domingo, 21 de junho de 2015

FUNÇÕES DAS PERSPECTIVAS OPTIMISTA E PESSIMISTA (Michael)



Conquanto a perspectiva pessimista pareça socialmente mais sagaz do que a optimista, que comummente é denegrida como ingénua, a viragem para o pessimismo expressado através da reclamação, da queixa e da humilhação, de facto constitui o Defeito Principal de Carácter (1) a operar, de uma forma que parece sofisticada e culta, experiente.


Embora se ache antiquado, o optimismo franqueia o acesso a uma vasta gama de acção e de escolha, assim como apoio aos polos positivos dos Factores de Construção da Personalidade (2). 

Gostaríamos de acrescentar que o pessimismo, ao antecipar o “pior,” e consequentemente, em teoria pelo menos, ao prepará-los para tudo quanto possa dar para o torto, na verdade condiciona as escolhas, mas ao apresentar os quadros mais terríficos, procura persuadir a pessoa de que toda a acção individual constitui uma acção fútil.


Devido à gradual sociabilização, aculturação e ao condicionamento social, o pessimismo constitui uma das formas mais insidiosas em que o Defeito de Carácter (ou Traços Principais) se manifesta, e sob a fachada da avaliação realista arrasta a pessoa para os polos negativos inerentes aos Factores de Construção do Carácter assim como para os domínios do medo.


Por outro lado, parte do perigo inerente ao que é descrito como “excesso de optimismo,” acha-se muita vez associado à função desses Traços Principais (ou Defeitos de Carácter) das percepções distorcidas. Ao tecerem uma apreciação exclusivamente positiva (NT: Que é aqui passível de se equiparar ao estímulo de expectativas de carácter estrito), o Traço Principal ou característico expõe a pessoa ao “fracasso” e ao “desapontamento.”


Caso se consiga formular uma estimativa realista, com o que referimos uma avaliação justa embora optimista revisão do potencial que abranja desde o melhor resultado até ao pior possível, então tenderão a ver surgir escolhas pelo caminho.


O pessimismo cria, quase de forma inevitável um estado de espírito que bloqueia ou turva a percepção do caminho, a ponto mesmo de chegarem a negar a sua existência, tal como um optimismo realista e extremo bloqueia e turva o caminho ao impregná-lo de um refrescante e proverbial carácter de Caminho para a Terra Prometida em que os únicos riscos são apenas os da imaginação arquetípica, em vez dos das dificuldades realistas da vida do dia-a-dia.

A maioria das pessoas crê que seja mais enobrecedor “combater os fantasmas” do que manter o equilíbrio, o que evidentemente constitui uma outra distorção provocada pelo medo, embora dissimule tudo de heroísmo.


Aquilo que percebem como optimismo e pessimismo exerce influência sobre a natureza das intuições que alcançam e da diferenciação experimental.


Passemos a traçar um exemplo: Caso uma mudança indesejada e mais significativa ocorra na política, o pessimista percebê-la-á como um exemplo do colapso iminente de toda a civilização enquanto o optimista poderá encará-la como um “apelo às armas,” contra as repercussões negativas percebidas inerentes a essa mudança, embora ocasionalmente o optimismo possa distorcer tanto quanto o pessimismo, por haver quem, sob a fachada do optimismo presuma que a mudança indesejada não venha a ter importância quando a facção indesejada “chegar à razão," por assim dizer. Nenhuma está “certa” ou “errada,”, embora o pessimismo tenda a apoiar os Defeitos de Carácter mais do que o optimismo razoável. 


A tendência para acreditarem mais na dor do que na alegria faz parte do mecanismo por que a apreensão pessimista é validada, porquanto a iminência do sofrimento, quando comparada com a natureza mais intimista da alegria, se apresenta prontamente identificável e tornada aceite pelas experiências e apreensões alheias. Provem-no pessoalmente, caso pretendam examinar a premissa. Digam em voz alta: “Cortei-me no papel,” e vejam quantas pessoas não estremecerão. A seguir digam: “Êxtase,” e notem quantos se apresentarão confusos ou mesmo envergonhados com a palavra.


A alegria não é considerada fiável, e como tal, não é prontamente reconhecida. Também poderão notar que o sofrimento se apresenta como mais adequado socialmente do que a alegria. A maioria das pessoas pode sentir-se embaraçada ao admitir o sofrimento, mas decerto que se sentirão mais envergonhadas com a admissão da alegria. Isso reflete-se de vários modos mas geralmente é apresentado de forma racional como a da saúde. Passemos a explicar: Com respeito ao traço principal da Autodestruição, subsiste um desejo constante de manter o controlo, e qualquer aparente perda desse suposto controlo é encarado como uma forma de capitulação, e claro está, qualquer tratamento resultante estaria, por definição, fadado ao fracasso.


Aqueles que assumem a caraterística ou traço principal da Autodestruição geralmente ignoram o organismo até que ele atinja um impasse efectivo (pare), altura essa em que a Autodestruição passa a determinar que tudo esteja perdido e geralmente pouco ou nada faz no sentido de contribuir para a recuperação “impossível.”


A característica ou traço Principal do Martírio muitas vezes expressa-se através de um sofrimento prolongado e determinado. Frequentemente, aqueles que adoptam o Martírio buscam condições físicas debilitantes de longa duração para melhor suportarem todas as coisas e a pretexto de uma escusa do pessimismo como estado e espírito natural.


O traço principal da Auto Depreciação muitas vezes esforça-se por convencer a pessoa que se deprecia de que, o que quer que tenha de errado é obviamente falha ou culpa sua, e insiste em que não esteja apta a manusear a metodologia que for usada no tratamento disso, o que é pessimista em toda a linha.


A característica principal da Teimosia com frequência insiste em que, desde logo nada estará errado, independentemente de todas as evidências em sentido contrário; mas assim que a doença se manifesta, esforça-se por dar continuidade ao padrão, de modo que nada de tão perigoso quanto um estado renovado de melhoria seja permitido. Quanto mais sombrio for o quadro, mais satisfatório será o pessimismo.


Claro que, no caso da Ganância (enquanto traço principal da personalidade) a fixação da ganância revela-se crucial; todavia, assim que o hábito da falta de saúde é adquirido, pode apresentar-se por intermédio de tem as e variações múltiplas que realçam o pessimismo a cada nova rugosidade do percurso.


O traço principal da Arrogância requer uma “boa razão,” para a falta de saúde, e assim que for proporcionada, usa-a a exemplo dos erros do outro, e com vergonha de ser útil, realça a sedução do pessimismo. Quanto mais vulnerável à doença se torna a pessoa, maior a queda.


O traço marcante da Impaciência precipita com mais frequência o pior dos cenários e persegue de forma implacável provas que lhe apoie a posição e lhe entrincheire o pessimismo. Isso muitas vezes evidencia-se sob contornos da hipocondria, embora não seja hipocondria. “Eu tenho uma dor de cabeça. Deve ser um tumor cerebral maligno e inoperável.” Todos esses problemas de saúde são reforçados pelo pessimismo, que também torna os traços principais mais “credíveis,” por o corpo manifestar o desconforto do querer provar o pessimismo, razão porque o Traço Principal será aquele que for apropriado à situação em mãos.


Tradução de Amadeu António


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