldades na galeria onde trabalha, e mesmo no vosso relacionamento pessoal. A busca da amiga – a vossa senhoria – foi benéfica, dado que por meio de uma conversa inofensiva e a tagarelice, muita da energia agressiva foi construída de uma forma inofensiva.

A quase imediata pressa demonstrada no apartamento foi ainda melhor. Ela já se encontrava ajustada para a acção e a actividade física. Um acesso de raiva, como um arremessar de pratos, teria sido ainda mais eficaz do que acção nenhuma, embora não tivesse representado a melhor das soluções. Contudo, as mudanças construtivas efectuadas ao redor do apartamento, foi acção instintivamente correcta, conforme o terá sido o vosso acordo em ambos desses exemplos.

Excepto o desapontamento que sentiu quanto à sua escrita, a Jane quase instintivamente opera um padrão benéfico com respeito a isso, e tu estás certamente a progredir. Tão pouco será tolice esperar por melhoramentos no vosso apartamento sob circunstâncias que tais, como as de que estamos a falar.

A actividade física constitui excelente de usar e de controlar o efeito da reacção agressiva, e impedirá o acumular das emoções agressivas em construções corporais destituídas de acompanhamento, assim como preveniria o habitual empilhar de tais agressões, de que resultam continuamente construções detrimentais.

Não há como contornar aquilo que referi. O poder emocional existente por detrás das vossas expectativas acciona essas mesmas expectativas numa realidade física. O subconsciente – conforme o designam - representa um tremendo poder em estado bruto no desencadear subsequente da construção de acordo com as expectativas que formam a partir das emoções. O intelecto deveria ajudá-los a compreender essa usina de poder, de modo a conseguirem comutar o poder que têm onde seja necessário. O intelecto devia operar como um raio X, e habilitá-los a ver por dentro.

Conquanto muitas das vossas expectativas sejam formadas na infância, nenhum “interruptor” se acha realmente preso numa posição definida, e será prerrogativa vossa canalizar a vossa energia emocional para qualquer padrão destinado à acção que desejem. É extremamente importante, não obstante ser difícil sondar e descobrir exactamente quais sejam as vossas expectativas. Não os vossos desejos mas as expectativas, por só construírem essencialmente aquele ambiente físico que acreditarem ser capaz de ser construído.

Tem sido dito que muitas vezes as expectativas de um homem sejam demasiado elevadas para as capacidades que tenha, mas na verdade são as expectativas que formam as capacidades; e caso as expectativas fossem mais elevadas, também as capacidades floresceriam.
Estes são aspectos práticos respeitantes à construção de informação interior em matéria física e nenhuma informação mais prática lhes poderia ser dada.

Eu sugeria, Joseph, que tu tenhas adoptado a ideia anterior de que um verdadeiro artista não possa ser rico. Subconscientemente, tu sabias que eras um artista. Assim que conscientemente percebeste que eras um artista, deixaste de tentar ganhar bom dinheiro, com receio de que te visses privado das capacidades que tens. Enquanto acreditares nisso, também na verdade as expectativas que tens da realidade se tornarão numa realidade.

Preciso não será dizer que, se canalizares toda a tua energia para o dinheiro, pouca vontade restará para a pintura, mas entre esta equação e a crença de que um artista deva ser pobre há um longo trecho. Isso apresenta demasiado espaço de manobra. Se me for permitido, sugeria um reforço, infelizmente, desse tipo de expectativa. Eu sugeria da tua parte um sentimento bastante ilógico mas porventura compreensível de culpa, que envolve o teu pai. De facto, sugeriria que talvez tenhas hesitado, enquanto primogénito, em te tornares financeiramente mais solvente do que o teu pai é, e por conseguinte aos teus próprios olhos, o envergonhasses simbolicamente. Com efeito.

Também iria sugerir, caso mo perdoes, o receio completamente natural de uma relação incestuosa com a tua mãe. Nada lhe agradaria mais que o dinheiro, e tu receias que se conseguisses mais fazer mais dinheiro que o teu pai, ele viesse a sentir que o fazias propositadamente, para lha tirar. Bom, o que quererias fazer com uma mulher de setenta anos ultrapassa-me. Perdoa o meu humor, dado que o assunto é sério. Fui incapaz de resistir.

Mas todas essas realidades psicológicas íntimas tingem as expectativas que tens, tal como a Jane se acha inteiramente convencida de que um escritor de verdadeiro mérito não possa ter filhos. No caso dela, contudo, os reforços acham-se tão perigosamente entrelaçados que não fará qualquer tentativa para o endireitar. Mas tal “verdade” inexistente não se acha tão vinculada no enquadramento da sua personalidade para que eu pudesse incorrer nalgum perigo ao mexer com isso.

Tu estás seguro, conquanto deposites uma boa porção de energia na pintura, mas essa expectativa distorcida que tens podia acabar por se tornar mordaz mesmo com respeito aos teus quadros; porque mesmo quando te sentes agradado com o teu trabalho, ele poderia em definitivo tender a impedir-te de uma forma marcada, de procurares não só compensação financeira como outras formas de satisfação, ao te impedir como impede de os mostrares, quando exibi-los por galerias e exposições por todo o país seria importante. Tal veto às exibições, por exemplo, não faz parte das expectativas distorcidas que tens, mas poderia facilmente fazer. Todas as expectativas sofrem evolução, tanto válidas como não válidas.

Não estou, conforme deverias saber, a sugerir um trabalho de oito horas diárias. Estou a sugerir que examines tão objectivamente quanto possível as próprias expectativas básicas que tens, por isso te auxiliar e representar um passo essencial na sua mudança para melhor. O talento que tens é com efeito excelente, e da melhor qualidade. Muitos foram os artistas que produziram e auferiram proveito da sua produção. Há um certo trabalho que poderias fazer que que poderia ser comparado ao da ficção da Jane; ou seja, anúncios que te trariam dinheiro, e ainda assim expressares uma parte criativa e intuitiva da personalidade, que não é, conforme vocês dizem, trabalho mercenário.

No teu campo artístico poderias dar-te melhor agora do que ela no da ficção científica, dado que estás mais seguro de como conseguires os efeitos, ao passo que ele não. O receio que tens do trabalho de iniciativa autónoma (freelance) deve-se principalmente, mas não por completo, à expectativa distorcida que tens. Por um lado receias ganhar demasiado dinheiro, enquanto conscientemente receias não ganhar o suficiente, por a energia se ter expandido; e quero realçar que se expandiu em vez de se ter estendido.

Essa tua expectativa, esse teu modo de ganhar dinheiro constitui um forte elemento da tua composição psicológica, e para além das razões já apresentadas, subsiste uma necessidade subconsciente de punires a tua mãe. Tu percebes que ela tenha forçado o teu pai a ganhar dinheiro, e a ninguém, tu inclusive, será alguma vez permitido fazer-te o mesmo. Tal é o raciocino interior. Eu revelo-te isto para teu próprio benefício. Uma vez mais, não estou a sugerir que corras a arranjar um trabalho a tempo inteiro, nem que gastes todas as tuas energias como trabalhador por conta própria.

Eu estou na posse da bola. Diverte-me ter que te apontar estas verdades acolhedoras e fazê-lo de forma que a Jane não se sinta negligenciada, por eu voltar a ela de novo, um dia destes. Eu sugiro que com as capacidades que tens, caso consigas endireitar as expectativas que tens, te possas vir a situar de uma forma muito mais confortável, e que o venhas a conseguir se as endireitares. Também sugerirei que subconsciente e conscientemente tu terias noção desde o começo de que as expectativas da Jane, no que toca a essas mesmas linhas, coincidiam exactamente com as tuas. Vós reforçastes-vos mutuamente na perfeição.

Tudo quanto lhe tenhas dado terá sido mais do que ela teria, e muito mais do que alguma vez esperaria. Isso é igualmente bastante importante, e a tua mãe sabe disso. É por isso que por vezes ela suspeita que a Jane esteja num conluio contigo contra ela, conforme de facto tal é o caso. Tu sentes-te inclinado a não fazer dinheiro. Ambos, embora isso seja um tanto mais compreensível da parte da Jane, pelo menos já que o treino que ela possui não é tão específico. Quando qualquer um de vós exige ou requer mais dinheiro, sentem-se como se fossem ladrões. A Jane ainda precisa gerir as capacidades que tem de uma forma competente, mas tu conseguiste-o, excepto em relação a essa expectativa distorcida que te tinge as construções. Ela não o fez, entendes, antes de perceberes que eras basicamente um artista, por na altura os dois elementos do talento e do dinheiro não se acharem em contacto. Poderias ter feito uma transição muito menos sofrida entre a completa comercialização e a pintura do que a que fizeste, mas aí, um momento crucial foi uma Jane sonhadora, mais as ideias que tinha do artista acometido pela pobreza; mas tu podes continuar a partir daqui.

Nem eu próprio acredito possível, devido à composição que tens, que alguma vez venhas a ser milionário, embora possa estar enganado. Mas com um mesmo dispêndio de energia, poderias sair-te muito melhor com uma mudança da expectativa, e a resultante mudança na direcção da tua energia construtiva. Agora, A Jane também tem esse receio relativo ao dinheiro. Ela receia que lho seja tirado, e por isso mesmo teme possuir dinheiro, desde logo. Essa é uma noção altamente ridícula causada por uma interpretação infantil de acontecimentos da vida do seu avô, mas também por medo que a mãe dela pudesse roubá-la, insensível para com qualquer coisa que ela possua. Ela redigirá uma história diferente, não só excelente como comerciável, e colocala-á em uma ou duas linhas dando-lhe um matiz ao longo de toda a história para a tornar não comerciável.

Dado que esse tipo de expectativa os alia aos dois, ambos deviam tentar superá-la, já que se não o fizerem, se dará uma discrepância, embora não crítica, que poderia pelo menos de forma temporária poderia constituir um incómodo no vosso relacionamento.

Vou terminar a sessão, já que a Jane se encontra um tanto aborrecida comigo. Além disso, ela receia que demasiada dactilografia possa roubar tempo ao teu trabalho. Precisarei eu dizer que este material é extremamente útil e que o conhecimento raramente é assim obtido?

Só um aparte. Não é caso de perseguires o dinheiro de uma maneira fria mas de esperares de uma forma natural que a capacidade traga as suas construções físicas naturais, em termos de satisfação física. Eu tentei edificar as vossas expectativas. Antes das nossas sessões teriam ficado satisfeitos com menos e tu terias dado uma excelente saída a isto. Admito que tentei de certa forma influenciá-los a ambos, mas sem a vossa aceitação - e aceitação prática dessa ideia possuir propriedade e casa própria, e quero dizer prática mesmo, com uma assinatura na linha pontilhada referente à aceitação - não teriam chegado a parte nenhuma com o vosso desejo de possuir casa própria.

A Jane pressentiu, durante a sua terceira visita à casa, o estado de humor de quantos a rodeavam. Tu também. Se tivessem ficado com a casa, ter-se-iam mudado a 13, o que teria resultado na perfeição, pois as expectativas o teriam edificado. Seja como for, para além do dia 13, e por razões psicológicas, a casa deixará de estar ao vosso dispor. Precisam ter visto de forma concreta exactamente as expectativas que tinham, e a casa representava por essa altura o apogeu das vossas expectativas, senão mesmo o apogeu dos vossos desejos. Ainda assim, teriam feito um excelente projecto dela; ambos mudaram as expectativas que tinham, quando confrontados com elas em termos concretos. Mas não vou adentrar-me nisso.

A energia libertada na expansão da expectativa pode ser usada como uma vantagem no vosso trabalho, assim como uma construção natural das expectativas que sempre se seguem.

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