sábado, 19 de abril de 2014

RYOKAN TAIGU - (O SÃO FRANCISCO DO ZEN)





Ryokan (1758-1831) era uma criança sossegada e estudiosa que, aos dez anos, foi enviada para uma academia confucionista. Na sua juventude atravessou uma profunda crise espiritual, e de súbito decidiu tornar-se monge. Ingressou no Koshoji, o templo Soto-shu da zona como noviço, onde permaneceu durante vários anos. 

Mestres como Hakuin e Ikkyo são o protõtipo de um tipo de mestre zen  muito associado à escola Rinzai, mas esta outra escola, a do Soto, produziu igualmente professores extraordinários.

Em 1780 Kokusen (m 1791) visitou o templo de Ryokan e deixou o jovem tão impressionado que este decidiu tornar-se seu discípulo, passando para o templo de Kokusen, em Tamashima (Okayama) onde estudou poesia e caligrafia Zen. A abordagem que Kokusen fazia do zen era muito terra-a-terra, e descrevia-o como o acto de empilhar pedras e de recolher lixo.

Em 1790 recebeu das mãos de Kokusen o seu Inka-shomei, comprovando que era iluminado. Aquando da sua ordenação como monge, surgiu o nome pelo qual seria conhecido: Tyokan Taigu, significando Ryokan “bondoso” e “cordial”, e Taigu, “nobre louco”, por ele ser caracterizado por uma simplicidade e ingenuidades pueris.

Na qualidade de sucessor do Dharma de Kokusen, Ryokan poderia ter-se tornado o abade de um dos maiores templos do Soto-shu, mas preferiu a vida errante e de eremita. Subsistia inteiramente dependente das esmolas que conseguia obter, escrevendo poesia e criando obras-primas da arte da caligrafia. Por fim chegou à sua província natal, Echigo, e instalou-se num velho eremitério, o Gogoan. Devido à sua simplicidade, humildade e amor que tinha pelas crianças e pelos animais, Ryokan é igualmente comparado a São Francisco de Asis, outro dos loucos de Deus.


O seu último poema rezava o seguinte:
O que restará do meu legado
Flores, na Primavera
O cuco, no Verão
E as folhas vermelhas do Outono




Um dos exemplos da caligrafia de Ryokan

Ryokan continua a ser um dos poetas japoneses mais bem amado, o nobre louco que escreveu de uma forma objectiva acerca da vida humilde que levou. Ele fez parte de uma tradiçãop de Mestres Zen radicais, ou Nobres Loucos, que inclui o chinês Han-shan, e o P’ang Yun, e os japoneses Ikkiu Sojun e Hakuin Ekaku.

Sendo o mais velho de sete filhos, Ryokan nasceu no sopé do monte Kugami na cidade de Izumozaki, uma comunidade de artistas e de escritores. O seu pai, um académico da literatura Japonesa e um renomado poeta Haiku, era um prefeito inepto da aldeia. A sua mãe era mulher sossegada que eventualmente teve que lidar com o abandono do cargo que o marido ocupava, e da família, para se ir afogar no rio Katsura.

Na sua juventude, Ryokan praticou sob a tutela de um académico Confuciano e começou a estudar literatura chinesa no original. Aos dezasseis anos de idade, já tinha deambulado por uma vida de jogo e de mulheres, mas de súbito surpreendeu toda a gente ao se dedicar ao estudo do Zen Soto, nas proximidades do templo de Koshoji. (A Soto e a Rinzai são as duas escolas principais do Budismo Zen, no Japão) Rapou o cabelo, envergou as vestes e fez o voto.  Com a idade de 21 anos ele foi para o templo Entsuji, em Bitchu, mas eventualmente ficou desiludido e indignado com as práticas corruptas de padres gananciosos e vaidosos e abandonou-o para adoptar uma ermida nos montes.

Ryokan não teve discípulos nem dirigiu nenhum templo; aos olhos do mundo não passava de um monge sem tostão que despendeu a sua vida no condado do Monte Kugami. Ele admirava a maioria dos ensinamentos de Dogen, o monge do século 13 que inicialmente tinha trazido o Soto para o Japão. Também se sentia atraído pela vida pouco convencional do poeta da montanha do Zen, Han-shan, que viveu na China algures por entre a dinastia T’ang (618-907). Mas repetidamente recusou ser honrado ou ser confinado como um profissional, quer como Budista, quer como poeta, e escreveu:

Quem diz que os meus poemas constituam poesia?
Estes poemas não são poesia
Quando conseguirem entender isso
Então, poderemos começar a falar de poesia.

Ryokan jamais publicou uma colecção de poemas em vida. A prática dele consistia em sentar-se em meditação, passear pelos bosques, brincar com as crianças, fazer as rondas solitárias de mendicância, ler e escrever poesia, entregar-se à caligrafia, e de vez em quando beber com os amigos. Mais tarde apelidou-se a ele próprio de Taigu, ou “Grandessíssimo Tolo”, só que tal título tinha um significado. Um mestre zen que ensinou o jovem Ryokan, descreveu-o do seguinte modo: “Ryokan assemelha-se a um tolo, só que o seu modo de vida é completamente emancipado. Ele vive jogando, como quem diz, com o destino, libertando-se de todo tipo de grilhões,” e prosseguiu descrevendo a vida simples que o seu discípulo levava: “Pela manhã, ele vagueia pelo exterior da sua choupana e vai sabe Deus para onde, e pelo entardecer demora-se algures, por aí. Com fama não se importa nem um pouco. Dos modos ardilosos que os homens empregam, diz ele estarem fora de questão.”

O seu espírito de livre vaguear tinha muito em comum com o do escritor Americano Henry David Thoreau. A vida de Ryokan representou a afirmação de vários valores alternativos e uma repreensão da hipocrisia e da rigidez de valores que se podia encontrar nos monastérios do Zen e na sociedade em geral.

A “loucura” de que padecia enquadra-se no contexto Taoista/Budista como uma inversão das normas sociais. Ryokan afirma o Caminho do Tolo no poema que redigiu sobre a não-mente:

Sem pensarem, as flores atraem a borboleta
Sem pensar, a borboleta visita as flores
Ainda assim, quando as flores desabrocham
A borboleta vem
E quando a borboleta vem, a flor desabrocha

“Sem pensar,”* significa não se apegar nem lutar, e quando ligado à aceitação da impermanência da vida, temos o maior dos loucos. Para conseguir essa mente original, ou de iniciante, Ryokan buscava a companhia das crianças, mantinha as suas humildes rondas de mendicância, aceitava o seu quotidiano e registava tudo nos seus poemas autênticos. Deixando o que quer que estivesse a fazer, ele ia juntar-se aos jogos das crianças da cabra-cega e das escondidas, e das lutas na relva. Certa vez foi apanhado a jogar berlindes com uma geisha e contava-se que jamais recusava uma partida de Go (Jogo estratégico semelhante ao das damas). Apreciava fazer de morto para as crianças, que o enterrariam sob uma pilha de folhas, e passar o dia a colher flores com elas, esquecendo as rondas de mendicância.

* - (NT: Não-pensamento, conforme consta no original, de resto muito similar à não-acção (ou não interferência) usada no Lao-Tzu, significa simplesmente ver todas coisas com a mente que temos, sem apego e sem mácula; deixar que a mente tudo toque de uma forma activa e livre, sem se agarrar a nada. Abrir mão da dicotomia e da duplicidade herdadas, e realizar o propósito que temos com clareza e confiança. Esse começou por ser o objectivo verdadeiro do sentido da “salvação” Cristã, que depois se afundou num pesado lodaçal de dogma; mas essencialmente a mensagem salvítica era a de nos ajudar a suplantar o medo e a confusão, para que vivendo plenamente e com fé - ou confiança na vida - pudéssemos atingir a plenitude da Mente, para que ao entrarmos na morada da “morte” o conseguíssemos fazer sem medo de extermínio nem de condenação, por sermos unos e íntegros com a e na Consciência Infinita. Portanto, a doutrina da ausência de pensamento não deve ser entendida como uma exigência de não pensar em nada e de cortar com o pensar – antes pelo contrário. Isso sim, representa a transformação da verdade que liberta numa verdadeira jaula. Com liberdade, o homem é capaz de responder com confiança e espontaneidade a qualquer situação a que faça frente, por ter uma mente pura e desapegada dotada de uma mobilidade e agilidade que não comporta impedimentos)

As histórias que circulam acerca da jocosidade de Ryokan são lendárias. Eis, uma, preservada após a sua morte verificada em 1831, no arquivo da sua família:

Ryokan estava a brincar à cabra-cega, e quando chegou a vez de se esconder, ele olhou em torno e viu um local em que a criançada não daria com ele. Tendo vislumbrado um monte de feno elevado, engatinhou-se para dentro dele, de modo a esconder-se por completo. Por mais que os catraios o procurassem, não conseguiam dar com ele. Em breve, cansaram-se de brincar, o sol começou a pôr-se, e quando avistaram o fumo a sair das chaminés, o preparo da refeição nas habitações, abandonaram Ryokan e regressaram aos seus lares. Desconhecedor disso, Ryokan imaginou que os catraios ainda andassem à sua procura, e pensando: “Lá vêem eles à minha procura! Agora vão-me descobrir,” ele esperou e continuou à espera. Ficou a noite toda à espera e ainda se encontrava à espera quando a madrugada surgiu. Nas casas de campo, a lareira é acesa com a queima de palha, e quando a filha do fazendeiro veio apanhar alguma palha, ficou espantada ao dar com Ryokan escondido por entre a palha: “Ryokan! Que diabo estás aqui a fazer?” bradou ela. “Ssh”, advertiu Ryokan, “Ou as crianças ainda dão comigo.”

A tendência que tinha de extraviar as coisas – o bordão, a tijela de mendicância, os livros, e mesmo a sua roupa interior – era do conhecimento de todos. Por entre as histórias ligadas ao esquecimento crónico de que padecia há uma sobre uma visita feita por um académico famoso chamado Kameda Bosai. Qando Bosai encontrou Ryokan a fazer zazen na sacada da sua cabana, esperou - várias horas – que o monge terminasse, e de seguida, Bosai e Ryokan alegremente conversaram sobre poesia, filosofia, e escrita até ao entardecer, quando Ryokan se ergueu para ir buscar um pouco de sake à vila.

Uma vez mais Bosai aguardou várias horas, até que preocupado começou a caminhar rumo à vila. Quando encontrou o seu anfitrião, a alguma distância sentado sob um pinheiro, exclamou: “Ryokan! Onde tem andado? Estive a aguardá-lo durante horas e receava que algo de grave lhe tivesse acontecido.” Ryokan ergueu a cabeça e disse: “Bosai, vieste mesmo a tempo. Olha, a lua não está esplêndida esta noite? Ah pois, o sake, esqueci por completo.” E dirigiu-se para a vila. Deixar-se distrair pelos instantes da vida constitui de veras uma virtude para o Zen, embora comummente representasse uma provação para os amigos.

Muitas vezes escreveu Ryokan sob a forma Kanshi - poemas compostos segundo o Chinês clássico. Reunidos, os seus poemas kanshi melhor serão vistos como um diário sem data, um registo de uma humilde vida gasta a viver no momento sem ideias de fama nem de poder. Ao registar a experiência de brincadeira, de mendicância, de observação das pessoas e da natureza por que passou, e a aceitação da generosidade da vida, Ryokan torna-se no auto-cognominado "grande tolo" a fim de nos orientar numa vida de autêntica simplicidade, confiança, humildade, e na descoberta do verdadeiro caminho na vida do dia-a-dia.


Poesia

Onde existir beleza, deverá existir fealdade;
Onde houver o certo, também haverá o errado.
O conhecimento e a ignorância são interdependentes;
A ilusão e o esclarecimento condicionam-se mutuamente.
Desde sempre que foi assim.
Como poderia ser de outro modo agora?
Querer ver-se livre de um e agarrar o outro,
não passa de um acto de estupidez.
Mesmo que falemos do prodígio que é isso tudo,
De que forma lidaremos com cada coisa ao mudar?

Outono

Meu querido amigo
Tu e eu tivemos uma conversa encantadora,
Há muito tempo atrás, numa noite de outono.
Ao se renovar o ano passou a ribombar,
Mas essa noite ainda a carrego na lembrança.

POEMA DE OUTONO

Revelando o seu lado inferior,
Mostrando a sua face
Cai uma folha de plátano.

MUNDO EM OSCILAÇÃO

Se as mangas
Do meu robe negro
Fossem mais largas
Daria abrigo a toda a gente
Neste mundo em oscilação.

DEMASIADO INDOLENTE PARA SER AMBICIOSO
Demasiado indolente para ser ambicioso,
deixo que o mundo cuide de si.
Arroz de dez dias na sacola;
uma mão cheia de galhos para a lareira.
Porque fazer conversa fiada acerca da ilusão e da iluminação?
Escutando a chuva a cair no telhado da minha cabana,
Sento-me confortável, com ambas as pernas estendidas.
EMBORA CAIA A GEADA
Embora caia a geada
Noite após noite,
Que importância tem isso?
Derretem ao sol da manhã.
Embora a neve caia
A cada ano que passa,
Que importância tem isso?
Nos dias de primavera derrete.
Mas quando se instala
Na cabeça de um homem,
Cai e acumula-se,
E continua a acumular-se –
Então o ano novo
Poderá vir e passar,
Mas jamais a vereis desaparecer

AO CREPÚSCULO

Ao crepúsculo
Frequentemente trepo
Ao topo do Kugami.
Os veados lá em baixo,
As suas vozes
Absorvidas
Pelas folhas do plátano
Deitados imperturbáveis
No sopé do monte.

NA CASA DE CAMPO DO MESTRE DO

A duas milhas da vila, conheci um velho lenhador
E percorremos a estrada forrada de pinheiros.
O odor das flores de ameixa silvestres
É levado ao longo do vale.
A minha bangala trouxe-nos até casa.
No lago antigo – enormes, peixes satisfeitos.
Longos raios de sol penetram nos bosques.
E na casa – uma cama comprida
Toda coberta de livros de poesia.
Desaperto o meu cinto e o robe,
E copio frase atrás de frase para os meus poemas.
Ao crepúsculo, caminho em direcção à ala leste –
A codorniz da primavera surpreende-nos em pleno ar.

Vagueando durante milhas chego a uma casa de campo
Á medida que o enorme disco solar se põe na floresta.
Os pardais reúnem-se junto a um matagal de bambus,
Esvoaçam na escuridão que se acentua.
Do outro lado do campo vem um agricultor
Que clama uma saudação ao longe.
Ele diz à mulher para coar o seu vinho nublado
E trata-me com um festim no seu jardim.
Sentados à mesa bebemos à saúde um do outro
A nossa conversa eleva-se aos céus.
Ambos embriagados e contentes
Esquecemos as regras deste mundo.

Demasiado confuso para alguma vez ganhar a vida
Aprendi a deixar que as coisas encontrem o seu caminho.
Apenas com três mãos-cheias de arroz na minha sacola
E alguns ramos para a minha fogueira
Não persigo nem o certo nem o errado
E esqueço a fortuna e a fama mundanas.
Esta noite húmida sob o tecto de palha
Estico as minhas pernas sem pesares.

Mendicância

A mendicância terminou por hoje; no cruzamento
perambulo pelos lados do santuário de hashiman
e converso com os catraios.
no ano passado, um monge tolo;
este ano, nenhuma mudança!

Em Harmonia com o Vento

Em harmonia com o vento,
A neve cai;
Misturando-me com a neve,
O vento sopra.
Caminhando por aqui
Vou esticando as pernas,
Na ociosidade
Confinado que me encontro a esta cabana.
Contando os dias,
Descubro que também o Fevereiro,
Veio e se foi
Como um sonho.

Na Aldeia

Na aldeia
O ruído da flauta e do tambor,
Aqui nas profundezas da montanha
Escuto o som dos pinheiros por toda a parte.

Sonhos

Neste mundo de sonho dormitamos
E falamos de sonhos --
Sonhai, sonhai lá,
Tanto quanto quiserdes

Os Primeiros Dias da Primavera - O Céu

Os primeiros dias da Primavera-o céu está brilha de azul, o sol cálido e enorme.
Tudo se torna verde.
Carregando a minha tigela de monge, vou até à aldeia
Mendigar a minha refeição diária.
Os catraios detectam-me às portas do templo
E juntam-se alegremente ao meu redor,
Enquanto me agarram os braços até eu parar.
Pouso a minha tigela sobre uma pedra esbranquiçada,
Penduro o saco num ramo.
Primeiro trançamos gramíneas e fazemos um braço-de-ferro,
De seguida cantamos à vez e jogamos com uma bola de trapos:
Eu chuto a bola enquanto eles cantam, e eles chutam enquanto eu canto.
Perco a noção do tempo, e as horas correm.
Os transeuntes que passam apontam para mim e riem:
"Porque te portas assim como um tolo?"
Eu faço um aceno de cabeço e não respondo.
Podia dizer qualquer coisa, mas com que objectivo?
Querem saber o que me corre no coração?
Desde o começo dos tempos: somente isto! apenas isto!

Para as Crianças Vitimadas pela Varíola

Quando a Primavera chega
Em toda o cume de árvore
Florescerão flores,
Mas aquelas crianças
Que caíram com as últimas folhas do Outono
Jamais regressarão.

Esqueceste-me?

Ter-me-ás esquecido
Ou esquecido o caminho?
Aguardo por ti o dia todo
o dia todo, todos os dias
Mas tu não apareces.

De que Modo Conseguirei Dormir?

Como poderei dormir
Nesta noite iluminada pela lua?
Vinde, meus amigos,
Cantemos e dancemos
Por toda a noite.

Presencio as Pessoas pelo Mundo

Presencio as pessoas pelo mundo
A desperdiçar as suas vidas e a cobiçar coisas,
Incapazes de alguma vez satisfazer os desejos que têm,
E deixando-se cair num profundo desespero
E torturando-se.
Mesmo que consigam aquilo que querem
Por quanto tempo conseguirão desfrutá-lo?
Por um prazer celestial
Padecem dez tormentos infernais,
E prendendo-se mais fortemente à roda.
Tal gente assemelha-se a macacos
Que tenta freneticamente agarrar a lua espelhada nas águas
E cai no redemoinho.
Como aqueles apanhados no mundo flutuante padecem.
Sem querer, preocupo-me com eles
E não consigo estancar o fluxo de lágrimas.


Numa Cabana de Três Cômodos Dilapidada

Numa cabana dilapidada de três cômodos
Envelheci e cansei;
O frio deste inverno
É o pior que atravessei.
Sorvo umas sopas de aveia escassas, enquanto aguardo
Que a noite gelada passe.
Sobreviverei até que chegue a próxima Primavera?
Incapaz de mendigar o arroz,
Como conseguirei sobreviver ao frio?
Até mesmo a meditação deixou de ajudar;
Sem nada para fazer excepto compor poemas
Em memória dos amigos falecidos.

Na Minha Juventude Pus os Estudos de Lado

Na minha juventude Pus os estudos de lado
E aspirei tornar-me santo.
Vivi de forma austera como monge mendicante,
E deambulei por muitas primaveras.
Por fim regressei a casa para me alojar sob um pico íngreme.
Vivo em paz numa cabana de palha,
Com o canto das aves como música.
As nuvens são os mais próximos vizinhos que tenho.
Abaixo uma primavera onde refresco mente e corpo;
Acima, pinheiros elevados e carvalhos que fornecem sombra e gravetos.
Livre, plenamente livre, dia após dia --
Jamais desejo partir!

Pela Manhã

Pela manhã, curvo-me perante todos;
À tarde, curvo-me perante todos.
Respeitar o próximo constitui o meu único dever--
Saudar o Bodisatva nunca é de desprezar.
Que é único no céu e na terra.
Um verdadeiro monge necessita
Apenas uma coisa--
Um coração semelhante
Ao Buda que não é de desdenhar.

Como o Regato

Como o regato
Que abre caminho por entre
As fendas cobertas de musgo
Também eu tranquilamente
Alcanço o esclarecimento e a transparência.

Pleno Verão

Em pleno verão --
Perambulo com o meu bastão.
Os velhos camponeses detectam-me
E chamam-me para ir tomar uma bebida
Sentámo-nos nos campos
E usamos folhas como pratos.
Agradavelmente ébrio e tão contente
Afasto-me tranquilamente
E estendo-me sobre uma margem de arroz.

A Minha Tigela de Esmolar Quebrada

Este tesouro foi descoberto num matagal de bambus --
Lavei a tigela numa primavera e de seguida consertei-a.
Após a meditação da manhã, tomo as minhas sopas de aveia nela;
À noite, ela serve-me sopas de arroz.
Rachada, gasta, maltratada pelo tempo, e desformada
Mas mesmo assim de nobre cepa!

O Meu Legado

O legado que deixo --
Que coisa haverá de ser?
Flores na primavera,
O cuco no verão,
E os mantos carmesim
Do outono...

No Turno de Mendicância de Hoje não Tive Sorte

Não tive qualquer sorte no turno de mendicância de hoje;
Arrastei-me de aldeia em aldeia.
Ao pôr-do-sol dou por mim com milhas de montes
Entre mim e a minha cabana.
O vento fustiga-me o corpo débil,
E a minha pequena tigela perece tão abandonada --
Sim, este foi o caminho escolhido que me guia
Por entre o desapontamento e a dor, o frio e a fome.

Sem Pensar

Sem pensar, as flores atraem a borboleta;
Sem pensar, a borboleta visita as flores.
Ainda assim, quando a flor brota,
A borboleta aparece;
E quando a borboleta aparece,
As flores brotam.

Orquídea

No fundo do vale, oculta-se uma beldade:
Serena, sem par, incomparavelmente doce.
Na sombra tranquila do matagal de bambus
Parece suspirar baixinho por um amante.

Resposta a um Amigo

Vou vivendo numa estupidez obstinada
E fazendo amizades com árvores e ervas.
Demasiado indolente para distinguir o certo do errado,
Rio-me de mim próprio, e ignoro os demais.
Erguendo as minhas canelas ossudas, atravesso o riacho,
Um saco na mão, abençoado pelo tempo da primavera.
Vivendo deste jeito, nada me faz falta,
Em paz com todo o mundo.

O teu dedo aponta a lua,
Mas o dedo engana até que a lua apareça.
Que ligação terá o dedo com a lua?
Serão dois objectos separados ou estarão ligados?
Esta é uma questão para principiantes
Envoltos na ignorância.
Contudo, aquele que discerne para além da metáfora
Sabe que não existe dedo; não existe lua.

Voltando à Minha Aldeia de Origem

Ao regressar à minha aldeia de origem após muitos anos de ausência:
Hospedei-me numa estalagem rural e fiquei a ouvir a chuva a cair.
Um robe e uma tigela é tudo quanto tenho.
Acendo incenso e esforço-me por me sentar a meditar;
Para lá da janela escura, uns chuviscos constantes durante toda a noite --
Dentro, lembranças pungentes destes longos anos de peregrinação.

Supera

Deves erguer-te acima
Das nuvens sombrias
Que cobrem o topo do monte
Caso contrário, como poderás
Alguma vez perceber o esplendor?

Nas Encostas do Monte Kugami

Nas encostas do monte Kugami—
No abrigo do monte
Uma cabana por entre as árvores—
Há quantos anos tem sido o meu lar?
É chegada a altura de nos despedirmos—
As ideias esmorecem como as ervas do verão,
Vagueio para trás e para a frente
Como a estrela do entardecer—
Até que essa minha cabana se perca de vista,
Até que esse bosque de árvores não se consiga distinguir mais,
A cada passo do caminho,
A cada curva,
Volto-me para trás para olhar
na direcção desse monte.

ESTICADO

Esticado,
Embriagado,
Sob o vasto céu:
Sonhos esplêndidos
Sob as flores de cerejeira.

Teishin

“Quando, quando?” suspiro.
Aquela por quem anseio
Chegará por fim;
Com ela agora,
Tenho tudo quanto preciso.

O Lotus

Florescendo primeiro no Paraíso do Oeste,
O Lótus encantou-nos por eras.
As suas pétalas brancas cobertas de orvalho,
As suas folhas verdes cor de jade espalhadas pelo lago,
E a sua fragrância pura a perfumar o vento.
Frio e imponente, eleva-se das águas obscuras.
O sol põe-se por trás das montanhas
Mas eu permaneço da escuridão, demasiado cativado para partir.

As Plantas e as Flores
As plantas e as flores
que plantei ao redor da minha choupana
Eu devolvo agora
À vontade
Do vento.

O Ladrão Deixou-a Para Trás

O ladrão deixou-a para trás:
A lua
Na minha janela.

O Caminho do Tolo Sagrado

Numa encruzilhada, este ano, após
Ter mendigado por todo o dia.
Demorei-me no templo da vila.
As crianças juntaram-se à minha volta a murmurar
“O monge maluco voltou para brincar.”

O Vento Veio para Ficar

O vento veio para ficar, as flores caíram;
Cantam os pássaros, as montanhas escurecem --
Este é o estupendo poder do Budismo.

Os Ventos Esmoreceram

Os ventos esmoreceram, mas as flores continuam a cair;
os pássaros chamam, mas o silência penetra cada canto.

O MIstério! Desconhecido, Não se pode desaprender.
A virtude de Kannon.

Este Mundo

Este mundo
Um desvanecimento
Eco da montanha
Vazio
Irreal
Dentro
Uma neve fraca
Três mil Reinos
Dentro desses reinos
Cai uma neve leve

À medida que a neve
Encobre a minha choupana
Ao entardecer
Também o meu coração
Se consome por completo

Três Mil Mundos

Os Três Mil Mundos
que dão um passo em frente
com a neve fraca,
e a neve fraca que cai
nesses Três Mil Mundos

Para Acender uma Fogueira

Para acender uma fogueira,
os ventos do Outono empilharam
umas quantas folhas mortas.

Ao Meu Mestre

Um velho sepulcro escondido aos pés da solina do deserto,
Invadido de ervas daninhas por arrancar ano após ano;
Não ficou ninguém para cuidar da sepultura,
E somente um lenhador ocasional passa.
Uma vez que fui seu aluno, um jovem de cabelo desgrenhado,
E aprendi profundamente com ele junto ao Rio Estreito.
Certa manhã parti para a minha jornada solitária
E os anos passaram-se entre nós em silêncio.
Agora regresso para o descobrir aqui a descansar;
Como poderei honrar o seu espírito que partiu?
Derramo uma colher de água sobre a sua lápide
E ofereço uma oração em silêncio
O sol subitamente desaparece por trás da colina
E encontro-me envolto pelo rugido do vento nos pinheiros.
Tento afastar-me mas não consigo:
Uma torrente de lágrimas inundam-me as mangas.

Demasiado Ocioso Para Ser Ambicioso

Demasiado ocioso para ser ambicioso,
Deixo o mundo aos seus próprios cuidados.
No meu saco uma ração de dez dias;
Um feixe de galhos junto à lareira.
Para que falar da ilusão e da iluminação?
Sento-me confortavelmente, com ambas as pernas esticadas
A ouvir a chuva da noite sobre o meu telhado.

Quando Todo O Pensar

Quando todo o pensar
Se esgota
Deslizo para o bosque
E reúno
Uma pilha de bolsa-de-pastor. (Planta)

Quando Eu Era Rapaz

Quando era rapaz,
Passeava-me pela cidade de forma extravagante,
Ostentando um manto da mais suave penugem,
E montado num esplêndido cavalo cor de castanha.
De dia, galopava até à cidade;
À noite, embriagava-me com as flores de pêssego junto ao rio.
Nunca me preocupava por regressar a casa,
Geralmente terminava, com um sorriso rasgado no rosto,
No pavilhão do prazer!


Traduzido por: Amadeu António

Obras de referência:
John Stevens – “Zen Masters” e “One Robe, One Bowl”
Ryuichi Abé & Peter Haskel – Great Fool – Zen Master Ryokan
Great Fool: Zen Master Ryokan - Ryuichi Abé & Peter Haskel

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