sexta-feira, 18 de abril de 2014

ACERCA DA NATUREZA DA REALIDADE



O Sonho do Rei Mu

O rei Mu de Chou foi visitado por um estranho do extremo oeste. Tratava-se de um feiticeiro que era capaz de caminhar sobre o fogo e a água, penetrar a pedra e o metal, voar pelos ares e mover montanhas e rios. O rei Um ficou sobejamente impressionado com as habilidades do feiticeiro e tratou-o como a um deus.

Construiu-lhe um palácio, enviou-lhe os melhores pratos que tinha no reino, e providenciou-lhe as melhores cortesãs. Todavia o feiticeiro não levou tais oferendas em grande consideração. Achou o palácio desconfortável, a comida desagradável e as cortesãs feias, malcheirosas e incultas.

Ao ver que o seu convidado se sentia insatisfeito o rei mandou construir um outro palácio maior do que o anterior. Contratou os melhores artífices e arquitectos e usou a melhor madeira e pedra que tinha no condado. O palácio era formado por uma torre que subia até às nuvens e que tinha as vistas mais incríveis sobre vales e montanhas. O rei Mu chamou-lhe a torre do meio do céu.

O rei congregou igualmente as mulheres mais belas e delicadas que tinha no reino. Forneceu-lhe as melhores peças e joalharia e de seda, aspergiu-o com as mais puras fragrâncias e disponibilizou-lhe os melhores assistentes. Todos os dias lhe oferecia vestimentas caras e as melhores iguarias e convocou os melhores músicos ara tocar a melhor música alguma vez composta.

O feiticeiro ainda se sentia insatisfeito, mas ao ver que orei tinha dado o seu melhor, de má vontade aceitou as oferendas.

Passado não muito tempo, o feiticeiro convidou o rei Mu para viajar com ele à sua terra no oeste. Dizendo ao rei para fechar os olhos e para se agarrar à manga da veste dele, alçou-se ao céu. Assim que o rei abriu os olhos deu por si na terra do feiticeiro. Ao entrar na área do palácio viu que os edifícios se achavam decorados com prata e ouro. Jade, pérolas e outras joias preciosas adornavam as paredes e as janelas. O palácio situava-se num leito de nuvens que ficava acima da chuva e das tempestades. Tudo quanto viu, ou viu, experimentou, era desconhecido no seu mundo. Foi então que o rei Mu percebeu que os deuses deveriam ter apreciado tais luxos nos seus palácios celestes. Comparado com aquilo, o seu próprio palácio parecia um mero casebre.

O rei Mu disse para consigo próprio: “Jamais vi coisa assim. Não me importava de aqui ficar dez ou vinte anos.” O seu devaneio foi interrompido pela aproximação do feiticeiro que o levou a visitar ainda um outro reino.

Desta vez, quando o rei Mu chegou, não conseguiu vislumbrar sol nem lua, montes nem mar. Para onde quer que olhasse a luz era de tal modo deslumbrante que tudo quanto conseguia divisar era um caleidoscópio de cores que o deixavam estonteado. Os sons que escutava eram estranhos e misteriosos e logo ficou com os sentidos desorientados. O corpo tremia-lhe e sentia a mente ofuscada; sentia-se enjoado e pensou que ia adoecer. Rapidamente pediu ao feiticeiro que o levasse dali ou enlouqueceria. O feiticeiro deu-lhe um leve empurrão, e o ri Mu viu-se de volta ao seu palácio.

Ao abrir os olhos verificou que se encontrava sentado na sua cadeira, que jamais tinha deixado. O vinho que tinha na taça ainda não tinha sido ingerido, e a comida no prato ainda se encontrava tépida. Os seus assistentes permaneciam na mesma posição anterior. Quando lhes perguntou o que tinha acontecido, os assistentes responderam que permanecera sentado na sua cadeira e que fechara os olhos por breves instantes.

O rei Mu achava-se de tal modo chocado com aquilo que levou quase três meses a recobrar de toda aquela experiência. Por fim decidiu perguntar ao feiticeiro o que tinha realmente sucedido e o seu distinto convidado respondeu-lhe: “Fizemos uma jornada pelos domínios do Espírito. Foi por isso que o teu corpo permaneceu imóvel e não sentiste passagem de tempo. Experimentaste um mundo que te é desconhecido enquanto permanecias sentado no seu próprio palácio. Existirá mesmo alguma diferença entre os lugares que visitaste e aquele a que chamar “lar”? Ficaste chocado e desorientado por te sentires confortado com o que designas por permanente, e sentiste-te- nervoso com as coisas que consideras transitórias. As reacções que sofreste são o resultado das partidas que a tua mente te provocou. Quem poderá asseverar quando e com que rapidez uma situação pode mudar numa outra e qual será real e qual não será?”

Após ouvir aquilo o rei Mu decidiu retirar-se da política. Ordenou aos assistentes que preparassem a sua carruagem e os cavalos a partiu numa longa viagem pelo seu reino. Viajou para terras estranhas onde foi entretido pelos senhores dessas terras. Num dos locais que visitou o chefe tribal deu-lhe a beber o sangue de um ganso da neve, e lavou-lhe os pés com leite de vaca e de cabra. A seguir o rei escalou as montanhas Ku-lun até ao topo, de onde vislumbrou o palácio real do Imperador Amarelo, e construiu um memorial para que as gerações futuras recordassem esse poderoso governante.

A seguir foi em visita à Mãe Imperatriz do Oeste, que lhe ofereceu um banquete de honra e entreteve com música e canto. O rei cantou em dueto juntamente com a Imperatriz celeste mas a música apenas invocou sentimentos de tristeza.

À medida que o sol se começou a pôr nos céus do oeste, o rei Mu percebeu que viajara mais de dez mil milhas num só dia. Suspirou e disse: “Em vez de usar o tempo de que dispunha a governar o país e a cuidar dos meus súbditos, desperdicei este dia a cantar a divertir-me. O provável é que venha a ser visto pelas gerações futuras com um tolo!”

O Rei Mu não era divino. Ele desfrutou por completo da sua vida e morreu quando chegou a hora. Mas toda a gente acreditava que se tinha tornado num deus e que tinha ido para o céu.

Aprendendo as Artes Arcanas

Lao Cheng Tzu foi aprender os segredos das artes arcanas com o sábio Wen-Tzu. Depois do seu mestre não lhe ter ensinado nada durante três anos, ele desculpou-se pela estupidez e pediu permissão para retornar a casa.

Went-zu fez uma vênia a Lao Cheng Tzu, conduziu-o aos aposentos dele, dispensou os outros estudantes e fechou a porta, a seguir ao que, disse:

"Quando o meu mestre partiu para as terras do ocidente disse-me que a vida e a essência do céu e da terra e a forma de todas as coisas na verdade constitui uma ilusão. Quando as energias do Yin e do Yang copulam e as coisas vêem à existência, chamamos a isso nascimento. Quando se separam e desvanecem, chamamos-lhe morte. Àquilo que ocorre segundo a aritmética da mudança chamamos transformação, ou arcano."

"Os princípios da criação e da dissolução são profundos e de difícil compreensão. Se nos aferrarmos simplesmente aos aspectos superficiais da mudança, só lidaremos com ilusões, e o que quer que manipulemos não terá efeito duradouro. Somente quando penetramos a aritmética da transformação e nos tornamos unos com a mudança estaremos qualificados para a aprendizagem das artes arcanas. Afinal de contas, tu e eu não passamos de ilusões de corpo e mente, por isso, que terão as artes arcanas de tão mágico?"

Lao Cheng Tzu agradeceu ao seu mestre e regressou a casa. Pensou no que ele lhe tinha dito durante três meses e começou a abrir mão da ilusão de corpo e mente. Tendo-o conseguido, tornou-se capaz de surgir e de desaparecer à vontade e de dar a volta às estações. Era capaz de convocar o trovão no inverno e a neve no verão. Podia fazer com que animais que corressem passassem a voar e de fazer com que animais que voassem passassem a correr. Contudo, não revelou essas faculdades a ninguém, de modo que tais artes não foram transmitidas às gerações futuras.

Lie Tzu disse: "Aqueles que são adeptos das artes arcanas não as revelam casualmente. De facto ocultam-nas tão bem que chegam a parecer comuns. É geralmente aceite que os antigos sábios e reis conseguiam o que pretendiam por intermédio da virtude e da coragem. Mas quem poderá dizer que não tenham feito uso das artes do arcano?"

Sonhos

É dito que os episódios da nossa vida desperta podem ser classificados em oito categorias, e que as experiências da nossa vida onírica podem ser divididas em seis. A nossa vida terrena gira em torno desses catorze tipos de eventos.

Os oito episódios da nossa vida desperta são: Acontecimentos, acções, ganho, perda, felicidade, tristeza, vida e morte. Isso é experimentado sempre que o nosso corpo defronta algo no mundo.

As seis experiências com que nos deparamos na nossa vida onírica são: sonhos comuns sem grande significado, sonhos de aviso, sonhos resultantes do excesso de pensar, sonhos instrutivos, sonhos agradáveis e sonhos desagradáveis ou pesadelos. Tais estados oníricos são experimentados quando a nossa mente permanece inquieta.

Se não reconhecermos quando ocorrem as mudanças, nem a razão por que ocorrem, ficaremos confusos. Contudo, se conhecermos a causa e o efeito das coisas, então estaremos preparados e não nos entusiaremos nem amedrontaremos. O mesmo se passa com os sonhos.

O aumento ou a diminuição da energia nos nossos corpos segue o fluxo da energia de céu e terra. Quando há muita energia Yin, experimentaremos sonhos ligados à água e ao medo do afogamento. Quando há demasiada energia Yang, sonharemos com fogueiras quentes e experimentaremos a ameaça de sofrer queimaduras. Quando tanto as energias Yin e Yang se encontram no seu pleno vigor então sonhamos com violência e assassínio. Quando estamos esfomeados, sonhamos que imploramos por comida. Quando satisfeitos, sonhamos que damos comida aos outros. Pela mesma razão, aqueles que padecem de febre alta sonham que os seus corpos se acham leves e a pairar. Aqueles que estão a tiritar de frio sonharão que estão a afundar-se e a afogar-se. Durmam com o cinto apertado e sonharão que estão a ser sufocados por uma cobra. Adormeçam assim que a escuridão da noite começar a cair e sonharão com a luz da fogueira. Se tiverem perturbação estomacal ao dormir, sonharão que comem. Aqueles que vão dormir deprimidos sonharão que bebem vinho. Aqueles que adormecem após um pranto de tristeza, sonharão que dançam e que cantam.

Lie-Tzu disse: "Quando a mente se acha inquieta, sonhamos. O que tenha estimulado o corpo durante o dia surgirá nos nossos sonhos pela noite. Essa é a maneira como mente e corpo reagem um ao outro. Assim, as pessoas que têm uma mente vazia de pensamentos e cujos corpos não sofrem o estímulo das coisas que as rodeiam não se sentirão perturbadas por sonhos pela noite. Essa gente permanece completamente desperta no estado de vigília e em pleno repouso durante a noite. Os sábios não se apegam às ideias que têm nem às acções que empreendem durante o dia, de modo que pela noite não sonham."

Há uma terra distante que não chega a receber o sopro do Yin e do Yang. Por isso, nesse lugar não sucede a mudança das estações nem do dia e da noite. Lá, as pessoas não trabalham, nem comem, nem usam vestuário. Dormem a maior parte do tempo e só acordam uma vez em cada quinze dias. No pouco tempo em que permanecem despertos, sentem estar a sonhar. Por outro lado, os sonhos são muito reais para eles.

Há uma outra terra no centro do mundo. Essa terra estende-se a norte e a sul de um rio enorme; encontra-se cercada por montes a leste e a oeste, e estende-se por mais de dez mil milhas. Por se situar no centro do mundo, acolhe o sopro de Yin e de Yang com equanimidade. Por isso as estações não apresentam diferença nem distinção clara o dia e a noite. Nessa terra, alguns são inteligentes e outros são embotados. Alguns são talentosos e outros vulgares. As pessoas nessa terra possuem uma sociedade organizada, sabem como cultivar a terra, e são lideradas por um líder. Também são destros numa diversidade de actividades que exercem. Essa gente acredita que aquilo que experimenta no estado de vigília seja real e que o que experimenta nos sonhos seja irreal.

Há contudo uma outra terra onde sempre faz calor. O sol e a lua nunca se põem, e não há noite. Fustigada pelo calor, a terra não produz cultivo. As pessoas alimentam-se de frutos silvestres e de raízes de árvores e não conhecem a cozinha pelo fogo. São ferozes e violentas, e o forte conquista o fraco, por valorizarem a força ao contrário da virtude. Por não existir noite, acham-se activos a toda a hora e só raramente dormem.

Serão os acontecimentos do nosso estado e vigília mais reais do que os dos sonhos? Para aqueles que dormem a toda a hora, os sonhos serão mais reais do que o estado de vigília. Contudo, aqueles que dividem o seu tempo de forma igual entre a vigília e o sono, as experiências do estado de vigília não serão mais reais do que acontecimentos oníricos. Ainda assim, para aqueles que não conhecem o sentido do sono, não faz sentido falar acerca da diferença entre um e o outro estado. Que diferença existirá, pois, entre ambos?

A Verdade Acerca da Felicidade e da Infelicidade

Um certo homem rico do condado de Chou tinha uma forma de gerir o seu negócio. Sob a sua supervisão, as suas propriedades e investimentos rendiam-lhe avultados lucros. Contudo, tratava os trabalhadores de forma impiedosa e fazia-os trabalhar do raiar do dia até ao anoitecer.

Havia um velho servo que tinha trabalhado toda a sua vida nas propriedades. Extenuado pelo trabalho árduo e pelo tratamento áspero, esse servo tinha perdido tanto a robustez quanto o vigor e não conseguia produzir mais. Mas o negociante não tinha compaixão pelo pobre servo. Em vez disso, castigava-o por ser preguiçoso e levava-o a trabalhar mais e durante mais tempo. O servo sentia-se de tal modo infeliz que gemia o dia todo enquanto trabalhava. Cansado de corpo e de mente pela noite caiu num sono profundo. Ao perder a consciência começou a sonhar, e sonhou que era rei numa terra próspera e que tinha milhares de servos às suas ordens. Vivia num palácio belíssimo, visitava o seu reino com pompa e luxo, e sentia-se feliz para além da imaginação. Mas ao acordar no dia seguinte, enfrentou outro dia de infelicidade.

Quando os colegas de trabalho o confrontaram, o velho servo disse: "Não é tão mau quanto isso. Sofro durante o dia, mas pela noite desfruto do facto de ser rei de uma nação."

Entretanto o rico homem de negócios descobriu que se sentia profundamente cansado depois de passar os dias a tratar dos assuntos das suas propriedades. Também ele caiu num sono profundo e sonhou. Mas quando sonhou, o sonho que teve foi um pesadelo. Tornou-se num escravo preso a um mestre cruel. Eram-lhe atribuídas as tarefas mais desprezíveis e via-se forçado a trabalhar por muitas horas seguidas de dureza. Mesmo quando se sentia cansado era tratado sem misericórdia. Era açoitado e punido por toda a falha imaginável quer com razão ou sem razão. Sofreu miseravelmente no sonho e só conseguiu alívio ao acordar.

Todos os dias os dois homens desempenhavam os papéis de mestre e de servo. E todas as noites sonhavam e desempenhavam os papéis de escravo e de rei. Os dias e os meses foram passando. O rico sentiu-se infeliz e pediu ajuda a um amigo.

O amigo disse-lhe: "Tu possuis uma vasta fortuna e um nome respeitável no mundo dos negócios. A posição social de que gozas é muito superior à do homem comum. Por isso, sonhar que te encontras no fundo da escala social é bastante normal. As coisas têm o seu jeito de se equilibrarem. Se quiseres ter tudo à tua feição tanto no estado de vigília como no estado onírico, isso será impossível."

O homem de negócios pensou nas palavras do amigo e percebeu que ele estava a forçar as coisas ao extremo. Ele tratava-se de uma forma demasiado afortunada e aos servos de uma forma demasiado infeliz. A partir daí passou a tratar os trabalhadores com compaixão, diminuiu-lhes a carga de trabalho e não dirigiu a sua vida de forma tão árdua. Em resultado, toda a gente se sentiu melhor. O rico deixou de ter pesadelos em que era escravo pela noite, e o velho servo não teve que sofrer durante o dia.

Zuangzi
Tradução: Amadeu António


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