sexta-feira, 6 de junho de 2014

O LIVRO DO EQUILÍBRIO E DA HARMONIA






APRESENTAÇÃO


(da autoria de Thomas Cleary)


O livro do Equilíbrio e da Harmonia consiste numa antologia famosa de escritos redigida por um mestre Taoista do século XIII da Escola Taoista da Completa Realidade, um movimento iniciado há mil anos atrás para restaurar os princípios e as práticas originais do Taoismo. Esta colecção, compilada por um dos discípulos do mestre e ainda em vigor na Ásia oriental fornece um compêndio invulgar dos ensinamentos do taoismo da Completa Realidade, incluindo a base teórica e pratica que tem no Taoismo clássico. 


O Taoismo é muito difícil de definir. Não só no objecto da sua atenção que por natureza é indefinível, mas o seu modo de expressão varia tanto que não chega a existir uma estrutura que abranja todas as manifestações de pensamento e de acção comummente referidas sob a designação de taoismo. Uma unidade conforme a que encontramos no Taoismo é tida em conta pelos Taoistas como uma coerência mais interna do que externa, uma fonte comum de inspiração e de conhecimento que se expressa por uma multiplicidade de vias, de acordo com as circunstâncias em que opera.


A esse respeito – da ideia da unidade interna a despeito da diversidade externa – o Taoismo assemelha-se ao Budismo e ao Sufismo, ambas as quais partilham outros pontos de similaridade. À semelhança do Budismo e do Sufismo, o Taoismo produziu gigantes virtualmente em todo o campo do empreendimento humano e reivindica um conhecimento prático dos segredos mais profundos da mente e da matéria. Se alguma coisa, a passagem do tempo e a aquisição de conhecimento por via da ciência material consubstanciaram essa reivindicação de um conhecimento superior, mesmo que não tenham descoberto o ponto mais importante: os meios por meio dos quais esse conhecimento foi adquirido pelos cientistas místicos dos tempos antigos.


A ideia generalizada do Tao constitui o conceito mais fundamental e difundido no pensamento Chinês, e como tal presta-se a um uso quase em qualquer contexto. De acordo com o Huainantzu, um dos mais conhecidos clássicos do Taoismo, o Tao é aquilo “por virtude do que as montanhas são elevadas e por que os mares são profundos, e os animais correm e os pássaros voam.” Em resumo, o Tao é a lei geral e específica do universo. Tudo tem o seu Tao e todo o Tao constitui um reflexo do Grande Tao, do Tao universal que subjaz em todas as coisas. Tão abrangente é o significado do Tao que Confúcio, o grande pedagogo, era capaz de afirmar da inconcebível realização que a sua compreensão trás, “Escutai-o pela manhã e bem que podereis morrer nessa noite.”


Contudo, seria simplificar demais dizer que a totalidade da desconcertante variedade das formas históricas do Taoismo representem uma unidade oculta, ou que tudo quanto comummente foi classificado sob a ampla rubrica do Taoismo partilhe dessa unidade. Seria igualmente impreciso representar todas as formas do Taoismo como parte de um todo, tal como o seria representá-lo como uma profusão de cultos individuais. Existem várias razões para a diversidade no Taoismo: respostas históricas a diferentes situações sociais e culturais, a especialização em ramos particulares nas artes e ciências Taoistas, e a encapsulação de empresas derivadas baseadas na obsessão por técnicas específicas.


Uma das tarefas adoptadas pelo movimento da Completa Realidade foi a distinguir a origem das consequências naturais e estabelecer uma base prática ara a compreensão e o reviver da essência do Taoismo. Do ponto de vista dessa óptica os adeptos da Completa Realidade foram capazes de desvendar o sítio e a função de todas as diferentes qualidades do Taoismo autêntico e espúrio, ao revelarem os funcionamentos internos do Taoismo com uma clareza sem precedentes e ao reestabelecerem a experiência alcançada na vinculação de todas as pessoas esclarecidas de todos os tempos.


De forma irónica, uma das descrições mais compreensíveis do Taoismo conforme foi compreendido nos círculos avançados Taoistas podem ser encontrados num texto Budista, o Avatamsaka-sutra ou a Escritura da Ornamentação Floral, que é tida como contendo a totalidade de todas as religiões:


Os vários métodos e técnicas do iluminado adaptam-se às condições mundanas a fim de libertar as pessoas. O iluminado causa uma profunda fé ao se situar no mundo sem contudo se deixar afectar por ele, tal como o lótus cresce na água sem que a água lhe adira.

Dotado de extraordinárias ideias e profundo talento, como líderes culturais ou magos, o iluminado manifesta todas as várias artes e engenhos do mundo, como a cantiga e a dança e a conversação, tão admiradas pelas pessoas. Alguns tornam-se nobres, outros comerciantes, ou líderes de caravanas. Uns tornam-se médicos e cientistas, enquanto outros se tornam reis e funcionários.

A escritura Budista utiliza a mesma ideia para explicar uma das mais antigas associações do Taoismo, a da origem da própria civilização, alcançada por aqueles de elevado conhecimento por meio da consciência extradimensional: “Se virem apenas um mundo porvir, em que as pessoas ainda não gozem dos utensílios para o sustento, os esclarecidos tornam-se artesãos e ensinam-lhes as diversas aptidões.” A partir deste ponto de vista, a visão Taoista dos heróis da antiga cultura Chinesa enquanto adeptos esotéricos constitui mais do que um mito agradável. Na essência não é, conforme geralmente se pensa, u produto da civilização Chinesa. Ao invés, é ao contrário – a civilização Chinesa foi originalmente um produto do Taoismo no sentido de que à semelhança de todas as culturas bem-sucedidas, foi iniciado e guiado pelas pessoas que se achavam em contacto com o Tao da lei universal.


Por mais extravagante que esta ideia possa parecer ao homem moderno que concebe o homem ancestral como um primitivo semiconsciente que de algum modo se terá desenvolvido lentamente por trancos e barrancos em nações civilizadas, explica no entanto algo acerca da concentração do conhecimento a qual nenhuma narrativa histórica nem psicologia convencional poderão explicar. Também significa que a natureza fundamental e missão do Taoista não é Chinesa; uma vez mais, a Escritura da Ornamentação Floral diz: “A multifacetada bondade habita a realidade e não num país.”


O mais antigo herói da cultura Chinesa, um dos luminares do Taoismo sagrado, foi Fu Xi (Fu-Hsi), mais conhecido como o autor dos símbolos do cada vez mais popular Livro das Mutações (I-Ching). Crê-se ter sido um homem de conhecimento de época remota, Fu Xi é tido na conta de autor da criação de animais domésticos e dos símbolos da escrita. Os estudiosos modernos acreditam que os sinais do Livro das Mutações constituíam marcas em bruto pata a utilização na adivinhação, mas a tradição Taoista afirmava que um conhecimento especial tinha sido colocado nos sinais e extraído por civilizadores de eras posteriores da pré-história. É dito que Fu Xi terá obtido o conhecimento que tinha pelo estudo científico do fenómeno natural, divino, e humano, e pela tradição de incluir esses elementos como parte do currículo dos estudos superiores mantido desde então pelos Taoistas.


Pensa-se em Fu Xi como um dos primeiros três Augustos fundadores da civilização Chinesa. Após Fu Xi existiu Shennong, o Augusto que ensinou às pessoas a agricultura e a horticultura, enquanto a sua esposa ensinava o cultivo da seda (sericicultura). O terceiro desses seres Augustos foi Huang Di, popularmente chamado de Imperador Amarelo, que despertou por entre as gentes da diferente raça que terá entrado em contacto com os descendentes de Fu Xi e de Shennong.

O personagem Huang Di difere bastante do de Fu Xi e de Shennong, e ele desempenha uma parte mais alargada no saber Taoista. Antes de nos voltarmos para esta figura, contudo, há duas figuras femininas da remota antiguidade que deram um contributo monumental à civilização inicial Chinesa e que merecem uma menção especial, uma conhecida como Guonu e outra comummente conhecida como a Mãe de Ouro ou Rainha-mãe do Oeste.


Guonu é um personagem muito misterioso cuja enorme importância parece estar relacionada a um período de crise que acompanhou o término de uma antiquíssima migração. De acordo com a lenda, ela foi mais famosa por ter remediado sérias deslocações na composição psíquica do povo dela; dessa operação é referido ter emergido a ciência dos cinco elementos ou das cinco forças, sombras da qual impregnam a maior parte do pensamento Chinês. Supõe-se que Guonu tenha estabelecido a ideia de terra pátria e que tenha introduzido medidas defensivas contra a rapidez selvagem que terá emergido com o colapso da ordem intuitiva da mente humana.


Em contraste com Guonu enquanto figura da pré-história, crê-se que a Rainha-mãe do Oeste que terá vivido no passado histórico e que tenha existido no presente eterno. A Rainha-mãe do Oeste é por vezes considerada a primeira mulher dos tempos civilizados a alcançar uma consciência permanente, figurativamente representada como imortalidade. Ela permanece na posição principal no céu do Taoismo sagrado e tem a seu cargo todas as videntes femininas, tanto aquelas que abandonam o mundo como aquelas que nele permanecem. Crê-se que a própria Rainha-mãe tenha vivido nas Montanhas Kunlun, morada dos imortais vivos na Terra e repositório de lendas do conhecimento esotérico. Há muitas histórias de feitos da Rainha-mãe do Oeste e dos seus pupilos nos interstícios da história.


A figura de Huang Di, O Imperador Amarelo, permanece como um colosso na fronteira da pré-história. Ao contrário dos civilizadores iniciais, Huang Di é representado como tendo assumido a sua liderança política enquanto ainda na ignorância das leis superiores. A sua iluminação sucedeu não só através dos próprios esforços e divinas inspirações, mas através dos estudos que fez junto de outros mestres humanos. Por entre os mais famosos dos mestres de Huang Di havia a Mulher Original dos Nove Céus, que lhe terá ensinado as artes mágicas da guerra e o domínio das energias ocultas, que ele terá usado para subjugar tribos violentas; a Mulher Simples, que lhe terá ensinado a ciência da energética sexual; o Homem na Encruzilhada, que lhe terá ensinado acerca da medicina interna; e o Mestre do Desenvolvimento Ampliado, que lhe terá ensinado a arte da imortalidade.


Huang Di é de tal importância na tradição Taoista que por vezes o Taoismo leva o seu nome. A ele é atribuído um dos grandes textos Taoistas, porventura o primeiro a ter sido redigido, O Clássico da Convergência Yin. O mais antigo comentário existente no seu livro é tido na conta de ter sido redigido antes de 1100 AC, com muitos que lhe sucederam nos dois milénios seguintes.

Típico dos textos Taoistas, esse clássico possui interpretações amplamente modificadas, tanto de ordem marcial com cultural. É tido em elevada consideração por entre os Taoistas da tradição da Completa Realidade (que tipicamente lhe atribuem uma interpretação puramente espiritual) e é depositado na primeira ordem da literatura Taoista pelo fundador da Escola do Sul da Completa Realidade no seu próprio recente clássico Compreendendo a Realidade, que por sua vez constitui um dos livros de consulta do Livro do Equilíbrio e da Harmonia.


Existe uma panóplia de histórias importantes acerca do Imperador Amarelo na literatura popular Taoista – o clássico Lie Tzu, o Livro do Mestre Lie – o qual enfatiza a visão Taoista da política como uma arte inferior à do cultivo pessoal. O facto de ao longo da história os Taoistas terem assumido diversas posições com respeito aos assuntos da política – ora passivas ora agressivas ora indiferentes ora de envolvimento – não deveria obscurecer a crença central de que existe um certo equilíbrio entre as questões elevadas e as questões humildes que deveria ser mantido para uma óptima eficiência da experiência humana e que deveria ser restaurada quando perdida.


A importância do cultivo pessoal antes da presunção de liderança na sociedade é igualmente enfatizada no breve clássico Gaungchengzi (O Livro Do Mestre do Desenvolvimento Alargado) representado como os ensinamentos dados por esse iluminado ao Imperador Amarelo após quase duas décadas do seu governo terreno, mas da condição física, social e psicológica da sua pessoa e do seu reino se estarem a deteriorar anormalmente. Esse estabelecimento de prioridades serve pois de introdução à ciência da longevidade física e da imortalidade espiritual, sendo que a anterior resultava de práticas conducentes à última.


O ensinamento é colocado em termos consistentes com as práticas meditativas básicas ao longo do Taoismo e do Budismo: 


“A essência do Tao derradeiro é misteriosa e obscura; o mais próximo do Caminho supremo é escuro e silencioso. Sem olhar nem escutar, adopta o espírito a fim de te tranquilizares, e o corpo corrigir-se-á por si só. Permanece calmo, sê claro, não esforços o teu corpo, não perturbes a tua vitalidade, e poderás viver muito tempo. Quando os olhos nada vêem, e os ouvidos nada escutam, e a mente nada sabe, o teu espírito preservar-te-á o corpo, e o teu corpo viverá por muito tempo. Tem cuidado com o que se acha dentro de ti, fecha aquilo que se situa fora de ti; tornar-te intrometido destruir-te-á... Eu preservo a unidade, para desse modo participar na sua harmonia... Eu partilho as luzes do sol e da lua, eu partilho a eternidade de céu e terra.”


 Um comentário acerca do Guangchenzi feito pelo ilustre poeta, estadista e místico Su Shi faz nota a um outro texto antigo que o Mestre do Desenvolvimento Alargado, em que o mestre do Imperador Amarelo, terá dominado os hexagramas do I-Ching DIFICULDADE e ESCURIDÃO. Ambos esses hexagramas são tradicionalmente usados no Taoismo da Completa Realidade para representar a prática, mas a reivindicação de que esse adepto da antiguidade remota os tenha dominado ilustra uma outra ideia Taoista comum que não é partilhada pelos eruditos seculares – a ideia de que as completas elaborações dos hexagramas precedem os reis que redigiram as palavras no I-Ching, e de facto derivam dos sinais originais do próprio Fu Xi. Tal reivindicação é proferida, não com base nos registos arqueológicos nem históricos, mas com base nos próprios sinais.


Em todo o caso, não resta dúvida de que o I-Ching, o Livro das Mutações, tem sido considerado um texto básico pelos Taoistas desde os primórdios do tempo. Os Comentários iniciais de Confúcio foram a certa altura incorporados no texto que receberam do I-Ching, e os adeptos de Confúcio valorizaram-no pelas lições sociológicas e políticas que nele encontraram. Mesmo nos dias de hoje há quem acredite que o I-Ching seja um texto Confucionista em vez de um texto Taoista. Os Taoistas, todavia, consideram o Confucionismo prístino como uma ramificação do Taoismo e foram capazes de utilizar o I-Ching pelos seus ensinamentos interiores sem contradizerem o uso esotérico “Confuciano”.


Existem inúmeros programas para o uso Taoista do I-Ching que variam desde a “súbita iluminação”, a compreensão do singular processo “inexplorado” ou “despercebido” do “não-agir”, até ao da “iluminação gradual, compreendendo o texto inteiro como uma representação do total processo da “acção” ou do “fazer” ou da práxis estruturada. Por entre as contribuições mais distintas dadas pelo Taoismo esotérico ao aprendizado do I-Ching constitui as mandalas do I-Ching, um corpo de diagramas e de arcanos atribuídos aos metodologistas do Taoismo provenientes da dinastia Han (206AC-219DC), que se tornaram públicas durante a dinastia Song (960-1278). Diz-se que essas mandalas contêm tanto o conhecimento prático meditativo subjacente ao I-Ching e programas estruturados para a leitura do texto.


O texto redigido original do I-Ching, que articulava leituras dos antigos sinais de Fu Xi, é tradicionalmente atribuído ao Rei Wen e ao duque de Zhou, dois antigos líderes que fundaram a dinastia Zhou mesmo antes do começo do primeiro milénio depois de Cristo. A dinastia Zhou é notada pela transição que instaurou desde a economia da escravatura da anterior dinastia Shang (1766-1122AC) para uma economia feudal.


O barbarismo da dinastia Shang, caracterizado pelas superstições patrocinadas pelo estado, desumanização das categorias comuns e puro desejo pelas posses, representavam para o Taoista uma deterioração da condição humana típica das sociedades em que o mito tinha deposto a verdadeira ciência e a força material tinha substituído o poder espiritual. A mentalidade da dinastia Zhou, ao contrário, inaugurada pela revelação do significado do antigo saber do I-Ching, é mais humanista e aborda a natureza e o espírito com respeito ao invés de medo.

...

O TEXTO

1

A MENSAGEM ORIGINAL DA ESCOLA MÍSTICA


Quando permaneces calmo e estável e tens cuidadosa atenção, o plano celestial sempre resulta claro, e a abertura de consciência torna-se não obscurecida; então terás autonomia na acção e conseguirás estar à altura do que surgir.



O ABSOLUTO


O absoluto constitui movimento e quietude sem começo, yin e yang sem começo. Os Budistas chamam a isso Plena Consciência, os Taoistas chamam-lhe a pílula dourada e os Confucianos chamam-lhe o absoluto. O Buda chamava-lhe “talidade”, o “imutável”, “sempre claramente consciente”. O I-Ching diz ser o “tranquilo e imperturbável, e ainda assim sensível e eficaz”. Um texto alquímico chama a isso “Corpo e mente impassíveis, pelo que subsequentemente contém ainda um interminável potencial real”. Tudo isso se refere à raiz subtil do absoluto.


De modo que sabemos que aquilo que os três ensinamentos do Budismo, do Taoismo e do Confucianismo estimam é a calma estabilidade. É o que um mestre Confuciano disse estar baseado na tranquilidade. Quando a mente humana se encontra calma e estável, antes de ser afectada pelas coisas, acha-se imersa no plano celestial; essa é a subtileza do absoluto. Uma vez se veja afectada pelas coisas, então passa a existir a parcialidade; isso representa a mudança do absoluto.


Quando nos achamos calmos e estáveis e somos cuidadosos na atenção, o plano celestial sempre permanece claro, a abertura da consciência não é obscurecida; aí poderemos gozar de autonomia na acção e somos capazes de tratar do que quer que surja. Com a maturação da prática da estabilidade, atingimos espontaneamente essa verdadeira restauração do infinito, onde a função subtil rde resposta do absoluto é clara e o desígnio do universo e de todas as coisas se completa em nós.



EQUILÍBRIO E HARMONIA


Equilíbrio e harmonia são as quatro direcções centradas na realidade; na acção tudo alcança o equilíbrio.


O Registo dos Rituais reza assim: “Quando as emoções ainda não tiverem emergido, esse estado é chamado de equilíbrio; quando se encontram activas e ainda assim todas em proporção, isso chama-se harmonia.” Sem ainda terem emergido significa ser-se cuidadoso na atenção em meio à calma estabilidade; por isso é chamado de equilíbrio. Mantida na atenção mas ainda assim imaterial, é por isso chamado de raiz do mundo. A proporção na acção significa ser-se cuidadoso com o que é manifestado na acção; por isso é chamado de harmonia. Equilíbrio em todas as acções, é chamado a chegada do Caminho ao mundo.


Em verdade, se pudermos estar em equilíbrio e harmonia em nós próprios, então o ser que é fundamentalmente assim será claro e acautelado, desperto na quietude, preciso na acção; desse modo conseguiremos responder às intermináveis mudanças do mundo.

Lao-tzu dizia que: “Se as pessoas conseguirem ter clareza e viver com tranquilidade, o céu e a terra virão a elas.” Isso significa o mesmo que o dito: “Consegue o equilíbrio e a harmonia, e o céu e a terra revelar-se-ão no lugar, e miríades de seres crescerão.”


O equilíbrio e a harmonia são as funções subtis da eficiência sensível, as operações essenciais da resposta à mudança, a totalidade do cíclico movimento e repouso do fluxo da produção e do crescimento de que se fala no I-Ching.



CONSENTIR E SERVIR


Permitam que o corpo permaneça tranquilo, permitam que a mente permaneça clara, permitam que a sociedade se integre, e que os acontecimentos se deem de forma espontânea. Desse modo, corpo, mente, sociedade e acontecimentos, seguirão a ordem, o caminho, o tempo e o desígnio da natureza, ao responderem às pessoas, às coisas, às mudanças e às oportunidades.

Corpo, mente, sociedade e eventos são chamados as quatro condições. Todas as pessoas mundanas tornam isso num emaranhado de obrigações; somente aqueles que concedem permissão e obedecem são capazes de lidar com eles. Sempre a ocupar-se deles, contudo sempre calmos, não se enredam.


Que significa consentir? Significa permitir que o corpo se tranquilize e que a mente permaneça clara; permitir que a sociedade se integre e permitir que os eventos surjam espontaneamente. Que coisa será obedecer? Significa seguir a ordem da natureza, seguir o caminho natural, seguir o tempo da natureza, o desígnio da natureza.


Quando o corpo obedece à natureza, somos capazes de reagir às pessoas. Quando a mente segue o cominho natural, somos capazes de reagir às coisas. Quando a sociedade segue o tempo certo da natureza, torna-se consequentemente possível responder à mudança. Quando os eventos seguem o desígnio da natureza, torna-se, pois, possível responder às oportunidades.

Quando conseguimos consentir, dar sequência e por conseguinte responder, então permanecemos livres, temos clareza em meio às quatro condições. Aqueles que possuem um entendimento destes sempre preservam a capacidade de resposta e sempre permanecem calmos, claros e puros.



RADIANTES E ERRANTES


A mente radiante permanece sempre calma; na acção, responde a uma miríade de mudanças. Mesmo quando se acha activa, permanece sempre essencialmente calma.


A mente errante encontra-se sempre agitada; na quietude produz miríades de pensamentos. Mas mesmo quando se acha quieta, encontra-se basicamente sempre em estado de ardente agitação.

Desde sempre que se diz que se extingue a mente agitada; nunca a mente radiante. A mente que não se agita com a agitação é a mente radiante; a mente que não se detém é a mente errante.

A mente radiante é a mente do Tao; a mente errante é a mente humana. Quando se refere que a mente do Tao é vaga, isso quer dizer que é subtil e difícil de apreender. Quando se diz que amente humana corre perigo, significa que é insegura e inquieta.


Mas mesmo na mente humana impera o Tao; mesmo na mente do Tao se acha patente a mente humana. É uma questão de nos mantermos persistentemente centrados e equilibrados na actividade e na serenidade, de forma que a mente radiante sempre se ache presente e a mente errante não se agite. Assim, o que permanecia inseguro tornar-se-á pacífico, e o que permanecia vago tornar-se-á claro.


Por essa altura, a mente errante retorna, e o Tao, livre de erro, é realizado. Isso é o que o I-ching chama de “Voltar a ver o âmago do céu e da terra.”


2

AFIRMAÇÕES


Todas as formas contribuem umas para as outras, e todos os seres emanam uns dos outros; desse modo, evolução e desenvolvimento prosseguem sem fim.


O Tao é essencialmente completamente aberto A total abertura não possui substância. Termina no interminável e tem começo no sem-começo. Quando a abertura é atingida, transforma-se em espírito; o espírito altera-se a fim de produzir energia; a energia acumula-se na forma – o Um divide-se em dois.


Com a dualidade passa a existir a percepção; com a percepção dá-se o emparelhamento de yin e yang numa mútua interacção. O criativo e o receptivo estabelecem as suas posições, movimento e quietude alternam-se incessantemente; a criatividade, a receptividade, a vitalidade e o espírito dependem mutuamente, o activo e o passivo assumem um a partir do outro.


A esta altura, a criatividade, a receptividade, o desejo, ,a consciência, o movimento, a serenidade, a atracção e a harmonia combinam com a operação da essência, do juízo, do espírito, da vitalidade e da vontade de modo que passa a haver consistência, que estabelece as estações do ciclo da vida.


Um harmonioso processo de destilação sustenta a criação e a produção: no céu distribui a miríade de formas; na terra, nutre todos os seres vivos.


Todas as formas contribuem umas para as outras, os seres emanam uns dos outros; deste modo a evolução e o desenvolvimento prosseguem sem fim.


Tudo no mundo surge do ser; o ser resulta no não-ser. Ser e não ser interpenetram-se ocultando e revelando um ao outro numa interdependência mútua.


Cegando à fonte do seu começo, descobre-se que todas as existências se encontram baseadas na energia. Discernindo o seu término, descobrimos que todos os seres se convertem na forma.

Deste modo alcançamos o conhecimento de que todos os seres são basicamente forma e energia. Forma e energia constituem basicamente espírito. Espírito constitui basicamente total abertura. O Tao é basicamente não-ser. A mudança reside nisso.


O céu posiciona-se em cima; a terra posiciona-se em baixo. Homens e demais seres vivos residem no meio, em estado de transição e de evolução. A energia reside nisso.


Céu e Terra são os maiores dos seres; os humanos são os animais mais inteligentes. Céu e seres humanos são um, o universo acha-se nas suas mãos; miríades de desenvolvimentos operam nos seus corpos. A transformação reside nisso.


A realização da humanidade reside em estabelecer a vida no centro do céu e da terra, fazer da consciência aberta a essência do património.


O espírito reside no estabelecimento da essência e da vida.


A vida está ligada à energia; a essência está ligada ao espírito. Mergulhem o espírito na mente, reúnam a energia no corpo. O Tao reside nisso.


O iluminado torna a sua energia e espírito completos. Através da repetida harmonização tornam-se naturalmente reais.


O real dentro do irreal, o misterioso dentro do misterioso, o insubstancial produzindo substancialidade – a isso se chama imortalidade em estado embrionário.


Se quiserem atingir o Tao, de onde será que procede? Fiquem calmos, permaneçam abertos que assim resultará esperança de imortalidade embrionária.


Uma vez abertos, não resulta qualquer obstrução; uma vez calmos, não surgirá o menor desejo. Quando a abertura é completa e a calma profunda, observem o processo da natureza e conheçam os seus ciclos.


Deixem que a acção brote da calma e preencham-se por meio da preservação da abertura. Ambos esses princípios são complementares, espírito e Tao permanecem juntos.


O Tao é o anfitrião do espírito, o espírito é o anfitrião da energia, a energia é o anfitrião do corpo e o corpo é o anfitrião do impulso. Quando não há impulsividade, o corpo repousa; quando o corpo repousa, a energia repousa; quando a energia se acha em repouso, o espírito permanece em descanso; e quando o espírito descansa não repousa em coisa nenhuma – isso é habitar no sem-morada.


Quando a joia da vida cristaliza e a pérola da essência é resplandecente, o espírito original permanece consciente e a imortalidade embrionária completa-se, pelo que o caminho para a franca espontaneidade é acabado. Quão grande é o espírito, a base da transformação e da evolução.

3

SIGNIFICADOS SECRETOS


Para se dominar a mudança, nada importa mais que ter sentido do tempo próprio (oportunidade); para se ter sentido do tempo próprio, nada importa mais que a compreensão do desígnio interior; para se compreender o desígnio interior, nada é mais importante que a calma sincera.


ESBOÇOS DE MUDANÇA


A mudança que é passível de mudar não é a Mudança eterna. Os esboços que são passíveis de ser imaginados não constituem o Sublime Esboço. A Mudança eterna não se altera e o Sublime Esboço é sem-imagens. A Mudança eterna é mudança anterior ao esboço; a mudança passível de mudança é mudança que segue toda a delineação.


Mudança Eterna imutável representa o corpo do absoluto; mudança passível de mudança constitui a base da criação. O Sublime Esboço constitui o começo do movimento e da serenidade; aquilo que é passível de ser imaginado é a mãe da forma e do nome.


O que se acha em constante tranquilidade constitui a eterna Mudança; aquilo que nunca cessa constitui mudança passível de alteração. Aquilo que em última análise permanece aberto e não possui corpo constitui o Sublime Esboço; o que surge de acordo com os acontecimentos e que pode ser imaginado.


Não há maneira de descobrirmos o começo nem de determinarmos o fim do eterno; é aquilo que existe de singular ao longo de todos os tempos.


O Sublime Esboço exteriormente contém céu e terra, e interiormente preenche o universo; é aquilo que permeia os mundos todos, profundamente imóvel e perfeitamente completo.

Devido a que a Mudança eterna não sofra mudança, é capaz de envolver as intermináveis mudanças que ocorrem no mundo. 


Devido a que o Sublime Esboço não contenha imagem alguma, é capaz de descrever os infindáveis fenómenos que se dão no mundo. Mudança e Esboço constituem a base do Tao.


                                                ETERNIDADE E MUDANÇA


A Mudança eterna não muda; a mudança passível de mudar não é eterna. Devido a que o eterno não sofra mudança, é capaz de se adaptar à mudança; devido a que a alteração não seja eterna, é capaz de incorporar a eternidade. 


Imutável é a eternidade da Mudança; a transitoriedade do movimento e a imobilidade constituem a mudança que a mudança comporta.


Sendo invariavelmente independente atinge o eterno; ao ir infatigavelmente a toda a parte domina a mudança. Sem se conhecer o eterno não se pode dominar a mudança; sem se dominar a mudança, não se pode chegar a conhecer o eterno. Eternidade e Mudança constituem a base da transformação.



SUBSTÂNCIA E FUNÇÃO


A Eternidade constitui a substância da Mudança; a mudança constitui a função da mudança. Aquilo que jamais muda constitui a substância da Mudança; aquilo que muda com o tempo constitui a função da Mudança.


Liberdade da cogitação e da invenção constituem a substância da Mudança; a adaptação sensível constitui a função da Mudança. Conhecendo a função consegue-se descobrir a substância; preservando a substância, pode-se aprimorar a função.


Os sábios olham para cima e examinam em baixo; buscam longe e apreendem perto, a fim de perceberem a substância; aqueles que são desenvolvidos avançam em qualidade, realizam trabalhos, desempenham tarefas e constroem utensílios, com base na função.


A investigação da verdade, a realização da natureza humana, tirar prazer do celestial, conhecer o sentido da vida, cultivar a harmonia e a paz, organizar a ordem social, tudo isso tem assento na Mudança.


A preservação da substância da Mudança é o caminho para se conhecer o eterno; o aprimorar da Mudança constitui o caminho do domínio da adaptação.

Tradução de Amadeu António

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