domingo, 6 de julho de 2014

MERECIMENTO E ESFORÇO (DAR, RECEBER, SER)




Transcrição e tradução: Amadeu António

Com tanto que está a acontecer, a nível nacional e internacional, para alguns tornar-se-á fácil esquecer ou evitar o que virá a ocorrer aqui. Com todas as exigências que estão a ser feitas, irá tornar-se tentador para alguns, adiar ou ignorar por completo todas as exigências que serão feitas aqui. Com todo o ruído e todo o frenesi irá tornar-se mais fácil deixar-se apanhar e de seguida consumir-se com a luta. É por isso que iniciamos esta jornada pela exploração do que excede a luta e se situa no campo da magia de se ser suficientemente bom.

Por entre as muitas coisas que irão ocorrer por aqui e por entre as muitas coisas que irão tornar-se parte do vosso processo pessoal, uma das mais subtis, e porventura mesmo mais insidiosas, é a de que a vossa mente inconsciente irá encontrar caminho, e de seguida melhorar esse caminho, para o vosso mundo consciente de uma forma mais forçosa e mais manifesta do que nunca. O que reside no vosso inconsciente irá parecer realçar-se, irá mais ou menos fazer-se presente como que de repente, e irá começar a manifestar-se na vossa realidade consciente, na vossa vida do dia-a-dia. Cada vez mais o vosso mundo inconsciente irá encontrar modo e melhorar esse modo, de uma forma mais forçosa e comprovadamente na vossa realidade pessoal.

Ora bem, esta afirmação, este fenómeno que sempre ocorreu mas que ocorrerá de uma forma mais manifesta e de uma forma mais poderosa, é igualmente um fenómeno que será ignorado por uns e encoberto por outros; alguns poderão tomar nota de: “Ocorrência de um surgimento mais acentuado do inconsciente no vosso mundo – o seguinte!” (Riso) E irá ser ignorado e encoberto por outros que alinhem pelo consensual, e mesmo que se permitam escutar o termo, o conceito, ignorá-lo-ão por ser simplesmente demasiado esotérico, simplesmente demasiado metafísico. Mais prontamente estariam a crer em invasões provenientes do espaço exterior do que em aberturas produzidas no espeço interior. Mas ainda para outros no âmbito do senso comum, nem sequer acreditam na existência de uma mente inconsciente: “Está bem, está bem, existirá um subconsciente, mas isso de inconsciente simplesmente não existe, e por isso o próprio conceito não precisa ser investigado, mas poderá ser ignorado e disfarçado.”

Mas mesmo dentro ou fora do senso comum, para muitos, esta ideia de que o inconsciente se venha a abrir e derramar-se ou escoar-se ou verter ou a inundar a vossa realidade e a abrir caminho no vosso mundo, soa demasiado nebuloso, demasiado incrédulo, as pessoas não compreendem o significado disso, e parecerá mais: “Como é que tu sabes disso?” E por isso fácil se tornará de ignorar ou de disfarçar. Decerto que não quererá dizer que de súbito e num belo dia, como um balde que tomba, tudo que se encontre no vosso inconsciente se venha a derramar para a vossa realidade, claro que não quer dizer nada disso. Irá escoar-se e no caso de alguns irá infiltrar-se, e para outros parecerá como uma inundação provocada pela quebra de uma barragem, mas pedaços, partes, aspectos desse inconsciente irão de súbito avançar – não tudo de uma vez, mas ao  longo dos próximos meses.

O que significa é que os vossos medos secretos – que constituem os vossos piores receios – poderão tornar-se receios de verdade. O que pode querer dizer é que os aspectos negados do Eu, as faces perdidas da alma, as faces perdidas do ser poderão emergir e criar todo o género de crises e conflitos internos e externos. Também pode querer dizer que os vossos sonhos secretos – que são os vossos melhores sonhos – se podem tornar numa realidade. E que o vosso ser real poderá igualmente emergir e com isso criar todo o género de magia e de milagres internos e externos. Mas o que realmente quer dizer, para além de toda a conjectura, é que cada vez mais, aquilo que pensam que merecem – não o que dizem merecer nem o que desejariam merecer, nem o que esperariam merecer – o que pensam genuinamente merecer, irá manifestar-se na vossa realidade. Cada vez mais aquilo em que se concentrarem – não aquilo em que gostariam de se focar ou de prestar mais atenção – aquilo em que realmente se focarem irá manifestar-se na vossa realidade. Cada vez mais, durante este período, aquilo que pensarem autenticamente merecer e aquilo em que se concentrarem irá manifestar-se no vosso mundo.

Bom, essa é uma ideia fecunda de significado. (Riso) Pode sobrevir por vários modos e por diferentes formas e por diferentes graus, dependendo que quem sejam. Mas uma coisa que é comum, independentemente de quem sejam ou dos modos ou das formas ou dos graus, uma coisa que é comum a todos – dentro e fora do senso comum – uma coisa comum a todos é o que pensam que merecem e aquilo em que se concentram – na luta! Sim, na luta!

Sabem bem, e já experimentaram que para muita gente a luta se encontra enraizada em crenças perfeitamente arraigadas que são tanto cultivadas como nobilizadas numa sociedade e num mundo chauvinista, baseada e alicerçada na comparação e na competição; no ganhar e no fazer. Por nesse paradigma da competição e do fazer ter que existir luta, não percebem? Como saberão que chegam a ganhar alguma coisa? De que forma chegarão a ter consciência de ter feito alguma coisa? Se valer a pena fazer valerá a pena esforçarem-se por isso; se valer a pena possuir valerá a pena lutar por isso. Como conseguirão competir e ganhar aos demais sem suor e sem luta? Precisam de lutar. E vocês sabem que para muita boa gente a luta deve estar enraizada nessas crenças básicas, nesse sistema baseado nessa competição e nessa actuação.

Também compreendem que para muitos a luta é parte integrante dos bloqueios e das compensações, dos contractos – têm conhecimento desses contractos psíquicos de dor – e que fazem parte integrante de guiões negativos que tantos vivem diariamente nas suas vidas. Para muitos a luta constitui um componente agressivo da própria química e da própria mecânica, a luta encontra-se arrigada no vosso mundo, de modo que para muito boa gente, pensar sequer em ir além da luta apresenta-se coisa impossível; e para outros tantos revela-se indesejável, uma ideia repugnante. Mas se assim é para tanta gente, como será para vós? Como será para vós que estais tão empenhados na vossa metafísica e na vossa espiritualidade? Será a luta assim tão importante para vós? Não, não é assim tão importante para vós. Vós crescestes, mudastes e trabalhastes com o esforço, e mitigaram, reduziram aquilo que de outro modo a luta poderia ter representado. Não, não é importante para vós, mas ainda faz parte de vós, por a luta constituir um produto natural e sempre presente, um produto natural e sempre presente do pensamento de que não merecem e do sentimento de não serem suficientemente bons.

Já melhoraram bloqueios e compensações e já ultrapassaram muitas delas, entendem, e reduziram-nas a ponto de poderem deslizar por cima delas com brio. Já melhoraram contractos rompendo alguns e separando e fendendo e sanando outros. Já chegaram a rasgar muitos contractos e guiões de carácter negativo, e chegaram a mudar, já conseguiram mudar a maneira de crer, e alteraram a vossa própria química. E vós mudastes o que teria sido uma luta. Mas porque não sabereis ou não podereis saber que mereceis, por não sentirem ou conseguirem sentir ser suficientemente bons, não obstante o trabalho que tiverem feito, a luta persiste e ainda se revela tentadora. Por constituir um produto, um produto natural e sempre presente dessa falta de merecimento. Assim, independentemente do quão longe chegarem na limpeza de bloqueios e de compensações, contractos e guiões, e na alteração da química e das crenças, por mais que pretendam ir além da luta, por não virem a saber ou não conseguirem alcançar a noção de que merecem, por não conseguirem ou não virem a sentir ser suficientemente bons, essa luta permanece. Não a mesma que permaneceria com os contractos e com os guiões, com os bloqueios e as compensações, mas ainda permanece.

Algures bem fundo dentro de vós, tomaram a decisão, mas não merecem, simplesmente por não serem suficientemente bons. Isto não é novo. Já falamos muitas vezes sobre isto; vós já o dissestes a vós próprios muitas mais vezes. E muito mais severamente, podíamos acrescentar, do que nós alguma vez o teremos feito. Não, não é novo. Mas não obstante o trabalho conseguido, a decisão, “Eu não mereço,” permanece à semelhança de uma barreira invisível pronta a fazer-vos uma emboscada, pronta a atacar, castigar e destruir, pronta a sabotar os próprios êxitos que operais de forma tão paciente e que criais de forma tão consistente. Pronta a sabotar os próprios sucessos por que tanto lutais por erguer. A decisão de não merecerem e de não serem suficientemente bons. E essa decisão de não merecimento pode desfazer os sucessos que criam. Vós já vistes isso suceder, já o experimentastes não obstante todo o processo e programação, não obstante toda a atitude e imagem que tenham assumido, já criastes magníficos sucessos a que vos agarrastes apenas para descobrir que aparentemente se derreteram e desintegraram e vos deslizaram pelos dedos à medida que os viam dissipar-se. Por não pensarem merece-los, por não pensarem ser bons o suficiente para os manter. As próprias conquistas e realizações podem ser desfeitas por uma decisão dessas. Na verdade sucessos que logicamente deveriam progredir, pode ser travados na sua esteira. Poderão não lhes ser tirados, mas poderão deter-se quanto a muito mais; a dinâmica cessou, por causa dessa decisão e desse sentimento. E se não os desfizer, nem os deter, pode neutralizar os próprios êxitos que tiverem construído, que à semelhança de uma picada de um alfinete pode deixar escapar o ar, e poderão ver os êxitos maravilhosos obtidos murchar. E poderão sentir-se não realizados, insatisfeitos e impotentes. 

Quantas vezes não se terão indagado com o que terá que ver verdadeiramente a vida com o fazer mais coisas, o acumular, o criar, o adquirir mais êxitos, trabalhar duramente para ganhar mais, para depois procurarem actividades recreativas para tornar todo esse trabalho árduo compensador, para depois precisarem trabalhar arduamente para pagar toda essa recreação: “Será que é só isso? Será somente mais um negócio, mais um êxito, mais uma conquista, mais uma coisa, mais um brinquedo?” Mas fazem a pergunta retoricamente, por saberem que não é, mas sentindo essa falta de realização, essa impotência. E é isso que a decisão, essa barreira invisível do: “Não mereço, por não ser suficientemente bom,” produz. Neutraliza os êxitos a que se agarrarem, e pode enchê-los de todo o tipo de culpa e de ansiedade, dúvida, preocupação, confusão. Podem estar a avançar de uma forma fantástica e ser atingidos pela culpa: “Será que está certo que eu seja assim feliz, gozar de tanta fartura e por estar a ir tão bem, quando olho ao redor e reparo nas pessoas? Estarei a endereçar-me na direcção certa? Será isto que deveria estar a fazer? Deveria estar a fazer outra coisa? Ah, estou tão confuso, tão preocupado!” E é isso que a decisão pode causar.


E o medo, o medo que produz pode paralisá-los, pode estagná-los, pode sugá-los de volta para a podridão do passado. E assim como desfazer os êxitos, pode aumentar os fracassos, e elevá-los à condição de fracassos monstruosos. E essa decisão que prevalece, independentemente do trabalho que tiverem feito, impede-os de dar, de receber e de ser. Ah, com certeza que podem pegar coisas aqui e transferi-las para acolá, podem percorrer os passos da dádiva, sem sombra de dúvida, e transferir coisas dacolá para aqui, e percorrer os passos do receber, mas essa decisão peremptória de não merecerem e de não serem suficientemente bons impede-os de chegar realmente a dar, a receber e a ser.


E é por isso que nesta altura, com tanto ruído que produzido e tanto frenesi, com tanto que está a ocorrer por aí que é tão importante que a resposta a esse ruído e a esse frenesi passe por esse genuíno dar e receber, o que, enquanto se sentirem não merecedores se torna, senão impossível, excessivamente difícil. Enquanto tal decisão permanecer, haverão de se debater com o dar e com o receber e muito mais com o ser. Vós conheceis essas coisas; vós experimentastes essas coisas, todavia a decisão mantém-se, e a decisão persiste.

Muito bem, então que haverão de fazer? Como haverão de lidar com isso, como resolverão esse problema? Bom, uma opção é voltarem ao estirador, não é? Arregaçar as mangas, voltar à prancheta e começar de novo: “Eu tenho uma criança, uma criança interior, e vou compreender essa criança, vou acarinhá-la segurá-la nos meus braços... E tenho um adolescente, e tenho isto e tenho aquilo... Vamos voltar à prancheta, vamos lá ver, primeiro nasci...” (Riso) Bom, se nunca se chegaram até à prancheta é um bom local para ir, sem sombra de dúvida, (a rir) absolutamente! (Riso) Mas vós, em grande parte, já recorrestes a essa prancheta quanto baste; uma e outra e outra vez, a triar, a peneirar, a desfiar cada um dos dias do vosso passado. Bem sabemos que alguns adoram ir à prancheta, não é? Adoram peneirar isso: “Deixa-me voltar uma vez mais a isso.” Parte da irrisão, parte da maneira de evitarem o que realmente precisam fazer.


Não. Não voltem ao estirador; poderão peneirar esse passado, mas não irão descobrir nenhuma coisa nova assim tão expressiva. Ah, claro que poderão descobrir e quererão ser capazes de descobrir uma certa introspecção ou discernimento, um certo fio de verdade, uma Gestalt. Sim, descobrirão novas formas de compreensão e coisas desse tipo mas nenhum pedaço que valha a pena, nenhuma coisa porque realmente não cheguem a ser merecedores, que possam corrigir e fica tudo acabado. Já fizeram isso! Já descobriram os nacos maiores, entendem? Não irão descobrir nenhumas oportunidades excelentes por ele não conter nenhum buraco. Por isso não recomendamos que voltem à prancheta.

Uma outra opção, muitos de vós cultivaram algumas técnicas junto de nós, outros noutros locais, para lidarem com esse sentimento da falta de merecimento. E essas técnicas resultam, absolutamente. E no vosso caso terão resultado, temporariamente, mas resultaram. Já se viram na situação em que sentiam ser completamente não merecedores e em que nada corria de feição, e empregaram uma técnica ou duas, terão feito algum processamento e - Bang - ergueram a capa, criaram, êxitos espantosos e - Zás – a cortina voltou a fechar-se de novo. Mas resultou temporariamente. Talvez o que devessem fazer fosse voltarem a alistar todas as possíveis técnicas que tenham alguma coisa que ver com o merecimento. E extirpar: “Esta não resultou, e esta também não; mas esta resultou, e esta também; vou pegar nessas cinco ou seis ou oito ou dez técnicas e pô-las em prática na perfeição desta vez. Vou dar no duro, e talvez esforçar-me mais, a fim de fazer com que essa técnica resulte desta vez.” (Riso) 

Bom, uma vez mais, não recomendamos tal coisa! Em parte devido a que as técnicas que tenham descoberto que resultam no vosso caso, por entre a multiplicidade de técnicas ao dispor, alguma resultará para vós, outra para vós, outra para vós, por serem diferentes uns dos outros e singulares, mas essas técnicas produziram quanto baste o tipo de resultados que irão produzir. Não que não sejam bem-vindas, não, por ainda serem válidas, ainda são úteis.

O que queremos dizer é o seguinte: Se olharem para essa questão do merecimento ao longo de um contínuo que tenha início aqui (...) neste lado da linha. Uma técnica particular que possam utilizar poderá remover uma certa quantidade disso ao reduzir o grau, a intensidade com que se sentem não ser merecedores. A utilização repetida dessa técnica poderá reduzir, raspar uma lasca do caminho. Mas depois uma outra técnica poderá reduzir um pedaço maior, e revelar um progresso imenso. A repetição disso poderá reduzir um tanto mais, e quando deslizarem para trás outra técnica poderá... poderão arranjar maneira de irem cortando esse problema, mas alcançarão um certo ponto em que tais técnicas apenas os levarão a determinado ponto; e de pois aquele bocado final, aquela parte invisível, aquela barreira invisível que está pronta para emboscá-los e pronta para atacá-los e castigá-los e destruí-los, prontos para os sabotar – essa parte parecerá impenetrável.

Mas certamente que quando esse problema do merecimento volta a invadir, as técnicas que já conhecem poderão ajudar a afastar isso, para criar um certo envoltório, uma certa abertura ou janela. Mas depois há a parte invisível que essas técnicas terão sido necessariamente importantes na altura, mas que agora não lhe conseguem chegar.

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