quarta-feira, 14 de agosto de 2013

UMA ABORDAGEM DA IRA




Transcrição e tradução: Amadeu Duarte

Tendo falado tantas vezes na ira, em seminários e consultas privadas, e no quão imperativo é tratar dela, por termos descoberto que a ira constitui uma das áreas mais importantes a tratar, e em muitos casos de facto se ter provado como uma área das mais difíceis. Assim vamos abordar o tema, reunindo para o efeito, muitas das ideias apresentadas em diferentes alturas e de forma diversificada, a ver se poderão concentrar-se e focar as vossas energias de uma forma mais efectiva nesse específico problema.
Um dos principais bloqueios de que falamos foi o medo que têm da intensidade das emoções que sentem. A única realidade que é real para além das vossas limitações físicas é a realidade emocional. A emoção singular que produz isso que mais temeis, e que justifica e preserva o medo de tal intensidade, é a ira, ou raiva. A ira suprimida é letal. 

Vós honestamente não vos podeis dispor a adiar o desbloqueio e a libertação dela. Ao contrário de outras forças debilitantes, ela não permanece adormecida dentro de vós, até estardes preparados a tratar dela, mas está activamente a destruir-vos; destrói-vos e torna-se destrutiva para os que vos rodeiam. Mesmo que sintam que estão efectivamente a suprimir e a reprimir, a vossa ira está a trabalhar calmamente, silenciosamente, e por vezes não tão calma nem sossegadamente, muito para vosso desgosto, no seu processo destrutivo, se não for expressada.

Agora, não vão tão longe, porque não estamos a dizer que a raiva em si e por si só, pela sua própria natureza, seja destrutiva. A raiva suprimida e reprimida é que é destrutiva e não a raiva em si e por si só. Contudo, a raiva representa uma emoção activa, e quando a tentais manter em estado dormente, ela torna-se num força destrutiva em vez da força deliberada que se podia tornar.

Por isso, muitas vezes as pessoas olham para a raiva suprimida que têm com uma certa indiferença, dizendo para si mesmas: “Ah, suponho que estou novamente a suprimir raiva; ah, como sou péssimo, não pareço capaz de expressar a raiva que sinto; não será isso triste e curioso? Bem, assim que reorganizar a minha vida, aí vou dar a volta a isso. É demasiado desconforme, é demasiado assustador, é demasiado desconhecido, eu simplesmente pareço estar incapaz de o fazer. Pobre de mim! Tenho receio que a raiva que sinto magoe alguém. Ela é tão opressiva que é capaz de causar destruição.”


Bom, nós podemos garantir-lhes que não só pode, com magoa os outros; não só podia, ela destrói. A raiva não libertada já está a magoar os outros e já está a causar destruição – está a destruir-vos! Antes de sugerirmos maneiras de libertardes a ira, maneiras de remover a raiva, maneiras de tratar dela, queremos debruçar-nos um pouco sobre o modo a raiva provoca mágoa e destruição. 

Antes de mais, será importante perceber que a raiva sempre é processada. Muitos de vós que sentem raiva - e são mais do que os que estão prontos a admiti-lo – pensam que lançando-a para algum recesso profundo, para alguma dobra da mente, por que apesar de a sentirdes ela não vai fazer coisa alguma, e se não vier para fora, podem encobri-la com afirmações brandas de carácter terapêutico, e que podem encobri-la falando de amor, em amar toda a gente, mas sugerimos aqui que toda a raiva é processada, de uma forma ou de outra. Fica ao vosso critério – não se haveis de processar ou não a raiva, mas se a processareis de uma forma produtiva, ou se permitireis que ela se processe a si mesma, de forma destrutiva. Trata-se de uma decisão – não se sentireis ou não raiva, e se tratareis dela de forma apropriada, trata-se de uma decisão quanto à forma – de modo limpo ou destrutivo. Ela vai ser tratada!


Se processardes a raiva de uma forma limpa, ou seja, meditando nela, tratando dela, por meio do vosso diário, várias técnicas que já sugerimos e que rapidamente passaremos aqui em revista, então poderá operar de uma forma bastante produtiva e na verdade pode tornar-se numa força muito válida, numa energia muito válida na vossa vibração. Se, todavia optardes por fingir que não sentis raiva, ou que a não estais a sentir agora, ela na verdade irá produzir resultados negativos, e será processada, quer através do vosso próprio corpo, na forma de doenças e de desconforto, ou através da vossa realidade, quer nos sucessos ou fracassos que tiverdes, ou através de uma variedade de outros meios.

Assim, de que modo será a raiva processada se o não fizerdes? Antes de mais, gostaríamos de sugerir que quase qualquer uma das preocupações principais de saúde que possais conceber, constitui, de uma forma ou de outra, da raiva reprimida ou suprimida. Detalhar o corpo da cabeça aos pés relativamente às formas específicas de doença ou de angústia que podem ocorrer representaria uma perda e tempo, porque na verdade não podeis sinceramente pensar numa situação, quer de uma doença que possa acontecer ou de uma enfermidade de um tipo qualquer, que não esteja de uma maneira qualquer directamente ligada à repressão ou à retenção da expressão da raiva.

Talvez as circunstâncias mais catastróficas que têm lugar na vossa realidade sejam as do cancro, que se traduzem por uma raiva tão profundamente reprimida e suprimida que muitas vezes as pessoas que o contraem não sabem de uma forma honesta que a têm. Tanto pode levar dez como vinte anos, mas a raiva processar-se-á por um processo destrutivo como o do cancro que comerá e destruirá por completo o organismo.


Para além do físico, todavia, dar-se-á um prejuízo mental com a repressão e a supressão da raiva. O ego alimenta-se de raiva. É o seu acepipe favorito, e sustentáculo. 

Comentamos em diversas alturas que a verdadeira função do ego é a de ser o mensageiro, a de transpor mensagens sobre o que se passa no mundo externo para o Eu Interior, para a seguir recuperar a mensagem do Eu Interior e a transpor para a realidade exterior. Mas o vosso ego é um servente, e não devia interpretar essas mensagens; no entanto o ego é um indivíduo manipulador com fome de poder, agarrado ao poder, de modo que tenta obter poder na vossa realidade, e fá-lo interpretando mensagens, e usa a raiva com o seu principal combustível. Vamos dar-vos um exemplo breve e obviamente ridículo: Estais a dar um jantar e um dos vossos convidados atravessa a mesa para pegar o sal, e ao fazê-lo, entorna um copo de vinho. O ego, supostamente deve funcionar, na sua adequação, entregando uma mensagem ao vosso Eu Interior. Um copo de vinho é entornado e vinho derramado sobre a toalha. Esta pessoa é quem derrama o vinho. O vosso Ser Interior supostamente deve devolver mensagens ao vosso mundo exterior – mudar a toalha, apanhar o copo, comentar de forma a saber como se sente, seja o que for. Em vez disso, o que acontece, em particular no caso da raiva suprimida, o ego entrega a mensagem: “Fulano de tal entornou o copo de vinho, por estar zangado contigo, por estar com raiva de ti por dares uma festa tão bela; por te querer magoar, e sempre pretendeu prejudicar-te, por sempre ter sentido ciúmes de ti e por querer tudo quanto tinhas, e tentar humilhar-te.”

O ego utiliza a raiva e infunde-a como um combustível para interpretar essas mensagens. Assim, em vez de entregar simplesmente a mensagem “vinho foi derramado,” entrega a “razão por que o fez,” com base no sistema de filtragem da raiva, manchando o processo e transformando-o numa coisa que não é. E assim, sugerimos que o ego se nutre bastante da raiva. E uma das forças destrutivas mentais da raiva é o facto de alimentar e aumentar a baforada – o ego! Assim, aqueles de vós que pretendem lidar e trabalhar com o seu ego são os que já decidiram ser o processo que tem sido feito.

Percebei que se suprimis e contendes a raiva, o vosso ego estará secretamente a alimentar-se e a inflacionar-se, a aumentar de tamanho e a tornar-se num monstro, e pode parecer ser algo com que não conseguis lidar. Assim, a raiva é processada quer através do físico, no corpo, ou mentalmente, através do ego, mas é processada!

Uma segunda arena em que a raiva é processada é na área dos vossos êxitos externos, no vosso trabalho, na vossa vida física – essas são áreas em que a raiva é processada. 

Empregados que trabalham convosco, ou para vós, ou para quem trabalhais expressam ou desenrolam as realidades da vossa raiva, e produzem o combustível que alimenta a própria raiva por meio da destrutividade patente na vossa realidade: O aumento que tarda em chegar; a promoção que não é atribuída; o trabalho com que vos sentis entediados e que não suportais; as pessoas com quem tendes de trabalhar e de quem não vos podeis furtar; as contas que jamais são pagas; as despesas imprevistas que sempre surgem quando estais a chagar um pouco mais além; as lutas, as aflições, as dificuldades que tendes com aqueles que vos rodeiam – tudo quanto aparentemente parece surgir do nada, tudo um produto da vosso raiva não expressada, que sub-reptícia e dissimuladamente se processa a si mesma.


Em terceiro lugar, ela surge na área dos relacionamentos. Muitas vezes, a destruição que se dá tanto em relacionamentos amorosos, íntimos como amigáveis são o produto indirecto da raiva não expressada: a esposa ou esposo, a amante ou o amante, o amigo íntimo que involuntariamente entra na vossa experiência e vos expressa o vosso lado negro de volta para vós.

Já falamos disso, tendes tido consciência da qualidade de reflexão da vossa natureza. Por isso, ao olhardes ao vosso redor e notais tanta gente irada e percebeis que se zangam convosco – isso é uma expressão da vossa própria raiva; isso é uma pista, um murmúrio, e como enquanto puderdes atender aos murmúrios não precisareis ouvir os altos brados, assim também enquanto forem capazes de dar expressão à raiva não precisarão desses murmúrios.

Mas isso surge claramente tanto na segunda área dos vossos êxitos como na terceira área dos vossos relacionamentos, onde a raiva não expressada, reprimida, encontra os meios sub-reptícios e dissimulados e maliciosos de se processar a si mesma.

Adicionalmente sugeriríamos que a vossa auto-estima é severamente prejudicada pela repressão ou supressão da raiva. Já falamos sobre as bases da auto-estima, as fontes internas que são primordialmente constituídas pela honestidade, integridade, responsabilidade, e confiança, mas há outros aspectos adicionais para além desses, mas consideremos esses quatro. Se estiverem a reprimir e a suprimir a raiva, não podereis ser honestos convosco próprios. Precisais viver continuamente uma mentira, em resultado do que, essa primordial escolha da auto-estima é erradicada.

Se viverem num estado de repressão e supressão de raiva, dificilmente poderão ter integridade, por a integridade constituir uma interacção espontânea e responsável com a vossa realidade. E decerto que se reprimirem a raiva e se contiverem, embora possam ter-se enganado para chegardes conscientemente a pensar não ter nenhuma, sugeriríamos, com toda a clareza e concisão, que não poderão ser espontâneos – a raiva reprimida fere a espontaneidade, de modo que para serdes íntegros na vossa realidade, para ter integridade, precisais ser capazes de sentir espontaneidade - o que perfaz o segundo factor interno da auto-estima que sofre erosão e é erradicado pela supressão da raiva.

Em terceiro lugar, a responsabilidade. Quanto mais forem capazes de assumir responsabilidade pela vossa realidade, mais capazes sereis de ter poder e auto-estima. Mas se estiverem a reprimir e a suprimir a raiva, que passará a ser processada de uma forma dissimulada, que passará sub-repticiamente a ser deitada para fora, não ireis querer, e tampouco sereis capazes disso, a assumir responsabilidade com base numa posição dessas, pelo que tereis a tendência real para a racionalização, para intelectualizar, para negardes qualquer responsabilidade por o que quer que a vossa raiva possa estar a provocar, e para esse fim, negar, racionalizar, intelectualizar a responsabilidade por tudo quanto esteja a acontecer na vossa realidade – o que representar derrubar o taco primordial da auto-estima interna. E por fim, como poderão confiar em si mesmos?

Para confiardes em vós precisais ser capazes de entrar e sair do vosso subconsciente; precisais recorrer àquela parte subconsciente de vós para que vos supra a informação necessária com base no que definam decisões e acções. Se estiverem toldados pela raiva, não tereis como poder confiar em vós próprios.

“A razão principal por que estou a suprimir a raiva,” direis vós, “é por não confiar em mim para a expressar.” Mas assim, como podereis começar a desenvolver a autoconfiança, se não confiais na capacidade de expressardes a raiva que estais a reter? 

Consequentemente, os componentes principais da auto-estima são postos fora do campo de batalha, são eliminados da vossa realidade, pela raiva suprimida ou reprimida. Consequentemente sentis não ter outra opção que voltar-vos para o exterior, voltar-vos para os outros em busca da vossa validação; procurar fontes externas de validação como fonte da vossa auto-estima.

Já referimos, com toda a clareza, que o que acontece quando vos voltais para o exterior, para as fontes externas, para uma validação externa como fonte da vossa auto-estima, acabais por sentir insaciabilidade que sempre exige mais; acabais por vos sentir altamente competitivos – o que em si mesmo constitui uma forma de raiva; sentis-vos incapazes, e depois sentis ressentimento. Por outras palavras, devido à raiva reprimida, sois incapazes de vos voltar para dentro, sois incapazes de contar com as fontes internas da auto-estima. Para obterem auto-estima, pois, precisam olhar para fora de vós. Mas quando vos voltais para fora de vós em busca dessa auto-estima, acabais por sentir e desenvolver e criar ainda mais ressentimento.

Portanto, em vez de permitirem que a raiva permaneça dormente no seu estado reprimido - entendem – na realidade, o produto da raiva dormente, se é que é termo que possa ser usado, traduz-se pelo facto de provocar erosão na auto-estima, e em seguida produzir mais raiva. Por conseguinte, ela jamais permanece dormente mas está continuamente a crescer.

Contudo, numa outra área em que a raiva se processa a si mesma, é através da arena do amor-próprio e do auto-perdão, como uma quinta arena em que tal processamento ocorre. Se vos sentis irados, sugeriríamos que essa raiva seja sentida em relação a outros ou a vós próprios. Certamente que podem dizer que se sentem zangados com o mundo, ou zangados com as situações ou circunstâncias que vos rodeiam, etc., mas isso na realidade não passa de um encobrimento, uma dissimulação que usais para evitardes ter que lidar com o facto de se sentirem verdadeiramente enraivecidos com as pessoas e convosco próprios, e torna-se muito difícil amar-vos a vós e aos demais, torna-se por demais difícil perdoar, razão por que tendem a reescrever o termo perdão como autocensura, auto-ridicularização, autopunição – o que na verdade é muto destrutivo e uma maneira inepta por que a raiva tende a processar-se.

Também gostaríamos de sugerir que a culpa representa uma das maneiras mais favoritas que as pessoas usam na repressão ou supressão da raiva, e de facto a culpa é uma das maiores formas que as pessoas utilizam como forma de repressão. A culpa em si mesma e por si só é destrutiva, conforme bem o sabem. Haveis de olhar para isso e - fazei-lo - e já o dissemos muitas vezes, e de ver que a culpa é raiva que sentis não ter o direito de expressar. E quando a retendes dentro de vós ela não desaparece. Mesmo quando dizem: “Ah, sinto-me tão culpada,”, ela não desaparece. Quando vos sentis culpados não vos permitis ser bem-sucedidos. Quando vos sentis culpados não podeis acreditar merecer ser felizes e bem-sucedidos. Por conseguinte, sugeriríamos que uma das formas por que a raiva tende a processar-se, de uma forma inepta, é levando-vos a sentir-vos culpados, ao permitirdes e decidirdes sentir-vos culpados!

E por fim, as áreas da depressão. A depressão são as irritações que sentis, mas em relação às quais não vos furtais de vos sentir em apuros, ao expressar. Quando ficais deprimidos, geralmente é isso que se passa, mas não de uma forma consistente. Há certas pessoas que deprimem de uma forma crónica e maníaca, mas nós gostaríamos aqui de sugerir que em grande parte a depressão é raiva em relação à qual sentis ficar em apuros se a expressardes. NO estado de depressão podeis ficar paralisados, completamente inerte, e nessa medida, as grandes depressões podem levar a uma institucionalização.

Por conseguinte, a raiva é expressado por uma dessas múltiplas formas, e em cada uma delas, em grau variado, a raiva é destrutiva. Então, por que razão suprimis a raiva? Se olharem para essas coisas e as aplicarem directamente à vossa vida, tornar-se-á evidentemente numa maldição, “Eu não quero fazer isso,” certamente. Mas sugerimos que o quereis fazer, e as razões por que suprimis a vossa raiva – e vamos cobrir isso muito rapidamente, dado que já o debatemos – antes de mais devem-se ao facto de terem sido ensinados, o que é por demais óbvio, em criança; recebeis mensagens distintas e claras, da parte da mãe, do pai, dos professores, da sociedade, do governo, da religião: “Não se zanguem! Não expressem irritação!” Por conseguinte, é muito claro, já que recebeis isso durante um período formativo de dezoito anos da vossa vida, e depois daí para a frente, de modo que é algo que vos é ensinado, sem dúvida alguma.

Em segundo lugar, faz parte da imagem masculina e feminina. Os rapazes são ensinados que crescer e tornar-se homem significa estar permanentemente controlado, ser moderado em todas as coisas, jamais deixar escapar da mão, jamais se mostrar emocional ou sensível; pelo que os rapazes aprendem que a maneira de se tornarem homens é jamais expressarem as emoções. Vez por outra, poderão deixar escapar alguma e dar um chuto num cesto ou bater num rosto, etc., mas em grande medida, devem deixar isso dentro deles e mostrar-se equilibrados. As pessoas assim são temperamentais, dizem, e desequilibradas. São chamadas de demasiado sensíveis ou seja o que for.

Parte do simbolismo masculino é ser calmo e senhor de si, e a forma por que as pessoas tendem a conseguir isso é pela supressão da raiva. As mulheres não têm melhor sorte. Porque parte do simbolismo que vos é passado em criança é a de que as raparigas são doces e simpáticas e fechadas, e jamais se chateiam, jamais berram, porque as que têm comportamentos desses são cabras, agressivas e dominadoras. Assim, quer sejais rapaz ou rapariga, ou uma criança que vai crescer e tornar-se num homem ou numa mulher, são-vos transmitidas mensagens muito distintas como parte e parcela do pacote da vossa identidade masculina ou feminina. Por não terdes o direito nem razão, e serdes castigados se expressardes a raiva.

Em terceiro lugar diríamos que religiosamente é-vos ensinado isso em criança mas apropriadamente em adultos vós captai-lo espiritualmente. As filosofias orientais indicam fortemente que deveis elevar-vos acima da raiva e que jamais deveis sentir raiva. A maior parte da abordagem ocidental, assim como a da metafísica igualmente, adoptou a mesma ideia, ou adoptou as próprias ideias em termos diferentes, mas basicamente dizem para não vos zangardes; e que a medida da vossa espiritualidade assenta na capacidade que tendes de vos mostrardes calmos e senhores de vós diante da ira e de dispensardes amor; não se exponham, não expressem a raiva, não expressem a fúria e respondei, em vez disso, com amor. Óptimo, diríamos nós; isso soa perfeito. Só que não o conseguis praticar!


O que queremos dizer com isto, a razão por que o dizemos é a seguinte: Entre vós e a pessoa com quem estais a lidar existe a vossa aura, está bem? Isso é bastante aceite nos termos do campo de energia que vos rodeia o corpo. Agora; tudo quanto emitis a partir de vós, tem que passar pela vossa aura, certo? Sim, por certo que compreendeis isso. Tudo quanto emitis passa pela vossa aura e pela da pessoa, aliás. Se a vossa aura estiver repleta de raiva e de fúria e de hostilidade, podereis bombear tanto amor quanto quiserdes que ele vai ser maculado e tingido, poluído pela raiva. E consequentemente ireis alvejá-la com o amor, mas o que acabareis por conseguir é golpeá-la com o vosso xarope de raiva. 


E a raiva pode constituir um xarope se deixada por integrar, e pode parecer tão amorosa e doce que isso é quando as pessoas a utilizam como um taco, quando alguém se irrita convosco e vos diz que fizestes algo errado e ficais furiosos, e em vez disso devolveis-lhe um sorriso meloso e teatral e dizeis: “Eu adoro-te!” E pelos céus, que se não levais logo um soco no nariz é porque a pessoa revela uma enorme dose de coibição – por não lhe terem devolvido amor mas uma raiva melosa e adocicada.

E como conseguis entender o conceito da aura, que todos conseguis compreender até certo ponto, quer saibais totalmente o que quer dizer ou não, se ela estiver contaminada, e emitirdes qualquer coisa – amor felicidade, alegria, isso irá ser captado como cotão, toda essa raiva. Assim, achamos que se trata de um termo impróprio sugerir que as pessoas de espiritualidade jamais se irritam, e diríamos que as pessoas de espiritualidade lidam com a raiva e expressam-na de forma apropriada, limpa, de modo a não provocar mágoa nem destruição.

Isso envolve todo o conceito do desapego, entendem, pois muita gente interpreta erroneamente o desapego espiritual como indiferença. O desapego significa que não vos afecta, e isso não significa tornar-se indiferente pela negação da sua existência. Se alguma coisa vos deixar zangados, a pessoa que sente pseudo desprendimento irá dizer: “Não, não me incomoda, eu não me importo; não, não me sinto irritado, estou só a enviar amor, eu entendo, é formidável,” etc., etc., etc.

A pessoa verdadeiramente desprendida dirá: “Sim, estou irritada, na verdade estou verdadeiramente chateada, e tenho que expressar esta raiva e tratar dela, e processá-la. Mas não vou permitir que me passe uma rasteira, não vou deixar que me provoque um dia péssimo, nem vou deixar que te castigue, por estar zangada com aquela pessoa acolá.” A pessoa que sente indiferença, ou pseudo desprendida, irá dizer àquele que a tiver deixado irritada: “Não, não estou irritado. Estou somente a enviar-te amor,” e irá voltar costas e levar consigo a raiva, e despeja-la em alguém mais. Quando olhais isso, será isso verdadeiramente espiritual? A pessoa a quem a raiva é dirigida fica impune. Vós pegais na raiva e ides golpear alguém com ela. Dificilmente sugeriríamos, nem tampouco presumimos que sugeririam que isso seja muito espiritual. Mas conforme conseguem compreender e ver como isso acontece, então também compreenderão que o verdadeiro desprendimento significa colocar a raiva onde ela deve ficar, a depois terminar com ela, e avançar. E é rumo a isso que estais a avançar, ou pelo menos devia ser, mas por não entenderem que tendem a suprimir a raiva pensando estar a ser espirituais.

Além disso, sugerimos que uma outra razão por que as pessoas suprimem a raiva é por não terem que a processar. Pensam que a raiva seja berrar, gritar e vociferar, e bater, e ter que pegar um quarto para dar uns berros, etc. Mas porventura isso serão métodos de exprimir raiva. Pessoalmente não achamos que resulte lá muit0o bem, mas sugeriríamos que existem métodos, mas devido a que as pessoas não entendam por completo a forma de expressar a raiva que sentem, tendam a suprimi-la e a não querer ver-se como uma pessoa irada e desagradável que berra e grita e vocifera a toda a hora. E nós compreendemos que ninguém queira ser assim, mas tampouco alguém precisará ser assim, por haver muitas maneiras que, uma vez entendidas, talvez vos permitam que expresseis a vossa raiva suprimida e reprimida.


Uma quinta razão porque as pessoas suprimem os sentimentos se deve ao facto de as fazer sentir-se vivas – de uma maneira errónea – mas fá-las sentir-se vivas. É como se a mantivessem dentro delas, e não quisessem desistir dela por gostarem da raiva que sentem, gostem de sentir-se iradas, por ela lhe conferir uma sensação de vitalidade e uma sensação de motivação. “Eu estou tão irado que vou tratar de ser bem-sucedido, e procurar vingar-me dos pais, dos amigos, da esposa, do esposo, etc.” Assim, magoados com um relacionamento utilizam a raiva como motivação para tratarem de descobrir um outro, uma realidade do tipo: “Eu vou-lhes mostrar!”


A raiva também vos motiva e incita - ou assim não o penseis – e nessa particularidade, o que pensais torna-se na vossa vivacidade, e sentis medo de desistir: “Vou-me sentir entediado, letárgico, vou andar para aí sentado sem fazer nada.” É claro que não é assim, mas isso traduz o sentimento que tendes.

A sexta razão é que ela sustenta o ego, sustenta o ego que “É melhor do que,” e mantém o ego do “Menos que.” Qualquer deles dá no mesmo, por envolver o mesmo ego. “Se eu não puder ser o melhor, vou ser o pior,” não é? E esse modo alcançar uma certa posição a partir daí. E é onde isso encaixa, na sustentação, por o nutriente do ego constituir a vossa raiva suprimida – não a raiva! – a raiva suprimida é que representa o nutriente do ego. E por fim constitui uma forma errónea de poder, por muita gente definir o poder como “poder sobre algo”, controlo, de modo que se reprimirem a raiva que sentem e a mantiverem sobre a vossa cabeça com ameaça: “Cuidado ou eu irrito-me! Tem cuidado que esta raiva destrutiva ainda te atinge!” A abordagem da arma secreta; “A raiva é a minha arma secreta, uma arma de último recurso.” O único problema das armas secretas é que têm que ser mantidas secretas, e o único problema das armas de último recurso é que não funcionam bem: “E se não causa a devastação esperada? E se a minha raiva não se mostrar horrenda e monstruosamente repulsiva?”

Em todo o caso, as pessoas agarram-se a isso, em termos de: “Eu quero ser poderoso.” E usam a raiva que sentem como modo de ameaça: “Deixa-me ter poder, ou eu descarrego raiva por ti abaixo.” Isso operou no caso de muita gente durante muito tempo. De facto muita gente rotula aqueles que sentem verdadeiramente raiva, e chama-lhe poderosos: “Aaah, ela é uma mulher poderosa! Ah, não, ele é tipo poderoso!” O que na verdade transmitem é: “Pelos céus, eis uma mulher irritada e um homem enraivecido, mas por causa desse termo impróprio estar em voga, chegam a uma situação clara em que as pessoas pensam que agarrar-se à raiva represente uma maneira de serem poderosos, razão porque não vêem por que hão-de desistir dela. E assim, sete razões específicas por que vós, ou as pessoas que possais conhecer possivelmente reprimem a raiva.

Uma outra razão rápida deve-se ao facto de gostardes. Sabe bem, é divertido, as pessoas têm prazer em andar irritadas, mas com base no conceito de “voltar ao lar”, querendo com isso referir-nos ao desejo que tendes de regressar àquele estado de consciência que sentistes de uma forma especialmente específica em criança. E se em criança a raiva era a emoção mais predominante, então querereis sentir-vos irritados por ser uma recordação nostálgica de coisas que passaram durante a vossa infância. E por conseguinte as pessoas sentem prazer na raiva que sentem, gostam do que ela provoca, sentem-se bem com ela, e assim estão dispostas a suprimi-la e a depender dela.

Se olhardes para essas áreas e compreenderdes qual o mecanismo particular que se vos adeqúe, esperamos que chegueis a um ponto - e efectivamente vejam a importância do facto da raiva, uma vez suprimida, poder ser totalmente destrutiva – em que decidais sair dela, que a liberteis. Mas as pessoas defendem a ira ferozmente e de um modo flagrante, por meio do que chamamos de compensações, dos investimentos que fazeis ao dependerdes dela. E existem sete áreas de investimento.

Antes de mais, com raiva conseguis evitar muita coisa; conseguis evitar responsabilidade pelas vossas acções. “Mas eu sinto-me irritado!” é o que frequentemente é dito. E podem andar por aí a magoar e a fustigar as pessoas, podem portar-se como pessoas autocentradas e egoístas e ser tão antipáticos quanto quiserem, e se alguém as chamar à atenção, podem dizer: “Ah, creio que me sinto tão irritado, sinto tanta irritação em mim que não o consigo evitar.” etc., como uma desculpa. 


E assim, conseguis evitar ser responsáveis, e conseguis evitar ter que vos comportar. E colocaríamos a coisa muito sucintamente nos seguintes termos: Não tendes que vos comportar, como os outros, porque o facto de vos sentirdes irritados torna o vosso caso num caso especial. Também conseguis evitar o impacto, por a raiva tender a anestesiar e a ensurdecer qualquer impacto que exerçais e qualquer impacto que as pessoas tenham em vós. E ao vos recusardes a admitir que sentis muita raiva, quando alguém vos diz: “Tu irritas-me,” não acreditais na pessoa: “Não, não; não irrito nada.” Também conseguis evitar que exerceis na pessoa, e o impacto que exerce em vós, ao longo dessa linha, e ao descobrirdes com irritação que podem ser magoados por vós, e que podem estar aborrecidos convosco e dizer-vos e ficardes zangados e aí todo o mundo pára. De modo que utilizais a vossa raiva de forma a deflectirdes o sentimento de toda gente, e desse jeito conseguis evitar a responsabilidade e o impacto e conseguis deflectir.

Em segundo lugar conseguis punir. Conseguis punir os pais e dizer: “Olha o que me fizeram.” Sentis todo esse sufoco contra eles: “Eu sou uma pessoa irritada, e por que razão pensais que o seja?” “Supões que isso tenha alguma coisa que ver com a forma como foste educado, e a tua mãe e o teu pai te tratou? Para supores que o sol surja durante o dia?” Sem dúvida! Tendes todo esse desejo de punir. Também conseguis castigar um número infinito de pessoas ao longo do caminho. Professores, patrões, amigos, amantes: “Sinto ser uma pessoa irritada por me terem deixado desse jeito, por causa do que me fizeram. Magoaram-me tão profundamente que agora não consigo ultrapassar a raiva que sinto. Passei por um período de tal forma horrível no meu primeiro casamento, ou no caso de amor que tive aos dezasseis, e a raiva que sinto é de tal forma que simplesmente não desaparece, e mais parece um poço sem fundo.” Não é verdade, em absoluto, estais a optar por acreditar nisso, de modo a ainda serem capazes de punir. “Porque estás tão zangado?” “Bom, deixa que te conte tudo acerca da minha primeira mulher. Deixa que te conte tudo sobre a infância que tive. Deixa que te conte o quão horrível foi a escola que tive, e os meus amigos foram para mim quando estava no quinto ano…”

Choramingais sobre as vossas histórias de há vinte e trinta anos atrás. De imediato, se alguém vos sugerir: “Tu estás zangado,” o que deixa ver com toda a clareza que quereis fazer isso, e que dificilmente conseguis conter o “prurido” para poderdes contar a história, de forma a poderdes castigar.

Juntamente com essa punição, porém, alguns de vós são carinhosos. Mas o que sugerimos é que, se os vossos pais manifestaram ira, se tiverdes percebido a mensagem sobre a razão por que terão sido necessários foi para poderdes lidar com a raiva que tendes, então com base no amor e com base na tentativa de defender esse amor e apoio que sentis por esses pais, com base nessa lealdade e amor podeis de facto agarrar-vos à raiva quê sentis, defendendo-vos contra um abrir de mão, com toda a certeza.

Em terceiro lugar, a justiça da raiva. Sugerimos várias razões para a terdes suprimido: por terdes aprendido isso, e não ser suposto espiritualmente, etc. E realmente não é bom sentir raiva – a menos que possais sentir raiva com justiça. Alguém vos pisa os calos, e como podereis sentir-vos irritados, embora o sintais? Mas se alguém vos pisar os calos dez vezes, ou vos quebrar os dedos do pé e isso vos levar ao hospital e a uma consequente amputação do pé, então de certeza que podereis sentir-vos enraivecidos. Nesse caso, entendem, o que acontece aqui é que, por terdes medo de expressar as irritações quando elas são irrisórias e as manterdes e lhes dardes importância e criardes um depósito de raiva justificada, depois um dia qualquer um idiota qualquer vai surgir e acidentalmente dar-vos um encontrão, e ela vai libertar-se toda e ides descarregar tudo. E a seguir, durante três ou quatro anos vão continuar a acumular, para depois surgir outro idiota qualquer que não causa ameaça realmente nenhuma e em relação a quem nem vos importais, e vai ser quem vai levar com ela.

Mas vós gostais da rectidão moral (do moralmente justificável) e como tal não estais dispostos a abrir mão dela; não estais para vos livrar da raiva que sentis, etc., por ser demasiado divertido mantê-la e acumulá-la nesse depósito de virtude moral. Além disso serve como garantia: “Hei, é tarefa que me diz respeito, e mantém as pessoas à distância, assusta as pessoas e leva-as a fazer aquilo que quero, permite-me que as manipule; porque deverei desistir dela? Porque deverei abrir mão da raiva que sinto? Que se situará do outro lado dela? De que outro modo enfrentarei a vida, se toda a gente me passar por cima? Se não dispuser desta raiva reprimida como espinha dorsal em que me apoie erecto, não me tornarei numa medusa que alguém pode ter à mão, etc.”
Mas sugerimos a presença de uma obstinação inabalável: “Não, não, não; eu compreendo porque seja importante abrir mão da raiva mas precisas convencer-me de que no outro lado seja melhor, antes de o fazer.”


Em quinto lugar sugeriríamos a autocomiseração: “Pobre de mim, olha o quão irritado estou; pobre de mim, olha o quão a vida pode ser terrível.” Mesmo quando não sabeis estar com raiva; muitos são os que carregam muita raiva. Fazem-no através do juízo, do julgamento que fazem delas próprias e dos outros; fazem-no através da autopunição, sem dúvida, e do castigo dos outros, conseguis isso por intermédio do xarope de doçura, conseguem-no através da retenção do amor, da retenção da comunicação, ao não dizerem às pessoas quilo que realmente pensam, ao serem desleais – tudo isso são formas de raiva em grau diversificado. Ao fracassarem, ao fazerem com que as suas vidas não funcionem, ao se tornarem vítimas; na realidade isso são formas de raiva.


Mas sugerimos que mesmo quando as pessoas não sabem que a têm e não fazem ideia do que esteja a suceder, e sentem um monte de autocomiseração de que colhem um monte de compensações. Se a raiva que abrigardes não for algo que conheçais e vos leve constantemente a perder empregos e os leve constantemente a envolver-se em problemas no emprego, podem lamentar o facto: “Pobre de mim, não consigo manter-me num emprego.” Em vez de reconhecerem que se deva ao facto de sentirem tanta raiva e de não a expressarem, que todavia se faz presente.


E sugeriríamos que as pessoas deparam-se com situações de violência; as pessoas envolvem-se em situações de violência. Muitas vezes podem não especificar o tipo de violência por recearem que as pessoas as assumam de modo demasiado literal em termos de: “Ah. Qualquer pessoa que apresente isso é mesmo uma pessoa enraivecida.” Não. Mas muitas vezes na vossa vida a violência que vos acontece ou que quase vos acontece constitui um produto directo de uma raiva que recusais reconhecer. E em vez de a verem como raiva chegais a sentir pena de vós próprios e assumem a compensação da autocomiseração.


Depois há a importância pessoal, e muita gente usa essa raiva como forma de se vangloriar da importância pessoal que tem, da imagem sexy que adopta, etc.

E por último há o medo da perda. “Se abrir mão da minha raiva, que é que vou perder? A raiva que estou a suprimir. A primeira coisa que vou ter que fazer é reconhecer tê-la, e por conseguinte, uma coisa que vou ter que perder, para desistir dessa compensação é da imagem. As pessoas vão ficar a saber que sou uma pessoa irada. As pessoas vão ter que perceber - eu próprio vou ter que perceber isso, e rebentar com a minha própria imagem. Consequentemente, a parte de mim que gosta de fingir que sou uma pessoa espiritual, amorosa e benemérita, simpática, etc., vou ter que a romper por mim próprio, e desse modo, a compensação, a primeira coisa, é que tenho medo de perder a imagem.”


Em segundo lugar, ides perder o controlo, o controlo do medo e o controlo da manipulação, o controlo da ameaça, do poder superior que tendes, e do qual ides precisar desistir. E sugerimos que isso represente uma perda avultada para muitos, ou não o pareça. Na verdade quando olhais para o crescimento, não ides fazer passar a ideia do que conseguistes, mas o que sugerimos é que quando olhais para isso, podereis perceber com uma maior clareza e concisão que não é atrás desse tipo de poder que estais, e que esse é o topo do poder em que ficais solitários. Esse é o tipo de poder que representa a parte solitária do crescimento, etc. A parte que sempre envolve dificuldades e sofrimento. O verdadeiro poder, a capacidade de agir, a capacidade de criardes a realidade que quereis não se sobrepõe a ninguém. E esse tipo de poder é carinhoso, muito sentido, pleno e abundante e não vazio nem oco, nem solitário. Mas tendes que desistir do controlo e de desistir desse falso sentido de poder. Além disso há o medo de terdes de desistir de amizades: “Se entrar em contacto com a raiva que sinto, então vou ter que a expressar às pessoas, e as pessoas não irão gostar de mim.” Sugerimos que isso representa um risco. Tereis daqueles ao vosso redor a quem agora chamais de amigos que, assim que começardes a expressar a vossa verdadeira raiva de uma forma sincera, não irão gostar disso, e que não irão ser vossos amigos. Mas o que nós sugerimos é que uma pessoa assim não é vossa amiga desde logo. E se aqueles em quem confiais como amigos íntimos que, não conseguem aceitar a raiva que sentis, então não merecem que os tomeis por amigos. Enquanto sentirdes a vossa raiva de uma forma honesta, obviamente que podeis ser pessoas maliciosamente obedientes aqui, e sórdidas e sujas, e castigar os outros com a vossa raiva, e dizer: “Mas ele disse…” Não, não dissemos nada!


Se sentirem raiva de uma forma honesta, ela não prejudicará nem irá ferir quaisquer amizades. Na verdade, uma raiva honesta edificará amizades. Se forem honestos em relação à raiva que sentirem e perderem amizades, não tereis perdido coisa nenhuma. Se forem vis em relação à raiva que sentirem, bem que poderão manter muitas dessas “amizades", por elas prosperarem na manipulação, mas as amizades sãs, essas perdê-las-eis. E por conseguinte, sim, bem que podem ter que se confrontar com a perda de amizades, mas quando as puserdes num âmbito mais alargado daquilo para que vos encontrais nesta realidade – para edificar amigos para que, quando morrerem nesta encarnação, poderem proceder à lista do número das pessoas que conheceram, à lista do número de recursos que usaram, à lista do número daqueles de quem tiraram proveito? Ou encontrar-se-ão nesta vida para aprenderem, para crescerem, para se expandirem, para aprenderem a amar-se a si mesmos e a expressar esse amor na vossa realidade e nos outros por meio da partilha com eles? O que nós sugerimos obviamente é a última afirmativa. Por conseguinte, podeis perder alguns amigos, certamente que sim, mas não vale a pena destruírem-se por causa desses amigos. Assim as compensações existem, importa trabalhar com elas e é importante compreender, e a forma de libertarem a raiva passa pela compreensão das compensações.


O que muitas vezes acontece às pessoas, é que chegam a perceber: “Muito bem, de facto preciso expressar a raiva que sinto, e vou faze-lo.” E fazem-no. E utilizam várias técnicas para processar a raiva, mas seja como for ela não desaparece e nunca chegam a libertá-la por completo, pelo que sugerimos que elas protegem-na. A raiva constitui uma emoção de tal modo pegajosa, que mesmo quando reconheceis as razões e as compensações que derivam da sua supressão, muitas vezes precisam voltar atrás e averiguar: “Muito bem, que compensações colherei do facto de lhe dar guarida?” E a diferença patente na supressão da raiva destina-se a fingirem que não a sentem; acolher a raiva é senti-la e expressá-la repetidas vezes sem jamais o terminarem. De modo que cinco anos mais tarde ainda vos sentireis com a pessoa que vos pisou nos calos. Ainda vos sentireis irritados com algo que alguém vos tenha feito, há seis meses, embora lho tenham deitado à cara cento e cinquenta vezes, e toda a vez que estão juntos, repetidas vezes. E depois tentam mostrar-se sinceros e abertos, etc.


Muitas vezes deixam-vos: “Tudo bem, estás enfurecido, conta-me de novo; quero ouvir uma e outra e outra vez.” Mas vós albergai-la, e há todo um conjunto de recompensas da mesma categoria; descobri o que porventura estão a evitar ao albergarem essa emoção.

“Agora estou a expressá-la mas não a vou soltar; eu uso-o como um yo-yo ao atirá-la e ao puxá-la de novo para a próxima vez. Que estarei a evitar? Quem estarei a punir por isso? Porque ainda quererei sentir-me justo, que valor terá a justiça para mim. Por que tipo de garantia estarei eu a preservá-la? Ainda sentirei assim tanto prazer na autocomiseração? Ainda quererei a importância pessoal que me leve a sentir-me importante ao fazer os outros “dar corda aos cordões,” levá-las a ter medo de mim?” Haverá receio de perder – o quê? Controlo? Certamente que não será a amizade, nem a imagem, por estarem obviamente a perder essas coisas ao darem abrigo à emoção.


Por isso, há todo um conjunto de recompensas aí, mas muitas vezes, se libertarem a raiva adequada e apropriadamente poderão evitar essa situação de se verem atolados na emoção. Assim, como conseguir isso? Antes de mais, gostaríamos de sugerir que é através da meditação; meditando na raiva. Sugerimos que a forma de conseguirem isso é a seguinte, que opera da forma mais efectiva: Se tiverem uma multiplicidade de acidentes sobre os quais queirais expressar a raiva que sentem, sugeríamos que fizessem uma lista, mas se tiverem apenas uma coisa sobre a qual quiserem descartar a raiva, descobrem: “Sinto-me mesmo furioso em relação a algo e quero-a processar através da meditação.” A primeira coia que fazem é sentar-se com um papel e uma caneta e anotar o incidente, o que acontece. Não numa declaração melodramática mas de seguida, uma lista cronológica, até compreenderem e recordarem todos os detalhes do sucedido. Tenham consciência do momento em que ocorre. Será alguma coisa da vossa infância? Quando estavam com dez ou onze anos? Será alguma coisa ligada à mãe ou ao pai, há muito tempo atrás? Será alguma coisa do momento? Independentemente de quando tenha sido, tornai-vos na pessoa que sentiu a raiva.


Por outras palavras, se tiver sido um incidente de quando tinham de quando estavam com dez anos, de que não conseguem sair, que não conseguem libertar e continuam a suprimir, etc., não tentem tornar-se no adulto ao regressar atrás e fazer isso, mas entrem no estado de meditação e tornem-se no catraio de dez anos. A dramatização opera na perfeição, entendem, e muitas formas de terapia assentam na dramatização: “A tua mãe está sentada naquela cadeira; grita-lhe até lhe mostrares o quanto a odeias,” etc. A coisa está em que adultos não sentem essas coisas; não querem matar a vossa mãe; não a querem estrangular, nem pontapeá-la na cara, etc. mas o catraio de dez anos que é o impulsor dessa raiva pode mesmo desejar tal coisa. O catraio pode sentir-se tão furioso que pode ter vontade de estrangular e de estripar, e ver os olhos saltar-lhe e todo o género de coisas dessas com detalhes sangrentos. Para o adulto parece vergonhoso e estúpido e idiota, e para o adulto é.


Mas o que pretendemos sugerir com isto é que se conseguirem comunicar com isso, em vez de desempenharem a dramatização do papel, no sentido tradicional do termo, entrem numa meditação, regressem a esse período, e aí expressem a raiva a partir dessa situação – do catraio de dez anos que se sente tão furioso que tem vontade de correr pelas ruas e apertar um pescoço de tal forma que os olhos saiam das órbitas, por isso para ele fazer sentido. E poderá ser, portanto, libertado. E a forma de o conseguirem é primeiro escrever sobre isso, e em segundo lugar...



E após se terem tornado na pessoa que sentiu essa fúria tão fortemente, desempenhem-na da maneira que aconteceu, lidem com ela da forma que o fizeram – suprimiram-na, negaram-na, voltaram-na para dentro – o que quer que tiverem feito com essa fúria que tenha sido erróneo e que a tenha agora mantido no estado de supressão, representem isso da maneira que tenha ocorrido, mas em vez de darem isso por terminado aí, e de concluírem a meditação, voltem atrás a uma reprodução instantânea. Só que desta vez permitindo-se expressá-lo da maneira que desejaríeis tivessem, se tivessem querido gritar e berrar, pontapear e cuspir, permitam-se fazer isso.


Por meio desse mecanismo, poderá resultar de modo efectivo. Quando concluírem de meditação, então anotem uma frase ou duas, não sobre o que tiverem feito mas sobre o que sentiram ao faze-lo: se se sentirem bem, óptimos, ou sentem-se culpados agora, ou sentem que algo de terrível lhes vá acontecer, o que quer que seja – positivo ou negativo – e aí obterão algo com que poderão trabalhar. Essas duas frases dir-vos-ão porque possivelmente poderão estar a abrigar essa emoção, ao contrário de terem terminado com ela. Poderão ter que o fazer duas ou três vezes relativamente a um incidente particular, mas quando por fim saírem disso e sentirem a liberdade com sinceridade, então saberão que a terão libertado. Uma das maneiras mais poderosas e eficazes no processamento e libertação da raiva.


O segundo método é o que chamamos de carta do ódio. Sugerimos que as cartas do ódio constituem um fenómeno interessante; são cartas que não chegam a remeter. Se estiverem furiosos com alguém, com o patrão no trabalho, mas sabem que se chegarem junto dele e lhe disserem que estão furiosos com ele serão despedidos, então não façam isso. Redijam uma carta de ódio em vez disso. A designação “Carta do Ódio” frequentemente soa demasiado forte, e queremos dizer que seja: “Caro fulano de tal, estou a escrever-lhe para que saiba do quanto estou zangado consigo, como estou chateado, como o detesto.” E a seguir escrevem a carta; duas, dez páginas, ou o que for, simplesmente deixam que saia do vosso íntimo. Jamais irão remeter-lhe a carta, de modo que sejam tão honestos quanto puderem, mas não mintam. Não ponham nela nada que não corresponda à verdade, como o facto de o detestardes tanto que o desejarias ver morto – a menos que corresponda ao que efectivamente sintam. Se o sentirem, escrevam-no sem o condenar, mas não… (Inaudível).

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