sábado, 26 de abril de 2014

PODER E DESTINO




O crescimento não comporta pré-requisitos, entendem? Há muitos que apregoam o contrário, e que precisais alcançar um certo nível de realização, ou adoptar um certo número de cursos, ou completar um certo número de actividades – mais especificamente sob a sua alçada – antes de poderem avançar para níveis superiores, e antes de poderem juntar-se a algum tipo de clube de elite; mas de facto não existem pré-requisitos para o crescimento.

Decerto que, se tiverem anos de experiência e de envolvimento, essa posição sénior revelar-se-lhes-á prestável e proporcionar-lhes-á clareza e profundidade; e uma riqueza que a vossa experiência - e só a vossa experiência - poderá acrescentar à compreensão e às ideias e aos padrões do crescimento, que se encontra em curso. Mas essa mesma posição sénior poderá prestar-vos um desserviço ao cegar-vos com a complacência e o orgulho.

Mas todos quantos são novos em toda esta coisa que compreende a metafísica e que tenham começado apenas a investigar esta coisa que é a metafísica e a espiritualidade, a vossa posição de ingenuidade podem muito bem revelar-se-vos prestável ao lhes proporcionar uma frescura e inspiração. Mas também vós podeis sair prejudicados pela vossa ingenuidade, pelo vosso estado de graça, ao acreditarem na manipulação de se verem confundidos e sobrecarregados.

Tudo quanto vos é exigido é que o desejeis e estejais dispostos, e tudo quanto requeremos da vossa parte – e o vosso crescimento vos exige – é que desejeis e estejais dispostos a crescer e a mudar, e a tornar-vos mais daquilo que realmente sois.
...
Uma das coisas mais importantes a renovar é o vosso poder. Poder. O poder pessoal, que a despeito de toda a retórica em que se vê envolvido significa a faculdade e a disposição de agir. Muitos acrescentarão todo o tipo de significado a essa palavra, geralmente usando-a como sinónimo do medo, da intimidação e da humilhação. E quando confrontados com uma pessoa que os intimida ou humilha, sem quererem admitir a intimidação de que estão a ser alvo, advogam tratar-se de pessoa muito poderosa - revelando com isso a medida do temor que lhes inspira. O que transmite ao vosso subconsciente uma mensagem clara e inequívoca: a de que o poder é coisa assustadora.

O termo “poder”, porventura devido a toda a retórica de que se encontra rodeado tornou-se alvo de usurpação, equívoco, indevida aplicação, a ponto da sua natureza real e do seu significado se encontrarem sob risco de se perder; o termo abeira-se demasiado perigosamente de escorregar para o ferro-velho do jargão e de se tornar num chavão. E num período em que o poder se torna tão criticamente importante como este, o vosso poder pessoal, arrebatadoramente importante, se encontra em risco de se perder, e por conseguinte, vós estais em risco, e o vosso futuro está em risco. 

E assim é que damos início à renovação do poder pessoal, tema que vamos permitir que tenha abertura ao lhes apresentarmos essa oportunidade por três vagas distintas. Esta noite vamos trabalhar convosco de uma forma bem directa em termos do vosso destino, e ficar a saber em que consiste o vosso destino, e a tirar proveito da energia que é o vosso destino. No mês que vem iremos tratar do processamento e da programação e a nova dinâmica de que se acham investidos. Tantas vezes as palavras são pronunciadas e tão raramente são compreendidas; raramente sabeis realmente o que significa processar e programar qualquer coisa, e assim vamos tratar das novas dinâmicas como uma fase subsequente da renovação do vosso poder. E depois iremos culminar a renovação do vosso poder com o triunfo no jogo da manifestação.
...
É importante que definam certas escolhas e tomem certas decisões quanto ao facto deste período vir a representar um período de confronto ou de encontro. É importante que tomeis a decisão – ainda tácita e implicitamente – se irão resolver tornar-se um guerreiro, pacifico ou de outro tipo qualquer, ou se estarão dispostos a arriscar-se e a ser suficientemente corajosos para ser aventureiros. Há lugar para ambos. Para alguns é importante tornar-se agora num guerreiro, para outros, é tornar-se num aventureiro. Seja o que for que escolheis, guerreiro ou aventureiro, convidámo-los a dar início connosco a esta jornada começando por olhar para o vosso destino.

Destino. Estranho termo, que muito raramente é objecto de compreensão. A vossa realidade consensual tem uma perspectiva muito negativa quanto ao destino; a vossa realidade consensual considera o destino de uma forma muito desoladora. Destino – a vossa sorte, o vosso fado. (Riso) Conseguem praticamente sentir o arrepio provocado pela sensação sombria das paredes a fechar-se sobre vós. O senso comum considera o destino como se fosse estático, predestinado, predeterminado, e por conseguinte, além do vosso alcance, além da vossa percepção, além da vossa criação, por nada poderem fazer em relação a ele, caso tenham algum destino! E por conseguinte, o senso comum aborda o destino quando muito com reserva e racionalização e na pior das hipóteses retrai-se do conceito de destino com negação. Mas com reserva e racionalização o poder que o destino representa permanece adormecido e impotente; com a negação, é tornado impotente e invisível.

O facto que importa, todavia, é que o destino não é em absoluto estático, mas uma matriz de energia dinâmica, viva, em constante mudança e mutação, composta pelos vossos enfoques (pontos de convergência), pelas vossas imagens e pela vossa identidade. Quando estiverem dispostos a deixar que o destino ganhe vida e estiverdes dispostos a permitir que respire, descobrirão que com o destino existe um depósito de poder – poder que poderão usar para criara realidade que desejam; poder que poderão usar para se permitirem tornar cada vez mais conscientes da realidade que estiverem a criar, e consequentemente, criá-la de uma forma cada vez mais consciente. O vosso destino constitui uma matriz viva que possui um contexto, uma forma e um conteúdo. O contexto do vosso destino é composto pelos enfoques da vossa vida – o pano de fundo, ou os enfoques da vossa vida. A forma que o vosso destino assume é dissimulada nas imagens multifacetadas que tendes – no que pensais sobre vós próprios e no que pensais que os outros pensam de vós – a vossa imagem. E o conteúdo real, a substância do vosso destino é encontrado na vossa identidade – naquele que realmente sois nesta vida presente, passada, e futura. 

Destino é o rumo, o lugar para onde vos dirigis, e a razão para lá irdes. Destino é o “lugar” para onde vos dirigis, e o objectivo e a razão para vos dirigirdes para ele. Agora, para se assumir este conceito bidimensional de destino como o “lugar” para onde nos dirigimos e conferir-lhe vida, duas coisas precisam ter lugar: a primeira é que precisam atribuir-lhe profundidade. Pegar nas duas dimensões e acrescentar-lhe uma terceira dimensão de profundidade é conseguido pelo exame dos componentes, pela consideração dos vossos enfoques, considerando a vossa identidade e considerando a vossa imagem. E isso, vamos nós fazer, convosco, esta noite. Mas a outra coisa precisa ter lugar para que esta definição bidimensional ganhe vida é que precisam infundir o vosso sopro de vida nele, precisam deixar que se torne real, precisam permitir-se trabalhá-lo, permitir-se tornar íntimo com aquilo de que o vosso destino trata, aproximar-vos disso, ser sensíveis a isso, ser vulneráveis em relação ao vosso destino e confiar no vosso destino. É infundindo o vosso sopro de vida naquilo que o vosso destino trata, que ele ganha vida, que a energia se torna activa, que o vosso poder ganha vida, e que o podeis desbloquear e em seguida aproveitar para os vossos próprios propósitos e orientação.

E assim, cumprimos agora a nossa parte considerando os componentes. O primeiro componente, talvez o mais importante, é o do contexto dos enfoques da vossa vida. Qual será o propósito da vida? A questão, por um lado deixa-vos intrigados, mas por outro aborrece-os por completo: “Aqui vamos nós de novo: o propósito da vida. Ah meu Deus, quando será que isto...?” (Riso) Mas por uma razão qualquer, sabem, que esteja porventura além da vossa total capacidade de compreensão, a questão persegue-os como uma sensação que de um modo qualquer: “Se eu descobrisse, se eu ao menos soubesse qual o meu propósito de vida,” geralmente por entre uma mão cheia de ecos e num crescendo de voz. (Riso) “Se eu ao menos conhecesse o meu propósito de vida, tudo faria sentido, tudo se encaixaria, tudo se tornaria rosas e felicidade praias e campos verdejantes e seria...” só que não funciona assim! Porque se descobrirem certos objectivos de vida, de uma maneira nem tudo encaixará e de alguma maneira e continuareis em busca de mais propósitos e de maiores propósitos, mais grandiosos e mais profundos. Propósito da vida, não é?

Bom, nós preferimos o termo “enfoques”; podereis usar a palavra que quiserdes mas nós preferimos o termo focos, pois, quando consideramos “propósito” isso soa suspeito, como um daqueles termos estáticos da realidade do senso comum definido no concreto, em relação ao qual nada podereis fazer. “Propósito”, “missão”, “lição”, como se fosse algo que alguém vos desse. Leva-nos a invocar imagens de reunião apressada de todos os factos e decisões que compreendem a decisão que tomam de vos encarnardes, em que alguém agarra num bloco de notas, anota tudo, e vos mete no bolso enquanto saís porta fora a correr para encarnardes, não? (Riso) “Eis aqui o teu propósito!” Claro que, com o trauma inerente à encarnação, e os primeiros anos da encarnação, preocupais-vos é com a sobrevivência, em ficar bem, descobrir onde estais e quem sois e para onde ides. Não prestais muita atenção àquelas pequenas anotações que tem estado preso no vosso bolso. E por fim, quando têm uma pequena oportunidade de respirar e de dar uma olhada nisso: “Que foi aquilo? Onde terá aquele pequeno pedaço de papel parar? Para que estarei eu aqui, de qualquer modo?” E puxais por essa pequena nota que de qualquer modo não conseguis ler. Propósito, lição, missão. Nós preferimos o termos foco, por permitir um grande sentido de autodeterminação e de flexibilidade. 

Quando pensamos em foco, vem-nos à mente a lente de uma máquina fotográfica. Uma câmara fotográfica com que podeis aumentar a imagem e fazer um ângulo amplo, e em que podeis introduzir filtros para sombrear e destacar. Quando pensamos em foco, vem-nos à mente flectir, mudar, e mesmo fazer algo de que nunca antes se ouviu falar, que é mudar o foco por completo. Podeis ter vindo para esta vida para vos focardes nisso. E a meio ou numa outra altura qualquer podeis dizer: “Eu quero focar-me naquilo!” Onde o propósito, a missão, a lição torna tal coisa impossível, o enfoque permite tal possibilidade, permite essa flexibilidade e autodeterminação. Podeis usar os termos propósito e lição, por certo, mas por favor compreendam que se assemelha mais a um foco; e se em si mesmo e por si só o termo não é adequado, na vossa língua é o que se aproxima mais da descrição do modo como procedem para reunir o pano de fundo, o contexto do que subentende esta vossa vida.

Para compreendermos enfoque – ou propósito – precisamos olhá-lo a partir de uma perspectiva particular de entendimento. Quando tomais a decisão de vos encarnardes num corpo físico, e tomais as inúmeras decisões subsequentes para ter vidas específicas, colocais certas coisas em marcha, colocais certas vibrações em movimento, certas frequências a vibrar. Para o compreenderem de uma forma mais completa precisamos usar uma analogia. Mas, só uma palavra rápida acerca das analogias antes de começarmos; uma analogia jamais é perfeita, uma analogia sempre é derrubada numa ou noutra altura. Podeis estendê-la a ponto que gerar compreensão assim como a podeis estender até ao absurdo e à falta de compreensão. Nenhuma analogia é perfeita; se alguma analogia fosse perfeita, absolutamente perfeita, deixaria de ser uma analogia e passaria a ser a coisa. Por isso, entendam que a analogia que vamos empregar não é perfeita, mas é exequível por os ajudar a compreender como toda esta coisa do foco funciona para vós.

E a analogia que usamos é a do funcionamento das ondas. Bom, estão todos familiarizados com a ideia da máquina de fazer ondas; muitos de vós recordam isso da Química que deram no liceu, um pequeno motor que move uma pequena pá que, quando estabelecem uma certa frequência faz a pá andar para a frente e para trás, e uma vez colocada num reservatório de água, isso vai criar uma onda. Se não na Química ou Física que deram no liceu, então com uma visita ao Toys’Are Us, já possam ter uma ideia do que seja uma máquina de fazer ondas. A maneira como funciona é estabelecendo uma frequência, e fazendo baixar essa máquina num reservatório de água imóvel, que ela cria uma onda. E essa onda constitui uma representação de uma frequência que foi estabelecida na máquina, não é? Se pegarem numa outra máquina de fazer ondas, e definirem a frequência e a mergulharem na água, ela irá criar uma onda; e essa segunda onda também será uma representação da frequência que foi estabelecida na máquina de ondas. 

Agora, se ambas essas frequências forem exactamente as mesmas e ambas as máquinas forem colocadas num local específico, isso irá criar o que se chama de Onda Permanente, o que significa que esta onda se move assim, e aquela onda se move assado, mas fazem-no de modo tão idêntico que causa a impressão de que a água se ergue sob a forma de pequenas cristas, como uma Clara em Castelo de um tipo qualquer, (NT: próprio da culinária) mas o que gostaríamos de sugerir é que se faz presente. Se uma das frequências for mais elevada do que a outra, a onda mover-se-á mais lentamente numa direcção do que a da outra máquina, mas mover-se-á nessa direcção – e vice-versa.

Bom; se pegássemos numa terceira máquina, e numa quarta, numa quinta, numa sexta, numa sétima, etc., e colocássemos todas essas máquinas num reservatório de água, cada uma delas a criar a sua própria onda, que sucederia quando todas as ondas interagissem? Seria criada mais uma onda. As máquinas de fazer ondas criariam uma onda representante, mas passaria a existir uma onda em representação de uma frequência que não estaria presente em nenhuma das máquinas. Todas essas máquinas com a sua frequência de movimento particular bem definida, convergiriam e criariam um padrão que representa um campo de energia que é único e individual.

Ora bem; os vossos focos assemelham-se a máquinas de fazer ondas. Quando escolhem um propósito, ou um foco, ele representa uma frequência. E quando escolhem um segundo, e um terceiro, e um quarto e mesmo um quinto, sexto e sétimo foco, isso irá criar sete frequências diferentes, todas as convergir. E desses sete vem um oitavo, que constitui o vosso padrão de energia. Esse padrão de energia é reduzido a fim de produzir uma realidade etérica e um corpo etérico. E é rebaixada uma vez mais, para criar uma aura. 

(NT: A propósito de aura, recomenda-se ao leitor uma consulta da investigação levada a cabo por um cientista do passado, de entre os poucos que se aventuraram por esse campo, acerca da natureza da aura humana. Trata-se de um trabalho sério e algo complexo do talvez ou não conhecido Dr. W.J. Kilner)

E depois é rebaixada ainda mais a fim de produzir o mundo físico e de facto o corpo físico. Vós, nesse vosso corpo de carne e osso que tendes, nesta ilusão a que chamais de plano físico, vós sois essa frequência que não se acha representada em nenhuma das máquinas, mas que é o produto delas todas. Vós sois a sinergia, o todo que é mais do que a soma das suas partes constituintes. Existem sete focos, não sabeis? (Riso) Existem sete ondas independentes em funcionamento que compreendem o vosso foco, que incluem e compõem o vosso campo de energia, o campo da vossa aura, o vosso campo físico e a vossa realidade física. É por isso que sempre afirmamos que o vosso corpo não é que gera uma aura, mas a vossa aura que produz o corpo. Muita gente pensa erroneamente que é ao contrário, que vocês emitem uma aura. Não, a vossa aura é que emite o corpo. Mas talvez a prova mais acessível disso, sem entrarmos em todos detalhes inerentes ao campo da aura, é pensar nisso nos seguintes termos: Se de facto produzissem uma aura quando morrem, primeiro o corpo faleceria, e depois a aura dissipar-se-ia e desapareceria. Mas é o contrário que ocorre. Quando uma pessoa morre, primeiro o campo da aura desaparece. É por isso que aqueles que são sensíveis a tais coisas conseguem olhar para uma pessoa e saber: “Esta pessoa está próxima da morte, por não exibir mais uma aura.” Justamente por a aura vos gerar a vós, ela dissipa-se em primeiro lugar, e o resíduo dessa aura – vós – perdura por mais um tempo. Se criassem uma aura, ela não desapareceria em primeiro lugar, mas vós; e o resíduo desapareceria mais tarde. E assim, de facto, não produzis uma aura – a aura é que vos gera a vós. Os enfoques criaram um padrão de energia, criaram um padrão etérico, criaram o padrão da aura, criaram-vos a vós.

E vós tendes sete enfoques específicos. Dois desses enfoques são obrigatórios; dos deles são-vos exigidos. São um dado adquirido; vós escolheste-los, e decidistes que são obrigatórios para conseguirem atravessar esta coisa, para aprenderem as lições para completarem esta coisa chamada vida física. Muito à semelhança da escola, em que se vos exige certos cursos para obterem um diploma. Podem demorar o tempo que quiserem, podem dá-las pela ordem que quiserem, podem dá-las em diferentes tipos de escolas se o preferirem, mas para obterem o diploma precisam completar determinadas aulas. São requisitos obrigatórios.

Dois enfoques com que exigem que trabalheis: O primeiro, e o mais importante – aprender a divertir-se. (Riso de fundo) Soa simplista, não? “É tão simples aprender a divertir-se.” Mas se é assim tão simples por que razão não haverá mais gente a consegui-lo? Porque não estará o vosso mundo repleto de gente feliz ao conseguir uma coisa assim tão simples? Mas não é só diversão, ir às festas adequadas nem conhecer as pessoas apropriadas, entendem? É aprender a ser a origem, a ser o gerador, a ser a fonte da diversão. Aprender a ser a origem, o criador da diversão que se traduz pela vossa realidade. E a diversão também não significa o termo a curto prazo do hedonismo, mas um equilíbrio entre a diversão hoje e a diversão para sempre; e descobrir esse equilíbrio intricado certamente não constitui uma tarefa fácil, por as definições estarem sempre a mudar. 

Quando tinham seis anos de idade, tinham ideias definitivas acerca do significado do que era a diversão. Quando têm vinte e seis, espera-se que tenham diferentes ideias. (Riso) E quando tiverem quarenta e seis e sessenta e seis, espera-se que essa definição continue a mudar e a expandir-se. Por isso, não é estática, não é fazer: “ Eu aprendi a divertir-me há muitos anos atrás. Já o fiz, que é que virá a seguir?” Quase como a velha piada: “Que te hei-de dar? Talvez te compre um livro.” “Não, já tenho um livro.” Não funciona nesse âmbito, de terem aprendido a divertir-se a certa altura e acabou. Está em constante mudança e em constante expansão, sempre viva. Constante a aprenderem e constantemente a definirem o que é diversão. O outro enfoque obrigatório consiste, uma vez mais, em aprenderem a criar a vossa realidade conscientemente. A aprendizagem, certamente, mas não só criar a vossa realidade, por já o conseguirdes – toda a gente cria a sua realidade, por mais que pretendam negar o facto e fingir o contrário – isso será a forma como a criarão, mas mesmo assim estão a criá-la. O enfoque consiste em aprender a fazer essa coisa que toda a gente faz, conscientemente. Faze-lo de forma consciente.

O vosso cérebro encontra-se conscientemente a raciocinar, mas pensar conscientemente já significa uma função um tanto diferente. Vós sempre estais a criar a vossa realidade, mas faze-lo conscientemente é no que vos estais a focar – a aprender a criar conscientemente a realidade. Agora; contanto que a crieis conscientemente, que será que ides criar? Infelicidade, tristeza, tragédia, tormento? Não. Isso não é divertido! Criais êxito. Por conseguinte, o contracto inerente ao segundo enfoque consiste em aprenderem a criar conscientemente êxito. E esse é o enfoque, é isso que estais aqui para conseguir, é o que determinaste como obrigatório em todas e em cada vida em que cresceis, em cada e todas as vidas em que vos envolveis no crescimento; divertir-vos e aprender conscientemente a criar êxito.

Muita gente há que tem sucesso, e perguntam-lhe como o obtiveram. Mas eles não sabem. Talvez tenha sido o pé de coelho (riso) ou a meia branca; talvez tenha sido o tempo e o evento, e estivessem no sítio certo na altura certa, ou tenham conhecido as pessoas acertadas. Elas não saberão. E isso é óptimo, entendem, mas não chega. É importante não só ser-se bem-sucedido mas aprender como o terão conseguido, de modo que nunca venha a ser-vos tirado. Assim, muita gente que cria êxito e não sabe a que se deve, acaba por o achar um fardo tremendo. O número de suicidas entre aqueles que atingiram o êxito e que não o suportaram, que não conseguiram aguentar a pressão, não suportaram a dor, por em qualquer altura lhes poder ser tirado; o número daqueles que se chocam tanto que ficam de tal modo aturdidos que desbaratam esse sucesso, por constituir uma luta: “Pelo menos quando falhava eu sabia aquilo que estava a fazer, (riso) sabia com que contar. Mas com todo este sucesso simplesmente não consigo lidar,” de modo que o jogam fora, por envolver demasiada “batata quente” com que lidar.

Mas quando aprendem como criá-lo conscientemente, então também saberão que jamais precisarão perdê-lo. E esses são os enfoques; e porquê, por que os terão escolhido? Vós doastes a vós próprios uma das mais singulares realidades que é aquela a que chamam este vosso mundo físico, que inclui esta coisa incrível chamada “tempo”. Sabemos que muitos de vós não apreciam o tempo, por o encararem como um inimigo, e por nunca terem suficiente, ou por terem demasiado tempo, e nunca é à medida. Por ser pesado, o tempo é uma coisa que pesa, arrasta-se, e deixa-vos em baixo. Não importa o quão tentem erguer-vos, o tempo sempre vos deixa em baixo (riso). Mas de facto o tempo é um dos mais maravilhosos dons, uma das mais maravilhosas criações que chegastes a reunir. O tempo é a almofada, a almofada existente entre o que pensais e a realidade que esses pensamentos produzem. O tempo é a rede por debaixo deste acto representado sobre uma corda esticada chamado vida física. O tempo garante-lhes espaço para cometerem erros, e para colidirem com as amarras em vez de se estatelarem. E vós precisais de tempo para aprender a divertir-se, para aprender a criar sucesso conscientemente.

Existe o mito de que nos níveis mais elevados haja alguém a verificar o que fizeram, não é? O que na ética Judeo-cristã é chamado de São Pedro e os seus portões, não é? A área de transferência ou seja o que for que lhe chamem, a ver se terão sido marotos ou bons, para ver se irão para o céu ou não. E existe aquele que lhes verifica as credenciais, o currículo, a ver se pertencem lá ou não. Mas de facto não é assim. Não existe ninguém a guardar tais portões, nem ninguém a guardá-los nem ninguém a verificar as vossas credenciais nem currículo, mas podeis passar para os níveis mais elevados de imediato. Mas se não souberem como divertir-se e não souberem como criar êxito conscientemente, isso tornar-se-á num inferno, por todo o pensamento se manifestar de imediato, por todo o pensamento se tornar numa realidade rapidamente. 

Quantos pensamentos negativos lhes terão passado hoje pela mente? E quantos acidentes de carro terão tido? “Ah, espero que venha um carro venha contra mim e me deixe esborrachado!” (Riso) “Espero que cai destas escadas abaixo e me estatele em baixo por uma vez!” (Riso) “Espero que alguém desconfiado na esquina me esfaqueie!” (Riso) Já imaginaram o pesadelo que seria, o quão confuso seria cada pensamento, os lugares ao redor da terra por onde terão andado hoje, quando deixaram a mente à deriva, não? (Riso) Estais a conversar com o vosso patrão e subitamente pensais no fim-de-semana e – bang – simplesmente encontrais-vos lá! (Riso) 

Conversais com alguém por quem tendes uma enorme preocupação sobre um tópico importante e de repente ela desaparece, por ter tido um pensamento fugaz sobre algum lugar distante... Seria cá um pesadelo e uma confusão, não? A menos que saibam como divertir-se e saibam como criar sucesso conscientemente, esses estados abençoados assemelhar-se-ão a um inferno, e por isso não existe necessidade de nenhum sargento à porta de armas, não há necessidade de ninguém a verificar as credenciais, por que se fossem para esses locais, ah, vós seríeis os primeiros a querer sair, (riso) e a querer voltar para a segurança deste mundo físico onde dispondes de tempo por entre o que pensais, por entre as escolhas e decisões que formais, e por entre os sentimentos que vos percorrem, por entre as atitudes e as crenças que conjurais. Para garantirem um tempo a si mesmos para trabalhar, porquanto assim que tiverem avançado, assim que tiverem aprendido a divertir-se, assim que tiverem aprendido a criar sucesso de uma forma consciente conseguireis passar para esses domínios elevados e saberão como o conseguir. Para que a ausência de tempo – ou de rede por debaixo do acto sobre a corsa esticada – se torne agora viável.

Mas tem mais, não precisarão sequer de obter notas A, por isso representar o curso de um passado fracassado. Precisam aprender somente o bastante para passarem. Não têm que ser perfeitos, só aprender a divertir-se o suficiente, só aprender a criar êxito conscientemente quanto baste – não a ser perfeitos, mas a ser capazes. E esses são os focos que escolhestes para vós próprios, e exigistes a vós próprios e estabelecestes como requisito como focos obrigatórios para esta encarnação e para todas as encarnações que cada um de vós tenha alguma vez tido.

Além desses, porém, existem cinco enfoques adicionais que elegestes nesta vida. Muito à semelhança de quando vão para o colégio interno, para o liceu ou para a faculdade, há certos cursos que são requeridos, mas se gastarem o tempo e o dinheiro e os esforços às voltas pelo dormitório e passarem a vida às voltas, bem que poderão deduzir uns quantos desses cursos. Desde que se deram a toda essa energia – não trabalho – para criarem um campo de energia, para criarem um corpo etérico, para criarem a aura e para criarem um corpo físico e para o situarem nesta terra, e todas estas pessoas à face do planeta, por duas razões: “Bom, eu quero fazer umas quantas coisas enquanto lá estiver, por isso vou eleger cinco coisas adicionais em que elejo focar-me nesta vida, contrariamente a outra qualquer, em que prefiro focar-me.”

Os enfoques obrigatórios constituem os propósitos; os enfoques eleitos constituem a forma de satisfazer esses enfoques. Os enfoques mandatários representam os enfoques do viver, os enfoques eleitos constituem a maneira de satisfazer esses enfoques. O que vos deixará felizes? E que é que representará uma diversão para vós? De que constará o êxito para vós? Isso difere para cada um de vós. Como hão-de saber isso? Para onde é que hão-de olhar? Olham para os outros enfoques. Esses outros enfoques irão definir o que seja divertido e o que representará um êxito para vós. Os enfoques mandatários definem os propósitos enquanto os enfoques eleitos satisfazem esse propósito. A vossa diversão, ou satisfação, irá ser descoberta nos enfoques eleitos, e o vosso êxito irá ser encontrado nos vossos enfoques eleitos, e ainda que constituam enfoques completamente diferentes, é onde ireis encontrar o vosso êxito e o vosso sentido de diversão, nesses cinco enfoques. Está tudo aí bem na vossa frente; só não sabem em que direcção olhar. O que estais aqui para fazer está bem aí, assim como a forma como o devem fazer.

Quando compreenderem os enfoques, não só obterão um sentido do pano de fundo contra o qual estão a viver o vosso drama da vida, como também conhecerão o que vem a seguir e como consegui-lo, o que precisarão fazer para satisfazer esses objectivos em particular que definistes para vós próprios. E ao falarmos de enfoques mandatários, como é que farão para descobrir os enfoques eleitos? Bom, conversamos com as pessoas, por certo, e muitos de vós têm-nos questionado ao longo dos tempos sobre esses enfoques e nós temos prazer em lhos revelarmos, mas como haverão de os descobrir sem conversarem connosco? 

Como o haverão de descobrir por vós próprios? Vamos falar sobre isso em específico mais tarde, mas sugerimos que se torna importante faze-lo compreendendo esse pano de fundo, esse contexto, mas também começando por compreender e vislumbrar o vosso destino.

Ora bem; embora os enfoques eleitos sejam tantos quanto o número de pessoas, muitos de vós escolhem esses enfoques eleitos de entre uns poucos seleccionados. A vossa realidade é exclusiva; vós constituís uma pessoa única e individual. O padrão de energia que criam é único e é vosso, mas o material que utilizais para o criar muitas vezes é muito semelhante. Tudo depende da frequência, da intensidade com que estabeleceis a vibração em torno deste ou daquele ou daqueloutro enfoque. E agora mais do que nunca no vosso mundo, existem vastas quantidades de vós que elegem com base e a partir de uma bolsa muito reduzida de potenciais enfoques elegíveis. 

Tem lugar um fenómeno espantoso chamado a Geração da Vaga, que se traduz por esse amontoado populacional, que se move, ano após ano, ao longo do vosso mundo. A certa altura esse amontoado traduziu-se pela escola básica, mas depois formou-se na adolescência e a seguir com o liceu e a faculdade, e agora, por altura dos vinte e dos trinta, e agora dos quarenta - e a seu tempo esse amontoado, essa vaga, formar-se-á por volta dos cinquenta e sessenta. Aqueles de vós nascidos entre 1945 e 1952 constituem a crista dessa vaga. Foram chamados de Anos do Baby Boom e representam a desculpa que utilizam para penetrar nesta encarnação física. De que outra forma explicariam a súbita explosão populacional? Por conseguinte, a crista de uma vaga.

Agora, aqueles que nasceram antes de 1945 não precisam desesperar. “Ah, eu perdi isso... Não consigo fazer nada direito, consigo?” (Riso) Não, vocês são os precursores, vocês são aqueles que preparam o caminho, são aqueles que abrem a porta para essa vaga que acorre de uma forma esmagadora, e aqueles de vós nascidos antes de 1945, são um arauto desses, um preparador do caminho, e aqueles nascidos depois de 1952 também não ficaram a perder por isso, por serem os que completam, por serem aqueles que vão alinhavar todos os fios soltos com os quais a vaga colidiu. E consequentemente, todos vós envolvidos no crescimento, têm de uma forma qualquer lugar nesta vaga – quer na preparação da vaga, no seu crestar, ou naquilo que se lhe segue. Fazem todos parte da dinâmica que constitui a Geração da Vaga, e por conseguinte são parte dessa onda, tanto como precursores, seguindo-a ou tornando-vos nela. Tenderam a seleccionar os vossos enfoques eleitos de entre uma bolsa muito confinada. E assim vamos dar uma olhadela ao que tem lugar nessa bolsa, ao que alguns desses enfoques podem muito bem ser. E como poderão ter escolhido – vários de vós o mesmo – estabeleceram-no em diferentes frequências. Por vezes de uma forma intensa e outras vezes não tão intensa assim. E muito embora seja a mesma vibração, a sua intensidade e frequência varia.

Vamos olhar vários deles, o primeiro dos quais é o que muitos de vós escolheram como o enfoque do amor. Agora, quando mencionamos que escolheram o enfoque do amor não queremos dizer que estejam aqui unicamente para descobrir alguém por quem se apaixonem e com quem passem a viver nos subúrbios; não é disso que estamos a falar, em absoluto. (Riso) “Eu já sabia; eu preciso encontrar um marido; eu preciso encontrar uma esposa; tenho que o conseguir. Esse é o meu propósito de vida.” Não! Quando elegem o enfoque do amor, escolhem aprender acerca do amor na sua totalidade e inteireza.

Outra analogia:  Quando se dá uma substância particular a um cientista, para descobrir acerca dela: “Eis aqui uma substância infecciosa; pega nela e leva-a para o teu laboratório e aprende o que puderes acerca dela.” Ora bem; o cientista não se dirige para o laboratório para descobrir como eliminá-la, mas pretende aprender tudo acerca dela; o que a faz crescer, o que faz com que cresça mais rapidamente ou mais lentamente; como chegará a constituir um benefício ou um prejuízo. Como é que essa substância infecciosa influenciará isto ou aquilo; como isto e aquilo influenciará essa substância. O que a leva a expandir-se e o que a levará a contrair-se; o que faz com que seja saudável ou não. Quais os aspectos positivos que terá e quais os negativos – tudo acerca dessa substância particular.

Agora, vós sois o cientista e a substância infecciosa que elegestes foi o amor; e pretendeis aprender sobre os altos e os baixos, as entradas e as saídas, o verso e o reverso, a positividade e a negatividade do amor. “O que dizes tu? O amor não pode comportar negatividade.” Pode sim senhor! Por o amor ser real, e tudo quanto é real ter a sua polaridade composta por positivo e negativo. As coisas que não são reais, tais como a culpa e o martírio, essas não possuem quaisquer qualidades positivas e são todas negativas. Esse é o sinal da sua artificialidade. Mas o amor é real e por isso comporta, podeis amar de uma maneira saudável, assim como podeis amar de uma forma menos sã. Podeis amar de forma errada e no grau errado, e ele pode revelar-se bem doloroso, conforme sabem o que o amor é capaz de produzir. Mas existe sempre o lado belo que comporta. 

E assim, aqueles de vós que se encontram aqui e elegeram esse foco do amor, não apenas para encontrar a quem amar, mas para aprenderem acerca do amor. O que representará o amor com base numa ligação sexual mútua? E que é que representará numa ligação mútua sem carácter sexual? O que representará o amor pelas ideias, e pelos conceitos? O que significará o amor pelas pessoas de longe e pelos companheiros e amigos? O que significará o amor pelos objectos inanimados e pelos assuntos? Com vontade de aprender acerca de todos os seus aspectos – quando fere, quando cura, quando liga e quando separa – tudo o que conseguirem aprender acerca do amor, se esse for o vosso enfoque. A razão por que o terão escolhido como enfoque pode variar; talvez por noutras vidas só terem percebido o seu lado negro, o seu lado escuro, o lado da mágoa que pode provocar; talvez por noutras vidas nunca terem conseguido dar-lhe a volta e chegar verdadeiramente a amar. Talvez por terem conseguido ter-lhe dado a volta e o terem extinguido antes de terem a oportunidade de completar a vossa investigação, e por isso nesta vida tenham dito: “Eu vou pegar de novo nele e arregaçar as minhas mangas no sentido figurado e vou escavar essa coisa chamada amor até ficar a saber tudo quanto haja a saber sobre o amor – de trás para a frente, de cima abaixo – tudo.”

Transcrito por Amadeu António



sábado, 19 de abril de 2014

RYOKAN TAIGU - (O SÃO FRANCISCO DO ZEN)





Ryokan (1758-1831) era uma criança sossegada e estudiosa que, aos dez anos, foi enviada para uma academia confucionista. Na sua juventude atravessou uma profunda crise espiritual, e de súbito decidiu tornar-se monge. Ingressou no Koshoji, o templo Soto-shu da zona como noviço, onde permaneceu durante vários anos. 


Mestres como Hakuin e Ikkyo são o protõtipo de um tipo de mestre zen  muito associado à escola Rinzai, mas esta outra escola, a do Soto, produziu igualmente professores extraordinários.


Em 1780 Kokusen (m 1791) visitou o templo de Ryokan e deixou o jovem tão impressionado que este decidiu tornar-se seu discípulo, passando para o templo de Kokusen, em Tamashima (Okayama) onde estudou poesia e caligrafia Zen. A abordagem que Kokusen fazia do zen era muito terra-a-terra, e descrevia-o como o acto de empilhar pedras e de recolher lixo.


Em 1790 recebeu das mãos de Kokusen o seu Inka-shomei, comprovando que era iluminado. Aquando da sua ordenação como monge, surgiu o nome pelo qual seria conhecido: Tyokan Taigu, significando Ryokan “bondoso” e “cordial”, e Taigu, “nobre louco”, por ele ser caracterizado por uma simplicidade e ingenuidades pueris.


Na qualidade de sucessor do Dharma de Kokusen, Ryokan poderia ter-se tornado o abade de um dos maiores templos do Soto-shu, mas preferiu a vida errante e de eremita. Subsistia inteiramente dependente das esmolas que conseguia obter, escrevendo poesia e criando obras-primas da arte da caligrafia. Por fim chegou à sua província natal, Echigo, e instalou-se num velho eremitério, o Gogoan. Devido à sua simplicidade, humildade e amor que tinha pelas crianças e pelos animais, Ryokan é igualmente comparado a São Francisco de Asis, outro dos loucos de Deus.




O seu último poema rezava o seguinte:
O que restará do meu legado
Flores, na Primavera
O cuco, no Verão
E as folhas vermelhas do Outono




 Um dos exemplos da caligrafia de Ryokan




Ryokan continua a ser um dos poetas japoneses mais bem amado, o nobre louco que escreveu de uma forma objectiva acerca da vida humilde que levou. Ele fez parte de uma tradiçãop de Mestres Zen radicais, ou Nobres Loucos, que inclui o chinês Han-shan, e o P’ang Yun, e os japoneses Ikkiu Sojun e Hakuin Ekaku.


Sendo o mais velho de sete filhos, Ryokan nasceu no sopé do monte Kugami na cidade de Izumozaki, uma comunidade de artistas e de escritores. O seu pai, um académico da literatura Japonesa e um renomado poeta Haiku, era um prefeito inepto da aldeia. A sua mãe era mulher sossegada que eventualmente teve que lidar com o abandono do cargo que o marido ocupava, e da família, para se ir afogar no rio Katsura.


Na sua juventude, Ryokan praticou sob a tutela de um académico Confuciano e começou a estudar literatura chinesa no original. Aos dezasseis anos de idade, já tinha deambulado por uma vida de jogo e de mulheres, mas de súbito surpreendeu toda a gente ao se dedicar ao estudo do Zen Soto, nas proximidades do templo de Koshoji. (A Soto e a Rinzai são as duas escolas principais do Budismo Zen, no Japão) Rapou o cabelo, envergou as vestes e fez o voto.  Com a idade de 21 anos ele foi para o templo Entsuji, em Bitchu, mas eventualmente ficou desiludido e indignado com as práticas corruptas de padres gananciosos e vaidosos e abandonou-o para adoptar uma ermida nos montes.


Ryokan não teve discípulos nem dirigiu nenhum templo; aos olhos do mundo não passava de um monge sem tostão que despendeu a sua vida no condado do Monte Kugami. Ele admirava a maioria dos ensinamentos de Dogen, o monge do século 13 que inicialmente tinha trazido o Soto para o Japão. Também se sentia atraído pela vida pouco convencional do poeta da montanha do Zen, Han-shan, que viveu na China algures por entre a dinastia T’ang (618-907). Mas repetidamente recusou ser honrado ou ser confinado como um profissional, quer como Budista, quer como poeta, e escreveu:


Quem diz que os meus poemas constituam poesia?
Estes poemas não são poesia
Quando conseguirem entender isso
Então, poderemos começar a falar de poesia.


Ryokan jamais publicou uma colecção de poemas em vida. A prática dele consistia em sentar-se em meditação, passear pelos bosques, brincar com as crianças, fazer as rondas solitárias de mendicância, ler e escrever poesia, entregar-se à caligrafia, e de vez em quando beber com os amigos. Mais tarde apelidou-se a ele próprio de Taigu, ou “Grandessíssimo Tolo”, só que tal título tinha um significado. Um mestre zen que ensinou o jovem Ryokan, descreveu-o do seguinte modo: “Ryokan assemelha-se a um tolo, só que o seu modo de vida é completamente emancipado. Ele vive jogando, como quem diz, com o destino, libertando-se de todo tipo de grilhões,” e prosseguiu descrevendo a vida simples que o seu discípulo levava: “Pela manhã, ele vagueia pelo exterior da sua choupana e vai sabe Deus para onde, e pelo entardecer demora-se algures, por aí. Com fama não se importa nem um pouco. Dos modos ardilosos que os homens empregam, diz ele estarem fora de questão.”


O seu espírito de livre vaguear tinha muito em comum com o do escritor Americano Henry David Thoreau. A vida de Ryokan representou a afirmação de vários valores alternativos e uma repreensão da hipocrisia e da rigidez de valores que se podia encontrar nos monastérios do Zen e na sociedade em geral.


A “loucura” de que padecia enquadra-se no contexto Taoista/Budista como uma inversão das normas sociais. Ryokan afirma o Caminho do Tolo no poema que redigiu sobre a não-mente:


Sem pensarem, as flores atraem a borboleta
Sem pensar, a borboleta visita as flores
Ainda assim, quando as flores desabrocham
A borboleta vem
E quando a borboleta vem, a flor desabrocha


“Sem pensar,”* significa não se apegar nem lutar, e quando ligado à aceitação da impermanência da vida, temos o maior dos loucos. Para conseguir essa mente original, ou de iniciante, Ryokan buscava a companhia das crianças, mantinha as suas humildes rondas de mendicância, aceitava o seu quotidiano e registava tudo nos seus poemas autênticos. Deixando o que quer que estivesse a fazer, ele ia juntar-se aos jogos das crianças da cabra-cega e das escondidas, e das lutas na relva. Certa vez foi apanhado a jogar berlindes com uma geisha e contava-se que jamais recusava uma partida de Go (Jogo estratégico semelhante ao das damas). Apreciava fazer de morto para as crianças, que o enterrariam sob uma pilha de folhas, e passar o dia a colher flores com elas, esquecendo as rondas de mendicância.


* - (NT: Não-pensamento, conforme consta no original, de resto muito similar à não-acção (ou não interferência) usada no Lao-Tzu, significa simplesmente ver todas coisas com a mente que temos, sem apego e sem mácula; deixar que a mente tudo toque de uma forma activa e livre, sem se agarrar a nada. Abrir mão da dicotomia e da duplicidade herdadas, e realizar o propósito que temos com clareza e confiança. Esse começou por ser o objectivo verdadeiro do sentido da “salvação” Cristã, que depois se afundou num pesado lodaçal de dogma; mas essencialmente a mensagem salvítica era a de nos ajudar a suplantar o medo e a confusão, para que vivendo plenamente e com fé - ou confiança na vida - pudéssemos atingir a plenitude da Mente, para que ao entrarmos na morada da “morte” o conseguíssemos fazer sem medo de extermínio nem de condenação, por sermos unos e íntegros com a e na Consciência Infinita. Portanto, a doutrina da ausência de pensamento não deve ser entendida como uma exigência de não pensar em nada e de cortar com o pensar – antes pelo contrário. Isso sim, representa a transformação da verdade que liberta numa verdadeira jaula. Com liberdade, o homem é capaz de responder com confiança e espontaneidade a qualquer situação a que faça frente, por ter uma mente pura e desapegada dotada de uma mobilidade e agilidade que não comporta impedimentos)


As histórias que circulam acerca da jocosidade de Ryokan são lendárias. Eis, uma, preservada após a sua morte verificada em 1831, no arquivo da sua família:


Ryokan estava a brincar à cabra-cega, e quando chegou a vez de se esconder, ele olhou em torno e viu um local em que a criançada não daria com ele. Tendo vislumbrado um monte de feno elevado, engatinhou-se para dentro dele, de modo a esconder-se por completo. Por mais que os catraios o procurassem, não conseguiam dar com ele. Em breve, cansaram-se de brincar, o sol começou a pôr-se, e quando avistaram o fumo a sair das chaminés, o preparo da refeição nas habitações, abandonaram Ryokan e regressaram aos seus lares. Desconhecedor disso, Ryokan imaginou que os catraios ainda andassem à sua procura, e pensando: “Lá vêem eles à minha procura! Agora vão-me descobrir,” ele esperou e continuou à espera. Ficou a noite toda à espera e ainda se encontrava à espera quando a madrugada surgiu. Nas casas de campo, a lareira é acesa com a queima de palha, e quando a filha do fazendeiro veio apanhar alguma palha, ficou espantada ao dar com Ryokan escondido por entre a palha: “Ryokan! Que diabo estás aqui a fazer?” bradou ela. “Ssh”, advertiu Ryokan, “Ou as crianças ainda dão comigo.”


A tendência que tinha de extraviar as coisas – o bordão, a tijela de mendicância, os livros, e mesmo a sua roupa interior – era do conhecimento de todos. Por entre as histórias ligadas ao esquecimento crónico de que padecia há uma sobre uma visita feita por um académico famoso chamado Kameda Bosai. Qando Bosai encontrou Ryokan a fazer zazen na sacada da sua cabana, esperou - várias horas – que o monge terminasse, e de seguida, Bosai e Ryokan alegremente conversaram sobre poesia, filosofia, e escrita até ao entardecer, quando Ryokan se ergueu para ir buscar um pouco de sake à vila.


Uma vez mais Bosai aguardou várias horas, até que preocupado começou a caminhar rumo à vila. Quando encontrou o seu anfitrião, a alguma distância sentado sob um pinheiro, exclamou: “Ryokan! Onde tem andado? Estive a aguardá-lo durante horas e receava que algo de grave lhe tivesse acontecido.” Ryokan ergueu a cabeça e disse: “Bosai, vieste mesmo a tempo. Olha, a lua não está esplêndida esta noite? Ah pois, o sake, esqueci por completo.” E dirigiu-se para a vila. Deixar-se distrair pelos instantes da vida constitui de veras uma virtude para o Zen, embora comummente representasse uma provação para os amigos.


Muitas vezes escreveu Ryokan sob a forma Kanshi - poemas compostos segundo o Chinês clássico. Reunidos, os seus poemas kanshi melhor serão vistos como um diário sem data, um registo de uma humilde vida gasta a viver no momento sem ideias de fama nem de poder. Ao registar a experiência de brincadeira, de mendicância, de observação das pessoas e da natureza por que passou, e a aceitação da generosidade da vida, Ryokan torna-se no auto-cognominado "grande tolo" a fim de nos orientar numa vida de autêntica simplicidade, confiança, humildade, e na descoberta do verdadeiro caminho na vida do dia-a-dia.



Poesia



Onde existir beleza, deverá existir fealdade;
Onde houver o certo, também haverá o errado.
O conhecimento e a ignorância são interdependentes;
A ilusão e o esclarecimento condicionam-se mutuamente.
Desde sempre que foi assim.
Como poderia ser de outro modo agora?
Querer ver-se livre de um e agarrar o outro,
não passa de um acto de estupidez.
Mesmo que falemos do prodígio que é isso tudo,
De que forma lidaremos com cada coisa ao mudar?

Outono

Meu querido amigo
Tu e eu tivemos uma conversa encantadora,
Há muito tempo atrás, numa noite de outono.
Ao se renovar o ano passou a ribombar,
Mas essa noite ainda a carrego na lembrança.

POEMA DE OUTONO

Revelando o seu lado inferior,
Mostrando a sua face
Cai uma folha de plátano.

MUNDO EM OSCILAÇÃO

Se as mangas
Do meu robe negro
Fossem mais largas
Daria abrigo a toda a gente
Neste mundo em oscilação.

DEMASIADO INDOLENTE PARA SER AMBICIOSO
Demasiado indolente para ser ambicioso,
deixo que o mundo cuide de si.
Arroz de dez dias na sacola;
uma mão cheia de galhos para a lareira.
Porque fazer conversa fiada acerca da ilusão e da iluminação?
Escutando a chuva a cair no telhado da minha cabana,
Sento-me confortável, com ambas as pernas estendidas.
EMBORA CAIA A GEADA
Embora caia a geada
Noite após noite,
Que importância tem isso?
Derretem ao sol da manhã.
Embora a neve caia
A cada ano que passa,
Que importância tem isso?
Nos dias de primavera derrete.
Mas quando se instala
Na cabeça de um homem,
Cai e acumula-se,
E continua a acumular-se –
Então o ano novo
Poderá vir e passar,
Mas jamais a vereis desaparecer

AO CREPÚSCULO

Ao crepúsculo
Frequentemente trepo
Ao topo do Kugami.
Os veados lá em baixo,
As suas vozes
Absorvidas
Pelas folhas do plátano
Deitados imperturbáveis
No sopé do monte.

NA CASA DE CAMPO DO MESTRE DO

A duas milhas da vila, conheci um velho lenhador
E percorremos a estrada forrada de pinheiros.
O odor das flores de ameixa silvestres
É levado ao longo do vale.
A minha bangala trouxe-nos até casa.
No lago antigo – enormes, peixes satisfeitos.
Longos raios de sol penetram nos bosques.
E na casa – uma cama comprida
Toda coberta de livros de poesia.
Desaperto o meu cinto e o robe,
E copio frase atrás de frase para os meus poemas.
Ao crepúsculo, caminho em direcção à ala leste –
A codorniz da primavera surpreende-nos em pleno ar.

Vagueando durante milhas chego a uma casa de campo
Á medida que o enorme disco solar se põe na floresta.
Os pardais reúnem-se junto a um matagal de bambus,
Esvoaçam na escuridão que se acentua.
Do outro lado do campo vem um agricultor
Que clama uma saudação ao longe.
Ele diz à mulher para coar o seu vinho nublado
E trata-me com um festim no seu jardim.
Sentados à mesa bebemos à saúde um do outro
A nossa conversa eleva-se aos céus.
Ambos embriagados e contentes
Esquecemos as regras deste mundo.

Demasiado confuso para alguma vez ganhar a vida
Aprendi a deixar que as coisas encontrem o seu caminho.
Apenas com três mãos-cheias de arroz na minha sacola
E alguns ramos para a minha fogueira
Não persigo nem o certo nem o errado
E esqueço a fortuna e a fama mundanas.
Esta noite húmida sob o tecto de palha
Estico as minhas pernas sem pesares.

Mendicância

A mendicância terminou por hoje; no cruzamento
perambulo pelos lados do santuário de hashiman
e converso com os catraios.
no ano passado, um monge tolo;
este ano, nenhuma mudança!

Em Harmonia com o Vento

Em harmonia com o vento,
A neve cai;
Misturando-me com a neve,
O vento sopra.
Caminhando por aqui
Vou esticando as pernas,
Na ociosidade
Confinado que me encontro a esta cabana.
Contando os dias,
Descubro que também o Fevereiro,
Veio e se foi
Como um sonho.

Na Aldeia

Na aldeia
O ruído da flauta e do tambor,
Aqui nas profundezas da montanha
Escuto o som dos pinheiros por toda a parte.

Sonhos

Neste mundo de sonho dormitamos
E falamos de sonhos --
Sonhai, sonhai lá,
Tanto quanto quiserdes

Os Primeiros Dias da Primavera - O Céu

Os primeiros dias da Primavera-o céu está brilha de azul, o sol cálido e enorme.
Tudo se torna verde.
Carregando a minha tigela de monge, vou até à aldeia
Mendigar a minha refeição diária.
Os catraios detectam-me às portas do templo
E juntam-se alegremente ao meu redor,
Enquanto me agarram os braços até eu parar.
Pouso a minha tigela sobre uma pedra esbranquiçada,
Penduro o saco num ramo.
Primeiro trançamos gramíneas e fazemos um braço-de-ferro,
De seguida cantamos à vez e jogamos com uma bola de trapos:
Eu chuto a bola enquanto eles cantam, e eles chutam enquanto eu canto.
Perco a noção do tempo, e as horas correm.
Os transeuntes que passam apontam para mim e riem:
"Porque te portas assim como um tolo?"
Eu faço um aceno de cabeço e não respondo.
Podia dizer qualquer coisa, mas com que objectivo?
Querem saber o que me corre no coração?
Desde o começo dos tempos: somente isto! apenas isto!

Para as Crianças Vitimadas pela Varíola

Quando a Primavera chega
Em toda o cume de árvore
Florescerão flores,
Mas aquelas crianças
Que caíram com as últimas folhas do Outono
Jamais regressarão.

Esqueceste-me?

Ter-me-ás esquecido
Ou esquecido o caminho?
Aguardo por ti o dia todo
o dia todo, todos os dias
Mas tu não apareces.

De que Modo Conseguirei Dormir?

Como poderei dormir
Nesta noite iluminada pela lua?
Vinde, meus amigos,
Cantemos e dancemos
Por toda a noite.

Presencio as Pessoas pelo Mundo

Presencio as pessoas pelo mundo
A desperdiçar as suas vidas e a cobiçar coisas,
Incapazes de alguma vez satisfazer os desejos que têm,
E deixando-se cair num profundo desespero
E torturando-se.
Mesmo que consigam aquilo que querem
Por quanto tempo conseguirão desfrutá-lo?
Por um prazer celestial
Padecem dez tormentos infernais,
E prendendo-se mais fortemente à roda.
Tal gente assemelha-se a macacos
Que tenta freneticamente agarrar a lua espelhada nas águas
E cai no redemoinho.
Como aqueles apanhados no mundo flutuante padecem.
Sem querer, preocupo-me com eles
E não consigo estancar o fluxo de lágrimas.


Numa Cabana de Três Cômodos Dilapidada

Numa cabana dilapidada de três cômodos
Envelheci e cansei;
O frio deste inverno
É o pior que atravessei.
Sorvo umas sopas de aveia escassas, enquanto aguardo
Que a noite gelada passe.
Sobreviverei até que chegue a próxima Primavera?
Incapaz de mendigar o arroz,
Como conseguirei sobreviver ao frio?
Até mesmo a meditação deixou de ajudar;
Sem nada para fazer excepto compor poemas
Em memória dos amigos falecidos.

Na Minha Juventude Pus os Estudos de Lado

Na minha juventude Pus os estudos de lado
E aspirei tornar-me santo.
Vivi de forma austera como monge mendicante,
E deambulei por muitas primaveras.
Por fim regressei a casa para me alojar sob um pico íngreme.
Vivo em paz numa cabana de palha,
Com o canto das aves como música.
As nuvens são os mais próximos vizinhos que tenho.
Abaixo uma primavera onde refresco mente e corpo;
Acima, pinheiros elevados e carvalhos que fornecem sombra e gravetos.
Livre, plenamente livre, dia após dia --
Jamais desejo partir!

Pela Manhã

Pela manhã, curvo-me perante todos;
À tarde, curvo-me perante todos.
Respeitar o próximo constitui o meu único dever--
Saudar o Bodisatva nunca é de desprezar.
Que é único no céu e na terra.
Um verdadeiro monge necessita
Apenas uma coisa--
Um coração semelhante
Ao Buda que não é de desdenhar.

Como o Regato

Como o regato
Que abre caminho por entre
As fendas cobertas de musgo
Também eu tranquilamente
Alcanço o esclarecimento e a transparência.

Pleno Verão

Em pleno verão --
Perambulo com o meu bastão.
Os velhos camponeses detectam-me
E chamam-me para ir tomar uma bebida
Sentámo-nos nos campos
E usamos folhas como pratos.
Agradavelmente ébrio e tão contente
Afasto-me tranquilamente
E estendo-me sobre uma margem de arroz.

A Minha Tigela de Esmolar Quebrada

Este tesouro foi descoberto num matagal de bambus --
Lavei a tigela numa primavera e de seguida consertei-a.
Após a meditação da manhã, tomo as minhas sopas de aveia nela;
À noite, ela serve-me sopas de arroz.
Rachada, gasta, maltratada pelo tempo, e desformada
Mas mesmo assim de nobre cepa!

O Meu Legado

O legado que deixo --
Que coisa haverá de ser?
Flores na primavera,
O cuco no verão,
E os mantos carmesim
Do outono...

No Turno de Mendicância de Hoje não Tive Sorte

Não tive qualquer sorte no turno de mendicância de hoje;
Arrastei-me de aldeia em aldeia.
Ao pôr-do-sol dou por mim com milhas de montes
Entre mim e a minha cabana.
O vento fustiga-me o corpo débil,
E a minha pequena tigela perece tão abandonada --
Sim, este foi o caminho escolhido que me guia
Por entre o desapontamento e a dor, o frio e a fome.

Sem Pensar

Sem pensar, as flores atraem a borboleta;
Sem pensar, a borboleta visita as flores.
Ainda assim, quando a flor brota,
A borboleta aparece;
E quando a borboleta aparece,
As flores brotam.

Orquídea

No fundo do vale, oculta-se uma beldade:
Serena, sem par, incomparavelmente doce.
Na sombra tranquila do matagal de bambus
Parece suspirar baixinho por um amante.

Resposta a um Amigo

Vou vivendo numa estupidez obstinada
E fazendo amizades com árvores e ervas.
Demasiado indolente para distinguir o certo do errado,
Rio-me de mim próprio, e ignoro os demais.
Erguendo as minhas canelas ossudas, atravesso o riacho,
Um saco na mão, abençoado pelo tempo da primavera.
Vivendo deste jeito, nada me faz falta,
Em paz com todo o mundo.

O teu dedo aponta a lua,
Mas o dedo engana até que a lua apareça.
Que ligação terá o dedo com a lua?
Serão dois objectos separados ou estarão ligados?
Esta é uma questão para principiantes
Envoltos na ignorância.
Contudo, aquele que discerne para além da metáfora
Sabe que não existe dedo; não existe lua.

Voltando à Minha Aldeia de Origem

Ao regressar à minha aldeia de origem após muitos anos de ausência:
Hospedei-me numa estalagem rural e fiquei a ouvir a chuva a cair.
Um robe e uma tigela é tudo quanto tenho.
Acendo incenso e esforço-me por me sentar a meditar;
Para lá da janela escura, uns chuviscos constantes durante toda a noite --
Dentro, lembranças pungentes destes longos anos de peregrinação.

Supera

Deves erguer-te acima
Das nuvens sombrias
Que cobrem o topo do monte
Caso contrário, como poderás
Alguma vez perceber o esplendor?

Nas Encostas do Monte Kugami

Nas encostas do monte Kugami—
No abrigo do monte
Uma cabana por entre as árvores—
Há quantos anos tem sido o meu lar?
É chegada a altura de nos despedirmos—
As ideias esmorecem como as ervas do verão,
Vagueio para trás e para a frente
Como a estrela do entardecer—
Até que essa minha cabana se perca de vista,
Até que esse bosque de árvores não se consiga distinguir mais,
A cada passo do caminho,
A cada curva,
Volto-me para trás para olhar
na direcção desse monte.

ESTICADO

Esticado,
Embriagado,
Sob o vasto céu:
Sonhos esplêndidos
Sob as flores de cerejeira.

Teishin

“Quando, quando?” suspiro.
Aquela por quem anseio
Chegará por fim;
Com ela agora,
Tenho tudo quanto preciso.

O Lotus

Florescendo primeiro no Paraíso do Oeste,
O Lótus encantou-nos por eras.
As suas pétalas brancas cobertas de orvalho,
As suas folhas verdes cor de jade espalhadas pelo lago,
E a sua fragrância pura a perfumar o vento.
Frio e imponente, eleva-se das águas obscuras.
O sol põe-se por trás das montanhas
Mas eu permaneço da escuridão, demasiado cativado para partir.

As Plantas e as Flores
As plantas e as flores
que plantei ao redor da minha choupana
Eu devolvo agora
À vontade
Do vento.

O Ladrão Deixou-a Para Trás

O ladrão deixou-a para trás:
A lua
Na minha janela.

O Caminho do Tolo Sagrado

Numa encruzilhada, este ano, após
Ter mendigado por todo o dia.
Demorei-me no templo da vila.
As crianças juntaram-se à minha volta a murmurar
“O monge maluco voltou para brincar.” 

O Vento Veio para Ficar

O vento veio para ficar, as flores caíram;
Cantam os pássaros, as montanhas escurecem --
Este é o estupendo poder do Budismo.

Os Ventos Esmoreceram

Os ventos esmoreceram, mas as flores continuam a cair;
os pássaros chamam, mas o silência penetra cada canto.

O MIstério! Desconhecido, Não se pode desaprender.
A virtude de Kannon.

Este Mundo

Este mundo
Um desvanecimento
Eco da montanha
Vazio
Irreal
Dentro
Uma neve fraca
Três mil Reinos
Dentro desses reinos
Cai uma neve leve

À medida que a neve
Encobre a minha choupana
Ao entardecer
Também o meu coração
Se consome por completo

Três Mil Mundos

Os Três Mil Mundos
que dão um passo em frente
com a neve fraca,
e a neve fraca que cai
nesses Três Mil Mundos

Para Acender uma Fogueira

Para acender uma fogueira,
os ventos do Outono empilharam
umas quantas folhas mortas.

Ao Meu Mestre

Um velho sepulcro escondido aos pés da solina do deserto,
Invadido de ervas daninhas por arrancar ano após ano;
Não ficou ninguém para cuidar da sepultura,
E somente um lenhador ocasional passa.
Uma vez que fui seu aluno, um jovem de cabelo desgrenhado,
E aprendi profundamente com ele junto ao Rio Estreito.
Certa manhã parti para a minha jornada solitária
E os anos passaram-se entre nós em silêncio.
Agora regresso para o descobrir aqui a descansar;
Como poderei honrar o seu espírito que partiu?
Derramo uma colher de água sobre a sua lápide
E ofereço uma oração em silêncio
O sol subitamente desaparece por trás da colina
E encontro-me envolto pelo rugido do vento nos pinheiros.
Tento afastar-me mas não consigo:
Uma torrente de lágrimas inundam-me as mangas.

Demasiado Ocioso Para Ser Ambicioso

Demasiado ocioso para ser ambicioso,
Deixo o mundo aos seus próprios cuidados.
No meu saco uma ração de dez dias;
Um feixe de galhos junto à lareira.
Para que falar da ilusão e da iluminação?
Sento-me confortavelmente, com ambas as pernas esticadas
A ouvir a chuva da noite sobre o meu telhado.

Quando Todo O Pensar

Quando todo o pensar
Se esgota
Deslizo para o bosque
E reúno
Uma pilha de bolsa-de-pastor.
(Planta)

Quando Eu Era Rapaz

Quando era rapaz,
Passeava-me pela cidade de forma extravagante,
Ostentando um manto da mais suave penugem,
E montado num esplêndido cavalo cor de castanha.
De dia, galopava até à cidade;
À noite, embriagava-me com as flores de pêssego junto ao rio.
Nunca me preocupava por regressar a casa,
Geralmente terminava, com um sorriso rasgado no rosto,
No pavilhão do prazer!




Traduzido por: Amadeu António


Obras de referência:

John Stevens – “Zen Masters” e “One Robe, One Bowl”

Ryuichi Abé & Peter Haskel – Great Fool – Zen Master Ryokan
Great Fool: Zen Master Ryokan - Ryuichi Abé & Peter Haskel