sexta-feira, 16 de agosto de 2013

SOBRE A MÁGOA


Transcrição e tradução: Amadeu Duarte

Antes de poderdes curar ou libertar a dor, precisais compreender o que é e o que não é. E como trabalhar a dor. Isso soa relativamente simples, mas há vários obstáculos que se interpõem no caminho, o primeiro dos quais é, porventura, o que aprendestes em criança. Foi-vos ensinado a não sentirem dor. Também vos ensinaram a manipular com a dor falsa.

Quando vos achais fisicamente feridos, talvez, para citar uma expressão corrente, “Um abraço e um beijo, e já está tudo melhor,” seja tudo quanto é realmente necessário. Todavia, a vossa mágoa emocional, geralmente é tratada com uma atitude do tipo: “Não te sintas assim,” ou um provável: “Não devias sentir-te assim.” A maioria dos pais não sabe lidar com a própria dor, e decerto que não vão começar a aprender às vossas custas. Ao mesmo tempo assistíeis ao mundo a manipular e a alegar todo o tipo de dor.

Um segundo obstáculo significativo é a vossa própria sociedade, que exerceu uma enorme influência na compreensão e no trato da dor, ao difundir as mesmas mensagens de que não devíeis, ou não podeis senti-la. A sociedade foi mais longe: ao reprimir a dor ao chamar-lhe uma fraqueza, e ao sugerirem que aqueles que a sentem, exibem e expõem com toda a clareza a sua própria fraqueza. Mas também ao insinuar essa dor prolongada com base numa questão qualquer ou em vários danos subordinadas a diferentes questões como que de certo modo beirando a insanidade. A sociedade optou por fazer vista grossa, ou tentou isolar a dor.

Em terceiro lugar, o chauvinismo também teve um impacto profundo na dor, na definição que teceu da imagem: “Para serdes um homem, não podeis sentir dor ou ser ofendidos.” Para serdes uma mulher, não tem mal que vos sintais magoadas, mas o preço que tendes que pagar para tal, é o de aceitardes que essa mágoa constitui um outro exemplo da fraqueza inerente de que padeceis. De facto se uma mulher se mostrar suficientemente presunçosa para querer ser igual, tem que perder o seu direito de se sentir magoada.

Em quarto lugar, o movimento do potencial humano ou o próprio movimento metafísico tiveram também a sua influência, por intermédio de um conjunto de definições erradas sobre o desapego. É suposto que todas as emoções desagradáveis sejam consideradas, em especial a raiva, e de forma mais incisiva e especial, a dor.

Tal como sugerimos que a dor constitui um tanto um assunto e um sentimento tabu, é igualmente verdade que a dor é um sentimento que é usado de um lado para o outro demasiadas vezes, e dessa forma torna-se num utensílio de manipulação, usado para controlar. Assim, negais a dor, quando ela é real, e muitas vezes reclamais a dor, quando não é real. Afinal, quantas vezes terão feito ou não terão feito determinada coisa, dizendo que não queríeis magoar ninguém ou a vós próprios, quando na verdade não terão verdadeira vontade de fazer ou de deixar de fazer isso desde logo? Quantas vezes os vossos próprios receios e joguinhos tomaram precedente sob o pretexto de não querer magoar ninguém? Quantas vezes reclamastes mágoa para negar os verdadeiros sentimentos que tendes de raiva ou de fúria, de frustração ou de medo – só para proteger a imagem do vosso ego, ou para controlar os outros? Tal como as pessoas negarão a dor quando ela é real, também negarão a dor quando ela não tem realidade.


Magoar como uma acção é causar dor conscientemente; causar prejuízo conscientemente; causar angústia. Pode ir da causação manipuladora da dúvida sobre si mesmo, até à sabotagem agressiva. Ser magoado, pela passiva, é sentir dor de uma forma sincera, ser prejudicado sinceramente e sentir com sinceridade a angústia do sofrimento. 

Similarmente, pode ir do facto de se ser manipulado na dúvida sobre si mesmo, até ser-se sabotado de um modo agressivo. Podeis causar sofrimento a vós próprios e aos outros conscientemente; podeis ser magoados, por vós próprios e pelos outros, sinceramente. Isto soa tão completamente simples, mas para a maioria negar por completo a existência da dor, ou usá-la falsamente para poderem controlar, torna-se importante deixá-la entrar. Na vossa realidade, podeis receber activa ou passivamente dor - e podeis mentir sobre isso!

Para o pôr em termos ainda mais básicos, sempre que usam de manipulação, provocais dor; quando usais de uma manipulação consciente, estais a magoar de forma consciente; quando permitis ser manipulados, estais a permitir-vos ser magoados; quando conscientemente permitis a manipulação, estais conscientemente a permitir-vos ser magoados. Quando não usais de manipulação, não chegais realmente a causar dor. Podeis provocar raiva, medo, constrangimento, desapontamento e uma miríade de outros sentimentos que podem chegar perto ou parecer-se à dor; porém, se o fizerdes com sinceridade, não será dor verdadeiramente o que estareis a causar.


Podereis afirmar que seja dor, mas se a não sentirdes sinceramente, não estareis a dizer a vós próprios a verdade. Quando manipulam provocam dor; quando manipulais de forma consciente, estais a magoar conscientemente. Quando vos permitis ser manipulados, estais a permitir-vos ser magoados. Quando conscientemente permitis a manipulação, estais conscientemente a permitir-vos ser magoados. Isso é tão importante de ter consciência, tão importante de recordar, por tantas vezes saberem que estão a fazer algo em termos de manipulação e justificam-no dizendo que os fins justificarem os meios, e dizendo que não os magoareis por eles não virem a saber, mas magoam-nos; por que sempre que manipulardes estais a magoar, e vós sois responsáveis por essa dor que causais. Uma pequena manipulação porventura significará uma pequena dor, mas dor ainda assim.

Similarmente, se alguém vos estiver a manipular, estarão a provocar-vos dor. E se tiverdes consciência de estarem a manipular-vos tereis a responsabilidade de tentar deter a manipulação, ou de recuzar ser manipulado pela acção deles. Por que quando vos permitis ser manipulados estareis a permitir-vos ser prejudicados e quando o fazeis de forma consciente, estais conscientemente a permitir-vos ser prejudicados. Quando não manipulais, não provocais dor.

Esta é uma afirmação difícil por haver alturas em que podeis imaginar aquelas situações hipotéticas que podeis provocar, e em que podeis ver como sendo sinceros e dizendo a verdade e fazendo-o de uma forma honesta, alguém pode ver-se ferido nos seus sentimentos. Bom, talvez se vejam, e o termo eufemístico para o sentimento do que sentem pode muito bem ser dor, mas na verdade é de uma natureza diferente. Quando é provocado a partir do respeito próprio e da honestidade e se gera uma consequência não intencional – verdadeiramente não intencional – o mais provável é que a pessoa sinta raiva, desapontamento, rejeição porventura, humilhação ou constrangimento, um número qualquer de sentimentos que de certeza não são agradáveis, e que decerto serão sentimentos que não gostareis de produzir nos outros, mas torna-se importante estabelecer esse traço de distinção de não ser prejuízo o que estais a provocar quando não estais a manipular.

A pessoa pode alegar isso, e pode sinceramente pensar que seja, mas na verdade não está ferida; poderá sentir qualquer das outras coisas, mas não estará a sentir dor. Se quiserem saber se alguma coisa fizerem interiormente irá magoar alguém, perguntai a vós próprios primeiro se será uma manipulação. Se se tratar de uma manipulação, sabei que ides provocar dor quer saibam disso ou não, quer alguma vez venham a ter consciência da manipulação ou não.


 Se não brotar da manipulação não os magoareis, e podereis então avançar e assumir responsabilidade por quaisquer sentimentos que produza neles, mas podeis ficar bem certos de que não estais a magoar em tais circunstâncias. Esperamos que penseis nisso e o considereis, e em vez de buscardes exemplos que provem que não é assim, em vez de tentardes descobrir situações em que possais escapar com certos comportamentos, sugerimos que olheis para isso e o assimileis e vos permitais compreender a diferença entre a manipulação, como uma forma e situação de dor, e a não manipulação, por isso se encaixar.

O paradoxo do fenómeno da dor, é importante repetir, tal como as pessoas negam a sua dor quando ela é real, também a reclamarão com tenacidade quando não é real. A dor, a mágoa, é uma emoção por que não nos devemos deixar enganar, por de facto poder ser muito perigosa. Se magoardes os outros, ou vos permitirdes ser magoados, ou vos agarrardes a velhas mágoas, estareis a criar o que potencialmente poderá ser uma situação perigosa para vós próprios e para eles.

Em primeiro lugar, mais do que qualquer outra emoção, a mágoa corrói a confiança e o amor. Podeis-vos sentir horrivelmente irritado com alguém, podeis sentir-vos tremendamente desapontados com esse alguém, podeis sentir-vos incrivelmente envergonhados e humilhados com o comportamento desse alguém que isso não precisa influenciar o nível da confiança ou do amor, em particular numa situação tipo raiva. Podeis sentir-vos terrivelmente irritados e podeis confiar na pessoa e amá-la por completo, algo que muitos de vós não compreenderão e que se recusam a compreender. Mas a dor é uma emoção que corrói a confiança e o amor quer o queirais ou não. Podeis querer confiar na pessoa e amá-la com todo o vosso coração que se ela vos estiver a magoar, isso irá corroer essa confiança e esse amor – talvez o não destrua, mas corroê-lo-á.

Se vos estiverdes a agarrar às mágoas do passado que não tenham lugar no vosso presente e estiverdes a agir com base nessa mágoa, a confiança que tiverdes e o amor que tiverdes por vós próprios serão similarmente corroídos, assim como a capacidade de confiardes e de amardes os outros. A mágoa consiste numa emoção perigosa, por mais do que qualquer outra emoção, corroerem a confiança e o amor. Por uma questão de amor, portanto, não é aconselhável que permitais que outros continuem a causar-vos dor. Pois, embora possais pensar ser superiores a isso, na verdade estareis a armar uma situação perigosa em que as acções do outro estarão a minar a vossa confiança e o vosso amor, e a confiança e o amor existente entre vós os dois, serão subsequentemente afectados.

Em segundo lugar a mágoa é perigosa por provocar uma ruptura na identidade. Provoca uma ruptura na auto-estima, no amor-próprio, na autoconfiança e na dignidade própria. Provoca-lhe uma ruptura, não as destrói. Ninguém consegue destruir a vossa identidade; a vossa autoconfiança e a vossa auto-estima e o vosso amor-próprio  e a vossa dignidade salvam-vos, mas a mágoa pode causar-lhes uma ruptura, pode destruí-las e provocar-lhes danos irreparáveis.

Em terceiro lugar, a dor tenta retardar a evolução, ou ameaça-la. Se estiverdes conscientemente a tratar de manipular alguém e por conseguinte estiverdes conscientemente a magoá-la, o que estareis a tentar fazer – muito embora possais não ser bem-sucedidos – o que estareis a ameaçar fazer é retardar a evolução desse alguém. E como toda a função da existência, desde o nível celular ao nível atómico e do nível subatómico acima ao nível de todo o vosso ser consciente, é a do crescimento, uma acção que tenta ou ameace a vossa evolução representa na verdade uma acção perigosa a tomar, uma acção perigosa a permitir; uma coisa perigosa a que se agarrar perpétuamente.

Por fim, a mágoa constituía única emoção que leva tempo a sarar; é uma ferida e precisa curar. A raiva, podeis sentir intensamente num momento, limpá-la, libertá-la, acabar com ela e sentir-vos bem no seguinte. A rejeição, a humilhação, sentimentos dessa natureza que ficam aquém da dor, podem ser terminados de imediato, mas se a dor lhes estiver associada, e em resultado da rejeição vos sentirdes magoados, ou vos sentirdes magoados devido à humilhação, etc., sinceramente e em absoluto levará tempo a sarar. Representa uma ferida e precisa sarar. É por isso que não é tão bom deixar-se perder tempo com ela. Magoar os sentimentos de alguém por via da manipulação de que useis, e mais tardes dizer, a rir: “Peço desculpa, não tinha a intenção, penso que tenha ficado um pouco mais perdido, falei demais; creio que exagerei.” Isso pode estar tudo muito bem e ser óptimo, e constituir uma resposta sincera, mas entretanto tereis provocado uma ruptura na auto-estima de alguém e tê-la-eis dilacerado, e irá levar tempo a curar o vosso exagero, a vossa declaração forjada, o vosso engano, e tereis corroído a confiança e o amor que tinham por vós.
Bom, “Eu não tinha a intenção,” muitas vezes não importa, quando estais a sentir-vos magoados. Devido a que a mágoa leve tempo a sarar, é porventura uma das emoções mais devastadoras com que podereis brincar. Não devíeis evitar senti-la, por ser aí que se torna devastadora. Devíeis saná-la e libertá-la tão prontamente quanto possível. E certamente não devem experimentá-la na manipulação que usam com as pessoas nem para controlar outros. 

Na verdade não é aceitável nem é sugerido que alguma vez tenteis controlar os outros, mas se o fizerem, por favor, não o façam com a dor, com a mágoa, por estarem a criar e a estabelecer circunstâncias com que não estais completamente seguros de querer lidar. Estareis a brincar com uma mercadoria muito perigosa. Mais perigosa do que podereis perceber. E o facto de o desconhecerdes não reduz o perigo que comporta.

A dor, devido ao tempo que envolve, consiste numa emoção física. Assim que passais além do plano físico onde não existe tempo, a dor não tem existência. Mas encontrais-vos no físico, e como tal, enquanto estiverem no plano físico, precisareis lidar com essa dor. Precisais aprender a tratar dela e precisais aprender a libertá-la. Existem várias razões para o facto de ainda não o terem feito. Por que razão não a sarais e libertais de forma automática como uma função do ser? Uma das razões é a de que muitos de vós usam a dor que obtivestes ao longo dos anos como um tipo qualquer de permissão especial, como uma passagem para saírdes por aí a fazer coisas por que de outro modo deveríeis ser responsáveis.

Desculpas e sem dúvida recompensas – se mantiverdes a dor, quer seja ou não real, podereis certamente dar explicações e desculpar-vos por evitardes uma grande quantidade de responsabilidade, uma grande quantidade de êxito e uma grande quantidade de felicidade. Certamente que podeis manter as mágoas de modo a não terdes que confiar no amor, se tiverdes medo da intimidade, ou se vos sentirdes irritados e tiverdes vontade de castigar; podereis justificar tais castigos com o facto de terdes sido magoados. Podeis fingir que as vossas mágoas são muito reais e mantê-las muito vivas se viverem a um passo do passado e funcionardes bastante com base no comportamento do jovem adulto que fostes. Mas grande parte da razão porque as pessoas não saram a dor que sentem e a não libertam deve-se ao facto de não saberem como. Jamais souberam o quão perigosa é, e por se afigurar como uma pequena mágoa que suplantarão, e de facto com o tempo conseguem-no – mas a que custo? Estais certos de estar dispostos a pagar tal preço?

Assim, grande parte da razão por que não trataram da mágoa que sentem, deve-se à ignorância. E se tivéssemos que o definir em duas razões - por um lado, por a quererdes usar para controlar e manipular; e por outro lado, por serem ignorantes do perigo que envolve, e ignorarem o processo e a técnica da cura e da libertação dela. Assim, como é que o conseguis? A primeira coisa que têm que fazer é decidir se será uma dor real, ou se será alguma outra coisa disfarçada de dor. Esse é porventura o passo mais importante, entendem, porque muitas vezes quando têm medo da raiva – e muita gente que se sente aterrada com a expressão da raiva chamar-lhe-á, em vez disso, dor; e se tentardes sentir ou libertar a dor quando na verdade se trata de raiva, ireis passar por grandes dificuldades, por nada ocorrer. Se se tratar efectivamente da raiva que precisais libertar e não dor, já tereis tratado dela ao redefini-la adequadamente. Não é verdadeiramente dor mas uma outra emoção qualquer, como a solidão, que também é algo em relação ao que – por as pessoas terem tanto medo da solidão – muitas vezes chamam de dor, ou seja, muitas vezes chamam dor à solidão que sentem. “Ah, sinto-me tão magoada que nem sei que dizer.” Porquê? Por se afeiçoar como coisa assustadora admitir que o que na verdade representa é solidão.

Muitas vezes haveis de vos sentir envergonhados e rejeitados e humilhados e podeis, em resultado disso sentir-vos sinceramente magoados. Mas noutras alturas haveis de reclamar estar magoados quando na verdade não estais, por não quererem confessar essa rejeição e humilhação particular, etc. E também haverá alturas em que vos referireis ao sentimento que tereis como mágoa, quando o que na verdade quereis dizer é que estais errados. E para muitos de vós, estar errados é de certo modo a pior coisa que possivelmente poderá acontecer; tendes que ter razão o tempo todo. 


E quando se vêm, confrontados com uma situação em que estão errados, torna-se de tal modo difícil admitir isso, e admiti-lo parece-vos de tal modo doloroso, que em vez de admitirem que tudo quanto ocorre se deve ao facto de estarem errados e de tudo e de sentirem dificuldade em enfrentarem essa dor. E atrevemo-nos a afirmar -que não poderão curar a dor nem libertá-la se não for uma dor real. Assim, precisam decidir: “Será este sentimento que rotulo de mágoa verdadeiramente dor, ou será uma outra coisa qualquer que estou a disfarçar?” Se for outra coisa qualquer, então descartai a dor e descobri do que se trata, e continuai a libertar isso, certamente. Se for dor, então admiti-o e percebei-o. 


Como saber? Bom, basicamente poderão saber que é mágoa se de facto em resultado do sentimento, a confiança e o amor que sentíeis tiverem sido sinceramente corroídos. Se, em resultado do sentimento, a vossa identidade, a auto-estima, o amor-próprio, a autoconfiança e a dignidade própria tiverem sido dilaceradas. Se na verdade sentirem com se tivessem sido enganados no campo do crescimento, ou algo que seja um pouco mais difícil de determinar, e se envolver uma ferida que possais averiguar necessitar de tempo para sarar – não tempo para manipularem, nem tempo para se assenhorarem, tempo para serem vítimas, mas tempo para curar.


Muito bem, vamos supor, a título do objectivo desta gravação, que o investigastes de verdade e que descobristes que se trata efectivamente de mágoa. Segundo passo: senti a dor por completo, e o que queremos dizer com isso é que vos afasteis por uns vinte minutos para sentirem tudo e de uma forma ousada e inexorável toda a mágoa. E com isso queremos referir-nos ao choro, rolar pelo chão, rastejar, gritar e dar berros, bater no rosto, fazer o que quer que façais – e para alguns quer mesmo dizer sentar-se silenciosamente e sentir simplesmente a dor, sentir os danos, sentir a angústia da aflição. Mas não façam mais nada durante esses vinte minutos, não deixem que a vossa mente vagueie rumo a mais nada. Não vos volteis para a vingança, nem para a forma como irão utilizar isso, nem para o: “Oh, pobre de mim, não será de lamentar que me sinta tão magoado?” 


Sintam simplesmente a mágoa por completo; usai a implacabilidade que vos caracteriza para vos focardes, para vos concentrares; usai a vossa vontade para sentirem unicamente – UNICAMENTE – a mágoa durante vinte minutos. Agora; aqueles de vós que estão perpetuamente a sentir-se magoados, e que usam a mágoa como desculpa para a razão de não crescerem, ser felizes ou bem-sucedidos, esses vão querer ter a tendência de dizer: “Oh, não, eu não consigo deixar-me sentir; eu sou incapaz de a sentir durante vinte minutos.” Não! Sois capazes de a sentir durante vinte e trinta anos; sois capazes de a usar e de a evocar sempre que vos apetece, então pelos céus, sois capazes de a sentir durante vinte minutos!


Se se sentirem legitimamente magoados não vos será difícil senti-la durante vinte minutos. E não lhes será difícil focar-se apenas na mágoa, sem deixar que os restantes complexos de pensamentos se intrometam. Sintam-na durante vinte sólidos minutos. E quando o vosso relógio disser ter chegado a altura, passei vinte minutos a relaxar, e fazei tudo o que fazeis para relaxar o corpo, da cabeça aos pés. Se for preciso entrar na banheira para relaxar, tudo bem, façam isso. Se tiverem que pôr os pés agasalhados com uma manta macia façam isso. Se tiver que ser dar uma caminhada suave cedo pela manhã ou ao entardecer, então façam-no. Façam o que for preciso para relaxarem e pensar unicamente no relaxamento – tanto no relaxamento corporal como emocional e façam-no durante vinte minutos. Por isso não se aventurem muito por fora; dai um passeio de vinte minutos se for preciso. Fazei o que quer que seja para vos relaxardes exclusiva e totalmente, tanto física como emocionalmente de uma forma impecável, durante vinte minutos. E quando o vosso relógio assinalar, aí fazei mais dez minutos, desta vez para sentirem a dor novamente. Sentir exclusivamente a dor e permitir-se senti-la na totalidade e de forma tão completa quanto possível, só que desta vez apenas por dez minutos; após os quais sugerimos que vos sentireis bem e vos detereis e vos envolvereis em bons pensamentos e bons tempos, etc., dar continuidade ao resto da vossa vida, etc. Para não terem que arrastar esse período de vinte minutos que excede os vinte minutos, perfazendo assim um total de vinte minutos de dor, vinte minutos de relaxamento e dez minutos de dor, constitui o segundo passo da cura ou libertação a mágoa.


O terceiro passo, consta da compreensão – e isto inicialmente poderá revelar-se um tanto difícil de conceptualizar, mas assim que efectivardes o processo compreendê-lo-ão com uma maior clareza – compreender que para realmente sentirem mágoa, têm que deixar que a mágoa penetre. O vosso sistema corporal toma conta dele próprio, entendem; possui as defesas que ergue, anticorpos e toda a sorte de coisas dessas. Em termos físicos, e por si só, o corpo será completamente saudável e não contrairá qualquer doença nem distúrbios seja de que tipo for, e mostrar-se-á “perfeito”. Mas devido a que exerçam influência sobre o vosso organismo, e essa influência lhe cause impacto, muitas vezes criais doenças e todo o tipo de disfunções no sistema corporal.


Bem, o corpo emocional, de forma similar, uma vez deixado a seu próprio cargo, apresentar-se-á de uma forma totalmente saudável, e expressará a raiva que sente de uma forma límpida e clara; expressará a mágoa que contém, e jamais manipulará, e como tal jamais provocará mágoa, mas expressará de uma forma sincera qualquer mágoa que possa conter de uma forma limpa e clara e pôr-lhe-á fim. O corpo emocional funciona de forma “perfeita” por si só, mas devido ao vosso livre arbítrio de que gozais causa influência, pode sofrer determinadas enfermidades e fraquezas. Mas, para permitirem que a mágoa se estabeleça, ela tem que proceder de uma parte qualquer. Assim, se conseguirem descobrir neste terceiro passo, de onde estareis a deixar que ela proceda, então conseguireis fazer alguma coisa para a curar e reparar com uma maior rapidez. O que sugerimos que fizessem foi que depois de terem sentido a mágoa por vinte minutos, se dispusessem a relaxar durante mais vinte minutos e passassem mais dez minutos adicionais, etc., o que fareis a seguir a isso é sair da mágoa e passar para a análise a tentar descobrir de onde estarão a deixar que proceda. E conseguem fazer isso de certa forma passando a vossa vida em revista. Regredindo no tempo, porventura de uma forma meditativa, ou tão só por um exercício de memória, e passar dos zero anos até à vossa idade actual e ver onde foi que deixastes entrar a mágoa antes, e ver qual dos períodos terá sido o mais significativo. Onde reside a vulnerabilidade do sistema emocional que permite que a mágoa penetre nele? Talvez tenha sido um incidente que tenhais tido aos três ou cinco anos, ou dez, ou quinze; talvez tenha sido uma série de pequenos incidentes que os tenha levado a uma crença particular sobre a mágoa, ou a uma crença particular em relação à vossa vida, ou ao mundo em que viveis. Talvez tenha sido qualquer coisa que tenha ocorrido na vossa adolescência, etc., mas existe um incidente ou uma série de incidentes que tenham produzido uma experiência particular em relação á qual mantêm essa crença.

Sem comentários:

Enviar um comentário