terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A MECÂNICA DA EXPERIÊNCIA



(Sessão 830, 831 e 832 de “O Indivíduo e a Natureza dos Eventos de Massa”)

Seth


Traduzido por Amadeu Duarte


O vosso mundo e tudo quanto nele tem existência, existe, pois, em primeiro lugar na imaginação. Foram ensinados a focar toda a vossa atenção nos acontecimentos físicos, de modo que para vós, chegaram a carregar a marca da autenticidade. Os pensamentos, sentimentos e crenças parecem pertencer a uma ordem secundária e subjectiva - ou ser de algum modo irreais – e parecem surgir em resposta a um campo de dados físicos já estabelecido.


Geralmente pensam, por exemplo, que os sentimentos que têm acerca de um acontecimento particular constituam reacções primárias ao próprio acontecimento. Raramente lhes ocorre que os próprios sentimentos devam ser de ordem primária, e que o acontecimento particular de algum modo tenha constituído uma reacção às vossas emoções, em vez de ser ao contrário.


A questão de suma importância do vosso foco é amplamente responsável pela interpretação que fazem de um evento qualquer. A título de exercício, pois, imaginai por um instante que o mundo subjectivo dos vossos pensamentos, sentimentos, imagens interiores e fantasias representam o alicerce da realidade de que emergem os acontecimentos físicos individuais. Olhai o mundo, para variar, de dentro para fora, por assim dizer. Imaginai que a experiência física constitui de alguma maneira a materialização da vossa realidade subjectiva. Esquecei aquilo que aprendestes acerca das reacções e dos estímulos. Ignorai por um período tudo em que acreditastes e percebei os pensamentos que tendes como acontecimentos físicos. Tentai perceber as ocorrências físicas normais como reacções físicas concretas, situadas no espaço e no tempo, às crenças e sentimentos que tendes. Porque, de facto, o vosso mundo subjectivo é a causa da vossa experiência física.


Para intitular este capítulo, utilizei o termo “mecânica”, por os mecanismos sugerirem funcionamentos tecnológicos suaves. Conquanto o mundo não represente qualquer máquina, o seu funcionamento interior é de tal modo que nenhuma tecnologia conseguiria alguma vez copia-lo – o que envolve uma mecânica natural em que as dimensões interiores da consciência emergem por toda a parte para formar uma existência materializada física coesiva. Uma vez mais, as interpretações que fazeis sobre a identidade ensinam-vos a focar a percepção de tal forma que não conseguis acompanhar os fios da consciência que vos ligam a todas as porções da natureza.


De certo modo o mundo assemelha-se a uma planta multidimensional exótica que cresce no tempo e no espaço, com cada pensamento, sonho, confronto imaginário, esperança ou temor, a crescer de forma natural no seu desabrochar – uma planta caracterizada por uma incrível variedade que nem por um instante sequer permanece a mesma, e em que cada pequena raiz, estame ou flor tem uma função a representar e se encontra ligada ao Todo.

Mesmo aqueles de vós que intelectualmente concordam que formais a vossa própria realidade, acham isso emocionalmente difícil de aceitar, em diversas áreas. Vós sois, claro está, literalmente hipnotizados na crença de que os vossos sentimentos despertam em resposta aos acontecimentos. Porém, os sentimentos são a causa dos acontecimentos que percebeis. É claro que reagem em segundo lugar a esses acontecimentos. Foi-lhes incutido que os sentimentos que têm devem necessariamente estar ligados a acontecimentos físicos específicos. Podeis sentir-vos tristes por um parente vosso ter morrido, por exemplo, ou por terem perdido um emprego, ou por terem sido rejeitados por um amante, ou por uma panóplia de outras razões aceites.


Foi-lhes incutido que os sentimentos que têm devem surgir em resposta a eventos que ocorram, ou que tenham ocorrido. Muitas vezes, é claro, os sentimentos que têm ocorrem “antes do tempo”, por tais sentimentos constituírem as realidades iniciais de que os eventos fluem. Um parente vosso pode encontrar-se preparado para morrer, embora nenhum sinal externo tenha sido dado; os sentimentos desse parente podem apresentar-se muito bem numa mistura, e comportar porções de alívio e de tristeza, que poderão depois perceber – mas os acontecimentos primários são de natureza subjectiva.


Constitui de algum modo um truque psicológico, nos vossos dias e na vossa era, chegar a entender que de facto chegais a formar a vossa própria experiência e mundo, simplesmente por o peso da evidência parecer de tal modo conotado com o sentido do extremo oposto, devido aos hábitos de percepção que têm. A percepção assemelha-se a uma máquina que sobrevém para muitos a certa altura no estado de sonho, quando “despertam” enquanto ainda se encontram a sonhar, e percebem em primeiro lugar estar a sonhar, e numa segunda instância percebem que eles próprios estão a criar o drama que experimentam. A compreensão de que criam a vossa própria realidade requer esse mesmo tipo de “despertar” do estado normal da consciência de vigília – pelo menos no caso de muitos. Alguns, claro está, dispõem, dessa destreza mais do que outros.


A própria compreensão disso altera as “regras do jogo” numa extensão considerável, no que vos diz respeito. Há razões para o mencionar aqui, em vez de o ter feito nos livros anteriores. de facto, os nossos livros seguem o seu próprio ritmo, e este, de certo modo constitui uma análise mais aprofundada do “A Natureza da Realidade Pessoal”. Enquanto acreditarem que tanto os bons acontecimentos quanto os maus sejam impostos por um Deus personificado, a título de recompensa ou de castigo pelas acções que cometeis; ou por outro lado, enquanto acreditarem que os acontecimentos sejam em larga escala destituídos de sentido e caóticos, nós subjectivos na teia emaranhado de um mundo Darwiniano de acidentes, então não conseguirão conscientemente compreender a vossa própria criatividade, nem desempenhar no universo o papel que são capazes de desempenhar, enquanto indivíduos ou espécie.


Em vez disso viverão num mundo em que os acontecimentos vos acontecem, e em que precisarão proceder a sacrifícios aos “deuses” de um género ou de outro, ou perceber que são vítimas de uma natureza insensível e indiferente.


Preservando a integridade dos acontecimentos físicos conforme os compreendeis, cada um de vós deve alterar o enfoque da vossa atenção, até certo ponto, de modo a começarem a perceber as ligações existentes entre a vossa realidade subjectiva num dado momento, e aqueles acontecimentos que percebem num outro momento. Vós sois quem dá início a tais eventos. Esse reconhecimento efectivamente envolve um novo desempenho da parte da vossa consciência, um salto mental e imaginário que vos dê controlo e direcção sobre as realizações que sempre desempenharam, sem todavia a percepção consciente disso.

Conforme mencionado antes (sessão 828), o homem primitivo usava um tipo de identificação desses, da realidade subjectiva e objectiva. Enquanto espécie, todavia, desenvolveram o que quase se poderia chamar de natureza secundária – um mundo tecnológico no qual agora também tendes a vossa própria existência, e dele emergiram estruturas sociais complicadas. Desenvolver esse tipo de estrutura necessitou de uma divisão entre o mundo subjectivo e o objectivo. Agora, porém, torna-se altamente importante que percebais a vossa posição e que efectueis a manipulação da consciência que vos permita assumir uma responsabilidade consciente pelas acções que praticam e pelas vossas experiências. Podem “chegar a acordar” do estado normal de vigília e esse é o passo natural seguinte que a consciência precisa seguir – um passo para o qual a vossa tecnologia já vos equipou.


De facto cada um atinge o reconhecimento disso, vez por outra. Isso traz vitórias e desafios, também. Naquelas áreas da vida em que se sentem satisfeitos, e que creditais a vós próprios, e nas áreas em que não se sentem satisfeitos, recordai que se encontram envolvidos num processo de aprendizagem; estão a ser suficientemente ousados no acatar da responsabilidade pelas acções que cometem. Contudo, olhemos com um pouco mais de clareza para as maneiras como o vosso mundo privado causa a experiência diária com que vos defrontais, e o modo como ela se funde com a experiência dos outros.


A religião organizada cometeu erros crassos significativos, no entanto, durante séculos, o cristianismo forneceu um contexto aceite por vastas porções do mundo conhecido, em que a experiência podia ser julgada com base em “regras” bem definidas – experiência essa que era focada, “cinzelada”, mas que no entanto permitia alguma riqueza de expressão conquanto permanecesse dentro dos limites estabelecidos pelo dogma religioso. Caso uma pessoa fosse pecadora, ainda havia, claro está, a hipótese da redenção, e a imortalidade da alma permanecia largamente fora de questão. Estabeleciam-se regras para quase todo o tipo de conflitos sociais e experiências religiosas. Definiam-se cerimónias aceites por quase toda a gente para o nascimento e a morte, e os importantes estágios intermédios.


A Igreja representava a autoridade, e a pessoa vivia a sua vida individual quase de uma forma automática, estruturando a experiência pessoal de forma a se enquadrar na norma aceite. Dentro de tais limites floresciam certos tipos de experiência, e claro que outros não. É claro que na vossa sociedade não existe esse tipo generalizado de autoridade. A pessoa precisa abrir caminho através de uma barragem de diferentes sistemas de valor, e tomar decisões que seriam amplamente impensáveis, quando um filho tinha que seguir automaticamente o ofício do pai, por exemplo, ou quando os casamentos eram feitos em larga escala por razões económicas.


Assim, a vossa presente experiência difere largamente da daqueles antepassados que viveram, digamos, no mundo medieval, e não conseguis apreciar as diferenças presentes nas vossas atitudes subjectivas actuais e na qualidade, assim como o tipo de trato social que tem agora existência. De toda a panóplia de erros que cometeu, o cristianismo quando muito proclamou o sentido último da vida de cada um. Não havia dúvida quanto ao facto da vida possuir um sentido; quer concordassem ou não, precisavam concordar quanto ao sentido particular que lhe era atribuído.


Os sonhos das pessoas também diferiam nesses tempos, e eram muito mais repletos de imagens metafísicas, por exemplo, mais vivos com os santos e os demónios, mas no geral existia um quadro de crenças, e toda a experiência era julgada à luz dele. Agora tendes, de longe, muito mais decisões a tomar, e num mundo de crenças conflituosas, que vos fazem chegar à sala-de-estar pelos jornais e pela televisão, precisam tentar descobrir significado para a vossa vida, ou o sentido da vida.


Podem pensar em torno de experimentos. Podem tentar isto ou aquilo. Podem refugiar-se numa outra religião, correr da religião para a ciência, ou vice-versa. Isso representa um facto de uma forma que era impossível para as massas dos tempos medievais. Só o melhoramento verificado nos métodos de comunicação significam que se encontram por toda a parte rodeados de várias teorias, culturas e escolas. Em certas áreas importantes, isso quer dizer que a mecânica da experiência se está efectivamente a tornar mais aparente, por não mais se ocultar sob uma crença qualquer. As opções subjectivas ed que gozais são de longe mais expressivas, e do mesmo modo é de longe mais expressiva a necessidade que têm de situar essa experiência subjectiva em termos significativos.

Se acreditarem que formam de facto a própria realidade, então de pronto esbarrarão com todo um novo grupo de questões. Se na verdade constroem a sua própria experiência, tanto individualmente quanto em massa, porque então tanta dela parecerá negativa? Vós criais a vossa própria realidade ou ela é criada por vós. Ou se trata de um universo acidental ou não.


Agora, nos tempos medievais, a religião organizada, o cristianismo organizado propunha cada pessoa um quadro de crenças por meio do qual o ser pessoal era percebido. Parcelas do ser que passavam despercebidas por meio desse quadro permaneciam quase invisíveis para a pessoa privada. Os problemas eram remetidos por Deus como castigos ou avisos. A mecânica da experiência era ocultada por detrás desse quadro. 


Ora bem; as crenças de Charles Darwin, assim como de Sigmund Freud, foram formadas em conjunto a fim de vos apresentar um quadro diferente. A experiência é aceite e percebida unicamente na medida em que é peneirada por esse quadro. Se a cristandade encarou o homem como manchado pelo pecada original, as perspectivas de Darwin e de Freud encaram-no como parte de uma espécie defeituosa, na qual a vida individual permanece precária ou sob intimação das necessidades das espécies, e com a sobrevivência como objectivo principal – uma sobrevivência, porém, destituída de sentido. A grandiosidade da psique é ignorada. O sentido individual de pertença à natureza é desgastado, por aparentemente ser às custas da natureza que tem que sobreviver. Os nossos maiores sonhos e os piores receios tornam-se no resultado de desequilíbrios glandulares ou de neuroses oriundas de traumas tidos na infância. Contudo, em meio a tais crenças, cada um procura descobrir um contexto em que a sua vida possua um sentido, um propósito que o instigue à acção, um drama em cujo tema as acções de cariz privado venham a ter um significado.


Há valores intelectuais e valores emocionais, e por vezes há necessidade de natureza emocional que precisam ser satisfeitas independentemente dos julgamentos intelectuais. A Igreja forneceu um drama cósmico no qual até mesmo a vida do pecador tinha valor, nem que fosse para revelar a compaixão de Deus. Na vossa sociedade, porém, o ambiente psíquico estéril muitas vezes conduz à revolta. As pessoas dão passos no sentido de darem sentido e drama às suas vidas, mesmo que intelectualmente se recusem a proceder à associação.


Quando Deus foi lançado pela janela fora para largas massas da população, o destino assumiu o seu lugar, e a vontade sofreu um desgaste. Uma pessoa não podia nem sentir-se orgulhosa pelas conquistas pessoais nem ser culpabilizada pelos outros por fracasso, já que em larga medida as suas características potenciais e carências eram vistas como o resultado do acaso, da hereditariedade e de mecanismos mais inconscientes sobre os quais ela tinha aparentemente muito pouco controlo. O diabo passou à clandestinidade, para pôr a coisa em termos figurados, de modo que muitas das suas qualidades perniciosas e características desonestas passaram, a ser atribuídas ao inconsciente.


O homem passou a ser encarado como dividido em si mesmo – uma figura de proa consciente que jazia inquieto acima das poderosas patas da bestialidade inconsciente. Acreditava estar programado pela hereditariedade e o ambiente primitivo, de modo que parecia que permaneceria para todo o sempre desconhecedor dos verdadeiros motivos que tinha. Não só se armou contra si próprio como passou a ver-se como parte de um universo indiferente e mecânico, desprovido de propósito, abjecto, e certamente um universo que não se importava nem um pouco com o indivíduo mas somente pela espécie. Um mundo verdadeiramente estranho.


Tratava-se, em muitos aspectos, de um mundo novo, por ter sido o primeiro no qual vastas porções da humanidade acreditaram estar isoladas da natureza e de Deus e no qual nenhum esplendor era reconhecido como característica da alma. De facto, para muitos, a ideia da alma por si só, tornou-se fora de moda, objecto de vergonha, e ideia desactualizada. Aqui utilizo os termos “alma” e “psique” como sinónimos. Essa psique tem vindo de uma forma crescente a emergir sob qualquer disfarce que lhe for permitido, à medida que busca expressar a vitalidade que comporta, o seu objectivo e exuberância, e à medida que busca novos contextos nos quais possa expressar uma realidade subjectiva que por fim transborde das crenças estéreis.


A psique expressa-se a si mesma por meio da acção, claro está, mas carrega nas suas costas as verdades de que a vida brota, e busca a plena realização do indivíduo – e automaticamente procura produzir um ambiente social ou civilização que seja produtiva e criativa. Projecta os seus desejos no exterior, no mundo físico, buscando por intermédio da experiência privada e do contacto social actualizar os potenciais que comporta, e de tal modo que os potenciais dos outros sejam igualmente encorajados. Procura concretizar os seus sonhos e quando não encontra resposta na vida social, assume não obstante uma expressão pessoal num tipo privado de religião.


Basicamente, a religião é uma actividade por meio da qual o homem procura ver o sentido da sua vida. É uma construção baseada num conhecimento profundamente psíquico. Não importa por que nome se dê, por representar a ligação do homem com o universo.

Na vossa sociedade pensa-se geralmente que uma pessoa deva ter um meio de vida decente, uma família ou um outro relacionamento chegado, gozar de boa saúde, e tenha um sentido de pertença caso o indivíduo pretenda ser produtivo, feliz e contente. Uma melhor programação social, maiores oportunidades de trabalho, planos de saúde ou projectos urbanos são frequentemente considerados como os meios que trarão realização às massas. Pouco ou nada é referido acerca da necessidade inata da personalidade, de sentir que a sua vida tenha um propósito e um sentido. Pouco é dito acerca do desejo inato de drama, o tipo de drama espiritual interior em que uma pessoa pode sentir que faz parte de um propósito que seja seu, e ainda assim maior do que ela própria.


Existe, no homem, uma necessidade de sentir e de expressar impulsos heróicos. Os seus verdadeiros instintos conduzem-no espontaneamente na direcção da melhoria da qualidade da sua própria vida e da dos outros. Ele precisa ver-se como uma força no mundo. Os animais também dramatizam. Eles possuem emoções. Sentem ser uma parte do drama das estações. Encontram-se completamente vivos, nesses termos. A natureza, em toda a diversidade que a caracteriza é tão ricamente defrontada pelos animais que se torna no equivalente deles das vossas estruturas da cultura e da civilização. Respondem aos seus ricos matizes por formas impossíveis de descrever, de modo que as suas “civilizações” são estabelecidas por meio dos entrelaçados dos dados dos sentidos que possivelmente não conseguireis perceber.


Os animais sabem de uma forma que não podereis saber, que as suas existências privadas exercem um impacto directo sobre a natureza da realidade. Eles acham-se, pois, envolvidos. Uma pessoa pode gozar de riqueza e de boa saúde, pode desfrutar de satisfação nos relacionamentos, e mesmo realizar trabalho, e ainda assim viver uma vida desprovida do tipo de drama a que me refiro – porque a menos que sintam que a vida tenha um sentido, toda a vida deverá parecer destituída de sentido, e todo o amor e beleza deverão terminar na ruína.


Quando acreditais num universo formado de forma acidental, e quando pensais ser um membro de uma espécie gerada de forma acidental, então a vida privada deverá parecer destituída de sentido e os acontecimentos deverão parecer caóticos.


Os eventos desastrosos que se pensa serem gerados pela ira de um Deus podiam pelo menos ser compreendidos nesse contexto, mas muitos de vós viveis num mundo subjectivo em que os acontecimentos da vossa vida parecem não ter qualquer razão particular – ou mesmo por vezes parecem suceder justamente ao contrário do que desejais…


Que tipos de eventos podem as pessoas formar quando se sentem impotentes, quando as suas vidas parecem destituídas de significado – e que mecânica residirá por detrás desses eventos?


REFLEXÕES SOBRE O MUNDO NOVO



Transcrição e tradução de Amadeu Duarte



Pergunta: Bom dia… Quem fala é a Marilyn.


Resposta: Olá Marilyn. Sobre que vamos falar?


Pergunta: Bom, eu estava a pensar neste mundo novo que estamos a criar, mas não tenho uma visão muito clara, e permanece um tanto obscuro…


Resposta: Óptimo.


Pergunta: (Ri) Eu tinha pensado, sabes, em como a certa altura, a América representou o Novo Mundo, e constituiu um experimento, há quase quatrocentos anos atrás, e como de certo modo… (Imperceptível) a Declaração da Independência, A Declaração dos Direitos Humanos, e creio que uma maravilhosa constituição, e sabes como as pessoas acudiram de todas as partes, e formam uma comunidade global actualmente, e agora dispomos de todo um outro mundo, da tecnologia, um belo planeta no espaço… Mas que é que fazemos, como é que havemos de realizar o novo sonho?


Resposta: Muito bem, muito bem. Bom, vamos falar um pouco acerca disso na verdade. Decerto que vos encontrais num estágio do desenvolvimento humano em que o ser humano evolui e se torna de certo modo num tipo diferente de ser humano. Já vimos a falar desses elementos pelo menos há uma década, ou década e meia, no sentido da consciência humana a evoluir, e a esse respeito sabemos que há quem por aí fale de virem a ter cromossomas extras e todo o tipo de diferenças tangíveis no ADN humano e na estrutura molecular humana, novos centros de energia (chakras) e mais isto e aquilo e aqueloutro mais. 


E essa conversa não é insensata nem constitui uma tolice, mas também não é válida nesse sentido, não é verdade, no sentido de virem a ter cromossomas extra, e que as crianças que nasçam após tais e tais anos venham a ser de algum modo química e biologicamente diferentes dos pais e dos avós, etc. O que se passa em torno disso, num certo sentido, é que… como dizê-lo? As pessoas – talvez se deva referi-lo melhor nestes termos – estão a tocar em algo que é novo, em algo que é diferente, e a tentar da forma que podem, traduzir isso por palavras de um idioma linear e a tentar colocar isso no contexto de um mundo linear, de um mundo que tenha começo, meio e fim e em que tudo flua bastante numa linha recta.


Falamos em termos desses visionários, sabem, que vão até aos limites da consciência e espreitam além, e além dos horizontes da consciência e captam vislumbres e os clarões fugazes, pistas e indícios do que lá se encontra, e que tentam a seu modo de visionários comunicar, capturar isso. Falamos disso em particular, por exemplo, nos termos do Tarot e das 22 imagens arquetípicas do Arcana Maior do Tarot em que de facto aqui é o que o Louco simboliza, e aqui é o que o Mago simboliza, mas existem versões, claro está; as versões clássicas e as subsequentes como o Tarot feminino, por exemplo, em que todas as imagens são femininas, e aparece uma Louca e uma Maga, ao contrário do simbolismo masculino tradicional.


E aquilo que dissemos a esse respeito foi que, esses visionários, esses habitantes dos limites, aqueles que possuem esse sentido de visão - mais do que um sonho – um estado de ser, que é o que a visão representa, a diferença entre uma visão e um sonho. Eles vão até às extremidades dos limites, vão até ao horizonte à medida que perscrutam além e fazem ideia, por exemplo, do arquétipo que representa o arquétipo do Louco. E regressam e tentam transmitir a um amigo, tentam colocar isso em palavras, e dizem que é uma energia, que é uma ressonância, é este algo diferente, semelhante a alguém que permanece de pé na borda ou no limiar, e dá um passo em coisa nenhuma, e sem olhar para onde se dirigem, assemelham-se a tolos, completamente contentes e a olhar para trás por cima do ombro enquanto dão um passo rumo a coisa nenhuma: “É uma ressonância que corresponde à minha versão, e pressinto aquela energia desta magia, deste ser, desta consciência, que nos leva a alcançar os céus e a descer cá abaixo.” “E assim em cima como em baixo…” e que associa o que virá a ser ao que já tiver sido, e trabalham essa incrível magia, esse alcance de energia. E é como esse homem, por causa da época, fosse… e por isso o mágico assume… Isso é uma interpretação. Não é literal, ouçam cá. É uma energia arquetípica – a forma sem forma de um louco representa alguém com um pau sobre o ombro, com um saco enfiado na ponta, e um cão, a andar pelas colinas e a cair de um penhasco, a esse respeito.


Não é que o arquétipo do Mago use essas vestes compridas, e permaneça o tempo todo na posição de pé, etc., enquanto as pessoas se aproximam (riso). Trata-se de uma ressonância, de uma energia destituída de forma a que alguém terá tentado dar forma com as ferramentas que tinha ao dispor. Assim é com o Mundo Novo, ou melhor, com a evolução da consciência. As pessoas procuram obter uma versão do que virá a ser o novo tipo de ser humano: “Pelos céus, que quererá isso dizer? Deve querer dizer que o seu ADN é diferente; deve querer dizer que terá cromossomas extras; deve querer dizer que terá um sistema nervoso biológico e químico diferente; deve querer dizer que apresente diferenças visíveis, tangíveis, concretas.” Mas nós gostaríamos de sugerir que não, que não é com isso que se irá parecer, que não se vai parecer… como dizê-lo? Como nos anos cinquenta, quando as pessoas procuravam o aspecto do ser humano futuro, com uma cabeça gigantesca, umas pernas de tubo limpas deste tipo, por se sentar em volta e pensar, com aquele cérebro enorme. Existiam imagens desse tipo que se pareciam mais com extraterrestres do que com outra coisa.


Não, aqui vos encontrais, e as vossas formas corporais são muito similares, um pouco mais altos porventura, mas muito parecidos. E assim, o que acontece aqui, quando alguém vislumbra o Mundo Novo e depois tenta trazer isso de volta e colocá-lo numa linha recta e nos termos que empregais na vossa língua que é tanto linear quanto limitada, e tenta descortinar o que seja novo. E perceber que os arquétipos são forma destituída de forma – termos contraditórios, mas ainda assim uma avaliação mais exacta; mais exacta mas não tão exacta quanto isso. A consciência evoluída não vai ser muito diferente biologicamente a esse respeito: mais cromossomas e químicas diferentes, sistemas nervosos diferentes, etc. Mas nesse sentido, é uma função que está a mudar, uma função que está a mudar e que se reflectirá na forma de uma maneira muito subtil. E assim, com o Mundo Novo, conforme muitas vezes dissemos, não é com se, os cabeçalhos do New York Times, ou do Washington Post venham a anunciar: “Eis aqui o Mundo Novo.” Não é como se os actos do mundo que têm subitamente venham a ser derrubados e o Novo os venha substituir. Não é como se venham a acordar numa bela manhã, e: “Ah meu Deus, este é um mundo inteiramente diferente!” Não é nada assim.


E tu tens razão, por num certo sentido metafórico, de facto, as Américas, norte e sul, representaram o novo mundo, certamente. E nesse sentido, com o desenvolvimento da exploração dos limites e o alcance das margens da realidade, que em certa época eram representadas pelo rio Mississípi nos Estados Unidos e na área Norte Americana; espreitar além dessas margens e ver o que existia lá. Essa é uma metáfora maravilhosa e tudo o mais, que aconteceu com as Américas e se deu de uma forma manifesta, por causa do Espírito que é verdadeiramente chamado de Espírito da América. E sabemos que as pessoas falam disso, e muitas vezes americanos, e que isso soa um tanto egocêntrico, mas realmente há um Espírito da América único e característico, embora os americanos nesse sentido tenham a mesma biologia e os mesmos cromossomas. Existe um espírito diferente, uma função diferente que tem que ver com o que é o Espírito Americano. E existe uma Alma Americana e um Espírito da América. E a América, Estados Unidos, conforme lhe chamais, mas a América passou por o período em que recebeu o nome e pelo seu período de poder, e pelo período da juventude eterna, e foi ferida também, e ainda nos seus anos sombrios, ainda nos anos sombrios, com base no ferimento – a guerra civil – há cento e cinquenta anos atrás, o que parece um período sombrio terrivelmente longo, mas que representam os anos sombrios, certamente.


Mas gostaríamos de sugerir que com esse amadurecimento, essa guerra, esse ferimento que rasgou, essa ferida em que a Alma e o Espírito da América sangrou, e derramou o próprio sangue, na única guerra que teve na sua história em que derramou o próprio sangue. E ao entrar nessa sombra, no matadouro para se descobrir a si mesmo. Para se descobrir a si mesmo! E ainda está lá, entendem, não se trata só de uma vida de setenta anos, ainda está nesses anos sombrios em que a América está a descobrir quem é. E nós sugerimos que nos últimos anos perdeu isso de vista, e com o advento da guerra, por exemplo, e com o final da “guerra fria” em que o excesso de confiança da América enquanto a nação suprema do mundo lhe subiu à cabeça, como bem poderá ser dito, e mesmo agora ao cair em si e ao compreender e ao descobrir-se ainda a si mesma, ao descobrir o papel que lhe cabe, ao descobrir o seu destino, como quem diz – ainda os anos sombra – mas gostaríamos de sugerir que haverá um “tempo dos diabos”, quando a América verdadeiramente olhar para si mesma, e através da Alma Americana e do Espírito Americano as pessoas olharem para si mesmas, e isso não será um tempo crítico e maravilhoso, o período de tempo mais entusiasmante da história do género humano? Não é uma hipérbole, na verdade é uma subavaliação do que está a suceder aqui. Mas nós falamos disso nos anos noventa, entendem? Como a década mais monumental da história do género humano, por nessa década terem tomado uma decisão, uma decisão acerca da natureza do futuro; não se viria a haver um futuro ou não, por isso já ter sido decidido, mas a natureza desse futuro, que tipo de futuro compreenderia, se viria a ser um futuro de visões e de sonhos, se viria a ser um futuro de magia e de milagres, e na verdade, a decisão tomada foi no sentido de vir a ser isso, sim.


Na verdade o ponto pivô, ou o ponto de viragem, conforme usais no vosso vernáculo moderno, o ponto de viragem disso surgiu em 1997, quando tomaram essa decisão (bate bruscamente palmas uma vez a enfatizar) ao experimentarem ao longo dos anos do despertar e ao tomarem essa decisão no oitavo ano, em 1997 dessa particular década, uma vez passado o processo do despertar, a firme decisão, empenho. Que viria a haver um futuro já tinha sido decidido, mas esse futuro virá a ser um futuro positivo, um futuro virgem, em ultima análise, um futuro intocado pelas mãos humanas, e que esse futuro virá a ser um Mundo Novo. E gostaríamos aqui de sugerir com respeito a isso, que ao chegarem aqui doze anos mais tarde, uma oitava cromática mais tarde, conforme dissemos (NT: Escala cromática é a escala de doze tons) e o que fizerdes neste ano, ou mais correctamente, aquele em que vos tonardes neste ano será essencial nesse processo de decisão.


Em termos do aspecto que esse Mundo Novo virá a ter, não parece manifestamente diferente de uma forma cromática, no sentido da forma que venha a ter; não é que venham a ter uma nova forma de governo em que eliminem a legislação ou a administração; não vai surgir pelo aparecimento de um novo sistema monetário nem de uma moeda mundial nem de um governo mundial nem desse tipo de coisas, nem com a remoção das fronteiras nem com a dissolução da soberania, todo esse tipo de especulação que as pessoas fazem, que por vezes é basicamente ingénua, e outras vezes tentativas genuínas de ir até ao horizonte e de olhar para além do horizonte e de obter esse sentido de visão, no sentido de o tentarem ajustar à forma – que é linear – e desse modo criar uma versão, que na melhor das hipóteses representa uma metáfora, um símbolo, mas incorrecta quanto à exactidão e literalidade.


Com respeito a isso, e num certo sentido, o que se considera é um Mundo Novo, e o que sugerimos desse mundo que está a tornar-se novo, talvez das evidências mais óbvias disso passa – e temos que ter cuidado com as palavras que utilizamos aqui - por um despertar da consciência, em que a consciência será valorizada. Durante a era agrária que o vosso mundo atravessou, há milhares de anos atrás e durante um período de vários milhares de anos, a propriedade, o gado, os animais, o milho, o trigo, isso era o que tinha valor; o valor do que valorizavam era medido pelas coisas que possuíam, pela terra, pelos produtos, pelo número de cabeças de gado, o número de galinhas e o volume de ovos que a vossa quinta produzia, a quantidade de leite que obtinham. Nessa época agrária, o valor, a rentabilidade, era medida pelas coisas que possuíam. E houve uma altura em que na verdade as evidências sociais, em que um homem tomava uma esposa que passava a ser propriedade sua, a quem dava o seu nome, e ela trazia um dote, o que a tonava mais interessante e valiosa, e ela tinha os filhos dele, e tudo o mais: a propriedade, o gado, um bem imóvel, conforme viria a ser chamado, os bens imóveis constituíam a medida da rentabilidade, a medida do valor. Quando a era industrial surgiu, há muitas centenas de anos, isso mudou. A terra era valorizada, mas o que vós produzíeis, os dispositivos, conforme vieram a ser chamados, o produto, a vossa produtividade, o vosso valor, o mérito, a rentabilidade eram medidos pelo que produzíeis, e pela quantidade dessa energia particular.


Consequentemente, surgiu o acondicionamento, o embalamento do produto; as pessoas tornaram-se num produto nos termos em que num período de tempo novamente as mulheres se tornaram num produto mais provável que o homem, por, o homem, de uma forma chauvinista, se ter posto à margem da competição, e era suposto que as mulheres tivessem peitos grandes, com silhueta de ampulheta, um belo par de pernas, era suposto terem assim um aspecto, mas depois isso mudou e subitamente esperava-se que se parecessem muito com os rapazes, e tivessem muito pouco peito, umas ancas estreitas, demasiado esguias, e muitas mulheres com peito grande pensaram duas vezes em se livrarem do peito que tinham, etc. E depois isso mudou e altera-se, mas o acondicionamento da pessoa, o facto das pessoas a acondicionarem-se a si mesmas com uma educação correcta, e com antecedentes adequados, e um conjunto de amigos apropriados, os carros e casas adequados, a fim de apresentarem uma embalagem daquilo que são.


Durante a era industrial, por exemplo, a rentabilidade era avaliada pelo produto que apresentavam ou pelo produto que tinham; não eram valorizados pela quinta enorme que tivessem, mas valorizados pelo produto que apresentavam. Ao saírem dela, durante os anos noventa e o começo dos anos 2000, e ainda em anos por diante, a informação constitui a produtividade, agora na era da informação, em que a rentabilidade é medida pela quantidade de informação que controlam ou que podem dispensar. Aquilo para que estais a avançar, no sentido do Mundo Novo, a rentabilidade, se quisermos usar o termo, o valor, basear-se-á na consciência. Virá a ser, tal como durante na era industrial, não é como se as terras agrícolas e a produtividade de repente perdessem todo o valor, não é assim; não era linear, mas uma expansão, pelo que nesse sentido a terra ainda terá valor, o produto ainda terá valor, a informação ainda terá valor, mas a consciência que está a surgir e a emergir, tornar-se-á valorizada.


As companhias e as pessoas descobrirão a rentabilidade, descobrirão o êxito, na medida em que conseguirem trabalhar, não de abusar mas de explorarem e de expandirem a consciência, a espiritualidade – não a religião – adquirirá um enorme sentido de valor. E quando mencionamos isso, não querermos dizer que as pessoas venham necessariamente a adorar ou a falar de Deus ou da Deusa de uma forma manifesta, mas procurarem o significado da espiritualidade – por se tratar de um relacionamento que se torna numa parceria com Deus, com a Deusa, mas de uma forma mais tangível, com Tudo O Que Existe. Ao lidardes com o verdejar de um mundo, tratais de questões do foro ecológico, quer se trate de climatologia ou do ambiente – o que equivale ao desenvolvimento de um relacionamento que se pode tornar numa parceria com o ambiente – tornar-se parceiros dos elementos, parceiros da terra, parceiros do Tudo Quanto Existe da natureza- isso é espiritualidade. Honrar as vossas tradições, não o passado, mas a tradição, as gemas que se encontram nas dobras nesse passado, buscar o passado, não para o relembrar, mas no sentido de recordarem a tradição. E honrar essa tradição, ser mudado por ela, tornar-se mais por causa dela. Isso é espiritualidade. 


Adicionar um toque de amor, intimidade e de carinho onde quer que possais e no que quer que façais. Isso é espiritualidade. E as pessoas e as empresas, as indústrias, seja o que for que queirais chamar-lhes, isso pode trazer um toque de amor, um toque de intimidade, um toque de carinho ao que fazem e àqueles para quem o fazem. Esses são os que irão obter êxito, e a rentabilidade, se quisermos, o valor da consciência e da espiritualidade. Buscar uma maior liberdade representa tudo quanto a espiritualidade envolve. Buscar a dignidade, o carácter, a vitalidade e a visão, uma parceria convosco próprios, um relacionamento e uma parceria convosco próprios, valorização pessoal – tudo isso traduz a espiritualidade. Não é religião, nem sequer chega a ser um debate consciente sobre Deus nem sobre a Deusa. São todas essas coisas, e tomar consciência da espiritualidade. Valorizar a consciência.


A era agrária, a era industrial, a era da informação, o Mundo Novo pode muito bem ser chamado de era da consciência, em que a consciência é a chave da produtividade e da rentabilidade e o valor, para o colocar nesses termos monetários, mas isso é apenas o começo dele; não envolve tudo quanto traduz. Num certo sentido constitui o prenúncio, a mola, o chamado dos tordos, os primeiros rebentos, a era da consciência em que de facto as pessoas e as empresas começarão a valorizar e a erguer esse nível de consciência em que a consciência será infundida, incorporada em muitos mais componentes e expressões da forma que parece tão familiar, e isso num mundo que se torna novo.


O que isso também comporta, é que a magia se tornará num componente muito mais vívido no viver da vida. Provavelmente não será chamada de magia, por o mundo ainda encarar a magia com coelhos a sair da cartola, desempenhos de palco, ou como um tipo esquisito de bruxaria ou algo do género, algo obscuro, e magia negra, e tudo isso. Faz pensar na Buffy e nesse tipo de coisa. (Riso) De modo que o provável é que não venha a ser chamado de magia, mas quando olhardes isso no sentido dos componentes, representará coisas que acontecem de uma forma crescente e de forma milagrosa.